Para já, chama-me a atenção o equipamento, muito fofo. Gosto. Mas, assim de repente, olhei para lá e pensei que estavam a dar algum outro jogo, não reconheci aquela roupa. Depois é que vi o Cristiano Ronaldo e percebi que são eles. Mas não percebo porquê porque o equipamento dos outros é azul, não se confundiria com o nosso, o tradicional. Mas é um pormenor, este equipamento também é bonito.
Tirando isso, não digo nada. Às vezes tenho premonições e acontece que, enquanto dura aquela excitação, eu digo: 'Não há crise, vão ganhar', mas, desta vez, talvez porque a coisa ainda não encarnou em mim, não tenho nenhuma previsão.
O que posso dizer é que este calor me derete. De dia, esteve horrível. O cão deita-se ao comprido no chão de pedra e eu deveria ter feito o mesmo.
Mas, ainda assim, tratei de uma data de coisas chatas e, quando consigo chegar a bom porto em tarefas que metem registos em portais do estado, em que nada é explícito, em que do call center ninguém atende, mas, ainda assim, consigo chegar ao fim, fico contente. O meu marido, então, não tem pachorra. Diz que delega isso tudo em mim porque eu gosto de fazer estas coisas. Não é verdade. Não gosto. Tenho é uma persistência que faz com que não largue até chegar ao fim, por mil obstáculos que me surjam.
À noite, depois de ver as notícias e ao querer distrair-me, apareceu-me a notícia de que Mel Brooks fez 100 anos. Inacreditável. 100 anos de boa disposição, de bom humor. Gosto muito dele, sempre gostei, sempre gostei de pessoas que, sendo boas pessoas, pessoas decentes, são, contudo, inofensivamente mal-comportadas, dos que pisam sistematicamente todas as linhas vermelhas, dos que são mais ireverentes do que o normal bom senso recomendaria. Faz falta termos mais pândegos assim. Agora, ao mesmo nível de maluqueira só mesmo o Trump. Falha é naquilo de ser boa pessoa, de ser decente.
Mas, enfim, enquanto a rapaziada por ali anda afincadamente a correr atrás da bola, eu atiro foguetes pelo Mel Brooks.
Aos 100 anos Mel Brooks não tem planos para se reformar
Não vou a um cinema há já algum tempo. Perdeu a mística. Em vez de cheiro a cinema, cheira a pipocas.
E os cartazes dos filmes já nada me dizem. Muita imagem de violência, de bonecada. Olha-se para aquilo e adivinha-se a chinfrineira, perseguições, derrapagens, violência, gente a saltar de prédios, ou seres do outro mundo, monstros, zombies, macacadas. E eu gosto de filmes normais, com uma história como deve ser, e com sossego, sem um ruído que fira as sensíveis membranas dos meus tímpanos e sem imagens que firam a minha inteligência e a minha sensibilidade.
Durante muitos anos, não perdia um bom filme. Era daquelas experiências imersivas que me cobriam de prazer estético e intelectual.
Mas não aprecio apenas os filmes assentes em obras literárias de boa qualidade, aprecio também filmes de humor, comédias ligeiras, vitaminas de boa disposição.
O Diabo veste Prada foi desses filmes ligeiros, bem dispostos, com um conjunto de boas interpretações, com um figurino de se lhe tirar o chapéu, e em que a coesão de tudo carimbava o sucesso garantido.
Como ontem aqui referi, duas décadas decorridas é com expectativa que vejo que os mesmos actores voltaram a juntar-se para se divertirem e nos divertirem a nós.
Diz Meryl Streep, na conversa que abaixo partilho, que, vinte anos depois, este é um mundo novo. A prevalência das comunicações instantâneas, o telemóvel como parte integrante da nossa forma de viver, com tudo o que esse objecto comporta, torna, hoje, difícil perceber como conseguíamos viver sem ele.
Conseguíamos.
Mas com severas limitações - reconheçamos.
As situações de atrapalhação de que mais me recordo por não ter como me comunicar prendem-se com aeroportos. E peço desculpa aos que me acompanham há mais tempo mas vou repetir-me.
Uma aconteceu numa era em que já os havia de forma permanente mas em que, por distração pura ou, melhor, por ainda ser um hábito relativamente recente e ainda não era normal tomarmos logo nota dos números uns dos outros, não tomei nota do número de nenhum dos que estavam comigo na viagem.
Tínhamos feito escala em Bruxelas e, não dando tempo de ir à cidade mas sobrando tempo até à hora de embarque, resolvemos dar uma volta pelas lojas. Entrámos na mesma, e creio que éramos três ou quatro, já não me recordo ao certo. Como sempre, perdi-me nos perfumes, talvez também nos chocolates. O que sei é que, quando fui pagar, já não os vi. Não me preocupei, pensei que estariam lá fora à minha espera. Não estavam. Mas ainda era cedo. Fui dar outra volta, tinha tempo. Passado um bocado, ouvi chamar para o voo e fui andando. Pensei que estariam na salinha junto à porta de embarque. Não estavam. Dei uma volta por ali a ver se os via. Nada. Pensei: 'Não iam entrar sem esperarem por mim...'. Voltei para trás, outra vez pelas free shops. E se aquele aeroporto é grande e uma barafunda de gente... Nada, desaparecidos. Só pensava que eles deviam estar como eu, a ver se me descobriam. E eu sem poder contactá-los. Por fim, já a última chamada. Pensei: 'Não vou perder o avião.'. Mas depois pensava: 'E se me meto no avião e eles ficam no aeroporto à minha procura?'. Fiquei ali mesmo atarantada sem saber o que fazer. Até que, in extremis, resolvi mesmo entrar.
Mal entrei no avião, vi-os. Fizeram de conta que não estavam ansiosos a pensar que eu ficar em terra. Sentei-me ao lado deles, como se não fosse nada. E eles nada me disseram, também como se nada se tivesse passado. Só depois soube que, na primeira loja, tinham deixado de me ver, pensaram que eu já tinha saído da loja sem esperar por eles. E que nunca mais me tinham posto a vista em cima.
Parece uma história ridícula nos dias de hoje, em que obviamente toda a gente se contacta com toda a gente a toda a hora.
