Como é sabido por quem por aqui me acompanha, trabalhei mais de mil anos em contexto empresarial, seja o de empresa pública seja, maioritariamente, privada. Trabalhei com gente que nunca mais acaba e, agora, de ginjeira, consigo caracterizar toda a gente que me passa à frente.
Trabalhei com dois que, a meu ver, são cópias chapadas do Luís Neves. Em empresas diferentes e em anos desencontrados, eles não se conhecem. Mas eu conheci-os bem demais. Ambos altos dirigentes nas respectivas empresas.
Não vou entrar em pormenores mas , caso eles tenham cometido irregularidades, fizeram-nas certamente "por bem". E, de resto, já prescreveram, já foi tudo há muito tempo.
O primeiro era responsável por uma grande área que, por sinal, tinha vários pontos de risco. Sob sua coordenação, directa ou indirecta, trabalhavam muitas centenas de pessoas. A Administração da qual ele dependia, gostava genericamente dele. Consideravam que não seria um estudioso nem um inovador, nem sequer metódico e, muito menos, especialmente rigoroso. Atrasava-se nos relatórios, sabia-se que, aqui e ali, alguns procedimentos eram aligeirados, e não era extraordinariamente brilhante quando tinha que apresentar planeamentos detalhados ou justificações mais complexas. Mas resolvia todos os problemas. Nunca levava problemas para a Administração. Resolvia tudo e a Administração, na maior parte das vezes, nem sabia que tinha havido qualquer problema. E haver uma pessoa assim é um descanso. Um desenrascado. Por vezes sabia-se que tinha lá estado uma equipa da ACT e chegavam rumores de algumas situações estranhas mas ele dizia que estava tudo ultrapassado, que nem valia a pena entrar em pormenores. Sabia-se que tinha boas relações com os inspectores, que os convidava para almoçar. Era cordial, descontraído, simpático.
Outras vezes, a posteriori, ouvia-se falar em eventuais acidentes de trabalho, outras vezes ambientais. Mas ele assegurava que não, coisas de nada que os intriguistas do costume gostavam de empolar. A Administração lembrava-o que os procedimentos eram para cumprir religiosamente, que a transparência era imprescindível. E ele dizia que sim, claro.
Os seus indicadores eram sempre de excelência. Os colegas torciam o nariz, desconfiavam que ele atirava os problemas para debaixo do tapete, recorria a expedientes, encobria problemas. Mas eram suposições.
Até que mudou de funções. E aí foi o ver se te avias. O pobre coitado que para lá foi encontrou um passivo desgraçado. Situações até embaraçosas, problemas para resolver que não acabavam, os anteriores colaboradores todos a demarcarem-se do antigo chefe, tudo a vir acima.
Infelizmente, por essa altura aconteceu um problema de grandes dimensões, coisa séria, que o transcendeu. Ele foi acusado por inerência de funções mas, directamente, toda a gente acreditou que foi mais um grave acidente do que uma gravíssima negligência. Mas ele foi-se muito abaixo, adoeceu, teve uma depressão, e passou a ser uma pálida sombra do que tinha sido.
O segundo, num outro tempo, numa outra empresa, era igualmente um alto dirigente. Muito do género do primeiro. Considerado um ás, um solver, ainda se estava a começar a ouvir falar de um problema e já ele estava em campo, a resolvê-lo. Afável, simpático, bom trato. Toda a gente gostava dele. Talvez fosse das pessoas mais conceituadas da empresa. Os clientes adoravam-no, os fornecedores estavam sempre a querer falar com ele, as instituições com as quais a empresa se relacionava tinham nele o rosto operacional da empresa, os sindicatos entendiam-se muito bem com ele.
Nunca enviava relatórios e várias áreas penavam para ele dar alguns inputs de que precisavam, por exemplo, para ter orçamentos ou para se fechar as contas. Nunca tinha tempo, andava sempre em reuniões, andava no terreno, dizia que não tinha tempo para papéis.
O pior foi quando se começaram a fazer auditorias. O passivo era gigantesco. Verbas inusitadamente altas por facturar por acordos que fazia com clientes sem informar ninguém, gente que reclamava aumentos e promoções que ele tinha garantido e, como não podia ser ele a dá-los, arranjava maneira de compensar as pessoas com falsas horas extraordinárias ou falsos subsídios. Acordos com fornecedores que fazia à revelia da área de Compras, segundo ele para resolver emergências (das quais as Compras nunca tinham ouvido falar). Recurso a trabalho temporário ou a prestação de serviços sem autorização. Ou, mesmo, querer corromper quadros bem colocados em algumas organizações, segundo ele porque eram pessoas influentes que poderiam ajudar em concursos, e de que, in extremis, foi impedido, deixando-o incomodado por achar que quem o impedia era gente burocrática, sem visão.
Foi afastado de funções de responsabilidade, claro, pois a empresa não queria correr riscos de danos reputacionais. Mas muita gente na empresa pôs-se do lado dele, desculpando as múltiplas e graves irregularidades e louvando o seu espírito desenrascado
Agora quem quiser que diga se identifica ou não esta maneira de ser com a de Luís Neves.
Nas empresas em que trabalhei, no mínimo seria encostado. No governo do Montenegro, encaixa bem.
Começo por sacudir a responsabilidade pelo que é dito no vídeo que abaixo partilho. Não fui eu que o fiz e, além do mais, não tenho conhecimentos para avaliar se há rigor científico no que se diz ou se as referências filosóficas respeitam o espírito da letra de quem as proferiu.
