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domingo, outubro 19, 2025

Chega -- ou como a comunicação social portuguesa deu um megafone ao populismo
-- Uma reportagem da Al Jazeera --

 

Há aquilo da atracção pelo abismo. Penso que isso é o que está na base da vertigem: mais do que o receio de escorregar e cair é o receio de não resistir à atracção pela queda. Quando tenho pesadelos, é frequente passar por situações em que vou num sítio alto, escarpado, numa estrada estreitinha em que de um lado é o abismo e parecer-me que, dê lá por onde der, a queda será inevitável. É uma sensação horrível. Lembro-me de ser pequena e de descer por uma escada muito estreita, esculpida na rocha, para irmos para uma praia que apenas tinha esse acesso. Os meus pais gostavam de ter a praia só para eles e, de facto, estando lá em baixo, era maravilhoso, parte do paraíso parecia feita só para nós: lagoinhas nos buracos das rochas, limos, algas, lapas, mexilhões, pequenos caranguejos, aquele odor a maresia, tudo do outro mundo. O sol rodava e podíamos procurar a sombra, havia sempre um rochedo que nos dava o desejado abrigo. Mas, quando se aproximava a hora de subir, já eu ficava outra vez nervosa. Sabia que quando chegasse a meio da escada e olhasse para baixo, sentiria um formigueiro na planta dos pés, aquele desamparo, aquela antevisão de que os meus pés poderiam soltar-se, de que eu iria voar sem apelo nem agravo até onde o abismo me sugasse. Nunca aconteceu mas esse medo nunca me abandonou.

Essa mesma atracção pelo abismo parece ter a comunicação social portuguesa. É impossível que os responsáveis da informação dos diferentes canais não saibam que ao promoverem o Ventura da forma como o fazem de há vários anos para cá estão a levá-lo ao colo até ao poleiro a partir do qual ele pode fazer estragos. Sabem que estão a levar o país até àquela zona de sombra onde todos os perigos estão à espreita. E, no entanto, não resistem à tentação de lhe dar todo o palco que ele quer.

Há mérito nele, não o nego: consegue arranjar sempre motivos para ter coisas para dizer. Ou é candidato disto ou daquilo, ou quer lançar o repto ou quer responder ao repto, ou quer criticar ou quer ameaçar ou quer defender-se. Quer sempre qualquer coisa. E sempre que ele o quer, e ele quer sempre, há uma câmara e um microfone ao seu dispor. Um dia inventou um chilique e as televisões foram atrás da ambulância, outro dia diz que vai ao Entroncamento e uma jornalista enfia-se no carro com ele e outros vão em carros que filmam o seu carro. Haja o que houver, aí está ele a ocupar tempo da antena, a invectivar, a insultar, a vitimizar-se. Tudo anedotas, tudo absurdos. Interesse jornalístico de tudo isto: zero. E, no entanto, porque sabem que ele, qual concorrente histriónico do BB, dá canal, não o largam. Mais do que defender a democracia e honrar a liberdade, o que os canais querem (todos os canais!) é aumentar audiências. Custe isso o que custar.

O vídeo abaixo mostra uma peça da Al Jazeera English sobre o assunto, e ali está tudo: o percurso do Ventura, desde o tempo em que comentaca crimes e futebóis até aos dias de hoje em que parece o emplastro das televisões, sempre presente. Só que não está calado, está a poluir o espaço público e a atrair os ignorantes, os incultos, os broncos, os ressabiados, os tontos, a gente má, os saudosistas dos tempos do breu, os invejosos, os criminosos, os tarados. E porque toda essa gente gosta de ser ver representada por um da mesma laia e é isso que as televisões mostram, aí está ele, cada vez mais perto de fazer estrago a sério.

Chega: How Portugal's media gave populism a megaphone | The Listening Post

O partido de extrema-direita português, Chega, já esteve à margem da política nacional, mas agora faz parte do mainstream.

O líder do partido, André Ventura, tornou-se uma das figuras políticas mais reconhecidas do país. A sua ascensão foi impulsionada pela sua experiência na televisão e pela sua persona mediática cuidadosamente elaborada. O antigo comentador de futebol tornou-se um showman político.

E ele foi amplificado pelos grandes meios de comunicação do país, que procuram audiência em vez de responsabilização.

Colaboradores:

  • Miguel Carvalho - Jornalista
  • Inês Narciso - Investigadora de Desinformação, Iscte-Iul
  • Anabela Neves - Jornalista, CNN Portugal

 

Desejo-vos um belo dia de domingo

quinta-feira, fevereiro 01, 2024

Ser do contra
- A palavra ao meu marido -

 

O pessoal que afirma ir votar no Chega aponta dois motivos principais: "é contra isto tudo" e "isto está cada vez pior". E o mais grave é que estes dois argumentos tanto são apontados por quem não tem um baixíssimo nível de educação como por quem frequenta graus elevados de ensino e/ou é licenciado. Eu sei que um grau universitário não é sinónimo de formação, numa perspetiva de educação e conhecimento, mas, pelo menos, deveria ser suficiente para permitir distinguir  a verdade da mentira  e o razoável do impossível.

Os dois motivos apontadas para votarem no Chega resultam do consumo constante e quase exclusivo da informação partilhada pelas redes sociais que transmitem até à exaustão notícias falsas "plantadas" por quem tem interesse em promover ideias populistas, demagógicas e xenófobas.  Mas resultam também da promoção permanente pelas  televisões do "isto está tudo mal e pior que nunca". E, de facto, é mentira. Se os órgãos de comunicação social se preocupassem em fazer análises corretas dos indicadores de Portugal, constatariam que, ao contrário do que propagam, o País está muito melhor do que há 10 ou 20 anos. Mas, parece que o objetivo dos jornalistas e dos comentadores, sabe-se lá porquê, é apoucar-nos como Povo e como País. 

Mesmo quando se fala em corrupção, os relatórios internacionais situam-nos mais ou menos no meio dos Países da Europa e não como "reis" da corrupção como se quer fazer crer. Países com regimes autocráticos como a Hungria são, no referido relatório, classificados como muito mais corruptos do que nós. Algum órgão de comunicação social relevou esta comparação? 

As ações e intervenções do Prof. Marcelo também contribuíram significativamente para o "isto está cada vez pior". Esteve sempre pronto para, explicita ou sub-repticiamente, dar argumentos que fortaleceram este sentimento de que o Governo faz sobretudo coisas mal feitas pelo que isto está "cada vez pior". E, no entanto, crescemos 2,3% em 2023 o que nos compara muito bem com o resto da Europa. Ontem, nos noticiários que vi, a relevância que deram a esta notícia foi zero, embora, este crescimento seja muito relevante.

Mais dois pontos que gostaria de referir e que posso enquadrar neste tema. 

  • Os "profs" que, sempre que há um governo do PS, protestam que nem uns danados (recordo-me que, no tempo da troika, quando tiveram os cortes nem abriram a boca) faltam mais de dois milhões de dias por ano. E os sindicatos, aparentemente sempre tão preocupados com  a qualidade do ensino, não comentam? Ninguém fez mais para acabar com a escola pública do que os sindicatos dos professores e o seu guru Mário Nogueira. O que fizeram também foi um contributo para o "isto está cada vez pior". 

