Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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sexta-feira, novembro 30, 2018

Nesta altura do ano





Li, não sei onde, calculo que num dos blogs da galeria lateral, provavelmente enquanto estava no carro, presa no trânsito, alguém a queixar-se das folhas no chão num certo sítio da cidade. Mostrava fotografias de ruas pejadas de folhas e falava no perigo que é, que alguém poderia escorregar. E que a autarquia deveria varrer as ruas. Quis dar-lhe razão mas depois vacilei. A razão queria dizer que claro que as ruas deviam ser limpas de todo aquele folhedo mas... não me autorizei a tal pois a emoção puxava-me para o oposto.

Lembrei-me de uma queda brutal que dei há uma meia dúzia de anos. Tinha chovido e eu ia, com pressa, com coisas nas mãos. Virei para subir umas escadas e, nessa curva que dei, pisei uma folha molhada, presumo que já meia amolecida. Foi uma ínfima fracção de segundo. Levantei voo e aterrei violentamente de cabeça nos degraus de pedra da escada. Como tinha as mãos ocupadas, nem sequer tive o instinto de me agarrar ao corrimão. A cabeça sofreu um estrondo e eu pensei que a tinha partido. A custo levantei-me e, sabe-se lá como, consegui chegar a casa. Deitei-me na cama. Estava tonta e com uma dor tremenda na cabeça. Tinha sangue na cara mas era apenas superficial. Quando tentei levantar-me, mal consegui. Tinha tal dor nas costas e na zona pélvica que mal me mexia.

O meu marido teve que me levar às urgências no hospital. Já não me lembro bem mas acho que tinha uma micro fissura na zona da bacia e já não me lembro o quê na zona pélvica. Tive que ficar um ou dois dias em casa (ou mais? -- não me lembro, só me lembro que andei mais de um mês cheia de dores e, por vezes, ainda tenho um incómodo ali)

A forma desamparada como caí, sem tempo de reacção, batendo com a cabeça de uma maneira que a poderia ter estourado, fez-me passar a ter medo das quedas. E tudo porque pisei uma folha molhada.


Mas, por outro lado, que linda que é uma rua, uma praça, os jardins cobertos de folhas de outono, douradas, tão cheias de luz coalhada. Vejo e penso: ainda bem que ninguém as tira porque um chão coberto de folhas douradas é do mais lindo e romântico que pode haver. 
Interrogo-me: será que ver um chão coberto de amarelo e, em vez de se ficar encantado, ficar a pensar que o que ali está é um perigo, é sinal de que a idade começa a pesar? Forço-me a pensar que não, que não tem nada a ver, que é apenas um sinal de prudência. Mas não sei.
No outro dia, uma jovem colaboradora minha, falando de um colega mais velho, mais ou menos da minha idade, (mas, a sério!, parecendo bem mais velho que eu), relatava-me com a maior das espontaneidades uma conversa que tinha tido com ele: 'Já lhe disse no outro dia: ó pá, o que é ainda cá andas a fazer? E disse-lhe que eu, se fosse a ele, ia gozar a vida em vez de ainda andar aí a ter que se levantar cedo, a andar no trânsito, a aturar chatices'. Tive que lembrá-la que isso não é bem assim, que as pessoas não podem reformar-se antes da idade, quando querem. Ela olhava-me um bocado céptica, creio que sem se dar conta que poderia estar a falar de mim. Reparei como para ela, a partir de certa idade, já não faz sentido trabalhar, como se, atingido esse patamar, as pessoas já devessem ser poupadas, talvez porque mais frágeis, mais perto do fim. Não me dei por achada, até para não a atrapalhar, mas fiquei a pensar que, na realidade, chega-se a um ponto da vida em que se percebe que o tempo que falta é menos do que o que já se viveu e que, na realidade, é bom que a gente o aproveite bem.


Quando morreu a minha avó, o meu tio, filho dela, vendo-me triste, disse-me: 'No outono, cai a folha'. E eu, que associava o outono a uma estação suave, de cores douradas e rubras, um tempo de doçura e aconchego, fiquei a pensar que, na verdade, também pode ser visto como o fim do caminho, o tempo em que o fio de luz que ilumina a vida se extingue.

Mas, enfim, não vale a pena estar para aqui com estas conversas. Para cada coisa há sempre várias perspectivas para a ver e todas estarão certas. E não há fim, só há interrupção. E sempre um recomeço. Mesmo que numa outra forma, mesmo que invisível, mesmo que ninguém o perceba.


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That time of year thou mayst in me behold
When yellow leaves, or none, or few, do hang
Upon those boughs which shake against the cold,
Bare ruin'd choirs, where late the sweet birds sang.
In me thou see'st the twilight of such day
As after sunset fadeth in the west,
Which by and by black night doth take away,
Death's second self, that seals up all in rest.
In me thou see'st the glowing of such fire
That on the ashes of his youth doth lie,
As the death-bed whereon it must expire,
Consum'd with that which it was nourish'd by.
This thou perceiv'st, which makes thy love more strong,
To love that well which thou must leave ere long.




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quinta-feira, novembro 29, 2018

Desta fotografia eu podia dizer muitas coisas mas só tenho olhos para uma pessoa (mentir para quê?):
o George Clooney do Vaticano.
É que até nem sei se, por ele, eu não me convertia.


Eu nem devia fazer confissões destas em público. Nem a estas horas. A noite vai alta, é tempo de reflexão, de introversão, de rezas a pedir perdão. Não  horas para ter vir para aqui, sem qualquer contrição, desfiar pecados, confessar maus pensamentos.

Ademais, vendo-se bem, tudo na imagem apela ao decoro, ao recolhimento, à beatitute.

Mas, oh senhores, se eu me portei bem ao longo de todo o santo dia, como pretender que me mantenha reprimida e decente até ao último sopro do dia...? Não dá. Há um momento em que a gente tem que revelar o nosso verdadeiro eu, deixar sair os maus ímpetos, deixar que a alma peque à vontade, que os olhos se banhem em pecado, que os dedos desenhem as palavras mais secretas. 

É que uma pessoa, parecendo que não, é humana.

Incapaz de comentar a master class do Marcelo sobre como cortar um jornalista às postas, incapaz de me pronunciar em poucas palavras sobre a ajuda à comunicação social -- até porque não sei se há ajuda que salve a SIC ou o Expresso ou o Correio da Manhã (etc, etc) --, incapaz de comentar se o IVA das touradas está bem a 6, a 26 ou a 106% e se o senhor do PAN está bem assim ou deveria andar com um par de bandarilhas espetadas em veltro colado às costas, incapaz de me insurgir contra a cagança besuntada a azeitice do Lobo Antunes, incapaz de me pasmar com a troca de munições que grassa em tudo o que é sítio onde andam forças militares ou militarizadas (Tancos, navios, prisões), incapaz de dizer qualquer coisa que se aproveite sobre a saída do Vitório do Benfica e se a possível ressurreição de Jesus na Luz é coisa que faça ou não sentido, entrego-me a mim própria e deixo que o meu mau comportamento inato se manifeste. Que me perdoem os meus Leitores mais santos. 

