Mostrar mensagens com a etiqueta assédio moral. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta assédio moral. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, janeiro 08, 2025

Filipe Silva, CEO da GALP, demitiu-se.
E eu só espero que os miseráveis que conseguiram a proeza de trazer um assunto tão íntimo para a praça pública se sintam roídos de arrependimento e de vergonha e se sintam alvo de desprezo por parte de quem saiba o que fizeram.

 

O que aconteceu a Filipe Silva parece-me do domínio do impensável. Estes tempos vão férteis em anormalidades. 

É o Musk a ingerir à cara podre na política europeia, é o Zuckerberg a prescindir nas suas plataformas da validação da veracidade das notícias que circulam, abrindo ainda mais as portas ao esgoto a céu aberto que são as calúnias que são despejadas nas redes sociais, é o Trump a querer comprar a Gronelândia e anexar o Canadá e a manifestar outras intenções obscenas... e é toda uma sucessão de parvoíces que há não muito tempo diríamos impossíveis.

Que Filipe Silva, vendo a sua vida devassada, se tenha sentido obrigado a demitir-se parece-me bem o sinal do que são estes tristes e perigosos tempos. Não o conheço nem faço a mínima ideia da natureza do envolvimento com a directora. Mas ou é coisa ligeira e ninguém deveria sequer perder 1 minuto a debruçar-se sobre isso ou é coisa séria (e, nesse caso, até pode ter sido uma situação emocionalmente complicada para ambos, algo do seu foro íntimo, pessoal e intransmissível) e deveria ser respeitado, algo que, a ser abordado, o deveria ter sido com bom senso e sensibilidade, sob total reserva.

Outra coisa, caso ambos ou algum deles seja casado será o impacto que isso terá no respectivo casamento. Mas sendo todos adultos e vacinados, lá se organizarão. E, sobretudo, ninguém, a não ser os próprios tem alguma coisa a ver com isso. Não é tema da empresa, muito menos do País.

O mais que, na GALP, alguém com tino poderia fazer, o Chairman por exemplo, seria falar com ele e indagar se o relacionamento interferia, de alguma forma, no desempenho profissional de ambos. Havendo garantias de que não, a coisa ficaria por aí. Eventualmente o que poderia ser feito, e lembro-me de uma situação assim numa das empresas em que trabalhei, em que, havendo envolvimento entre o presidente e a responsável por uma das áreas por si tutelada, houve um rearranjo de pelouros, tendo ela ficado a depender de outro administrador. Ambos, anos depois, viriam a casar-se. Mas isso nem vem ao caso. 

Agora expor Filipe Silva e a directora da forma como aconteceu é torpe, é vil, é imperdoável. E a Comunicação Social puxar o tema para as primeiras páginas e para notícias de abertura é outra miséria.

E só espero que quem enviou a denúncia à Comissão de Ética e, sobretudo, quem vazou isso para a Comunicação Social, fique com a consciência a roer-lhe a paz de espírito até ao fim dos seus dias. Quando a fofoca, a bisbilhotice, a coscuvilhice, a intrusão, a maldade, o voyeurismo e a falsa moralidade se torna em fanatismo vai mal a sociedade.

Quanto a Filipe Silva e quanto à directora desejo-lhes que consigam lidar com a situação com coragem, com calma. E que, da melhor maneira que consigam (ou juntos ou separados, conforme assim o entendam), sejam felizes. 

terça-feira, janeiro 07, 2025

Filipe Silva, CEO da Galp, tem um caso com uma directora.
E isso foi objecto de uma denúncia na Comissão de Ética da empresa e veio parar à Comunicação Social.
E eu acho isto um nojo, um acto de indecoroso voyeurismo, de coscuvilhice, de suprema estupidez.

 

Trabalhei em empresas durante décadas, trabalhei em contexto público e em contexto privado. Durante todo o meu longo percurso assisti a incontáveis 'casos'. Quase todos foram esporádicos, temporários, inócuos. Apenas um, justamente com a minha Secretária, divorciada, deu em rotura de casamento (dele) e foi porque ele contou à mulher, tentando convencê-la a aceitar a situação. Para surpresa dele, a mulher não aceitou. Creio que não se divorciou mas foi viver com a 'namorada'. E agora são todos amigos, uma família unida. Mas, que me lembre, foi o único caso sério.