Mas a pior situação aconteceu em Londres (e já a contei mais que uma vez pois foi quase traumática), longe ainda de se sonhar que um dia existiriam telemóveis e que ficaríamos dependentes deles. Tínhamos voo para cá a seguir ao almoço. Era eu e dois colegas. Eu, como sempre, queria trazer roupinhas para os miúdos. Era o tempo da Mothercare e eu adorava aqueles modelos, aqueles tecidos, uns veludos muito macios, uns impermeáveis muito alegres, aquelas cores. Dali, ainda fui espreitar o Marks & Spencer mas só por ir, porque nunca fez o meu género, parecia-me tudo roupa à velha e se nem agora eu gosto de me vestir à velha, imagine-se naquela altura. Ou seja, só lá fui perder tempo. Depois fui até à Selfridge para trazer uns brinquedos. Entretanto, havia a feira de artesanato afegão com carpetes maravilhosas. Trouxe uma grande e um tapete normal, ambos bordados à mão, motivos muito ingénuos, numas cores muito lindas. Por fim, tal o volume e o peso dos sacos, já não conseguia quase andar. Tinha combinado encontrar-me com eles em Westminster. E era suposto irmos à catedral, dar uma volta por ali, almoçarmos, e irmos para o aeroporto. Mas, carregada como estava, era impossível fazer aquele programa, carregada com a minha mala e mais com todos aqueles sacos e sacos, alguns ultrapesados. Portanto, não apenas não levantei a minha mala como também deixei essas compras no hotel. Pensei que, se fosse preciso, comia uma coisa rápida ao almoço para ter tempo de ir ao hotel e do hotel para o aeroporto. Mas isto já a stressar e a correr. Deixei a carga e meti-me no metro. Saí na estação, fui andando aceleradamente e, às tantas, perguntei a uma pessoa se Westminster ainda era longe. A pessoa respondeu-me, devolvendo-me uma pergunta: 'Westminster Abbey ou Westminster Cathedral?'. Ainda me lembro bem do calafrio. Se tínhamos combinado qual era, eu não me lembrava. Não fazia ideia. Lembrei-me de perguntar a essa pessoa qual a mais conhecida. Pergunta estúpida, claro, são ambas. Não me recordo da resposta. Só sei que lá fui, numa pilha de nervos. Se não os descobrisse, o que fazia? Quando me aproximei, uma multidão. Nestas coisas, a minha aflição nem era tanto eu ficar perdida deles pois sabia o caminho para o hotel e sabia como ir do hotel para o aeroporto -- era, sobretudo, pensar na preocupação que ia causar-lhes a eles, sem saberem de mim e sem saberem se deveriam embarcar para Portugal, possivelmente deixando-me para trás, em Inglaterra. Reparem: sem termos como nos comunicar! Mas os deuses protegem-me e, no meio daquela barafunda de turistas, eis que os vejo a eles, tranquilamente conversando um com o outro enquanto olhavam a ver se me viam.
Claro que eles já estavam com a sua pequena valise, sem compras nenhumas, prontos para dali seguirem para o aeroporto, e eu ali estava sem mala nenhuma. Já contei antes que o esforço que fiz depois para, sozinha, conseguir carregar aquilo tudo é algo que não esqueço. Pensei que fisicamente o meu corpo não conseguia. Nem era os meus braços não terem força, era mesmo o meu coração não aguentar. Quando olho para a carpete de lã, pesada, que ainda hoje aqui está no activo, mais o tapete também de lã, penso que só isso já era obra. Agora em cima desse peso enorme, casacos e casaquinhos, calças e calcinhas, camisolas e camisolinhas, brinquedos e ainda mais a minha mala, nem sei mesmo como consegui. Só que não podia parar e descansar pois eles já tinham ido para o aeroporto e eu ainda andava naquelas bolandas a ter que lá chegar, quase sem conseguir dar passo. E a não conseguir combinar com eles irem esperar por mim à porta para me ajudarem. Nada. Incontactáveis.
Por isso, de facto, viver num mundo em que toda a gente se comunica, por voz, por escrito ou por imagem, com toda a gente, é uma vivência tão radicalmente oposta à que era antes que creio que já nem dá para acreditar.
Seja como for, resumindo e concluindo, e pedindo-vos desculpa por me ter desviado tanto, claro que será de gosto que irei ver O Diabo veste Prada, 2.
O elenco de ‘O Diabo Veste Prada 2’ reflete sobre o original.
Meryl Streep, Anne Hathaway, Stanley Tucci e Emily Blunt falam sobre a sequela de "O Diabo Veste Prada" e o que é preciso para ser a chefe.
Desejo-vos um belo dia de domingo
E para quem é mãe, um dia muito feliz. Para quem não é, um dia igualmente feliz.
Acho que a primeira vez que a vi foi no Kramer contra Kramer, num cinema pequeno, aqueles cinemas-estúdio, que ficava encavalitado creio que na Estação dos Restauradores. Tenho ideia que havia uma escada num dos lados. Será que estou enganada? Acho que não, que havia ali um cinema. O filme era muito bom, ela e o Dustin Hoffmann numa terrível disputa pela guarda do filho. Também me lembro dela num filme que me marcou, com uma componente literária como agora já é raro, A Amante do Tenente Francês. E o tocante, tocante A escolha de Sofia.
Meryl Streep sempre extraordinária. Fugindo aos cânones da beleza mais formal, Meryl sempre se impôs pela contenção, pela naturalidade, pela forma como se confunde com as personagens que representa, encarnando-as.
E, ao mesmo tempo, num registo sempre de grande simplicidade e espontaneidade, sem medos ou meias palavras, sabe fazer valer a sua presença e a sua voz para se posicionar ao lado da democracia, da liberdade, do respeito pelos direitos humanos.
Nesta entrevista -- com o sempre-alvo-a-abater (pela família Trump, essa familiazinha de horrores) Jimmy Kimmel --, quando disse que o primeiro filme O Diabo Veste Prada já tem 20 anos fiquei parva.
20 anos? Já passaram 20 anos? Como assim? Lembro-me tão bem de ver o filme numa sala de cinema. E lembro-me de apreciar como a personagem representada pela Anne Hathway evoluiu na forma de se vestir e lembro-me de pensar que a minha filha também deveria ficar lindamente com aquelas roupas.
É chiché, claro, mas, caraças, o tempo passa mesmo a correr. Vinte anos...
Agora uma coisa também posso dizer: estou como ela quando me perguntam a idade dos meus netos, tenho que pensar para não me enganar, pois, como ela refere, estão sempre a fazer anos e estragam-nos a carreirinha que tínhamos fixado. Não há muito, quando perguntei a uma conhecida com quantos anos estavam os netos, respondeu prontamente: 'Há muito tempo que desisti... não faço ideia...'. Depois ficou a pensar e disse que achava que o mais novo tinha seis e o mais velho dezoito e que, portanto, os outros onze andavam pelo meio. Tinha desculpa, são muitos. O mais engraçado foi o avô do meu genro que, quando lhe perguntei quantos bisnetos tinha, se riu e disse que não fazia ideia, que estavam sempre a nascer. Acho que alguém disse que já deviam ir em trinta e tal. Nesse caso nem eram as idades, era mesmo a quantidade de bisnetos.
Mas deixo-vos com a entrevista e com o bom humor e a genuinidade de Meryl Streep. E reparem como se mantém bonita, elegante, jovial. O diabo não apenas veste Prada como a tem poupado.