Não tendo aqui nenhum filósofo à mão de semear, e querendo pelo menos o conforto de que o aqui apresento não seja um total barrete, submeti-o à apreciação do chatgpt. Disse-me que sim, que as referências não são inventadas nem despropositadas, ou seja, que não se pode dizer que seja uma banhada, mas que, enfim, é uma coisa na base do mais ou menos, ou seja, de facto existiram mesmo as afirmações, não são falsas as referências, mas, segundo o chatgpt, estão um pouco enroupadas à luz das tendências actuais, mormente o léxico e as preocupações, que é daqueles vídeos self não sei quê, cheios de ensinamentos e coiso e tal. Compreendido.
Seja como for, gostei. Direi mesmo: bacteriologicamente correcto ou não, a mim faz-me muito sentido. Digo mais: é daquelas que já deveria ter aprendido há anos e anos pois, se eu tivesse percebido e interiorizado isso, muitas maçadas me teriam sido poupadas.
Sei que não sou a última coca-cola do deserto, muito longe disso, mas também sei que não serei a mais burra da turma, seja qual for a turma. E toda a minha vida, toda, toda, t-o-d-a, foi passada a tentar explicar o que me parece ser correcto, a defender as ideias que acho certas, a tentar desmontar argumentos falaciosos. Um desgaste. Percebo agora a burra que tenho sido. Aliás, implicitamente já o sabia, mas agora, vendo-o assim explicitado, ainda mais claro fica.
Muitas vezes, para meu desgosto, chegava à conclusão que, em determinados meios, o que é mais apreciado é o que é mais básico, menos valioso, mais irrelevante. Já o referi anteriormente. Na minha vida profissional, várias vezes fiquei chocada ao ver que alguns projectos inovadores, revolucionários, fracturantes, verdadeiramente relevantes, eram incompreendidos e pouco valorizados enquanto alguns, que nem à categoria de projectos deveriam ascender de tão básicos que eram, acabam por ser louvados, enaltecidos e até premiados. E sempre cheguei à mesma conclusão: se quem apreciava os assuntos era gente de pouca cabeça, só percebiam os temas que eram elementares, que não requeriam nem grandes conhecimentos nem grandes discernimentos para serem entendidos. Tudo o que fosse mais complexo já era chinês para eles e, para não darem parte de fracos, preferiam mostrar pouco interesse.
Também já contei que, algumas vezes, ao ver projectos que eram apresentados como extraordinários, que envolviam investimentos de milhões, que eram divulgados em jornais de referência e que eram visitados pelo governo ou, até, pelo presidente da república, eu dizia de caras: um bluff, um fiasco, um saco cheio de nada, nunca na vida vai dar em alguma coisa, a ideia inteligente é abortar já. E, ao sustentar esta posição, era olhada de lado como uma céptica, uma pessoa do contra, alguém desalinhado, olhada até com algum temor não fosse eu falar alto de mais ou onde não devia. Desfazia-me a tentar demonstrar o que para mim era óbvio, cristalino, a tentar evitar o desperdício de milhões ou estar-se a contratar carradas de pessoas altamente especializadas para uma coisa que jamais teria pernas para andar. Nunca consegui. Custava-me aquilo, parecia-me um embuste disfarçado de ideia grandiosa, sabia que ia trazer prejuízos avultados, geral imparidades de se lhes tirar o chapéu. Fui derrotada, era a única a tentar ir contra a corrente. Quando, anos depois de milhões e milhões jogados para o lixo e de tentar arranjar novas funções para os que, para aquilo para que foram contratados, já não teriam trabalho, eu me lamentava: 'Se alguém me tivesse dado ouvidos...', um colega e amigo dizia-me: 'Sabe, tão grave como não ter razão é ter razão antes de tempo.'. Não têm conta as lutas que travei para tentar demonstrar erros, linhas estratégicas erradas, decisões sem nexo. E para quê? Para nada.
Há pessoas que não querem ouvir a verdade. Ou não a compreendem. Há que saber aceitar isso: não vale a pena tentar avisar quem não quer ser avisado. Ou tentar explicar a quem é incapaz de compreender.
Uma das que me marcou, e aqui uso o verbo marcar no sentido de chatear, mas chatear profundamente de tão estúpida que foi, aconteceu numa sessão de avaliação, ao ser avaliada por um que estava na empresa há poucos meses e que mal me conhecia, no item 'trabalho de equipa' -- área em que sempre tive pontuação máxima pois gosto de trabalhar em equipa, nunca fui individualista, acredito piamente na convergência de esforços --, numa escala de 1 a 5, me atribuiu um 3. E justificou assim: 'É muito inteligente e as pessoas têm medo de si'. Fiquei a olhar para ele certamente com espanto mas, acredito, sem conseguir disfarçar que achava que só um tipo muito burro poderia avaliar-me com um 3 apresentando tal justificação. Tive vontade de lhe perguntar se era o caso dele, se tinha medo de mim. Com o passar do tempo, percebi que tinha. Não percebia nada do que eu dizia e ficava deveras aflito, tentava desviar-se, tentava evitar-me. Quando o confrontava, eu percebia que, a ele, só lhe apetecia fugir. Como não podia, desviava o assunto, contava histórias, elogiava-se, contava-me façanhas que, para mim, eram ridículas mas que ele descrevia como se fosse o maior, tudo para não ter que se debruçar sobre o tema profissional que eu queria discutir.