Portanto. Vi a fotografia que aqui partilho e li a legenda e pensei que podia escrever uma composição com vinte linhas sobre ela e depois mostrá-la à minha meninininha linda para lhe mostrar como é. Mas a visão do belo Georg Gaenswein toldou-me o pensamento. Fiquei a olhar para ele. A imaginar como será uma pessoa confessar-se a um padre destes. A imaginar que conselhos derá um homem destes a uma mulher que vá confessar-lhe os seus mais inconfessáveis pecados. A imaginar como será ele quando toma duche. A imaginar se um padre destes será capaz de converter alguma pecadora à santidade.

Imaginações inocentes, pensamentos beatos é o que não me falta. Mas a visão deste Clooney do Vaticano leva-me por maus caminhos. Um problema, isto.


Ó pr'a ele, aqui em baixo, quando anda à civil, o manganão. Se isto não é o mais completo pedaço de mau caminho de que há memória nos caminhos da santa madre igreja...


E pronto, é isto. Vou ver se acordo para tentar ir para a cama, senão daqui a nada canta o galo e eu aqui a dormir no meio do computador e do tapete. Mas antes, esperem lá aí, vou acender uma velinha para não ter sonhos pecaminosos com o padre Georg.

Mas, antes disso, primeiro deixa cá ouvir o que ele diz a ver se ele me convence a voltar à catequese.


Amén

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E queiram continuar a descer até Marte para verem as primeiras imagens enviadas pela InSight. Muito bom.

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Notem bem: se amanhã este post tiver desaparecido saibam que se deu um milagre: o tino terá voltado a mim

As fantásticas primeiras imagens de Marte.
A InSight está em campo e o mundo assiste espantado ao que lá se passa.
Será que a nossa última fronteira foi ultrapassada?


Podia tecer várias considerações, pôr-me para aqui a divagar, lançar rêveries para o espaço, enunciar esperanças, desfiar dúvidas (e são tantas), carpir receios (mas nem vale a pena falar disso pois recear o desconhecido é pura cobardia e eu posso ser muitas coisas mas cobarde eu acho que não sou). Mas não. Vou ficar caladinha a viver o momento. É tão extraordinário o que se está a passar que me limito a partilhar duas das imagens do que, para já, se pode saber do que lá se passa. Por enquanto ainda não há humanos por lá. Mas nunca digamos nunca.

NASA’s InSight’s -- First Photos from Mars







Mais imagens aqui

quarta-feira, novembro 28, 2018

Truques


A minha filha era uma querida. Ainda é. Mas referia-me a quando era pequena. Acordava a rir, brincava sossegadinha, portava-se bem. Só era do piorio para comer. Na altura, eu estava a experimentar as primeiras manifestações dos meus dotes maternais e, destes, destacava-se a preocupação em alimentá-la bem. Mamou enquanto quis mamar. Andava e falava, mudava de peito sozinha. Mas, a comer comida normal, era um castigo. Vagarosa, vagarosa. Ainda é. Mas também nunca queria nada. Como eu não ficava descansada enquanto ela não comesse aquela dose que eu achava imprescindível, fazia de tudo para a distrair e, à traição, ia-lhe enfiando comida pela boca abaixo. Aquelas refeições eram uma odisseia. E duravam, duravam...

A seguir veio o meu filho. O oposto. Não queria mamar, nem ao peito nem biberão. Só queria comida. Mas não de bebé. As papas davam-lhe vómitos. Tinha que ser comida de adulto. Por vezes comia tão de seguida que chegava ao fim e vomitava. Eu ficava numa aflição. Ia-se a refeição que lhe tinha preparado e leites e papas está quieto. Talvez por isso, por perceber a minha aflição quando o via vomitar, aprendeu a chantagear-me. 

Por exemplo. Quando ela tinha três anos e picos e ele uns meses, eu chegava do trabalho, ia buscá-los ao colégio e, ao chegar a casa, tinha que fazer o jantar. Ela, uma fofa mais linda, ou se deitava no chão, atrás do sofá, e adormecia ou punha-se a brincar com as bonecas. A ele punha-o no carrinho ou sentava-o na cadeira da papa e dava-lhe brinquedos. E ele, acto contínuo, atirava os brinquedos para o chão. E ou eu interrompia o que estava a fazer e apanhava os brinquedos para lhe dar ou ele punha a mão pela goela abaixo e puxava os vómitos. Por mais que eu me zangasse, era isto. Mas com um bebé  não a vale a pena a gente dar grandes explicações, a coisa não resulta. Se eu me fartava e achava que aquilo não podia ser e, portanto, que não podia estar, a toda a hora, a fazer-lhe a vontade, ele enfiava a mão de tal forma pela garganta baixo que vomitava mesmo. 

Não há explicação para o que era aquilo. É que, ainda por cima, ele nunca quis chucha. Portanto, era assim.

Era um bebé brincalhão, bem disposto -- desde que fizesse e que lhe fizessem o que lhe dava na bolha. E, claro, eu tinha que o prender muito bem à cadeira ou ao carrinho para não se raspar de lá pois, a toda a hora, tentava fugir só que, como ele era e eu a ter que fazer o jantar, tinha que tê-lo debaixo de olho.

Quando ele nasceu, como é normal, dormia no berço. Mas era tão irrequieto que eu estava sempre à espera que ele caísse de lá. Então, comprámos uma caminha grande para a minha filha, e ele foi dormir para a caminha onde ela dormia, uma caminha de grades. Ela gostou imenso de aos três anos já ter o seu quartinho de menina grande e ele passou a dormir nessa cama. Mas, aos nove, dez meses, passou a chorar toda a noite, a querer sair da cama. Eu passei a ficar parte da noite sentada no chão ao lado da cama dele, para tentar que ele dormisse. Mas mal eu saía de lá, ele punha-se de pé e tentava sair da cama. Eu ficava num desespero. O meu marido tentava mas não conseguia, não tinha paciência para as fitas que ele fazia. Nós perdidos de sono e ele, bebé que ainda nem andava, a querer pirar-se da cama. O pior é que se eu não ia para o pé dele, punha-se a puxar os vómitos. Se eu não ia logo, chegava lá, estava vomitado. De madrugada, eu perdida de sono e a ter que lhe mudar a roupa e a roupa da cama.

Um dia, deixei. Estava exausta. Quando lá cheguei estava a cama toda vomitada e ele com as mangas molhadas até ao cotovelo, com mucosidades, de tanto enfiar as mãos na boca. No dia seguinte, a minha vizinha do andar de cima, compungida, disse: 'O menino não está bem, pois não...? Ouvi-o a vomitar a noite toda...' Fiquei sem saber como explicar. 