  • Os arguidos da Madeira foram detidos há uma semana e ontem ainda não tinham sido ouvidos. É mau de mais! A Justiça é de fato uma área que funciona mal e em que é preciso fazer alterações. Mas não são o tipo de alterações que os populistas querem. Curiosamente (ou não) nem sequer ouvimos o Prof. Marcelo, sempre tão interveniente, a falar nisso.

domingo, janeiro 14, 2024

A comunicação social e as mentiras do Ventura

-- A palavra ao meu marido --

 

Já aqui escrevi várias vezes que acredito que o crescimento do Chega resulta em grande parte da comunicação social levar o Ventura ao colo e da forma como o MP e a comunicação social tratam os processos ou pseudoprocessos que envolvem políticos e outras figuras mediáticas ou com poder.  

O Ventura não tem uma única proposta para o País, não diz o que faria sobre os diversos setores se fosse eleito. Cavalga o que vai mal, anuncia medidas populistas inconcretizáveis, mente e não tem uma ideia, nem aproximada, sobre o orçamento de Estado e muito menos sobre os custos  e proveitos que o compõem. 

No entanto, o que é que a comunicação social divulga sobre os discursos do Ventura? 

Divulga os sound bites, muitas vezes mentiras, sem se dar ao trabalho, que seria o verdadeiro trabalho de jornalista, de informar que o Ventura está a mentir. 

Ainda hoje, no Congresso, o Ventura avançou mais uma vez com um número sobre os gastos com a igualdade de género que já foi bastamente demonstrado que é mentira. No entanto, é um dos excertos do discurso que passa em tudo o que é notícia. O único jornalista que ouvi referir que o Ventura diz, impunemente, as mentiras que lhe apetece foi o Anselmo Crespo na cobertura que  a CNN fez do Congresso do Chega. Que raio de jornalistas e jornalismo temos que divulgam mentiras, que sabem que são mentiras, e não o referem?

Outra moda agora dos comentadores e jornalistas/comentadores é transmitirem a ideia que o Chega vai crescer muito nas próximas eleições. É mais uma ajuda para o Ventura porque  a ideia de vencedor angaria os votos de quem gosta de estar com quem vence. Seria útil que, de uma forma séria e isenta, a comunicação social tratasse o Ventura como ele merece. Se não me engano, uma análise correta das sondagens revela não haver nenhum crescimento exponencial do Chega.

O Ventura  e o Prof. Marcelo são um filão para  a comunicação social que temos. No entanto, não teriam interesse por aí além para a comunicação social de que precisamos.

Antes de terminar, ainda uma palavra para o Pedro Nuno Santos. Hoje veio com um discurso meio sem jeito sobre o governo do PS.  Assim, infelizmente, não vai longe. As pessoas querem abordagens simples e pela positiva. E reincidiu na conversa da empatia. Tem muito que aprender com o António Costa. O Pedro Nuno não se deve esquecer que, ao contrário de todos os PM anteriores, o António Costa sairá do governo com uma imagem bastante positiva. O António Costa é, aqui concordo com a maioria dos comentadores, o maior ativo do PS.

quinta-feira, janeiro 11, 2024

Sobre hospitais públicos e privados. Episódios. Histórias. E sobre o DN, o JN, a TSF, e o The Guardian, o Madame le Figaro, o Correio da Manhã Jornal

 

Nem valerá a pena a gente pôr-se para aqui a dissertar sobre as pregas e os plissados da vida. Não há nada de novo a dizer. Desde o início dos tempos que se sabe que, por fora, de repente, vê-se uma coisa mas, ao pé, com tempo, se percebe que há a parte que é ocultada pelos efeitos, e isto já para não falar nos avessos.

Tenho experiência de frequentar hospitais públicos e privados. Já passei noites no exterior sem saber nada dos doentes que tinham sido devorados pela dinâmica hospitalar, já andei entre macas onde gente grita e tosse e escarra e vomita e chora e grita, eu própria já passei uma noite e uma manhã no meio de gente em camas encostadas umas às outras, gente que gritava que estava a urinar-se ou outras cujas fraldas eram mudadas à frente de todos, onde os doentes mentais gritavam e choravam a noite inteira desestabilizando ainda mais a desgraça que ali se vivia. 

Já tive os meus pais internados em hospitais públicos e em hospitais privados.

A grande e terrível diferença está nas urgências e nos serviços de observação. Nos hospitais públicos que conheço a falta de espaço, a falta de meios e a falta de organização são gritantes e a dignidade dos doentes e o respeito pelos acompanhantes são totalmente ignorados. 

Uma vez internados, as diferenças esbatem-se. A disparidade que subsiste terá mais a ver com a privacidade, especialmente quando, nos privados, se está num quarto individual. Mas não tenho razão de queixa nos internamentos (dos meus pais) em hospital público. Para os doentes, em particular quando estão mesmo doentes, na prática nem dão muito pelo local nem se importam com existirem ou não frescuras.

Estar num hospital privado, em quarto individual, é quase como estar num hotel com todos os serviços incluídos. Sobretudo há a preocupação do serviço ao utente e à família. Há sempre alguém que atende o telefone, alguém que está disponível quando queremos uma informação sobre o nosso familiar ou um médico que nos explica a situação e as perspectivas. E isso faz muita diferença pois ter um familiar internado e não conseguir encontrar ninguém que nos informe cabalmente é frustrante.

Mas, como tudo, é relativo. E, sobretudo, é para quem pode pagar (sobretudo, que tenha um seguro com um grande plafond ou tenha ADSE e poupanças). 

Contudo, uma coisa é comum: o sofrimento de quem está doente e a angústia dos familiares.

Vejo muitas vezes os familiares de um doente internado na mesma ala da minha mãe, que está num hospital privado. Tenho impressão que estão lá quase todos os dias e, não sei porquê, estão muito na sala de espera. Vejo sempre um homem que talvez seja um pouco mais novo que eu. E vejo um rapaz e uma rapariga que presumo que sejam irmãos. Os jovens conversam, riem-se, outras vezes falam com ar sisudo, parecem reflectir e recebem e fazem chamadas. Parecem esquecidos do homem que imagino que seja o pai. Acho que nunca os vi a dirigirem-se a ele, nem nunca vi o homem a falar com eles ou ao telefone. O mutismo daquele homem faz-me muita impressão. Já calhou partilhar o elevador com eles. Os jovens conversando, o homem em silêncio, um ar muito triste. De vez em quando vejo-os a irem ao quarto mas pouco depois saem. Imagino que seja a mulher do homem e mãe dos jovens que esteja internada. Como nada sei, só posso presumir e, dada a ala que é e dado o pouco tempo que estão no quarto, presumo que a pessoa esteja maioritariamente a dormir o que nem sempre é muito bom sinal.

No outro dia falei de um homem que saiu e voltou pouco depois com um jovem que pensei ser o filho. São outros, não estes de que agora falo.

Mas a angústia dos que temem perder o seu ente amado é a mesma. Nada sei da história de cada uma daquelas pessoas que ali está internada. 

Cada um terá a sua história.