Meryl Streep fala sobre a excitação com O Diabo Veste Prada 2, ligar a Lady Gaga e ser avó
Meryl fala sobre homenagear Stanley Tucci e Emily Blunt na cerimónia de entrega das suas estrelas no Passeio da Fama em Hollywood, ser a maior queixosa do mundo, ter seis netos, ser um pouco como Miranda Priestly como avó, ler-lhes Harry Potter, imitar sotaques quando se fala com as pessoas, O Diabo Veste Prada 2, a expectativa mundial pelo filme, ligar a Lady Gaga para lhe perguntar se participaria no filme e se gostaria de ser presidente algum dia.
Se, há coisa de seis anos, assisti aos Golden Globes 2020 provavelmente não percebi parte das piadas que Ricky Gervais disse. Sei que foi considerado inconveniente, sei que deixou muitos dos presentes incomodados. Disso lembro-me. E tenho ideia de que ele, antes desse dia, já tinha decidido que seria a sua última vez pelo que podia partir a louça toda. E de que se especulava se teria sido mesmo sua decisão ou se não voltou a ser convidado porque o seu nível de corrosão já estava a causar alergias. Mas, sinceramente, à luz do que agora sei, vejo que na altura, se assisti pela televisão às suas piadas, uma parte passou-me certamente ao lado. E, agora que revi as imagens que abaixo partilho, percebo que não foi apenas uma dessintonia entre o humor britânico e o americano: foi mesmo que as piadas foram, na verdade, valentes ferroadas.
Em 2020 eu nunca tinha ouvido falar em Epstein.
Havia a bronca do Harvey Weinstein e de tudo o que se seguiu, #MeToo incluído, havia a barracada do Woody Allen se apaixonar pela filha adoptiva e a fúria do Ronan Farrow contra o padrasto por supostamente abusar da irmã, Dylan. Mas, em particular esta história, era daquelas coisas, parecia mais um melodrama desconchavado, custava-me a acreditar que o simpático Woody Allen fosse o pervertido que os enteados e a ex-mulher, Mia Farrow, pintavam. Não sei. Acho que naquele ano eu ainda acreditava que a maioria das pessoas eram boas pessoas e tudo o que me parecia excessivo ia para o compartimento das teorias da conspiração que eu renegava como o diabo renega a cruz.
Claro que gostava imenso de Ricky Gervais. Gosto do humor britânico. É um humor em que encaixo bem, parece que é um humor que nunca acho forçado, daquele humor básico ou boçal, infantilóide, feito para pessoas parvas. Pelo contrário, tem aquela dose de irreverência, quase inconveniência mas sem ser ordinário, revela sempre um apurado sentido de observação, é desconcertante, vem com aquele toque de inesperado que me faz cócegas boas, que me faz rir e ter vontade de mais. Mas, lá está, em 2020, se assisti, e se calhar assisti, é certo que parte do conteúdo me tenha passado ao lado.
Mas, agora que sei o pouco que sei (pouco, muito pouco), espanto-me com as flechadas que ele disparou, certeiras, e percebo o ar algo atónito ou, por vezes, desconfortável de algumas pessoas.
Ora vejam.
A piada sobre Epstein que deixou Hollywood sem palavras | Ricky Gervais nos Globos de Ouro de 2020
Se há actor por quem nutro grande admiração, ele é Anthony Hopkins. Há mais, claro, mas é dele que quero aqui falar. Todos os filmes em que o vi me deixaram uma forte impressão. Parece que há qualquer coisa de muito íntimo entre ele e os personagens que desempenha.
Contudo, se há papel em que se transcendeu de forma absoluta e que para sempre lhe ficará associado é o de Hannibal Lecter, o criminoso em série, canibal, sem remorsos, sem consciência.
A sua voz que modelava a ameaça velada e ciciada através do silêncio, a sua perspicácia cortante, tudo ali assustava. Estar perante alguém tão demoníaco deve ser aterrador e nós, no conforto da sala de silêncio, sentíamos o medo que aquele coração gelado e aquela mente perversa destilava.
Colbert apresenta uma entrevista que lhe fez, e é um prazer vê-los à conversa.
Anthony Hopkins revela como a sua intuição, o seu conhecimento intrínseco dos meandros mais primitivos da mente (os mecanismos do medo, por exemplo) e algumas fontes de inspiração serviram para compor o personagem. E é um prazer assistir a isso.
Sir Anthony Hopkins, As Hannibal Lecter, Can Make Any Classic Movie Line Sound Terrifying
O vencedor de um Óscar, Sir Anthony Hopkins, revela que personagens de filmes influenciaram a sua interpretação de Hannibal Lecter em "O Silêncio dos Inocentes" e aceita o desafio de Stephen de ler algumas frases famosas do filme como o célebre assassino em série fictício.
Não vou aqui partilhar todos os vídeos dessa entrevista mas não posso deixar de aqui colocar o seguinte. O tema não é apenas o do 'grande segredo' mas essa parte, o da finitude, é muito interessante. Diz ele que já viveu muito, nunca esperou chegar até aqui, que está tudo bem, já não tem medo. E ninguém escapa. Por isso, quando o momento chegar, que chegue. Tema complexo para toda a gente mas é agradável ver alguém a falar disso a rir, sem drama.
"One Day I Will Learn The Big Secret" - Sir Anthony Hopkins Says He's Too Old To Fear Death
A entrevista de Stephen Colbert à lenda de Hollywood, Sir Anthony Hopkins, dividida em quatro partes, termina com uma conversa sobre ser o ator mais velho a ganhar um Óscar e porque é que, aos 88 anos, superou qualquer medo da morte. As suas memórias, "We Did OK, Kid", estão disponíveis.
Como naqueles filmes, assim eu na vida real. Ao fim de muitos anos, aos poucos vamo-nos reencontrando. Algumas vezes todos, outras vezes em grupos mais reduzidos. Hoje foi assim: envoltos em sol, como se o tempo não tivesse passado, um grupo de amigos encontra-se.
Em volta da mesa, conversamos como se sempre tivéssemos mantido o contacto assíduo. As expressões são as mesmas, os risos os mesmos. Os truculentos continuam truculentos, as serenas continuam serenas, as rebeldes e fora da caixa continuam assim só que, como dizem, agora sem filtro. E vai risada. E a nossa artista continua artista, mas agora com obra feita, cotada. E, aliás, de uma maneira ou de outra, todos temos obra feita nem que com obra feita estejamos a referir-nos, sobretudo, à família que constituímos.
Há novos personagens, claro: o marido de uma, a mulher de outro, a namorada de um outro. E todos conversam e riem. Recordamos episódios, muitas vezes esquecidos ou nem apercebidos por alguns.
Contam coisas de mim ao meu marido. 'Não nos ligava nenhuma', confessam os rapazes. (Não lhe contam que não ligava a eles mas havia um e depois outro a quem ligava). E falam-lhe dos meus feitos académicos e, nesse capítulo, como sempre, não consigo dizer nada. É como se dissessem: 'Tinha o nariz grande.'. Que poderia dizer? Nada. A ser verdade, não teria feito nada por isso. Tento mudar o rumo da conversa.
