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segunda-feira, junho 23, 2025

Varrer, regar, ver esquilos, fazer conteúdos digitais

 

Quem se dá ao trabalho de ver os meus inconcebíveis vídeos no Instagram, para além de constatar um indiscutível amadorismo e uma total ausência de propósito, já deve estar farto do chinfrim que faço ao andar, pisando caruma, folhas secas de azinheira ou de eucalipto, bolotas ressequidas e tudo o mais que por aqui se junta. 

É certo que eu poderia -- e, se calhar, deveria -- aprender a editar os vídeos, retirar-lhes o ruído ambiente, cortar e colar bocados disparatados, etc. Mas, sinceramente, não ando com paciência para gastar tempo com isso. E, ao escrever isto, receio que achem falta de respeito da minha parte apresentar produtos de tão insólita falta de qualidade alegando falta de paciência para aprender e para editar. Porém acreditem: não é falta de respeito, é mesmo uma quase incapacitante falta de paciência. Pode ser que me passe... Um dia que leve mais a sério isto de fazer 'conteúdos digitais' (como agora sói dizer-se) talvez me leve a mim mesma mais a sério (e agora devia aqui inserir um emoji a piscar o olho e a deitar a língua de fora para que percebam que estou a pensar que está bem, está). 

Em contrapartida, tenho passado os dias a varrer em volta da casa. Só que a casa, ainda assim, tem um perímetro que vai lá, vai, e os calores dos últimos tempos têm feito o chão encher-se de folhagem seca. Por isso, é um trabalho insano, uma never ending story, uma cena à moda do sísifo. Até não há muito, com as chuvas, era musgo por todo o lado e até nascia erva das pedras. Agora está tudo seco e é o que se vê.

Lá por baixo, na extensão grande do terreno, não há como varrer ou impedir que os meus passos façam barulho ao pisar isso, mas, em volta da casa, até por razões estéticas ou de segurança, obviamente tem que ser tudo limpo.

Em tempos, tínhamos contratado um senhor da aldeia para tratar das limpezas e das regas. Vinha duas tardes (completas) por semana. Queixava-se, dizia que não chegava, dizia que era trabalho a tempo inteiro. Mas também não queríamos que isto fosse o palácio de versalhes, não era nossa ideia ter um jardim imaculado em volta da casa. Sobretudo, o que queríamos era que, ao fim de semana, não tivéssemos que nos preocupar com isso. Mas o senhor, para nos demonstrar que duas tardes (inteiras) por semana não chegavam, pespegava-se cá ao sábado. Nós a querermos estar descansados e à vontade e ele a cirandar por aqui, a chamar-nos para nos mostrar isto, a chamar-nos para nos perguntar sobre aquilo, uma seca de que não havia memória. Mesmo quando lhe dizíamos que íamos cá ter pessoas, ele não despegava. Aliás, parece que fazia questão em estar, em ver e ser visto. Ficávamos passados. Com muita dificuldade e cuidado para não o melindrarmos, acabámos por dispensá-lo.

Mas isto não se dá conta. Precisa mesmo de manutenção. O ano passado o meu marido contratou outro senhor da aldeia. Veio recomendado pelo vizinho do início da rua. Avisou-nos que ele bebia um copito a mais mas que era trabalhador e sério.

Chegávamos cá e estava tudo na mesma, com excepção de beatas por todo o lado. E não era das puritanas que rezam, eram mesmo das que podem pegar fogo. Queixava-se que era um trabalho ingrato, que vinha limpar e varrer e apanhar ervas todos os dias e que chegava ao fim de semana e o que tinha sido cuidado na segunda-feira já estava outra vez a precisar de ser limpo. O vizinho confirmava que o via andar por cá a trabalhar, que não era tanga. No fim, pagávamos horas que nunca mais acabavam e não se via nada de jeito, só beatas. Dizia que tinha cuidado, que as apagava bem. Mas eu não podia ver beatas por todo o lado, é coisa que me me complicava com o sistema nervoso. No conceito dele, os cigarros são para se deitar para o chão e parecia não perceber que não o deveria fazer. Acabámos por agradecer e, uma vez tudo pago, nunca mais lhe dissemos para vir.

Resultado, somos nós que tratamos do assunto. O meu marido reclama, diz que é trabalho a mais.

A mim não me custa. Gosto imenso de varrer. Aposto que para a minha cabeça é como se estivesse a meditar: não penso em mais nada. Ando completamente focada a varrer e fazer montes. O pior é que, depois, encher os sacos ou os carrinhos custa um bocado. Uso uma pá grande mas, às tantas, o meu marido pega ele naquilo e anda ele a recolher os montes, a transportá-los para a terra. E queixa-se. Diz que, antes de eu acordar, já ele andou a cortar mato ou a fazer outras tarefas e que, depois, eu não sei parar e varro este mundo e o outro e que não está para isso. Mas esta nossa dinâmica, de reclamarmos um com o outro, já tem barbas, ou seja, já não ligamos muito aos protestos um do outro.

Outra coisa que fica para mim é a rega. Gosto imenso de regar. Quem me acompanha aqui há muito tempo, recordar-se-á que já contei que, de início, investimos fortunas (salvo seja) em sistemas de rega mas que, quando cá chegávamos ao fim de semana, estava tudo roído. Os coelhos (ou outra bicharada) roíam tudo. O meu marido substituía e eles comiam. Desistimos. O meu marido decretou que o que sobrevivesse sem rega seria bem vindo, o que carecesse de cuidados, podia desaparecer à vontade. E assim foi.

Mas o que está mesmo em volta da casa, do lado da frente, tem que ser regado. Agora do lado de trás e dos lados (se bem que a casa, pela sua arquitectura, na prática não tem frente, nem lados, nem trás) nunca é regado.

E, no entanto, está tudo gigante. Só as laranjeiras, e estão à frente, é que estão raquíticas e vão acabar por morrer. Não deveriam ter sido plantadas, não se dão aqui, é impossível. Quando comprámos o terreno já cá estavam, e já eram infelizes. Trinta anos depois ainda sobrevivem... mas coitadas.

E hoje já andei a apanhar orégãos, amanhã já vou montar o estaminé do costume: lençol em cima da mesa da casa de jantar e eles espalhados em cima, a secar. 

Adoro. São perfumados, frescos. Bouquets graciosos, delicados e com a graça adicional de serem comestíveis.

O campo, para mim é uma mistura de mil sensações boas: os sons, os cheiros, a luz, a paz, o vagar, o contacto directo com a terra, com o trabalho simples. Maravilha maior. Não há cá férias em resorts, em turismos de habitação cinco estrelas, o que for: aqui é que a minha alma rural se sente bem.

E, ao fim do dia, enquanto estava ao telefone com a minha filha, ia ela a caminho de casa depois de umas belas férias abroad, e eu por ali andava de um lado para o outro, uma surpresa daquelas que me deixam a sorrir, com vontade de agradecer, com vontade de trepar às árvores a ver se me aceitam como uma deles: um esquilo a andar por cima de um banco, a trepar a um muro e depois a subir pelo tronco da azinheira sob a qual eu estava. Que bênção, que alegria. Eu com receio que eles tivessem desaparecido e, afinal, ainda por aqui andam. Este é mais escurinho do que os que eu tinha visto antes. Este era mesmo castanhinho escuro. Lindo, fofo, um rabo enorme, ao alto.