No outro dia, por alturas do Natal, num fim de semana, no átrio cá em baixo, o átrio vazio, três tias podres de betas falavam muito alto (como as ultra betas sempre fazem). Uma dizia que não ia subir e as outras duas: 'Olha agora...', 'Olha-me esta...!', 'Deixe-se disso, venha lá...'. E a beta zangona: 'Não vou! Depois do que ele disse, que não queria ver-me, acha que ia aparecer...? Nem pensar, né...?', e as outras: 'Esqueça lá isso, não ligue, venha lá...'. Nisto chegou um super beto, alto, porte real, pinta de beto de Restelo, Estoril ou Cascais, ultra-pintarudo: 'Atão? Temos reunião aqui em baixo?'. E as outras: 'Imagine que esta agora não quer subir...'. E ele: 'Ah essa tem graça, conte-me lá...'. E a beta azeda: 'Disse que não me quer ver. Acha que eu ia?' e as outras: 'E ela a dar... Ouça: esqueça. Venha lá.'. Face ao impasse, o betalindão sacou de um cigarro, fez um sorriso complacente de macho alfa e disse: 'Vocês entendam-se que eu vou até lá fora fumar um cigarro'. 

Entretanto, despachei-me da obtenção da credencial de acesso e subi enquanto o grupinho continuava naquela. Apesar de preocupada, achei um piadão.

São episódios que, mais betice ou mais pobreza, mais tristeza ou mais euforia (porque nem sempre os hospitais são locais de sofrimento, também são locais em que se nasce e em que as famílias vão em festa) pontuam sempre estes locais, fait divers com que podemos sempre distrair-nos das nossas preocupações. Os tais refegos que nem sempre se veem, que nem sempre têm relevância, mas que, de uma maneira ou de outra, fazem parte da vida daqueles locais.

Lembrei-me agora de falar disto pois, com este problema dos jornalistas com salários em atraso, tenho pensado na minha própria experiência como leitora e nas diferentes motivações que me animam quando procuro a imprensa.

Os tempos são outros, não podemos recuar aos tempos da fundação dos brilhantes títulos (DN, JN, etc) nem podemos, sequer, recuar aos tempos a seguir ao 25 de Abril. 

Falo por mim. Já não leio jornais em papel. 

E o jornal que mais leio é o The Guardian. De longe, é o jornal que, para mim, melhor cobre a informação sobre uma variedade alargada de temas que me interessam. E tem boas fotografias, vídeos interessantes. De longe, o que mais me agrada.

Depois, se me apetece a leveza, alguma fofoca, alguns temas sobre moda ou decoração ou culinária, vou para o Madame le Figaro. Há superficialidade, claro, mas há também elegância e diversidade. E também preciso disso na minha vida.

Há outros nos internacionais mas aqueles dois são os primeiros do dia e os que, mesmo quando não tenho tempo ou cabeça para nada, não passo sem espreitar.

Depois, nos portugueses, percorro, geralmente en passant (até porque, ao não ser assinante, metade não consigo abrir), o Expresso, o Público, o DN. Mas basta ver um que os outros geralmente não diferem muito. Um que agora gosto de espreitar é o CM. Desgraças e parvoíces. Mas acho uma certa graça pois há ali muito do submundo que tem muito da vida real, a vida que se vê nos hospitais públicos, nos locais onde a vida se pode ver despida de selfies e instagrams. Como também não consigo abrir os conteúdos pagos, não consigo ir ao detalhe. Mas fico estupefacta com os que se matam, se esfaqueiam, os que desaparecem, gente que vive anonimamente até que um dia vai parar a uma morgue, um homem de 180 kg que teve que ser retirado pela janela, por bombeiros, uma igreja à venda numa cidade. Coisas assim. Não leio artigos de opinião nem notícias que envolvam política ou coisa do género. Ainda assim, pasmo comigo mesmo. Mas sinto que tenho que conhecer melhor este mundo que é bem paralelo em relação àquele que frequento.

Fazendo agulha para o tema do momento, a crise mediática de momento. Lamentando muito o que está a passar-se com os trabalhadores do Global Media Group, tenho que dizer que, nos tempos que correm, ou há qualidade, diversidade, diferenciação ou não vale a pena. Não reconheço isso no DN e o JN nunca frequentei. A TSF foi durante muito tempo uma rádio de referência. Com a saída de Fernando Alves desapareceu a minha principal ligação à TSF.

Agora um aspecto quero referir: o que está mal, muito mal nisto é que empresas e marcas importantes sejam vendidas, quase às cegas, a fundos que ninguém conhece e que nada têm a ver com as empresas que compram, que estão ali apenas para ganhar dinheiro, seja por vender edifícios seja por dispensar pessoas, reduzindo custos, seja pelo que for e não para desenvolver o negócio. Depois de tantos exemplos nefastos de fundos opacos com capitais em offshores, como se explica que ainda se continuem a fazer negócios destes sem que nenhuma entidade valide previamente a lisura, a transparência, a legitimidade, o cumprimento fiscal, etc?

Penso que nada há a fazer, a nível público, para salvar estas empresas pois, a salvar estas, ter-se-ia que salvar todas as outras de qualquer outro sector, e não vejo que nem o DN, nem o JN, ou a TSF ou as outras do grupo sejam estratégicas para o país. Penso que o que há a fazer é apenas, e não é pouco, obrigar os accionistas e os gestores a cumprir a lei,  caindo a pés juntos sobre os prevaricadores.

Mas, caraças, que sirva de exemplo para:

 1- Negócios futuros, seja em que âmbito for. Tudo deve ser escrutinado antes de qualquer operação se concretizar,

 2 - Para o jornalismo que compreende que tem que se reinventar e apostar na qualidade e na diferenciação, senão inevitavelmente soçobrará.

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Desejo-vos um bom dia

Saúde. Alegria. Paz.

quarta-feira, junho 14, 2023

A espuma dos media

[De novo, a palavra ao meu marido]

 

A forma como as Televisões divulgam e tratam a informação revela uma cada vez maior falta de ética jornalística. Um jornalista tem que ser isento, verificar a veracidade das notícias e divulgá-las com objetividade e clareza. 

Se virmos os noticiários televisivos e os debates (excluo a CMTV porque não perco tempo com porcarias), o que constatamos é que não só os comentadores como os jornalistas debitam ideias pré-concebidas, independentemente da realidade dos fatos. 

O que a CPI da TAP tem proporcionado é um case study nesta matéria. 

Vou apontar dois dos vários exemplos que podia referir:

1) A versão do assessor é diferente da versão da chefe de gabinete, do ministro  e das testemunhas. Os jornalistas que ouvi e a maioria dos comentadores falam como se o assessor fosse o detentor da verdade e os outros uma cambada de mentirosos. Mas fazem este julgamento com que base? Tiveram acesso às conclusões de algum relatório secreto? A informação veiculada pelo assessor é mais fiável que  a transmitida por vários outros intervenientes? Ou quem tem alguma proximidade ao BE tem que ser tratado com benevolência e quem tem ligações ao PS tem que ser repudiado?

