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segunda-feira, outubro 10, 2022

Começar de novo?

 


Quando escolhi a área no secundário (ciências e não económicas ou letras ou [não me lembro do nome das outras]) não fiz testes psicotécnicos nem conhecia todas as possibilidades que tinha ao meu dispor. Foi muito pelos gostos imaturos de miúda de catorze anos. Dois anos depois, quando escolhi o curso superior também estava mal informada e não sabia como informar-me. Hoje, com a informação disponível, omnipresente, este desconhecimento parece improvável. Mas era assim. 

Tinha várias vocações, muito opostas, e outras que não sabia que poderiam ser concretizáveis e, certamente, outras que desconhecia. 

Aboli a psiquiatria, que seria a primeira escolha, porque não conseguiria ver mortos nas aulas de anatomia do curso de medicina. Só de pensar nisso sentia terror. Aboli, depois, psicologia porque o curso não era reconhecido ou, pelo menos, aquele a cuja porta fui bater, à época, não era. Acresceu a isso o facto de ter lido o currículo do curso e me ter parecido embaraçosamente básico. Arquitectura estava fora de questão pois tinha enveredado pela alínea de ciências e porque achava que era muito assente em desenho e em geometria descritiva e isso pareceu-me, por um lado, fora das minhas competências e, por outro, uma seca. Não pensava, na altura, na profissão em si mas nos escolhos que o curso me traria. Identicamente não optei por economia pois forçosamente teria história e, pelos péssimos professores tidos até aí, abominava história. E em gestão também não pensei pois parecia-me uma coisa às três pancadas, um pot pourri de matérias em que nada seria aprofundado. E, na minha cabeça e segundo os meus conhecimentos, não haveria outras possibilidades.

Acabei por optar por um curso que me garantiram que dava para tudo e que, segundo me diziam, eu faria com uma perna às costas pois assentava na disciplina em que tinha notas mais altas. Foi, na verdade, um curso horrível, pesado, com colegas marrões, sensaborões. Não me revia em nada daquilo: professores que carregavam, sem prazer, o peso desmedido da sua cátedra e alunos precocemente envelhecidos que ansiavam por ser génios. A ausência de companheirismo e de gosto pelo lado lúdico da vida por parte deles quase me faziam atirar a toalha ao chão. Os primeiros anos daquele curso eram uma máquina trituradora que deixava a maioria dos alunos para trás. Aguentei-me e, felizmente, os dois últimos anos foram aliciantes, um grande desafio. Como arranjei logo emprego e foi para fazer uma coisa que adorava e ainda por cima com o melhor acompanhamento que poderia esperar, nunca me arrependi. Sempre senti que estava na profissão certa apesar de ter mudado algumas vezes. Fui fazendo sempre coisas novas, fui sendo posta à prova, fui sentindo que estava sempre a aprender, fui formando equipas, e, por isso, fui sempre sentindo a motivação de que necessito para me mover. O mundo das empresas provou ser a minha praia.

Contudo, um dia destes, esta minha jornada profissional estará a chegar ao fim. Poderei, nessa altura, não fazer nada. Depois de uma intensa vida de trabalho, talvez seja mais do que justo que me conceda a mim própria o direito ao descanso e à liberdade de movimentos.

No entanto ocorre-me que, em vez disso, poderei experimentar outras praias.

Já pensei: porque não vou tirar o curso de psicologia? E, depois, trabalhar nessa área? Porque não? Ou porque não vou aprender a fazer joias, por exemplo? Arquitectura já não dará, já é tarde demais para começar arquitectura. Mas para psicologia acho que vou a tempo, tenho experiência de vida que, se calhar, ajudará. A psicologia sempre me atraiu, sempre.

Claro que há aquilo de escrever. Gostaria de ter a concentração, a disciplina e a disponibilidade mental necessárias para escrever... mas não sei se as tenho. Escrever continua a aparecer na minha cabeça como quase um hobby. E, na minha cabeça, parece que continuo a pensar que devo ter uma ocupação 'a sério', uma profissão. 