Outra vez, apanhei um susto horrível. Ouvia-o a puxar os vómitos, a chorar, a fazer barulho, a cama a balouçar. O meu marido dizia que não podíamos alimentar aquilo, que o deixasse que um dia haveria de se cansar. E, de facto, calou-se. Adormeci. Quando acordei, estranhei o silêncio. Como sempre, às escuras, fui espreitá-lo. A cama vazia. Tive um momento de pânico. Gritei pelo meu marido, apavorada. Acendemos a luz, não o via. Às tantas vejo-o caído no chão, como que a dormir. Não se imagina o medo, nem sei o que me passou pela cabeça. Aproximei-me morta, morta de medo. Mas, felizmente, estava bem, a dormir. Dormiu até de manhã, no chão. Não imagino como foi lá parar, se se atirou de cabeça, se conseguiu cair devagarinho. Era um bebé e a cama era alta.

Na manhã seguinte resolvemos fazer uma experiência: pô-lo a dormir na cama da irmã, uma cama de corpo e meio, sem qualquer protecção. E ela foi dormir para o sofá. Ela, dorminhoca como era, dormiu lindamente. E ele também, a noite toda.

Pensámos: na volta é isto, não quer dormir numa cama de criança. É que ainda não falava. Encomendámos outra cama grande. E as noites passaram a ser um descanso. Nunca caíu da cama. Pelos vistos, aos dez meses resolveu que havia de dormir numa cama de gente grande, como a irmã. Cada um em seu quarto. 

Quando o vejo agora, paciente, bom pai, com três filhos irrequietos, opiniosos e teimosos penso que, talvez por ter sido como foi quando era pequeno, é agora tão compreensivo e disponível para os filhos.

E lembrei-me disto ao ver a fotografia que abaixo vos mostro e que, tal como a dos gémeos do post abaixo, provém do post dedicado aos truques que os pais arranjam para lidar com os filhos, no Bored Panda  


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E queiram descer até ao post seguinte que o truque para reconhecer os gémeos também é o máximo

Como distinguir um gémeo de outro?


Lidar, lidar de perto com gémeos só me lembro de duas vizinhas quando eu era pequena. Andavam também na minha escola. Tinham um irmão mais velho e adoravam gatos. Melhor dizendo: massacravam gatos. Tinham imenso jeito para a costura e faziam roupinhas para vestir aos gatos, como se os gatos fossem bonecas. Os gatos miavam, gritavam, tentavam escapulir-se mas uma agarrava e a outra vestia. 

Deviam ter um ano ou dois a mais que eu. Gostava muito delas. A mãe delas dava-lhes liberdade e elas faziam as coisas mais incríveis. O irmão zangava-se com elas, tenho ideia que até lhes batia. Mas elas eram unidas que só visto, defendiam-se bem.

Uma casou com um que tinha um restaurante e ela era a chefe da cozinha. Da outra não sei. Eram iguais. Toda a gente dizia que não se distinguiam. Mas os pais e o irmão distinguiam-nas. E eu também.

Na escola eram uma dor de cabeça para os professores e para os colegas. Eram como se tivessem um poder especial, como se cada uma tivesse ali, à sua disposição, o seu próprio duplo. Eu achava um fenómeno fascinante e, por muitas maluqueiras que elas fizessem, eu achava-as sempre o máximo.

A mãe vestia-as de igual, usavam ambas tranças compridas, tinham a voz igual, riam-se das mesmas coisas.Mas a ideia que guardo é que a mãe as evitava ou as temia. A minha mãe não gostava muito que eu andasse muito com elas mas acho que era porque tinha medo que algum dia um gato se assanhasse e eu fosse atacada por tabela.

Tirando elas só voltei a ver gémeas mais tarde: andava eu no liceu e apareceram umas raparigas novas, giras, giras, desenvoltas, desempoeiradas, ultra modernas. Dizia-se: a mãe é divorciada. Tinha vindo de novo para a cidade, ela, uma mulher alta, elegante, seios grandes, vistosa, e as suas três filhas, muito altas, muito bonitas, muito descaradas. Duas eram gémeas e era um escândalo. Surpreendentes, vindas de um qualquer plateau, roupas nunca vistas. Toda a gente as olhava de lado. Pareciam ter vindo de um outro planeta, de um outro tempo. Falavam muito alto, riam muito. Os próprios rapazes as olhavam de longe, intimidados. As gémeas, então, eram demais. Todas nós, normais, versão reduzida, nos sentíamos diminuídas face a tanta exuberância e, ainda por cima, em duplicado. Tinham também nomes raros. Éramos hostis.  E elas riam-se de nós. Depois, assim como apareceram, desapareceram.

Depois disso, não voltei a saber de mais nenhuns gémeos nas minhas proximidades.

Mas, enfim, nada disso vem agora ao caso. Só estou a lembrar-me disto porque vi uma fotografia deliciosa.


Simples.

terça-feira, novembro 27, 2018

É mesmo viciado em livros? Será...?
Ora faça lá o teste.





Rondo as livrarias. Ainda hoje: espreitei en passant, ou seja, passei ao largo. Bem comportada, mostrando indiferença, sem querer saber das novidades. A gente consegue disfarçar e, quando quer mesmo, disfarça tão bem que chega a parecer indiferença a indiferença que a gente não tem. Parafraseio para tentar dar um ar da minha graça. Ia dizer desgraça mas seria seria um exagero. Não se pode chamar de desgraça a uma opção racional. Mas a verdade é que não é fácil. Inquieto-me por não poder saber se algum dos meus escritores de eleição terá escrito um livro que me deitaria por terra e que eu aqui esteja, como se nada se tivesse passado, na maior ignorância.

Não sei dizer melhor: sinto-me como se tivesse entrado num convento, tivesse virado as costas aos prazeres do mundo, a caminho de ficar esquecida de tudo. Mas ainda hesitante. Que pode haver de melhor que justifique uma pessoa fugir das alegrias do mundo? Êxtases divinos? Não, não sou dessas. 


Mas persisto. Fecho os olhos, não quero saber, cansei-me de pecar. Tanto, tanto livro é pecado. Tanta, tanta palavra é perdição. Estou rodeado por eles. A toda a volta os há: objectos de desejo, tesouros, promessas de conhecimento infinito. Mas chega. Os que aqui estão chegam-me. Não preciso de mais.

Afasta de mim, esse cálice. No more livros. Os que tenho chegam-me e sobram-me. Enough is enough.


Ora bem. Chega de converseio que eu a fazer de santinha nem a mim me convenço. Nasci para pecar e não me arrependo.

Bora mas é fazer o teste a ver se há por aí mais viciados como eu, gente agarradinha, daquela que chuta para a veia: palavras a circular no sangue, a oxigenarem a mente, e perfumar o coração.

Assinale as frases em que se revê para no fim fazer a contabilidadezinha:


1 — Comprar mais livros do que é capaz de ler.



2 — Deliciar-se com o cheiro de um livro novo.



3 — Mergulhar incansavelmente num livro e depois ficar arrasado porque a leitura acabou.



4 — Apaixonar-se por um personagem.