Estava a falar ao telefone, não consegui fotografá-lo. Mas acreditem, ainda por aqui andam. Provavelmente, enquanto ando a varrer, estão eles lá em cima a tentar compreender que animal é este que, cá em baixo, se entretém a fazer montes de folhinhas e bolotas (e pinhas que eles deitam para o chão depois de as roer). Esse animal sou eu que, tal como eles, vim de outras paragens para usufruir do privilégio de respirar este ar tão puro, para viver nesta paz tão mágica.

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Desejo-vos uma boa semana

Be happy

quarta-feira, março 23, 2022

Masha conta a conversa que teve com o pai, o actor e realizador Vladimir Mashkov, público apoiante de Putin.
E eu, aqui na minha santa vidinha, conto parte do meu dia.

 



Sou uma pessoa com sorte. Ali tão perto há cidades desfeitas e gente morta e milhões de pessoas que deixaram ou perderam a família e a casa e os bens de uma vida. Eu, pelo contrário, consigo continuar a viver a minha vidinha de sempre. Não ouço sirenes, não vivo num abrigo subterrâneo nem estou a caminho sabe-se lá de onde, nem vivo numa casa desconhecida num país desconhecido onde se fala uma língua desconhecida. Tenho sorte e sei que a tenho e, por isso, por valorizar esta sorte, sinto-me agradecida. 

À hora de almoço fui, numa corrida, às compras. A seguir ao almoço tinha uma reunião e, por isso, não poderia alargar-me. Estou agora tão desabituada de incumbências variadas que, ainda por cima, pressionada pelo tempo, com medo de me esquecer de alguma coisa, escrevi uma mensagem a mim própria com as coisas de que não poderia esquecer-me: bananas, meias para o meu marido, um presente para a minha mãe, uma coleira para o ursinho, produto para a humidade, talvez já alguma coisa para o pequeno carneiro que, não tarda, fará anos (em vez de 'pequeno carneiro' talvez devesse, antes, dizer 'borreguinho mais fofo').

Quando estacionei no centro comercial, com receio de me despistar e, depois, não dar com o carro, mandei outra mensagem, desta vez ao meu marido, com o piso, o lugar e a cor em que estava.

Claro que tive vontade de ir espreitar os perfumes novos tal como tive vontade de ir espreitar livros novos. E entrei na Natura e vi um casaquinho fino que não era um casaquinho mas uma rede finíssima em forma de quase casaquinho, quase transparente, naquele tom de verde dourado que tanto me cativa. Mas controlei-me. 'Não preciso'. Segui. Ando minimalista e sinto-me bem assim. Tal como quando deixei de fumar me senti orgulhosa por ter deixado vício tão estúpido também agora me sinto feliz por ter deixado de ser consumista. Portanto, de loja em loja, focada exclusivamente naquilo de que precisava, consegui despachar tudo. Para lá e para cá fui na companhia da antena 2. Abri a janela, pus o som bem alto. Boa música, uma injecção de ânimo para a minha alma que tem andado a tender para o meio-apagado.

Nunca falei aqui mas acho que nem precisaria: obviamente acho a maior parvoíce banirem-se artistas, compositores, autores russos (ou de qualquer outra nacionalidade). Espero que quem se vingou de Putin banindo a arte russa rapidamente perceba o disparate e reverta a decisão. A arte está acima da guerra, acima das conjunturas, acima da estupidez humana. A arte é intemporal, é eterna, é a manifestação suprema da liberdade. Banir a arte é não perceber nada da vida. 

E depois almocei muito à pressa, fui para a minha reunião, depois fui caminhar, depois fomos comprar uma pizza. E depois regressei a este meu poiso e partilhei um interessante vídeo sobre os cenários possíveis para o fim da guerra.

E agora aqui estou, jogando conversa fora antes de partilhar um vídeo que me impressionou bastante. Masha, uma bela actriz russa, conta a conversa -- estranha, desagradável, perturbadora -- que teve com o pai que apoia Putin e que não acredita que haja uma guerra. Pelo contrário, acha que a filha, ao criticar Putin, pode ser acusada de traição e aconselha-a a regressar à Rússia. Imagino o medo, a tristeza e a preocupação de uma filha cujo pai apoia um ditador criminoso, num país em que se vive sob o signo do medo e da repressão.

Russian actress Masha Mashkova is speaking out against Russia's war in Ukraine after her father, Russian actor Vladimir Mashkov, spoke at Vladimir Putin's rally in support of the war


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As fotografias do Lago dos Cisnes são da autoria de Alex Axon

A música é da autoria de Tchaikovsky - Concerto Pour Piano No.1 Allegro Non Troppo, Opp.23

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Saúde. Sorte. Paz.

terça-feira, novembro 17, 2020

Reparar danos, ficando a coisa melhor do que era.
Kintsugi. Dourar memórias.
Uma dança do início e do fim dos tempos

 



Hoje não consegui ler. Tenho o livro ao meu lado mas ponho-me a ver televisão e o tempo vai passando. Primeiro vi a entrevista de Fátima Campos Ferreira a Lídia Jorge. Superei a aversão que tenho à forma como a Fátima Campos Ferreira fala -- quase como se estivesse a falar com crianças ou com atrasados mentais, a fazer perguntas parvas, frequentemente a apelar à lamechice -- só para ver e ouvir Lídia Jorge. Não é escritora de minha especial afeição mas acho uma certa graça à forma como ela fala do Algarve rural. Há ali raízes que mergulham num chão que também sinto como um pouco meu. Toda a minha família foi, até certa altura, algarvia. Todos os meus quatro avós são algarvios. Contudo, saíram de lá ainda muito jovens. Para os meus pais, o Algarve era apenas a terra dos seus pais, tios e avós. Para mim, o Algarve ainda é uma realidade familiar ainda mais distante. Contudo, quando ouço falar do Algarve penso sempre no que são os caminhos do acaso.

Já aqui o falei: se ainda não o ocuparam, ainda deve lá estar um terreno que era do meu bisavô e que, em herança, passou para o meu avô paterno. As irmãs ficaram com a casa grande, ele com aquele terreno. Mas nunca ninguém tratou de nada. Milagrosamente, o terreno e as casas grandes, que cheguei a conhecer, tinham escapado aos pagamentos de dívidas do pai dele. Fugiu do país para fugir às dívidas de jogo e às avultadas despesas com mulheres, depois de ter perdido outras casas e outras terras. Como não havia certidão de óbito do meu bisavô para fazer a habilitação de herdeiros, não se passou para o nome do meu avô. Depois foi o meu avô que morreu e também ninguém mexeu uma palha. O meu pai também já cá não está e tudo continua na mesma. Nem eu nem a minha prima estamos para isso. Trabalhos para quê? 

