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sábado, maio 31, 2025

Elon Musk, drogas e poder: uma combinação explosiva no coração da política norte-americana?

 

Quando o tema é o consumo de drogas vou com pés de lã. É mais que sabido que uma pessoa, quando ultrapassa a barreira do consumo terapêutico para passar a ingerir por vício, se torna dependente e, muitas vezes, fica incapaz de reagir normalmente. Um viciado é um doente. Não é, pois, caso para se falar com ligeireza. Um drogado estraga a sua própria vida e, na maior parte das vezes, contamina o ambiente entre os seus próximos, aflige os que o amam -- e não consegue evitá-lo. 

Elon Musk já tinha admitido que passa por períodos de depressão e que é medicado para isso. E já se falava que ele andava a abusar fortemente e já circulavam notícias de que os investidores andavam apreensivos com os seus comportamentos erráticos.

Mas a recente revelação de que Elon Musk pode estar a consumir até 20 comprimidos por dia, incluindo cetamina, Adderall, ecstasy e cogumelos psicadélicos, levantou sérias preocupações éticas e institucionais. Estas informações, reveladas por fontes que lhe são próximas e relatadas pelo The Guardian e outras publicações, apontam para um cenário alarmante: um dos homens mais influentes do mundo, com acesso a informações sensíveis e com influência direta na economia global e nas decisões políticas norte-americanas, pode estar a funcionar sob o efeito constante de drogas psicoactivas.

Perguntei ao ChatGPT para que servem os medicamentos que supostamente ele toma e quais os riscos. Eis as respostas:

  • Cetamina: originalmente um anestésico, tem uso off-label no tratamento da depressão resistente. Em doses moderadas, pode causar dissociação, alucinações e perda de coordenação. Em doses frequentes e altas, está associada a danos na bexiga, além de alterações cognitivas e dependência.
  • Adderall: medicamento composto por anfetaminas, usado para TDAH. Melhora foco e energia, mas o uso recreativo ou excessivo pode levar à insónia, ansiedade, agressividade, paranoia e psicoses induzidas por estimulantes.
  • MDMA (ecstasy): estimula uma intensa libertação de serotonina. Pode gerar euforia e empatia, mas também confusão, hipertermia e, a longo prazo, dano neurológico.
  • Cogumelos psicadélicos: causam alucinações visuais e auditivas, alterações na perceção do tempo e da realidade. O uso frequente pode desencadear episódios psicóticos, ansiedade severa e despersonalização.

Perguntei ainda qual o perigo das misturas. Eis a explicação:

A combinação destas substâncias, sobretudo em regime crónico, é particularmente preocupante. Misturar cetamina (um dissociativo), Adderall (um estimulante forte) e MDMA (um entactógeno) altera profundamente o funcionamento neuroquímico do cérebro. Pode comprometer:

  • Tomada de decisões
  • Capacidade de julgamento moral
  • Controle emocional
  • Lucidez e coordenação cognitiva

Em termos clínicos, uma pessoa sob este cocktail medicamentoso pode apresentar lucidez parcial, mas com graves prejuízos em áreas como a empatia, raciocínio crítico e autocontrolo.

O mais alarmante é que, durante este período, Musk terá desempenhado um papel activo na estratégia política de Donald Trump. Fontes referem que foi sob o efeito destas substâncias que Musk ajudou a articular ideias e decisões do chamado "gabinete Doge", um grupo informal de conselheiros com impacto na retórica e direção política da campanha republicana.

Ora é inegável que isto levanta questões profundas sobre:

  • A falta de supervisão institucional sobre figuras com acesso a tecnologia crítica e influência mediática;
  • A fragilidade dos mecanismos de verificação de aptidão em ambientes de liderança privada com impacto público;
  • O perigo da normalização do comportamento errático de figuras poderosas, sob a capa do “genial excêntrico”.

É legítimo questionar até que ponto alguém com este padrão de consumo tem capacidade para tomar decisões que afetam milhões. Mais do que um debate sobre saúde individual, trata-se de um alerta sobre a interseção entre poder, tecnologia, dependência e responsabilidade. A sociedade precisa de refletir sobre os limites éticos e institucionais que colocamos a quem lidera empresas com contratos governamentais e impacto social profundo ou a quem ocupa posições de poder em geral.

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‘Could explain something’: Nicolle Wallace on Elon Musk’s reportedly intense drug use

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As duas imagens lá acima, no meio do texto, foram geradas pelo Sora (IA)

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Um bom sábado

segunda-feira, julho 29, 2024

O testemunho de Sige, uma jovem drogada, sem-abrigo

 

Quando se passa na Avenida de Ceuta não podemos deixar de ver as pessoas magras, por vezes em passo apressado, outras vezes sentadas, meio ao abandono. Agora vedaram a parte de baixo das escadas que era usada para se abrigarem, drogando-se à vista de todos.

Mas não é só na Avenida de Ceuta. Há vários locais em que a triste vida dos viciados está bem à vista. Não sei como é aqueles corpos resistem a tanta provação, não sei como sobrevivem. Mesmo referindo-me a como se sobrevive emocionalmente a vidas sem afecto ou amparo, eu espanto-me. Em muitos casos, percebe-se que era quase inevitável que a vida tivesse seguido um rumo sem destino.

Não é possível salvar toda a gente até porque para uma pessoa ser salva tem que querer ser salva. Sabemos que não há recursos para acudir a todos quantos precisam mas é muito triste que não possamos ouvir todos os que caíram no vício, tratar o seu sofrimento.

Hoje tinha a ideia de vir aqui dizer como é que tinha feito uma sopa de curgete e ervilhas mas vi o testemunho de Jesse, aqui dita Sige. A forma como, muito naturalmente, diz que já morreu, impressionou-me muito.

Sije - How I Became a Drug Addict | Miami Homeless Drug Addict Interview


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Desejo-vos uma boa semana

Tudo de bom para vocês

quinta-feira, dezembro 22, 2022

Jéssica

 

Ao ver as notícias, algumas ferem-me de forma devastadora. Ao querer comentar uma delas, o meu marido quase me gritou. Não quer ouvir, não quer falar. Eu queria falar apenas para ele me ajudar a tentar a perceber. Mas creio que também não consigo verbalizar os horrores que se vão conhecendo. Nem pensar eu consigo. E, no entanto, não me sai da cabeça.

Há casos, como os de Putin, em que a gente até percebe uma motivação. Quer restaurar o sonho imperial e, narcisista e psicopata como é, habituado a dispor da vida alheia, lutando pela própria sobrevivência, não se importa de matar, estropiar, destruir, arrasar, chacinar. Invade um país porque acha que é um país sem direito a existir, quer anexá-lo, e, de caminho, não olha a meios. Mata os seus, a quem manda para a guerra, mata os outros a quem inflige uma guerra em que não se consegue acreditar de tão absurda, tão cruel, tão ridícula. 

E há outros. Vulgares criminosos, gente que tem um passado de desamor e abandono. Ou outros, sem escola que não a do crime. Tantos casos, cada um com a sua história.

Mas depois há aqueles em que a humanidade parece não existir, em que não se percebe propósito, em que parece não haver nem coração nem cabeça nem olhos nem ouvidos nem nada. Quando leio ou ouço sobre o que aconteceu à menina de Setúbal, Jéssica, fico petrificada. 