O que sempre aconteceu e causava sérios embaraços aos envolvidos foram as cartas ou telefonemas anónimos para as legítimas e legítimos. Colegas despeitados ou maldosos, geralmente mais mulheres que homens, resolviam estragar o romance.

Sempre se entendeu que era tema que, na pior das hipóteses, poderia molestar o casamento legítimo. Não o desempenho profissional.

Um dia vou escrever as minhas memórias nesse capítulo. Dará, certamente, um livro suculento.

Quando penso nisso, um dos casos que logo me ocorre e que me faz sempre rir, tem a ver com um colega, grande amigo, divertido, alegre, hiperactivo, As mulheres caíam por ele. Conheci-lhe várias namoradas. Um dia pediu a um funcionário da Contabilidade para lhe fazer um apanhado para um relatório que de que precisava com urgência. O funcionário ficou a trabalhar até tarde. E ele ficou à espera. Mas, pelo meio, fora de horas, uma das admiradoras foi fazer-lhe uma visita ao gabinete. No calor do momento nem mais ele se lembrou do 'apanhado'. 

Estavam ali, no truca-truca, em cima da mesa, quando apareceu o funcionário com o 'apanhado'. 

No dia seguinte o meu colega, à primeira da manhã, receando o falatório, resolveu ser ele a ir expor o sucedido ao Presidente. 

Foi dia de festa. 

Quando, nessa manhã, fui ter o meu ponto de situação diário com o Presidente, saiu-se logo com esta: 'Então, já soube do coxo?'. Eu ainda não sabia. Contou-me, e contou que já tinha chamado o funcionário (que era coxo) e já lhe tinha pedido que não comentasse nada com ninguém. E ainda nos fartámos de rir. Ao longo do dia, qualquer um que entrasse no meu gabinete ou com quem eu me cruzasse, já vinha a rir e a comentar o 'achado' do 'coxo'. Uma galhofa pegada. E o meu colega, esse grande doido, dizia que tinha apanhado o susto da vida dele quando se viu naquela situação com o funcionário à porta, de boca aberta e papéis na mão, a olhar para eles, sem saber o que fazer.

Numa remodelação algum tempo depois, aquela mesa acabou por vir para o meu gabinete. Havia sempre quem se lembrasse: 'Ah, se esta mesa falasse...'.

Algum tempo depois, tive um outro colega que também deu mais que falar do que os outros. Era muito 'palhaço', muito bon vivant, muito bem disposto. Teve também várias namoradas. Conheci bem a mulher dele. Era apaixonada por ele, tal como ele o era por ela. Mas ceder à tentação era mais forte que ele. Uma das vezes, havia lá uma jovem que entrou para estagiar na minha área e que lá ficou. Era muito bonita e vestia-se de uma forma muito 'exibida'. Andava mais despida que vestida. E era pouco inteligente. Muito imprevidente, muito tonta. Para ela, ter um caso com um director era o máximo. Contava o que fazia, quando fazia, onde fazia. Um disparate. Nós aconselhávamos o nosso colega a ter cuidado pois era quase inevitável que aquilo fosse parar aos ouvidos da mulher. E ainda me lembro do Presidente, no meu gabinete, um dia em que eles chegaram a meio da tarde vindos sabe-se lá de onde, todos alegres e tontos como adolescentes, e o Presidente o chamar e dizer que não tinha nada a ver com isso mas que ela era tão tonta que ele deveria ter mais cuidado. Disse: 'A ter um caso, que seja com uma mulher inteligente, não com uma tão limitada'.

São tempos longínquos. Não se falava em #Metoo ou em assédio. Se calhar havia casos de assédio mas nunca soube de nenhum, nenhum dos múltiplos casos que testemunhei foram casos de abuso, de prepotência ou de actos não consentidos.

Na maior parte dos casos, os envolvidos tentavam que ninguém desse por isso e, se algum tinha função ascendente, mais depressa prejudicava a 'namorada' do que a beneficiava (tendo eu trabalhado em empresas em que eu era a excepção feminina em cargos de gestão quase exclusivamente ocupados por homens, a maioria dos casos eram entre 'chefes', 'doutores', 'engenheiros' e mulheres com cargos hierarquicamente abaixo).

