Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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quarta-feira, agosto 23, 2017

Cavalos verdes não vi. Mas azuis, sim. Estavam ao pé dos que dançavam em roda, todos nus.



As árvores crescem de forma pouco compreensível. Se eu descrevesse o que aqui se passa poderiam pensar que estava a arremedar o realismo mágico de alguns escritores sul-americanos. Mas Acreditem: prodígios a acontecerem de dia para dia, aos nossos olhos. Gostava de vos mostrar como era, vai para cima de vinte anos: uma pedreira a céu aberto em parte coberta por mato rasteiro. Agora um bosque, árvores gigantes. Não se percebe até onde onde vão estas árvores crescer. E reproduzem-se como coelhos (que aqui também os há): aparecem pinheiros, azinheiras, aroeiras, giestas, arbustos novos por todo o lado. E num dia estão a despontar, passado pouco já estão esgueirados por aí acima como adolescentes espigados.

Mas é tudo. O alecrim ganha um tamanho como nunca vi. A madressilva agiganta-se, faz moitas surpreendentes. As videiras trepam pela grande ameixeira e dos ramos altos desta pendem gigantes cachos de uvas.


O meu marido queixa-se: 'Não se dá conta disto'. Eu não me queixo. Presencio um milagre e abençoo a sorte que tenho por me ser dado viver um tal fenómeno. Claro que temos um trabalho imenso pois, para que a natureza não nos devore, temos nós que tentar controlá-la. O meu filho, no outro dia, pasmado com o crescimento das árvores desde a última vez, assustou-se: 'A natureza vai vencer'. Não creio porque estamos cá para lhe dar luta.


Braçal, tudo. A ver se encontramos a motosserra que queremos, que nos ia ajudar bastante. E estamos em dúvida sobre um triturador. Mas, para ser em conta, é eléctrico e não daria lá em baixo. Não faz sentido estender dezenas de metro de fio nem estar a trazer as coisas cá para cima. Portanto, o triturador está interrogado. 

Ao fim do dia, o cheiro a madeira cortada, o cheiro dos pinheiros ao entardecer, a rama aparada dos cedros, tudo me parece mágico. 


Revivo aqui, rejuvenesço, transformo-me. 

Quando falei com a minha filha, ela percebeu pela minha respiração que eu estava a meio da labuta e avisou: 'Daqui por uns dias nem vais conseguir mexer-te'. Bati três vezes num tronco de madeira e disse-lhe que so far, so good. Admiro-me com a minha resistência mas não posso atirar foguetes. De facto, pode acontecer que, daqui por uns dias, o meu corpo se ressinta porque, desta vez, o esforço está a ser bem maior.


Os pássaros cantam muito ao fim do dia. Devem estar abrigados do calor durante as horas de sol e, quando vem a noitinha, é ouvi-los num chilreio feliz. Eu também. Passeio, olho o céu, as árvores, fotografo, atraso a hora de vir para casa. 


Depois tomo um belo banho, ponho betadine nos arranhões (ao contrário do meu marido que se protege, eu ando sem luvas e de biquini; não é para fazer género, claro, mas é que não suporto o calor; felizmente não se vê da rua, senão, vestida, nem sei como me aguentaria), e vou jantar (o jantar são geralmente sobras do almoço, saladas, queijo, fruta).

Só depois ligo o computador. Mas, como abaixo já vos contei, ainda tenho trabalho para fazer e, portanto, este post, tal o que poderão ver abaixo, sobre a bola de pedra tatuada, são um mero amuse-bouche.


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Ontem, ao falar do bosque que é nosso filho, dizia que, para ser melhor só se visse passar, por entre as árvores, cavalos verdes. Daí o título deste post.

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Não são verdes, mas são azuis os cavalos que, por aqui, vejo. E andam entre o verde, no campo, e não no mar.


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E queiram continura a descer, caso vos apeteça continuar in heaven.

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Até já.

