Música, por favor
Adriano Correia interpreta a Trova do Vento que Passa, poema de Manuel Alegre
Na cidade transparente que habito durante o dia, as torres são de vidro e vêem-se árvores mas não se ouvem os sons da rua nem se sente o cheiro verde das flores (já falei disso algumas vezes e não vos vou agora maçar muito mais).
Não se ouve também a chuva mas vê-se e eu gosto de a ver escorrendo pelos vidros da minha janela que não se abre. Hoje foi um desses dias. Pela forma como escorria e pela movimento elegante mas violento das árvores lá em baixo, eu imaginava que bateria com força. Parecia estar muito vento e a chuva deveria estar a bater violentamente nestes vidros isolantes - imagens em movimento, silenciosas (uma coisa de tipo cinema mudo, o que não deixa de ter a sua graça).
Não se ouve também a chuva mas vê-se e eu gosto de a ver escorrendo pelos vidros da minha janela que não se abre. Hoje foi um desses dias. Pela forma como escorria e pela movimento elegante mas violento das árvores lá em baixo, eu imaginava que bateria com força. Parecia estar muito vento e a chuva deveria estar a bater violentamente nestes vidros isolantes - imagens em movimento, silenciosas (uma coisa de tipo cinema mudo, o que não deixa de ter a sua graça).
Comprei hoje alguns livros, entre os quais um livro muito bonito e também já vos contei como gosto de livros bonitos enquanto objectos.
| A Praça da Canção, aqui ao pé de um outro livro que também adquiri, uma monografia sobre Edward Hopper e sobre quem depois falarei |
Trata-se da edição do 40º aniversário (que já ocorreu em 2005) da Praça da Canção de Manuel Alegre, com ilustrações de José Rodrigues e prefácio de Paula Morão, uma edição Dom Quixote. É um livro grande, revestido a tecido encarnado, e todo ele muito cuidado, um livro mesmo muito bonito, agradável à vista e ao toque. E o preço uma surpresa: apenas 14,90€ (na FNAC).
Dele extraio os seguintes excertos de poema, muito adequados aos dia de hoje:
| 'Havia o mar. Raparigas da terra da saudade' - pág. 74 da Praça da Canção, com belíssima imagem de José Rodrigues |
Dele extraio os seguintes excertos de poema, muito adequados aos dia de hoje:
Chove nas ruas como nas veias
cidade cheia de mágoas
e não há barcos ideias
que nos levem por sobre as águas
que tu vento despenteias.
Há só a chuva nos vidros
e este viver para dentro
há só minutos perdidos
e as caravelas do pensamento
naufragadas nos sentidos.
(...)
Minha cidade calafetada
quando à porta bate o vento
há só poetas cantando
este viver para dentro
e as caravelas do pensamento
naufragadas (até quando?)
perdidas no nevoeiro.
Dai-me um verso marinheiro
dai-me um verso madrugada.
E, por passear, e por falar em palavras que nascem da brisa que nasce em mim apesar destes dias tão pesados em que os mercados dominam o mundo,
quando fores amor à praça
onde até o sol se compra
onde até o sol se vende
e sobretudo não digas
essas palavras que nascem
da brisa que nasce em ti
quando passares pela praça
onde se compram palavras
onde as palavras se vendem.
Mas voltando à chuva: sinto-a como uma bênção, uma dádiva, e é tão indispensável, e lava-nos, dá-nos vida.
Lembrei-me agora: no outro dia eu andava a passear no jardim rente ao rio e estava a chuviscar. Geralmente não uso chapéu de chuva. Cruzei-me, então, com dois homens que vinham conversando debaixo dos seus chapéus de chuva. Ao passarem por mim, um disse: 'a chuva é mesmo uma coisa psicológica' e, com ar destemido e intrépido, fecharam os chapéus de chuva. Pensei cá para mim: '... É de homem!'.
Adiante.
Mesmo nestes tempos de desconfiança e incerteza, em que o futuro nos é atirado à cara todos os dias como um pecado ou um bem imerecido e em que todos os contratos são rasgados unilateralmente por este governo que nos desrepeita, a chuva pacifica, baptiza.
Lembrei-me agora: no outro dia eu andava a passear no jardim rente ao rio e estava a chuviscar. Geralmente não uso chapéu de chuva. Cruzei-me, então, com dois homens que vinham conversando debaixo dos seus chapéus de chuva. Ao passarem por mim, um disse: 'a chuva é mesmo uma coisa psicológica' e, com ar destemido e intrépido, fecharam os chapéus de chuva. Pensei cá para mim: '... É de homem!'.
Adiante.
Mesmo nestes tempos de desconfiança e incerteza, em que o futuro nos é atirado à cara todos os dias como um pecado ou um bem imerecido e em que todos os contratos são rasgados unilateralmente por este governo que nos desrepeita, a chuva pacifica, baptiza.
Estou a escrever e estou a senti-la, agora mansinha, aqui a fazer umas cócegas carinhosas na janela mesmo ao meu lado.
E por Chuva e por irmos passear até à praça, que tal irmos ao baile? Não é um baile qualquer, é um bailado e, por sinal, muito divertido. Uma festa em dias de cinza.
Rain - Kyiv (Kiev) Modern Ballet coreografia de Radu Pklitaru sobre música popular e sobre música de Bach
««««.»»»»
Tenham, meus Amigos, um belo sábado.
Com ou sem chuva, com ou sem poesia, com ou sem asas nos pés, com ou sem uma insustentável leveza nos pensamentos, sintam meus Caros, a alma lavada e a paz no vosso coração
Com ou sem chuva, com ou sem poesia, com ou sem asas nos pés, com ou sem uma insustentável leveza nos pensamentos, sintam meus Caros, a alma lavada e a paz no vosso coração
(Credo...! Ando zen é o que é, para escrever coisas destas. Oh senhores, mas que é isto...? Pareço uma beata ou uma betinha... Mas aguardem-me que não perdem pela demora: não tarda, apareço aqui, pronta para a guerra)