Do lado da minha avó paterna, foi o mesmo desinteresse: tinha herdado terrenos e casas. Desfez-se de tudo. Conheci apenas uma propriedade contígua a uma que tinha sido sua: era a casa de uma sua sobrinha, uma casa grande, um terreno imenso com alfarrobeiras, figueiras, amendoeiras, uma ribeira, animais. Eu gostava daquilo. Muito sol, muita liberdade. Campo, campo. O meu pai ficava doido com o que a mãe fazia, vendendo tudo por tuta e meia, grande parte das coisas a essa sobrinha de quem ela gostava muito. O meu pai achava a prima uma oportunista e a minha avó não gostava que ele falasse assim da prima. Essa prima tinha nome francês. Tinha nascido em França. Não sei que voltas deram os meus antepessados. Como o meu pai e o meu tio não queriam saber de contratar pessoal para apanhar e secar as alfarrobas, os figos ou para fazer azeite, a minha avó, sem os consultar, achava que não valia apena ter tudo aquilo. Com os terrenos a valorizarem-se exponencialmente, ela não queria saber disso. 

E o meu pai tinha vários primos e quase todos debandaram, para França, para o Canadá. A filha mais velha de um dos primos, um pouco mais nova que eu, ainda apareceu uma vez, parisiense de gema. Elegante, bonita. Não a vi, contou-me a minha mãe. Sei que tem uma irmã, também parisiense, também muito bonita. Até nunca mais. Não sei como poderia saber deles. Perderam-se no mundo, sem quererem saber de laços familiares. Nem eles nem eu.

Do lado dos meus avós maternos, era outra coisa, gente mais citadina. Do lado da minha avó, só sei que era gente dada à política, um irmão que vivia na clandestinidade, primos da minha bisavó que eram gente de cultura e da política, feitos e factos conhecidos, um deles faz parte da história política e cultural do país. Muito primo e prima. A minha mãe e o meu tio ainda mantiveram laços com os primos mas pouco entusiasticamente. Eu nada sei deles. Soube quando era pequena. Íamos a Faro visitar as primas da minha mãe. Uma casa grande na cidade. Tenho ideia que as portadas estavam quase fechadas, a casa sombria, móveis altos e escuros. 

Do lado do meu avô materno nada sei. Todo ele era diferente: muito alto, muito louro, de olhos claros. Não sei se tinha família, nunca ouvi falar. Tenho ideia que a minha mãe dizia que era de Alte. Mas não garanto. Não sei se tinha irmãos, não sei se a minha mãe teria primos desse lado. Não sei se a minha mãe conheceu avós do lado do pai. Também nunca me lembrei de lhe perguntar. 

No entanto, curiosamente, os meus avós maternos guardaram até ao fim da sua vida muitos hábitos da sua infância e adolescência algarvia. E falavam nesses tempos, uma ancestralidade que lhes ficou colada à pele. 

Havia também na rua dos meus pais, a rua da casa em que cresci e onde a minha mãe vive, uma vizinha algarvia. Conhecia parentes dos meus avós. Falava sempre desses tempos, desses hábitos. Ouvido de fora, tudo aquilo era muito irreal, antigo, as coisas descritas com explicações que pouco tinham de racional. O meu pai aborrecia-se: ignorância. Não conseguia aguentar um minuto daquelas histórias ou recordações. Impacientava-se por achar que era ignorância a mais. A minha mãe não, a minha mãe achava graça, gostava daquelas conversas. A vizinha dizia mal os tempos dos verbos. Em vez de 'fomos' dizia 'foramos'. A minha avó, quando relatava o que os familiares e conhecidos diziam, usava os verbos da mesma maneira. O meu pai irritava-se, dizia-lhe que parecia que não sabia falar. Ela dizia que estava a imitá-los. O meu avô ouvia aquilo e não dizia nada, não se metia em discussões. 

Gostava de fazer cestos. Já o contei. Sei que me repito mas gosto de recordar esses gestos vagarosos em tardes que me pareciam eternas. Apanhava folhas que punha a secar e, depois, sentado num banco baixo, punha-se a entrançar aquelas folhas resistentes: baracinha. Penso tantas vezes: porque não consegui conservar nenhum desses cestos se gostava tanto deles? Ali ele punha a fruta ou os ovos que a minha avó ia buscar à capoeira. O meu pai não ligava nada àquilo, acho que nem olhava. A minha mãe também achava que aquelas cestinhas tinham algumas imperfeições. Eu não, eu adorava.

Não sei se por tudo isso, gosto de ouvir a Lídia Jorge a falar do seu Algarve, das suas histórias de antes, daquele Algarve rural, antigo, as raízes bem fundas em tempos de outros tempos.

A Lídia Jorge não falou nisto mas falou em coisas que me fizeram lembrar isto.

E, a seguir à Lídia Jorge, virei para o Master Chef Australia. Pura magia. Ver criar obras de arte daquela forma é para mim um prazer. A forma arrojada e inteligente como combinam ingredientes e a perfeição dos gestos deixam-me presa. Gosto mesmo. E mais gostaria se pudesse provar...

E, nesta mansidão, o tempo vai passando e eu aqui preguiçando.

Tirando isto, posso apenas acrescentar que ontem ao fim do dia colei aquela grande taça de cerâmica onde estava o aloé vera, que se partiu. Depois de muito procurar, descobri um tubo com alguma cola-tudo. Temi não ter trazido nenhum tubo da outra casa mas, surpreendentemente, encontrei um. Colei e depois atámos um arame fininho em volta do rebordo para ajudar a manter a coesão entre as partes. O meu marido acha isto uma coisa do além. Por ele, partiu-se, vai fora. Eu não. Acho aquele grande vaso uma peça mesmo bonita. Falei-lhe no kintsugi. Ele não sabia o que era e também não quis saber. Eu é que não tenho nenhuma tinta dourada, senão haveria de tornar o vaso ainda mais bonito.

Sempre me custou deitar fora coisas de que gosto. Se estão danificadas, penso que devo tentar recuperá-las e não desfazer-me delas. No fundo, tenho este meu lado zen. O meu avô paterno tinha traços orientais. Traços e atitude. Pescava nas horas vagas, cuidava da horta, fazia cestos, lia. Era uma pessoa calma, silenciosa. Nunca o vi gritar, nunca o vi exaltar-se. Entretinha-se com coisas simples. Eu gostava muito dele. De pequena até ele ser bem velhinho sempre tivemos um amor muito grande um pelo outro. Custou-me muito quando ele cegou. Sentia-se muito diminuído por não poder fazer nada do que gostava. Ninguém merece.


Hoje à hora do almoço, fomos buscar terra lá abaixo, enchemos a taça, transplantei uma planta que tinha trazido do supermercado e da qual não me lembro do nome. Coloquei umas pequenas estacas de outras plantas para compor. Se me lembrar, amanhã mostro. Na entrada de lado há um pequeno terraço para que se sobe por um lance de meia dúzia de degraus. Já lá coloquei umas quatro plantas. A ver se se dão ali. Acho que está a ficar bonito. 