2) Após  a audição do Secretário de Estado Adjunto do Primeiro-Ministro, Mendonça Mendes, a comunicação social seguiu a versão do Chega, da IL e, parece-me que sobretudo numa primeira fase, do PSD e continua a afirmar aos quatro ventos que o que o Ministro Galamba disse não coincide com o que o Secretário de Estado afirmou. Ora, se analisarmos cronologicamente os factos, constatamos que: 

  • A Chefe de Gabinete reportou ao SIS, 
  • O Ministro referiu que contactou o Secretário de Estado e este informou-o que uma das entidades a contactar em casos semelhantes era o SIS, e que, quando transmitiu essa informação à Chefe de Gabinete, ela o informou que já tinha feito isso
  • O Secretário de Estado referiu que não foi por sugestão sua que o caso foi reportado ao SIS. 

A última afirmação do Secretário de Estado parece óbvia e verdadeira. Se o SIS já tinha recebido um reporte do sucedido antes dele conhecer o assunto, como é que poderia ser por sugestão sua o contato com o SIS? Parece que não oferece dúvidas.

Só uma enorme falta de discernimento ou a necessidade de distorcer os factos podem ter alimentado a comunicação social que continua a matraquear a tese da contradição. 

E a coisa está tão enraizada na cabeça dos jornalistas que na 2ª feira à noite, após o Paulo Pedroso explicar por a mais b, creio que duas vezes, que as versões do Ministro e do Secretário de Estado não seriam contraditórias, o João Adelino Faria voltou-se para o Miguel Poiares Maduro e voltou a afirmar exatamente a mesma coisa: ou o Ministro ou o Secretário de Estado mentiram. 

Se os jornalistas se derem ao trabalho de revisitar a audição do Secretário de Estado verificarão que a Catarina Martins, honra lhe seja feita nesta matéria, percebeu de imediato que não havia contradição nas duas versões. 

No mesmo programa o Miguel Poiares Maduro fez uma afirmação sobre a defesa do Clinton no caso Mónica Lewinsky que não corresponde à verdade. Admito que tenha sido apenas um lapso. Não que seja muito relevante para o caso em apreço mas, em abono da verdade, o jornalista deveria ter corrigido até porque serviu a Miguel Poiares Maduro para defender a sua tese das meias verdades e das meias mentiras, quando, neste caso, parece não haver qualquer mentira.

Muito haveria também a dizer sobre a falta de pluralidade nas escolhas dos comentadores pelos canais televisivos ou sobre a pseudo omnisciência dos pseudo comentadores, que quais Professores Marcelo, acham que têm capacidade para comentar tudo e mais um par de botas, sobre os pivots que não se coíbem de emitir opiniões desajustadas, sobre as linhas editorias que privilegiam partidos e individualidades que não gostam do PS, sobre a obsessão em noticiarem o que corre mal e o que traumatiza em detrimento do que corre bem e nos pode orgulhar, sobre servirem de correia de transmissão do MP seguindo a agenda deste. 

A prática de alguns jornalistas e geralmente dos responsáveis  pela informação dos três maiores canais televisivos de intervirem não relatando os factos mas opinando sobre quais devem ser as decisões a tomar,  é violadora do dever do jornalista de informar com isenção e não de opinar. Assim, torna-se difícil discernir se as notícias que transmitem são objetivas ou se estão a "desfocar" a realidade para esta corresponder àquilo que entendem como "correcto". 

terça-feira, maio 09, 2023

Marcelo, os Chornalecas e a dupla Ventarina (ou Catatura).
E, para desopilar, 5 momentos divertidos da Coroação

 

Por cá isto está a ficar estúpido. Agora é o Bloco e o Chega -- que coincidentes que eles estão --, os dois ainda numa de caça ao Galamba. Não há pachorra. Nunca achei graça a gente que gosta de mastigar comida já mais que mastigada. E os chornalecas (nome que doravante darei a todos quantos andam por aí a querer fazer-nos crer que são jornalistas) lá continuam atrás da dupla Catarina e Ventura como se dali alguma vez pudesse vir solução para algum problema. Pelo contrário, inventam problemas para não haver tempo para alguém prestar atenção às soluções.

Temos depois o fake new Marcelo. E é fake new porque é novo coisa nenhuma. Toda a vida assim foi. Moderava-se para parecer que estava acima da carne seca, mas agora não aguentou mais. Aquela de o Costa ter mostrado que os tem no sítio e que não é um badameco com medo das bocas do comentador-mor desestabilizou-o. Furibundo e descontrolado, não apenas deixou que o verniz se lhe estalasse em público, mostrando que é pouco leal, dado a apedrejamentos públicos sobre quem parece que está caído na rua, dado a sacrificar o sentido de Estado em prol dos seus pessoalíssimos estados de alma, com uma educação que se tem mostrado algo duvidosa, agora resolveu que está bem é ao lado dos chornalecas do Correio da Manhã e de braço dado com a dupla Ventura & Catarina, dupla -- que, parafraseando o grande Markl --, se pode designar por Ventarina ou, caso prefiram, Catatura.

Promulga um diploma e aproveita para incendiar os sindicatos e, en passant, dizer mal do Governo. Anda por aí com os chornalecas atrás e, como quem não quer a coisa, diz mal do Governo, lança farpas e cascas de banana a este e aquele. Menino mais ressabiado, mais irreflectido, este puto Marcelo. A continuar assim, teremos todos que disfarçar a vergonha alheia que começaremos a sentir.

E, de que me dê conta, nada de esperto por cá acontece.

Portanto, como isto por cá está meio triste, meio sem jeito, vou antes deslocar-me para palácios onde os seus habitantes têm melhores maneiras.

Vou, então, rescaldar a coroação 

1.

Gente prevenida. Para um just in case, levaram duas Camillas sobressalentes 

💪

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2.
Não apenas espetaram com o Harry na 3ª fila como puseram, à frente dele, a fofa e cavalona ti-tia, a cuja transportava farfalhuda pena no barrete, quase de propósito para o ofuscar. 
👌

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3.
74 anos à espera deste dia e, afinal, quando chegou o grande dia ainda, Sua Majestade ainda não tinha decorado a meia dúzia de palavras que tinha que dizer  
😕

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4.
E, vá lá saber-se porquê, houve gente que compareceu sob disfarce. Houve quem dissesse que este aqui abaixo, à direita, era a Meghan. Mas também houve quem suspeitasse que era malta que a seguir ia tentar fanar as jóias da Coroa
😎

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5.

Um cavalo com vontade própria, coisa mailinda. 

👀


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Um dia bom
Saúde. Bom humor. Paz.

domingo, novembro 13, 2022

Sniper, grávida, unhas pintadas -- a extraordinária coragem e graça das mulheres ucranianas

 

Com a vida de pantanas, sem conforto, certamente com medo, é espantosa a força anímica das mulheres ucranianas. De todos os ucranianos, aliás, sejam mulheres ou homens. Mas agora centro-me nas mulheres. 

Há as mulheres em aldeias recônditas que percebemos serem humildes e que, quando os jornalistas conseguem falar com elas, nos aparecem assustadas, chorosas, contando que têm vivido escondidas, com pouco que comer, quase sem água, sem luz, as casas destruídas, familiares desaparecidos ou mortos. Sobreviventes. Mães e avós coragem.