Em contrapartida, sempre que trabalhei com pessoas inteligentes ou em empresas ou em momentos em que as administrações eram globalmente inteligentes, que motivante foi, que desafiante, que entusiasmante. Ou conduzir equipas de pessoas inteligentes, que bom, que bom que é.
Politicamente é a mesma coisa: quantas vezes tive discussões escusadas pois estive a tentar demonstrar a vacuidade ou a inconsequência de propostas junto de pessoas que se recusaram a ouvir os meus argumentos e que persistiam em defender posições erradas à luz da lógica e da razão.
Devia ter visto este vídeo antes. Querer demonstrar um raciocínio lógico junto de quem não é capaz de o acompanhar é como querer instalar a última versão de um sistema operativo numa máquina de escrever. Não vale a pena.
Mas vejam o vídeo e ajuízem se vos parece ou não interessante. É relativamente longo mas vale a pena. Claro que os ignorantes, que não sabem que o são, pensarão que encaixam na categoria dos inteligentes. Mas isso, já sabemos, é o costume.
É como o Trump: acha-se o maior e vá lá alguém tentar convencê-lo que as suas ideias são fantasiosas, estúpidas, ridículas. Aliás, é difícil ver e ouvir este vídeo sem pensar em como realmente se aplica a tantas situações reais da nossa vida e, em particular, da realidade política actual.
Mas, enfim, é o que é. O mundo é assim mesmo e a gente tem é que aprender a posicionar-se.
E se os filósofos a sério que por aqui passem acharem que tudo isto é uma pepineira, pois muito bem, cá estou, receptiva para aprender com quem sabe. É dizerem de vossa justiça.
Como as pessoas inteligentes lidam com as pessoas estúpidas — Schopenhauer
Arthur Schopenhauer compreendeu aquilo que a maioria das pessoas se recusa a aceitar: a lógica é impotente contra a ignorância deliberada. Neste vídeo, exploramos a filosofia implacável de Schopenhauer sobre como as mentes inteligentes se podem proteger dos efeitos psicologicamente desgastantes de lidar com pessoas irracionais, tolas e deliberadamente ignorantes. (...)
Aqui poderá aprender:
— Porque é que discutir com um tolo é suicídio intelectual
— Como utilizar o absurdo como arma, utilizando a redução ao absurdo (reductio ad absurdum)
— O método da quarentena psicológica para proteger a sua mente
— O Dilema do Porco-Espinho de Schopenhauer e o distanciamento estratégico
— A Estratégia da Submissão: Como Sima Yi derrotou um poderoso tolo
— Porque é que a sua empatia está a alimentar a ilusão deles
— Como fazer a transição da inteligência para o verdadeiro poder
Não se trata de arrogância. Trata-se de estratégia. A sua energia mental é finita. Deixe de a desperdiçar com pessoas comprometidas com a sua própria ignorância.
Referências e Pesquisa:
📚 "A Arte de Ter Razão" — Arthur Schopenhauer
📚 "Rápido e Devagar: Duas Formas de Pensar" — Daniel Kahneman
📚 "A Armadilha da Inteligência: Porque é que as Pessoas Inteligentes Cometem Erros Burros" — David Robson
Relembro que poderão optar por legendas (automáticas) em português.
Após terem, infelizmente, ocorrido mais três fatalidades por atraso na prestação dos cuidados médicos pelo INEM, o Montenegro foi ontem à AR com a sobranceria, o descaramento e a arrogância habituais tentar passar pelo meio dos pingos da chuva. Para resolver o problema, anunciou a compra de 275 ambulâncias que estariam disponíveis no Verão. Afinal, parece que os estúpidos que governam a saúde, embora alertados pelo sindicato dos técnicos de emergência médica, não perceberam que há medidas, imediatas e bem mais simples, que poderiam mitigar os problemas que originaram estas tragédias. Primeira: usar as macas que pertencem às ambulâncias inoperacionais; segunda: adquirir macas para os hospitais, para que nunca fiquem retidas macas das ambulâncias; terceira: deslocar para o sul alguns técnicos da zona norte onde "as equipas estão robustas".
Só pessoas absolutamente impreparadas, sem competência nem experiência não teriam optado por medidas tão simples que parece já terem sido postas em prática em anos anteriores. É o resultado do governo nomear dirigentes apenas pelo cartão partidário, que estão completamente desajustados nos cargos que exercem e que, pelos vistos, nem dois dedos de testa têm.
Relativamente à compra das ambulâncias, qualquer pessoa que conheça minimamente os processos de contratação pública percebe que é materialmente impossível em seis meses preparar o caderno de encargos, lançar o concurso, obter as propostas, fazer a análise das mesmas, preparar e celebrar os contratos com o fornecedor e este fabricar, equipar, testar e entregar esta quantidade de ambulâncias. O Montenegro estaria a tentar enganar os mais incautos como sempre faz. Mas afinal o Montenegro não estava apenas a tentar enganar os incautos, o Montenegro estava, como é costume, a mentir descaradamente. Estava a mentir com quantos dentes tem na boca como já fez no caso Spinumviva, com a redução de impostos, com as promessas para a saúde, com a aquisição de carros para a polícia ... . A compra das ambulâncias tinha sido decidida pelo governo do António Costa em 2023 -- o governo que não pôde concretizar a aquisição destes equipamentos devido ao golpe do ministério público. O papel do Montenegro neste processo foi apenas o de atrasar a aquisição dos veículos, assim, originando mais problemas no funcionamento do INEM.