Nas empresas em que nos últimos anos exerci cargos de administração, passaram por mim várias denúncias feitas através do canal próprio para isso e que chegavam à Comissão de Ética.

A maioria tinha a ver com denúncias anónimas, não fundamentadas, de eventual corrupção ou de decisões enviesadas, favorecendo empresas de forma pouco clara. Quando as denúncias eram tão vagas e tão absurdas que não tinham ponta por onde se lhe pegasse, eram arquivadas.

Houve um caso que deu em despedimento de uma sub-directora que foi acusada de fazer bullying a alguns funcionários. Nesse caso houve testemunhas, houve um caso bem fundamentado. Rua sem apelo nem agravo. 

Nunca apareceram denúncias de casos amorosos mas, a menos que fosse algum caso escabroso ou que se percebesse haver abuso de função dominante, se aparecessem seriam arquivadas.

O que está a acontecer ao CEO da GALP parece-me inacreditável. Ou há ali, da parte dele, qualquer protecção absurda à directora, promoção sendo ela incompetente, atribuição de avultado prémio de desempenho sendo ela um calhau, ou coisa assim (e nesse caso, será grave), ou, então, estamos na presença de uma coisa miserável. 

Parece-me absurdo, ridículo, impensável, que o homem tivesse que declarar à Comissão de Ética que tinha um caso com a directora. Está tudo maluco.

Já não basta as beatas que acham que estas coisas são caso para ir à igreja, confessar os pecados ao padre. Agora é também confessar à Comissão de Ética. 

Uma coisa que é do foro íntimo, mais do que privado, tem que ser participado à Comissão de Ética?! 

Até me custa a acreditar numa palhaçada destas.

E, para cúmulo da porcaria, alguém despejou isto na Comunicação Social. Um mundo de miseráveis armados em puritanos, em moralistas, um mundo de gente estúpida.

terça-feira, maio 21, 2024

O que as religiões podem fazer à cabeça das pessoas...

 

Eu não sei qual o culto em que esteve imersa Glenn Close, a grande Glenn Close (ainda há dias a vi na RTP 2 no excelente 'A mulher') desde a infância até atingir a idade adulta. Mas os testemunhos que tenho visto em que ela conta como a confissão permanente era, na realidade, um acto de humilhação sobre ela, um acto em que ela se sentia, ou a faziam sentir,  diminuída, (no fundo, assediada) e como toda a sua vida afectiva foi prejudicada pelo mal que tudo aquilo lhe fez, deixam-me francamente incomodada.

Quantas pessoas, quantas, não conseguem  ser autênticas, livres, genuínas, ao longo de toda a sua vida porque as condicionantes impostas pelos cultos religiosos as deixaram castradas? Quantas pessoas continuam, mesmo em adultas, a ter dificuldades nos seus relacionamentos, com medo de pecar, com medo de infringir algum mandamento, porque durante o período em que a sua personalidade se estava a formar, foram manietadas, manipuladas, porque o medo da culpa lhes ficou inscrita nos genes?

Quando vejo tantos jovens envolvidos em actividades promovidas pela igreja católica, completamente alienados -- cheios de boas intenções, é certo, mas tudo tão longe do que é a realidade em todas as suas diversas vertentes -- fico a pensar em que é que se tornarão, quando adultos?

Conheço vários católicos praticantes e dos que conheço como mais praticantes o que lhes vejo em comum é o estreitamento intelectual, parece que embrutecem, parece que se fecham ao mundo, parece que ficam a pensar que o mundo são eles. Teoricamente estão imbuídos dos melhores sentimentos mas tudo gira em volta deles, dos seus grupos que frequentam a missa, que frequentam retiros espirituais, que organizam peregrinações, e cada vez mais pensam e vivem em circuito fechado. E isso nunca pode ser bom.

Glenn Close was in a cult as a child

terça-feira, agosto 29, 2023

Rubiales: os seus genitais e o beijo a Hermoso (consentido ou sem sentido)
- Assédio ou não assédio, eis a questão -
.


Continuo entregue a tarefas comezinhas tais como fazer máquinas de roupa, estendê-la ao sol e ao vento, apanhar brinquedo aqui, coisa acolá. E também a tentar organizar minimamente os meus escritos e isto é, para mim, o pior. Gosto de criar e detesto 'manter' (catalogar, etc).

