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domingo, novembro 19, 2017

A pesporrência de Clara Ferreira Alves.
Mais do que me apetecer debater as notícias de que tomei conhecimento na cabeleireira ou querer saber porque é que não há duas impressões digitais iguais ou porque é que acordo todos os dias com a mesma alma dentro de mim, o que eu gostava mesmo de saber é se há alguém à superfície da Terra que ainda tenha pachorra para aturar a Clara Ferreira Alves


O meu sábado foi bem preenchido de manhã à noite. Não vi televisão nem ouvi notícias. Espreitei agora as notícias e dá-me ideia que nada de relevo.

De manhã fui à cabeleireira. Já não ia desde o verão. Até há pouco tempo não ia. Depois ganhei-lhe o gosto. Mas a coisa há-de ser espaçada. No entanto, quando lá estou, gosto. Um mundo paralelo. As conversas que ouço... O que percebo do que falam...

Hoje, uma veio lá de dentro toda gira. E elas a gabarem-lhe as sobrancelhas. Bem desenhadas. Pensei: Terá ido arranjar as sobrancelhas? Depilá-las...? Mas eis que a que me tratava do cabelo lhe perguntou: Então e doeu alguma coisa...? Ao que a dona das ditas disse: Não. Só no fim, quando a anestesia estava a passar... Mas nada de mais... E aí eu pensei: Anestesia..? Mas num cabeleireiro dão anestesias...? E anestesia para arrancar pelos das sobrancelhas...? Que mariquice...

Agora cá em casa, com as meninas, comentei. Uma disse: Devia ser tatuagem. E outra: Deve ser aquilo a que se chama microblading.

Nunca tinha ouvido falar em tal coisa. Tatuar sobrancelhas. Microblading. Fui googlar. É mesmo. 

Depois uma jovem falava com a especialista em nails. Falavam em desenhos, em cores, em brilhos. Gosto particularmente destas conversas. Rosa brilhante, metade de cada côr, fúcsia com estrelas, azul mar, numas, espuma brilhante, noutras. Depois ouço o conselho: Eu, se fosse a si, escolhia bailarinas. Silêncio. A cliente a consultar o catálogo. Depois: Sim, gosto. Bailarinas!. Relatei à mesa de jantar. Uma das meninas estranhou. Eu imaginei minúsculas bailarinas desenhadas artisticamente. Mas outra menina explicou: Bailarinas tem a ver com o feitio da unha, comprida e a ir em bico mas a ponta a direito, como os sapatos das bailarinas em pontas.

Outra novidade absoluta. Também já fui conferir. Não. A mim não me convencem.

Aprendo também imenso com as revistas. Mal chego, antes de me sentar, vou abastecer-me.

Partilho convosco algumas coisas relevantes que colhi.

  • Que o Manuel Maria Carrilho perdeu num processo contra a Maya e creio que contra o Graciano que terão dito qualquer coisa que não lhe agradou, 

  • que a Luciana Abreu também anda na justiça com o pai, e que está grávida de duas meninas e que no outro dia foi ao hospital mas foram todos muito simpáticos com ela,

  • que meio mundo se separou do outro meio mundo e que parte desse meio mundo se troca e destroca com outra parte. 
  • E que uns, apesar de destrocados, continuam a apoiar os outros e que alguns nem por isso, especialmente quando há filhos envolvidos. 
  • E que uns estão bem sozinhos, outros estão apaixonados, outros com vontade de terem filhos 
  • E outros sem essa necessidade já que gostam muito dos sobrinhos. 
  • E que há bloggers que são famosas por serem bloggers e que as mais famosas são as que falam da sua vida de mães com filhos
  • E que há actrizes de novelas que têm blog e uma até diz que o dela é ela que o escreve mas que há outros que são pura fancaria escritos por fantasmas.
  • E que há bloggers que lançam livros e vão com a família toda atrás pois a família é a matéria do blog.