Hoje veio o "Lentão" Amaro tentar "limpar" a mentira do chefe. Foi pior a emenda que o soneto. O "Lentão" poderá ser aproveitado para técnico auxiliar do pré-escolar, parece-me que o seu perfil se adequa à função. A forma como fala e o que diz estão adaptados a esta faixa etária. Para ministro não serve, a não ser que nunca fale em público e não tome decisões, isto é, sirva apenas de papel de embrulho. E das duas uma: ou o tipo é retardado ou despreza os portugueses, julgando que temos uma idade mental de cinco anos. A forma como tenta explicar o inexplicável dá pena. Em conclusão, a medida anunciada pelo Montenegro destinada a resolver o problema das ambulâncias tinha sido tomada em 2023 pelo governo do António Costa e o governo do Montenegro não deu andamento a esta aquisição, emperrou o processo, sendo responsável pela falta de ambulâncias e pelas as trágicas consequências que daí resultaram.
Mas o Montenegro também afirmou que mantinha a ministra. Já aqui escrevi que, na minha opinião, só um lobby fortíssimo de apoio à ministra no interior do PSD permite que ela se mantenha no cargo. No entanto, tenho para mim que qualquer dirigente que não seja burro prefere ter a gerir as áreas que supervisiona pessoas competentes, conhecedoras da área e com experiência de gestão em vez de calhaus com dois olhos que "não dão uma para a caixa". Neste caso o PM, tendo em conta os resultados obtidos, parece ter optado pelo calhau.
Entretanto, veio o Marcelo secundado pelo "Facilitador Mor," também conhecido por "Leva e Traz" dizer que é preciso o governo dar explicações para sossegar a populaça. Já chega de hipocrisia. Não é verdade, o que é preciso é apurar responsabilidades, definir objetivos e verificar os resultados. Explicações são treta para inglês ver. Poderá parecer que o Montenegro, o Marcelo e o "Leva e Traz" são burros encartados. Não são, são é cínicos e hipócritas que só pensam neles e nos votos, marimbando-se para os portugueses. Do Marcelo ver-nos-emos livres em breve, a ministra também dificilmente aguentará muito tempo, e pior parece ser impossível. O Montenegro, a ver vamos.
Quem more na margem sul está, certamente, apreensivo quanto à capacidade de haver uma atuação atempada da emergência médica em caso de necessidade. Nunca imaginei que o SNS chegasse a este estado. Será que não é de propósito para alavancar o setor privado da saúde?
Nota: espero que o Trump, tendo conhecimento do estado da saúde em Portugal, planeie uma "intervenção benigna" para fazer a extração da Ana Paula Martins. Ficaríamos finalmente livres da moça. E, en passant, mais uma observação: como é possível termos um ministro dos negócios estrangeiros que, com aquele seu ar apertadinho, consegue dizer um disparate tão grande?
Não sei se a Palestina é uma abstração, um sonho, uma ilusão ou um eterno devir. Talvez uma ficção, talvez cenário de cruzadas, de quimeras. Talvez um local mítico, realmente nunca existente, provavelmente nunca materializado.
A história da Palestina é tudo e nada, uma promessa, uma desilusão, um objectivo, um malogro, uma miragem - há uma língua, há uma história, há uma cultura. Mas não há moeda, não há economia auto-suficiente, não há controlo de fronteiras.
Se Gaza, que era governada pelo Hamas (antagónica em relação à Autoridade Palestina) é o que é e está como está, já a Cisjordânia também não passa de um acto falhado. Embora parcialmente administrada pela Autoridade Palestina, na prática é Israel que controla as fronteiras, o espaço aéreo e a maior parte do território, isto já para não falar das colónias israelitas que a polvilham.
Sempre me fez muita confusão que a dita Palestina vivesse de caridade, de ajuda humanitária. Ora não há país, organização ou grupo que subsista no tempo se não for minimamente autossuficiente. Ao pactuar com esta situação, todos (todos) os que ajudaram foram cúmplices de uma situação frágil, vulnerável, condenada ao insucesso.
Gaza, terra que tem sido de ninguém, é uma faixa de terra à beira-mar, apetecível para quem está nos negócios do real state, para quem gere fundos, para quem tem muito dinheiro para investir e para lavar. Não o têm escondido ou disfarçado: aquela terra tem muito potencial, dizem-no à boca cheia, à cara podre. Mas, para isso, primeiro tem que ser limpa. Não é com subtilezas que o anunciam, é abertamente. Quem gere fundos e se movimenta no mundo dos business plan e dos private equity não tem tempo a perder com meias palavras, quer é saber de coisas concretas: como, quando, com quem. Além disso, adequar projectos a infraestruturas existentes é uma maçada, uma perda de tempo, uma perda de dinheiro. O melhor mesmo é ser greenfield. Começar do zero. Portanto, limpeza geral. Prego a fundo nas demolições. O mais rápido é à bomba? Pois que o seja.
Zero ideologia, excepto a ideologia do máximo proveito e o resto que se dane.
Isto em relação à nesga à beira-mar plantada, a Riviera há tanto adiada. Quanto à Cisjordânia, ali mais acima, vai continuar a ser um viveiro de revoltados, de humilhados. E viveiro também de mão de obra barata, quando fizer falta. E, enquanto o tempo passa, vai sendo progressivamente esvaziada. Tudo bem, para já está bem como está, dirão.