Falamos das eleições. Há interpretações distintas, visões diferenciadas sobre o trabalho realizado. Há quem invoque situações pessoais, há quem se insurja porque tem que se pensar na cidade e não na sua situação pessoal. Os ânimos ficam acalorados. A política, ainda por cima em véspera de eleições, ainda incendeia. Uns desentendem-se e a mulher de um dos assanhados põe água na fervura: 'Isto é só uma tertúlia', ou seja, não um combate de box. Mas o sangue na guelra dos intervenientes mantém-se vivo. Passado um bocado, os dois amigos atiram-se num mergulho e põem-se a nadar, amigos somo sempre.
Fazemos um brinde, dois brindes. Desejamos todos que nos mantenhamos assim, de boa saúde, amigos, com vontade de partilhar o dia, a companhia uns dos outros.
Nunca tinha estado naquele lugar. Dir-se-ia um lugar quase no fim do nada. E, no entanto, uma maravilha. Muito verde, muito amplo, muito iluminado. E com peças de arte, umas adquiridas, outras feitas, que acrescentam beleza àquele espaço.
Chegámos a casa já noite. Fomos passear o cão que, coitado, tinha ficado em casa sozinho. Mas ficou no jardim e isso mantém-no sempre atento e ocupado, sempre em guarda do território.
Por isso não vimos notícias nem sabemos de novidades. Ou seja, nem eu nem o meu marido temos alguma coisa a dizer. Acresce que a noite passada praticamente não dormi, tossi, tossi, tossi, toda a santa noite até às sete e tal da manhã, uma daquelas tosses que resultam de uma comichão na garganta que não passa. Depois ainda dormi um pouco mas, claro, pouco demais. Agora estou melhor mas carregada de sono. Só que, entretanto, peguei ao meu marido, agora está ele. Pôs avamys no nariz e tomou paracetamol e foi enfiar-se na cama. Não arriscou na ceterizina pois viu como eu fiquei (passaram-me os espirros e o pingo mas no dia seguinte fiquei completamente KO).
Concluindo: o dia foi muito bom, adorei, mas se, enquanto lá estive, estive razoável, agora, aqui chegada, estou capaz é de ir para a cama.
Mas, antes de ir, uma nota: ao ligar o computador e espreitar as notícias, vi que morreu a Diane Keaton e isso deixou-me em choque.
Há pessoas assim, que, saberemos lá dizer exactamente porquê, nos tocam de uma maneira especial, parece que queremos tê-las a partilhar o nosso tempo, enquanto o nosso tempo existir.
Mais uma estrelinha que foi brilhar para mais longe.
Contudo, a vida continua, a vida sempre continua. E que seja boa para os que cá estão.
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Desejo-vos um belo dia de domingo
E não se esqueçam de votar pois votar é mais do que um dever, é uma obrigação, é mesmo, ok?
Neste mundo acelerado em que as notícias correm vertiginosamente nos nossos ecrãs, falar várias vezes do mesmo assunto já cansa, é mais do mesmo.
Portanto, como fazer para conseguir romper o muro de indiferença que se ergue em tornos de assuntos já muito falados? Eu não sei. O que sei é que me preocupo com a velocidade a que isto está a avançar. Quando a tecnologia está acessível a toda a gente, quando é gratuita ou quase, quando não há maneira de travar ou regular a sua utilização, é inevitável que, um dia após o outro, os avanços pisem o que se poderia pensar que eram linhas vermelhas (mas que, na realidade, nem sequer existem) e, um pouco por todo o lado, novas experiências vão sendo feitas, fazendo com que o fruto desses avanços encontre um campo aberto à sua espera.
Os alertas de quem sabe do que fala sucedem-se, mas os políticos estão pouco sensibilizados para o que pode estar aí, ao virar da esquina, e, além disso, estão permanentemente enredados nos problemas do dia a dia. E depois agora acontece sempre isto: a opinião de quem sabe, de um prémio nobel, por exemplo, dos fundadores da tecnologia, de quem lida de perto com essa realidade, valem tanto, aos olhos do vasto mundo de ignorantes, como a opinião deles próprios ou de influencers de meia tigela ou engraçadinhos de serviço. Por isso, se os primeiros alertam para os perigos, incluindo os perigos existenciais, da Inteligência Artificial, os segundos logo dizem que já não há pachorra para tanto fatalismo.
Pois bem. O que está a ser feito é imenso, muitas vezes praticamente invisível, e ninguém sabe ao certo até onde é que já se foi.
Mas, de vez em quando, o que está a ser feito sai à cena.
Foi o que aconteceu agora com uma actriz bonita, versátil, disponível para qualquer cena a qualquer hora do dia e da noite, em qualquer dia da semana, sem férias, sem pedir aumento, sem se queixar, sem se cansar. Tilly Norwood é a actriz perfeita. E, claro, toda a gente a quer agenciar.
Com o pequenino pormenor que Tilly Norwood na verdade não existe: é pura criação da Inteligência Artificial.
É certo que já tinha uma conta de instagram, que, por acaso, já vai em cerca de 60.000 seguidores, e é certo que se descreveu como uma criação. Mas quem é que não é uma criação? E, depois, diz que quer ser actriz. Ou seja, credível.
Mas quando se apresentou num festival, quando foi exibido um pequeno filme com a sua participação, aí, de repente, a malta do cinema começou a entrar em parafuso, aqui d'el rei,oh tio, oh tio. A coisa começa sempre pelos sindicatos: concorrência mais do que desleal e etc. e tal.
Só que o problema é mais, muito mais, mas mesmo muito mais vasto, do que isso. Não são só as actrizes de carne e osso que ficarão em risco: é a malta dos cenários, os operadores de câmara, os das luzes, os do vestuário, os realizadores, os produtores, a indústria de cinema. Todo este mundo desloca-se para quem sabe dar os comandos para que o código seja gerado. A Inteligência Artificial criará argumentos, criará personagens, criará cenários, fará tudo. Fará tudo por tuta e meia.
Claro que as pessoas de verdade poderão continuar a exercer a sua profissão... só que tudo sairá infinitamente mais caro. Mas haverá quem o queira pagar?
Claro que tudo isto é demasiado complexo, demasiado estranho.
O que fazer, então?
Neste momento, não sei. Há uns anos, quando os primeiros alertas começaram a ser ouvidos, talvez se pudesse ter avançado com regulação, com alguma contenção. Agora, não sei.
No outro dia, Geoffrey Hinton disse que a única salvação para o ser humano será se a Inteligência Artificial for programada para ter um sentimento maternal em relação a nós, se for ensinada a proteger-nos, aconteça o que acontecer. Ele sabe infinitamente mais do que eu pelo que pode ser estultícia da minha parte duvidar. Mas, na minha humilde ignorância, permito-me duvidar: não sei se vamos a tempo.