  • E que a Jessica Athaíde é filha de uma relação extra-conjugal (quem é a Jessica Athayde...? -- Esclareço: é a menina aqui ao lado, aquela que, há tempos, incendiou as redes sociais com a sua perna grossa e a sua barriguinha algo proeminente) 

  • Vi também que o Presidente Marcelo apoiou a Cristina Ferreira com a sua revista Cristina e que ela usa muito os ensinamentos dele.


Mas não reparei na idade das revistas pelo que não sei bem qual a linha do tempo das notícias. Mas isso não interessa já que é tudo demasiado extraordinário para que a cronologia possa atrapalhar.

Agora, a noite bem adentrada, aqui na sala, em sossego -- já sem jogos de futebol, a rapaziada em grandes remates e grandes defesas, sem as gracinhas do bebé, já a querer levantar-se, e a mana amuada porque a tia a mandou assoar-se -- reclinei-me no sofá e pus-me a cirandar pelos vídeos que o youtube me recomenda.

Um agradou-me. Neil deGrasse Tyson and popstar Katy Perry discuss the science of human individuality and uniqueness. Uma conversa com piada. Também partilho.


E, estando eu por aqui, nesta na suave preguiçota, eis que, inadvertidamente, sofro a invasão do grupo dos déjà-vu. Dizem-se, repetem-se, contradizem-se, não acrescentam, patinam, maçam. Houve um tempo em que havia alguma frescura naquilo. Nos primórdios. Agora o Eixo do Mal é mais um daqueles programas onde os papagaios vão papaguear o que ouviram a outros iguais a eles. Há uma série de programas do género. E eu já não suporto nenhum. Se, em tempos, alguns deles tiveram ideias genuínas e inovadoras naquelas cabeças, tantos programas depois, já estão esgotados. Mas insuportável mesmo, mas uma coisa já de pele, alergia mesmo, é o que sinto com aquela convencida arrepelada, aquela arrogantezeca. Não se aguenta. A forma como ela fala. Sobre qualquer assunto, mesmo quando notoriamente não é tema sobre o qual tenha competência, ela põe o se ar mais irritantemente blasé para começar: 'Eu explico.' E avança, desfiando lugar comum atrás de lugar comum, como se estivesse a explicar alguma coisa. Intolerável. Uma maçadora emproada armada em maria-cagona, toda prosa. Zapping com ela.


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E agora zapping comigo.

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sexta-feira, fevereiro 24, 2017

Dindinha e eu.
Sem Tom.





Na outra noite mal dormi. Estive a tentar recuperar algumas das muitas horas de conversação no messenger com aquele a quem conheço por H. Lobo, nome que acreditei ser o verdadeiro e a quem, por brincadeira, tratava por Lobo-Lobinho. Costumo dizer que não frequento o facebook. É mentira. Até há uns dois dias, em segredo, era para essas estepes que eu me esgueirava para lá o encontrar. Estive a rever as conversas desde o início. Pasmei. Há quanto tempo. Desafinidades aparentes, afinidades crescentes, antipatias vulcânicas, empatias incontroláveis. Aquilo dos opostos se atraírem. Aquilo das afinidades electivas. Aquilo dos beaux esprits. E discussões homéricas, dramas inconcebíveis, reconciliações indesculpáveis. Aquilo que não se explica. Aquilo que não se compreende. Aquilo de que não se consegue fugir.

De manhã, estava ainda incrédula. Nenhum indício palpável e, no entanto, a certeza absoluta. A certeza absoluta.

Durante todo o dia tive vontade de ir para bem longe. Receio. Sem saber o que fazer, ensaiei mil possibilidades. Perguntar-lhe se estou certa? Não. Dirá que não. Dizer-lhe, com assertividade, o que descobri? Dirá que não. Fingir que nada sei até que um dia a evidência lhe caia no colo? Talvez. E até lá? Fingir? E em relação a Dindinha? Contar-lhe? Mas contar-lhe para quê? Melhor calar. Ou não? 

Habitualmente tão decidida, com isto fiquei francamente abalada. Mal almocei, mal consegui concentrar-me ao longo do dia.