O que a mãe lhe fez, aquilo a que aquela criança foi submetida, o que a outra mulher lhe fez, tudo, tudo, tudo, me deixa aterrada. Não lhes custou ouvir o choro da menina, ver as sus lágrimas, assistir ao seu sofrimento? Como é possível? Como? E porquê? Quando vi as imagens, vi um mulher de meia idade com ar de quem não é abastada; quando vi a mãe da menina vi um mulher que também não é abastada. Faziam o que faziam a troco de quê? De quanto? A vida de um menina a troco de quatrocentos euros. Se qualquer delas trabalhasse facilmente ganharia quatrocentos ou mais euros. Porque optaram pela vida desgraçada que viviam? Há aqueles casos de tráfico de droga em que fazem o que fazem para viver em grandes casas, ter grandes carros. Mas estes pobres desgraçados faziam o que faziam para quê? Para viverem pobremente como parece que viviam? E o que aconteceu para terminar nisto, para se terem desumanizado a este ponto? E como foi possível que nenhum conhecido ou vizinho tivesse percebido o que se passava com a menina?

O que li e ouvi se calhar é apenas uma pequena parte da miséria moral daquelas pessoas, da desgraça que era a vida daquela gente, do sofrimento pelo qual a criança passou. Mas é tudo tão estranho, tão infeliz. Preocupamo-nos, e temos razão para isso e tudo o que se faça é pouco, com o sofrimento das mulheres vítimas de violência doméstica. E com o sofrimento das crianças vítimas de abusos, violações e maus tratos às mãos dos pais, padrastos, avós incapazes de lhes assegurar uma vida segura e feliz, temos a certeza de que há uma rede de vigilância e apoio? 

E como agir perante tamanha desestruturação? Vendo o que é a desumanidade, a ausência de valores e de alma destas pessoas, como devemos nós reagir? O que podemos nós, a sociedade, fazer para prevenir situações destas? Haverá mais casos assim? Haverá, claro. Mas como se chega a isto, a este ponto? Terá retorno?

Sei que haverá por aí, entre quem me lê, quem cinicamente me ache uma idiota, uma ingénua, quem ache que no fim da pior noite casos destes há é muitos. Seja. Mas fechamos os olhos? Banalizamos? Relevamos? Não podemos ajudar?

Não consigo deixar de pensar nisto. Na menina. Na mãe e na avó da menina. Na pseudo ama. O que aconteceu na vida destas pessoas para que a vida de uma criança tenha perdido o significado, o valor? Para que a compaixão ou o amor tenham desaparecido tão por completo?

Acho isto tão triste...

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Um dia bom

Saúde. Compreensão. Paz.

quarta-feira, dezembro 21, 2022

Pedro Barroso, um pedaço de mau caminho, poderoso, bem sucedido... e viciado em cocaína.
[Mais um testemunho poderoso da série Labirinto - Converss sobre saúde mental]

 

Como não costumo frequentar as telenovelas portuguesas não conheço o trabalho de Pedro Barroso.  Tinha vagamente ideia de se tratar de um actor com um físico invejável. 

No outro dia, numa de zapping, parámos num daqueles programas em que as pessoas conhecidas da televisão são exibidas, são usadas como entretenimento. Provavelmente elas acharão que são elas próprias que decidem exibir-se e, se calhar, acreditam que se divertem. Mas facilmente percebemos que estão apenas a ser um veículo de promoção para os programas de televisão em que participam ou para marcas cujos produtos usam como se não passassem de uma montra.

Esses programas são o cúmulo da futilidade. Todos se riem muito e todos ostentam felicidade, momentos de amor com a 'nova' relação ou de entusiasmo com o 'novo' projecto. Os entrevistadores geralmente colocam questões infantilóides, desprovidas de sentido, e os entrevistados, sempre sorrindo muito, dão respostas muito parvas. 

Se calhar durante uns tempos gostam, se calhar sabe-lhes bem o dinheiro que ganham. Mas é mais do que natural que, ao fim de algum tempo, se sintam vazios, esvaziados até às entranhas, sugados, incapazes de se aguentarem mais naquele registo.

Vemo-los elegantes, fisicamente muito bem tratados, muito bem arranjados. E, depois, de vez em quando somos surpreendidos com a notícia de que atravessaram períodos de vício, períodos de depressão. 

Já aqui falei de um conhecido próximo, dantes dir-se-ia 'prente' ou 'aparentado'. Jovem, bem sucedido, bem disposto, sempre com amigos, com uma vida amorosa preenchida, uma família amiga. E, no entanto, aos poucos foram-se percebendo alguns aspectos que pareciam não bater muito certo. Muitas vezes, em reuniões familiares, afastava-se e, quando regressava, vinha eufórico, eléctrico, esfusiante. Não se percebia de onde tinha surgido tamanha energia. Depois, começou a pedir dinheiro emprestado. Nunca se percebia bem para quê. Pertencendo a uma família abastada, tendo uma boa profissão, não tendo despesas elevadas, não se percebia. Mas pedia dinheiro ora a um, ora a outro e, como era tema sensível, os que emprestavam guardavam reserva. Logo, não sabiam uns dos outros. Ou seja, ninguém sabia a dimensão que as dívidas estavam a assumir.

Continuava a trabalhar mas percebia-se que aquela não seria bem a sua praia. Esforçava-se por encaixar num destino que a herança familiar parecia querer traçar-lhe e pensava-se que noitadas eram uma forma de espairecer do espartilho profissional. 

Mas, tirando um ou outro insignificante pormenor, no dia a dia, tudo parecia normal. 

Uma vez, numa dessas ocasiões em que a meio do convívio familiar se afastava, alguém ouviu um barulho suspeito na casa de banho, como se alguém estivesse a inalar qualquer coisa. Quando de lá saiu vinha brincalhão como sempre mas imparável, tudo a uma velocidade vertiginosa, metia-se com um, metia-se com outro, ria, dizia piadas, uma coisa for de normal. A namorada, inocente e enfeitiçada como sempre, sorria embevecida, contente com o seu namorado hiperactivo. Toda a família inocente, muito longe do que estava a passar-se. 

Até que a bomba rebentou. Estava cheio de dívidas, estava viciado. O núcleo mais próximo abafou. Pouca gente sabe. Largou a profissão, afastou-se, mudou integralmente de vida. Casou, tem um monte de filhos. Ninguém toca no assunto. Como é que ele conseguiu esconder de toda a gente, onde se abastecia, como conseguiu gastar tanto dinheiro, como conseguiu arranjar tanto dinheiro, isso acho que ninguém sabe. Talvez só ele. 

A entrevista de Pedro Barroso é outro testemunho poderoso. Divulgo-o pois, como em todas as questões de foro mental, o primeiro passo é reconhecer que se tem um problema, o segundo será pedir ajuda, o terceiro aceitar ajuda. Um vez que quem sofre destes problemas, começa geralmente por ter vergonha em assumir, muitas vezes achando-se culpado pela situação, geralmente não querendo preocupar aqueles que se amam, penso que é importante que quem passou por isso dê a cara, partilhe a sua experiência. Claro que há estigmas associados à doença mental -- maluco, lelé da cuca, fraco, drogado, incapaz, etc. -- mas, se se souber que há muita gente a passar por estes problemas, talvez quem atravessa um labirinto que parece não ter saída ganhe coragem para pedir ajuda.

