Mostrar mensagens com a etiqueta Karl Lagerfeld. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Karl Lagerfeld. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, fevereiro 28, 2019

O meu vício





Sempre ouvi dizer que os alcoólicos nunca deixam de sê-lo: conseguem é ter força de vontade para deixar de beber. Contudo, têm que manter uma disciplina férrea. Por exemplo, não podem aproximar-se do álcool pois sabem que, se abrirem uma brecha, logo a oportunidade voltará a transformar-se em necessidade e o caldo lá voltará a entornar-se. 

Com o tabaco é capaz de ser a mesma coisa. Deixei de fumar e nunca mais toquei num cigarro. Não sei como seria se abrisse uma excepção. Até pode ser que me soubesse mal e me arrependesse para todo o sempre. Contudo, não arrisco. Na altura, quando a memória estava mais fresca e os gestos mecanizados ainda inseridos na habituação, sentia a falta de levar o cigarro à boca, sentia aquela falta de, em determinadas situações, aliviar a tensão através das longas inspirações e expirações. Mas não cedi. Todos os dias, quando entro ou saio no escritório, passo por pessoas que estão num recanto ao ar livre junto à porta que separa o edifício do estacionamento. Fumam. Uns estão sozinhos, meditando, soltando longas baforadas, outros estão aos pares, conversando. É inevitável que aspire algum do fumo que paira no ar. Não me desagrada aquele cheiro embora me incomode um pouco a perspectiva de estar a inalar ar poluído. Nunca me senti tentada a pegar num cigarro e matar saudades. Penso que, se calhar, nunca fui verdadeiramente viciada no tabaco. 

Tenho ideia que isto de uma pessoa ter vícios é coisa genética, uma propensão para se ficar agarrado e, se não for isto, é aquilo. Uma adicção, uma tendência inelutável para a dependência.


E é isto que sinto com os livros. Sei que, para mim, a solução é não me aproximar das livrarias. Sei que, estando eles por perto, caio na tentação, cedo ao vício.

Penso que talvez seja como com os cigarros: eu dizia e sentia e tinha a certeza de que no dia em que decidisse deixar de fumar o conseguiria e que seria para sempre. Só que esse dia levou trinta anos a chegar. Talvez o dia em que ficarei indiferente aos livros ainda esteja para chegar.

Mas reparem nos meus mixed feelings em relação a isto. Parece que digo uma coisa e o contrário. Não consigo ter certezas. E isto porque com os livros não consigo ter opiniões muito racionais e, na verdade, não tenho claro que esta dependência seja demolidora para mim e que fará sentido cortar de vez com a vontade de ter novos livros.

Quando comprei as últimas estantes e reorganizei a biblioteca, deixei aqui, ao meu lado, fora das estantes, uns quantos livros, uma meia dúzia. Entretanto, já se transformou numa pilha bastante jeitosa e, um dia destes, ficará arriscado continuar a pôr os novos em cima dos outros.


Andei de umas para outras, hoje, com música boa na antena 2 enquanto conduzia, momentos tranquilos. Mas, nos entretantos, cenas agitadas, aquele stressezinho macaco que só não é maior porque, com o tempo, aprendi a cultivar um saudável distanciamento. Mas, à hora de almoço, tombei. A culpa foi do Jorge Carreira Maia que veio trazer notícia de um livro novo de Mathias Enard. Em tempos o Fala-lhes de Batalhas, de Reis e de Elefantes tinha-me cativado. Com a referência dele a este livro, fiquei curiosa. Fui à livraria só mesmo para ver, para folhear. E para ver se o tradutor era o Pedro Tamen. Pedro Tamen a traduzir um livro é atestado de coisa boa.

Fui. Não estava no escaparate. Procurei na estante, na devida ordem alfabética. Lá estava. Fui conferir. Não escondo a decepção. Não era Pedro Tamen, era Ana Cristina Leonardo. Fiquei na dúvida porque nunca avaliei a qualidade dela nesta vertente mas, enfim, muito má não haverá de ser, sosseguei-me. Ou seja, resolvi apostar. E jurei: só este.