Então, eis que, de tarde, recebo uma* sms de Dindinha: 'Prima, estou a organizar o lançamento da revista. Coisa em grande. Preciso do seu conselho para saber o que vestir. Posso passar lá por casa depois de jantar?'. Pensei que era arriscado: e se o Lobo aparecesse? Mas ela não me deu tempo a desatar o nó. 'Lá para as oito e tal, nove, passo'.

Apareceu-me com um grande saco ao ombro. Enquanto passava por mim, a caminho da sala, disse: 'Quer acreditar que se não fosse eu insistir, o estúpido não dizia nada? Liguei-lhe, não me atendeu. Enviei uma sms e olhe, prima, olhe bem o que aquele estúpido escreveu...' e procurou no telemóvel. Depois mostrou-me enquanto lia: 'Tenho um trabalho para acabar. Pede à tua prima que te leve ao parque infantil'. Respondi-lhe logo 'Porque é que és tão parvo?'. Respondeu-me com um emoji de um diabo a rir. Completamente estúpido. Não acha, prima?'

Pensei cá para mim: 'Típico'. Mas não disse nada. Limitei-me a perguntar: 'Que conselho queres, então?'.

Atirou-se para o sofá: 'É assim, prima. O grande dia vai ser amanhã. Estamos no carnaval. Lembrámo-nos de, para a coisa ter impacto, a equipa estar mascarada. Vamos pedir aos convidados para também irem mascarados. Depois fazemos um baile. De máscaras. O que diz, prima?'

Achei bem. Então Dindinha pegou no saco e disse: 'Tenho aqui uns fatos. Queria a sua opinião, prima'.

Despiu-se. Foi para o meu quarto. Passado um bocado apareceu. Linda.


Tinha apanhado o cabelo com uma tiara florida, pintado os lábios, um rouge bem rouge, um vestido de renda. Disse. 'Depois punha uma máscara, claro'.

Logo, saltitante, voltou ao quarto. Passado um bocado reapareceu. Cabelos soltos, fulgurante. Maquilhagem natural. Uma borboleta radiosa, um anjo colorido. Olhando para ver o meu espanto, acrescentou: 'E punha a máscara.'.

Era Dindinha que ali estava, não Fred. Eu olhava-a com admiração. Quanta beleza. Quanta.


'O que me diz, prima?'

Eu estava sem palavras. Pensei no Lobo, no Lobo safado, com esta menina nos braços. Dindinha nos braços de Tom. Como ele se deverá sentir viril com uma menina com tão doces curvas, tão suave pele, tão gostosa boca. Imagino.

Com alguma compaixão, pensei em mim. Um corpo já com sinais do tempo, sem este viço, sem esta absoluta elegância, sem a carnalidade adolescente que eu aqui via. Pensei que não queria intrometer-me no caminho deles. O corpo de Dindinha é mais merecedor que o meu, pobre meu - pensei.

'Qual escolhia, prima?'.

Eu disse: 'Tão bonita, Dindinha, tudo te faz ainda mais bonita, menina'.

Ela despiu-se, ficou apenas em roupa interior. Olhou pela janela. Outra vez aquela melancolia. 'Nada, prima. Tão bonita o quê. Pois não vê que ninguém me quer? Veja o Tom. Malvado, malvado. Eu sempre disposta às suas exibições e ele trata-me assim.'

'Exibições...?'

'É um narcisista, prima. Tem a mania. Arma-se em mestre. Gosta de me tratar como se eu fosse uma pupila. Acha-se personagem de livro. Deixo, prima. Coitado. Já não é novo. Já não vai ter muito mais hipóteses de se armar. Tolero. Finjo. Finjo que aprendo, finjo que gosto. Coitado. E, volta e meia, imagine, na horinha do bem-bom põe-se com poesia. Não há saco. Mas tenho pena, finjo que gosto'. E olhava a janela, como se triste.

Depois continuou. 'Gosto é de meninos malandros, fogosos, que a gente não tem tempo nem de pensar, nem de soltar um ai'. Suspirou. 'Já viu, prima, eu a querer folgar e ele querendo que eu seja personagem de livro? Já imaginou?'

Sorri. Talvez alguma pena. Dele que não sabe que ela finge, dela que, com tanta beleza, não precisava de fingir.