Sei que isto, para quem me lê, deve soar muito parvo. E, se calhar, é mesmo parvo. Mas estou formatada para trabalhar e para ser remunerada a partir do meu trabalho. Ficar sentada a olhar para o boneco ou ocupar-me com frescuras e depois receber uma pensão, parece-me uma coisa que não tem a ver comigo.

Portanto, tenho que pensar nisto.

Hoje, cá em casa, ao falarmos nisto, na perspectiva de um dia vir a reformar-me, a minha neta disse: Ah, boa, depois podes ir buscar-me à escola... Ao ouvir isso, senti mixed feelings. Por um lado, fico contente que ela goste que eu vá buscá-la à escola. Mas, por outro, não me imagino a não ter ocupações a 'sério' para além disso. Penso que me sentiria frustrada se passasse o dia na maior indolência tendo por única ocupação ir buscar as crianças à escola. 

Por isso, acho que tenho algumas coisas em que pensar nos próximos tempos. Tenho, tenho.


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Pinturas de Wolfgang Letti na companhia de Leonard Cohen com Anthem 

The birds they sang
At the break of day
Start again
I heard them say
Don't dwell on what
Has passed away
Or what is yet to be
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Desejo-vos uma boa semana a começar já nesta segunda-feira
Saúde. Bons recomeços. Paz.

sábado, agosto 21, 2021

Comer o bolo ou ficar com ele

 


Nunca sei se devemos desfazer-nos do que, na altura, nos parece dispensável ou se deveremos guardá-lo para ocasião posterior. Muitas vezes, na dúvida, guardo. E sou censurada por guardar tralha inútil. Anos depois, alguém (frequentemente alguém que antes me censurou) se lembra disso ou as circunstâncias o fazem relembrar e, graças à minha persistência, as coisas voltam à cena.

Mas não sei se faço bem pois, se já tivesse ido fora, tirávamos daí o sentido e não vinha daí morte ao mundo. 

Por isso, não sei. A Marie Kondo tem aquele critério de guardar apenas o que nos faz feliz mas acho isso redutor: o que não me faz feliz num dia pode fazer no outro. No outro dia, a minha menininha, ao ficar toda molhada, pediu-me roupa para se trocar. Fui à gaveta de blusas que já mal me cabem e foi só escolher uma. 

Quando nos mudámos pensei: se calhar não faz sentido guardar roupa que não voltará a servir-me. Mas, à última hora, pensei: e se alguém aqui em casa precisa de uma blusinha ou coisa do género, como resolvemos a situação? E é o que tem estado a acontecer.

Mas, ao mesmo tempo, de vez em quando, por revoadas, apetece-me viver entre coisas novas, espaços mudados. Acho que é coisa congénita: preciso com frequência de alguma mudança na minha vida. Ainda hoje de manhã, estando eu a propor uma alteração em casa da minha mãe, ela disse: 'detesto obras, não consigo, se puder evitá-las, evito'. Bem sei: sempre assim foi. Sempre achei que a minha mãe, apesar de poder ser tomada pelo contrário, no fundo, no fundo, o que é é muito conservadora. Eu sou o oposto. Fico furiosa quando penso que uma intervenção é para estar acabada até fim de Junho (isto no máximo dos máximos) e se prolonga por Agosto adentro, quiçá mesmo início de Setembro. Mas, tirando esse pormaior que acaba sempre por me enfurecer, parece que só estou bem a pensar no que hei-de fazer para melhorar os espaços, o que, muitas vezes, requer obras.

Acho que já contei: quando era miúda, a minha mãe temia ficar de férias só comigo. As nossas férias quase coincidiam mas o meu pai tinha menos dias que nós. Por isso, parte delas estávamos só nós duas  ou me entretinha por ali, em casa ou com amigas. Mas, fosse como fosse, a primeira tentativa era fazer mudanças em casa, o que, para minha frustração, a minha mãe abominava. Queria era descansar depois de um ano lectivo a aturar alunos, queria que eu a deixasse dormir a sesta em vez de andar a moer-lhe a paciência.

E parece que isso ainda hoje me acontece: olhar à volta e só ver coisas que bem poderiam ser melhoradas. Estofar cadeiras, pintar móveis, mudar os bibelots de sítio -- por exemplo.

