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quinta-feira, junho 27, 2024

Adélia Prado, o feliz Prémio Camões 2024

De vez em quando fico mesmo contente com o Prémio Camões do ano. Este ano foi uma dessas escolhas felizes. Como bem sabe quem por aqui me acompanha, Adélia Prado tem uma voz que muito me agrada. Gosto de escritas desarrumadas, espontâneas, em que as vísceras e as mãos e tudo fala para que as palavras se ajeitem, seja em prosa seja em poesia. Parece que escreve o que lhe ocorre, sem preocupação em 'fazer bonito'. Se calhar até é uma escrita burilada, não faço ideia, mas sente-se que as palavras vieram motu proprio, ninguém as chamou. Escolheram-se umas às outras, e imagino que ela pare para perceber se fazem sentido e, se à primeira vista, parecem não fazer, acredito que ela as deixe lá estar na mesma pois, se não faziam sentido, passarão a fazer.

Já aqui o tenho confessado. De leitora assídua de poesia, agora ando mais distante. Parece que, na actualidade, a poesia perdeu a genuinidade, perdeu o viço, há muita banalidade, muita coisa disparatada sem ponta por onde se pegue.

O meu marido, pouco ou nada dado a poesias, há pouco ia a passar e ouviu na televisão a notícia do Prémio Pessoa. Perguntou-me: 'Essa não é aquela de que gostas muito?'. Disse-lhe que sim. Ele confirmou: 'Uma que escreve umas coisas que não fazem sentido...?'. Confirmei. 

Justamente. A beleza de uma escrita assim está na capacidade de escrever o que os outros não dizem, na originalidade de escrever o que a mais ninguém ocorreria dizer, ou, pelo menos, dizer dessa forma.

Tenho na minha secretária um livro dela. Tenho na mesinha ao lado do cadeirão que está ao lado da janela uma pilha de livros e um deles é dela. Tenho no parapeito da janela ao lado do sofá em que estou outra pilha de livros e um deles é dela. De vez em quando parece que sinto vontade de ler uma coisa inédita. É que posso ler muitas vezes o que ela escreveu que me parece sempre inédito.

Que Prémio Camões tão bem dado, tão feliz.

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No meio da noite

Acordei meu bem pra lhe contar um sonho:
Sem apoio de mesa ou jarro eram
as buganvílias brancas destacadas de um escudo.
Não fosforescia nem cheirava nem eram alvas.
Eram brancas no ramo, brancas de leite grosso.
No quarto escuro a única visível coisa, o próprio ato de ver.
Como se sente o gosto da comida eu senti o que falavam:
«A ressurreição já esta sendo urdida, os tubérculos
da alegria estão úmidos vão brotar sinos».
Doía como um prazer.
Vendo que não mentia ele falou:
as mulheres são complicadas. Homem é tão singelo.
Eu sou singelo. Fica singela também
Respondi que queria ser singela e na mesma hora,
singela, singela, comecei repetir singela.
A palavra destacava-se novíssima
como as buganvílias do sonho. Me atropelou
— O que foi? — ele disse:
— As buganvílias…
Como nenhum de nós podia ir mais além,
solucei alto e fui chorando, chorando,
até ficar singela a dormir de novo.

Adélia Prado, Bagagem

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Documentário Adélia Prado: uma mulher desdobrável


Adélia Prado - a vida é mais tempo alegre do que triste



Adélia Prado, a simplicidade de um estilo


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Salve Adélia Prado

quarta-feira, maio 22, 2019

Chico e o seu jeito manso de amar a Teresinha
-- e, para além da Teresinha e de tantas outras mulheres, a língua portuguesa, a bem amada língua portuguesa.
Salve, amigo Chico Buarque, grande Prémio Camões 2019.





Já o contei muitas vezes: devo o nome deste blog à canção do Chico 'O meu amor'.

Faz já algum tempo, num certo sábado, tínhamos estado a ouvir as canções do Chico quer cantadas por ele quer pela Bethânia, canções que bem conhecíamos. Eu tinha levado para ouvirmos no carro e, depois, à chegada, apeteceu-nos continuar a ouvir e levei o CD para casa. E ali ficou a tocar. 

Como por vezes acontece quando ouve canções de que gosta, o meu marido passou o dia a cantarolá-la e eu também, entoando-a nós com a malícia que a letra pede. Às tantas, cantávamos ao despique. 

Sempre gostei especialmente de quando a Teresinha diz:

O meu amor
Tem um jeito manso que é só seu
E que me deixa louca
Quando me beija a boca
A minha pele toda fica arrepiada
E me beija com calma e fundo
Até minh'alma se sentir beijada, ai

ou
O meu amor
Tem um jeito manso que é só seu
De me fazer rodeios
De me beijar os seios
Me beijar o ventre
E me deixar em brasa
Desfruta do meu corpo
Como se o meu corpo fosse a sua casa, ai

Quando, nessa noite, resolvi experimentar ver como se fazia um blog e tive que lhe dar um nome, foi sem pensar que me saíu 'um jeito manso'. 

Por vezes, ocorria-me que, como título de blog, 'um jeito manso' não fazia grande sentido mas a verdade é que sentia que o nome se me tinha colado. E até comecei a achar que, na volta, até fazia sentido. E assim foi ficando.