Continuou. 'Mas não sei o que tenho, prima, parece que têm medo de mim. Parece que gostam mas depois ficam a medo, não sei se têm medo de não cumprir. Não sei o que há com os homens e comigo'

Depois tirou o soutien, sentou-se na minha cama. Disse-lhe 'Tapa o corpo, Dindinha, está frio'.

Tapou-se com a minha almofada. Mas teve um arrepio: 'A almofada está fria. Venha aqui me aquecer, prima.'


Sentei-me ao lado dela, na cama. Encostou-se a mim: 'Diz, prima, há alguma coisa de errado comigo?'.

Fiz-lhe uma festa no cabelo. 'Que errado, menina? Está tudo tão certo.'

Continuei, os meus dedos passando por entre os seus cabelos.

'Cheira bem o teu cabelo, Dindinha'.

Ela disse: 'Gosta? Cheire, prima, cheire.' 

Cheirei. Um perfume bom, morno. Carnal, inocente.

Entretanto, pegou nos meus colares de pérolas, e colocou-mos. Depois despiu-me o casaquinho de lã e pôs-se a brincar com os colares, frios, frios, fê-los escorregar ao longo da minha pele, fez-me arrepiar. Desmanchou-me, então, o cabelo. Foi buscar o lápis dos olhos, pôs-se de joelhos em cima da cama, pintou-me as pálpebras.  Depois disse: 'Quando eu for grande quero ser como a prima, misteriosa'. Olhou para mim: 'Tem muitos segredos, não tem, prima?'

E eu, olhando-a: 'Eu, Dindinha? Eu não, Dindinha.'

Mas ela teimou: 'Os seus olhos estão cheios de mistério. Atraem como abismos, prima'. 

Insisti: 'Que é isso, menina? Não tenho segredos.  Com cada coisa, Dindinha.'

'Diz que não mas deixe que lhe diga, prima: tem olhos de pecado, prima, tem mesmo'. Saltou de novo, foi buscar loção perfumada.

Disse: 'Mas deixe, prima, agora deite-se, esqueça o resto enquanto pensa no disfarce de amanhã. Já pensou? Poder fazer o que quiser sem ninguém saber quem é, já viu, prima...? Liberdade mais boa. Pense nisso, prima. Ou não pense em nada. Vou fazer-lhe uma massagem. Descontraia-se. Tem os músculos tão tensos, prima. Vai ver, prima, vai ver, as minhas mãos são gatos macios, tão cheias de mistérios como os seus olhos. Feche os olhos. Sinta. Deixe-se ir, prima.'

Deixei.


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Lá em cima era Una Preghiera - Elena Ballario

Aqui abaixo uma canção que não tem nada a ver.
Como é bom de ver, está aqui apenas porque é boa para o day after. Para despertar, quero eu dizer.

I kissed a girl - Kate Perry


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Este é o sexto episódio do folhetim Dindinha. Diria La Palice que vem no seguimento do quinto.
De cada um poderão ser alcançados os precedentes.

Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma gloriosa sexta-feira.

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segunda-feira, janeiro 16, 2017

Amanhã





Por estes dias terei que me deitar mais cedo. Tenho cá uns queridos habitantes que alvorecem cedo e para os quais quero estar disponível caso seja necessário. Acresce que hoje estou com uma dor de cabeça que me tolda as mãos. Isso a somar à dor de garganta que já está reduzida mas que ainda existe. Podia tomar um comprimido mas já basta quando são indispensáveis. Estou desde o início da tarde a ver se passa por si mas não. Também tive de tarde a casa cheia e, como sempre, o mais pequeno fez uma extraordinária performance, alto e bom som. Tirando ele, também os outros não pouparam nos decibéis. Ora barulho e confusão é do melhor que há para quem está com uma estúpida enxaqueca.

Não me queixo e tento disfarçar para não quebrar a alegria dos demais mas o incómodo foi avançando em crescendo.