Pelo meio, trabalho, essencialmente reuniões, confecciono as refeições, faço uma caminhada, vejo as laranjas a crescerem nas árvores. O tempo precioso que antes gastava no trânsito agora uso desta forma. Podia usá-lo para conseguir deitar-me mais cedo... mas esqueçam, isto é genético: sou noctívaga, nada a fazer. E estou bem assim, obrigada.

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Despeço-me com um vídeo comovente que invadiu a comunicação social depois de ter invadido as redes sociais. Tocante. Marta Cinta, bailarina, doente com Alzheimer, recorda a dança ao ouvir o Lago dos Cisnes. Tão extraordinário, tão comovente. Que seres vulneráveis e indefesos somos.


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Desçam, por favor, pois a entrevista da enfermeira  Alisyn Camerota é digna de ser vista e revista

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E uma terça-feira feliz. 
Saúde. Força. Ânimo.

terça-feira, janeiro 07, 2020

A vez aos gigantes tatuados que nasceram para voar


Ando há séculos com vontade de aprender a ser minimalista. Contudo, experimento nisso as maiores dificuldades. Ao vivo, sou contida, gosto de ouvir, gosto de observar. Mas, aqui, não sei explicar, desato a escrever como se não houvesse amanhã. E, não contente com textos longos demais, intercalo imagens, junto-lhe música -- faço a festa e atiro os foguetes. Quando chego ao fim, olho para o tamanho do post e, em vez de reler, publico-o logo, sem paciência para arranjos ou remate de pontas. Olho outros blogues, duas ou três linhas, e acho-os de uma delicadeza e concisão invejáveis. Era assim que eu gostava de ser capaz de fazer. Mas isso não me é fácil, caio facilmente no excesso, e uma escrita decantada parece-me um objectivo demasiado exigente e distante.

Mas hoje vou tentar. Vou apenas pedir-vos que, mesmo que não apreciem a dança ou que não sejam dados a pianadas, vejam e ouçam. Uma coisa extraordinária o que aqui tenho para mostrar. Acreditem: uma coisa extraordinária.

Maksim Mrvica impressiona só de olhar. O croata de quarenta e quatro anos e dois metros e sete de altura não apenas é estranhamento belo como fez dos seus braços possantes uma tela que empresta ainda mais beleza aos seus dedos alados.

Sergei Polunin é o que se sabe. É ucraniano, belo, tem trinta anos, um metro e oitenta e um corpo tatuado que é habitado por uma estranha ausência de gravidade e por uma musicalidade que o leva a voar como um pássaro viril. 

O vídeo que partilho convosco foi divulgado por Sergei há poucas horas e mostra-os em Shanghai em 30 de Novembro. E eu gostava muito de lá ter estado.

Maksim Mrvica & Sergei Polunin



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quinta-feira, agosto 30, 2018

Do lago saíram dois cisnes mas, afinal, o cisne negro não era um cisne:
era Leda


O homem estava à beira de um mar tranquilo como um lago. Era um homem grande que, numa quente tarde de verão, olhava o azul imenso. Olhar perdido nos veleiros, nas gaivotas, talvez nas memórias.

Até que viu o cisne. Ah... 




Fascinado, ficou preso à elegância com que ele deslizava sobre a subtil ondulação das águas. Um cisne branco passeava sob o olhar seduzido do homem que tinha chegado de terras longínquas. Seria guerreiro, o homem? Seria um navegador solitário?

Jamais o saberemos. Sabemos, apenas, que não mais conseguiu desviar o olhar do gracioso cisne que, à sua frente, o envolvia num bailado todo ele inocência e tentação.

Mais surpreso ficou o homem quando viu que havia um outro cisne, um cisne negro. Saídos das águas, sinuosamente ondulando pelo areal, deslocaram-se ambos até mais acima, até onde uma quase cama os esperava. 

Ao sol, o cisne branco e o cisne negro. Elegantes, belos. O cisne negro dado à leitura, o cisne branco apenas aos banhos de sol. 

Mas, olhando com atenção, poderia reparar-se no olhar pouco amigável do cisne branco. Talvez despeitado. Enquanto isso, o cisne negro, inocentemente entregue à leitura, não se apercebia dos riscos que corria. O cisne branco, balouçava-se e talvez não fosse apenas pela aragem: era um cisne ameaçador que esperava a oportunidade para atacar.


E, de repente, já não eram dois cisnes. Agora a mulher era Leda e o seu belo corpo preguiçava ao sol, e toda ela absorta, entregue às palavras, ao romance. A seu lado, o cisne desviava o olhar da escultural mulher que resplandecia ao sol. 

O tempo passou, entardeceu com vagar, a luz dourada e morna fazendo brilhar o maravilhoso ébano  da pele de Leda.

Terá adormecido, terá sonhado? Leda não saberá dizê-lo.

Num momento era um cisne que a olhava e não olhava e, no instante seguinte, ao despertar, já era um homem que se curvava sobre ela, a mão na sua coxa, palavras tentadoras, sorriso perigoso. 

Entre eles, o cisne silencioso baixava a cabeça. Talvez já fosse apenas um invólucro vazio, talvez se tivesse transformado no homem que tenta e é tentado por Leda.

A sudden blow: the great wings beating still
Above the staggering girl, her thighs caressed
By the dark webs, her nape caught in his bill,
He holds her helpless breast upon his breast.







quarta-feira, agosto 29, 2018

Flores a sul
[E a falta de vontade para falar do e-toupeira do Vieira]




Tenho algumas coisas para dizer porque, de vez em quando, espreito as notícias e fervem-me logos os dedos para desatar a opinar mas, por isto, aquilo e o outro, a ocasião acaba por não se proporcionar. Parece impossível mas parece que atraímos: chegámos ao hotel já perto da meia-noite. Pode parecer que não mas a vida de férias é cheia de coisa -- e nem vou falar dos mails e dos telefonemas que são coisa sempre pipilante (o meu marido tirou o pio aos dele, só vê duas ou três vezes por dia, mas eu ainda não cheguei lá; não tiro o som pelo que todo o santo dia aquilo pipila) -- ele é praia, ele é brunch, ele é sesta, ele é leituras, ele é praia ao pôr do sol, ele é passeiozinho, ele é banho e toilette nocturna, ele é jantarecos, ele é passeio after hours, ele é o luar espelhado sobre o canal. Uma azáfama.

Por isso não é só a escassez de tempo: é também a falta de mood. Se uma pessoa anda zeníssima como conseguir desarrincar das entranhas palavras áridas, desprovidas de luz, de sal, de cor? Não é possível.


Faço fotografias cheias de azul, de veleiros sobre um mar cintilante, de crianças sorridentes, de um cisne negro e de outro branco, de um barrigudo armado em hippy, de uma mulher gorda com o rabo todo de fora, de casais carregadinhos de afinidades, de gaivotas atrevidas. E de flores. Ando numa de flores. Flores tão lindas. 


Vejo muitas mulheres com grandes flores no cabelo. Eu ainda não pus nenhuma. Não se seguraria, acho eu. Ando é com vontade de ter uma bandolete com flores, flores grandes e às cores. Interrogo-me se tenho idade para andar com flores no cabelo mas depois mando-me calar porque era o que faltava que houvesse um limite de idade para usar flores no cabelo. 