(Queria falar da entrevista da Graça Fonseca e das reacções mas, bolas, vi agora que a Estrela Serrano já me tirou as palavras da boca. Por isso, não sei se ainda falarei disso. Já vejo)

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segunda-feira, fevereiro 29, 2016

Longos dias têm cem anos




"Longos dias têm cem anos". assim me diziam quando se tratava de protelar um assunto, de o fazer amadurecer na lânguida separação do inadiável. E os longos dias passavam, carregados de justo sentimento pelas coisas que devíamos fazer de maneira lesta e durável. às vezes, não se faziam nunca. Outros planos, mudanças, resistências, vazios súbitos do coração, que é quem nos comenda o trabalho e a fantasia. "Longos dias têm cem anos". Era uma admoestação e uma ironia para o preguiçoso inveterado que num século acha tempo adequado para os seus projectos e a combinação laboriosa que os acabe. Só que eu, como o frade no seu horto, acordo sempre a horas, e retomo a palavra que tinha começado muitos anos antes. 

Foi assim com Maria Helena e Arpad. Disse um dia: "Vou escrever um retrato de ambos.". Não sei quando disse isto. Ontem, parece-me; acontece que podia ter sido nos anos sessenta -- os anos sessenta foram importantes para mim. Mas não foi, com certeza, no dia em que os conheci. Porquê? as primeiras impressões não são decisivas. Às vezes são fatais, mas não decisivas.

Lembro-me que chegaram a casa de Sophia de Mello Breyner, à noite, e era como no teatro quando entramos tarde e se passa um bocado sem que se compreenda nada da peça. Entendi que se tratava de pessoas vindas de longe. Falavam do Brasil. Eu sabia pouco de tudo. Ainda hoje sei muito pouco de tudo, o que me causa embaraço quando vejo a tremenda bagagem de conhecimentos que têm as pessoas. Se ouvirmos tudo o que se diz nos autocarros, nas praias, nas repartições, ao fim do dia podíamos escrever uma enciclopédia em vinte volumes e até ter êxito com ela. Não há nada de mais aceitável do que a pequena sabedoria, os amores confessáveis e as histórias de doenças.

Maria Helena falava pouco. Olhava, sobretudo. Olhava com uma intensidade fria, como se estivesse a atravessar um rio e se dividisse entre o perigo e o prazer. O fundo arenoso onde se recortavam peixes prateados dava-lhe aquela expressão suspensa e maravilhada; mas, de repente, o remoinho da água trazia a noção da forte corrente, e, um pouco mais, era a dúvida, um temor concentrado, a razão alertada. O rosto exprimia angústia, os olhos abriam-se mais e ganhavam uma cor cristalina. 

Entretanto, Arpad falava muito. Como todos os homens belos, conhecia bem o descontentamento que é merecer o amor. Disse: "A Maria Helena (bicho) estudou em Itália. A mãe dela mandou-a para lá quando ela tinha vinte anos, e passou lá bastante tempo. Uma mulher sustenta-se com pouco, e assim pode aguentar melhor do que um homem. Um homem tem que comer um bom bife.". pensei que Arpad observava bem, mas não me convenceu. Madame Curie sustentava-se de rabanetes no seu tempo de estudante de Paris, o que não a impedia de desmaiar de fome. 

Imaginei Maria Helena em Florença, bastante acautelada de necessidades, recebendo as mensagens da mãe e da avó com quem se criara em Lisboa. Uma avó e mãe como as do jovem Proust, extremamente corajosas para a surpresa do génio. Olhei para ela e, nesse momento, pude localizá-la em Florença; com um vestido azul e os cabelos espessos presos com uma fita verde. Verde e azul eram as cores combinadas em certos trajos-alfaiate dos anos imediatos ao cubismo. O azul era uma cor da juventude; a cor da cólera, por mal que pareça dizê-lo. Não é o vermelho que é a cor do arrebatamento, mas o azul. A época mais deslumbrante de Picasso foi chamada "azul"; a de Vieira da Silva também. Esse azul traduz um vigor concordante com o melhor das aptidões humanas.

(...)

Íamos nisso do meu primeiro encontro com o Arpad e a Maria Helena. Arpad disse que estavam ali as três mulheres de mais talento em Portugal, e, por sorte, ninguém mais o ouviu senão nós três. Ele sabia que não ia acender rivalidades porque tínhamos diferentes artes. Modalidades, como se diz no Porto. (...) Pois nós não nos acotovelávamos na modalidade. Maria Helena pintava, eu escrevia romances, a Sophia fazia poesia -- e assim continuamos dentro do território demarcado, sorrindo, aplaudindo e permitindo ao génio a cumplicidade em que a emulação não mete o dente. A Sophia era um caso -- uma mulher que tem a cortesia de parecer vulnerável. Eu era um caso -- incerteza apaixonada. Vieira era um caso -- uma mulher justa, o que é extraordinário e incalculável. Por exemplo: eu não sou justa, ajuízo as coisas. Eu e a justiça somos pura coincidência; o facto de isto se repetir faz talvez o prodígio, mas não a certeza.