Agora, quando peguei no computador, de cada vez que escrevia qualquer coisa aparecia-me uma voz a dizer, em voz alta, o que eu estava a fazer. Se eu escolhia um endereço, a voz lia, letra por letra, o endereço. Tinha sido o mais novo que, durante a escassa fracção de tempo em que mexeu no computador, não estando eu aqui, instalou a funcionalidade de 'narrador' que eu nem sabia que existia. O pior foi dar com a maneira de fazer calar a senhora. Valeu-me a mãe do pequeno génio que lá conseguiu dispensar a linguaruda.

Agora o computador está estranho, muito lento, com um delay entre o momento em que digito e o momento em que aparece¨m as letras no ecrã. Deve ter mexido noutra coisa qualquer. O poder de distruição de uma criança de quatro anos é incomensurável, Já o primo, com uns três anos, uma vez, num ápice, apagou-me do telemóvel os contactos, as fotografias, as mensagens: tudo. 

Portanto, estou assim: sem condições.


Não sei de notícias. Não vi o telejornal nem prestei atenção a Marques Mendes que, por acaso, até estava em fundo enquanto jantávamos. Mas vi agora no DN que Marques Mendes, o garganta funda do regime, contou que Passos Coelho convidou José Euardo Moniz para canditado por Lisboa. Não sei a que propósito, deve ser por ser uma cara conhecida. Na volta, se o marido da Manela der uma nega, o láparo avança para o Goucha. E, se o Goucha falhar, a Teresa Guilherme. Tudo gente na qual o pessoal laranja se há-de rever fortemente. Marques Mendes terá dado a entender que o Passos é um catavento mas eu acho que não é isso, inclino-me para que seja simplesmente destituído. E não digo de quê para não acharem que é embirração minha, na volta ainda fruto da dor de cabeça. 


Mas a sério. Uma pobreza franciscana de ideias, este PSD. Nem se consegue dizer muito mais sobre isto. Dá dó.


Leio também que nos States a perplexidade perante a aleatoriedade de reacções do Trump vai alastrando. Gente mais experiente aconselha-o a deixar-de de tweets destemperados ou a medir melhor o que diz ou a forma como destrata a comunicação social que não lhe agrada. E leio que os europeus estão preocupados não vá aquele maluco ainda arranjar um trinta e um e desencadear-se, para aí uma nova guerra.

Não é abstrusa esta preocupação já que uma coisa é a gente saber que em lugares relevantes haverá sempre alguém mais inteligente ou ponderado que evitará que um maluco qualquer carregue no botão errado -- e outra coisa é os botões perigosos estarem cada vez mais nas mãos de gente doida.

Custa perceber como tantos séculos de civilização descambaram nisto que se vê: essa mole humana que dá pelo nome de povo parece ter ganho aversão às elites (leia-se, aos melhores) e, quando vai votar, escolhe os mais básicos, os mais impreparados, os que se apresentam como palhaços, como biltres, como canalhas.

Dir-se-á que foram os tais melhores que estragaram tudo. Contraporei que, na minha modesta opinião, não foi bem isso. As elites tendem a preocupar-se com assuntos supostamente importantes e, para além disso, tendem a ser generosas e tolerantes para com os mais fracos. E o que me parece que aconteceu foi que não prestaram garnde atenção ao populismo que tem vindo a propagar-se e, não apenas isso, como deixaram que esses tais demagodos fáceis pusessem o pé à porta, que entrassem, que se fossem instalando. Ora lutar contra muitos medíocres instalados é complicado. Quem não é medíocre tem dificuldade em baixar-se para se pôr ao nível dos que o são. E a mediocridade e o perigo que daí vem alastra, quase sem resistência, como uma mancha de óleo imparável.


Felizmente ainda há quem se levante e denuncie, alerte, informe. Pode dizer-se que é chorar sobre leite derramado, chover no molhado, trancas à porta depois da casa arrombada. Pois. Mas mais vale isso do que nada fazer.

Kate Perry produziu um vídeo que não passa indiferente e que chama a atenção para os riscos que aí vêm caso o maluco do Trump ponha em marcha o seu desvairado plano de acções.

Se o fizer, o mundo vai continuar a regredir mas a regredir para onde pensávamos serem tempos mortos e enterrados.