Ah, e já comprei um soutien azul claro. O meu marido passa-se: diz que venho de Lisboa para comprar um soutien no Algarve e quem o ouça dirá que fiz a coisa mais parva do mundo. Mas paciência. E todos os males do mundo fossem tão inofensivos como este. Se aqui encontrei o que queria -- há lojas de lingerie de enfiada e eu tenho tempo para andar nisto -- que mal tem? Portanto agora já posso usar as minhas blusinhas em azul claro ou aturquesadas e, por baixo, um soutienzinho em ton sur ton. Pode parecer coisa pouco importante mas, para mim, que ligo a este género de pormenores, é da máxima relevância. 

E também comprei uma coisa de pendurar, uma meia garrafa com uma corda com conchas. Depois, quando pendurar, fotografo. Quando lhe der a aragem fará uma musiquinha boa para a gente sonhar, sereníssima. Aliás, não foi uma, foram duas. Uma em azul com uma corda grande para pendurar nas traves de madeira do telheiro no campo e outra, mais pequena, em cor de rosa, que pendurarei na viga da sala da cidade, ao pé da menina bailarina e do anjinho colorido.


Mas isto para dizer que, no meio disto, acaba por se me esvair o élan para falar de cenas macacas. O smiley lion quer que eu fale das e-toupeiras que habitam o glorioso. Mas não sei nada disso, teria que ir informar-me e estou tão nas nuvens que me custa andar a espreitar os labirintos em que se move essa bicheza. Mas pode ser que dentro em breve a coisa se dê, ouviu, lion? Deixe-me cansar-me deste mundo de florzinhas e frioleirazinhas onde agora me apetece deslizar que, quando a wild UJM estiver de volta, as e-toupeiras e demais animalada secreta não vão perder pela demora.

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E já disse que nunca vi uma cobertura de rede nos quartos tão deficiente como esta? Se não disse, digo agora: péssima. Como não quero usar a rede aberta do hotel, sujeito-me a dar cinquenta vezes ao pedal antes que algum efeito se produza.

Já vejo se consigo manter-me acordada enquanto escrevo as próximas palavras. Se elas não aparecerem é porque, entretanto, caí nos braços de Morfeu. Também tenho direito, não é...? É que estou perdidinha. A sério. Não imaginam.

terça-feira, novembro 07, 2017

A solidão das mulheres bonitas





Ao fim do dia, Benedita telefonou à mãe a perguntar se podia lá ir jantar. Sentia falta de conversa de mãe. Não que alguma vez tivesse tido grandes conversas com a mãe mas gostava de pensar que sim.  Inventava memórias com essas inexistentes conversas.

Naquele dia em particular, gostava de poder estar à mesa com a mãe e gostava que ela lhe perguntasse o que se passava para ela lhe dizer que nada, mas, depois, perante o olhar interrogador da mãe, confessar que andava sem rumo. Mas a mãe atalhou o devaneio: que devia ter comido alguma coisa que lhe tinha caído mal, que não ia jantar, só beber chá. Benedita ainda lhe perguntou se queria que ela lá fosse mas Iolanda disse que não, que estava quase a ir meter-se na cama, que ficava bem.

Benedita ficou triste. Pensou que sentir-se carente seria aquilo. Depois, a recordação da irmã. Tão diferente a irmã, tão, tão diferente. Depois de mil aventuras, tinha ido para Barcelona. Pensou, com um sorriso no pensamento, que, àquela hora, andaria ela envolta na bandeira da Catalunha, mais independentista que o mais independentista dos catalães. Como estranhas, pareciam nada ter a ver uma com a outra. Nunca se telefonavam. Viria, talvez, passar o Natal. Contudo, a verdade é que Benedita sentia falta da leveza de espírito e da alegria da irmã. Sempre que pensava nela, recriminava-a: insconsciente, irresponsável. E, no entanto, tanto que gostava de ter herdado um pouco dessa alegre leviandade.

Os avós moram longe. Nunca foram próximos. São pessoas simpáticas mas as afinidades são poucas. Do pai pouco se lembra. 

A verdade é que Benedita tem poucos amigos. De resto, também prefere ficar sozinha, deitada, de olhos fechados, ouvindo palavras na sua cabeça, ouvindo dizer poesia na internet, música, divagações assim.


Outras vezes põe-se à janela a ouvir os pássaros nas árvores ao fim da tarde, ou, mais esporadicamente, vai ao cinema. Não vai muito às aulas nem dedica muito tempo ao estudo. Chama-na da agência para trabalhos e ela vai. Cada vez é mais requisitada e cada vez lhe pagam melhor. Mas é-lhe indiferente. Na verdade, quase tudo lhe é indiferente.

Uma vez, na agência, disseram-lhe que devia mostrar mais empenho. Não percebeu. Não quer mostrar mais empenho, não quer arranjar mais trabalhos, já tem que lhe cheguem. E sabe que, quando a objectiva aponta na sua direcção, alguma coisa acontece porque o seu corpo ganha vida de uma forma que a transcende e os resultados são surpreendentes. Não precisa de se preparar, muito menos de se esforçar. Não quer saber e, talvez por isso, o desconhecimento de si transparece através da sua inocente e total entrega. 

Estava nestes pensamentos, enroscada no sofá, as pernas já tapadas com uma manta, quando o telefone tocou.
Meninha. 'Olhe, Beny, desculpe aquilo lá mas não gostei do avanço daquele abusado.' 
Benedita, seca: 'Não pareceu que não gostasse. Vi-a toda enlevada, fazendo pose, feita romântica'.  
Mas Meninha: 'Sabe, Beny, de início estava gostando sim, sempre sonhei de ser diva, mulher desejada, sempre sonhei que alguém ia descobrir meus méritos, minhas seduções ocultas. Seu Filipe leva tanto jeito, tira imagem mais linda das mulheres que fotografa, já estava me vendo feita primeira página. Mas depois ele veio com aquela proposta, não gostei, muito abusado, não sei se a querer tirar casquinha ou quê'.  
Benedita, quase sorrindo: 'Querer fotografar um corpo não significa que queira tirar casquinha. Um corpo é uma superfície onde a luz se reflecte, um bom campo de exposição. Mil vezes que fui fotografada e nunca nenhum fotógrafo pôs as mãos em mim. O que eles sentem ou pensam ou não quero saber'.  
Meninha: 'Disso eu não sei, não. Só sei que ver meu corpo não é qualquer um que vê. E quis lhe dizer isto porque sei que Filipe para si é especial, bem vejo como sua indiferença é mais forte com ele que com outros, bem vejo como ele se redobra no olhar para lhe pôr ainda mais linda. Não quero estragar essa coisa que vocês fingem que não é coisa.' 
Benedita, então, diz: 'Quer vir jantar comigo, Meninha? Peço um sushi. Quer?' 
Meninha diz: 'Mas depois faz tarde para voltar aqui pr'a espelunca... É perigoso. Nem Zezinho me ia querer atravessando o pedaço aí pela noite. Acho melhor não, Beny. Mas valeu. Obrigada'.  
Mas Benedita resolve o dilema: 'Pode dormir cá, Meninha'.  
Meninha hesita, há intimidades que não gosta de partilhar.  
Mas Benedita insiste: 'Vá, Meninha, venha, venha contar histórias de quando era menininha, conte-me de sua mãe, de seu pai, de seus irmãos'.  
Mas Meninha: 'Ui... isso não, Beny. Tempos tristes. Nem sabe o que isso é. Isso não. Posso contar de outras coisas mas desse tempo eu não vou contar, não.' 
Beny concorda: 'Venha na mesma.'
E logo se pôs a arrumar a sala, e logo encomendou sushi e logo procurou lençóis e mantas e logo viu se tinha chá e sumos. E foi numa ansiedade que esperou que Meninha chegasse.