A entrevista, um vez mais, é muito boa, sensível, directa, interessante. E o Pedro Barroso não é apenas um pedaço de mau caminho, é também um homem corajoso.

Pedro Barroso e a adição. “A cocaína era como se fosse o meu medicamento”

Aceitou ajuda quando os consumos já eram diários e percebeu o descontrolo em que vivia. O tratamento foi o primeiro passo, mas não deixou o ator imune a duras recaídas. Uma parceria Observador/FLAD.

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Desejo-vos um dia bom

Saúde. Compreensão. Coragem. Paz.

domingo, outubro 30, 2022

Madonna -- chorar ou rir?

 


Em certas matérias, não sou muito destas coisas de tipo 'desta água não beberei'. Sei lá se bererei, se não beberei.

Por exemplo, nunca me passou pela cabeça fazer-me operar para me tirarem uns anos de cima, para me injectarem para ficar sem rugas ou sinais de peso da gravidade, para me aumentarem os seios, para me levantarem e insuflarem as nádegas, para me deixarem sem um grama de gordura na barriga. Se puder evitar anestesias, evito, e se puder evitar que me cortem, injectem ou me mexam debaixo da pele evito.

E só o medo de, depois, ao porem-me um espelho à frente da cara ou à frente do corpo e eu me achar disforme, desconhecida, assustadora... Bolas, medo... Nem pensar... Ou seja, até ver, não é daquelas que me ocorra arriscar.

No entanto, não posso jurar a pés juntos que tal nunca me ocorrerá. É improvável mas, creio, não impossível. Sei lá se um dia não me dá uma qualquer travadinha e não acho que está na altura de deixar de parecer velha, muito distante da jovem que sinto em mim... Sei lá se não me dá uma pancada e não acordo com vontade de parecer uma gatinha de vinte anos... Miau, miau. Ou igual à Kardashian...?

De vez em quando vejo mulheres que acho espantosamente bem 'mantidas', todas jovens e jeitosas e, depois, venho a saber que já se fizeram ajeitar várias vezes. E, portanto, mesmo que mantenha os cinco alqueires bem medidos, sei lá se um dia destes não me parecerá que faz sentido desde que tenha a garantia de coisa bem feita, subtil, indolor e pouco arriscada.

Mas, se um dia me der para isso, não posso ter presentes os casos que se encontram no extremo oposto: pessoas que se ajeitam tanto, se puxam e repuxam tanto, se insuflam tanto, se modificam de tal forma que se tornam uma caricatura de si próprias -- porque, se vou com essas imagens em mente, é certo e sabido que, de imediato, arrepiarei caminho.


Madonna é um desses casos. De dia para dia aparece com a pele mais lisa, os lábios mais intumescidos, toda ela esticada e repuxada, as mamas cada vez maiores, mais redondas, as sobrancelhas subidas, as maçãs do rosto salientes. E depois, nos vídeos, aparece com cinturinha de vespa. Mas, quando é apanhada à má fila, as imagens mostram-na com pneus, quase normal. Por isso, já nem se percebe se ela própria se tornou uma ficção ou se são os vídeos que estão ficcionados.


Agora um vídeo seu tornou-se viral: de cabelos encarniçados, como agora anda, dedos gordos e unhas improváveis, aparece a inalar um frasco com o que parece ser um medicamento e que ouço referir por poppers e depois parece que fica eufórica, meio passada. Uma coisa estranha. E tem um dente à frente com uma capa escura. Frequentemente com raízes pretas, agora com um dente que parece podre, comportamentos incomuns... eu não sei o que se passa com esta mulher, não sei mesmo. 

Está a envelhecer mal, está estranha. Tem 64 anos mas olha-se para ela e não se consegue concluir se é nova, se é velha ou se é simplesmente estranha. Mas bonita, acho eu, não está.


Não sei se Madonna é feliz ou se anda perdida e, por isso, olho para ela e não sinto vontade de rir. 

Mas a interlocutora dela no vídeo, uma tal Terri Joe, desata-se a rir. E ri de uma forma também muito peculiar. E tão peculiar que me parece oportuno partilhar um vídeo que a minha filha me enviou. Com cada um... 

Pessoas com risos estranhos


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Um belo dia de domingo
Saúde. Boa disposição. Paz.

sexta-feira, fevereiro 11, 2022

O que Kamila faz ao som do Bolero

 


Sei que sou lida por gente nova. Há pouco, para escrever isto, fui confirmar. Segundo as estatísticas do Blogger, 75% dos meus Leitores terão menos de 44 anos. Já agora, a maioria (cerca de 55%) são homens.

Mas, para o efeito do que vou dizer, o sexo tanto faz. A idade é que sim, faz a difereça. É que imagino que estes meus Leitores não façam nem ideia de quem é a Bo nem do sururu que por aí houve aquando do afamado 10, muito menos da cena do Bolero e de mais não sei o quê.

Para dizer a verdade nunca vi o dito filme. Sou visceralmente avessa a tudo o que é falado por toda a gente. Falava-se com ar de coisa tal como se falava da cena da manteiga do Último Tango ou da cadeira da Sylvia Kristel. Estava-se naturalmente no dealbar dos novos tempos e havia muito boa gente que se escandalizava com pouco.

Mas, imaginando que nada de transcendente teve lugar, pelo menos de forma explícita, o certo é que ficou a ideia de que algo de especial aconteceu ali ao som do Bolero. 

A propósito disso, do que pode acontecer ao som do Bolero, tenho que aqui abrir um parêntesis para inserir aquela expressão que, sabe-se lá porquê, viralizou: quem nunca...?

Mas isso agora não interessa para nada. O que interessa é que o Bolero é, na realidade, desafiador para a imaginação (de quem a tem), apela aos movimentos cadenciados e tem um timing muito ajustado a quem goste de se esmerar.

Não admira pois que inspire bailados que nos envolvem e nos transportam para momentos de sedução e intimidade. 

Sylvie Guillem, por exemplo, é extraordinária na interpretação do Bolero. Rodeada de admiradores, ela seduz um por um, cativando-os, prendendo-os aos seus movimentos sensuais.

Em tempos, eu gostava de ver a patinagem artística no gelo, especialmente nos Jogos Olímpicos ou campeonatos mundiais. Agora nunca sei quando e onde dá pelo que perco tudo. Mas soube que uma jovem de 15 anos, Kamila Valieva, talentosa, virtuosa, certamente inocente em relação a malícias e subentendidos, dançou primorosamente o Bolero, fez um salto quadruplo nunca antes visto e encantou todos quantos a viram.

Fui ver e, na realidade, ela desafia as leis da física. Não se percebe como consegue girar a tal velocidade, elevando-se no ar, rodopiando, girando e caindo de pé para continuar a deslizar. E sempre com uma leveza e graciosidade encantadoras. 

Numa das vezes cai mas, de imediato, se levanta e prossegue como se nada tivesse acontecido. E prossegue magistralmente. Contudo, no fim, faz beicinho, está triste, sente que não foi perfeita. Uma menina.