Quando eu era jovem e assistia à integração na União Europeia com a expectativa de quem achava estar a entrar num mundo mais progressita e mais moderno, pensava que o meu futuro ia ser um mar de rosas e que o dos meus filhos seria a terra do leite e do mel e que os filhos dos meus filhos viveriam diariamente  a possibilidade de cumprirem a sua vocação, de construirem a sua vida em prosperidade e segurança.

O amanhã era, então, para mim a promessa de um dia sempre melhor.

Gostava muito de voltar a ter essa esperança inocente e despreocupada. Gostava mesmo. E gostava de saber o que fazer para lutar por isso.


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E abaixo poderão ver o vídeo de que acima falei.

IS HISTORY REPEATING ITSELF?


President-elect Donald Trump promises a registry for all Muslim-Americans. This heart-rendering PSA from executive producer Katy Perry (via Mashable) draws the parallels between what Trump plans to do, and horrific national tragedy of Japanese internment camps.


Directed by Japanese-Australian filmmaker Aya Tanimura, it tells the story of 89-year-old Haru Kuromiya. Spoiler alert: In the end, there is a reveal that although Kuromiya's story is true, she's being played in the PSA by actress Hina Khan, in prosthetics.

Director Tanimura told the LA Times that they cast the Pakistani-born Muslim actress to draw the clear connection between what happened then, and what could very well happen again. She also took to Twitter to thank Katy Perry, and remind everyone not to normalize what is happening in this country.




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As fotografias que usei ao longo do texto são da autoria do fotógrafo francês Thierry Bornier.

A música lá em cima é Amanhã da União das Tribos.


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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa semana a começar já por esta segunda-feira.

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domingo, dezembro 13, 2015

Natal: mixed feelings e etc.





Chega esta altura do ano e eu começo com vontade de procrastinar. A família é grande e mesmo que se convencione não dar muita coisa, a verdade é que é muita gente.

Para fazer compras, em cada lugar onde entro, está calor, há muita gente, se vou comprar roupa não há os números que quero ou as cores de que gosto, se vou comprar livros não encontro os que quero, se vou à procura de um empregado não os vejo ou tenho que me pôr na fila à espera da minha vez para fazer a pergunta, há muita gente nas caixas, se quero embalagens ou papel para embrulhar terei que ir para outro balcão, se me toca o telemóvel não o encontro dentro da carteira, no fim estou carregada, esbaforida, saturada - tudo uma canseira. 

Para além do mais, agora, para além de comprar os presentes que eu vou dar, tenho também que comprar os que a minha mãe vai dar porque ela diz que já não tem paciência para andar de loja em loja nem lhe apetece andar com carregos. Percebo-a, oh se a percebo.

O chão da sala da lareira já está cheio de sacos, os meus e os dela, e ainda faltam vários. E agora não sei quando vou ter tempo ou pachorra para os separar, os embrulhar, os organizar por destinatário, os esconder. Se este domingo vierem cá para casa, vai ser o caos pois terei que dar sumiço a tudo ao calhas nem sei para onde. 

Acresce que o meu marido me faz recomendações a toda a hora: que eu deveria arrumar não sei o quê, que eu deveria ir já fazendo não sei o quê e que é melhor começar já a comprar alguns ingredientes para o jantar não vá depois não haver - e eu penso em tudo o que tenho que fazer ou o que devia fazer e é tanta coisa que só me apetece não fazer nada. Ou, então, meter dois ou três dias de férias para me ocupar de tanta coisa, ou, melhor ainda, aproveitar esses dias de férias e fugir para espanha. 

Gosto desta altura do ano, que não se pense que não, e gosto quando tenho luzinhas a piscar em volta da lareira, na árvore de natal, em volta do big espelho que está por cima do aparador na sala de jantar, e a mesa de natal, toda aberta, posta para muita gente, e velas acesas, e toda a gente sorridente e os miúdos todos felizes, e a alegria deles a verem os brinquedos, e todo aquele ambiente de festa. Gosto. Gosto mesmo.