Dentro do possível, o dia foi, pois, tranquilo. Tenho sempre muito que fazer e quando é criar a partir do nada é um empolgamento; quando é inventariar e arrumar é uma missão que executo com algum sacrifício. De qualquer forma, sou geneticamente esforçada e, por isso, se meto na cabeça fazer uma coisa, eu faço, goste ou não goste. E, além disso, ocupa-me enquanto a minha mente não se ilumina para me guiar no caminho certo.

Com estas ocupações, não sei como, o meu dia esteve sempre preenchido. 

Felizmente dormi como uma santa. Dormia mais. Acordei porque fui acordada e também já não eram horas para voltar a cair no sono. A seguir ao almoço e depois de mais uma leva de roupa estendida, deu-me uma pancada de sono mas se caí no limbo da sonolência por uns dez minutos foi muito.

Ainda aqui não disse nada sobre o beijo do Rubiales na jogadora Jeni Hermoso e não disse pois tenho alguns mixed feelings. 

Ao ver o beijo, não me senti chocada. Pareceu-me não apenas haver euforia da parte dele como uma grande cumplicidade entre ambos. Que pessoas que se dão muito bem (como ela, depois, disse que davam), num explosivo momento de alegria exuberante e de consagração daquilo que muito desejavam, se beijem momentaneamente na boca não me choca. O vídeo completo mostra um apertado abraço, ele com os pés no ar, ela também exuberante, naturalmente bastante feliz da vida.

Coisa diferente seria se eu tivesse percebido surpresa ou desagrado da parte dela ou se, a seguir, em vez de tê-la ouvido desculpá-lo, tivesse ouvido que não tinha percebido, aceitado ou desculpado aquele beijo. Mas não. Não apenas me pareceu, num momento de grande euforia, o corolário de uma amizade e cumplicidade anterior como, no momento, não a vi minimamente incomodada ou surpreendida com o que se tinha passado.

Já me chocou, confesso, uma imagem que mostraram em que ele, no palco, está na maior explosão de alegria, aos saltos, aos gritos, de braços no ar e, às tantas,  tanta a adrenalina, agarra os próprios genitais. Parece coisa de excesso de testosterona, de pico orgástico -- mas, convenhamos, bastante despropositado em público. Aí diria que me parece inaceitável que uma pessoa com a responsabilidade dele tenha uma tão inusitada falta de maneiras. Mas este é um segundo tema e, que eu saiba, não é o que tem estado em causa.

Isto do assédio e do consentimento tem que se lhe diga e tem que ser avaliado por quem tenha os pés no chão, os neurónios a funcionar e um módico de bom senso.

Claro que se houver casos em que comprovadamente ele molestou, moral ou sexualmente, jogadoras ou outras mulheres, ou se fez depender o trabalho delas de cederem aos seus apetites ou caprichos, se foi inconveniente e desagradável causando-lhes incómodo ou pressão, aí as coisas, em minha opinião, mudam de figura.

Agora se foi só aquilo do beijo penso que antes de o crucificarem, queimarem vivo e apedrejarem, deveriam voltar a ouvir a jogadora. Se ela mantiver que são amigos, cúmplices de sonho e ambição, se têm grande confiança e à vontade e que não há nada a dizer sobre o beijo, então, o beijo não me parece caso para o que está a acontecer. 

Num caso destes não se põe a questão do consentimento pois não se proporciona parar e pedir: 'Posso dar um beijo?'. É um pico de euforia e ou bem que ambos têm cumplicidade para que isso aconteça ou não. 

Quanto à forma como publicamente agarrou os fogosos genitais parece-me, essa sim, muito incomodativa. Não sei se é caso para o sacrificarem publicamente ou se é caso de lesa-majestade mas acho que é, isso sim, caso para severa admoestação.

Quanto a ele, independentemente de tudo, ao ver o sururu que estava a ser criado, e ao ver-se a agarrar os genitais, o que penso que teria sido inteligente teria sido demitir-se. Simplesmente. Pedir desculpa se, com a sua exuberância emocional, tinha incomodado alguém e demitir-se. Tinha evitado muito exagero, muito moralismo, muita falta de bom senso. Tinha evitado ser esmagado, devorado, desonrosamente derretido  na praça pública.