Mas, ainda assim, já que lá estava, até pareceria desconsideração não prestar uma atenção ao que por ali chamasse por mim. Mas sempre bem comportada, selectiva, superior -- ceder a tentações nem pensar. Com a Bússula na mão, melhor orientada não podia estar.

Até que vi Uma lágrima que cega. Na contracapa: 'o vinho sem ti é água' e 'sem ti a água não arde'. Senti que começava a salivar. Folheei. Aquela coceirinha boa da atracção. Casimiro de Brito armado em prosaico. Peguei. É só mais este.

Depois vi o Kaiser icónico em black e white. Paris Photo by Karl Lagerfeld. Folheei. Bom demais. Impossível deixar para trás. Uma coisa mesmo na base do dever.

Já com os três livros, pensei que tinha que fechar o espírito e sair de lá. Mas, no caminho, ainda um outro: Photographers A-Z. Conferi. Útil demais.

E, portanto, aqui os tenho comigo e tenho estada encantada como se tivesse ganho o melhor presente do mundo, como se tivesse descoberto um tesouro raro com jóias muito preciosas. Livros tão bons. Uma companhia tão boa, tão gratificante, uma sensação tão boa. Uma fotografia especial, uma conjugação de palavras tão perfeita.


Penso: se isto é vício, porque é que não me curo? Porque é que não me arrependo?

Mas não sei responder. Quando era ainda muito pequena descobri a emoção que pode vir dos livros e essa emoção não se esbateu ao longo do tempo. É a mesma. É maior.

E é total: não são apenas as palavras ou as imagens. É também a elegância da paginação, é o toque do papel, é o cheiro do papel impresso, é a beleza da capa. É a infindável magia das palavras mas é também o prazer de ver, de tocar o objecto livro.

Gostava de poder partilhar convosco um pouco destes livros mas não é fácil pois um livro é um todo, não um excerto. Se fosse mais cedo talvez, apesar de tudo, o fizesse mas, assim, não o farei.

São caros os livros e percebo bem que, quem não tem muitas posses, não pode dar-se ao luxo de gastar tanto dinheiro neles. Mas depois penso: quantas pessoas não podem comprar livros mas conseguem ter dinheiro para os cigarros? E não faço ideia mas imagino que devem estar bem caros. Portanto, vício por vício talvez seja preferível este dos livros: não faz mal à saúde e fico com preciosidades ao meu dispor.


----------------------------------------------

As fotografias fazem parte das melhores do The Sony World Photography Awards 2019

E a música é de Max Richter - Mercy 

--------------------------------------------------------------------------------------

Um dia feliz a todos

quarta-feira, fevereiro 20, 2019

Lagerfeld






Não sou dada a obituários, epitáfios ou adágios. Dito assim até parece tolice pois a beleza estética pode sobrepor-se ao sofrimento que, supostamente, lhes esteve subjacente e eu, escusaria de me repetir, prezo bastante a estética da beleza. Mas a verdade é que prefiro celebrar a vida a entregar-me a despedidas. 


Mas tantas vezes Lagerfeld aqui me fez companhia, tantas vezes o seu traço se estampou nas peças Chanel que aqui trouxe que hoje não poderia deixar de o ter aqui comigo. Há pessoas cuja obra transcende a sua própria vida e Karl Lagerfeld com os seus pecadilhos (como, por exemplo, o da fuga ao fisco), sendo ele mesmo um personagem icónico (aka Logofeld), deixou uma obra tão magnífica que lhe sobreviverá por muitos e bons anos.


Não foi só a moda -- mas, a moda, senhores, que imensas, belíssimas, intemporárias e diversas peças ele concebeu!

Mas foi também a fotografia. Um equilíbrio sempre tão perfeito entre a subtileza e a sensualidade, entre o claro e o escuro, entre o clássico e o contemporâneo.


E as suas histórias, vídeos criados e realizados por ele. A fantasia e a elegância suspensas no tempo.


E as suas casas. Obras de arte. O apartamento de Paris, a maravilhosa casa de Hamburgo rodeada de verde.

Olha-se e pensa-se: que exagero. Mas é um exagero tão elegante, tão bonito.