A ameaça à criatividade humana trazida pela tecnologia deu mais um passo em frente esta semana com a aparição de Tilly Norwood, a primeira atriz 100% gerada por IA. Sem surpresa, a sua atuação no festival de cinema de Zurique, num sketch cómico chamado AI Commissioner, causou agitação. Emily Blunt descreveu o filme como "aterrorizador" e o sindicato de atores Sag-Aftra condenou-o por "colocar em risco a subsistência dos artistas e desvalorizar a arte humana". (...)
“Tilly Norwood” parece uma jovem de cabelo castanho ondulado e pele clara que, desde fevereiro, publica no Instagram como qualquer outra influenciadora da Geração Z. Está a seguir uma carreira de atriz — e recentemente publicou sobre fazer “testes de ecrã” na esperança de conseguir um emprego. Mas Tilly Norwood não é uma pessoa real, é gerada por IA, criada por Eline Van Der Velden, fundadora da startup de IA Particle6, que afirma criar “conteúdos digitais” para cinema e TV.
Mas o projeto gerou uma onda de críticas depois de o site de notícias de Hollywood Deadline ter noticiado no sábado que os agentes de talentos procuravam contratar Tilly como atriz e que os estúdios de cinema estão a adotar silenciosamente conteúdo gerado por IA. A conta de Instagram de Tilly acumulou centenas de comentários irados, incluindo de alguns dos maiores nomes de Hollywood.
Foi um domingo calmo, intercalando a leitura e os banhos de sol por períodos de alguma sonolência. Também andei a regar, pois se há coisa que gosto de fazer é de regar, de preferência descalça para sentir os pés molhados.
Não tive que cozinhar: comemos restos e mais um ou outro complemento.
Ao almoço ligámos a televisão, mas não suportámos as más notícias. Bem sei que nos alienamos se nos afastarmos do que se passa no mundo. Só que se passam milhões de coisas boas mas se, no meio desse milhão, vier uma rajada de vento que levante uma telha, é nisso que os jornalistas se vão focar esquecendo tudo o que de bom aconteceu. O noticiário estava a ser uma sucessão de infelicidades, uma colecção de acontecimentos nefastos -- desistimos.
Agora à noite, depois da nossa caminhada, o meu marido quis ver o futebol, era uma final, parece que tinha que ser nesta televisão. Fui para a outra sala. Posicionei-me nos Casados à Primeira Vista. E adormeci. Não sou capaz de dizer se vi alguma coisa pois, se vi, varreu-se-me instantaneamente.
De tarde pensei que hoje poderia escrever sobre o livro que estive a ler pois, lendo aquelas crónicas, uma opinião se vai formando sobre o que é a motivação, o móbil de vida de um editor, em particular aquele que ali vai desfiando memórias, Manuel Alberto Valente. Creio que o que dali depreendo explica muita coisa. Mas ando com um espírito que não sei se é vadio, se é veraneante, se é simplesmente preguiçoso... Por isso, deixo essa conversa para outro dia. E talvez seja mesmo melhor adentrar-me mais na leitura para não correr o risco de tirar conclusões precipitadas.
À noite, geralmente depois de escrever aqui, como escrever me obriga a estar de olhos abertos, aproveito para ver alguma coisa antes de ir dormir. Nos últimos dias tenho visto o Homem com H. Dado ser sempre tarde e dado estar com sono, tenho visto pouco de cada vez pelo que ainda me falta um bocado para acabar. Mas tenho estado a gostar de mais.
Ney Matogrosso é um personagem extraordinário. E quanto mais o tempo passa mais extraordinário o acho. Há uns anos, embora gostasse muito de o ouvir, havia ali qualquer coisa que era tão extravagante que eu não sabia se era totalmente genuíno ou um certo gosto em provocar e essa dúvida levava-me a não aderir a cem por cento. Gostava, ouvíamos bastante, mas parece que ficava sempre ali a pairar a questão: ele é mesmo assim, tão superlativo e tão fora da caixa, ou há ali uma encenação que exagera o que ele é? Mas, quando evoluí, fui percebendo que isso era de somenos e que a dúvida, que era minha, não podia levar-me a olhá-lo com alguma reserva. Tinha era que aceitar sem questionar.
Ney era um bicho, um bicho extraordinário, cantava maravilhosamente, tinha um reportório também fantástico -- e tudo isso tinha que ser suficiente para gostar dele sem qualquer reserva.
E escrevi que ele era, escrevi no passado, só mesmo por burrice, pois ele está vivo, bem vivo, em forma, jovem, ninguém diria tratar-se de um octogenário. Aliás, olha-se, ouve-se e não se acredita. Afinal tantos excessos não lhe causaram danos, parece que bem pelo contrário, deram-lhe foi saúde.
Mas o filme, que tenho visto na Netflix, misto de filme e de documentário, não apenas retrata a vida de Ney Matogrosso em todas as suas dimensões, não apenas a artística mas a pessoal -- e, neste domínio, a activa e algo louca vida sexual (como ele diz, marchava tudo) -- como tem um intérprete que é igualmente fabuloso.
Reproduz o Ney de uma forma perfeita, quase assustadora de tão perfeita. Segundo abaixo se verá, Jesuíta Barbosa perdeu 12 kg para reproduzir os 53 kg que Ney tinha nessa altura, estudou os seus trejeitos, os requebros, a forma de olhar e falar.
E há algo nele que parece estar desenhado para encarnar o espírito e a carnalidade de Ney.
Ver para crer.
A quem tenha a oportunidade de mergulhar no filme, muito vivamente o recomendo. E, para abrir o apetite, aqui fica a conversa de Bial com ambos, a cópia e o original, dois homens extraordinários. E botem h nisso.
Pedro Bial entrevista Ney Matogrosso com participação de Jesuíta Barbosa | Conversa com Bial
No último Conversa com Bial (24/04/2025), Pedro Bial recebeu o icônico cantor Ney Matogrosso e o talentoso ator Jesuíta Barbosa, protagonista do filme Homem com H, cinebiografia que retrata a trajetória de Ney.
Desejo-vos uma boa semana a começar já nesta segunda-feira
Quando tinha para aí uns dezassete ou dezoito anos, não sei bem, o meu namorado da altura perguntou-me, quando fiz anos, se havia algum disco que eu gostasse de ter.
Naquela altura o conhecimento que havia -- sobre tudo mas, neste caso, sobre música internacional -- , era rudimentar face ao que hoje se passa. Hoje, com o youtube, o spotify e a internet em geral, o acesso ao conhecimento é instantâneo, praticamente universal, ubíquo. Mas, naqueles longínquos anos, os meus amigos eram muito apreciadores, havia sempre alguém que trazia discos de fora, e havia sempre festas com baile incluído, e, ou assim ou de qualquer outra maneira, eu ia minimamente sabendo sobre o que, a esse nível, se passava no mundo.