5 — Entrar numa livraria prometendo que só vai dar uma “olhadinha”, mas sair com um saco cheia de livros novos.


6 — Torcer para as visitas se irem embora rapidamente para poder voltar a ler.

7 — Insistir para os amigos lerem aquele livro que você adora.

8 — Acordar com dor nas costas depois de adormecer sentado, durante a leitura.

9 — Encontrar posições impensáveis para ler com mais conforto.


10 — Fazer contorcionismos para tentar descobrir o título do livro que um desconhecido está a ler num local público.



11 — Desenvolver a habilidade de ler em qualquer lugar.



12 — Ter a certeza de que a sua estante de livros é o que há de mais valioso em casa.


13 — Prometer não comprar livros novos até terminar a leitura de todos os que tem, mas não cumprir (nunca).

14 — Julgar um livro pela capa.

15 — Amar e cuidar dos livros como se fossem bichinhos de estimação.

16 — Insistir para alguém ler um livro só para ter com quem conversar sobre ele.

17 — Imaginar diferentes maneiras de matar uma pessoa quando ela interrompe a sua leitura por nada.



18 — Ler o mesmo livro após anos e ter a impressão de que é um livro completamente diferente.



19 — Prometer ler “só mais um capítulo” e atravessar a noite mergulhado na leitura.



20 — Ter insónia ao descobrir que um livro que você estava a amar tem um fim terrível.

21 — Comprar livros para presentear alguém, mas acabar por ficar com eles.

22 — Começar um livro novo quando ainda está na metade da leitura do anterior.

23 — Sofrer quando alguém pede um de seus livros emprestado.

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Resultados

Se se identifica com todas as frases ou, vá, com mais de vinte, digo-lhe: é agarradinho, viciado mesmo, coisa na base da maluqueira, caso perdido. Coloque-se uma rédea curta porque V. não é de fiar. Qualquer dia tem que pôr pilhas de livros debaixo da cama, no frigorífico, a servir de mesa e de cadeiras.

Se se identifica com mais de doze e menos de vinte, então saiba que está a caminhar para lá, que é um verdadeiro wannabe, se lhe dão corda ainda acaba pior que o Marcelo que tinha lido tudo, que tinha todos os livros á superfície da terra, que doava livros, que faz feiras de livros 

Se o seu score é abaixo dos doze então ok, esqueça os books, não é a sua praia, na boa. E, olhe, fique-se por blogs como o meu, onde não se aprende nada, que aqui é que se tá bem. Tá do verbo tar, claro.


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As frases e a ideia do post, com alguma adaptação vêm da Revista Bula, de um artigo de Jéssica Chiareli

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E agora não deixe de descer até aos Casados à Primeira Vista para ver se consegue perceber porque é que um Conde que leva com um ferro de engomar nas costas não salta logo para cumprir com a faena para a qual a sua doce e paciente mulher está a aliciá-lo. 

(Paciente é como quem diz, que aquela ali pode ter graça mas paciência e compreensão para com a dormência de parte do corpo do Conde está quieto. Estou a ver que, não tarda, está a despejar-lhe caixas de Viagra em pó no sumo de laranja, que o Conde, sem saber como, ainda fica a fazer a prancha da próxima vez que levar com um ferro de engomar nos costados). 

Mas desça até ao post seguinte que aqui neste é mais livros.

O José Luís não ficou excitado quando a Graça lhe pôs um ferro de engomar nas costas.
E eu pergunto aos meus Leitores homens: será que o José Luís está doente?
Há lá coisa mais excitante do que levar com um ferro de engomar nas costas...?


Mudei. Não sei se para pior, se para melhor. Talvez esteja num plano, sem altos nem baixos. Sossegada da vida, sem crises. Um estado de neutralidade. Depois de um período algo tumultuoso, estava mesmo a precisar de limpar a cabeça por dentro. Melhor: esvaziar a cabeça. 

Concretamente: se, depois de um dia agitado, estou agora aqui tranquilamente a fazer o meu tapete, a televisão a passar esta coisa dos casais, cheia de chatos e malucos, e eu na maior, sem fazer zapping, a sentir-me descansadinha da vida, isto só pode querer dizer que não estou igual ao que estava há um ou dois meses. Só pode.

Conto como é.

Abstraio-me de tudo e ponho-me, distraidamente, a ver aquilo. A modos que até acho que aquilo tem uma certa graça. Apesar de ter lá um sujeito sinistro. Horrível. Eu acho que é um psicopata. O meu marido diz que deve ser um gay não assumido. Não sei. Eu fugia dele a sete pés. E outro que é um compulsivo, um maluco, um chato que só apetece dar-lhe estalos. Não há pachorra. Nem que fosse um personagem de ficção seria tão exagerado. Uma coisa tipo Alf, tão maluca, tão disparatada que até dá vontade de rir. E a Graça. Uma graça. Sempre a queixar-se do pobre do José Luís, que é lavadinho mas que não funciona nem por mais uma, que é frigído. E diz isto em todo o lado, a toda a gente. E os 'terapeutas' (coloquei aspas porque não sei se são mesmo ou se são uma espécie de) recomendaram alguns truques e eles tentaram... mas output: népias, nem pó.

E num dos resumos vi uma coisa extraordinária: o José Luís, deitado de barriga para baixo, submissozinho, por tudo, e ela, sem grande jeito, ali a a fazer de conta que lhe dava uma massagem e notoriamente com uma atitude inquisitória a ver se o pobre se arrebitava... mas nada. E, às tantas, aparece ela com ar malandreco como se fosse fazer uma coisa infalível mas... ui... com um ferro de engomar, não sei se gelado se quente... e pimbas, nas costas do pobre do Zé Luís. E ele: nada. Em vez de alavancar a coisa, nada. Nada vezes nada. 

E o engraçado é que nenhum daqueles terapeutas que a ouvem a queixar-se de falta de sexo a toda a hora foi capaz de lhe explicar que por algum motivo nunca ninguém se deve ter lembrado de vender ferros de engomar como brinquedo sexual. 

Ó pá, se aquilo ali é uma amostragem do que é a vida em casal, percebo que haja tantos divórcios. A minha esperança é que aquilo ali não é amostragem nenhuma já que gente muito normal não devem ser, senão não se sujeitavam a um reality show destes.

Bem. O que sei é que, a ver televisão, o meu tapetezinho vai de vento em popa.

Ah, e outra novidade: hoje, durante a nossa caminhada, passámos por uma loja de chineses. Fui perguntar se tinham uma árvore com luzinhas amarelas. O meu marido todo incomodado. Que não é preciso, que me deixe de ideias parvas, que esqueça a ideia de mais árvores de natal com luzes. Não quero saber. Tinha. Aquele chinês tem tudo o que se possa imaginar. Não dá para acreditar no que ele para ali tem. Lá foi buscar: dourada, luzinhas amarelas. Dez euros. Não foi tarde nem foi cedo. Está aqui atrás de mim, linda, a piscar. Se soubessem como há bocado fiquei comovida. Tinha deixado as luzes apagadas, só esta árvore acesa. Então, quando voltei a entrar, estava um ambiente mesmo mágico. E reflectia-se na janela. Tão lindo. Palpita-me que é mais uma que vai ficar a servir de candeeiro durante o ano todo. 