E os livros. Milhares de livros. Li: trezentos mil livros. Duas bibliotecas imensas. Vi fotografias: uma loucura. Lagerfeld dizia que apenas tinha um vício: o dos livros. Sucumbia ao vício dos livros. Dizia que um dos melhores perfumes é o de livros acabados de fazer.


Era também dono da 7L, uma livraria em Paris, e de uma editora dedicadas à arquitectura, à fotografia, à arte em geral.

Mas a moda... Fosse couture, haute couture, fosse streetwear, fosse quase prêt-a-porter, todas as suas criações resultavam sempre perfeitas, sempre fascinantes. 


E os seus desfiles! Sempre um acontecimento, sempre uma total surpresa. Um criativo absoluto. Tendo sabido manter o classicismo, a irreverência e o look de mulher independente, Lagerfeld conseguiu aliar a matriz original da fundadora, Coco Chanel, ao permanente devir do air du temps. 

Como bem é sabido por todos quantos por aqui me acompanham, sou grande admiradora dos produtos Chanel. Posso não ter poder de compra para poder fazer o gosto ao dedo mas olhar e admirar não custa dinheiro.


Mas Lagerfeld era também um homem que se impunha pela indiferença à opinião alheia sobre si próprio, alguém que, depois de perder o amor da sua vida, se habituou à vida a sós com a sua muito amada Choupette.


A fama da sua língua afiada vinha de longe e há inúmeras frases que lhe são atribuídas. Escolhi algumas para aqui colocar mas há dezenas, algumas bem divertidas.

Ser feliz?
Não, não sou tão ambicioso.

Gosto de saber, saber tudo. Estar informado.
Sou uma espécie de porteira universal, não um intelectual.

A juventude é um clube em que todos os membros serão excluídos,
um dia ou outro

A personalidade começa onde acaba a comparação

Mort de Karl Lagerfeld : icône pop et planétaire



Forever

quarta-feira, junho 27, 2018

Se tivesse uma casa destas até era capaz de ir aprender a tocar piano





Pois muito bem, sim senhores. Agora que já partilhei convosco a forma correcta de uma mulher se perfumar, a qual inclui a ultilização de um esbelto aplicador humano, posso passar para assuntos mais sérios.

Por exemplo.


Hoje fui confirmar se já tinha jogado o euromilhões e tão desejando que ando que voltei a jogar no totoloto. Imagine-se. O ponto a que desço quando quero deveras uma coisa. Só falta mesmo humilhar-me numa estação de serviço, pedindo, entredentes, uma raspadinha.

Mas é por nobres motivos. Juro. Se soubessem a ideia que anda aqui a roer-me a consciência. Uma loucura. Só que eu até tremo quando tenho vontade de loucuras.

Mas de coisas secretas eu não falo aqui.

Na volta, quem aqui me lê acha que me conhece muito bem. Conhece, conhece... Não quero desiludir ninguém mas a verdade é que nem pouco mais ou menos O que eu faço durante a maior parte do meu tempo útil nunca falo aqui. Isto só para dar um exemplo. E, no entanto, aquela lá de que nunca aqui viram um lampejo que fosse sou também eu.
E as coisas sigilosíssimas que me ocorrem? Zero. Nunca falo delas. São coisas cá muito minhas. Muitas nunca vêem a luz do dia. Outras vêem mas são inconfessáveis.
E há aquelas ideias peregrinas, sonhos aventureiros, loucos. Se algum dia os concretizar pode ser que conte. Mas, ainda assim, duvido. Aqui é apenas uma camada da minha realidade e nem sei definir qual. A mais profunda? A mais superficial? Não faço ideia.
E a minha vocação secreta à qual talvez um dia me dedique? Ui. Nunca aqui falei dela. Falei, sim, que a tenho. A seguir a ter escrito os meus filhos fizeram-me um interrogatório cerrado. E eu moita. Outra eu que, a existir, terá outra identidade.
Coisas assim. 
As senhoras que, nos outros dias, me vasculharam a alma perguntaram-me: 'Outras identidades? Duplicidade?'. Expliquei: 'Não. Multiplicidades. Inteira enquanto estou. No trabalho estou toda. Saio do trabalho, dispo a pele, deixo de ser. Estou com os meus, outra, inteira, não existe mais nada.' Não lhes falei mas digo agora aqui: 'No blog, inteira, aqui, sem mais nada. Mesmo que fale de outras coisas, é apenas escrita, nada mais que palavras'

Mas, portanto, dizia eu. Euromilhões. Euromilhões ou totomilhões, não faço questão da origem. Tantas coisas boas que eu poderia fazer com eles. Distribuir. Garantir um futuro bom aos meus.