Disse-lhe que gostava do último LP do Bob Dylan. Ele ficou espantadíssimo. Não fazia ideia que eu soubesse da existência do Bob Dylan ou que gostasse dele a esse ponto. Se bem me lembro da expressão que fez, creio que terá até ficado preocupado, sem saber se conseguiria obtê-lo, em especial no prazo de meia dúzia de dias, até eu fazer anos.
Mas ofereceu-mo. Provavelmente está ainda junto dos outros LPs que trouxe de casa da minha mãe. Não sei.
O que sei é que eu gostava imenso de ouvir o Bob Dylan. Adorava. Tudo ali era desalinhado: a voz, a música, a letra, ele próprio. E eu gostava muito disso.
Do Timothée Chalamet também sou fã. Também é desmanchado e também parece ter sido tocado por um talento insólito, pouco usual. Sempre que o vejo a actuar, fico espantada. Que rapaz versátil, que capacidade de representar inacreditável. Agarra qualquer papel e, em todos eles, é fantástico. Faz sempre que fique claro que bem representar é uma arte. Ainda não o vi a representar o Bob Dylan mas quem viu diz maravilhas.
Quanto a Anderson Cooper já aqui o trouxe muitas vezes: gosto imenso dele. É um repórter e um entrevistador extraordinário, talvez o melhor. Não há reportagem ou entrevista que ele faça que não seja irrepreensível, memorável ou quase.
Por isso, a entrevista que conduz com o Timothée Chalamet a propósito da sua interpretação do Bob Dylan é um prazer.
Timothée Chalamet: The 60 Minutes Interview
“A Complete Unknown” actor Timothée Chalamet, known for “Dune,” “Wonka,” and “Call Me By Your Name” grew up wary of acting. He explains why and how he ended up making movies.
"60 Minutes" is the most successful television broadcast in history. Offering hard-hitting investigative reports, interviews, feature segments and profiles of people in the news, the broadcast began in 1968 and is still a hit, over 50 seasons later, regularly making Nielsen's Top 10.
Em tempos que já lá vão... deu que falar. Quando nos encontrávamos havia sempre alguém que perguntava se já tínhamos visto a Emmanuelle...
Não que a coisa fosse verdadeiramente escandalosa mas, enfim, na altura era novidade.
Só vi vários anos depois de já toda a gente ter visto e nunca achei que fosse a última batata a sair do pacote.
Mas, de qualquer maneira, a Sylvia Kristel tinha aquele arzinho entre o inocente e o levemente a poder tender para o depravado que apimentava as imagens e trazia alguma graça.
Do que agora vejo nesta nova versão, parece-me a modos que pãozinho sem sal. Mas, claro, posso estar enganada. Cada um que ajuize por si...
Emmanuelle
Emmanuelle procura um prazer perdido. Ela voa sozinha para Hong Kong para uma viagem profissional. Neste sensual mundo urbano, ela multiplica experiências e conhece Kei, um homem que continua a iludi-la.
Com este filme, Audrey Diwan oferece-nos uma adaptação livre do romance de Emmanuelle Arsan e lança um olhar feminino sobre a busca íntima da mulher cujo primeiro nome ainda evoca uma das personagens mais polêmicas do cinema atual.
Dias felizes
[Desejando muito sinceramente que acabem os incêndios o mais rapidamente possível, com o mínimo de danos, sobretudo humanos]
Há um livro extraordinário. O Leopardo. Tem personagens fabulosos. Não sei se Alain Delon é o mais carismático. Mas é o mais bonito.
Foi ele que disse aquela frase de que tantas vezes me lembro, com vontade de contrariá-la. É preciso que tudo mude para que tudo permaneça na mesma.
Muitas vezes parece que há quem faça de tudo para que nada se altere atirando poeira para os olhos dos saloios (e não somos todos uns saloios?) para que pensemos que estão a ser desenvolvidos esforços para mudar as coisas.
Lembro-me do Alain Delon em vários filmes. Uns olhos lindos. Aqui, um tour d'horizon sobre a sua careira.
Alain Delon: a look back at the actor's prolific career
Alain Delon, the celebrated actor who starred in a string of classics such as Plein Soleil, Le Samouraï and Rocco and His Brothers, has died aged 88. Identified with French cinema’s resurgence in the 1960s, Delon lent his beautifully chiselled features to parts that included cops, hitmen and romantic leads, working for some of the country’s greatest directors
French screen star Alain Delon dies aged 88
Mesmeric and beautiful, Alain Delon was one of cinema’s most mysterious stars
Em 2029 teve um AVC e tudo mudou. Quando uma vez o vi, lembrei-me do meu pai que, quando percebeu que não voltaria à vida que tinha antes, dizia que queria morrer. Alain Delon também o dizia.
Não me lembro se a primeira vez que a vi foi no Kramer vs Kramer ou se foi em A amante do tenente francês. Sei que, desde sempre, fiquei fascinada com a sua capacidade de encarnar personagens, sempre com uma intensidade tal que parece que ela é os personagens que representa. Mas, ao mesmo tempo, parece haver nela uma leveza extraordinária, uma graça, uma espontaneidade. Podem ser exigências díspares, pode ser necessário ser o oposto do que foi na última vez mas, em todos os seus papéis, ela está inteira, de corpo e alma.
E agora que estou a escrever, lembrei-me do The deer hunter (que em Portugal acho que era 'O caçador') que creio que também foi dos primeiros. Ou em Manhattan?
Lembrar-me-ei sempre dela no pungente A escolha de Sofia ou no terno e romântico As pontes de Madison County ou no maravilhoso Africa minha ou no divertido O Diabo veste Prada. Ou a fazer a incrível Margaret Thatcher na Dama de Ferro.
E noutros.
Além disso, Meryl Streep, 75 anos feitos esta semana, não é apenas um nome grande do cinema (e também canta...): ela tem sabido usar o seu prestígio para divulgar causas como a da democracia e da cidadania informada ou a dos direitos das mulheres no cinema e não só.
O vídeo abaixo mostra-a em diversas actuações e numa gostosa entrevista.
(Dá para pôr legendas, claro, mas, neste caso apenas daquelas geradas automaticamente o que, já se sabe que, por vezes, são sai lá muito bem)
Meryl Streep: "The Many Meryls" | 60 Minutes Archive
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Enquanto ando, não resisto a ir apanhando mais uns pezinhos de orégãos. Tão bonitos. Hoje até me lembrei de que se um dia voltar a casar-me poderei levar, como bouquet, um molho de orégãos (e, no copo de água, servia caracóis, claro).