A vida pode ser uma coisa simples e agradável. Mesmo que apenas durante alguns instantes ou mesmo que isso resulte de um exercício de alienação. Pois que seja. Paciência. 

segunda-feira, novembro 26, 2018

Diz que tenho que me esforçar mais





Choveu muito. Ainda não se conseguiu fazer uma queimada com os ramos que cortámos no verão. 

O meu marido, que é madrugador, diz que de manhã cedo não choveu muito. Sai pelo campo ainda deve ser quase de madrugada. Não sei o que faz. Só sei o que ele me conta quando volta a casa. Contou que andou com a roçadora a dar conta do tojo e das silvas. Na brincadeira, em vez de silvas, diz sílvias. Diz: andei a dar cabo das sílvias. Um dia que queira dizer bem já nem se lembra como é. 

Quando me levantei, chovia muito e depois foi em crescendo, o céu tombando em negrume, a chuva desabando com força.


Recebemos o pedido de uma pernada de pinheiro para fazer de pinheirinho. Pode parecer fácil mas não é. Os ramos curvam-se. Ou só têm ramagem de um dos lados. E chovia muito. Andámos à procura de um que pudesse ficar mais ou menos direito e que tivesse a ramagem distribuída de forma mais ou menos equilibrada. Não nos púnhamos de acordo. Mas pusemo-nos. Cortou três pernadas e limpou-as na parte de baixo. Para a semana trazemos para a minha filha. Hoje veio a do meu filho. Trouxe também uma estaca para que o tronco não se encurve.


Também trouxémos também musgo. Penso que nunca fizeram presépio. Nem as crianças devem saber o que isso é. Mas mesmo que não tenham uma Nossa Senhora ou um São José, bebés é o que não falta, nem que seja um Pin y Pon. É que, vendo bem, podem lá pôr quaisquer bonequinhos que ficará bonito na mesma. O importante é a graça de construirem todos, em conjunto, uma coisa, seja essa coisa um presépio, uma quinta, um campo de LOLs ou de jogadores da bola. O simbolismo das coisas somos nós que o fazemos e eu, nisso, sou muito versátil.

O meu filho pediu para eu tentar que a nossa bonequinha mais linda fizesse uma composição com muitas linhas pois no último teste só fez com quatro e era para ser com vinte e, teimosa como é, recusa-se a praticar. No sms o meu filho acrescentou: desde que não encostes o teu cabelo ao dela. Só não dei um salto porque estava amarrada ao banco com o cinto de salvação. Piolhos? Pois sim, respondeu ele.

Estava com o cabelo molhado, já lhe tinham posto o produto. Tinham recebido aviso da escola e estranharam que se coçasse tanto. Tinha mesmo.

Até tremo. Mas, como já estava desparasitada, espero não ter sido contagiada. Só de pensar nisso já fico com comichão.

Fomos para o escritório, para ela fazer uma composição. Dei-lhe um tema bom mas ela disse que primeiro ia fazer uma ficha para mim. Ao princípio não percebi. Depois vi que estava a preparar-me uma ficha para eu fazer: um sítio para escrever o meu nome, a data, um sítio para o encarregado de educação assinar. Eu a dizer para ela se despachar e fazer a composição e ela que primeiro tinha que fazer a ficha para eu fazer. Então escreveu perguntas, que definisse comércio, que dissesse que tipos de comércio existem, fez quadrados com letras para eu completar, mandou-me fazer o desenho de uma sala de aula. E o tempo a passar e ela sem fazer a composição. Fiz aquilo às três pancadas para ver se passávamos à fase seguinte. Não senhora. A seguir foi a vez dela corrigir a ficha. Emendou-me, escreveu as respostas que achava certas, concluíu, por escrito, que para a próxima deveria esforçar-me mais.

Com isto o meu marido já andava a pedir que eu me despachasse, o pequenino já andava a pedir papa e o mano do meio andava a cantar uma cantiga cuja letra era 'eu gostava de ter mais cromos, eu gostava que tivessem trazido cromos...'.

Portanto, não fez a composição. O meu filho gozou, disse que esperava mais de mim, que critico os métodos pedagógicos dele e afinal comigo era aquele insucesso. Reconheço. Um teimoso reconhece e respeita um teimoso ainda maior e acho que aquela menina ali saíu refinada. Nada a fazer. Pegas de caras com ela não resultarão nunca, terá de ser cernelha mas para isso é preciso tempo e eu estava sem muito tempo, ainda muitos afazeres domésticos pela frente.


Mas voltando aos meus passos em terra molhada. Foi pouco o que andei e tive que andar com o chapéu de chuva aberto. A terra ensopada, as árvores escorrendo. Muito bonitos os campos assim. Tudo muito verdinho, tudo muito silencioso, só mesmo o som da chuva e de um ou outro pássaro mais afoito.


Continuam a aparecer novos cogumelos, alguns lindos, parecem nacarados. E tão frágeis. Outros cada vez mais parecidos com folhas de outono. 




A perfeição da natureza emociona-me. Apesar de tudo ser efémero, há um permanente renascer, há uma harmonia e uma beleza que, na sua tocante singeleza, me parece o mais transcendente dos magníficos acasos. Há quem ache que a mão de um qualquer deus está na origem de tudo isto. Eu, ignorante como sou, não sei quem foi, não sei de nada disso. Inclino-me para que não foi ninguém e nessa ausência de responsabilidade parece-me estar a mais divina das inexplicações de toda a maravilha que nos rodeia.

Mas lá está, na volta, para melhor perceber tudo isto, deverei mesmo passar a esforçar-me mais.

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As fotografias foram feitas, este fim de semana, in heaven

Wilhelm Kempff interpreta ao piano Le rappel des oiseaux, de Rameau

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E, por falar em divindades, queiram fazer o favor de descer um pouco mais porque o que ali poderão ver é dessa ordem.

Quicksilver


Há nele qualquer coisa de transcendente. Não é só o corpo e a sua elasticidade, não é só a forma como a força da gravidade desaparece, não é só a sua expressão facial que é extraordinária, não são os cenários onde gosta de se mover, a roupa que escolhe para vestir, as tatuagens que desenhou na sua pele. Não, não é só cada uma das coisas. Nem é o somatório de todas. É mais do que isso, é qualquer coisa que se não se define. Não parece deste mundo. Não encaixa em categorias. Seja o que for que se diga, ele é mais do que isso.