Quando às vezes, ao falar com a minha mãe, relato algumas dificuldades ou algumas decisões difíceis de tomar, ela diz: o que faz isso é ter muito, quem tem pouco não sente essas dificuldades.

E concordo. A abastança nem sempre é sinónimo de felicidade. Não sei se há um ponto de equilíbrio, um break-even point. Aquele ponto de equilíbrio perfeito em que a gente percebe como mais favoravelmente resolver o dilema: come-se o bolo ou fica-se com ele? Não é fácil. Quantas vezes queremos desfazer-nos de uma coisa ou de uma pessoa e, ao mesmo tempo, não perder a função que essa coisa ou função representa. Qual o ponto em que se percebe: já era? Ou como perceber se é coisa que valha a pena ainda o esforço de uma reparação ou se o desgaste já é tanto que mais vale partir para outra....?

No outro dia, ao trazer os bibelots do estúdio para a casa principal in heaven, peguei numa taça verde de que gosto muito, com tartaruguinhas à volta. Quase parece um laguinho com tartaruguinhas à volta, em terra firme. Em tempos partiu-se. Fiquei desgostosa. Apanhei cada pequeno bocado e consegui concertá-la. Agora o meu marido, ao vê-la, perguntei: não será altura de deitares isso fora?

- Obviamente que não. Fica bonita na sua imperfeição.

Mas, sobre isto, não sei que dizer. Os anos passam e não me trazem sabedoria. Não consigo estabelecer regras que algum tempo depois ainda sejam inequívocas ou defender teses que, com o passar do tempo, continuem a parecer-me intemporais. As certezas vão ganhando matizes com o tempo e sei agora que apenas os estúpidos acham que sabem tudo. Conheço alguns. 

Na realidade, comovo-me mais, sou mais tolerante, reconheço cada vez mais o valor das pequenas coisas mas, ao mesmo tempo, sou mais impaciente com o que não me agrada, com o que diminui a minha qualidade de vida. Tenho aquela sensação que o que falta da minha linha do tempo não deve ser gasta com o que não vale pena. Mas como saber o que não vale definitivamente a pena? Como saber se a imperfeição com que unimos os pedaços já não torna aquilo uma aberração a que mais vale pôr fim?

Diria que o nosso coração sabe a resposta mais depressa que a mente. Sabemos com as emoções primeiro do que com o raciocínio se há espaço na nossa vida para o que, de momento, nos parece estorvo ou inutilidade ou, se pelo contrário, precisamos é de reconquistar espaço para que coisas ou pessoas novas ocupem o espaço entretanto deixado livre.

[PS: Claro que o que acima escrevi não se refere a livros. Livros são livros são livros]


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Make Mistakes - Abandon your 'Perfect Life'


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Pinturas de Wolfgang Lettl ao som de Vanessa Paradis em Walk On The Wild Side

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Desejo-vos um belo sábado

segunda-feira, dezembro 07, 2020

Se calhar, nem uma nem outra terão presente de Natal

 




Na volta da rua, desacelera. Vai agora devagar. Muito cansado. Sem velocidade, o carro mal anda. Faz inversão na rua, encosta junto à porta. O telemóvel toca. Atende. Pedem-lhe opinião. Enquanto fala, vê que há outra chamada. Pensa que liga quando acabar a chamada. Mas, mal a chamada acaba, uma outra. Atende. Uma má notícia. Expectável mas, ainda assim, um murro no estômago. Depois de tantos anos, ainda o mesmo murro no estômago. 

Sai do carro muito abatido e, de tão cansado,  mal se aguenta em pé. 

Encosta-se à parede da casa. A lua. Muito frio, muita humidade, o luar envolto em névoa como um rio banhando as árvores e as casas. Moon River. Era o que vinha a ouvir no carro. Obviamente não repara no céu nem no luar nem em nada disso, nem se lembra do que vinha a ouvir no carro. Há muitos meses que não olha para o céu nem repara que anda sempre a ouvir o mesmo cd.

Sente-se trémulo.

Antes de entrar em casa, volta a desinfectar as mãos, o telemóvel, a chave do carro, as chaves de casa. Descalça-se, vai directamente para a casa de banho. Põe a roupa no saco que lhe está destinado. Toma banho. 