PS - Volto a dizer: digo isto apenas pelo que vi pois não o conheço nem faço ideia de como se comporta social, profissional ou sexualmente.

quinta-feira, fevereiro 09, 2023

O corpo de Eva a Eva pertence.
[O de Chiara também a Chiara pertence]

 




Continuam a morrer mulheres às mãos dos homens que com elas vivem. São frequentemente pais das crianças cuja mãe agridem, estrangulam, esfaqueiam. Por vezes acontece que o fazem com as crianças a dormir no quarto ao lado, quando não à vista delas. Cegam. Pode ser sob o efeito do álcool, de outras drogas ou por obsessão, psicopatia, tara. E fazem-no, na maior parte das vezes, depois de anos de pressão psicológica, de crises de ciúmes, de ameaça, coação, chantagem emocional, de pedidos de perdão, de juras de amor. 

Fazem-no sempre em nome do que pensam ser afecto e as mulheres, por carência, por medo, por quererem acreditar que são amadas, pelos filhos, para não preocuparem a família, por vergonha perante amigos e colegas, aguentam em silêncio, fingindo que está tudo bem.

Por cada mulher que é assassinada deve haver mais de cem ou mais de mil que vivem um vida de infelicidade e pavor.

Há muito a fazer para prevenir isto, para ensinar o que é o verdadeiro amor, para conduzir à procura de apoio os agressores, os assediadores, para fazer vencer a barreira da discrição da vizinhança que ainda acha que entre marido e mulher ninguém deve meter a colher, para explicar como as vítimas podem pedir apoio em segurança.

Há muito a fazer para que as mulheres se sintam com direito à sua vontade e para que os homens aprendam que a sua vontade não impera sobre a das mulheres. Há muito a fazer para que a sociedade o assimile na sua totalidade.

________________________________

Não foi exactamente por isso que Chiara Ferragni, com uma poderosa presença e intervenção no Festival de Sanremo, se vestiu e falou como as imagens e os vídeos mostram. Pretendeu, sobretudo, alertar para o direito das mulheres a fazerem o que quiserem com o próprio corpo, a serem como são sem terem que ser vítimas de pressão social,  a terem o direito a uma voz independente e forte, o direito a terem os mesmos direitos que os homens, o direito a não serem vistas como as pecadoras que merecem punição.

Ser mulher não é uma limitação.




___________________________________________________

E outra Eva foi pintada por Lucas Cranach the Elder e vem na companhia de Melody Gardot e Philippe Powell com This Foolish Heart Could Love You

__________________________________________________

Desejo-vos um dia bom
Saúde. Respeito. Paz.

quarta-feira, outubro 17, 2018

Me too...?
[Sedução, assédio e outras cenas]




Quando se trabalha uma vida inteira em empresas grandes, vê-se de tudo. De tudo. Mas agora menos. Agora o pessoal está todo muito comportado, muito normalizado, não há gente a dizer inconveniências, quase não se vê pulada de cerca, tropelia de bradar aos céus, desafio real. Mas épocas houve em que sim e eu vivi-as. Directores e secretárias, doutores e engenheiros e jovens estagiárias. Tantos, tantos casos. Vi de perto. Acompanhei, aconselhei, partilhei confidências. Anos e anos de vida entre homens e mulheres, chefes e chefiados. 

E nunca, nunca, nunca soube de qualquer caso de assédio de chefe sobre chefiada, de homem sobre mulher. Sedução, sim, muitas vezes. Flirts, sim, muitas vezes. Casos, sim, muitos.

Não juro que não tenha havido: digo apenas a verdade, que nunca deles soube.

Nem sempre a sedução era recíproca e aí a coisa morria ali. Nem sempre a sedução escondia amor e, aí, os casos não duravam muito. Por vezes, a sedução transportava a semente do amor e, aí, depois de dúvidas e sofrimento, o casinho transformava-se em caso sério.

O meu melhor amigo teve um caso com a minha secretária e agora vive com ela. Não se divorciou da mulher e agora passam as festas em alegre comunhão pois nunca deixou de gostar dela e apenas se separou porque a mulher pôs os pés à parede: escolhe com quem queres viver, cm as duas ao mesmo tempo é que não.

Outro colega, teve um caso e depois casou-se com a secretária, uns trinta anos mais nova, uma vampe de voz grossa que morria de ciúmes dele. Depois morreu ele ela transformou-se numa improvável e aparatosa viúva.