Já agora um mistério. O meu marido, quando andou a caminhar de manhã, encontrou outra vez um esquilo. Estava a andar. Por aí, começa a ser normal. Mas diz que, quando ia a passar ao pé de uma casinha de arrumos que temos cá em cima, não muito longe da casa, ouviu um barulho e, quando se virou, viu o vulto de um bicho grande que se enfiou no meio dos arbustos. Diz que lhe pareceu maior que esquilo ou gato mas não conseguiu perceber o que era.
Foi numa altura em que o nosso cãobeludo de guarda estava em casa pelo que não houve perseguições.
Resta saber, pois, que bicharada por aqui anda.
Hoje, por exemplo, estava a cozinhar e no tronco da figueira que está à frente da janela passeava-se um animal que parecia vindo dos Galápagos, nem sei se seria lagarto, se big lagartixa esbranquiçada e escamosa com umas patas de impor respeito. Ou, quando ia lá em baixo, senti o que me faz arrepiar, uma bicha a rabiar no chão, ondulando: uma cobra.
Em dia de dúvidas e perplexidades, movo-me para um território mais seguro. Dois grandes, um ainda jovem, outro maduro (maduro mas não a cair de maduro, calma...), numa gostosa conversa.
Está legendado.
Timothée Chalamet & Martin Scorsese Have numa conversação épica | GQ
It's the pairing of a lifetime and Timmy brought notes. Our newest GQ cover star Timothée Chalamet sits down with legendary director Martin Scorsese for an epic conversation. From their collaboration on new Blue de Chanel fragrance campaign to "Killers of the Flower Moon" and the death of "mainstream," the native New Yorkers are equally in awe and inspired by one another during this interview.
Penso que a primeira vez que vi Meryl Streep deve ter sido em Kramer contra Kramer. O filme era muito bom e a Meryl e o Dustin Hoffman tinham um desempenho também muito bom, tocante.
Tenho ideia que o vi numa salinha pequena que creio que havia na estação dos Restauradores, lá em cima.
Tudo tão longínquo que chego a duvidar da minha memória.
Pode acontecer que já a tivesse visto antes em Deer Hunter (que não me lembro se vi no S.Jorge ou noutro cinema, ou em Manhattan (que creio que vi no Estúdio, que penso que funcionava no Império -- creio que o Satélite era no Monumental). Que vi estes filmes vi mas não sei estabelecer a sequência.
Mas a cronologia aqui é irrelevante. O que me interessa é que fiquei logo rendida ao talento dela.
Por essa altura, mais coisa menos coisa, também fiquei maravilhada com A Amante do Tenente Francês, ela e Jeremy Irons.
Mas depois veio A Escolha de Sofia. Já tinha lido o livro e tinha ficado impressionadíssima. Por isso receei ver o filme. Mas fui ver. E não vim decepcionada. De tal forma que agora, se ouvir falar n'A escolha de Sofia, é em Meryl Streep que imediatamente penso.
A quantidade de filmes em que a vi e em que sempre a achei extraordinária não sei dizer.
Um em que imediatamente penso quando quero pensar num filme inesquecível é o Out of Africa e, aqui, também, o filme é indissociável dela. Magnífica.
Como pessoa, do que tenho visto, sempre conseguiu manter-se normal, sempre conseguiu manter-se afastada do 'estrelato', nunca a vi deslumbrada.
É extraordinário como ela consegue absorver de tal modo a personagem que tudo flui tão naturalmente que parece que ela, Meryl, se dilui. E isso acontece em qualquer registo. As mulheres que ela representa em As Pontes de Madison County ou em O diabo veste Prada não poderiam ser mais diametralmente opostas. E, no entanto, parece que são pessoas que existem de verdade e cuja existência se justifica de per se, encarnações verídicas de Meryl.
Depois de um domingo maravilhoso, em família, um domingo ameno, com um sol afável, as buganvílias a cobrirem-nos de cor, os pássaros a voarem e a cantarem no meio das flores, apetecer-me-ia pôr-me para aqui a falar de cada uma das pessoas que aqui hoje estiveram, de como me sinto feliz por elas. Feliz, abençoada, agradecida. Mas temo repetir-me e, por isso, hoje vou à boleia da sugestão do Youtube que me mostrou os vídeos que partilho mais abaixo, com excertos de uma entrevista já com alguns anos mas que é bastante actual pois tal como Meryl Streep é intemporal, também as suas palavras o são.
Mas, antes, apetece-me rever os trailers de alguns dos seus filmes maiores.
A fotografia lá em cima é da autoria de Annie Leibvovitz.
Temos todos em nós vários preconceitos. Ninguém lhes escapa.
Um deles é que uma mulher bonita dificilmente é muito inteligente. Dá ideia que a malta pensa que, no momento da criação, há um número limitado de atributos positivos para distribuir. Ou bem que vão para a beleza física ou bem que vão para os neurónios.
Simetricamente, há o preconceito de que as inteligentes pouco devem à beleza.
Claro que isto se aplica a ambos os sexos mas, reconheçamos, maioritariamente às mulheres.
Inclusivamente a coisa refina a nível de vocações. Não sou de ciúmes mas devo referir que, quando andei tomada de amores por um candidato a engenheiro, não me preocupava nem um bocadinho com os retiros em trabalhos de grupo com as colegas de quem ele era muito amigo pois tinha a ideia que as engenheiras eram, por definição, feias, mal jeitosas, pouco femininas.
Mesmo a nível profissional voltei a encontrar esse absurdo preconceito: para os meus colegas homens as engenheiras eram o que se sabia. Giras, giras, para eles, eram as advogadas.
Disparates.
Nem beleza nem inteligência são cartão de identidade ou cartão de visita nem esses ou quaisquer outros atributos são exclusivos de grupos pois são características individuais não passíveis de generalizações.
Mas se estes preconceitos subsistem até aos dias de hoje, imagine-se há quase um século.
Se era bela, voluptuosa, sensual, então jamais poderia ser cientista, inventora.
De Hedy Lamarr disse o realizador Max Reinhardt, em 1930, que era a mais bela mulher do mundo.
Diz-se que as suas feições perfeitas, a tez de veludo, os olhos grandes e claros e os lábios bem definidos serviram de inspiração para a Branca de Neve e para a Cat Woman.
Não cantava nem dançava mas isso não a impediu de deslumbrar no cinema, claro.
Hedy Lamarr no primeiro nu integral do cinema
Hedy Lamarr na primeira cena de orgasmo em cinema, também no filme Êxtase
Presos à sua beleza, à sua desinibição e ao erotismo que se desprendia dos seus movimentos e expressões, ninguém prestou muita atenção à sua invulgar inteligência, um QI próximo do de Einstein.
Quando chegava a casa, a sua mente, que fervilhava, dedicava-se a encontrar soluções tecnológicas para alguns dos maiores problemas da altura: os que se relacionavam com a guerra que atormentava o mundo.