Mas depois há as que vivem em meios mais urbanos e que nos aparecem vibrantes, arranjadas, cabelos pintados, unhas pintadas, olhos pintados. Podem viver em prédios meio destruídos, podem também não ter electricidade à noite, mas mantêm-se combativas, confiantes. Algumas são guerreiras. Melhor: todas são umas guerreiras pois, com a sua força e energia, ajudam-se mutuamente a não se entregarem nem ao inimigo nem ao desespero ou desalento. Mas algumas pegam mesmo em armas. 

Os repórteres mostram-nas valentes mas graciosas, sorridentes mas determinadas, prontas para defender com unhas e dentes a integridade do seu território. Travam com a sua vida o avanço de Putin, esse fascista assassino, e, com a sua força de vontade, ajudam a defender, em conjunto com os seus concidadãos ucranianos, o direito a viver em paz e liberdade no seu país, na sua fértil Ucrânia. E defendem a paz na Europa.

Estas que aqui aparecem são verdadeiramente extraordinárias. Casam-se, engravidam e mantêm-se mulheres de armas, focadas em defender o seu país, em reconquistar a soberania plana.

Sniper Dubbed 'Ukrainian Joan Of Arc' Shares What Saved Her Life

In Ukraine, 31-year-old female sniper Evgenia Emerald tells Newsy’s Jason Bellini the story of the best and worst day of her life. Both happened on the front.

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Field tool for female Ukrainian soldiers amazes Amanpour

More than 50,000 Ukrainian women are under arms with the fight against Russians. CNN's Christiane Amanpour goes to a volunteer hub that is helping make the uniforms customized for women and sending other supplies to the front lines.


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Desejo-vos um bom dia de domingo
Saúde. Elegância. Paz.

domingo, setembro 25, 2022

O que diz Yevgenia Albats

 

No vídeo abaixo, Yevgenia Albats, corajosa jornalista russa, diz a Anderson Cooper o que pensa do que está a acontecer no seu país. 

De uma forma ou de outra todas as vozes lúcidas convergem, dizendo o óbvio. Putin é um dead body que mata sem piedade por motivos fúteis, mentirosos, pretensamente imperialistas mas, na verdade, mal calculados, mal engendrados, e que inflige morte aos ucranianos e aos russos numa luta irracional e criminosa que é tão mais tresloucada quanto mais sente que a sobrevivência lhe foge. 

Putin sabe que o que está a fazer ao seu país, impondo a guerra, forçando a guerra, agudizando a guerra, querendo forçar os homens do seu país a ser carne para canhão, só poderá ter um desfecho e, cobardemente, tenta, a todo o custo, atrasá-lo mesmo que, por cada dia que o consegue atrasar, muitas vidas sejam sacrificadas.

O mundo civilizado não lhe perdoará os crimes, os violentos atentados, o sangue e a dor que tem estado a causar. Mas, de entre todos, quem mais quer travá-lo e quem mais o odiará para todo o sempre serão os próprios russos. 

Milhares fogem como e para onde podem, outros, corajosos, vão para a rua manifestar-se, outros tentam partir os próprios braços para não serem alistados. 

Esta guerra cruel e miserável não vai acabar bem para ninguém pois ninguém sai bem de uma guerra. Mas vai acabar ainda pior para Putin, esse bandido que age à margem da lei, que mostra que não tem coração nem razão.

Russian journalist Yevgenia Albats says Putin knows he's losing

Um bom dia de domingo

Saúde. Luz. Paz.

sábado, setembro 24, 2022

Um monstro frágil, um 'dead man walking'

 

Tem um inconfundível barrete cor de laranja (que tem uma história associada), tem um ar patusco, tem uma bela e respeitável barba quase branca, tem uma franqueza destemida e tem a experiência e o traquejo de quem já viu e investigou de tudo um pouco.

John Sweeney foi ontem entrevistado e fala abertamente sobre o desfecho que, face ao que está a passar-se na Rússia, antevê para Putin.

John Sweeney Declares Putin 'Is In Trouble' Because Ukraine War Is "Not Popular" In Russia | GMB

'Putin's in trouble. I think that down the track Putin is a dead man walking.' John Sweeney says Putin 'is in trouble' because 'he hasn't sold this war to the Russia people' and so it is not popular in Russia.



sábado, agosto 13, 2022

Quanto menos soubermos, melhor dormimos

 

Ontem à noite comecei a ler e hoje, ao fim da tarde, li mais um bom bocado. David Satter explica como o que o que se passa na Rússia parece difícil de perceber se for olhado à luz dos valores ocidentais mas que, se soubermos o que é a prática corrente do Kremlin ou de como Putin conseguiu estabelecer-se com o crescente poder que o trouxe até aqui, acabaremos por identificar a repetição de um padrão. 

Um conjunto de crimes em larga escala, prédios destruídos durante a noite levando à morte de centenas de pessoas inocentes, atentados que têm como objectivo lançar o terror na população, atribuindo a culpa a cidadãos de um país, criando o ambiente de aceitação para a invasão que irá, depois, ser levada a cabo -- técnicas urdidas a frio. Depois o afastamento ou a a eliminação de quem poderia dar com a língua nos dentes.

Nos corredores do Kremlin, entre a seita que ele lá mantém, as pessoas são mera matéria prima para manobras que têm vários objectivos sendo que nenhum deles parece razoável e moralmente aceitável.

Corrupção, favorecimentos, comportamentos oligárquicos -- um regime que, para sobreviver, tem que abafar a revolta, a resistência. E, para isso, todos os meios são admissíveis. 

Olha-se de fora e vê-se ausência de escrúpulos, ausência de moral, ausência de humanidade, olha-se e vê-se um bando de terroristas, de criminosos. E vê-se também a cobardia dos fracos que, pela força, pela mentira, pela manipulação, pela tirania, detêm o poder de matar indiscriminadamente.

O livro saiu agora por cá mas já tem uns sete anos. Ou seja, na altura ainda se estava longe de saber onde a deriva psicopata de Putin e da sua entourage iria levar. As práticas e os crimes descritos, apesar de serem assustadores, são uma pálida amostra do que estaria para vir.

E o diagnóstico não difere por parte de quem conhece e estuda a realidade da Rússia de Putin. Veja-se o vídeo abaixo.

'O monstro frágil': o autor descreve o carácter de Putin

Journalist and author of "Killer in the Kremlin" John Sweeney argues that while Russian president Vladimir Putin is "pathologically enthralled to violence," his strategy in Ukraine is failing

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terça-feira, junho 21, 2022

Um presente para os amigos de Putin

A Rússia de Putin: a síndrome do ditador e o crescimento de um 'estado mafioso'

 

Os desagradáveis amigos de Putin têm a particularidade de serem tão boçais e cruéis como ele. Volta e meia aparecem por aqui para deixar o seu visco. De vez em quando, excepcionalmente, publico um ou outro comentário para que fique bem visível a sua má índole. Mas, de modo geral, vão para o caixote do lixo que é onde estão bem. 

Se o Putin invade países e os destrói até que não reste pedra sobre pedra e até que não reste um único opositor, os amigos de Putin ofendem, insultam -- e penso que apenas não maltratam fisicamente aqueles que condenam as invasões e agressões porque isto da internet apenas lhes permite fazer sangue virtual.