Mil casos. Outro foi visto a sair do gabinete, atrás da secretária e ainda a fechar o fecho das calças. 


Outra, uma elegância de fazer parar o trânsito, que entrou para estagiar comigo e depois entrou para o quadro, teve casos com vários, levando-os para a casa onde já vivia com o namorado e, quando se casou, convidou-os a todos, a eles e às respectivas mulheres.

Elas derretiam-se. Ter um caso com um director era uma emoção. Atiravam-se a eles à descarada. Eu pasmava com o descaramento. E eles gostavam, claro. 

Havia um, uma força da natureza, teve casos com não se sabe quantas. Diziam: 'até com a timorense'. Era uma mulher muito baixa, muito gorda, muito feia. Afiançavam que sim, que até com ela. Quando morreu, prematuramente, a igreja estava repleta. Todas elas lá estavam. Junto à urna a mulher chorava inconsolavelmente. 

Ainda recentemente, uma jovem, muito bonita e muito casada, quando tinha reuniões com o chefe, um homem pouco mais velho e igualmente muito casado,  aparecia vestida de forma acentuadamente provocante. As colegas faziam reparo ao que ela descontraidamente dizia: 'Então, tenho que fazer pela vida'. 

Outra, vistosa a ponto de ser tratada por 'avião', quando tem reuniões com alguém que ela acha influente, aparece vestida como se fosse uma Bond Girl. Presumo que os homens nem saibam como desviar os olhos. Até eu, se a tenho por perto nesses dias, sem querer, dou por mim a reparar naquele avultado despropósito. 

Que há homens sabujos que tentam aproveitar-se de mulheres indefesas não duvido. Mas há mulheres que igualmente tentam aproveitar-se. Há homens que se insinuam tal com há mulheres que se insinuam. 

Lembro-me de uma colega que tive no início da minha vida profissional. Não era nem muito bonita nem especialmente simpática. Mas era desbragada, desinibida e divertida, por vezes até em excesso. Atirava-se de forma ostensiva ao chefe, um totó, tímido, menino da mamã apesar de ter quarentas e tais. Quanto mais o via atrapalhado mas ela se atirava. Uma vez, de manhã, apareceu com ar apreensivo, que não sabia como devia agir porque, agora que o tinha conseguido levar para a cama, achava que ficava esquisito ele ser chefe dela. E, de facto, a partir daí, discutia com ele, embirrava com o desgraçado. Ao fim de algum tempo, depois de muito atentar o juízo ao pobre coitado, foi-se embora, resolveu ir viajar.

E comigo?

Tenho trabalhado, ao longo de anos, no meio de homens. E posso aqui jurar a pés juntos que nunca nenhum tentou assediar-me. Zero. É que nem consigo imaginar que algum tentasse pisar o risco. Há linhas encarnadas que não podem ser pisadas -- e há que deixar bem claro onde é que elas estão. Piadas, brejeirices, graças, isso sim. Coisas para rir. Inocentes, bem humoradas. Nada mais que isso.

Sempre tive grandes amigos, homens, sempre os ouvi conversar com grande à vontade. Nunca lhes vi tiques de assediadores. Nem comigo nem com outras pessoas. E não tenho vivido em ghetos nem as empresas onde trabalhei eram melhores que outras.

Por isso, se me reportar à minha experiência pessoal e ao que testemunhei, o que posso dizer é que nem todos os homens são demónios nem todas as mulheres santas. Nem há ninguém completamente demónio ou completamente santo. Há de tudo, penso que em iguais proporções. 

O movimento #MeToo a mim pouco me diz. Tenho para mim que por cada influente-assediador há também alguém que tentou aproveitar-se da situação, muitas vezes tentando obter vantagem, outras vezes apenas porque o poder é afrodisíaco e dá vontade de provar.

Mas, a haver mesmo assédio -- algum tarado ou tarada, algum doente, insistente, incomodativo/a, mal educado/a, badalhoco/a, alguém que não perceba que não vai ser retribuído e insista nas investidas -- então, sim, há que denunciar. Sem medo. Ou dar um par de estalos.


PS: Não estou a falar de violadores. Violação é violação e, a ser mesmo violação (ie, relação sexual não consentida), é crime e, aí, o caso é sério, não sujeito a funfuns ou gaitinhas.

........................................