Mas mais. Coisas mesmo boas. Um exemplo para os meus para que nunca esquecessem que há os outros. Deixar-lhes responsabilidades sobre os outros.

Nada somos sem os outros. E disto a gente nunca se pode esquecer. 


Mas, depois, o lado caseiro dos caranguejos. Sempre a ideia de casa. Sonho muitas vezes com casas. Gosto muito de sonhar com casas. Casas com compartimentos que nascem uns dos outros, casas amplas com esconderijos, casas com espaços inesperados lá dentro. Sonho com casas que vou descobrindo enquanto o sonho dura.

E, mesmo quando acordada, gosto de ver casas. 


Por exemplo.

Agora que estou aqui a preguiçar, ouvindo música boa, sentindo a aragem fresca da ventoinha, fui dar a uma casa muito linda. Tão linda. Gostava de poder ter uma casa assim. Tem espaço, tem livros, tem arte, tem cor, tem luz.

No outro dia disse ao meu marido: se me saísse o euromilhões comprava um terreno grande e fazíamos uma casa grande para podermos morar juntos. O meu marido deu um salto. Nem pensar, estás maluca, havia de ser bonito. Não sei se expliquei: talvez não uma casa única mas com três alas. Ou três casas ligadas por um pátio. Mas reconheço que talvez as coisas, para correrem sempre bem, precisem que cada um tenha o seu espaço de liberdade. Talvez melhor uma casa linda como esta e umas alas para quando lá quisessem ficar, onde pudessem estar no convívio uns com os outros. Eles gostam tanto de estar uns com os outros. E eu gosto tanto que eles gostem tanto uns dos outros. 


....................................

A casa cujas fotografias se podem aqui ver está à venda. É na Alemanha e pertence a Karl Lagerfeld. Vejo na Harper's Bazaar: You Can Now Buy Karl Lagerfeld's Stunning German Villa for $11.65 Million e só tenho pena que não me fique em caminho. Claro que tem muita relva para aparar, muito pó para limpar, muito chão para varrer -- mas isso até me parecem qualidades. O pior mesmo é não ser para o meu bico porque os ditos euro ou toto ou raspadinho-milhões ainda cá não cantam. Isso é que é uma pena. E, sim, é verdade, para não fazer o papelão dos novos-ricos que enfeitam a sala com um piano que ninguém lá em casa sabe para que serve, eu até ia aprender a tocar. Cada sonata...

............................................

Enquanto isso, vou mas é descer e pôr mais um bocadinho de perfume. Bora daí também.

..............................

quinta-feira, setembro 07, 2017

Mulheres preparadas para o Outono


Continuo arredada do mundo mas, num ou noutro rápido vislumbre aquando da descida à vida na cidade, apercebo-me que as lojas estão já com a roupa de Outono. Camisolas, casacos, agasalhos. Eu que ainda, na prática, não tive férias de verdade e que, apesar dos calores que tenho penado sem poder mergulhar para me refrescar a sério, ainda alimento a esperança de me banhar no oceano, não consigo sintonizar as minhas aspirações com estas montras, cabides e expositores com cores e texturas que já esqueceram a época estival.

Modelo de Karl Lagerfeld para a última colecção Chanel

Gosto do Outono. Traz aconchego e, para mim, é no Outono que começa a saison que traz as verdadeiras novidades. Tal como, em menina, ansiava pelo primeiro dia de aulas para conhecer colegas novos, professores novos, matérias novas, agora a sensação é a mesma. Tenho vontade de mudar de página. Continuo igual ao que sempre fui: sobretudo interessada pelo que não conheço, pelo indefinido que aí vem. E, ao contrário de muitas pessoas que conheço e que, no momento de se atirarem para a piscina, vacilam e acabam por não ousar novas situações, eu é à maluca. Primeiro atiro-me e, só depois, avalio os riscos do lugar para onde me atirei e como hei-de de lá sair.