Mais de uma hora depois chegou Meninha. Vinha numa produção que só vendo. Benedita teve vontade de rir mas não quis ofender. Apenas disse: 'Toda sexy, Meninha'. E ela: 'Ora, Beny, e logo você para dizer isso. Sexy não. Apenas tentando fazer bonito. Vinha em sua casa, bairro fino, vizinhança chique. É ocasião especial, não quis vir de um jeito qualquer.' 


Beny disse: 'E está muito bem, Meninha. Está chique, sim. E vá, entre logo. Venha. Se quiser, pode descalçar-se. Aí em cima desse salto tão alto, nem o sushi lhe vai saber bem. E bora, vamos jantar. Apetece-me ouvir as suas histórias. Conte-me coisas, Meninha'

Meninha sorriu e, abanando a cabeça, mostrou a sua incompreensão: 'Moça mais linda e mais doce... não se percebe porque não arranja namorado que encha suas medidas com as histórias que você quer... Olhe. Porque não dá bola para Filipe, Beny? O que ele daria pr'a estar aqui contando os troços lá dele'. 

Mas Beny não quer ser amada como acredita que Filipe sabe amar e também não sabe explicar as suas razões. 


Por isso, embrulha-se na resposta: 'Filipe e eu andamos em passo trocado. Convergimos numa vida passada e nos iremos encontrar numa outra vida. Nesta agora ele tem mais para dar do que eu posso aceitar. Mas não sei. A minha vida também anda trocada das minhas palavras. Por isso, não faça perguntas, Meninha, que não sei responder. Conte-me é de seus amores, de seus namorados, de sua vida.'

Meninha, tentando fugir ao tema: 'Não quer deixar isso pr'a lá, Beny? Minha vida é tão sem graça... Zezinho é meu primeiro namorado a sério. Antes, só mesmo coisas sem história. Lhe digo, Beny, uma vida meio sem graça '

Mas Beny sente que não, sente que, ao contrário da sua, a vida de Meninha é cheia de graça. E está doida para descobrir.

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O episódio que acabaram de ler, o quinto, vem na sequência de:
Quarto episódio: Actos falhados, sentimentos desencontrados 
Primeiro episódio: Wild Rose

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[E sobre a bela luz e sobre as belas cores de Outono in heaven, queiram descer um pouco mais]

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segunda-feira, novembro 06, 2017

Actos falhados, sentimentos desencontrados





Benedita telefona à mãe pela sexta vez e nada. A manhã vai alta e nem consegue sair da cama. Desde que acordou que está a tentar. Já está deveras preocupada. Tem um compromisso, não pode largar tudo e ver o que se passa e isso deixa-a ainda mais inquieta. Também não está a encontrar o número de telefone da nova empregada que vai lá tarde sim, tarde não. Lembrou-se de lhe ligar e pedir que fosse ver se está tudo bem com a mãe. Mas deve estar a fazer confusão com o nome, não o acha. Que preocupação. Quem veja a bela Iolanda sempre tão sorridente não adivinha o problema que ali está. É bem verdade que a passagem de uma vida de glamour com um excesso de solicitações para uma vida quase vazia não deve ser fácil. É também certo que o ver-se sozinha nesta altura da vida, o saber cada filha para seu lado, também não ajuda. E talvez haja alguma carga genética. As depressões sucedem-se. Ou talvez seja sempre a mesma. No outro dia, quando Benedita lá foi, eram duas da tarde e ainda a mãe estava na cama. Levantou-se a custo, o rosto inchado, olhos sem vida, o cabelo a precisar de lavagem. 


Se a sua fotografia aparecesse assim numa revista ninguém reconheceria nela a bela Iolanda que fazia primeiras páginas e que, até não há muito tempo, aparecia na televisão todos os dias em horário nobre.

Saber a mãe assim preocupa e traz tristeza a Benedita. Parece que, qualquer coisa dentro de si está sempre em alerta, com receio de uma outra recaída, sempre temendo uma má notícia.

Mas, então, toca o telemóvel e Benedita logo descontrai: 'Então, mãe? Já tinha ligado não sei quantas vezes. Onde é que estavas? Já estava preocupada. Bolas! Porque é que não atendes?'

A mãe explica que estava a tomar banho, depois a secar o cabelo; não tinha ouvido. E diz que tem que se despachar para não chegar tarde ao ginásio, que combinou com uma amiga irem, antes, beber um sumo, que já está atrasada. E parece sorrir enquanto fala. Mas mente. Não foi isso. Tinha tomado na véspera à noite uma dose tão forte que agora mal conseguia estar acordada, queria era voltar, o mais depressa possível, para a cama. Tão pedrada estava que nem se dava conta da inquietação da filha, queria apenas acabar a conversa para poder dormir em paz.

Contente por julgar a mãe bem, Benedita ficou instantaneamente mais leve, com vontade de festejar. Num instante toma um banho, apanha o cabelo, veste qualquer coisa.


Na véspera, tinha ficado de passar pela casa-estúdio de Filipe, à hora de almoço, para ver as últimas fotografias, para ajudar na escolha de algumas para o editorial da revista e para ver algumas impressões. Mas, nessa manhã, Filipe ligara-lhe e, num entusiasmo, dissera que tinha recebido uma encomenda para mais um trabalho para uma marca de produtos de maquilhagem, que fosse preparada que aproveitavam e faziam já uma breve sessão para testar umas ideias.

Antes de sair, já toda animada, liga a Meninha: 'Escuta, vou ao Filipe para ver umas provas e para ensaiar uma sessão. Pode vir, Meninha? É uma cena de make up, sem suas mãos não vai ter graça'. Meninha geme: 'Aiii... Tinha prometido ir mais logo dar um jeito na mulher de meu padrinho que eles vão numa tal de vernissage e devo tantos favores pr'a ele... A que horas seria isso, Beny?'. Benedita diz que era logo, logo, que ficariam despachadas num instante, que a seguir Filipe voltaria para as suas patentes, que daria mais que tempo pr'a ir pôr nova a velha. Meninha diz que então sim mas reforça que, logo, logo teria que sair pr'a não deixar pendurada a mulher de seu padrinho.