O vídeo que abaixo partilho foi publicado ontem, poucos dias depois de ter feito vinte e nove anos. E é, uma vez mais, uma maravilha. 
“This is one of the two great labyrinths into which human minds are drawn... the question of free will versus predestination.” 
― Neal Stephenson, Quicksilver

"Quicksilver" Sergei Polunin



domingo, novembro 25, 2018

A casa de Blanche




Hoje, quando aqui chegámos, a casa estava gelada. Chovia que deus a dava. Ainda chove. Tanto que não consegui ir dar o meu passeio. Estivémos todo o dia dentro de casa. Aqui nesta salinha, temos a lenha a crepitar na salamandra e, ainda, o aquecedor a óleo. Amanhã a casa já estará agradável. Mas  quando a invernia aperta, no primeiro dia, quando chegamos, a casa mostra-se triste, ressentida por não lhe abrirmos as janelas para que a luz possa aquecê-la um pouco. Uma casa é um organismo vivo, sei isso muito bem.

Estou a fazer a passadeira em arraiolos. O prazer por bordar voltou em força. É uma sensação boa, é uma fonte de motivação. E tenho visto televisão e lido as cartas de Manuel Laranjeira. E falado ao telefone. Acho que também dormitei durante um bocado. Está-se bem aqui. Estive a fotografar a rua, a chuva nas árvores, as folhas outonais cheias de água, e, depois, andei a fotografar galos e galinhas. Não tenho afeição especial por galinhas ao vivo mas acho os galos um bicho garboso, cheio de pose. Acho graça à sua representação: havendo imaginação, saem galos e galinhas estilizados, coloridos, divertidos. Tenho-os de lata, de madeira, de louça, pintados por mim. De tudo um pouco.


(Perguntei ao meu marido o que achava ele de termos galinhas à solta. Li ou vi na televisão, não me lembro, que são boas para os terrenos, que reciclam o que encontram e tornam as terras férteis. E depois tinhamos os ovos. O meu marido disse que nem pensar, que me deixasse eu de ideias destas. Não insisti) 

Gosto de cirandar pela minha casa observando os meus objectos, alguns herdados de avós ou tias. Tenho muito carinho por eles. Outros oferecidos. Tenho algumas coisas oferecidas ou restauradas pelos meus pais. Tenho também carinho especial por eles. E tenho outros que tenho comprado ou feito.

Podia pôr-me aqui a escrever sobre cada uma das coisas que me rodeia. Quase tudo tem uma história. Este móvel aqui à minha frente, o que tem a televisão em cima, por exemplo: era de uma tia do meu marido. Já falei algumas vezes dela. Tinha uma casa muito bonita, de onde se via o casario de Lisboa e o Tejo. Dentro deste móvel havia louças: o serviço de chá, nomeadamente. Havia não: há. Trouxe as louças.


Nenhum dos outros sobrinhos as queria. O meu marido, então, por ele não queria nada. Mas tive pena de desprezar tudo o que ela tanto tinha estimado. Na parte de baixo das prateleiras há camarões com chávenas suspensas. Estão todas aqui. E pequenas terrinhinhas que parecem folhas, louça das Caldas. E tantas outras peças bonitas que não uso com medo que se partam. Mas, de vez em quando, abro as portas do móvel e espreito. Lembro-me dela, dessa tia, da sua bela sala, dos belos sofás, dos quadros, dos belos candeeiros. Não sei qual dos sobrinhos ficou com os sofás, com os candeeiros. Tomara que não tenham ido para o lixo. Tudo gente desapegada. Vi alguns abrirem aqueles sacos grandes de lixo, pretos, e despejarem o conteúdo de gavetas lá para dentro. Se ela soubesse que os seus pertences iam ser tratados assim... Ela tinha carteiras e malinhas muito bonitas. Ia tudo para o lixo. Isso interceptei. O meu marido aborrceu-se: para que precisava eu daquilo?, ia encher a casa ainda com mais tretas do que já cá havia. Não quis saber. Objectos tão pessoais, tão bonitos, não podia deixar que fossem parar ao lixo.

Memórias. Reviver momentos é voltar a vivê-los, é bom. E o tempo adoça as histórias, a memória suaviza o que a realidade tinha de aspereza.


Vi há pouco a casa de Blanche Marvin. Casa maravilhosa. Objectos maravilhosos. Memórias que a mantêm bem viva, bem cheia de histórias para contar. Vai ao teatro, escreve sobre as peças, sobre os actores. E as fotografias mostram-na moderna, maquilhada, bijuteria vistosa, tudo a condizer com o seu sorriso gaiato e com as cores quentes das paredes, das luzes, das flores, das louças, de tudo o que se rodeia.

Blanche tem 93 anos e não se queixa da vida. Diz que em casa nunca se sente sozinha pois a casa está cheia de vida.


O artigo do The Guardian é bom de ler: Blanche Marvin, 93: ‘I’m never lonely in this house, because I have my life with me’. São desse artigo e de casa de Blanche as fotografias que aqui vos mostrei.

Louis e os seus 200 (quiçá 1000) filhos


A família de Louis desestruturou-se quando ele era miúdo e, por isso ou porque se calhar tem mesmo aquele piquinho de autismo que ele desconfia que tem, nunca foi capaz de formar família.

Tornou-se empregado bancário para arrelia e espanto do pai que nunca percebeu porque não completou ele estudos mais elevados para poder ter uma carreira mais espampanante. Mas Louis nunca desgostou da sua profissão.

Apenas uma coisa o preocupava: quando morresse, quem se lembraria dele? 

E, então, resolveu, tornar-se doador de esperma. Três vezes por semana, durante vinte anos, Louis doou o seu esperma. Não tinha família, vivia sozinho, a sua casa era modesta, o seu emprego era aquilo -- e tudo lhe chegava. Excepto aquele pensamento que o deixava ansioso: morreria sem herdeiros, sem alguém que se o recordasse. Pensou: se o seu esperma desse origem a crianças que um dia o procurassem, talvez obtivesse aquela parcela de felicidade que tanto desejava. Se em cada dez crianças nascidas uma quisesse conhecer o seu pai biológico seria bom -- e se, em vez de dez, fossem mais, podia um dia ter não um mas vários filhos perto de si. Passou a doar esperma para três clínicas. Antes de ir trabalhar, passava por lá com o seu saquinho e seguia para o banco. Pensava que controlassem melhor algum limite de doações mas, pelo que percebeu, não apenas não o faziam como o que as clínicas queriam era ter bons doadores.

E, então, o que ele tanto imaginou, aconteceu. Os filhos começaram a querer saber quem era o pai. Neste momento creio que são uns cinco que já se aproximaram dele. E ele está contente.

‘Louis’ with his daughter, Joyce Curiere, who traced him after getting a DNA test. P
hotograph: Judith Jockel for the Guardian

Pelo que se sabe e pelos seus cálculos, serão duzentos os filhos mas admite que possam chegar aos mil.

Fala-se em questões de ética e talvez os haja mas o que me ocorre é que este mundo está cheio de histórias loucas, muito mais loucas do que a nossa imaginação possa alcançar. E digo isto sem qualquer laivo de censura moral. Zero. Apenas uma certa estupefacção. E alguma vontade de sorrir.