(...)

[Excerto de 'Longos dias têm cem anos' - presença de Vieira da Silva, de Agustina Bessa-Luís, mais uma bela edição da Guimarães editores]

____


Devo confessar que é com esforço que me detenho. Ler as palavras de Agustina é, para mim, um prazer inesgotável. Transcrevê-las também. Há na escrita desta mulher um vigor exuberante, uma alegria sem preocupações, que me prende, que me prende como se fosse a primeira vez, uma sedução virginal. Posso lê-la muitas vezes e, a cada vez, é sempre esta surpresa.. Por vezes até me abstraio do que ali se diz para me render à forma como o diz. Contudo, quando Agustina fala de alguém que admiro, então, o fascínio é redobrado. Este livro, em que fala de Maria Helena Vieira da Silva e também de Arpad é maravilhoso.

Agustina Bessa-Luís, 93 anos
Longos dias têm cem anos


E, procurando imagens de Agustina, encontrei um vídeo interessante que aqui partilho convosco, no qual o marido, Alberto Luís, companheiro e suporte de toda a vida, e a filha, Mónica Baldaque, falam dela para a Rádio Renascença.

O mundo de Agustina


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Já agora, sugiro também a leitura da entrevista que Anabela Mota Ribeiro fez a Mónica Baldaque sobre a mãe, Agustina Bessa-Luís

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A primeira imagem, da autoria de Arpad Szenes, é Marie-Hélène X, 1942, óleo s/ tela, Col. Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva. A última de Maria helena Vieira da Silva é Estuaire Bleu.

Lá em cima, Anna Netrebko interpreta A Canção da lua da ópera Rusalka da autoria de Antonín Dvořák sobre imagens de obras de Maria Helena Vieira da Silva.

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E sobre o vestido mais bonito da cerimónia Oscar 2016 (e outros, também bonitos), queiram, por favor, deslizar até ao post seguinte.



segunda-feira, agosto 17, 2015

Olhos nos Olhos


No post abaixo já mostrei algumas das muitas razões pelas quais as mulheres, em média, vivem até mais tarde que os homens. O enunciado dessas razões não obedece a critérios científicos, dirão alguns dos mais cépticos. Ora, pormenores - responderei eu. Basta ver as imagens para perceber que são razões do mais plausível que há. De qualquer forma, uma recomendação: os que duvidam, por favor que não lhes passe pela cabeça fazer o que ali se mostra só para provar que não tenho razão. Combinado? Não quero que provem nada, ok? Portanto, mesmo que não concordem, por favor deixem-se estar quietinhos, ok?

Bem. Isso é a seguir. Adiante. Aqui, agora, a conversa é outra.

....

Tarde tranquila, a família praticamente toda reunida, desde a bisavó aos quatro bisnetos. Destino: um programa completo na Gulbenkian. O tempo estava estranho, quase a chover, o céu escuro, a temperatura inquieta mas, quando o grupo se junta, não há nuvem pesada pairando sobre nós que apague a animação espontânea que logo se desenha.

A recta final levar-nos-á ao self para que a trupe se banqueteie com um opíparo lanche. Ocuparemos o corredor inteiro junto ao comprido balcão, cada um dos pimentinhas a escolher alto e bom som o que quer, o senhor que conhece os pais dos pimentinhas desde que tinham a idade que têm agora os filhos, sorrindo, depois, de tabuleiros nas mãos, escolheremos as mesas ao fundo, encostadas para que fique uma única, comprida - somos muitos. Há coisas que não mudam e que são a garantia de que o mundo tem laivos de perfeição. A Gulbenkian é uma delas - os edifícios, as exposições, os jardins, o self e as pessoas que lá trabalham: sempre a mesma acolhedora simpatia, sempre a mesma qualidade, ano após ano.