Só então vai falar com a mulher e com os filhos. Os rapazes estão quase a ir para a cama, pouca atenção lhe dispensam. E ele, cansado como está, também não se importa. A mulher, que o conhece bem, pergunta: 'Então, como foi...? Não correu bem, não...?'. Ele deixa-se cair no sofá, derrotado. 'Não. Cada vez pior. Aquele de que te falei...' Não precisa de dizer mais nada, a mulher percebe.

Ela chega-se a ele, faz-lhe uma festa na cabeça. Ele diz: 'Tenho que ir dormir'. A mulher pergunta-lhe: 'Mas olha lá, não vais comer alguma coisa? Deixei-te ali um prato arranjado...'. Mas ele diz que come uma banana. Passado poucos minutos já dormia. 

De manhã, o telefone voltou a tocar mas não conseguiu atender. Doía-lhe a cabeça. A mulher pegou no telemóvel e levou-o para o hall para ver se ele dormia um pouco mais.

Quando se levantou, sentiu-se muito cansado. A mulher disse-lhe: 'Trabalhas demais. Não aguentas. Não faz sentido. Tantas horas seguidas... como é possível?' Ele apenas respondeu: 'Tem que ser'. 

Os filhos já tinham saído para as aulas. A mulher despediu-se: 'Ficas bem?'. Sentia-o muito cansado. 

Vestiu-se, tomou o pequeno almoço mas tão arrasado estava que nem a comida lhe soube bem nem o café lhe soube a café.

Pensou que deveria aproveitar a folga para ir comprar o presente de natal para a mulher. Receava não encontrar o que sabia que ela gostava e receava que, por encomenda, demorasse a ser entregue. O melhor seria ir já tratar do assunto. O telemóvel de novo. Atendeu. 'Não consegui. Sim, está tudo bem, sim. E tu?'. Do lado de lá, alguém falava agastadamente. Passado um pouco ele disse: 'Não deu. Vou sair agora. Tenho uma coisa a tratar. Depois passo aí. Vá, até já'. 

Mas logo outro telefonema. Deixa-se cair no sofá. Não estava à espera. Não percebe. Não era suposto, nada o indiciava. E, de repente, desata a chorar. Chora, chora. Soluça.

Quando se levanta, a dor de cabeça está mais forte. Liga para o colega: 'Não perguntei. Mais quantos?'. Quando ouve a resposta, diz: 'Vou para aí'. Do outro lado, dizem que não. Mas ele insiste: 'Vou. Está complicado. Daqui a nada estou aí'.

Mas, ao levantar-se, sentiu uma tontura. Voltou a sentar-se. Sente frio. Lentamente vai procurar um casaco. A dor de cabeça incomoda-o. Vai à cozinha para tomar paracetamol. E, de repente, uma suspeita.

Volta ao quarto. Vê a temperatura. Quando vê o resultado, deita a cabeça para trás. Era o que temia. Toca o telemóvel. Ela outra vez. Queria saber se almoçava lá em casa. Ficou calado. Ela insistiu: a que horas chegava, se almoçava, se podia ficar de tarde, que há tanto tempo, que ele devia descansar, que qualquer dia ainda havia um problema, que assim não dava, que já não sabia se ainda fazia sentido. Finalmente arranjou energia para responder. 'Olha. Não. Afinal não posso. Estou com febre. Estou com dor de cabeça. Talvez até esteja sem paladar.' Do outro lado silêncio. Continuou: 'Percebes o que isso significa, não percebes?'. Não conseguiu prestar atenção à voz do outro lado, doía-lhe demais a cabeça.

Liga à mulher: 'Olha. Acho que vou ter que me isolar. Estou infectado. Nem preciso de esperar pelo resultado pelo teste que vou fazer'. 

A seguir liga para o hospital, para o colega: 'Olha, pá, afinal não vou. Estou infectado, pá. Vou fazer o teste mas não tem dúvida'. Sente-se doente. E muito preocupado: 'Agora sobra ainda mais para ti, meu. Aguenta-te... Força, meu. Sim, eu vou dando notícias. Cuida-te, meu'. Do outro lado, o outro médico diz apenas que faz dele as suas palavras.

Deitou-se para trás e pensou que não sabia como seria o natal. 