Mas esta coisa de ter que comprar os presentes é que me maça, cansa-me esta labuta.

Depois tento colocar-me em perspectiva e acho que estou a exagerar.
Um conhecido meu tem oito irmãos, todos têm filhos, em média três cada um, e os irmãos mais velhos já têm netos. Pelo Natal juntam-se todos em casa da mãe. E eu, quando ouço isto, solidarizo-me mentalmente com a pobre senhora - o que será ter tamanha carga de gente em casa e todos tão próximos, tanto filho, tanto neto e bisneto? Como é que se gere uma coisa destas? Sentam-se onde? No chão? Pergunto e ele diz que não, que corre bem, dividem-se por idades, os miúdos comem numa mesa grande que montam não sei onde, os adolescentes juntam-se e comem como num acampamento numa outra divisão, os mais velhos fazem nem sei como. Imagino a barafunda que é naquela casa. Ele diz que não. Conheço um outro, família igualmente numerosa: diz que a única solução neste momento é alugarem uma sala de hotel - que é mais impessoal mas que já não cabem todos numa casa normal. 
Por isso, quando penso nisto, acho que estou a armar-me em dondoca delicodoce porque eu, com um número tão comportável de pessoas próximas, para que estou para aqui a vitimizar-me?
Acho que, se calhar a diferença é que nestes casos, muitas das mulheres não trabalham e têm, ainda por cima, empregadas a tempo inteiro, enquanto eu pouco tempo livre tenho.

Seja como for, vendo bem, isto meu não é problema, o que é é excesso de frescura. Tanta gente que não tem família, que não tem trabalho, que não tem dinheiro - essas pessoas, sim, têm razão para se sentirem tristes nesta altura do ano. Ou os que estão doentes, com medo, ou os que perderam pessoas queridas há pouco tempo. Nestas alturas, as ausências pesam mais, as inseguranças e as fragilidades são mais agudas.

Por isso, o que é isto meu comparado com o que sentem essas pessoas? Mais valia é que eu estivesse calada. Se eu, ao menos, soubesse como confortar as pessoas que gostavam de sentir o calor, a alegria, o afecto que se respira nestas reuniões familiares em que há crianças e uma vivacidade contagiante. Mas não sei, acho que não sei - nem sei se é possível.


Portanto, pensando melhor, quando agora tiver que me entregar à maçadora tarefa de organizar os presentes que tenho ali distribuídos por sacos que estão espalhados no chão da sala, em vez de me apetecer fugir, a ver se me lembro que devo é sentir-me agradecida - e que, para tanta, tanta gente, todos os males fossem estes.

Ou seja, vou mas é ter pensamentos menos incomodados a propósito deste lado consumista associado ao natal, e vou mas é pensar em músicas, bailados, festejos e coisas boas.



“Rejoice, exult” – John Neumeier coreografa Christmas Oratorio de Bach
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E, caso queiram ver como está tão suavemente colorido o meu heaven, onde se está sempre tão bem, onde tudo parece tão perfeito, tão longe de tudo o que é artificial, queiram, por favor, descer até ao post já aqui a seguir.
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segunda-feira, junho 01, 2015

Quando a cor do cabelo é a imagem de marca de uma mulher


Li o artigo e achei piada. De entre os dez casos citados, dois em particular despertaram a minha atenção. E também outro, embora não tanto.

É capaz de ser muito redutor dizer que a imagem de marca de Marilyn Monroe é o seu cabelo platinado. Não é apenas o cabelo. São as curvas do seu corpo, um convite a que sejam percorridas por olhares de desejo e por mãos ardentes, é o olhar semi-cerrado tão típico dos míopes e que tão facilmente se confunde com um convite velado, é a sua maneira de ser vulnerável que fazia os homens terem vontade de a proteger, é tudo, o conjunto. Mas, claro, Marilyn não seria  Marilyn sem o cabelo louro platinado que ajudava a luz a reflectir-se na sua pele fazendo parecer que emanasse luz.