Têm ainda uma desconfortável particularidade: frequentemente dão erros ortográficos. E isso maça-me um bocado. 

Claro que nem toda a gente é obrigada a saber escrever e, para além do mais, por vezes a pessoa distrai-se e as letras saem-lhe trocadas. 

Mas com alguns amigos do Putin parece que é coisa recorrente, quiçá até endémica: é gente que não gosta dos outros, que não gosta da democracia, que não respeita a lei, que despreza a liberdade e que, ainda por cima, não gosta da língua portuguesa. Do piorio, portanto.

Por isso, ao partilhar aqui o vídeo do Guardian sobre a pérola que é o Putin e sobre o maravilhoso regime putinista, já estou à espera que os cobardolas e hipócritas -- que, desejando a rendição de um país independente às mãos de um regime ditatorial, oligárquico, corrupto e cruel, se pintam de branco para fingir que querem a paz -- aqui apareçam para me insultar.  

Mas que venham. Make my day. 

Quantos são, quantos são...?

E reparem como sou subtil. Poderia enfeitar o texto com ilustrações das paulas, das anas, dos miguéis, tiagos, filipes, jerónimos, pachecos, lúcios ou estátuas desta vida. Mas não. Fico-me por artistas de outro campeonato, gente fina como Trump, Bolsonaro ou Kim Jong-un, tudo grandes apoiantes de Putin. Olé.

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Um breve preâmbulo: o vídeo não é apenas interessante. Tem um atractivo suplementar: o sotaque de Irina Borogan, jornalista russa que fala inglês quase como os franceses do saudoso Allô, allô!

Putin's Russia: dictator syndrome and the rise of a 'mafia state'

O correspondente do Guardian, Luke Harding, narra os momentos decisivos no início da presidência de Putin que ajudaram a transformar a Rússia num 'estado mafioso' – desde a repressão da comunicação social independente, até assassinatos chocantes e o surgimento de movimentos democráticos pró-ocidentais na vizinha Geórgia e Ucrânia

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E, caso queiram deixar cair uma lagriminha e, ao mesmo tempo, refrescar a mente e pegar um jazzinho, recomendo que se deixem descair até ao post já aqui abaixo.

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sábado, março 26, 2022

Um dia normal junto à última fronteira -- com apontamentos variados à mistura

 

Mais uma vez o meu dia foi longo e apenas consegui aterrar no meu sofá a seguir às onze da noite. Na véspera tinha dito que a sexta ia ser tranquila pois tinha uma única reunião agendada. Mal tinha acabado de dizer isso arrependi-me. Na volta, com o tempo, estou a tornar-me supersticiosa. Felizmente, a superstição só se dá com coisas meio parvas. Uma que dou como certa é que, mal digo que uma coisa não vai acontecer ou que há muito tempo que não acontece, é certo e sabido que vai acontecer. Não sei explicar mas sei que acontece. Falar nas coisas pela negativa parece que atrai, uma atração de tipo dispensável.

O certo é que aconteceu: tive uma sexta-feira do caraças, sem sossego. Telefonemas em contínuo, chatices, problemas que se embrulham uns nos outros. Pedem-me soluções e eu, tantas vezes, sem saber bem como ou, mesmo, apetecendo-me é tréguas, é pôr-me a milhas. Mas não fujo: corto a direito, passo por cima de pruridos e sensibilidades e digo de minha justiça. Por vezes, sinto que estou a tornar-me mais dura. E, mal acabo uma, quando quero pensar no que acabei de decidir, já está a surgir nova situação. 

Mas houve um telefonema bom. Telefonaram-me para me agradecer uma decisão. Palavras muito simpáticas de uma pessoa muito simpática e genuína. Por uma vez, um telefonema que acabou com 'um beijinho muito grande'. Agradeci de coração mas, ao mesmo tempo, por dentro, estava a pensar que entre beij'inho' e 'muito grande' havia uma contradição de termos. Claro que não disse nada. Imagina se ia dizer: 'Peço desculpa mas, se é beijinho, tem que ser 'muito pequenino' ou, se é para ser grande, tem que ser beijão' -- ia quebrar o momento e lançar a confusão. A semântica e a lógica às vezes só atrapalham.

Tinha pensado ir ao supermercado mais cedo mas, afinal, só consegui ir mais tarde. Pior: tive que ir sozinha. Quando vou numa de turismo com necessidade apenas de kefir ou de coisas para a sopa, é bom, passeio, vejo as novidades. Agora, quando é avio a preceito, prefiro companhia. Mas não deu. O meu compagnon de route estava ainda mais metido em trabalhos que eu.

Mal saí do carro, logo a fera veio de lá de trás a correr, a ladrar, chegando-se todo feliz, de pé junto ao portão, a dar ao rabinho. Ainda do lado de fora, fiz-lhe festinhas, disse-lhe miminhos. A instrutura bem se zanga: 'Não o mime tanto... Se quer mesmo dar-lhe mimo, primeiro dê-lhe uma ordem para ele a seguir sentir o mimo como uma recompensa.' Mas esqueço-me. Um ser tão exuberantemente feliz com a minha presença precisa forçosamente de uma recompensa e, para ele, a melhor recompensa é a minha atenção e mimo. A instrutora avisa-me: 'Assim, ele não vai sentir necessidade de ser obediente pois já sabe que recebe mimo de qualquer maneira...'. Percebo. Mas pode a gente regatear ou negociar afecto junto de quem se gosta? 

Bem. 

Depois do supermercado ainda houve muitas coisas. O meu marido queixa-se, não conseguimos ter descanso. Não sei que coisa é esta, parece que atraímos afazeres e compromissos.

Agora já passa da uma da manhã, já é sábado. E ainda tenho o cabelo molhado. Na volta, vou dormir assim o que não dá jeito nenhum. Não tenho paciência para ir secá-lo. Nunca seco com secador, não tenho paciência. 

Entretanto, estive a ver as notícias e os blogs. De vez em quando há algum que tem palavras que chegam até mim ainda a latejar e fico com vontade de enviar o meu apoio ao seu autor nem que seja, pelo menos, para que saiba que as suas palavras me tocam. O meu apoio ou um abraço. Mas não o faço. Não sei bem porquê mas não o faço. Parece que penso que é melhor guardar distância, ver e ouvir de longe, não correr o risco de dizer palavras a mais ou a menos. A vida é uma coisa incompreensível.

Alguns blogs têm a caixa de comentários fechados. É o caso do blog de Eduardo Pitta. Gosto de ler. É sempre conciso, focado. Gostei bastante de ler o que ele hoje publicou. Por isso, tomo a liberdade de transcrever quase na íntegra.

A ÚLTIMA FRONTEIRA

Estamos todos a pagar a factura da nossa indiferença face à anexação da Crimeia pela Federação Russa em Março de 2014. Quando isso aconteceu, fazendo tábua rasa do direito internacional, a Europa e a administração Trump assobiaram para o lado. O que está em jogo na Ucrânia é o nosso futuro como civilização.

Trinta dias de confronto deram origem a seis milhões de deslocados no seu próprio país, quatro milhões de refugiados no Ocidente, meio milhão de deportados para a Rússia, milhares de civis mortos, corredores humanitários atacados à bomba, cidades destruídas, tráfico de seres humanos, crise económica planetária, etc. Kiev ainda não caiu. Só cairá se a Rússia adoptar a solução final. Se isso acontecer, a NATO intervirá. Não pode ficar de braços cruzados como ficou há oito anos.