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[A história pode ler-se no artigo do The Guardian: ‘I thought – who will remember me?’: the man who fathered 200 children]


sábado, novembro 24, 2018

Sobre o que está a passar-se em Borba, naquela pedreira abandonada, naquele caldo de lama


Não gosto de falar de desgraças quando elas estão a decorrer, não gosto de dizer mal quando a situação ainda é nebulosa demais para se saber de quem se deve, justamente, dizer mal. Não gosto de falar de mortos, nunca. Muito menos quando ainda pode haver corpos por resgatar. E custa-me falar de corpos quando pouco tempo antes eram gente inteira e não apenas corpos...

Não gosto de apontar o dedo a uma causa específica quando, à vista desarmada, se vê que as causas do que aconteceu são mais muitas, os perigos previsíveis mais do que muitos, a cegueira que deixou que não se visse o que estava à vista difícil de explicar.

Ver o ar mortificado do Presidente da Câmara de Borba impressiona-me, dá-me muita pena e, garanto-vos, mesmo muita pena. Haja ou não responsabilidade da sua parte, é um triste peso que jamais deixará de carregar. Neste momento, de forma precipitada, concluir que houve pareceres não atendidos, descentralizações provavelmente mal assimiladas, querer buscar culpados -- isso a mim nada me diz. Nada aconteceu deliberadamente. E a pequena culpa de muitos cruza-se com mil circunstâncias e, na verdade, transforma-se numa culpa difusa, inútil.

As causas são forçosamente mais profundas. Se calhar é o sistema eleitoral que temos que apela à desresponsabilização, ou os mandatos demasiado curtos, nunca ninguém tem tempo para levar a cabo medidas estruturais. E este mal geral, comum a todos nós: nunca ninguém tem tempo para pensar a sério em assuntos de fundo.

Hoje gritamos porque uma estrada caíu num temível precipício, ontem porque as florestas pegaram fogo, antes porque uma ponte ruíu.

Grita-se muito, faz-se pouco. Quem mais barulho faz é quem menos se assume como responsável do que quer que seja. Provavelmente, desses que muito se indignam nas redes sociais, poucos são os que votam, e, se votarem, poucos votarão depois de bem reflectirem. Criam-se grupos de WhatsApp, criam-se ajuntamentos no Facebook. Mas informarem-se a sério, lerem, pensarem com a sua própria cabeça está quieto.

[ilustração de Elia Colombo]
Não serei melhor que ninguém mas a mim não me apanham a fazer coro com a carneirada. A cada desgraça que acontece não viro justiceira e não desato a encontrar culpas e culpados.

Pelo contrário. 

Este post hoje tem um único propósito: louvar, mas louvar de mãos postas, agradecida, os mergulhadores da pedreira abandonada de Borba. 

Esses bravos homens mergulham naquele poço profundo, barrento, totalmente opaco, esbarram, às cegas, contra vultos, volumes, coisas que não sabem se são bocados da estrada que lá se despenhou, se são pedras, se são carros, se são os corpos desaparecidos. Arriscando a sua própria vida, provavelmente vencendo o medo, ali andam, nadando, sabe-se lá como, naquele caldo de lama, tentando conseguir o que parece impossível.

Quem se lembra de dar a conhecer estes corajosos homens? Quem se lembra de lhes agradecer? 

Pois eu, aqui deste meu canto, agradeço-lhes e desejo que nada de mal lhes aconteça. E um dia que este pesadelo tenho passado e que voltem à sua vida normal, gostava que sentissem como todos nós os admiramos e como reconhecemos a sua valentia e abnegação. Seria bom que o Professor Marcelo os louvasse pois ainda bem que por cada rebanho de carneiros inúteis há uma ou duas bravas pessoas que se distinguem por fazerem qualquer coisa de útil.

O caminho do amor




Desde que ganhei consciência de mim que preciso de espaço. O espaço é-me vital.

Penso que já uma vez aqui o contei: numa formação daquelas comportamentais, fizemos uma experiência. Cada um de nós, à vez, vendado, no centro e, à volta, numa roda larga, as outras pessoas da turma. E as pessoas começavam a aproximar-se em silêncio. E nós deveríamos aguentar o mais que pudéssemos. Quando achássemos que os outros já estavam muito em cima de nós e já não conseguíssemos mais a pressão da sua presença, deveríamos dizer que parassem. Quase todos os meus colegas aguentaram até estarmos quase em cima deles. Eu, quando foi a minha vez, mandei-os parar quando ainda não estavam nem a um metro de mim.

Mal acabei de fazer dezassete anos, com o pretexto de não querer perder tempo em transportes, depois de muita persistência e guerra, saí de casa dos meus pais para viver perto da faculdade. Por muito bem que me desse com eles, já não queria estar sob seu controlo, nem dos vizinhos da rua, nem do bairro, nem de conhecidos, sequer de amigos. Quis libertar-me de tudo. Ia a casa ao fim de semana e adorava lá estar mas bo mesmo eram os dias de semana, à larga.

A sensação de liberdade é-me indispensável. Viver num meio pequeno e confinado não é para mim. Viver sob vigilância da família ou de vizinhos ser-me-ia insuportável. Se há coisa de que gosto é de me sentir turista, livre.

Imagino que em meios pequenos não seja fácil conhecer novas pessoas, conversar com elas, jogar os deliciosos jogos da sedução que levam um no sentido do outro, percorrer novos caminhos, ousar descobertas. Mesmo pessoas que vivam solitárias e gostassem de descobrir amores ou paixões terão mais dificuldade em fazer esse percurso de descoberta quando se sabem vigiados e, possivelmente, comentados ou criticados. Mas há que arriscar, soltar as amarras, não deixar a vida por viver.

Em contrapartida, quando uma pessoa tem a certeza de ter descoberto a 'outra' pessoa -- aquela por quem o seu coração bate de uma maneira especial, aquela por quem os seus olhos se enternecem, aquela que passa a habitar o seu pensamento -- a procura de outros deixa de ser tema. 

Mas, mesmo nesses casos, a história não acaba aí. Sabermos de quem gostamos não nos isenta de termos que procurar o ponto de convergência, de tentarmos alcançar o momento em que a fusão acontece, em que os dois corações se tocam. No labirinto que são os caminhos de cada um há aquele caminho, aquele único caminho que conflui no caminho, daquele também único caminho, do labirinto do outro, daquele que amamos. 

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O desenho, que me deu vontade de escrever o que acabaram de ler, é da autoria de Elia Colombo

sexta-feira, novembro 23, 2018

Já perdi a cabeça com a Black Friday
(por acaso foi na quarta-feira, mas isso é pormenor)


Nesta coisa muito dos tempos correntes de que tudo antes de o ser já o era, a toda a hora o tempo se arrepia e, como se sabe e tanto aqui tenha falado nisso, no verão já se vende roupa de outono, em outubro já é natal e agora à quarta-feira já é black friday e, não contentes com tudo isso, a dita sexta-feira já se prolonga até domingo. 