Tenho, pois, essa grande dívida ao Chico. Essa e muitas outras. Gosto muito das suas canções e da forma como as canta. Ainda não li as razões da escolha para Prémio Camões. Pode ser que tenha também a ver com os seus livros. Mas eu, em relação ao Chico, é pelas suas canções que mais me deixo encantar.

E há tantas.

Por exemplo, a sua Geni.


Ou as suas Mulheres de Atenas


Ou a ternura de João e Maria (aqui apenas a letra)



Ou tantas outras.

Claro que também pode ter recebido o Prémio pela cor dos seus olhos. E, se foi por isso, também terá sido muito bem dado pois quem tem uns olhos assim, cheios de mar, merece de certeza o prémio Camões.


Também pode ter sido por saber gostar de mulheres e por saber dizê-lo com tão bom gosto, mesmo quando escreve poemas de mulheres escritas na primeira pessoa.


Para acabar, uma de que muito gosto, aqui justamente cantada por uma mulher.
Elis Regina canta Tatuagem



Chico, muitos parabéns pelo Camões 2019. Salve.

sexta-feira, junho 09, 2017

Alegre Camões





Para as letras portuguesas o Prémio Camões é um prémio maior. Através da atribuição do Prémio Camões conheci Raduan Nassar ou Dalton Trevisan. Fiquei felicíssima quando o prémio coube a Hélia Correia ou Manuel António Pina.


Confesso que hoje, ao regressar a casa, no carro, ouvindo Manuel Alegre a ser entrevistado sobre um prémio atribuído mas, tendo perdido o início da conversa e não percebendo que prémio era, nunca me ocorreu que fosse o Prémio Camões. Certo que o ouvi falar em poesia camoniana mas, ainda assim, não tocou em mim qualquer campainha.


Não quero com isto dizer que ache que a decisão foi injusta (e quem sou eu...?) ou não aprecie a sua poesia. Aprecio alguns dos seus poemas e, a esses, aprecio bastante. Contudo acho-o um pouco irregular e, sobretudo, penso que nele a toada poética lhe é tão natural que, com alguma frequência, se encosta ao efeito fácil e os poemas lhe saem algo falhos de significado, apenas revestidos a efeito fácil.

Mas uma coisa não lhe nego e talvez isso não seja negligenciável: Manuel Alegre sabe apelar à emoção -- aliás, mais do que apelar, ele sabe provocar a emoção -- porque usa com mestria a palavra para que, dentro de nós, ressoe o sentido eco, vibre a insinuante melodia.

De resto, confesso também que, entre a poesia em que existe uma harmonia elegante e aquela em que abunda uma sucessão desconexa de palavras com pouco conteúdo e nenhuma simetria fonética, prefiro a primeira.

Dito isto, percebe-se que não fiquei com aquela esfuziante disposição que aqui me faria atirar jubilosos foguetes como aconteceu quando alguns dos anteriores foram contemplados.


Mas, apesar disso, porque é um trovador e porque venera a democracia e a liberdade e porque ama e embala com ternura a língua portuguesa, porque tem uma bela voz que ora envolve as suas palavras em veludo ora as empunha(va) como armas erguidas ao vento, acho que temos que estar contentes por ser um português a ganhar o prémio e por esse português ser ele.

Há tempo para que outros o ganhem; nomeadamente, espero que um dia seja Maria Teresa Horta a premiada já que, para mim, de entre os poetas de língua portuguesa vivos, é talvez das maiores. Mas, por ora, não quero pôr-me com reticências ou comparações -- que são sempre espúrias -- e sinceramente festejo a atribuição do Prémio Camões 2017 a Manuel Alegre. 


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As Mãos - poesia dita por Manuel Alegre sobre música de Carlos Paredes



[Lá em cima, no início, era Dois Sonetos de Amor]
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Senhora das tempestades e dos mistérios originais 
quando tu chegas a terra treme do lado esquerdo 
trazes o terremoto a assombração as conjunções fatais 
e as vozes negras da noite Senhora do meu espanto e do meu medo. 
  
Conjugação de fogo e luz e no entanto eclipse 
trazes a linha magnética da minha vida Senhora da minha morte 
teu nome escreve-se na areia e é uma palavra que só Deus disse 
quando tu chegas começa a música Senhora do vento norte. 
  
Escreverei para ti o poema mais triste 
Senhora dos cabelos de alga onde se escondem as divindades 
quando me tocas há um país que não existe 
e um anjo poisa-me nos ombros Senhora das Tempestades. 
  
Senhora do sol do sul com que me cegas 
a terra toda treme nos meus músculos 
consonância dissonância Senhora das vozes negras 
coroada de todos os crepúsculos. 
  
Senhora da vida que passa e do sentido trágico 
do rio das vogais Senhora da litúrgica 
sibilação das consoantes com seu absurdo mágico 
de que não fica senão a breve música. 
  
Senhora da hora solitária do entardecer 
ninguém sabe se chegas como graça ou como estigma 
onde tu moras começa o acontecer 
tudo em ti é surpresa Senhora do grande enigma. 
  
Tudo em ti é perder Senhora quantas vezes 
Setembro te levou para as metrópoles excessivas 
batem as sílabas do tempo no rolar dos meses 
tudo em ti é retorno Senhora das marés vivas. 