Mas, antes do lanche, os jardins, os recantos, os bancos abrigados. E conversamos de tudo e de nada enquanto os três rapazinhos brincam com os patos. Os dois manos rapazes fazem tropelias e o tio, que gosta de lhes dar a volta à cabeça, diz-lhes que ali se vendem patos, dois euros e meio cada, que convençam a mãe a comprar-lhes um, que podem usar uma das banheiras para o pato. E o mais pequeno quase começa a acreditar que talvez se vendam patos mas que acha que o pato não poderá ocupar uma banheira. O tio e a tia sugerem o bidé, Que convençam a mãe. A mãe responde que ele peça ao tio já que o tio é também padrinho. E o tio responde logo, 'Não posso porque dá azar oferecer patos aos afilhados' e, segundos depois, acrescenta 'fora da Páscoa'. Pronto. Ninguém comprou, portanto, nenhum pato.

Enquanto isso, a bonequinha mais linda esteve entretida a colorir um livro de desenhos com lápis e canetas que trouxe num estojo - e o facto de já ter um estojo fá-la sentir crescida, deveras a caminho da pré-primária.




Mas, se concordarem, vamos com música: não é sobre um lago com patinhos mas faz de conta.



Mas tarde na Gulbenkian que é tarde na Gulbenkian não passa sem um quinhão de arte. E, assim sendo, antes dos jardins, tivemos a exposição Olhos nos Olhos

Olhos nos Olhos
O Retrato na Coleção do CAM

De 22 jul a 19 out 2015 | Das 10:00 às 18:00 | Encerra às terças
Galeria Exposições temporárias do Edifício Sede
Curadoria: Isabel Carlos

O bilhete custa 3€ e ao domingo a entrada é gratuita


Esta exposição dá testemunho de um dos géneros mais explorados na história da arte, o retrato. Estarão expostas algumas das mais notáveis obras da coleção do CAM de artistas como Amadeo de Souza-Cardoso, António Dacosta, Arpad Szenes, Eduardo Viana, Gilbert & George, Jane & Louise Wilson, John Coplans, Jorge Molder, José de Almada Negreiros, Pedro Cabrita Reis e Sarah Affonso, entre muitos outros, produzidas ao longo do século XX e XXI.



Mostro algumas das fotografias que lá fiz. Não estão grande coisa: não apenas não é fácil andar a visitar uma exposição em grupo, especialmente com crianças, como não sabia se era possível fazer fotografias pelo que foram todas tiradas à pressão, sem cuidado com enquadramentos ou atenção aos pormenores.


Ok, confesso: nesta houve intenção no enquadramento e aos pormenores
(o Papa e, ao fundo, algo que, como se vê, despertava curiosidade nos visitantes)

Almada Negreiros e Sarah Afonso, marido e mulher


Pessoa por Almada, Pessoas por Costa Pinheiro


Não registei o autor. Quem é? Alguém me sabe dizer quem é?


Maria Helena Vieira da Silva pelo marido, Arpad Szenes


Lourdes Castro
...

A música é de Saint-Saëns: Aquarium

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E acho que ainda não é hoje que vos mostro como estão doces as amoras, os figos e as pêras in heaven. A ver se amanhã arranjo tempo para fazer tudo o que quero. 

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa semana.

A todos desejo o que desejo para mim e para os que me são mais queridos: saúde, sorte, que tudo corra bem, que a esperança e a alegria ganhem espaço, que o futuro seja feliz, tranquilo.

..

sábado, junho 15, 2013

O testamento de cores de Maria Helena Vieira da Silva aos amigos - o testemunho numa instalação no Jardim das Amoreiras. E encontros, correspondências entre ela, Arpad Szenes, Alberto Lacerda e Mário Cesariny: a amizade em palavras. A amizade em gestos.


No post a seguir a este, junto-me à senhora que não consegue parar de rir e a todos quantos se dobram agarrados à barriga ou rebolam no chão: esta do recurso do Crato ter que ser aperfeiçoado e darem-lhe 10 dias para ver se ele atina, é do melhor que vi nos últimos tempos. Hilariante.

A seguir a esse, uma lavagem de alma: duas talentosas sopranos portuguesas, uma delas candidata a melhor cantora do mundo.

Mas isso é a seguir a este. Agora, aqui a conversa é outra. Aqui fala-se de amizade.