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Melody Gardot interpreta Moon River e pinturas e esculturas de Wolfgang Lettl

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Uma boa semana. 

Saúde.

sábado, fevereiro 01, 2020

Abaixo o Brexit.
Viva o sonho, o amor e o romantismo





Depois de um período no qual me senti chocada com o impensável a que se assistia no Reino Unido, agora entrei em modo 'nem aí'. Acho que isto do Brexit é coisa tão fajuta, tão mal engendrada, tão aborta que, na minha cabeça, é como se fosse coisa que se vai resolver por si. Há-de desaparecer, quero eu crer. Daqui por algum tempo os ingleses hão-de cair na real e hão-de dar um valente chega para lá nos anormais que os meteram nesta alhada. Embora pareça que sim, que o mundo está a derrapar e prestes a cair para o buraco que a malta toda anda a cavar, tenho uma vaga esperança que, aos poucos, a malta acorde e arrepie caminho. 

E espero que, nesse arrepiar de caminho, a malta volte a prezar a inclusão, a união, o estabelecimento de laços assentes na verdade, na generosidade, na construção de um futuro justo. Sonho com amanhãs que cantam, sou uma sonhadora, uma alienada.

A sombra que se me atravessa no percurso para o futuro radioso que quero antever é o receio de que a malta acorde tarde demais, depois o receio de que o percurso não seja linear e que, nisto, se percam anos preciosos e que, mesmo que a malta chegue a tempo à sua salvação, eu não viva o suficiente para acompanhar a caminhada até perto da alvorada que antecederá a entrada no jardim das delícias, das glórias, de todos os bons pecados e supremos gozos, dos cânticos, da igualdade e da absoluta e perfeita liberdade. 


Seja como for, pensar nisto também é bom. Basta que puxe o assunto à mente e logo imagino cores, melodias, mãos dadas, luzes, sorrisos, danças. E, se não me detenho, entro mesmo neste mundo maravilhoso e isso, como é fácil de perceber, não é muito conveniente uma vez que esse mundo ainda não existe.

Portanto, voltando à cold cow, estou em crer que esta macacada do Brexit há-de ser revertida e, cá na minha, capaz de nem durar muito, capaz de nem ser preciso esperar pela transformação da actual pangalhada num maravilhoso e esperançoso mundo novo.

Portanto, não vou falar deste mau passo. É da minha natureza.
No outro dia, um que trabalha comigo estava no meu gabinete, eu sentada à secretária e ele de pé, a conversar. Então dei com um buraco numa das mangas dele, no lugar onde a malha se ligava à cotoveleira. Pois bem: durante todo o tempo que durou a conversa, esforcei-me por não olhar para o buraco. Agora está na moda usar a expressão 'vergonha alheia'. Mas não era bem por vergonha alheia que eu não olhava para aquele descarado buraco ali a querer impor a sua presença, era pudor e não sei se era alheio ou muito meu.
Assim eu com o Brexit. Por pudor, não quero falar de uma coisa que os irá, um dia, envergonhar (isto em relação àqueles que ainda não sabem que vão arrepender-se e envergonhar-se).

Por isso, depois da sinfonia ineficiente, perdoem se me mantenho no registo de dar uso aos presentes que recebo, mas é o que me apetece -- e porque haveria eu de refrear os meus apetites? Ora essa. 

Agora é um vídeo muito bonito. Uma demonstração de amor, daqueles amores que aconchegam o coração, um amor com desenhos, sorrisos, provavelmente flores, provavelmente palavrinhas doces, promessas inocentes e boas. Uma presença de paz e afecto. Ser amada assim é uma benção e um homem que saiba amar dessa maneira suave, elegante e inteligente, tenha ele a idade que tiver, é uma fonte de felicidade para quem tem a sorte de receber as suas demonstrações de amor.


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Pinturas de Wolfgang Lettl ao som do Dream de Max Richter

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Uma sinfonia incompleta e ineficiente





As empresas andam um bocado desnorteadas. Querem ser amigas do ambiente, querem ser sustentáveis, querem ser seguras, querem ser rentáveis, querem ser familiarmente responsáveis, querem ser socialmente responsáveis, querem ser inovadoras, querem ser fiáveis, querem ser atractivas para atrair e reter talentos. E vários etc's. As prioridades atropelam-se e a sua missão e valores têm que ser reinventadas a toda a hora.