[Excertos de 'Senhora das Tempestades' de Manuel Alegre, Prémio Camões 2017]

  
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Trova do vento que passa 


(Poema de Manuel Alegre, música e interpretação de Adriano Correia de Oliveira)



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[Fotografias feitas a semana passada ao fim na praia]

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E parabéns ao Manuel Alegre, um poeta que honra a língua portuguesa. 

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segunda-feira, junho 06, 2016

Na cama





Por uns momentos lá no quarto nós parecíamos dois estranhos que seriam observados por alguém, e este alguém éramos sempre eu e ela, cabendo aos dois ficar de olho no que eu ia fazendo (...)

(...) e eu ia e vinha com os meus passos calculados, dilatando sempre a espera com mínimos pretextos, mas assim que ela deixou o quarto e foi por uns instantes até o banheiro, tirei rápido a calça e a camisa, e me atirando na cama fiquei aguardando por ela já teso e pronto, fruindo em silêncio o algodão do lençol que me cbria, e logo fechava os olhos pensando nas artimanhas que empregaria (das tantas que eu sabia), e com isso fui repassando sozinho na cabeça as coisas todas que fazíamos, de como ela vibrava com os trejeitos iniciais da minha boca e o brilho que eu forjava nos meus olhos, onde eu fazia aflorar o que existia em mim de mais torpe e sórdido, sabendo que ela arrebatada pelo meu avesso haveria sempre de gritar "é este canalha que eu amo", e repassei na cabeça esse outro lance trivial do nosso jogo, preâmbulo contudo de insuspeitadas tramas posteriores, e tão necessário como fazer avançar de começo um simples peão sobre o tabuleiro, e em que eu, fechando minha mão na sua, arrumava-lhe os dedos, imprindo-lhes coragem, conduzindo-os sob meu comando aos cabelos do meu peito, até que eles, a exemplo dos meus próprios dedos debaixo do lençol, desenvolvessem por si sós uma primorosa atividade clandestina, ou então, em etapa adiantada, depois de criteriosamente vasculhados nossos pêlos, caroços e tantos cheiros, quando os dois de joelhos medíamos o caminho mais prolongado de um único beijo, as nossas mãos em palma se colando, os braços se abrindo num exercício quase cristão, nossos dentes mordendo ao outro a boca como se mordessem a carne macia do coração, e de olhos fechados, largando a imaginação nas curvas desses rodeios, me vi também às voltas com certas práticas, fosse quando eu em transe, e já soberbamente soerguido da sela do seu ventre, atendia precoce a um dos seus (dos meus) caprichos mais insólitos, atirando em jatos súbitos e violentos o visgo leitoso que lhe aderia à pele do rosto e à pele dos seios, ou fosse aquela outra, menos impulsiva e de lenta maturação, o fruto se desenvolvendo num crescendo mudo e paciente de rijas contrações, e em que eu dentro dela, sem nos mexermos, chegávamos com gritos exasperados aos estertores da mais alta exaltação, (...)


(...) e eu ali, de olhos sempre fechados, ainda pensava em muitas outras coisas enquanto ela não vinha, já que a imaginação é muito mais rápida ou o tempo dela diferente, pois trabalha e embaralha simultaneamente coisas díspares e insuspeitadas, quando pressenti seus passos de volta no corredor, e foi só o tempo de eu abrir os olhos pra inspecionar a postura correcta dos meus pés despontando fora do lençol, dando conta como sempre de que os cabelos castanhos, que brotavam no peito e nos dedos mais longos, lhes davam graça e gravidade ao mesmo tempo, mas tratei logo de fechar de novo os olhos, sentindo que ela ia entrar no quarto, e já adivinhando seu vulto ardente ali por perto, e sabendo como começariam as coisas, quero dizer: que ela de mansinho, muito de mansinho, se achegaria primeiro dos meus pés, que ela um dia comparou com dois lírios brancos.



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Do livro foi feito o filme

Um Copo de Cólera (1999)
- realizado por Aluízio Abranches com Alexandre Borges, Júlia Lemmertz 


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O texto em itálico é um excerto do capítulo 'Na cama' do livro Um copo de cólera da autoria de Raduan Nassar, Prémio Camões 2016.

As fotografias que escolhi para ilustrar o texto são da autoria de Jeff Dunas

Lá em cima Brad Mehldau interpreta Secret Love. As fotografias do vídeo pertencem ao filme O Paciente Inglês

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E aceitem, por favor, o meu convite e desçam até ao post abaixo que fala de cartas e no qual, em concreto, se pode ouvir uma carta muito tocante.