O pior são agora as suspeitas. Dizem que testou positivo a uma certa substância. Li que se trata de um medicamento que previne os ataques de angina (se bem percebo, a chamada angina de peito). Não me perguntem porque é que ela, a serem verdadeiras as suspeitas, tomará isso nem como é que um medicamento para uma questão cardíaca pode funcionar como um estimulante ou coisa que o valha. Nem sei quem é que, no caso de uma criança de 15 anos, decide o que ela toma ou deixa de tomar. Diria que seriam os pais. Mas os pais autorizariam uma filha, uma criança, a tomar medicamentos que a podem prejudicar quer a nível desportivo quer, sobretudo, a nível físico? E já nem falo no aspecto psicológico. 

E, pensando bem -- se isto do simbolismo vale alguma coisa --, se a minha filha, aos 15 anos, participasse nos Jogos Olímpicos, a mim não me agradaria que dançasse o Bolero. Com tantos milhares de hipóteses de músicas por que raio de carga de água logo haveria de dançar o Bolero...? Claro que o Bolero é o Bolero é o Bolero e é independente do que se pode fazer ao ouvi-lo mas, sabendo que a coreografia teria forçosamente alguma conotação sexual, eu acharia que se poderia muito bem esperar pelos 18 anos da miúda.

Mas, enfim, isto é uma idosa a falar. Acho que estou assim, a modos que mal disposta, por pensar que uma jovem tão fantástica -- com umas pernas esguias desta boa maneira, com uns braços que giram em volta do corpo, com uma capacidade de elevação e uma elegância tão superlativas, com uma vida tão promissora pela frente -- pode ver manchada a sua reputação e comprometida a sua carreira por lhe darem a tomar medicamentos proibidos.

Desejo que tudo não passe de um equívoco. 

Isto no dia em que soubemos que, por cá, um puto de 18 anos se preparava para causar um desgraça na escola. Soube na rádio, quando estava no carro à vinda para casa, à noite, e nem queria acreditar.

Nestas ocasiões as televisões são inundadas de espertos. Ainda não se sabe de nada e já eles sabem de tudo. Ouvi que se tratará de um puto tímido, introvertido e que consumia muitos videojogos de violência. Não vale a pena tecer considerações antes de haver certezas. O que sei, independentemente deste caso, é que deixar os putos entregues às PlayStations, a brincarem às guerras, aos ataques e a essas cenas virtuais que parecem verdadeiras e em que o seu cérebro, dúctil, se habitua às mortes e às múltiplas vidas que se podem comprar e em que as mortes não causam dor é daqueles erros que mais cedo ou mais tarde se pagam caros.

Mas, enfim, não me apetece escrever mais. Más notícias que envolvem crianças ou adolescentes deixam-me sem vontade de escrever.

Kamila Valieva Lands Historic Quadruple Jump At Only 15 Years Old | 2022 Winter Olympics



Já agora: Sylvie Guillem - Bolero


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Desejo-vos uma bela e happy friday
Alegria. Saúde. Ar puro e paz de espírito.

quinta-feira, setembro 09, 2021

A dor dos outros

 






Uma vez, não me lembro porquê, fui a casa à hora de almoço e regressei de autocarro. Foi há muito tempo. Ao meu lado sentou-se uma mulher mais velha do que eu mas que, certamente, seria mais nova do que sou agora. Eu ia calada, do lado da janela. Ela começou a falar. Contou-me que o filho se drogava, que a roubava, que lhe batia. Eu estava quase petrificada. Era muito nova nessa altura e ainda não estava habituada a que estranhos me contassem os seus dramas. Não sei o que lhe disse, não sei se na altura estava preparada para dizer o que, numa situação de angústia, uma pessoa precisa de ouvir. A senhora contava que morava num rés-do-chão e que tinha mandado colocar grades para o filho não entrar. Dizia que, sempre que ele conseguia entrar ou sempre que ela ia buscá-lo à esquadra ou que o apanhava caído na rua e acabava por deixá-lo ficar em casa, ao fim de pouco tempo, ele acabava por desaparecer e que, sempre que desaparecia, ela já sabia que ele tinha roubado alguma coisa. E que outras vezes, quando ela escondia o pouco que tinha, ele a ameaçava e agredia. 'Já me bateu tantas vezes...', disse 'tenho tanto medo dele'. Tinha a voz presa, por vezes quase não conseguia falar. Quando cheguei à minha paragem tive pena de sair antes dela, sentia que deveria continuar a ouvi-la. Nunca mais me esqueci desta mulher. Lembro-me perfeitamente dela e do que me disse. Não me lembro de uma única palavra que eu tenha dito.


Outra vez foi a senhora que, por vezes, via a passear o cão e que tinha um filho estranho que devia morar com ela. O filho deveria ter uns trinta e tal ou quarenta anos e era esquisito. O meu marido dizia que, se calhar, ele tinha tido problema com drogas e estaria a recuperar. Costumava andar com uma grande máquina fotográfica, uma objectiva das boas, equipamento dir-se-ia que profissional, e estava quase sempre a fotografar não sei bem o quê, acho que pormenores. Quando eu estacionava o carro, por vezes via aquele trio, a mãe, o filho e o cão. Uma vez estacionei e ela estava sentada no muro de uma das casas que dá para o pequeno parque onde eu tinha estacionado. Vi-a levantar-se e vir na minha direcção. Penso que, na altura, descrevi essa situação aqui no blog. Chegou-se ao pé de mim e disse-me: 'Morreu o meu filho', um fio de voz. De facto, estava vestida de preto. Lembro-me de me ter sentido aterrada perante a dor imensa daquela mãe. Estava numa angústia imensa. Disse que não conseguia estar em casa, que só queria estar no cemitério. Que ele tinha adoecido e que ela nunca tinha percebido que a doença era tão grave. Não lhe tinha ocorrido que o filho estivesse em vias de morrer. Que tinha sido muito rápido. Que quando lhe disseram que o filho tinha morrido não conseguia acreditar. E eu ouvia, esmagada pela dor dela, também sem saber o que dizer. Não sei o que lhe disse. Só me lembro do que ela me disse. Fiquei ali na rua a ouvi-la até ela querer, esmagada pela dor. Quando contei ao meu marido ficou muito admirado não apenas pela morte do filho da senhora como pelo facto da senhora, sem me conhecer, sem nunca antes ter falado comigo, ter chegado ao pé de mim para me dizer tudo aquilo.

Uma vez íamos, à noite, para a nossa casa no campo e, pelo caminho, parámos no supermercado da cidade mais próxima. Eu tirei a senha para o peixe e o meu marido foi comprar fruta, legumes, queijo -- essas coisas. Eu fiquei à espera da minha vez. Estavam várias outras pessoas à espera. Então, uma das pessoas, uma mulher, abeirou-se de mim e começou a contar-me sobre os problemas que tinha com o filho, separado, incapaz de se fixar num emprego, só a falar em ir para fora, com uma criança pequena de quem não queria saber. A mulher, à beira das lágrimas, dizia que não sabia o que seria do filho se fosse para outro país, que ficaria sem saber como é que ele estava. E que perderiam o contacto com a criança. Que não sabia o que fazer. Que achava que ia perder o filho e o neto. O meu marido, que se tinha despachado, ao ver a senhora a falar comigo, ficou de longe, penso que era alguma pessoa minha conhecida. Quando chegou a vez dela ser servida, ao ir-se embora, agradeceu-me. Quando contei, o meu marido voltou a dizer que não percebe como é que, do nada, alguém chega ao pé de uma pessoa que nunca viu e começa a falar de assuntos tão pessoais. Também acho estranho. Mas é isto que acontece.