Talvez tudo isto pudesse ser de outra maneira. Talvez. Em abstracto. Primeiro haveria que pacificar toda aquela zona. Um plano para a paz na região passará forçosamente por esclarecer quem é dono do quê, quem manda em quem, quais as fronteiras e quem assegura a autonomia do território A e do território B. Ora ninguém está a tratar disto. Organizar a Palestina (leia-se: o território de Gaza mais o território da Cisjordânia) é caldinho para o qual ninguém parece estar preparado. Ou motivado. Não sei sequer se é possível. Diria que não. Os próprios não têm condições para isso -- pelo menos, do que se conhece, parece-me que não --, e os de fora não têm interesse nisso.
Portanto, dizer o quê...? Exigir o quê? A quem?
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Até há pouco tempo nada sabia de Candace Owens. Era Maga radical, influencer pro Trump, espaventosa, truculenta e provocadora. Mas, ultimamente, vem-se desviando. Tem-se demarcado do apoio dos Estados Unidos a Israel, tem criticado, e muito, o sinistro Bibi, tem levantado muitas dúvidas sobre o envolvimento de Israel em acontecimentos obscuros. E, por isso, agora tem estado sob fogo cerrado. E, no entanto, o grande arquitecto do plano para Gaza, o plano de reconstrução, o genro de Trump, Jared Kushner, nunca escondeu quais os seus propósitos.
É com espanto que leio agora que está a ser discutido o conflito de interesses em forma de gente que é Jared Kushner. Mas só agora o descobriram? Ele nunca escondeu o que pretende...
Este vídeo foca alguns destes aspectos. Permite a legendagem em língua portuguesa.
Candace Owens Gets It Right On Gaza AGAIN
Jared Kushner, Peter Thiel and Larry Ellison are linked to plans In Gaza that will certainly make them even richer. Cenk Uygur and Ana Kasparian discuss on The Young Turks.
CHAPTERS:
0.00 Candace Owens Shreds Jared Kushner
1.00 TYT Explains The REAL Plan For Gaza
7.20 The Bad Guys Are In Charge
11.15 Why Israel's Press Is Better Than Ours
14.00 Bezalel Smotrich Says The Quiet Part Out Loud
Fui hoje a um dos grandes hospitais, um daqueles que, por isto ou por aquilo, volta e meia anda nas bocas do comunicação social. Mas não fui por estar com uma terrível carraspana, foi por outra coisa.
Sobre a carraspana, ontem à noite tomei um comprimido de Ceterizina. Depois, como estava com um pingo que não estava a dar-me tréguas, olhos e nariz numa pingadeira, lembrei-me do Avamys. Estava fora de validade mas não muito, coisas de apenas mês e tal. Como estava mesmo aflita, lá foi disto, bombada para dentro.
O que aconteceu é que hoje acordei sem pingo, sem espirros, sem nada. Mas KO. Totalmente KO. Não sei dizer se era apenas sono, um sono profundo, um cansaço, uma ausência de forças. A voz alterada, o corpo rendido. Nem sei se isto foi do comprimido, se foi da própria gripe. A minha filha perguntou se eu tinha feito teste. Por isso, agora fiz. Negativo para covid ou para as gripes. Ou seja, apenas uma constipação das antigas, mas uma senhora constipação. Ou gripe de uma estirpe não enquadrada pelo teste.
Seja como for, não vou tomar outro comprimido senão amanhã não consigo pôr-me de pé. E tenho um compromisso em que é suposto estar bem acordada.
Mas a ida ao hospital não teve a ver com isto. Antes, quando trabalhava, dado ter um bom seguro de saúde, só frequentava hospitais e clínicas privadas. Agora, que nos reformámos, continuamos a ter seguro, mas menos generoso. As Seguradoras, que sabem fazer contas (e se o cálculo actuarial é uma maravilha...), sabem que à medida que a malta vai para sénior, o recurso a exames e consultas e tratamentos vai aumentando e, portanto, carregam, e carregam bem, no valor do prémio. Mas nem é isso, é mais uma questão de princípio. Durante toda a vida descontámos balúrdios sem usufruirmos. Achámos que agora, reformados, poderíamos tentar. Fomos experimentar o médico de família e, como já aqui falei, gostámos bastante.
Na última vez que fui a uma consulta de oftalmologia foi há uns 3 anos e tal. Nessa consulta, para meu espanto, a médica disse-me: 'Tem aqui uma catarata...'. Fiquei de boca aberta. 'A sério...?' Para mim, catarata era coisa de velhas. Mas velhas mesmo velhas. Ela tranquilizou-me: 'Ainda é uma catarata pequena, ainda não está madura, nem é coisa que se pense em remover'. Vim de lá a pensar 'Quem te viu, ó maria-papoila, com que então já com cataratas...?'. Até me lembrei de um amigo, um gozão que deixou a mulher para se juntar com uma 'moça' mais nova. Uma vez disse-me que essa moça tinha sido operada às cataratas, e acrescentou: 'Já viu? Deixei a minha mulher para me juntar com uma velha já com cataratas...'. O que me ri. Agora já sou eu. Mas assim como as ideias me vêm, assim se vão. No outro dia, a minha filha ficou admirada por eu nunca ter falado na catarata. Ao meu filho, a mesma coisa. Varreu-se-me, que hei de eu fazer?
Mas, na primavera, quando fui àquela consulta em que se concluiu que o mais certo é que andasse a tomar um medicamento para o coração sem necessidade nenhuma e, pior, com efeitos secundários críticos, ocorreu-me falar no tema da catarata. O médico disse que ia marcar-me uma consulta de oftalmologia no hospital e que, com o tempo que geralmente demoram a marcar, se calhar, quando lá fosse, já a catarata estaria madura.