Com dias de antecedência já estou a receber vários sms e mails  a anunciar loucuras nas lingeries, perfumes, electrodomésticos. Não ligo. Uma questão de princípio. 
Sou consumista (ou melhor: era consumista) mas tenho algum decoro. Macacadas de ir de véspera ou de madrugada, andar a correr por entre os corredores, disputar porcarias a gente desesperada, isso não. Não quando era consumista, muito menos agora que me converti à decência e à racionalidade.
Mas. 
         
         (Nos grandes momentos há sempre um  mas, certo?)

Ontem calhou irmos à catedral do consumo à hora de almoço. Quando chegou ao pé de mim, o meu marido anunciou: 'Passei por uma loja que vende colchões e que está com aquela coisa da black friday'. Esqueci-me logo daquele meu saudável propósito de já não ser consumista e disse: 'Será que têm a medida do nosso? Vamos lá ver?' É que é uma medida pouco usual nos dias de hoje e, quando o ano passado resolvemos trocá-lo, não encontrámos. Não sei se há uma idade limite para colchões. Se calhar há. O nosso já tem uns anos e achámos que o devíamos trocar. 

Fomos ver. Uma loja cheia de colchões de várias marcas e modelos. Tinham, não lá mas em catálogo numa das marcas, e podiam mandar vir. E mais, e imaginem a sorte, tinham da marca e do modelo que justamente estava com os descontos da black friday. A metade do preço. Os colchões são brinquedo caro, uma coisa que é descrita pelas vendedoras como se de um objecto de alta tecnologia se tratasse. E, se calhar, é. Sei lá. O que sei e isso de fonte segura é que há de espuma, de molas, disto, daquilo e do outro e de molas encapsuladas e com e sem camadinha de latex e com e sem camadinha de rede e de trinta por uma linha. Para evitar cepticismos, fomos aconselhados a experimentar. Eu aceitei e deitei-me em várias camas. O meu marido, que não é dado a intimidades em público (pelo menos que eu saiba), apenas se deitou e por uma fracção de segundo naquela que escolhi. E encomendámos. 

Entregam, levam o actual, tudo sem acréscimo de preço. E tudo por metade do preço.

Diria eu antes desta experiência: eu a fazer compras na black friday? Claro que não, estão a gozar ou quê? E colchões metidos ao barulho na black friday? Claro que não, está tudo maluco ou quê? Mas há uma primeira vez para tudo.

E, com isto, não posso agora é esperar por ter um sono novo, delicioso, num colchão de sonho. 

Portanto, entusiasta que fiquei, não se admirem se, até esta big sexta-feira preta acabar (coisa que, como disse, acontecerá lá para o fim do dia de domingo), eu aqui aparecer toda empolgada com um balde com esfregona ou três batatas doces a metade do preço. Ou a própria factura da luz, quem sabe.


Um lago dos cisnes à maneira


Há uns tempos, o P., um Leitor que muito prezo e admiro, deu-me a conhecer este bailado fantástico. Não acho graça à desconstrução pela desconstrução. Quando isso acontece, tudo muito básico, quase infantil, não tem graça. Agora, quando a desconstrução é feita com criatividade, com humor, com entusiasmo e superação, o que acontece é uma surpresa que marca quem a ela assiste.

Este Lago dos Cisnes é extraordinário. Claro que apenas conheço excertos mas, do que vejo, encanto-me. Aliás, acho que todos os bailados de Alexander Ekman parecem ser surpreendentes.


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quinta-feira, novembro 22, 2018

Inovação. Burocracia. O mundo de todos os dias.




Há uma forma burocrática de se ser. E que não se pense que, com isto, me preparo para dizer que ser-se burocrata é mau. Nada disso até porque piamente acredito que, quem o é, gosta muito de o ser. Conheço vários. São organizados, organizam-se e reorganizam-se, têm agendas com tudo incluindo os aniversários de toda a gente, fazem anotações de tudo, documentam tudo, arrumam tudo em pastas, sub-pastas e sub-sub-pastas, agendam e pré-agendam, tentam ensinar os outros a organizar-se, mostram as virtudes de serem tão metódicos e disciplinados, têm truques, sabem habilidades.

Eu olho-os disfarçando a compaixão que sinto porque vivo bem no meu mundo caótico que dispensa planificações, actas, memos, controlos e controlos dos controlos. Penso que desperdiçam a vida afogados no que me parece ser a sua própria ineficiência. Mas se calhar estou errada. Sei lá. 

Agora uma coisa eu sei: não vou mudar.  Não perco tempo a tentar ser o que não sou.


Ainda agora. Relativamente às minhas áreas, pedem-me a lista das actividades ligadas a inovação. Tenho vontade de dizer: zero. Para mim, inovação precisa de criatividade e criatividade  é outra coisa. Criatividade é onda alta e insubmissa, é chama livre e fogosa, é acorde solto no vento, é abraço apertado de onde se soltam doces faíscas, é bailado no céu ou no fundo do mar, são estrelas brotando do chão. É isso. Não é coisa de nada repescada apenas para incrementar os rankings, não é coisa de nada envolta em bagaço burocrata e disfarçada de coisa boa. 

Uma vez, um dia dedicado à inovação. Convidados. Apresentações. Dissertações. Muita gente, muitas palmas. Muitos métodos para medir a inovação, para acelerar a inovação, para registar a inovação. E eu, cabeça noutro lado, deslizando no lago sereno das minhas memórias, dos meus sonhos. 

No intervalo, o organizador veio perguntar a minha opinião e, antes que eu dissesse alguma coisa, já foi avançando: 'Está a correr muito bem, não está? Toda a gente já me deu os parabéns. Uma adesão enorme, já a pedirem para organizar outro evento para o ano que vem' e seguiu, contente consigo próprio.


Muitas vezes penso: se calhar sou demasiado feroz, se calhar as coisas são melhores do que as vejo. Por exemplo. Recebi ontem um mail em que, às tantas, um jovem licenciado dizia 'obti os valores'. Olhei e nem acreditava. Há que tempo sem h, é mato. Quere-mos ou fazê-mos, mato é. Nas reuniões, sêjamos ou outras pérolas é coisa que meio mundo atira aos outros como se de porcos se tratassem. E eu fico doente com isto. Mas, ao mesmo tempo, interrogo-me: porque deixo que isto me perturbe quando olho à volta e vejo toda a gente tão confortável?

Portanto, o mal é meu. Mas que seja.

Agora voltando ao ponto em que estava. Criatividade e inovação a sério (e uma coisa não é sinónima da outra) não podem nascer de metodologias e burocracias. E quando acontecem é outra coisa, é uma explosão, é uma graça. É uma novidade.

Por exemplo, Alexander Ekman. É inovador, é criativo, é talentoso, é marcante. Tem apenas 34 anos mas, senhores, é brilhante. Veja-se este Play. Não dá para acreditar:  tantas e tão graciosas imagens. KPI's? Está bem, está.

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E agora aceite a minha sugestão: desça um pouco mais e faça o teste. Conheça-se.

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