Ultimamente, quando percebo que isso está prestes a acontecer, afasto-me um pouco, agarro-me ao telemóvel para que as pessoas se retraiam. Aconteceu no outro dia à porta da farmácia. A lotação é limitada pelo que a espera se faz no exterior, esperando a vez da nossa senha. Estava ali e vi uma senhora que se foi chegando. Percebi que não haveria de faltar muito para me falar de assuntos muito seus. Fiz de conta que não tinha percebido e dei uma volta por ali. Não sei porque agora evito. Creio que é porque receio não estar à altura e não ter a palavra ou a atitude certa. 

Lembro-me de quando salvei uma mulher que tinha tentado suicidar-se. Também o contei, não sei se aqui se no outro blog. Andávamos a caminhar à beira rio e o meu marido foi por um lado e eu quis ficar ali, não sei se a fotografar, se quê. Já era lusco fusco ou noite, também não recordo com exactidão. Havia o barulho das ondas a bater na amurada. Só eu estava ali. O meu marido detestava que eu ficasse para trás, em locais ermos, ainda por cima já sem luz. E, então, pareceu-me ouvir uma voz, um choro, a vir da água. Abeirei-me e vi que estava uma mulher dentro de água, tentando segurar-se ao muro. Mas as ondas puxavam-ma e, por vezes, desaparecia. Quando me viu, suplicou-me que a ajudasse, suplicou-me que ficasse ali, que não a deixasse sozinha. Sem ver vivalma, sem ver o meu marido, sem saber se haveria de ficar a falar com ela se sair dali para ir em busca de alguém, vivi uns instantes de aflição. Não vou descrever em pormenor mas consegui chamar ajuda. Estive o tempo todo a dizer-lhe que se aguentasse, que tudo se iria resolver. Ela, mesmo quando estava a ser puxada com cordas, não parava de me pedir que não a deixasse, que a ajudasse. A custo, os bombeiros conseguiram resgatá-la. Estava gelada, perturbada. Pediu-me que ligasse ao marido, quis que fosse eu a falar. Pedi ao senhor para ir ter ao hospital. Ela não me largava a mão, pedia-me 'ajude-me, ajude-me'. Disse-me: 'sou muito infeliz'. Queria que eu fosse com ela na ambulância mas os bombeiros não deixaram. Fiquei muito perturbada. A mão gelada dela agarrada à minha não me sai da memória. Não a procurei no hospital. Pensei que ela deveria ter apoio clínico especializado, não o apoio de uma leiga, de uma desconhecida. Mas não sei se fiz bem.

Mesmo aqui já recebi apelos aflitos, pedem-me que lhes ligue e enviam-me o número de telemóvel ou pedem-me que vá ter a alguns lugares, já me disseram que não sabiam a quem mais recorrer, pedem-me ajuda, que não aguentam mais, percebo que estão no limite. Não acedo, não ligo, não me encontro. Tento ajudar de outra forma, tento que procurem ajuda especializada. Não tenho preparação para lidar com situações limite. Tenho receio de falhar.

No outro dia, quando fiquei em observação no hospital, perto de uma jovem suicida que toda a noite gritou e chorou, tive muita vontade de ir falar com ela. Várias vezes me soergui e me preparei para me ir sentar ao lado dela. Mas ela estava rodeada de enfermeiros que a seguravam e atavam à cama, e eu própria tinha que estar em repouso -- não iam aceitar. E, depois, que lhe diria eu? 

Mas, se calhar, em situações assim, não é preciso dizer muito, se calhar basta ouvir e sentir o sofrimento que os outros sentem.

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Excerto de pinturas de Pieter Bruegel, o Velho, ao som de A Garota Não que interpreta Mediterrâneo

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Desejo-vos um dia bom

quarta-feira, abril 28, 2021

Os invisíveis

 

Na rua em que eu vivia apareceu um jovem com bom ar que ajudava os condutores a arrumarem os carros. Os lugares eram largos, não havia dificuldade. Ninguém precisava de ajuda. No fim pedia uma moeda. Nunca lhe dei. Uma vez enchi-me de coragem e disse-lhe que ele deveria ir ao centro de saúde pedir ajuda, que não deveria habituar-se a uma vida assim, que seria aconselhado e teria tratamento. Ficou estupefacto a olhar para mim. Nunca mais me estendeu a mão. Contudo, sempre fiquei na dúvida. Será que dizer isto a uma pessoa que vive de esmolas faz sentido? Era alcoólico. Andava sempre embriagado e com uma garrafa de cerveja na mão. Não sei se também se drogava. Mas deveria ter também a sua dignidade. E não sei se o que eu lhe disse lhe soou a uma vontade de ajudar ou a uma ingerência escusada.

Depois deixou de aparecer. E voltou a aparecer, cada vez mais debilitado, mais aos tombos. Depois desapareceu. Depois voltou a aparecer à porta de um supermercado, o cabelo a escassear, o rosto a mostrar a erosão dos excessos, sentado, encostado a uma parede, o boné no chão para recolher esmolas. 

Não imagino o que seja o sofrimento de uma mãe que tenha um filho que leva uma vida de autodestruição, que viva aos tombos, aos caídos. Não consigo imaginar.

Uma vez vi-o a sair de uns escombros. Ele e uma mulher escanzelada, cabelo quase rapado, sem dentes, com aspecto de ser mais velha que ele. Mas não se sabe. A rua estraga a saúde, envelhece. Ambos aos tombos. Iam a andar à pressa, como que a querer fugir mas tropeçando, quase caindo, um esperando pelo outro. Uma tragédia. Provavelmente viviam ali. Nunca me passaria pela cabeça que ali, por entre ruínas, pudesse viver outro ser vivo que não gatos ou pombos. 

Mas viver sem tecto não é apenas o destino de quem se vê à mercê de vícios, incapaz de uma vida entre família. Distúrbios mentais, pouca sorte, acasos, falta de chão quando a vida prega uma rasteira, desgostos destruidores, ausência de um amparo no momento em que ele mais é preciso -- tantas razões.

São os invisíveis. Os indesejados. O incómodo a céu aberto. Podemos vê-los sob os viadutos da cidade, em casas improvisadas com cartões, podemos adivinhá-los quando vemos cobertores, sacos, em alpendres ou escadas. De noite acolhem-se e, antes que o dia amanheça, desaparecem sabe-se lá para onde. Invisíveis.

Gente como nós.

Michael

Feliz. Perdeu os dois filhos. Perdeu o irmão. Tem um cancro em fase avançada. Sorri e diz-se feliz.


Michelle

Diz que o ex-marido é um homem rico. Vive na rua. Teve AVC´s. Diz que vai levantar-se.


Dakota tem 29 anos. Saiu de uma relação abusiva. Quando saiu de casa, o marido deu os filhos para adopção. Sente muita falta dos filhos.


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Desejo-vos um dia feliz

terça-feira, setembro 29, 2020

Ayahuasca...?