Nunca mais me lembrei de tal coisa.
Até que no outro dia recebi uma mensagem a dizer que estava marcada uma consulta. Afinal foi antes do que eu estava a pensar: apenas 6 meses.
Depois recebi um telefonema a informar-me da mesma coisa. Reparei depois que na mensagem não dizia onde era a consulta. Enviei mail e responderam de imediato, informando que, de qualquer modo ainda iria receber uma carta. E assim foi.
Ou seja, enquanto no Privado onde eu ia recebia uma mensagem à qual deveria responder com um SIM ou NÃO. E estava feito. Não havia funcionários a telefonar, cartas a imprimir, a dobrar, a mandar pelo correio -- tudo tarefas que ocupam pessoas que poderiam estar a fazer outras coisas (e que custam dinheiro...).
Hoje lá me apresentei. Pela primeira vez, fui a uma consulta naquele hospital. Portanto, inexperiente, chegada à recepção, vi uma máquina de senhas. Escolhi a opção de consulta marcada e fiquei à espera que a máquina me pedisse o NIF ou que introduzisse o cartão de cidadão. Mas não. Fiquei intrigada. Então, chegou uma senhora que me disse que não era assim, tinha que me dirigir a Oftalmologia e fazer lá a inscrição. Nos hospitais privados em que eu ia, a recepção era centralizada, ou seja, em qualquer máquina podia fazer a inscrição. Depois de digitar o meu NIF ou de introduzir o cartão, a máquina dava-me uma senha já com o piso e a sala em que teria a consulta, bem como o meu número -- e estava a inscrição feita.
Chegada à dita recepção, dirigi-me à máquina. Voltei a escolher a opção de consulta marcada e, mais uma vez, fiquei à espera que me pedisse alguma coisa que me identificasse. Uma senhora que estava ao pé, explicou que ali era mesmo só isso, só para tirar o número. Ou seja, passado um bocado, na verdade um bocadão, chamaram pelo meu número. Lá fui a um guichetm pediram-me a carta, que entreguei, a lá fiquei inscrita. Ou seja, mais uma tarefa desnecessária. Se estava marcada, desde o momento em que me identificasse na máquina, deveria ficar a inscrição feita.
Somando todas estas ineficiências, e multiplicando por todos os serviços, rapidamente pouparia muitos custos que estão a empolar o SNS.
Quanto ao médico, muito jovem, dira que nem 30 anos, sem bata, um puto. Mas simpático, gentil. Examinou-me e disse-me que já estou no limiar de poder ser referenciada para a cirurgia, mas que também não lhe parecia urgente. Contou-me como é a cirurgia, os riscos e as vantagens, e eu que decidisse. Decidi que para o ano lá volto. Achou bem e logo ali marcou a consulta.
Por isso, a esse nível tudo bem.
E, mais uma vez, pensei: se eu, ou outra pessoa como eu, habituada a olhar para as coisas e a ver onde se pode melhorar, ao fim de um mês teria melhorado consideravelmente o funcionamento dos serviços e teria poupado muito dinheiro. Claro que a seguir iria ver as escalas dos médicos e enfermeiros, iria avaliar as 'barbudas' que por ali se acumulam e que estão a levar o SNS para o buraco. E depois iria para os contratos de manutenção do edifício e dos equipamentos. E depois iria para as compras (de todos os tipos). Em meia dúzia de meses teria conquistado uma mão cheia de inimigos... mas, não tenho dúvidas, tudo estaria a funcionar melhor e mais economicamente.
Mas, claro, isto tudo é chinês para esta ministra e para todos os boys que têm estado a ser plantados em tudo o que é hospital, instituto ou cenas ligadas à Saúde.
Estamos em território minado em que ninguém divulga documento nenhum sem que, primeiro, os advogados o mire à lupa, com mil olhos.
Sabemos que o tema da responsabilidade civil* e as respectivas consequências é o que agora estará a envolver todos intervenientes, e, quando falo em envolver, é isso mesmo: há que ter mil cuidados, pois qualquer ponta que se deixe solta será usada pelas seguradoras, pelos advogados das partes envolvidas, pela comunicação social, pelos partidos, para triturar impiedosamente o primeiro que se deixe apanhar 'a jeito'. É, pois, a altura de mitigar os efeitos dos danos de toda a ordem, nomeadamente os financeiros, os reputacionais, os políticos. Claro que em background estará sempre o drama dos mortos, dos acidentados. Mas isso já aconteceu. Já não há nada a fazer. Portanto, isso estará presente, claro que sim, mas em background. Quem não está habituado a isto, dirá que há muito cinismo, muita hipocrisia nisto. Talvez, sim. Mas não sei se é isso ou se é o instinto de sobrevivência dos intervenientes. Sei bem o stress que, em situações deste tipo (e nunca passei por nenhuma tão grave, nem nada que se pareça), costuma existir sobre todos: reuniões e mais reuniões, com os circuitos todos da gestão de risco a serem seguidos ferreamente.