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Um azul cobalto para a felicidade



Querido amigo

Estou há muitos dias para lhe escrever e não posso. Escrevo e rasgo, escrevo e rasgo e nada me parece suficiente para lhe dizer a minha amizade por si e a saudade do Inverno que passámos. Agora passou tudo. Agora a vida anda a correr. Só lhe posso dizer que reli aqui 'junto de um seco, fero e estéril monte', e ouvi a sua voz a dizer 'inútil e despido, calvo informe', e fiquei muito contente. Foi porque o ouvi com tanta atenção que agora ainda ouço a sua voz, distante.

Peço que me escreva logo, assim que receber esta carta para me dar notícias suas dos amigos e da Rosário que nós esperamos com imapaciência. Um grande abraço

Maria Helena

[Na lateral, por AS]

Alberto queridinho um abraço poético do Arpad

[Carta de Maria Helena a Alberto de Lacerda em Maio de 1962]




Meus Queridos Maria Helena e Arpad

Um azul ultramarino para estimular o espírito



De la musique avant toute chose
Et pour cela préfère le pair
(Verlaine, adaptado: porque estou a acreditar que mesmo Verlaine preferia o par ao ímpar, que o ímpar é coisa dolorosa 'sans rien en lui qui pèse ou qui pose' (que maçada, assim?).

Quanto ao par, o único que conheço são vocês dois. Evidentemente! Um Par-Ímpar! (Ou o Par-Ímpar com que o Souza-cardoso já se preocupava porque ainda não vos tinha visto a atravessar uma rua e a fecharem-se, por fora, em casa).


[Carta de Mário Cesariny de Junho de 1982]

Um amarelo limão para a graça



Um amarelo barite: ficção científica, brilho, esplendor




Um laranja para exercer a visão de um limoeiro ao longe




Querido Mário

Se uma palavra minha o ajudasse, mandava-lhe mil... mas lá bem posso lutar contra o seu demónio, saio vencida. Se o Mário me ouvisse... Para quê procurar assim o sofrimento? Ele existe por toda a parte, neste nosso pobre corpo doente que vai morrendo dia a dia, não lhe chega esse? Não lhe chega a sua imaginação? Precisa de provas. Ai de nós, e da nossa loucura sempre presente, sempre a lutarmos com ela até à morte. Não é fácil viver, querido Mário, mesmo quando parecemos equilibrados.


[Carta de Maria Helena a Mário Cesariny, de Janeiro de 1965]


Terra de Siena natural: a transmutação do ouro


Querido Alberto,

Andei perdida num mar de tristeza, de trabalho, de gripe. Não dei notícias mas penso sempre no Alberto um pouco inquieta, por não ter notícias. A Cecília* levou-me para outros mundos quase ia esquecendo que ainda estou neste.
Um grande abraço muito amigo da Maria Helena

[na lateral]

Minha mãe, a Cecília, tantas pessoas queridas que vão partindo e eu já não sei bem onde estou. A morte, eu julgava que fosse uma coisa natural, é, mas nós morremos também aos poucos ainda vivos. Os mortos levam com eles uma parte da nossa alma. E deixam-nos o espírito. Será assim?

[Carta de Maria Helena a Alberto Lacerda, Fevereiro 1965]

Um vermelhão para fazer circular o sangue alegremente



* Cecília Meireles (1901-1964), poetisa brasileira, grande amiga do casal Szenes, desde os tempos do exílio no Brasil (1940-1947)

||||||

Veneza divínissima
24 de Julho 72


Querida Maria Helena,

Eu vou-lhe contar a história: eu tinha visto aquele vestido em Florença (feito no Norte de África, imagine); achei lindo, lembrei-me de si, imediatamente, lembrou-me o seu lado Ghirlandaio, ou Andrea del Santo, ou Carpaccio; vi-a conversando com o Leonardo sobre Proust, via em Veneza, num baile dado em sua honra pelo Dodge; antes do baile, no banquete, tinha, à sua direita, Giorgione (estou apaixonado pelo Giorgione)
(...)
E com toda esta parlenda ainda não agradeci a maravilhosa estadia, que me penetrou de calma, de poemas, e de um sentido de ternura que me comove cada vez mais profundamente.

Bem hajam
Beijo-lhe as mãos.
Abrace todos por mim.
Seu, do coração,

Alberto 

*

Fico-me por aqui (mas acho que, um dia destes ainda volto a estes maravilhosos testemunhos de afecto entre amigos; estes livrinhos estão a revelar-se preciosos).