 


Sobre práticas religiosas não precisaria nem falar, toda a gente que por aqui me acompanha sabe que não sou de práticas religiosas. Não sigo igrejas. Baptizaram-me, puseram-me na catequese, fiz a primeira comunhão e a comunhão solene. Nada daquilo me convocava para o que quer que fossse. Aquela não era a minha praia. Achava que nada daquilo fazia sentido, nem a perseguição com os pecados nem aquelas cenas surreais que não tinham nada a ver com nada. Não sobrou nada. Desaderi. 

Dada a sentimentos para-religiosos eu acho que sou. Acredito na incompreensível infinitude da perfeição e da beleza. Acredito na eternidade do mar, da terra e do céu e todo o mistério dessa improvável convivência me faz ter vontade de me ajoelhar de estupefacção e rendição. Acredito no milagre do nascimento e no supremo milagre da vida. Tenho, pois, esse lado espiritual. E é uma espiritualidade pouco selectiva. Por exemplo, daqui por algum tempo vou ter vontade de me benzer de espanto de cada vez que vir um cogumelo a brotar da terra. E é o mesmo que sinto quando, ao ver flores ínfimas e de uma perfeição incompreensível, me dizem que são flores aéreas. Curvo-me perante esse lado inexplicável e maravilhoso das coisas. É tudo isso que venero. Também sou capaz de me comover perante a imagem de uma mulher com o filho ao colo. Madona, nossa senhora, mãe. Se há quem lhe chame santa, tanto me faz. Sou capaz de a contemplar e me sentir intimamente reconhecida ao perceber nela o mesmo imenso e incondicional amor que tenho pelos meus filhos e pelos filhos dos meus filhos, um sentimento abençoado que não se esbate com o tempo nem sofre a erosão do quotidiano. 

E, sendo eu assim, claro que nunca senti qualquer apelo por seguir mandamento, restrição, ou lei de trânsito para circular entre capelas ou serviços religiosos. Pastores, padres, bispos, cardeais -- tudo hierarquias que me são estranhas. Afastei-me dos rituais e da castração intelectual metódica do catolicismo tal como nunca senti o mínimo apelo por jeovás, evangélicos, iurds ou o que quer que seja. 

Religião, para mim, não sei o que é que não o simples apelo pela bondade, pela generosidade, pela tolerância, pela liberdade, pelo supremo respeito pela dignidade alheia, pelo amor, pela beleza, pela harmonia, pela transcendência sem nome, sem regras.

Na política também sou assim. Gosto de política. Mas gosto da política abstracta, pura. Gosto da coisa pública e de pensar a melhor forma de a servir. Gosto do pensamento limpo. Gosto de pensar no futuro. No meu pensamento não encaixam ambições ou compromissos relacionados com concelhias, com distritais, com aparelhos partidários. Por isso sou apenas eleitora atenta, votante assídua -- mas sem ligação a qualquer partido. Se a nível das legislativas sou geralmente votante no PS é porque, das opções que se apresentam a votos, é a que me parece mais adequada à minha visão política.

Não participo, pois, em homilias, liturgias, comícios, cegadas do género, cenas que metam aventais, velas, rezas, búzios, cantares em volta, flores atiradas ao mar. Zero. 

E mais. Pode isto que vou dizer a seguir não ter a ver com o anteriormente reportado mas vou, na mesma, dizer. É que gosto de ter controlo sobre mim. Sou livre e gosto de me sentir livre, senhora de mim, na plena posse dos meus direitos, das minhas faculdades.

Talvez por isso, nunca me embebedei. Nunca. Dantes, ao primeiro gole, subiam-me uns calores, dava-me vontade de rir e, de seguida, de dormir. Por isso parava logo aí. Nem apreciava vinho. Até que milagrosamente comecei a gostar e o álcool deixou de me fazer passar por vergonhas. Agora posso beber, e claro que bebo moderadamente, que não me sobem os calores, não desato na gargalhada, não caio de sono. Aprecio, sabe-me bem. E nunca me cai mal.

Muito menos outras drogas. Nunca me droguei. Nunca fumei erva. Nada. Não sinto necessidade e é risco que não quero correr, o de ficar desatinada, descontrolada. Talvez quase todos os meus colegas e amigos o tenham feito. Não faço ideia. Não sinto curiosidade. Não me sinto diminuída ou fora de moda, nunca me senti. Não sou de me encarneirar. Sinto orgulho em ser independente e em aceitar ser guiada pela minha consciência.

Talvez por tudo isto, diverti-me à brava ao ver aqui as minhas ídolas falando de tema afim, o Ayahuasca. Claro que nunca tinha ouvido falar em tal coisa. Não faço ideia se é coisa conhecida em Portugal ou moda que ainda cá não chegou. Tanto faz. O que sei é que as Avós da Razão são uma graça: mentes livres, desbocadas, divertidas. Umas jovens descomplexadas. Abençoadas miúdas que tanta alegria e gosto pela espontaneidade nos trazem.

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Pinturas de: Maximo Laura, Renzo Campodonico, Daniel Rodriguez, Adriana Cillóniz, Ginny O'Brien, Jorge Vilca.
Gustavo Santaolalla interpreta Pajaros
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E uma terça-feira muito feliz a todos quantos aí estão a aturar-me.
Saúde. Alegria.

sexta-feira, julho 05, 2019

Diogo Amaral e a droga -- em carne viva no programa da Cristina Ferreira


Não costumo ver telenovelas portuguesas nem acompanhar a vida, os sucessos, as crises, os amores e desamores dos seus actores. 

Hoje, já depois de ter conversado com a minha filha, recebi dela uma sms dizendo-me para ver a entrevista do Diogo Amaral no programa da Cristina Ferreira (e acrescentou que eu ignorasse a bimbice dela). 


Achei tão insólita a mensagem que a li em voz alta. O meu marido também ficou admirado mas desvalorizou, admitiu que tivesse a ver com algum aspecto relacionado com a vida profissional dela. Quando li Diogo Amaral, visualisei-o embora com dúvidas se seria esse mas, confesso, fiquei na mesma. Perguntei-lhe porque queria que eu visse. Não quis dizer-me, apenas acrescentou para eu reparar na linguagem corporal dele e para ver em silêncio. Comecei a ficar curiosa.

Agora, antes de pôr a box no dito programa, googlei-o para confirmar: era mesmo quem eu imaginava, aquele rapaz que me faz lembrar o Sergei Polunin, aquele corpo escorreito, aquele ar vagamente atormentado. 


Mas nada sabia do rapaz pelo que foi com muito cepticismo que me predispus a entrar na casa da Cristina Ferreira. Apenas, mesmo, para fazer a vontade à minha filha. 

Pus aquilo a andar à pressa toda, a x64, para não me desestabilizar com a gritaria dela e ir directamente ao ponto. Mal o rapaz entrou em cena pareceu-me que estava pouco à vontade. Ela toda gaiteira e ele tenso. Até que ela lhe perguntou se estava bem e ele, enervadíssimo, disse que tinha uma coisa para dizer. E, então, aconteceu um momento surpreendente. Uma emoção frontal, uma confissão dita de frente, sem lágrimas, de olhos bem abertos. Pediu desculpa a quem o contratou. Já fui saber. Estava em gravações e teve uma branca e foi incorrecto para com a equipa técnica e para com os colegas, acabou por sair antecipadamente do argumento. 