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quinta-feira, julho 09, 2015

Esta é a ditosa língua, minha amada - grande discurso de Hélia Correia ao receber o Prémio Camões. [E a mais recente sondagem que dá o PS a distanciar-se, e a Lagarde a defender a reestruturação da dívida da Grécia e, para aumentar a barafunda, nails de gel e sei lá que mais]


Eu conto. Cheguei a casa quase às dez da noite depois de um dia de trabalho em que nem tive tempo para pensar na morte da bezerra. Agora, aqui em casa, já estive a preparar a valise para amanhã de manhã me pôr a caminho. Dois dias fora. E acabei de ver que preciso de retocar o verniz. Retocar não, tenho é que retirar o anterior e aplicar uma camada nova. E agora arranjei um novo que tem um gel que se aplica por cima, para simular as nails de gel. Vamos ver se resulta. Vejo lá as raparigas todas com unhas enormes, super-coloridas, super-grandes, super-brilhantes -- e eu completamente banal. Então, no outro dia, li não sei onde que há estes conjuntos de verniz+gel e que isto seca rapidamente, não requer nada daqueles apetrechos das super-manicuras. Numa corrida à hora de almoço, dei um salto à Sephora. O difícil foi a côr. Só gosto de me ver com cores neutras e só lá tinham pink, verde, azul, cinzento, preto. Mas afinal isto era na marca que eu tinha dito. Pedi produto idêntico mas de uma marca qualquer desde que em tom nude. Trouxe l'Oréal e ainda me saíu mais barato. Bem, vou parar para me atirar ao assunto.

Pronto, já está. Parece igual aos outros mas se calhar é esta luz que não deixa ver bem. Pode ser que, daqui a nada, à luz do dia, me deslumbre com as minhas próprias maravilhosas nails.

Enquanto estou nisto, vejo as notícias na televisão: o PS finalmente numa rota ascendente nas sondagens. 


Pode ser que estejamos perante uma tendência estável e que, a partir de agora, seja assim, milho a milho, até que o eleitorado demonstre que acredita no PS. Pelo que ouço, o pessoal odeia o Passos Coelho e as suas políticas mas ainda não se revê nas políticas do PS.
É isso: o PS tem que sair da casca e começar a afirmar-se. Se arranjar uma mão cheia de gente qualificada e credível que saiba expôr o que defende, de uma forma clara e assertiva (vejam-se as excelentes prestações televisivas do Embaixador Seixas da Costa, como ontem referi), num ápice o distanciamento do PS face aos malfadados PaFs se acentua. 

Agora estou a ouvir outra coisa extraordinária: a sempre bronzeada (com ar quase esturricado) Lagarde afirma que a solução para a Grécia tem que, forçosamente, passar pela reestruturação da dívida. Oh la la.

Sempre quero ver o que vão agora dizer o Láparo, a Marilú e o Nuno Melo: que a Lacoisa é defensora dos relapsos desta vida? 
Ai, as cambalhotas que os seres destituídos se vêem forçados a dar. Mas nada garante que percebam que as dão, provavelmente cambalhotam, rebolam-se e pinoteiam sem sequer perceber que o estão a fazer. Tudo é possível. Ou então, dão por isso e acham que nós é que somos burros, pois, depois das cambalhotas trapalhonas, não é raro aparecerem a gabar-se de que fizeram um elegante pas-de-deux. Aliada à falta de inteligência vem neles a falta de vergonha.

Bem. Adiante. Tenho que ir ao que interessa que se faz tarde.

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Em primeiro lugar, quero dizer que recebi com grande tristeza a notícia da morte do meu professor de Grafologia, o querido Dr. Alberto Vaz da Silva de quem aqui falei no outro dia. Vão partindo. Vão voando para outro universo. Fica-nos a memória e o carinho que sentirmos quando nos lembrarmos deles.


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Em segundo lugar, quero aqui deixar o extraordinário discurso de Hélia Correia ao receber o Prémio Camões. 



Hélia Correia discursa ao receber o Prémio Camões - com um vestido azul e uma echarpe branca, as cores da Grécia


Σμυρνέικο Μινόρε - Σαβίνα Γιαννάτου - Primavera en Salonico - Smyraean Air 
Savina Yannatou


É um discurso longo e sei bem que a blogosfera é mais lugar de toca-e-foge do que de textos que nos envolvem como uma longa túnica. Não quero saber. O Um Jeito Manso é um lugar onde as palavras reinam, delas é todo o espaço que queiram ocupar. E as palavras de Hélia Correia merecem mais, muito mais do que todos os espaços onde a língua portuguesa seja amada e respeitada.





O peso destes nomes curvaria gente bem mais robusta do que eu, não fosse o caso de a leveza ser o primeiro atributo de um escritor. Aliás, quanto mais os frequentamos, menor pavor inspira a sua sombra.

Não venho aqui como parceira mas como íntima, como alguém mais ligado pelo amor do que por ambições identitárias. Com Luis de Camões passeio em Sintra, enquanto ele espera o jovem rei que anda pelos bosques, enfeitiçado, já um pouco ensandecido. E a ligação aos meus contemporâneos, Sophia e Saramago, Eduardo Lourenço, Maria Velho da Costa, Mia Couto, feita de encantamento e aprendizagem, toca-me infantilmente o coração quando me traz afinidades, uma flor de frangipani que esvoaça num jardim de Maputo, as palavras que não partiram com quem já partiu, uma tão querida voz ao telefone, uma carta enfeitada de papoulas. Estou com eles, não entre eles. E assim estou bem.

Devo falar de tripla gratidão: a gratidão aos promotores deste prémio ao qual foi dado o nome maior das nossas letras, a gratidão aos membros do júri que escolheram a minha escrita para tamanha dádiva, a gratidão a um acaso de nascimento que me deu como língua materna o português.