Um dia saberemos o que levou Putin a supor que a invasão da Ucrânia seria um remake da libertação de Paris, em Agosto de 1944, quando os franceses receberam os militares americanos com flores, beijos e canções. Quem terá convencido Putin dessa ilusão?

A “operação especial militar” que visava “desnazificar” a Ucrânia foi prevista para durar umas horas, porque, julgavam os idiotas de todos os matizes, a chegada do primeiro tanque ao Donbass levaria Zelensky a fugir para o Ocidente e a população ucraniana a receber os “libertadores” em triunfo. Nada disso aconteceu. A Ucrânia resiste, a Ucrânia vai continuar a resistir, para desgosto dos “pacifistas” que apelam à capitulação de um Estado soberano.

(...) 

E, como sempre, procurei notícias e explicações ou apontamentos que me ajudem a perceber como atingiu tamanhas proporções a chacina que Putin empreendeu e que se, por um lado, arrasou lugares, matou gente e empurrou para outros destinos milhões de pessoas, a verdade é que, estranhamente, à parte a força bruta dos bombardeamentos, no terreno demonstram amadorismo, desmotivação, desgoverno.

Partilho alguns vídeos que me parecem dignos de registo.


Ukrainian family: 11-year-old girl shot in face by Russian soldier

Terrified Russian soldier tells gran he wants to ‘get the f*** right out of’ Ukraine

A TERRIFIED Russian soldier has told his gran he wants to “get the f*** out” of Ukraine and expected the war to be over in two weeks.

The unnamed soldier was heard speaking in an intercepted telephone call home that has been released by the Ukrainian government.

Vladimir Putin’s troops have been hit by plummeting morale after the quick victory promised by the tyrant has turned into a bloodbath in the face of fierce Ukrainian resistance.

At the start of phone call, a woman asks the soldier “God, when will this end” to which he replies that his situation is “scary granny”.

He then says that his “whole brigade was smashed” and that “I don’t know how God saved me”.

“To be honest with you I would get the f** out of here right now and I don’t care,” the soldier tells her.

“The main thing is to survive the hell. We thought everything would be over in two weeks. It’s been almost a month already.”


Mounting Deaths Make Russian Censorship Of Ukraine War Harder To Maintain

Joshua Yaffa, correspondent for the New Yorker, talks about how Russians would react if they knew the truth about the war happening in their name in Ukraine, and the question of whether Vladimir Putin can continue to keep Russians in the dark.

Gen. McCaffrey: Russia Has ‘Lost Command And Control’

Retired Four Star General Barry McCaffrey and former consultant to the FBI’s Counterterrorism Division Clint Watts discuss the Russian army struggling with logistics, communication, and resources.
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As fotografias provêm do Guardian

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Desejo-vos saúde, boa sorte, paz e felizes reencontros

quinta-feira, março 24, 2022

Christiane Amanpour versus Dmitry Peskov --
Uma mulher que tem tudo no sítio: cabeça, coração e o mais que importa quando se confronta um farsante com as suas mentiras e cumplicidades com um assassino em série.

 

Noutros tempos talvez eu falasse da composição do novo governo ou do meu agrado por ver mais mulheres que homens, por ver nomes de grande competência, por ver nomes que surpreendem. Mas estes são tempos estranhos e, por isso, digo apenas que acredito que vai correr bem. Apenas uma reserva: não sou grande simpatizante de Fernando Medina; mas as razões para isso talvez sejam de somenos face ao que se lhe exige. Tirando isso, há lá grandes nomes, a começar pela Mariana Vieira da Silva e a acabar em Elvira Fortunado. Portanto, boa sorte à nova equipa e bora lá para a frente, bora lá a tornar Portugal ainda melhor.

De resto, tenho a dizer que hoje estive a conversar com um jovem muito ligado à igreja e, familiarmente, com proximidade a um membro de um governo africano com ligações à Rússia. 

Bodies are buried in a mass grave on the outskirts of Mariupol, Ukraine. Photograph: Evgeniy Maloletka/AP

Nunca tinha falado com ele sobre política. É um jovem com trinta e poucos que gosta de música, que pratica desporto e muito activo na igreja, trabalhando com grupos de outros jovens. Pois bem: ao conversarmos sobre o que está a passar-se na Ucrânia, não consegui ouvir-lhe uma palavra de condenação em relação a Putin, uma única. De cada vez que eu mostrava a minha revolta pela chacina, ele vinha com a conversa típica dos que, acima do repúdio pelo assassínio em massa que os russos estão a levar a cabo, têm uma grande aversão à Nato. E, se queremos saber de que acusam a Nato, não sabem exactamente e enrolam-se em conversas abstractas e acusações pretéritas -- dizendo qualquer coisa que desvie a atenção da destruição feroz que Putin está a levar a cabo. Fiquei muito admirada. Conclui que os vínculos familiares e as afinidades com governantes de um país apoiante da Rússia estavam a falar mais alto mas fiquei chocada pois parece que isso era mais relevante do que a sua ligação à Igreja. Julgava eu que alguém tão ligado à prática religiosa ficaria chocado, esmagado, revoltado com tanto sofrimento. Mas não. Nem uma palavra sobre isso.

Fiquei perturbada com a conversa. Parece que ainda não estou refeita.

Agora, enquanto escrevo, estou a ver na RTP 3 uma interessante entrevista do Vítor Gonçalves ao Vítor Cotovio, psiquiatra. Mesmo muito interessante. A quem não viu, recomendo que, se possível, a veja. Caracteriza muito bem quer Putin quer Zelenskyy.

Entretanto, estive a ver os vídeos das últimas 24 horas. E, como sempre, a Amanpour, essa mulher de armas. Directa, sem dar abébias, sem meias palavras, atenta ao que os outros dizem, sempre com a observação ou a pergunta certa. Uma profissional de mão cheia.

No vídeo abaixo, Dmitry Peskov, porta-voz do Kremlin, cuja filha se demarcou publicamente da guerra, repete a propaganda putinesca. Mas, apesar de manter afivelado aquele sorriso meio apalermado que o caracteriza e se limitar a papaguear uma conversa que pode colher dentro de uma Rússia informativamente às escuras mas que, no mundo normal, é incompreensível e absurda, tenho para mim que estava francamente atrapalhado e envergonhado. Christiane Amanpour não o poupou mas o palerma também não desarmou. É gente presa pela barriga, habituaram-se ao luxo. Mas, não fora isso, e talvez Dmitry fosse o próximo Anatoly Chubais.

Partilho o vídeo pois não apenas é um documento interessante como me parece um exemplo a seguir pelos nossos jornalistas.

CNN's Christiane Amanpour presses Russian spokesman Dmitry Peskov on the Russian invasion and whether they are achieving their objectives in Ukraine


Para esclarecer Dmitry, o pateta sorridente:

CNN military analyst: 'This is just war criminality'

CNN Pentagon correspondent Barbara Starr reports the US government is currently assembling evidence to potentially present a war crimes case in an international court. CNN military analyst Maj. Gen. James "Spider" Marks (Ret.) breaks down the current strategy of the Russian armed forces, arguing it can only be described as "war criminality."