Quando lá chega, Filipe cumprimenta-a com aquela discrição pudica tão própria dos verdadeiros apaixonados e que bem pode passar por um simples cumprimento profissional. Está desfardado, todo na ganga, aspecto desconstruído, bom para pôr as mãos nele e voltar a construir, pensa, sem mostrar que pensa, Benedita. E mostra a sua admiração: 'Que é isto, Filipe? Não foste trabalhar?'. Filipe está contente: 'Estive a trabalhar em casa. Daqui a nada já me fardo. Vou para o escritório daqui a nada e fico lá até à noite. Pode ser, chefinha...?'

Pouco depois chega Meninha. Vem afobada, tanta pressa que tem. Filipe mostra algum enfado, não estava à espera, pensava que ia ter Beny só para si, mas logo se recompõe e, como se tivesse tido uma ideia, sorri (e sorri com aquele seu ar safado de quem já está a visualizar a cena na qual a sua imaginação ainda só meteu um pé): 'Beny, a tua assistente não quererá participar na sessão? É bonita, tem carisma. Capaz de se tirar muita coisa dela...'

Benedita não presta atenção. Está concentrada em Meninha: 'Menina! Nunca te vi assim... Mas onde vais, tão chique assim....?'

Meninha senta-se a descansar. Depois diz que veio já vestida toda prosa para dali ir directa para casa do padrinho, que naquela casa tem que entrar toda feita madame que padrinho é homem recto, não quer jeito de desaforo na casa onde a esposa exerce suas virtudes.

Benedita ri. 'Mas é que caprichaste mesmo, ninguém ousará dizer que não vais tu também para a vernissage, mesmo para um baptizado... Menina!'

Filipe olha Meninha com atenção. Depois começa a fotografá-la. Benedita espia o olhar de Filipe, quer perceber se é também olhar guloso, igual ao que faz para si. Mas não consegue perceber. Talvez seja olhar profissional, toda a gente diz que Filipe é um artista, mas Benedita não sabe ser isenta. Disfarça apenas.

A seguir, ela mesma, enquanto Meninha faz olhos cândidos e jeito inocente para a objectiva de Filipe, começa a pintar-se. Mas, talvez inconscientemente, decide exorbitar a ver se Filipe percebe que ela está ali, a ver de Meninha percebe que está ali para a ajudar e não para sobressair.


Mas Filipe e Meninha parecem esquecidos dela. Ele aproxima a lente, deixa que a luz incida no cabelo selvagem da morena, foca-a de lado, aponta ao jeito tímido dela. E ela deixa-se estar, gosta de ver como Filipe se interessa pela sua beleza. 

Espiando num canto, Benedita sente a frialdade da inquietação. Até que, com espanto e incómodo, ouve Filipe a dizer com aquela sua voz que se baixa até se tornar uma indecência: 'Gostava de fotografar o seu corpo. Não quer tirar a blusa?'. 

Benedita sente-se ofendida,  tem vontade de o atacar, mas nada diz. E, então, ouve Meninha dizer com voz ríspida: 'Sou moça de me despir com essa facilidade não, viu? Homem que queira ver meu corpo tem que me conquistar muito, sabia? Não quero saber se isso é trabalho, se é arte, se quê, sei é que meu corpo é especial de mais para ser servido assim, com essa facilidade, viu?'. Põe-se de pé e, decidida, pega na bolsinha e sai batendo a porta.

Benedita, sem pensar, faz o mesmo.

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O episódio que acabaram de ler, o quarto, vem na sequência de:
Terceiro episódio: Uma wild rose com red carnations nos seios
Segundo episódio: Beny e Meninha numa tarde especialmente quente
Primeiro episódio: Wild Rose
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domingo, setembro 24, 2017

Caminhos difíceis levam, por vezes, a belos destinos


Acontece por vezes eu estar a passar por situações complicadas. Ainda não há muito. Eu toda angústias, medos, ansiedades. No entanto, claro que tinha que continuar a viver. Um dia vinha do supermercado e pensei que, por fora, devia estar normal. Pelo menos, via-me normal. Cruzava-se com pessoas que também me pareciam normais e pensava que nunca sabemos o que vai no íntimo das pessoas. Nem elas sabiam o que ia dentro de mim nem eu delas. Pensei: 'usamos máscaras'. Depois pensei outra coisa: 'somos fortes'.

E agora que escrevo isto lembro-me de uma coisa que não tem nada a ver mas que me ocorreu. Quando tive a menopausa não tive sintomas e, ainda hoje, não os sinto. Não faço daqueles tratamentos hormonais de substituição. Penso que deve ter a ver com o meu funcionamento hormonal mas, se calhar, não tem nada a ver. Se soube já não me lembro. Também quando estive grávida nunca tive enjoos, desejos, inchaços, mal estar, dores nas costas. Nada. Do princípio ao fim, sem outro sintoma que não o da barriga que crescia desabaladamente. Mas, na altura atrás referida, tinha uma colega que estava também a atravessar a menopausa e que sofria horrores. Afrontamentos de ficar doida, tamanha a onda de calor que subia por ela acima -- e desculpem-me o pleonasmo mas era assim que ela dizia, abanando-se: 'De morrer. Não se aguenta. Uma insolação que sobe por mim acima.' E abria a boca, quase à beira do colapso. Dizia que só lhe apetecia tirar a roupa toda, despejar garrafas de água pela cabeça abaixo. E dizia que pasmava (e, por dentro, enfurecia-se) por ver que, quando estava em reunião, as pessoas em volta dela pareciam não dar por isso. Pensava: 'Mas será que esta gente não percebe o estado em que estou...?!'. Em vez de se calarem e, em sinal de solidariedade, deixarem que a aflição lhe passasse, continuavam a falar como se nada fosse.

Se calhar de fora não se via o calor que ela sentia.

Bem.

Isto tudo para dizer que a todos nós, em certos momentos, a coisa não corre especialmente de função. Mas a vida continua e ainda bem que o mundo continua a girar normalmente e que há, aqui e ali, apontamentos de cor, de graça, de esperança.

Ao passear no Ginjal pensei que nada para melhorar a disposição do que andar por aqui, sentir a frescura do rio, deixar que a alma descanse perante a visão de uma paisagem tão magnífica e apreciar os sinais que outros vão deixando nas paredes, pintando-as, enfeitando-as, deixando testemunhos da diversidade que havida o tempo e o espaço. 









Minha alma canta apenas em sinfonia.


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terça-feira, dezembro 22, 2015

Na base de tudo




Nos outros anos, nas vésperas de natal, eu gostava de, aqui, me dirigir a cada uma das pessoas que me escreve ou que comenta, queria que soubessem que me lembro de cada uma. Contudo, este ano não vou fazê-lo. Lembro-me de todos, mesmo daqueles Leitores com quem há muito tempo não falo. Não me esqueci de ninguém mas creio que basta dizer que me lembro, que agradeço a companhia, que gosto muito de cada pessoa que, ao longo destes cinco anos e tal, me tem escrito mails ou comentado.

Não vou mencionar, uma a uma, cada pessoa pois quero falar de uma forma mais geral pois, mencionando aqueles cujos nomes conheço, estou como que a deixar de fora aqueles que me acompanham de forma silenciosa e cujos nomes desconheço.