Também com gratidão evoco a tão citada, e mal, passagem escrita por Pessoa, aliás Bernardo Soares, pois que, achando-se escrita, e por ele escrita, me abre um certo caminho à ousadia: que amo mais a língua do que a pátria. Que me imagino armada, a defendê-la contra quem a quisesse aniquilar. As lutas pela independência que travámos deixam-me o arrepio de pensar que o português se perderia, se perdêssemos. Que morte há de ter sido a de Camões, julgando que morria com a pátria, isto é, com o lugar dos seus poemas!

Rodrigues Lobo formulou-lhe o elogio de maneira concisa e musical ("branda para deleitar, grave para engrandecer, eficaz para mover, doce para pronunciar, breve para resolver") durante a ocupação filipina. Os rumos da política eram uns, o castelhano em palácio havia muito que se fazia ouvir, mas essa língua da nação, tão acabada que sem esforço hoje a lemos, tão fadada para arrebatamentos de oratória como para a sátira, como para o lirismo, cultivando sem vénia a erudição para logo a seguir brincar com ela, essa língua era a grande resistente – não a expressão de um povo: a sua essência.

Faz agora oito séculos esta língua. É a prosa formal de um testamento que atesta a data. E prosas há tão belas naquele dealbar, tão saborosas ainda quando anónimas, que dir-se-iam um bom pressentimento sobre o tanto e o tão grandioso que depois ia ser escrito. Mas é na poesia que parece avistar-se um destino, no sentido não de fatalidade mas daquilo a que alguns chamam o talento colectivo e que talvez não passe de especial, convidativa variedade na fonética.

Fácil é para nós esta função de herdeiros de tesouro tão diverso e tão bem acabado, tão antigo e, no entanto, tão reconhecível. Enquanto noutras línguas a pronúncia se foi modificando, a ponto de uma rima do século XIX já não se efectivar passadas décadas, nós cantamos Camões sem que se torne necessária qualquer adaptação. Como se cada uma das palavras reconhecesse o seu momento de perfeição e nele se detivesse, porque o quis. O apetite pelos estrangeirismos, moderado que foi, não lhe fez mal. Incorporou-os elegantemente. Não me refiro às condições presentes, pois, do que ninguém sabe, ninguém fala. E ninguém sabe o que está hoje a acontecer.




Esta paixão pela língua portuguesa, que aqui confesso, cega não será, superlativa muito menos. Entendo-a rica, porque vem das boas famílias dos antigos e o que recebeu multiplicou. Mas nunca afirmarei que é a mais rica ou a mais bela do mundo. Cada povo verá no seu idioma mais virtudes que em idiomas alheios. Que a disputa, se a houver, seja festiva, pois que os idiomas não ocupam espaço e não geram rivais mas poliglotas. Anterior à festa, está, porém, aquilo que dizem História. E a História é bruta e territorial.

Para abordar o assunto do domínio da língua portuguesa sobre os povos são necessários delicadeza e conhecimento, inteligência e desassombro em dose máxima. Dou-me por incapaz e renuncio a uma tentativa de discurso. Sei, sim, que houve opressão e apagamento. Mas talvez não nos caiba desculparmo-nos pelos conceitos e acções de antepassados, visto que não nos assumimos legatários e o continuum moral já foi cortado. Algum dia teremos, quero crer, a congratulação como vingança.

As línguas são os únicos seres vivos que não têm origem natural. O erro humano pode prolongar-se, mesmo inocentemente, por descuido. O português carregará ainda alguma febre imperial no corpo e é natural que desconfiem dele. Mas acontece que a repressão é mecânica e a língua é biológica. Se chega às terras de outros povos na bagagem do colonizador, em breve sai e se desnuda e se alimenta, e adormece e procria. As armaduras ficam no chão, enferrujadas, podres. A formação orgânica progride.

Que desígnio será o seu, agora, se não o de trocar e conviver, isto é, integrar a plenitude, reconhecendo e respeitando a alteridade? Com os nossos instrumentos humanistas, seremos nós os capazes de "Medir", como escreve o Professor Eduardo Lourenço, "esse impalpável mas não menos denso sentimento de distância cultural que separa, no interior da mesma língua, esses novos imaginários"?

Como num pesadelo, não sabemos por que meio fomos dar a esta nova era de horror e de destruição. Umas são nossas velhas conhecidas, outras indecifráveis, por ausência de modelos anteriores. Não lhes antecipámos a chegada. Na Idade Média que nos ameaça não há cancioneiros nem reis-poetas. Na ditadura da economia, a palavra é esmagada pelo número. A matemática, que começou nobre, aviltou-se, tornando-se lacaia. Se a literatura salva? Não, não salva. Mas se ela se extinguir, extingue-se tudo.

O nosso mundo de sobreviventes está seguro por laços muitos finos. Eu vejo os fios que unem os textos nas diversas versões do português, leves fios resistentes e aplicados a construirem uma teia que não rasgue. Quando o angolano Ondjaki dedica um poema ao brasileiro Manoel de Barros, quando Mia Couto reconhece a influência que teve Guimarães Rosa na sua escrita transfiguradora e transfigurada pelas africanas narrativas do seu povo; quando a portuguesa Maria Gabriela Llansol  considera Lispector «uma irmã inteiramente dispersa no nevoeiro», vemos a língua portuguesa a ocupar - não como o invasor ocupa a terra, mas como o sangue ocupa o coração - um espaço livre, um sítio para viver, uma comunidade de diferenças elástica, simbiótica e altiva. Esta é a ditosa língua, minha amada.