Saúde. Boa sorte. Afecto.
PAZ

terça-feira, fevereiro 04, 2020

Nas esquinas do vislumbre. Na imensidão do deslumbre





No domingo, fizeram directos para mostrar um avião num aeroporto em Marselha. Depois fizeram directos para mostrar o avião a aterrar em Lisboa. Se isto tem interesse para alguém eu não sei. A mim só me faz pensar que está tudo maluco. Mesmo que o avião estivesse cheio de macacos aos saltos ou de freiras a espirrarem e a assoarem-se às saias umas das outras não era caso que justificasse filmar um avião num aeroporto antes de levantar voo ou a aterrar. Nem mesmo se as freiras saíssem do avião todas nuas e às cavalitas dos macacos era caso para fazer directos do Figo-Maduro ou do Ameixa-Amarela. Não há pachorra.

À hora de almoço, depois de longas conversas sobre os pobres portugueses que vieram da China e que, apesar de estarem sãos como pêros e os exames negativos, estão no isolamento, ouço um senhor com voz de chinês e que, afinal de contas, era mesmo chinês, a dizer que entre eles, comerciantes chineses, se tinham organizado e havia casas para quem viesse da China constipado. E eu, que volta e meia, me sinto não apenas beige como completamente burra, pensei cá para mim: mas espera lá, então andam a filmar aviões que trazem vinte portugueses saudáveis mais o corpo diplomático em peso e mais uma brigada de médicos e enfermeiros e caguam para os chineses que chegam da China? (E não, não disse cagam, disse caguam que, como é bom de ver, não é a mesma coisa). E, quem diz chineses, diz todo o resto da malta que chega, directa ou indirectamente, vinda da China? Para esses não há corpo diplomático ou isolamento? Pelos vistos, não. E a jornalista, que têm orgasmos sucessivos com o frisson das notícias sobre os não-infectados, não estabelece a liaison entre os cuidados intensivos com uns e os descuidados desintensivos com outros? Não, não estabelece. 

E eu, face a isto e face à histeria desta gente que me parece mentecapta, desligo-me das notícias e sigo para a música. Abençoada música. Abençoada, abençoada.

De tarde, vinda do trabalho, no carro, ponho na TSF a ver que guerra é que se desencadeou enquanto eu estava a ter uma tarde agradável rodeada de juventude, ouço um comandante a explicar como é que um avião haveria de se portar para não se despenhar. Pensei: caraças, anda para aí um avião prestes a abrir um buraco no chão. Afinal não. A coisa já se tinha dado e nada tinha acontecido de mal. Mas isso não demoveu a TSF: não aconteceu mas podia ter acontecido. Caraças para este jornalismo que adora cadáveres, cheiro a decomposição, anúncios de tragédias. Nem imagino o festim que terá sido nas televisões. 

Não suporto. Caraças, não suporto mesmo. Não há notícias boas? Nada acontece de bom neste mundo? 

Agora chego aqui e vejo que morreu Steiner. E fico sem reacção. Pena em primeiro lugar. Mas, logo a seguir, intimamente penso que as pessoas que vivem das palavras, de escrever, de ler, de opinar, devem chegar a um ponto em que só lhes apetece o silêncio, a ausência de palavras. Como a Agustina. Se eu fosse como eles, haveria de chegar a um ponto em que haveria de me apetecer não me pronunciar ou ler ou escrever palavra que fosse. Só música, música com muitos silêncios dentro que é como deve ser a boa música, de preferência a dos pássaros quando estão lá muito em cima, distraídos da vida, e degustar chá quentinho, e olhar, e semicerrar os olhos devagar, e sentir o perfume das flores, e passar a mão pela macieza de uma capa de veludo, e sentar-me em frente a um muro branco e ver as sombras e a cor da luz a mudar ao longo do dia, de todos os dias do ano. Steiner devia ter, imagino eu, vontade de descansar a cabeça, dar-lhe tréguas da luta com as palavras. E, de resto, pode alguém ficar cá eternamente? Para quê prolongar a existência quando a qualidade de vida já é apenas uma triste sombra do que foi? Portanto, Steiner morreu, viva Steiner. A sua obra fica, independente dele.

E siga o andor.

E, tirando isso, o que posso dizer é que vinha no carro e vinha também a pensar que tempos houve em que a esta hora, aqui sossegada na sala, estava a bordar grandes carpetes de arraiolos, com desenhos que me punham a cabeça em água, desenhos miudinhos, réplicas de grandes tapetes do século dezasseis e dezassete que estão em museus. Gostava tanto. Os desenhos iam nascendo. Depois os desenhos iam aparecendo cheios de cor. Bordava horas a fio, a juta enchendo-se de lã colorida sobre as minhas pernas. Outras vezes estava a pintar, pintava até de madrugada, incapaz de parar, um frémito de emoção e liberdade a percorrer-me o corpo. Ou a ler, a ler pela noite adentro. Porque me dá agora para aqui estar em vez de estar a fazer qualquer dessas coisas? Não sei. Tenho vontade de pintar. Tenho a tela ali atrás, tenho ideia das cores que quero usar, tenho uma vaga ideia das formas. Recuso-me a pensar para não aprofundar a ideia pois gosto é de me deixar surpreender pelo que nasce na tela, independente da minha vontade. E tenho também ali atrás uma carpete incompleta e a vontade que, por vezes, tenho de me voltar pôr a bordar não sei explicar. As saudades, as saudades que tenho.

Saudades de não estar aqui a escrever. 

E, no entanto, quando vinha a pensar nisto, ocorreu-me começar a escrever uma história e, logo ali, começou a forjar-se o que ela seria mas, quando me meto nisso, é tão absorvente, deixa-me tão pouco espaço para o resto, parece que a gente que ali nasce ganha vida própria e eu mal posso esperar todos os dias para aqui chegar e deixar que vivam como gente de verdade. Por isso, evito. Mas faço bem evitar? Ou é irrelevante? Acho que sim, acho que é irrelevante, na verdade o mundo está cheio de ruído e lixo e mais vale é que estejamos sossegados, que eu esteja sossegada: zero waste.

E agora vou mesmo sossegar. Hoje estou em dia de silêncio.
Tremem-me as mãos para ir fazer aquele tom de azul que não me sai da cabeça, um azul a meio tom, meio violeta, meio secreto, meio indefinido e, depois, matizá-lo com fios dourados. Tremem-me as mãos para deixar a mão voar na tela sem que eu saiba o que ela vai fazer. Depois, quando a mão tiver praticado a liberdade, deixá-la escrever sobre mistérios, enigmas, longos espaços abstractos e silenciosos, deixar que seres sem nome e sem rosto habitem esses perigosos lugares sem geografia. Mas não vou fazer nada disso.
Vou simplesmente suspender as palavras. Vou descansar. Vou deixar que o silêncio percorra o seu caminho dentro de mim.

Vou deixar que, na escuridão da noite, novos mundos me visitem na imensidão do deslumbre.


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As fotografias são da autoria de Uldus Bakhtiozin

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A todos desejo um dia bom