Não sei se na véspera de natal vou conseguir tempo para cá vir e, por isso, vou já adiantando alguns pensamentos que, nesta altura, por aqui gostaria de deixar.
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Enquanto escrevo estou a ver na RTP 2 um programa sobre raparigas institucionalizadas. Sentem falta das famílias, das mães. Vejo-as e sinto uma pena infinita. Escondem dos outros a sua situação. O programa mostra-as a fazer um filme, a ler os seus textos. Uma fala em cadeiras vazias viradas para a porta, a espera sem sucesso, a mãe que não aparece, o abandono. Um programa comovente. Penso nas crianças que sofrem com essa sensação de abandono cravada nos seus corpos. Mas penso também nas mães e pais que, por algum motivo, deixaram os seus filhos para trás. Podem, talvez, não o demonstrar mas imagino o vazio que sentem no seu coração quando lhes vêm à memória os filhos que não conseguiram manter na sua vida.


E lembro-me de uma coisa de que creio já aqui ter falado. Numa altura em que não tinha máquina de café em casa, ia à rua para o tomar. Não passo sem café de manhã, a minha tensão baixa provoca-me dores de cabeça. No dia de natal só dois dos cafés do largo estavam abertos. Aquele a que nós íamos servia refeições. Como não me levantava cedo e depois havia a abertura dos presentes e a arrumação e tudo isso, só íamos à rua perto da hora do almoço. E havia uma situação que me incomodava muito: havia sempre pessoas, sentadas, sozinhas, almoçando uma refeição ligeira ou uma sandes e um galão. Fazia os possíveis para que não vissem que eu as tinha visto. Imaginava que se sentiriam sozinhas, imaginava que não quereriam que os outros se condoessem da sua condição, imaginava que pudessem sentir-se humilhadas se os outros, os que aparecem com ar de festa, as olhassem. Mas depois ficava inquieta: e se as pessoas gostassem de receber um olhar de atenção ou um sorriso? Ainda hoje não sei como agir. A minha vontade, quando vejo alguém que se percebe que não tem com quem passar estes dias em que se pensa em família, é aproximar-me, é, como quem não quer a coisa, pôr-me à disposição para que conversem, se isso lhes apetecer. Mas sou cobarde, fico com medo que interpretem mal, que achem que estou a perturbar o seu sossego.


Também me lembro de uma colega minha que um dia tinha ido trabalhar com um colaborador meu. Como geralmente faço, fui ter com ela, cumprimentei-a, e, sentindo-a menos alegre do que era costume, sentei-me um bocadinho ao seu lado, perguntei-lhe se estava tudo bem. Disse-me que estava um bocado preocupada porque a filha, universitária, estava mal disposta, já na véspera tinha ido com ela ao hospital, que não lhe tinham achado nada, tinham-na mandado para casa mas que tinha ligado para casa e que ela estava outra vez a sentir-se mal, que não estava bem. Pareceu-me inquieta. Disse-me que se calhar ia para casa, para a levar outra vez ao hospital. Sosseguei-a: alguma coisa que tinha comido, alguma virose, coisa banal. Mas ela estava preocupada. Nessa tarde fui ter uma reunião noutro edifício da empresa. Quando acabou, vi as secretárias consternadas. Tinham acabado de saber que a filha da tal colega tinha morrido. Fiquei paralisada. Não percebia como podia ter acontecido uma coisa assim. Não conseguia imaginar como estaria a minha colega. Quando no dia seguinte fui à capela mortuária não sabia o que lhe dizer. Não fui ter com ela, receava não conseguir dizer a palavra adequada, queria saber dizer a palavra que a ajudasse a suportar a dor e sentia que não era capaz.

Quando, estando eu cá fora, ela saíu da capela, viu-me e veio ter comigo dizendo, 'Morreu a minha filha...' e abraçou-me e eu abracei-a e ali fiquei com ela a chorar e eu aflita, com vontade de chorar, incapaz de dizer o que quer que fosse. Depois, por fim, lá consegui; mas, em vez de ter uma palavra de consolo, o que me saíu foi uma pergunta: 'Mas o que foi? como foi possível?' e ela, a chorar, 'Dizem que foi uma pneumonia. Não acredito, não acredito. Morreu a minha filha. Não acredito'. E eu, olhando para ela, incapaz, incapaz de dizer a palavra certa. Depois ela segurou-me numa mão e ali ficou, a chorar e eu em silêncio. Não me esqueço disto. Foi sobretudo a tristeza que senti, uma tristeza imensa por ela, pela perda da filha, mas foi também a minha incapacidade para  ajudá-la, a minha inutilidade. 


Vi também há bocado imagens de mais um grupo de refugiados. Um tremia, olhar absorto. Outros tinham morrido e alguns estavam desaparecidos. Tinham vindo numa pequena embarcação, sobrelotada, sem coletes salva-vidas. Um jovem descrevia a situação. Que coragem, que desespero, que caminhar sobre um terreno revolto, feito, todo ele, de incertezas, sustos, medos. Vêm a fugir da morte ou da ausência de futuro e arriscam a vida, vindo ao encontro de um labirinto do qual podem não conseguir escapar. Morrem nas praias, desgastam-se em acampamentos ultrajantes, penam por estradas, correm mil riscos, são gente sem identidade - de quem desviamos a atenção: já cansa tanta imagem de refugiados, já não é tema. A nossa indiferença mata-os. Tal como a nossa cobardia. Tal como o nosso comodismo.

Podemos não saber qual a palavra, podemos não saber o que fazer, mas acho que não devemos esquecer. Não conseguiremos nunca chegar a todos quantos precisariam de um gesto mas talvez possamos estar atentos, talvez possamos arriscar e tentar aproximar-nos de quem sente a falta de algum apoio.


Há muita solidão em quem está desempregado, doente, em quem se sente deprimido, pouco amado, sem perspectivas. Talvez alguns dos meus Leitores se sintam assim e tomara eu agora encontrar a palavra certa. Mas não sou boa nisso. Por isso, digo apenas que, mesmo quando me apresento na maior folia e destempero, no fundo de mim está sempre presente o amor pelos outros, a compaixão por quem precisa, a solidariedade para os que pouco têm, pelos que sofrem. Se mais vezes não o digo não é por nada, é talvez apenas porque não sei dosear a expressão dos meus sentimentos, ou é tudo ou não é nada, ou porque não sei como melhor chegar a quem não sabe fazer-se ouvir e cala a sua solidão.

Por isso, não sabendo se na véspera de natal consigo escrever alguma coisa, aqui vos digo que, nestas alturas de festa, quero, sobretudo, que saibam que o meu pensamento vai, em primeiro lugar, para todos os que não sentem vontade de sorrir - e que muito gostaria de pensar que o calor do meu coração de alguma forma chegará até eles. É que, na base de tudo, acredito eu, tem que estar o afecto.

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A música é de Tchaikovsky: None, but the lonely Heart

As fotografias provêm do Bored Panda


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E, por favor, desçam até ao post seguinte caso queiram saber o que acho de mais esta pouca vergonha do Banif -- e do Carlos Costa que, supostamente, está a ser pago para gerir a instituição encarregada de regular o sector financeiro e evitar que tanta castanha quente nos rebente nas mãos.