Traduzo (às três pancadas, com o google translator como acelerador):
Quando os Estados Unidos entraram na Segunda Guerra Mundial após o ataque a Pearl Harbor em 7 de dezembro de 1941, a atriz resolveu que haveria de inventar uma arma capaz de fazer vencer a guerra ao seu país adotivo. Ela lembrava-se das conversas do ex-marido. Sabe que os mísseis da Marinha dos EUA são facilmente rastreados pelos U-Booote alemães porque eles comunicam-se com o expedidor por meio de uma onda de rádio. Com a ajuda de seu amigo, o compositor vanguardista George Antheil, Hedy imaginou mísseis equipados com outro sistema de transmissão de dados, onde apenas o míssil e seu remetente saberiam a série de frequências utilizadas. Para os U-boote, essas mudanças pareceriam aleatórias, tornando-se-lhes impossível acompanharem o progresso das máquinas americanas. Hedy Lamarr e George Antheil conceptualizam assim um princípio de transmissão fundamental em telecomunicações: a dispersão de espectro por salto de frequência.
O exército aceita receber a dupla de acrobatas, mas não os leva a sério... Bem, pelo menos não antes da crise dos mísseis cubanos em 1962! A partir da década de 1980, a sua invenção permitiu o desenvolvimento do GPS, Wi-Fi e Bluetooth. Quando Antheil morreu em 1959, Hedy Lamarr permaneceu sozinha, cercada pelo prestígio de sua criação. Em 1997, aos 83 anos, recebeu o prémio Electronic Frontier Foundation. Hoje, a encarnação da venenosa Dalila no inesquecível filme de Cecil B. DeMille tornou-se a madona fatal dos geeks. E a santa mãe do wi-fi.
Não. Nada. Não há nada a dizer. Nada. Nem antes, nem durante nem depois. Ela, Boris, Kwasi Kwarteng, outros que tal. Nada. Figurantes de uma tragédia que tem um nome: Brexit. E que tem um actor principal, que actuou na sombra, que criou as condições, que financiou, que engendrou, que manipulou, que mexeu os cordelinhos. E actores secundários que usaram ferramentas proibidas, que estudaram as motivações profundas, que exploraram os medos, que brincaram com a ignorância, que pagaram.
E os britânicos votaram sem saber no que estavam a votar. Não perceberam o logro. Deixaram-se enredar na perigosa e imprevisível trama do logro.
E agora ninguém consegue gerir esse logro. O logro é ingerível. Cai um ministro, cai outro, caem às mãos cheias, e cai um primeiro-ministro, cai outro, cai outro, repescam os que caíram. Uma farsa, um absurdo, um caos.
E o rei assiste impotente porque está lá apenas para ser o public relations do reino, para ajudar a vender canecas e bandeirinhas, não para tomar decisões relevantes.
Por isso, nada a dizer da pobre coitada da Liz, nada a dizer do bacano do Boris, nada a dizer do James, nada a dizer de todos os que já se demitiram e dos que ainda se vão demitir. A única coisa com graça nisto do Brexit foi o pai do Boris se ter naturalizado francês.
Um dia aparecerá um político a sério, o Brexit será revertido, as coisas voltarão a entrar na normalidade. Só não sei quando. Talvez quando o actor principal, o diabo que actua na sombra, tiver virado pó.
Até lá, que viva o outono que, finalmente, parece estar a aceitar deixar de ser verão. Que traga chuvas, aragens, neblinas, cheiro a lareira, terras molhadas, árvores gotejantes, vontade de aconchego.
E que os tempos tragam algum presciência a quem vive ou assiste ao declínio moral que aqui e ali vai medrando nas sociedades democráticas, abertas, tolerantes, inocentes.
Olha-se e uma pessoa não pode deixar de pensar que aquilo ali, de alto a baixo, é tudo bom. É a forma como anda, é a forma como ri, a forma malandra como olha, é a voz, é aquele jeito nonchalant, são as dimensões e a respectiva proporção (embora, claro, eu só possa jurar sobre aquilo que me se tem dado a ver), é a harmonia do conjunto, é tudo. Tudo bom.
Agora anda todo fashionable, todo fora da caixa, todo a deixar toda a gente de olhos postos a ver se percebe. Eu só vejo por fotografia e, para dizer a verdade, tentar perceber é trabalho a que não me dou pois compro de qualquer maneira. Vestido de cor de rosa, vestido de verde. vestido de saia, de chapéu ou sem chapéu, é sempre o máximo. Despido também deve ser.
E depois tem aquela coisa: os homens interessantes melhoram com a idade. Tudo neles ganha um carisma e uma graça que parecem íman. Não dá para explicar. Os homens-meninas com a idade ficam flosôs, totós, umas gatinhas, mas os homens-homens, pelo contrário, encorpam, ganham patine, ficam com gostinho vintage, apetitosos de dar gosto.
Ele, então...
Tem 58 anos e nem imagino como estará quando tiver 70 ou 80. Um néctar, coisa premium, lindo de morrer. Só pode.
Acontece que o belo do Brad Pitt agora se saiu à cena com uma que ainda mais deixou toda a gente à nora: toma que também é escultor. E diz que é dos bons. Shockingly, Brad Pitt turns out to be a very fine sculptor. -- diz Jonathan Jones. E depois ainda tem o descaramento de pedir que o belisquem (Pinch me – I must be dreaming, diz ele). Na volta, quer é que o Brad o belisque.Como se não houvesse mais ninguém na fila. Julga que é chegar e pedir um beliscãozinho. É idoso? Está lesionado? Está grávido? Não...? Então que espere pela vez. Com cada um.
Mas só os críticos sem sabedoria podiam ser apanhados desprevenidos. Quem tem olhos de ver está fartinho de saber que o Brad é bom de mãos... Basta olhar e ver. Bom de mãos, mão de pegada. Bom de tudo. Parece que só não de dança. É pena mas, pronto, perdoa-se.
E eu, que não tenho vocação nem conhecimentos para ser crítica de arte, vejo-o na galeria, sorridente ao pé do Nick Cave ou todo gingão e a gozar o pratinho com a surpresa que está a causar, e só penso que deveria era haver um video com o making of daquelas peças, ele todo informal em casa, com sorte até todo à vista, podia ser até com uns shorts, condescendo -- uma sorte para quem visse.
Parece que fez estas peças para excomungar os fantasmas que tinha dentro dele. Não quero saber. Isso é lá com ele. O que sei é que se me sair o euromilhões vou à Finlândia buscar uma obra só para fazer uma selfie com ele. Sou realista quanto às expectativas, já me contento com uma selfie. Posso ser a única portuguesa, quiçá palop, a não ter uma selfie com o Marcelo mas, tomem e embrulhem, teria uma com o Brad, esse coisa mais fofa.
E, para quem está para aí já de nariz torcido -- os homens, todos prosa, a acharem-se melhores que ele e as mulheres a roerem-se de ciúmes e a acusarem-me de ser toda oferecida -- aqui vai um atestado que posso mostrar a quem achar que estou a exagerar. Ah estou...?