Mas, no meio disto, continua a fazer valer-se a ditadura da eficiência. Quando a malta anda assoberbada com mil assuntos, aparece a turma da eficiência a fazer levantamentos a ver onde se pode ser mais eficiente. Leia-se poupar. Leia-se reduzir pessoas. Uma praga. A malta já responde de qualquer maneira para lhes dar a volta e conquistar alguma paz. Mas não largam. E, quando a malta pensa que já os alimentou com muita palha, ei-los que voltam para revisitar os kpi's. Não deslargam.

Wolfgang Lettl: Opus 88 incompleta (2007)

Curiosamente, chego a casa, abro a caixa de correio pessoal e dou com um mail no qual Leitor, a quem desde já agradeço, me faz chegar esta história:
Um administrador de uma empresa recebeu um convite para assistir a um concerto e ouvir a "Sinfonia Incompleta" de Franz Schubert.
Estando impossibilitado de comparecer, deu o convite ao seu colaborador, responsável pela Organização, Sistemas e Métodos.
Na manhã seguinte o administrador perguntou-lhe se tinha gostado do concerto. Ao invés de comentários sobre o que ouvira e vira, recebeu o seguinte relatório:
R. nº 13/04 

De: Organização, Sistemas e Métodos

Para: Administração
Ref: Schubert - Sinfonia Incompleta 
1- Por um período considerável de tempo, os músicos com oboé não tinham nada para fazer. O seu número deveria ser reduzido e o seu trabalho redistribuído pelos restantes membros da orquestra, evitando-se assim estes picos de inactividade;
2- Todos os violinos da primeira secção, doze ao todo, tocavam notas idênticas. Isso parece ser uma duplicação desnecessária de esforços e o número de violinos nessa secção deveria ser drasticamente reduzido. Se for necessário um volume de som alto, isso poderia ser obtido através do uso de um amplificador;
3- Muito esforço foi despendido ao tocarem semitons. Isto parece ser um preciosismo desnecessário e seria recomendável que as notas fossem executadas no tom mais próximo. Se isso fosse feito, poder-se-iam utilizar estagiários em vez de profissionais;
4- Não há utilidade prática em repetir com os metais a mesma passagem já tocada pelas cordas. Se toda esta redundância fosse eliminada, o concerto poderia ser reduzido de duas horas para apenas vinte minutos;
5- Enfim, resumindo as observações dos pontos anteriores, podemos concluir que se o Sr. Schubert tivesse dado um pouco de atenção a estes pontos, talvez tivesse tido tempo para terminar a sua sinfonia.

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Pinturas de Wolfgang Lettl
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quarta-feira, março 06, 2019

Potpourri com a cataplana do Costa na casa da Cristina Ferreira, com bochechas e queixadas à mistura e com a saltitona Katelyn Ohashi a mostrar o que é a alegria absoluta





Gostava de contar todas as minudências do meu dia mas acredito que seja fastidioso para quem me lê.  Tudo muito mais do mesmo e, como sempre, nada de relevante.


Conto apenas por alto que desbastei uma árvore grande que está num dos lados do caminho que vem do portão grande. Não sei que árvore é aquela, não é azinheira nem é aroeira. É uma árvore muito linda e tem uma madeira amarela que, quando cortada, cheira muito bem. No fim, estava no chão um mega monte de ramos que arrastei com esforço lá para baixo. Quem veja e não saiba, nem vai perceber o grau de desrame que a árvore sofreu: continua armada e sombrejante como se não tivesse passado por toda aquela amputação. Também continuei com ancinho e vassoura a apanhar bolotas, folhas, terra, musgos e restinhos de cenas que, tudo junto, voltou a dar mais um montão de carrinhos de mão. Também varri, lavei e limpei a casa por dentro. E, para além de peixe cozido para o almoço, cozinhei queixadas de porco no forno com orégãos, alecrim e mel e bochechas, também de porco, estufadas. Para acompanhar, arroz de cenoura feito com o caldo do estufado. E isto trouxe para jantarmos em casa da minha filha. Rever os meus amores, estar na conversa, é das coisas boas da minha vida. Estão grandes os meninos, brincalhões, felizes da vida. Viemos de lá relativamente cedo porque o meu marido anda com dores no pescoço e, às tantas, fica impaciente e, além do mais, tínhamos coisas para arrumar e, segundo decretou, 'estamos a precisar de descansar'.