Queria fazer uma formatação diferente do habitual mas, certamente por nabice minha, isto deu-me um trabalhão, o texto todo desformatado e a fugir-me pelos lados e, junto aos verdes, a recusar-se a ficar escrito. Desisto. Já passa outra vez das duas da manhã, estou perdida de sono (o que é o costume) e não tenho sabedoria nem paciência para, a esta hora, tentar que isto fique com ar mais arrumado. Fica assim, meio à maluca, mas vocês, tolerantes como presumo que sejam (senão não estavam para me aturar), vão, certamente, desculpar e fazer de conta que isto não prejudica a qualidade dos textos.

Relembro os dois posts a seguir a estes: um para rir como há muito não nos ríamos e outro para nos emocionarmos com o quanto a nossa alma se pode elevar perante vozes superlativas.

**

Desejo-vos, meus Caros leitores, um sábado em grande. 
E, vá lá, vamos todos rir até mais não poder com a incompetência dos ignorantes, ok?

sexta-feira, junho 14, 2013

No 105º aniversário de Vieira da Silva houve festa na Fundação e no Jardim das Amoreiras. Houve bolo de anos, música e muita alegria. Claro que eu não podia faltar...!


Nos post a seguir a este, falo do Crato e da campanha de intimidação contra os professores que tão ameaçados na sua dignidade, enquanto classe, têm sido nos últimos tempos.

No post a seguir a esse, falo das tristes notícias que toldaram o Dia de Sto António que deveria ter sido festivo: mais ameaças, mais cortes, mais pobreza. E interrogo-me: perante isto o que vai dizer Cavaco Silva? Ou reserva a próxima opinião para daqui por uns anos, quando voltar a ser convidado para ir à estranja?

Mas, enfim, isso é a seguir a este. Aqui, agora, a conversa é outra. É boa. É dia de Festa.

NB: Se alguma das pessoas que aparece em alguma das fotografias não se quiser ver aqui, deverá contactar-me que eu a retirarei.


Maria Helena Vieira da Silva nasceu em Lisboa em 13 de Junho de 1908. Esta quinta feira, dia de Santo António, festejámos o seu aniversário. Abriu-nos a porta da sua casa e todo o Jardim das Amoreiras esteve em festa.




Vieira da Silva em festa


Agora que estou a começar a escrever já passa um bocado da uma da manhã. Por isso não vou poder alongar-me muito. Também, se o fizesse, ficaria fastidioso. Vou, por isso, ser relativamente sintética e, talvez, amanhã ou um outro dia volte com algumas outras fotografias que lá fiz.



Jardim das Amoreiras


Escuso de vos dizer que em ambientes assim entro em epifania. Adoro este Jardim. Frequentei-o assiduamente durante muitos anos. É um jardim abrigado, lindo, com uma luminosidade maravilhosa. E o ambiente de museus e toda aquela gente que o frequenta é-me sempre familiar, acolhedor. E, desta vez, havia música. Uma maravilha!



Nesta altura as pessoas tinham-se dirigido para ouvir o coro e esta sala estava com pouca gente


A Fundação estava cheia. Portas abertas. As obras expostas a toda gente em dia de festa. Miúdos e graúdos, muita gente das artes, gente conhecida, outros nem tanto, gente com ar alternativo, gente bon chic bon genre, gente com sorrisos no rosto. Hoje não vou falar aqui da obra do casal de pintores que se amava e protegia. Vou restringir-me ao ambiente neste dia de feliz aniversário.



O Coro Menor com fatos pintalgados, uns verdadeiros pintores


Lá dentro um coro, o Coro Menor. Uma alegria com coreografia 'à maneira'. Nem vou tentar descrever pois só visto e ouvido. 


Houve bolo e espumante mas estava tanta gente que me limitei a um pequeno macaron e uma água fresca no bar antes de voltar, de novo, para o Jardim.



Livros a bom preço, livros a que dificilmente se resiste


Depois, cá fora, feira do livro com livros da livraria da Fundação. Irresistível, como é bom de ver. Tinha seleccionado umas passagens de alguns para aqui vos transcrever mas vai ter que ficar para outro dia. 



Algumas das aquisições aqui já em casa


Volto lá dentro, ao bar, apenas para vos mostrar uns azulejos bonitos. Tu es bicho. (Ma femme chamada bicho) e já verão porque o faço.