E, então, mãos nervosas, esfregando-as nas pernas, corpo completamente em tensão, contou.

Contou: foi um período de consumo de droga. Contou: mentiu muito a muita gente. Contou: ia deixar o filho a casa dos pais para poder ir drogar-se. Contou: andava zangado com o pai e isso transtornou-o mas não responsabiliza o pai pelo que aconteceu. Contou: naquela altura enganava toda a gente. Contou: percebia que as pessoas o olhassem com desconfiança. Contou: percebia que, ao contar isto, ia dar cabo da vida da mãe. Contou: antevia os momentos que aí virão. Contou: mais uns meses e acabava com tudo, com a profissão, com o namoro, com tudo. Contou: esteve numa clínica na Escócia a tratar-se. Contou: foi Ljubomir Stanisic, um irmão, quem o agarrou, quem o ajudou. Contou: se calhar é prematuro estar já a falar pois deixou de consumir há apenas um ano.

Diogo Amaral estava trémulo, os grandes olhos muito abertos, dispostos a receber todas as perguntas, todas as censuras.

Custou-me muito ver. Imagino o sofrimento da mãe ao ver o filho a expor-se daquela maneira, imagino o sofrimento da mãe quando, tempos antes, soube o problema de drogas do filho, vendo-o a deitar a vida a perder. Imagino o sofrimento dele sabendo o sofrimento que esta entrevista vai causar nos pais.

Mas imagino que o sofrimento dos pais não seja pela entrevista -- que se lixe a entrevista, que se lixe o que as revistas vampirescas vão explorar -- mas de medo que ele não aguente a pressão e tenha uma recaída, que o sofrimento seja pela vontade de que ele não sofra mais, seja por não saber como protegê-lo de si próprio e da vida que escolheu viver.

Esta vida de actor de novela, com exposição permanente nas redes sociais, em eventos, em revistas, sempre a ter que dar entrevistas, sempre a ter que estar bem, deve violentar a alma de quem tem alguma coisa sob a pele. Não deve ser fácil arranjar forças para estar sempre bem sob a luz dos holofotes.

Nem deve ser fácil, em geral, encarnar novas personagens, conseguir emocionar-se a fingir sem perder a capacidade de se emocionar de verdade. Acredito que, de vez em quando, deve haver a tentação de esvaziar a alma.

Ou isto tudo junto, a germinar sobre um solo adubado pelas tristezas e inquietações que toda a gente tem mas que um actor tem que esconder para ser outro.

Cristina Ferreira, apanhada de surpresa, quase ficou bloqueada. Chorou e chorou por ele e por ela e eu, pela primeira vez, achei que ela estava a ser genuína. 

Mas mostrou que tem algumas limitações: um bom entrevistador teria sabido encontrar o registo certo para deixar o entrevistado falar, deixando que ele fosse tão longe quanto estava disposto a ir. 

Diogo Amaral estava com vontade de falar e teria respondido a muito mais. Cristina Ferreira deveria ter sabido conter-se -- mas pode alguém ser quem não é? -- em vez de ir quase para cima do rapaz, fazer-lhe festinhas, oferecer o seu ombro. Desnecessário. E, não sendo capaz de prosseguir, acabou a entrevista. Ou isso ou tinha que cumprir o alinhamento e ir vender o seu peixe. Não sei. Sei é que despachou o rapaz.

E, quando falo em que ele poderia ter falado mais e que penso que seria importante que ela tivesse sabido agarrar a oportunidade, digo-o não por curiosidade mórbida mas porque não é habitual alguém estar disponível para falar tão francamente de um vício tão estigmatizante e há muitas pessoas para quem as palavras dele poderiam ter sido ainda mais úteis do que, sem dúvida, mesmo assim foram.

Explico um pouco melhor. 

Há algum tempo, num dos meus folhetins, um dos personagens drogava-se. Às escondidas, disfarçando, mentindo. Enganava todos os que viviam perto dele, a família, os colegas de trabalho. Era um profissional bem sucedido à luz do dia. Mas, na sombra, era um consumidor de droga. Até que começou a perder o pé, a precisar de mais dinheiro, a pedir dinheiro, a contrair dívidas --  mas tudo sempre envolto em explicações credíveis, sempre sincero e bom rapaz.

Não era um personagem inventado. Não. Muito próximo, muito. Consumia. Mesmo numa festa de anos de uma criança da família, tendo chegado do trabalho, ainda de fato e gravata, ele teve que ir à casa de banho consumir. Ás escondidas, claro. Depois eufórico, bem disposto, a alegria da festa. Sem ninguém desconfiar. A mãe contente com a alegria dele, o pai orgulhoso, a namorada apaixonada. E, no entanto, vivia uma vida de mentira. E, mais para o fim, perante mil evidências, ninguém dsconfiava de nada. Não desconfiava ou não queria desconfiar. Parece tão improvável, tão inimaginável que, quem deveria ver, não vê. Até que ele próprio, certamente incapaz de continuar a enfrentar a mentira do quotidiano e o sofrimento, se afastou, tentou curar-se, afastar-se do círculo de amigos 'agarrados' e de traficantes. 

E até hoje eu não percebo como é que ele conseguia arranjar a droga, quero dizer, quando é que tinha tempo se trabalhava durante o dia e ia ter com a família e amigos depois disso, como é que ele conseguia enganar toda a gente.

Por isso, digo: para a família e amigos poderem perceber melhor os sintomas e melhor poderem ajudar os que atravessam os labirintos negros da droga, seria bom que mais pessoas falassem da sua experiência e de como podem ser ajudados.

Teve muita coragem o Diogo Amaral e tomara que acredite que o seu exemplo pode ser uma ajuda para quem atravessa o que ele atravessou e tomara que saiba como melhor ajudar os que ainda não conseguiram vontade para sair desses tenebrosos labirintos.

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Não sei se antes, se durante o período das drogas, o vídeo abaixo -- uma sessão fotográfica para mostrar o seu corpo. Apenas para ilustrar isto de que há vidas de exposição pública -- em que é suposto mostrar o bom físico, o belo sorriso, a boa disposição permanente, a capacidade para responder a toda a espécie de perguntas -- que, por vezes, têm um reverso: uma vontade de descer ao nada. Ou de fugir em direcção ao tudo.


Ao longo da entrevista, Diogo Amaral fala com orgulho deste filme que protagonizou:


Pedro e Inês




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Devo dizer que, quando acabei de ver a entrevista, fiquei muito impressionada. Não ia escrever sobre isto. Como muitas vezes me acontece quando alguma coisa me toca assim, estava capaz era de ir escrever sobre maluqueiras, rêveries ou faits divers. Mas a minha filha disse que achava que eu deveria escrever, não apenas para 'dar força ao rapaz' como para mostrar que a recuperação é possível e que isso pode ajudar outras pessoas. Não sei se fui capaz mas, acreditem, é sentidamente que desejo que o Diogo Amaral tenha uma vida longa e feliz e que quem hoje se encontra em situação de dependência, també consiga força para virar as costas ao vício.