Eu dedico este prémio a uma entidade que é para mim pessoalíssima, à Grécia, cuja voz ainda paira sobre as nossas mais preciosas palavras, entre as quais, quase intacta, a poesia. Dedico à Grécia, sem a qual não teríamos aprendido a beleza, sem a qual não teríamos nada ou, no dizer da Doutora Maria Helena da Rocha Pereira, "não seríamos nada".    

ζουν Ελλ?δα , zoun Elláda, viva a Grécia.



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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa quinta-feira. 
Desejo-vos tudo de bom, muitas alegrias, sonhos felizes.

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quinta-feira, junho 18, 2015

Hélia Correia, Prémio Camões - o reconhecimento de uma mulher das palavras e dos montes, dos sótãos e dos sonhos, da voz livre e desperta, do olhar de menina e do coração de fadinha






No outro dia vi-a outra vez. Ia sozinha, ligeira e com aquele passo levemente incerto dos pássaros quando caminham em pequenos saltos. Apesar da cara de menina, daquele corpo leve a que apenas parecem faltar as asas, reparei que estava um pouco mais velha. Depois pensei: mas que ideia, então o tempo não haveria de passar por ela tal como passa por mim e por toda a gente? 

Hoje, ao vir para casa, ouvi nas notícias que Hélia Correia tinha ganho o Prémio Camões e ouvi-a a falar, surpreendida, dizendo-se como que envergonhada por achar que estaria ali deslocada naquela galeria, já que tantos escritores trabalham tanto e que ela, menos assídua, senhora de obra escassa quando comparada com a de outros, ociosa (dizia-se ela), não se compara com esses. E falava com aquela sua voz leve, risonha, de menina.


Mas orgulhosa, contente, claro, é um prémio que tem o nome Camões e já atribuído a escritores tão ilustres, claro que sim.

E então ouvi que tem 66 anos e, se não tinha ficado surpreendida com as suas palavras, fiquei e muito com a sua idade. Na minha cabeça Hélia Correia teria ainda uns quarenta e tal, cinquenta e tal, talvez -- mas talvez, mesmo, que não tivesse idade. Afinal, estava enganada: o tempo não tem passado por Hélia Correia, ouvindo-a poderia ter 6 anos. 

Já aqui falei delas várias vezes.

Admiro-o muito, admiro a forma acutilante e firme quando se insurge contra as injustiças ou os atentados à liberdade e ao respeito pela dignidade humana (nessas alturas talvez tenha os tais 66 anos ou 666, é, nessas alturas, uma guerreira antiga que se agiganta.

E depois adoça-se, voa, parte para um mundo onírico e pode falar da Escócia de onde veio o seu sangue primordial, das montanhas verdes e frias, ou da Grécia onde a sua matriz intelectual se enleia.

E a sua escrita é densa, umas vezes, suave, outras, e embrenhamo-nos com ela em casas tristes e em florestas verdes e sentimos a doença nos corpos e o desejo e a dor pelas perdas, tantas, e voamos com as fadinhas, e sorrimos com os sorrisos dessa little people que habita reinos mágicos.

Fluida e bela a sua escrita que tem essas duas vertentes: por vezes os pés na terra, por vezes a cabeça na lua, nas nuvens, nos céus das lonjuras.

Que bem atribuído lhe foi o prémio Camões, que orgulho sinto por ela.

A palavra à querida Hélia Correia a quem daqui envio os meus entusiasmados parabéns. 

Para quê, perguntou ele, para que servem
os poetas em tempo de indigência?
Dois séculos corridos sobre a hora
em que foi escrita esta meia linha,
não a hora do anjo, não: a hora
em que o luar, no monte emudecido,
fulgurou tão desesperadamente
que uma antiga substância, essa beleza
que podia tocar-se num recesso
da poeirenta estrada, no terror
das cadelas nocturnas, na contínua
perturbação, morada de alegria;
 
A terceira miséria é esta, a de hoje.
A de quem já não ouve nem pergunta.
A de quem não recorda. E, ao contrário
Do orgulhoso Péricles, se torna
Num entre os mais, num entre os que se entregam,
Nos que vão misturar-se como um líquido
Num líquido maior, perdida a forma,
Desfeita em pó a estátua. 
De que armas disporemos, senão destas
que estão dentro do corpo: o pensamento,
a ideia de polis, resgatada
de um grande abuso, uma noção de casa
e de hospitalidade e de barulho
atrás do qual vem o poema, atrás
do qual virá a colecção dos feitos
e defeitos humanos, um início. 

Sim, falamos de sombras. Vendo bem,
incendiámos tudo: Alexandria
e os sábios, as mulheres. Incendiámos
o grande coração. Temos aos ombros
o apetrecho dos destruidores,
não a pólvora, não: essa arrogância
pela qual o ocidente se perdeu
...

Entrava justamente pelas janelas a primeira poalha da aurora e Filipe sentiu-se adormecer. Ouviu no pátio os cascos dos cavalos, o crepitar das rodas no cascalho. Brutas interjeições de incitamento dividiam os ares como um chicote e as gargantas das mulheres gemiam, culpando a noite que as envelhecera. O sedimento da melancolia, que as casas como esta depositam a velocidade pouco habitual, também viera amaciar o quarto, cobrir a laca branca da mobília com um ar saturado de impurezas.