Quanto ao relatório sobre o que aconteceu, mais do que saber que foi o cabo solto ou a ineficiência dos freios, é importante detectar a verdadeira causa-raiz que levou a que isso acontecesse. Seja o que for, da minha experiência, o que me parece óbvio é o seguinte: por muito que o relatório preliminar seja prudente e tente dar a entender que o que se passou foi uma fatalidade, pois os procedimentos de manutenção foram todos rigorosamente cumpridos e o condutor agiu como devia, uma coisa é certa: em acidentes desta natureza não há fatalidades -- há, sim, uma ou mais ocorrências como, por exemplo, desgaste dos materiais que não foi devidamente acautelado, falta de adequação dos materiais ou dos sistemas às funções, falta de manutenção com a profundidade, a tecnicidade ou a periodicidade devida, ou a não substituição atempada de peças, equipamentos ou sistemas. E um ou vários desses aspectos serão a causa directa. E é preciso identificá-los.
Mas depois há as segundas derivadas: ou seja, porque é que isso aconteceu? Sub-orçamentação, inexperiência ou inaptidão dos técnicos (quer os da Carris que fizeram o caderno de encargos ou que monitorizam a execução do contrato quer os da empresa externa que efectua o serviço), inadequação organizativa (quem monitoriza ou quem decide sobre falhas ou decisões a tomar), inaptidão da gestão da Carris?
Numa perspectiva séria, para apurar todas as razões (e não para alimentar o espectáculo da comunicação social mas, sim, para evitar que voltem a acontecer acidentes desta gravidade), haveria uma comissão de gente séria, experiente e objectiva, a varrer todas estas vertentes.
Não podem ser totós que embarquem em banalidades, que não vão ao fundo da questão, tem que ser gente que saiba desmontar os argumentos, que saiba pesquisar, averiguar:
- Faz sentido manter aqueles elevadores, lindos, com aqueles materiais, com aquela tecnologia, ainda estarem em funções? Não seria mais seguro haver réplicas perfeitas mas robustas, tecnologicamente modernas, seguras, monitorizáveis e controláveis?
- Faz sentido os serviços de Manutenção continuarem externalizadas? Em caso afirmativo, quem define os moldes em que é executada, quais as fronteiras de responsabilidade entre os serviços internos e os externos (por exemplo, quem assegura os serviços de Oficina, a gestão de peças, quem efectua inspecções periódicas, quem assegura a transmissão de conhecimentos e a formação dos técnicos)?
- etc...
E isto de que tenho falado é uma vertente. Mas há outra: não nos esqueçamos, uma empresa tem accionistas que nomeiam a administração e é a administração que leva ao terreno as orientações que recebe. É o accionista que aprova as linhas estratégicas, os orçamentos, as grandes decisões programáticas. No caso, o accionista é a Câmara de Lisboa. E quem está à frente da Câmara de Lisboa não é uma dinastia ou uma família: são pessoas eleitas, são políticos. Logo, antes de qualquer outra responsabilidade, há a de carácter político.
Carlos Moedas não pode esconder-se atrás das saias do falecido Papa, não pode encostar-se a Marcelo ou a Montenegro nem pode continuar a andar a correr atrás da comunicação social para se gabar de tudo o que mexe ou não mexe. Carlos Moeda, por uma vez, tem que se portar como um homenzinho. A menos que não saiba o que isso é.
* Num comentário abaixo, que agradeço, levanta-se a possibilidade de vir a haver também uma questão criminal. Não a referi por admitir que esse caminho não será trilhado pois, a haver responsabilidades dessa natureza, elas provavelmente seriam de tal forma partilhadas que não se chegaria a lado algum. Mas, de facto, nunca se sabe. Estou a lembrar-me de um caso que não tem a ver com acidentes ferroviários ou afins mas com saúde pública e o tema foi aí parar, com muitos dos responsáveis da empresa envolvida sentados no banco dos réus. Portanto...
Tenho cá os meninos em casa em regime de pernoita e, em dias assim, tenho dificuldade em mudar o chip para falar de coisas sérias.
Antes de se ir deitar, o meu marido deixou-me várias sugestões para o que eu poderia abordar no que fosse escrever no blog. Concordei e disse que sim, que o faria. Simplesmente, as minhas mãos estão com dificuldade em falar de concursos públicos, em externalizações, em planos de manutenção, em escassez de mão obra especializada, em gestores políticos de meia tigela.
É que, tal como ele, também eu posso falar destes assuntos, não do caso do Elevador da Glória em particular, que não conheço, mas destes temas em geral. Mas, para eu falar disto, porque só consigo falar com seriedade e rigor, teria que me alongar. E a esta hora, com os meninos a dormirem nos quartos ao fim do corredor, não sei se consigo forçar as minhas mãos a temas sérios quando só me apetece falar da graça das crianças, do menino que chegou a casa, do treino, já às dez da noite, e, depois, ainda foi tomar banho e, depois, jantar, para pouco depois ter que ir dormir pois este sábado tem que estar a pé cedo já que tem reunião e treino antes das dez da manhã, ou do mais novo, arisco, que me deixa abraçá-lo e dar beijinhos, revelando ser um falso arisco, ou a menina, mais alta que eu, já não criança mas uma bela adolescente, que veio carregada com uma valise dentro da qual se encontram dois necessaires, um com produtos para o cabelo, outro com maquilhagens, sempre toda decidida, toda organizada, e que me faz recordar-me de mim com a idade dela.
Por isso, como conseguir fazer a agulha para os temas que estão na ordem do dia e que, de uma maneira ou de outra, farão parte da causa-raiz da tragédia?
Bem.
Vou tentar.
Mas vou ver se abrevio.
Externalizar?