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E dias felizes a todos. Saúde e alegria.

quinta-feira, julho 04, 2019

Coisas de que me arrependo





Vi o vídeo abaixo e pus-me a pensar. De que é que me arrependo? Assim de repente não me lembrei de nada. Só de insignificâncias. Fiquei até a pensar que a minha vida deve ser toda ela insignificante para não ser capaz de me lembrar de uma única coisa significante de que me arrependa. Depois de pensar um bocado, lembrei-me de uma coisa que me pareceu digna de registo, estava mesmo convicta e até arreliada por, antes, não me ter lembrado. Mas recebi uma mensagem pelo meio, depois deixei-me estar por uns minutos a olhar para a televisão e agora já não faço ideia do que seria. Passo-me comigo por ser assim, tão aérea para coisas a sério.

Estou para aqui a puxar pela cabeça e, para quase tudo o que me ocorre, tenho uma boa justificação. Por isso, o arrependimento fica frouxo. 

E há outros: o arrependimento de ainda não ter feito algumas coisas que gostava de fazer. Mas ainda tenho esperança de vir a fazer e, nestas coisas, tenho uma coisa que se calhar é superstição: não gosto de falar não vá o falar atrair forças contrárias. 


Ah, parem tudo antes que me esqueça outra vez. Arrependo-me de não me ter informado capazmente na altura de escolher um curso. Na altura certa não me ocorreu ser arquitecta e se calhar poderia ter tido uma vida diametralmente oposta e, cá para mim, empolgante. Gostava tanto de desenhar cidades, jardins, casas improváveis, formas surreais, jogos de luz, jogos de água. Mas foi coisa que nunca me passou pela cabeça quando andava a estudar. E, se calhar arrependo-me. Mas não sei se arrependimento é a expressão certa.


Também havia aquilo de querer ser psiquiatra e pelo medo de ter que ver mortos ou doentes que me afligissem muito desisti da ideia, não podia passar pela provação do curso de medicina. Psicologia na altura não tinha um ensino muito a sério. Ou, pelo menos, pareceu-me. Mas também não sei se é sério dizer que me arrependo.

Ah, já sei o que era, já sei, já me lembro.

Já aqui falei daquele jovem casal que morava ao nosso lado. Tinham dois filhos, crianças. Ainda a minha filha não era nascida. Eu era uma miúda. Eles eram ambos drogados. As crianças deviam ficar com os avós mas, para aí uma vez por semana, eles levavam o casalinho para casa, um menino e uma menina um pouco mais velhinha, talvez o menino tivesse uns quatro e a menina uns seis anos. E, à noite, eles deixavam as crianças em casa e saíam, só regressando, pedradíssimos, noite alta. E as crianças ali ficavam sozinhas e choravam, choravam, chamavam pelos pais, um sofrimento. E eu passava horas debruçada na varanda, a tentar consolá-los, a dizer 'não chorem, os pais vêm já, não chorem'. E nunca me ocorreu chamar a polícia. E se calhar fiz mal. A jovem de então é agora uma mulher que deve ser pouco mais velha que eu. Trabalha numa loja que era do pai e que agora é dela. Tem um ar sempre triste e as unhas muito roídas. Não sei se ela, na altura, tinha consciência do que fazia e se os filhos a perdoaram. Sei que, quando olho para ela, tenho pena do que ela fez sofrer os filhos e, se calhar, do que ainda sofre caso tenha presente aqueles tempos terríveis. E disso eu guardo um pensamento que me incomoda por pensar que não defendi os miúdos como, mais do que certo, deveria ter feito. Eram outros tempos, a consciência era outra. Mas se calhar fiz muito mal. É um arrependimento misturado com tristeza. Deve haver tantas crianças que passam por isto. 

Agora, à medida que escrevo, vou-me lembrando. Mais outra. Por exemplo, lembro-me de um certo dia em que fui avaliada por um superior hierárquico. Toda a gente ali era avaliada. Há objectivos, há competências, há comportamentos. E, para cada função, há um target (tal e qual assim: um target, para ser uma coisa mais business). Ora bem. Num dado ano apanhei um que me avaliou pela primeira vez. E acontecia com ele aquilo que já me aconteceu noutras vezes. Vou dizer uma coisa que alguns dos que me lêem vão pensar que é imodéstia ou armação ao pingarelho. Nada a fazer se pensarem isso porque é a verdade: quando andava a estudar, alguns professores ficavam um bocado nervosos, em especial se tinham que me fazer avaliação oral, a dita 'chamada', ou se lhes pediam para resolver problemas complexos e se atrapalhavam, sabendo que algum engraçadinho lhe iria dizer para ele me pedir explicação. E uma vez, porque todos os meus amigos e, em especial, o meu amor, andavam na explicação e eu quis ir para lá, o explicador não queria receber-me, achava que eu não precisava de explicações dele, que, sendo aluna de notas muito altas, se calhar eu é que lhe podia dar explicações a ele. E este meu chefe também padecia da mesma psicose. Dizia a torto e a direito, como se fosse defeito meu: 'você é muito inteligente' ou 'as pessoas têm medo de discutir consigo porque já sabem que você lhes dá sempre a volta'. E, neste clima, a avaliação foi o maior tormento. Eu não tenho paciência para avaliações levadas a sério. Tudo muito pueril e desnecessário. E, então, eu a querer despachar e ele, tudo muito by the book, a querer dissecar tudo, os meus comportamentos, as minhas competências, tudo naquilo de querer encontrar defeito para provar que não posso ser tão inteligente quanto ele próprio estava sempre a dizer. Comecei a ficar uma pilha, uma pilha pronta a explodir, com vontade de dizer que preenchesse a ficha como lhe apetecesse, que para mim era igual ao litro, e ele que não, que tínhamos que levar a sério e avaliar step by step e, a cada coisa que dizia de mim, queria a minha opinião e eu com vontade de dizer 'nas tintas' e ele a querer saber se eu concordava e eu já furiosa, enervada, a pensar que me ia mas era levantar e dizer 'bardamerda para a avaliação' e sair porta fora. Mas pensei que se fizesse isso ia ser uma barraca das antigas e fui-me aguentando mas a ficar cada vez mais arrasada, a paciência esgotada. Horas. Uma saturação. E hoje sei claramente que me arrependo de não me ter levantado e dito que já chegava e sobrava e que não estava para aturar aquilo. Foi uma violência, daquelas violências que eu poderia perfeitamente ter interrompido.


E, agora que desemburrei, parece que me ocorrem mil coisas de que me arrependo. Não sei se de alguma alguém poderia fazer um filme. Tenho para mim que, lidos, os meus arrependimentos são uma seca. Mas são o que são. Acho que, a menos que amanhã já me tenha outra vez esquecido de tudo, tinha pano para muitos posts.

Mas agora tenho que ir pregar para outra freguesia porque, para variar, vou ter que madrugar para mais umas sessões non stop de reuniões e compromissos e afazeres. Uma vidinha de cão (dos rafeiros) que, a bem dizer, quando a vir pelas costas sou bem capaz de me vir a arrepender de mais umas quantas coisas. Mas, arrependimento a posteriori é como aquilo do leite derramado ou lá o que é.

Mas, pronto, esta conversa toda por causa deste vídeo:

100 People Tell Us Their Biggest Regret



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As pinturas que enfeitam o texto (ou vice-versa) são de Andy Newman

E queiram descer caso queiram ver umas casas muita fake.