E é verdade. Foram uns belos dias in heaven mas em que trabalhámos de sol a sol. Intercalei apenas por volta do meio dia para ver o António Costa com a mulher, os filhos e a nora no programa da Cristina Ferreira. Muito bem todos, uma família simpatiquíssima, tudo gente boa onda. Todos bem... excepto a Cristina Ferreira. E o excepto tem a ver com aquele excesso, aqueles gritos, aquela gargalhada insuportável, aquela maneira histriónica de ser e de se vestir, aquela maneira absurda de se pôr de perna aberta quando está de pé a falar com alguém, aquela parvoíce que aparece a todo o momento como, por exemplo, ao tirar os sapatos e pôr-se de chinelos, supostamente para ir almoçar. Não há dúvida que bate a concorrência aos pontos mas, como nunca vejo televisão de manhã, não consigo estabelecer paralelismos. Provavelmente os outros, nos outros canais, são mais sóbrios e a malta gosta é de chinfrim, de baderna e de fofoca. Do que percebo, a grande aposta da Cristina Ferreira é devassar a vida privada das figuras públicas. Ora isso apela ao voyeurismo de que toda a gente padece um bocadinho. No fundo, no fundo, é a decadência.


Confesso que, na véspera, ao ouvir que o Costa lá ia, temi o pior. Pensei: não me digam que vai sujeitar-se àquelas perguntas que apelam ao sentimentalismo, à lágrima. Se ceder a essa piroseira vai ter-me à perna, ah vai, vai. Mas não senhor, manteve-se no seu registo de boa onda e depois concentrou-se na cataplana, foi respondendo com a leveza típica de quem vai conversando enquanto faz a comida e deixou a Cristina a fazer a festa com o resto da família. Gostei de vê-lo, na boa, com a sua alegre Fernanda, com o filho que é outro simpático e as duas meninas, bonitas e sorridentes. Portanto, por esta passa. E se aquilo chega a casa de um milhão de pessoas pois, muito bem. Manteve a dignidade, não disse nada que envergonhasse aqueles que o apoiam. Portanto, adiante. 


Tirando isso, só sei que daqui a nada estou de volta ao trabalho e que nem tão cedo volta a haver feriados e isso não é ideia especialmente inspiradora. Também sei que tenho alguns assuntos de que gostava de falar aqui (e um foi-me agora enviado pelo P, a quem muito agradeço) mas requerem alguma concentração e, a esta hora, não tenho neurónios acordados em número suficiente. Também sei que, neste momento chove que deus a dá, sopra o vento com intensidade, atirando fortes bátegas de água contra a janela -- e esse som é outro que me agrada. 


Como sempre faço, abro o Youtube, preguiçosa de ir à procura, passiva, curiosa de ver o que o safado do algoritmo resolveu escolher para me mostrar. E, uma vez mais, ele acertou. Tinha, logo em primeiro lugar, mais um extraordinário desempenho da mocinha reboludinha, pequeninha, elástica, risonha: Katelyn Ohashi. É humana, mulher e, no entanto, parece uma boneca saltitona, um pássaro maroto, alguém muito diferente dos outros humanos. Vê-se e pasma-se. Como é possível?



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Como continuo tomada pela indolência, em vez de ir escolher fotografias feitas por mim e para fazer jus ao potpourri do título, fui buscar a companhia de uma malta dada ao surrealismo, a saber, respectivamente, Roberto Matta, Wolfgang Lettl, Paul Klee, Salvador Dali, Wolfgang Lettl e Jindřich Štyrský. Para companhia musical: Malena de Ennio Morricone. Tá-se bem.

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E agora já ia desejar uma boa semana a começar por ... quando dei por mim a acordar a tempo de ver que onde é que já lá vai a segunda-feira. Thanks god já é quarta-feira. Mas que seja tudo bom na mesma, ora essa.