Já estou a receber convocatórias para reuniões que antecipam fracturas, já me telefonam a saber se já há novidades para se avançar para a fase do 'go' e eu, aqui a querer manter-me afastada de projectos e grandes deliberações, a sentir que o mês de Setembro parece querer afastar o tempo de férias e levar-me para dentro da realidade. Mas ainda não, ainda não...

Entretanto, deleito-me a ver a moda alta-costura para o Outono/2017.


The Best Fall 2017 Haute Couture Looks | Harper's BAZAAR x Paris


_____________

Não era este o vídeo de que ontem falei e que tenho para mostrar. Mas estou levemente fora de órbita. Tenho mails em atraso, posts em atraso, aprovações e outras cenas em atraso e uma certa falta de energia para me atirar a tudo isso. Portanto, vou andando por aqui na flanação.

Mas me aguardem.

________________________

domingo, agosto 21, 2016

O elefante e a estaquinha.
- E o que é necessário para uma vida completa?








Uma vez chegou a um circo um novato assistente que ficou admirado ao ver um grande elefante preso somente a uma corda amarrada em uma estaca fincada ao chão. Obviamente o elefante teria força de sobra para se livrar daquilo, se quisesse; assustado, o rapaz perguntou aos mais experientes se eles não tinham medo do animal escapar. Depois de rirem da inocência do rapaz, um experiente domador explicou que isso seria impossível, pois o elefante “aprendeu” que não poderia fugir. Vendo a expressão de dúvida ainda no rosto do jovem, o domador contou que quando o elefante ainda é pequeno, eles o amarram à mesma corda e estaca. O pequeno elefante tenta se soltar com toda sua força, mas não consegue. Depois de grande, o elefante não tenta mais por ter “aprendido” que não consegue, transformando dessa forma, a corda e a estaca em uma prisão perpétua independentemente do seu tamanho.

Esta parábola do elefante é contada para nos falar de força e o quanto desconhecemos nossa capacidade. Porém, se pensarmos por outro ângulo, esta metáfora tem muito a nos ensinar sobre a aprendizagem.

Assim como o elefante da história, muitas vezes aprendemos coisas e não questionamos sobre elas, elas ficam no automático e simplesmente não refletimos sobre aquilo. Em nosso caso, a estaca e corda podem ser elementos mais enraizados e subjetivos, coisas que são ditas desde que somos pequenos e agem como um “adestramento”, decidindo inclusive sobre nossas necessidades e desejos. 


(...)
(...)

Mas como saber o que é necessário para uma vida completa? Quais caminhos nos levam a experiências saudáveis e frutíferas? Talvez exista uma resposta. Um estudo chamado de Estudo de Desenvolvimento Humano, de Harvard (provavelmente o maior estudo em duração do mundo), analisou por 75 anos a vida de 724 pessoas para identificar o que faz a vida valer a pena. Ele observou escolhas e aplicou periódicos questionários, incluindo para as pessoas que conviviam com os participantes. Este estudo pioneiro ainda está em curso, conduzido pela quarta geração de pesquisadores e com apenas 60 das pessoas iniciais ainda vivas. Porém, hoje ele abrange também os mais de 2 mil filhos destes candidatos e prossegue gerando uma rica fonte de informação.

Neste estudo, dois grupos foram criados: um formado por pessoas da alta sociedade e outro com pessoas de famílias bastante desfavorecidas. A mensagem central das centenas de páginas que este estudo nos trouxe é somente uma (para ambos os grupos) e bastante simples: “Bons relacionamentos nos mantêm felizes e saudáveis”. Ponto-final. Não é o dinheiro, nem o sucesso na carreira, nem a fama que traz a felicidade, mas sim a valorização das pessoas ao seu redor. O estudo afirma que as conexões sociais são extremamente benéficas à saúde, já a solidão, mata – pessoas solitárias têm qualidade de vida inferior e uma degeneração biológica mais acelerada.