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Hélia Correia fala do seu livro A Chegada de Twainy, ilustrado por Rachel Caiano, Relógio D'Água





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Os poemas pertencem ao magnífico A Terceira Miséria (poemas sobre a situação da Grécia).

O pequeno texto em itálico pertence ao conto A Compaixão que pode ser lido no livro Contos de Hélia Correia da Relógio d'Água

June Tabor interpreta Unicorns

Uma interessante entrevista a Hélia Correia -- intitulada É preciso que as pessoas saiam de casa, que se unam. O corpo faz falta  -- feita por Christiana Martins pode ser vista no Expresso

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segunda-feira, maio 27, 2013

Mia Couto vence o Prémio Camões 2013 - um prémio para a reinvenção da língua portuguesa. A mestiçagem e a poesia da língua de Camões em festa! Grande prémio para o abensonhador de estórias!



Mia Couto, quase a fazer 58 anos, moçambicano, biólogo e escritor
- e giro todos os dias!






Aurorava. O sol dava as cinco. As sombras, neblinubladas, iam espertando na ensonação geral. No topo das árvores, frutificavam os pássaros. Toda madrugada confirma: nada, neste mundo, acontece num súbito. A claridade já muito espontava, como lagarta luzinhenta roendo o miolo da escuridão. As criaturas se vão recortando sob o fundo da inexistência. Neste tempo uterino o mundo uterino. O céu se vai azulando, permeolhável. Abril: sim, deve ser demasiado abril. Agora, que a aurora já entrou neste escrito, entremos nós no assunto.




Toda a estória se quer fingir verdade. Mas a palavra é um fumo, leve de mais para se prender na vigente realidade. Toda a verdade aspira ser estória. Os factos sonham ser palavra, perfumes fugindo do mundo. Se verá neste caso que só na mentira do encantamento a verdade se casa à estória. O que aqui vou relatar se passou em terra sossegada, dessa que recebe mais domingos que dias de semana.




Não sou homem de igreja. Não creio e isso me dá uma tristeza. Porque, afinal, tenho em mim a religiosidade exequível a qualquer crente. Sou religioso sem religião. Sofro, afinal, a doença da poesia: sonho lugares em que nunca estive, acredito só no que não se pode provar. E, mesmo se eu hoje rezasse, não saberia o que pedir a Deus. Ou não se dará o caso de Deus ter perdido fé nos homens? Enfim, meu gosto de visitar as igrejas vem apenas da tranquilidade desses lugarinhos côncavos, cheios de sombras sossegadas. Lá eu sei respirar. Fora fica o mundo e suas desacudidas misérias.




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Os textos foram escolhidos ao acaso e são o início de três 'estórias abensonhadas', a saber 'O poente da bandeira', ' O cachimbo de Felizbento' e 'A velha engolida pela pedra' - um dos muitos livros abensonhados de Mia Couto.

As imagens são pinturas de Miguel Barceló, pintor espanhol que muito tem pintado África.

Referências anteriores no UJM ao novo Prémio Camões podem ser vistas aqui.

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(Ainda cá volto)

domingo, junho 10, 2012

Sobre o ciúme, sobre a traição - episódios de um casamento atribulado. A Bailarina Fantasista, segundo 'O Vampiro de Curitiba', isto é, Dalton Trevisan, Prémio Camões 2012


Música, por favor
Uma canção desnaturada - Chico Buarco e Elba Ramalho




- É amante da Helena. Confesse.
     - Confesso coisa nenhuma.
- Meu amor, por que nega? Eu perdoo.
     - Está louca, Elza.
- Faço nada. Só quero saber.


Ângelo deitado de pijama quando ela, tesoura na mão, chegou à porta.
- Sei quem é tua amante.
     - Então diga.
- É uma loira.
     - Quem te contou?
- A sortista.
     - Está brincando, Elza.
- Ela nunca se enganou. Disse que você sustenta essa loira. Por isso chega tarde em casa.
     - Mas eu não chego tarde. Sempre juntos à noite.
- O encontro de dia, não é? Mentir não adianta, meu bem.




Investiu contra ele, tesoura em punho. Elza era grande e forte, com dificuldade a desarmou.
- Sei que tem amante. Agora tenho certeza.
     - Outra sortista, não é?
- Não me faz carinho. Sem amante não seria tão indiferente.
     - Acha que posso te agradar, depois de tudo que me fez? Toda vez que entro em casa é uma cena. Se você me beija, reajo como homem. Mas ir atrás, tenha paciência, isso eu não posso.
- Nunca vi maior mentiroso.


Não o deixava atender o telefone, cheirava-lhe a roupa, revirava o paletó atrás de cabelo loiro. Em sobressalto, Ângelo despertado de sonho pavoroso. A luz acesa a, ao lado da cama, Elza afundava-lhe docemente a barriga com a ponta da tesoura.
- Não vai doer, querido. Nem vai sentir.
Soluçando, atirou-se ao seu peito, faminta de beijos.