E, no entanto, nem Marilyn se chamava Marilyn nem o seu cabelo era louro. Norma Jean era uma alegre morena com uma vida difícil. Depois, quando começou a dar nas vistas, pintou o cabelo de castanho claro, depois de louro normal. Apenas mais tarde o descoloriu completamente, e, inspirada em Jean Harlow, pintou-o de louro platinado.


Norma Jean, cabelos ondulados, bem escuros
Cabelo já mais claro, um louro escuro






















A sexy e vulnerável Marilyn, louríssima


Marilyn Monroe num teste de cabelo, maquilhagem e vestuário para o seu último e incompleto filme  'Something's Got to Give' em 1962.


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E, quem diz Marilyn, diz Rita Hayworth, ruiva, incendiária, toda ela um fogo que nascia na sua bela cabeleira.

E, no entanto, Rita Hayworth também não nasceu ruiva, nem sequer se chamava Rita. De facto, chamava-se Margarita Carmen Cansino e tinha o cabelo bem preto.

Mas, aos poucos, foi percebendo que o furor que lhe brotava da alma deveria ter correspondência no seu aspecto exterior e o cabelo foi sendo tingindo até se fixar na cor acobreada com que a recordamos.

Rita ainda moreníssima, o lado espanhol bem visível

Já a sexy Rita, cabelo como uma onda incendiária

Rita Hayworth, ruiva e perigosa como a Gilda que tão bem interpretou



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Já agora, para não me tomarem por pré-histórica, junto o terceiro caso, por sinal um caso muito actual. 

Kate Perry, como é bem sabido, tem cabelo bem preto -- e, no entanto, por acaso nasceu Katheryn Elizabeth Hudson (em 1984) e bem lourinha. 

Entretanto já usou cabelo azul, verde, cor-de-rosa, multicolorido, etc. Mas parece ter sido no preto-asa-de-corvo que se fixou e é essa agora, sem dúvida, a sua imagem de marca.


Kate, novinha, novinha, lourinha, lourinha

Kate Perry, a mulher multicor


Kate Perry, o seu bem conhecido cabelo ultra negro -- e umas hot and long legs

Roar


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Moral da história: que nenhuma mulher deixe de encontrar a sua alma ou fuja à sua imagem de marca -- uma embalagem de tinta de cabelo custa cerca de 10 euros, coisa mais em conta que o tratamento psicológico ou psiquiátrico para encontrar a sua verdadeira-eu. 

Ou seja, se nasceu loura e tem alma da maga patalógica, pois que se tinja de negro. Se nasceu castanho-sem-história e tem um coração sempre em labaredas pois que se tinja de ruivo. Se nasceu morena e boa rapariga mas sente que tem vocação para loura, pois que escolha de entre os vários tons qual o que melhor se ajusta à sua inteligência. E se é grisalha e sente dentro de si uma vontade de parecer a kittie ou uma coelhinha fofa, pois que se tinja de pink. E se tem 30 ou 40 anos mas por dentro é uma moralista, uma virgem permanentemente ofendida, ou uma chata de primeira, pois que se tinja de cinzento bem pardacento. Há para todos os gostos e é apenas uma questão de fazer corresponder o seu aspecto exterior ao que lhe vai na alma. Go for it. E, se achar que o nome também não ajuda nada, pois arranje um nick name, reinvente-se, chame-se Loura Bell em vez de Anabela, ou Nuvem Blue em vez Ana Luisa ou, mesmo, Marquesa de Astracã em vez de Cátia Silva. O que quiser, faça o que quiser -- desde que, depois, fique a sentir os chacras alinhados e a alma em sintonia com tudo o resto. Encontre-se (desde que, durante o caminho de procura, não se perca, claro).

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E eu? Eu estou bem, obrigada. 

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Permitam que vos convide a descer até ao post seguinte onde falo de um projecto fantástico, o LATA 65, uma iniciativa inteligente e criativa (e já divulgada na imprensa internacional).

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E ainda tinha para vos mostrar umas fotografias que fiz este domingo na praia com gaivotas e homens voadores mas talvez fique para amanhã que agora já vão sendo horas de ir meditar.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela semana a começar já por esta segunda-feira.
Tudo de bom para vocês, tudo, tudo.

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