Tu es
bicho na parede e uma janela por onde se espreita para o Jardim


É que, por falar em bicho, um curioso casal desfrutava a relva e a sombra verde. Normal. A maior parte das pessoas olhava e achava natural. Talvez seja. Eu é que vejo estas coisas e parece que me revejo, fico encantada, cerquei-os fotografando de todos os ângulos.


Bichos no Jardim das Amoreiras


Para não transformar isto num extenso lençol de fotografias, digo-vos, numa tentativa de síntese, que o ambiente, nesta aprazível tarde de festa tinha todos os condimentos para a alegria descontraída: crianças brincavam no parque infantil, uns pintalgados - em dias de festa as crianças gostam de pintar as caras - e muita gente na esplanada, gente nos bancos de jardim, bolinhos numa banquinha que era extensão do bar do museu, livros, quadros, e, muita, muita conversa sempre para ser posta em dia.



A amizade no feminino - cabelos grisalhos mas sorrisos de meninas


A amizade no feminino - na flor da idade, com alva e brilhante elegância


E as cores? As maravilhosas cores oferecidas por Vieira da Silva aos amigos? 

Já vos mostro. Mas antes deixem que vos mostre a explicação, a ver se conseguem ler. Vou pôr em ponto grande para verem melhor, porque está escrito a branco sobre branco.



Maria Helena Vieira da Silva deixou em testamento aos amigos 19 cores



E aqui estão, no Jardim, essas cores. Vou mostrar agora apenas umas quantas, que isto está longo, longo e eu cheia, cheia de sono.



Em primeiro plano: Uma terra de sombra natural para aceitar melhor a melancolia negra

Em segundo plano: Um azul cerúleo para voar alto



Um preto sumptuoso para ver Ticiano


Não acham fantástico?

Tenho que vos mostrar as outras cores. A descrição que Vieira da Silva faz delas é que é verdadeiramente sumptuosa!

Mas depois o Grupo de Baile apareceu e foi a festa, música, música, alguns afoitos e bem dispostos a dançarem, uma alegria mesmo. Em momentos assim, garanto-vos, não entra a crise, o mau astral do Gaspar ou do Passos ou do Crato ficam a milhas, essas medíocres criaturas perdem qualquer relevância. Nada. Bicheza maldosa dessa não tem cabimento em sítios civilizados.



Erricheta Underground, free style, free music, música para fruir num belo jardim ao entardecer



Tenho tantas fotografias aqui no Jardim, as pessoas a dançarem, os namorados junto às arcadas das Águas Livres,  as cores da Vieira da Silva, as sombras, a luz a espreitar, os jacarandás... mas não apenas não quero ver-vos a suspirar de tédio como tenho que me ir deitar.

Gostava de vos mostrar a igreja mas fica para outro dia. Contudo, mostro-vos ainda um pouco da Mãe d' Água. Estava também aberta, portas abertas, quero dizer, entrada gratuita e até às 20h. Para quem não conheça, que não deixe de vir ver quando vier para estas bandas. É também no Jardim das Amoreiras e é um lugar mágico.




Reparem nas pessoas pequeninas lá em cima no varandim para terem a perspectiva da dimensão




Toda a superfície está coberta por água. Quando andamos, andamos sobre uma plataforma que flutua sobre a água. É de uma beleza e tranquilidades imensas.


Não vos maço mais. Digo-vos apenas que foi uma tarde maravilhosa.

(A manhã também não tinha sido má, fui à praia e estava-se muito bem: não muita gente, um sol não excessivo, a água fresca mas não gelada - deu para uma bela caminhada de mais de uma hora à beira de água).


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Recordo que, para assuntos mais maçadores, tenho dois posts a seguir a estes. Se forem sensíveis, não vão para não ficarem mal dispostos.

Convido-vos ainda a fazerem uma visita ao meu outro blogue, o Ginjal e Lisboa. Hoje a very little bird solta-se do meu peito para brincar comigo à beira Tejo e, à sua volta, voam as palavras de João Miguel Fernandes Jorge. A música é ainda Bach numa onda jazz, linda.


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E, com isto, me vou por hoje. Passa das duas e meia da manhã e daqui a nada tenho que estar a pé que isto não é todos os dias que é Dia de Sto. António.
Desejo-vos uma bela sexta feira! divirtam-se, está bem? (Mesmo que não tenham muitos motivos para isso).