E, aos que chegaram agora: aceitem o convite e desçam até ao post seguinte caso queiram espreitar a minha casa.

sábado, julho 07, 2018

Como pode uma mulher que gosta de verde, de pedras e de pássaros derrubar um déspota?
Pergunto. A sério.





Afinal aquele que enterrei ainda mexe. E se mexe. Não o enterrei coisa nenhuma. Ainda está vivo. Maldição. Vivo, completamente vivo.

Mas como não haveria de estar se não passo de uma doce criatura que, em vez de ajustar contas à séria, se fica pela vontade de o fazer? Ou que, se faz qualquer coisa para afastar o mal, o faz com delicadeza, seguindo a via diplomática e não a bélica? 

Em vez de ser tentar resolver a disparo de bazuca, uso a dica bobinha junto de quem é ainda mais diplomata e santo que eu. Portanto, como esperar bom desfecho? Impossível. Uma lástima, eu. Não ser capaz de fazer justiça à queima roupa é, para quem espera de nós bom desfecho, uma lástima. Como poderão eles, os que agora estão sujeitos ao déspota, contar comigo? Presumo que, silenciosamente, quando andam rente aos corredores, se lastimem: 'Não se pode contar com ela'. Têm razão. 


La-palicianamente constato: estando viva, a megérica criatura continua a existir. E, continuando a existir, continua a fazer o que sempre faz: grita com os mais fracos, rebaixa-os, desconsidera-os. Uns gritos... A toda a hora.

Faço o que posso para que perceba o meu desagrado; mas está-lhe nos genes. Nem repara nem nos gritos nem no meu desagrado. E não é só isso. É que também toma decisões mal tomadas, arbitrárias, e, pior ainda, destrata quem o contraria. E grita, grita. Grita muito. Já não consigo ouvir. Vocifera, pragueja. Polui a minha paz de espírito. A minha alma vem cheia de revolta contra ele e contra mim que nada consigo fazer e de compaixão por aqueles que são suas vítimas inocentes.

A estes ouço-os, mostro-lhes a minha solidariedade. Mas não sei o que mais fazer para, de facto, os ajudar.


E há ainda o mais repugnante nisto: os que, ainda assim, o bajulam. Os que se predispõem de bom gosto a serem os preferidos, os de mão, os que sorriem perante o mal feito aos outros. Larvas.

Muito mau isto. Parece impossível mas é verdade.

E pior, muito pior: o populismo. Tudo disfarçado de coisa boa. Aumentos, prémios. De uma forma nunca antes vista. Dá para melhor poder espezinhar. Pior, parece não se dar conta do que faz. Isto, para ele, é o normal. Se alguém mostra desconforto, é denegrida, é afastada, prejudicada.

Isto tem que ter um fim, penso. Tenho muito claro que isto tem que ter um fim. Mas não sei como apressá-lo. Não sei como fazê-lo.

Hoje, um jovem quase desesperado, queixava-se. Percebi que quer pôr-se a milhas. Outra diz que sai de lá esgotada. Percebo-os.

No outro dia tive um pesadelo. Eu conjurava, arranjava mil ardis, punha-o fora de casa, fechava-lhe a porta e, por mais que ele quisesse entrrar ou forçar a fechadura, não entrava. Sonhar é fácil. Mas acordei sobressaltada, cansada.


..................................................

O que vale é que já é sábado. Felizmente, no meio das canseiras e destes tremendos desgastes, aparece o fim de semana. E aí vêm as árvores, o verde, os pássaros, as pedras.

Estive a ver o vídeo que abaixo partilho convosco: as árvores ligam-se entre si, dizem. Uma rede de raízes, uma rede de suporte à vida. Árvores solidárias ou abnegadas. Penso que deve ser verdade e agrada-me que possa ser verdade: as minhas queridas árvores amigas umas das outras, uma comunidade a favor da natureza, abrigo solidário para os pássaros, companheiras das pedras.

Estes pensamentos ajudam-me a lavar a alma.

O vídeo foi divulgado pela BBC News há cerca de uma semana e é, de facto, uma preciosidade.

How trees secretly talk to each other

Trees talk and share resources right under our feet, using a fungal network nicknamed the Wood Wide Web. Some plants use the system to support their offspring, while others hijack it to sabotage their rivals.


...........................................

As fotografias foram feitas no sábado passado in heaven