Separados de comum acordo. Ela exigiu os filhos, a casa, o carro, uma mesada. Concordou e mudou-se para um hotel. Elza frequentava clube nocturno, procurava-o no escritório para contar do moço muito carinhoso - os outros não eram frios como ele. Ângelo ouvia quieto e calado.




Uma noite em que se dirigia, encolhido à sombra das árvores, do escritório ao hotel, um carro derrapou a seu lado, reconheceu os dois toques da buzina. Era ela, que o convidou a subir. Embriagada, saíu em corrida furiosa.
- Medo de morrer, meu bem?
     - Pode me matar, é favor.Mas um de nós tem de cuidar das crianças.
Os faróis acendiam um, dois, três olhos de bicho nocturno.
- Peça perdão do mal que me fez, seu miserável.
     - Tudo que quiser. Agora dirija como pessoa sensata.
- Você me dá pena, querido.
Com a violenta freada o carro quase capotou, ela o mandou descer. Obedeceu e, erguendo a gola do paletó, perdeu-se na estrada deserta. Os faróis assassinos a persegui-lo, mas não se afastou, disposto a morrer com dignidade.
- Suba, seu porco.




Sem discutir, subiu. Aquela noite dormiram juntos. Dia seguinte, escondido dos vizinhos, saíu bem cedo.

Para não pensar esqueceu-se no vício. Jogava noite inteira, bocejava no escritório. Caso discreto com uma viúva, a única mulher desde a separação.

Nos braços do amiguinho, Elza encontrou-o na boate. Aos gritos, rasgou o vestido da viúva, sacudiu-a pelo cabelo. Sem piedade os atormentava, jurando arrancar com as unhas o olho azul da outra. 




Mão arranhada no bolso, Ângelo voltou a ficar só.

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Música, uma vez mais, por favor
A vizinha do lado - Roberta de Sá


Um inferninho anunciou com estardalhaço a próxima atracção:

TÂNIA
BAILARINA FANTASISTA

No cartaz a fotografia colorida de Elza, quase nua: Estrela do bailado afro-brasileiro! 




Ao batuque do tambor, entre as piadinhas cruéis da canalha, saracoteava pobre imitação de hula-hula.

Desonrado, em desespero, Ângelo decidiu matá-la. Só o pensamento dos filhos o afligia. Foi à procura do sogro:
- O senhor não pode fazer nada? Ela me arruinou, ainda não está satisfeita. Se oferece aos meus amigos e ainda vem me contar.
     - Muita dó de você, Ângelo.
- Pedir à sua filha que me deixe em paz? Não viu no jornal o retrato nudista? Assim que recebe os amiguinhos.
     - Eu não tenho filha. Para mim é morta.
Abriu a gaveta da escrivaninha:
     - Tome este revólver e seja homem!
Ângelo apanhou a arma, foi até à morta.
     - Meu filho.
Virou-se em silêncio.
     - Se não matar aquela perdida... Quem te mata sou eu!
O revólver pesava-lhe no bolso, nunca dera um tiro. E gemia: Meu Deus, que será de mim? Rondou os clubes suspeitos, escondido atrás dos carros. 




Quando a viu, nos braços de um gordo, agarrou o cabo de madrepérola. Queria matar e queria morrer, mas não tinha coragem. Cabeça baixa, voltou lentamente ao hotel: era um manso.




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Este conto chama-se 'Bailarina Fantasista' e é da autoria de Dalton Trevisan.
Pertence ao livro 'Cemitério de Elefantes'. 

Como é sabido, Dalton Trevisan, 86 anos, é o Prémio Camões 2012 e este livro é, até agora, segundo creio, o único publicado em Portugal.

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Otto Lara Resende diz que 'ninguém sabe quem é Dalton Trevisan. Deus mesmo não sabe e nem por isso se impacienta'. Ele faz vida de 'severo anacoreta' na Rua Emiliano Perneta, em Curitiba, de onde regularmente envia ao seu editor algum novo original. 

Foi para escrever como escreve, 'cada vez mais embutido, no plano ínfimo, do seu território' (Otto Lara Resende), tratando o 'forte veio do erotismo' (Thomas Lask), intensificando 'o clima de humor negro e o grotesco da realidade' (Barbara A. Bannon), ávido de 'laconismo' narrativo e usando como mais ninguém o 'andamento em stacatto' (José Paulo Paes), 'meticuloso, um tanto obsessivo' (Emir Rodriguez Monegal), que Dalton Trevisan se refugiou no fundo da casa, portas fechadas à curiosidade dos caçadores do privado, sentado à secretária pelo menos cinco horas nos sete dias da semana. Entrevistas, deu duas ou três em toda a sua vida literária. Numa delas explicou que prosseguia um objectivo invulgar, o de fazer prosa como os japoneses faziam haikais.

Dalton Trevisan foi-se à eloquência e cravou-lhe a faca. Ironia, elipse, nenhuma cedência ao romantismo nem ao realismo mágico, aí estão outras armas brancas do escritor, afiadas à secretária-mesa-de-cela-monacal. Uma busca pela vivissecção?

Deus, na sua infinita misericórdia, desvia os olhos.


(Excertos do prefácio, intitulado 'Onde Deus volta a cara', da autoria de Fernando Assis Pacheco)

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Tenham, meus Caros leitores, um belíssimo domingo!