(...)

__________

As fotografias foram feitas este sábado in heaven - as 3 primeiras fora e as 2 últimas dentro de portas (o tempo que passa, a sombra, a luz).

Lá em cima é a Opéra National de Paris com Brahms-Schönberg Quartet numa coreografia de Balanchine e com fatos e decoração concebidos por Karl Lagerfeld.

O texto é um excerto de Aprender a desaprender de Ahas para a Obvious, que se apresenta dizendo que é escritor mas que se prostitui como redator.




________

E desçam, por favor, para irem de visita a umas certas sereias que saíram da Odisseia directamente para a Expo. Coisas de Homero que teima em manter-se vivo.


quinta-feira, maio 05, 2016

Chanel em Cuba!
Ah... a doçura dos frutos proibidos


Gisele Bündchen, o rosto do Chanel Nº5 e uma eternamente fiel à casa

Destaca-se da mediania não quem faz tudo certinho mas quem faz diferente e quem tem a intuição de captar l'air du temps. A casa Chanel tem essa capacidade no seu DNA, digamos assim.

Carros antigos com os motoristas vestidos a preceito para transportarem os convidados

E com Karl Lagerfeld essa capacidade de inovar, essa capacidade de ver qual a direcção a seguir para começar a trilhar o que irá virar tendência, isso está bem marcado.

Karl Lagerfeld, sempre uns passos à frente

Karl Lagerfeld é, no mundo da moda e da arte de bem vestir, um génio. Também tem obra na fotografia e na realização de vídeos mas eu destacaria a sua importância sobretudo na criatividade absoluta ao serviço da moda, no gosto pela ousadia, na irreverência de quem mantém a juventude de espírito.

As modelos dançam no fim do desfile

E não são apenas os desenhos das roupas, as cores, o cuidado da sua confecção: é também o look em geral, o cabelo, a maquilhagem -- e é o tom que imprime nos desfiles, a forma de lhes dar corpo. 

Por altura das manifestações de indignados, o desfile assumiu a forma de uma manifestação, as modelos, no final, com cartazes, passo de protesto. Agora que Cuba está a abrir ao mundo, o desfile é lá, na rua, com as boinas revolucionárias, as cores, a alegria contagiante dos cubanos reflectida na insolência e boa disposição dos modelos e da forma como desfilaram no Paseo del Prado.


E é ter o neto de Fidel, Tony Castro, a desfilar.

Karl Lagerfeld: chapeau.




Cuba e o glamour Chanel. Quem diria?

Muito bom.
___

Permitam-me um convite: desçam até aqui para verem se eu e a Rosa não temos olho para o negócio. Digam lá se não está aqui um extraordinário nicho de mercado.


sexta-feira, fevereiro 05, 2016

Eu e a moda -- e a alta-costura Chanel, colecção primavera/verão 2016



Não serei a pessoa mais indicada para falar de moda. Embora goste de me vestir com um certo cuidado, não gosto de gastar muito dinheiro em roupa. Não vou atrás de modas, prefiro as coisas de que gosto e que não se vêem por todo o lado. Por exemplo, se as franjas estão na moda, certo e sabido que não uso nada que as tenha. Se o xadrez é o hit da saison, mais do que certo que eu lhe passo ao lado. 

Não me importo -- e, aliás, gosto -- de misturar cores, comprimentos. Gosto de assimetrias e de cores sobre cores e de écharpes. Não me ensaio nada para usar caças estampadas de um tecido atípico e conjugá-las com blusas clássicas, lisas. Gosto de articular a roupa com os sapatos e com os brincos, colares, anéis, pulseiras (geralmente tudo bijuteria e com conta, peso e medida).

Anna Wintour,
editora-chefe da Vogue americana
(que inspirou a personagem que Meryl Streep
interpreta em O Diabo veste Prada)
Dantes, quando não tinha este ofício nocturno do blog, chegava a pegar em blusas normais e fazia-lhe alguns bordados com pedras, tornando-as em peças verdadeiramente diferentes -- isto muito antes de se verem à venda blusas com pedras no decote. 

Como não gosto de usar roupa grossa porque sou encalorada, uso geralmente blusas fininhas, depois um casaquito fino, depois outro igualmente fino mas mais grossinho que o anterior. Este geralmente fica no carro e o outro salta mal entro no gabinete. Geralmente tenho também no carro uma capa de lã ou coisa do género para, quando chego à noite e vou fazer uma caminhada sem ir a casa, vestir tudo, umas coisas por cima das outras (tenho uns ténis no carro). É assim que me sinto bem. 

Gwyneth Paltrow
Nas noites frias, o meu marido vê-me assim e pergunta se acho que está tempo para andar tão mal agasalhada, casaquitos finos, um por cima do outro, e uma capa de lã ou um casaco geralmente de meia manga, de lã, por cima. Digo-lhe que sim, até porque ponho uma echarpe de lã quente à volta do pescoço e sinto-me logo aconchegada.

Portanto, não sou dada a últimos gritos da moda, a roupa de marca, a delírios fashion. Prezo o meu gosto pessoal que é desconstruído e descontraído.

Claro que, conjugando isto com uns saltos bem altos, a coisa ganha logo um ar mais 'a sério' e já posso exercer as minhas funções sem me sentir muito diminuída ao pé das minhas colegas de escritório que levam a moda muito a sério.

O meu marido uma vez ofereceu-me um fato completo, calças e blaser, Armani. Foi comprá-lo com a minha filha. É intemporal. Surpreendeu-me e encantou-me. Jamais esperaria que tivesse tal ideia e que tivesse, por ele, tomado a iniciativa de chamar a minha filha para ir com ele escolher tal coisa. E, se bem me lembro, a minha filha contou que o pai lá entrou, olhou à volta e disse que gostava daquele. Como habitualmente, em três tempos despachou o assunto. E a verdade é que acertou em cheio. Mas eu, por mim, não me sinto minimamente tentada a gastar dinheiro numa toilette de tal calibre. Sou mais de andar a descobrir raridades e autênticas pechinchas nos fins de saldos.

Cara Delevingne, um dos ícons Chanel, com o seu cão
e com um casaquinho transparente, bordado, lindo

Agora uma coisa é certa: se um dia me saírem uns milhões no euromilhões, para além dos destinos que já lhes estão destinados, dar-me-ei ao luxo de entrar na Casa Chanel em Paris para escolher um ou outro modelito.

Além do mais, se há coisa de que gosto é de ver o acto de costurar. E, quando a costura é arte (como é o caso da alta-costura), então é um fascínio.

Partilho convosco dois vídeos relativos à colecção Chanel Primavera/Verão 2016.


Vejo isto e apetece-me logo tirar ideias, desatar a aplicar coisinhas em blusinhas, pintar, bordar, pregar contas, pedrinhas, florzinhas. 

(Mas ou faço isso ou estou aqui a escrever estas coisecas, para as duas coisas o tempo não estica)





Entrevista com o mago da alta costura - Karl Lagerfeld, o sempervirens



...

Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma magnífica sexta-feira.

.........

domingo, março 15, 2015

Quando a Arte e o Artesanato se fundem


Depois das duas socorristas do post abaixo (que não se sabe que parte do corpo do banhista é que estão a socorrer), mostro-vos um vídeo que mostra bem o laborioso trabalho que está por trás da confecção das maravilhosas obras de arte que são as peças couture Chanel. Mesmo quem não seja dado a modas, gostará certamente de apreciar a beleza e a perfeição daquele trabalho.




Há algum tempo que não passo horas embrenhada bordando tapetes de Arraiolos ou bordando a ponto pé de flor sobre seda ou cetim desenhos que inventava, mas tenho saudades. Não pensava em mais nada, a minha cabeça estava toda ela entregue àquela tarefa.




Vendo as mãos delicadas que, no vídeo abaixo, manuseiam com cuidado fragmentos de tule, pedrinhas coloridas, fios, brilhos, pequenas pontas de lã, penso que devem ser felizes as pessoas que assim passam os dias. 

Chanel Haute Couture - Printemps-Eté 2015



Não referi o grande artista que está por trás de tanta beleza, o dono de Choupette 

- o grande Karl Lagerfeld.




...