Sempre fui totalmente contra quando se trata de áreas críticas, de utilização permanente e em que a retenção de conhecimento é relevante. Era a favor em sectores indiferenciados, de utilização sazonal, em que não é requerido conhecimento específico do 'entorno' ou da função.
No caso da manutenção, em que os técnicos são sempre necessários ao longo do ano, em que é importante reter o conhecimento para que exista um historial de avarias, do que as provocou, da forma como se resolvem, para que acompanhem os novos investimentos e recebam formação no seu manuseio, sempre fui a favor da não externalização.
No caso da Carris, tendo sido tomada essa decisão há uns anos, e ainda não tendo havido a coragem de a reverter, a única forma de assegurar uma boa manutenção é haver internamente, na Carris, quadros técnicos altamente experientes e conhecedores, que consigam plasmar no caderno de encargos do concurso público, todos os requisitos e, depois, que acompanhem o seu escrupuloso cumprimento: Por exemplo, quais os planos de manutenção preventiva, qual o plano de inspecções, tempos de chegada ao local em caso de manutenção correctiva (e, se já estiverem evoluídos, planos de manutenção condicionada e preditiva). Coloquei entre parêntesis pois temo que os equipamentos do elevadores não estejam ainda sensorizados para emitirem alertas em situações de desgaste, de perda de tensão ou outras situações críticas. Mas o caderno de encargos deve ainda prever de quem é a responsabilidade por gerir os stocks de peças de reserva ou de consumo corrente e de quem é a responsabilidade pelos trabalhos em oficina (está também externalizada? se não, como se integra a sua gestão, num fornecimento externo?). E nos planos dos trabalhos deve estar bem definido o que fazer e com que periodicidade bem como quais as habilitações, formação profissional e experiência dos técnicos que integrarão as equipas. Tudo isto tem que ser, depois, contratualizado e rigorosamente monitorizado.
Como o meu marido referiu ontem, se isto estava tudo bem definido e se nenhuma empresa apresentou proposta no concurso que entretanto decorreu, é porque as empresas concorrentes acharam que, pelo valor base do concurso, não era possível fazer o trabalho. Atendendo a que esse valor é cerca de 20% superior ao que estava a ser praticado, das duas uma: ou a empresa que andou a fazer a manutenção até ao fim de Agosto andou a perder dinheiro, muito dinheiro, ou andava a cortar as unhas, mas a cortá-las muito rentes, ou seja a não fazer o trabalho que devia ser feito, pelo menos de acordo com os requisitos do concurso que ficou deserto.
O meu filho, no dia do desastre, dizia que parecia ter acontecido o worst-case scenario, aquele cúmulo de azares que, quando a coisa dá para o torto, parece que os azares se atraem uns aos outros: parece ter falhado o cabo, o freio, e sabe-se lá mais o quê. Mas vamos ver se, em cima de tudo isso que se traduziu num número tão elevado de mortos e feridos, não aconteceu ainda um outro. Não nos esqueçamos que, quando acontecem acidentes desta natureza, as indemnizações e os gastos de reparações e outros são exorbitantes. As empresas têm uma responsabilidade civil que, geralmente, está segura (leia-se, coberta por um seguro). Mas, para não pagarem prémios excessivos, limitam a responsabilidade coberta. E está tudo bem... até ao dia em que deixa de estar. Portanto, vamos ver qual o tecto da responsabilidade civil da empresa responsável pelo que aconteceu. Vamos ver se, a seguir a toda a desgraça que aconteceu, não começam a surgir outros dissabores. Claro que não há maior dissabor do que uma vida ser ceifada num acidente destes mas, a seguir, começam a surgir as consequências e, neste capítulo, vamos ver se estava tudo bem acautelado.
E aqui um tema que será certamente avaliado: supostamente, a empresa externa que fazia a manutenção vai ser chamada à pedra e vai averiguar-se se os planos contratados foram cumpridos. Se não foram cumpridos, estará encontrada a empresa responsável. Mas se os planos foram cumpridos e o que se conclui é que os planos estavam mal feitos, aí a responsabilidade reverterá para quem os definiu. E aí entrarão as contendas jurídicas, os pareceres, as complicações que, às tantas, se transformam em complicados enredos.
Mas há ainda um outro aspecto: pelo que vi, a empresa MNTC que fazia a manutenção dos elevadores de Lisboa terá sede num prédio residencial na Margem Sul, um capital social de apenas 15.000€ e 30 trabalhadores. Não consegui encontrar o site, talvez não tenha. Não posso questionar a competência e a estabilidade da empresa e dessas 30 pessoas pois delas nada sei. E também não sei se os trabalhadores que faziam a manutenção pertenciam mesmo à MNTC ou se seriam subcontratadas. É que o que frequentemente acontece, nesta perversidade de externalizar e contratar pelo menor preço, é que as empresas a quem é adjudicado o trabalho, para o conseguirem fazer por tão baixo custo, recorrem à mão de obra mais barata que arranjam (muitas vezes pagando parte do ordenado por baixo da mesa, para pouparem na Segurança Social e nos impostos). Não faço ideia se é o caso mas não me admiraria se fosse.
E ainda um outro aspecto: li que o contrato com a MNTC acabou no fim de Agosto. Não havendo empresa para a substituir (dado o concurso ter ficado deserto), a Carris terá feito um ajuste directo com a MNTC para mais 5 meses. E pergunto: fez contrato? Quais as cláusulas do contrato? O contrato está assinado? Em vigor? Certinho. direitinho? Ou foi na base do 31 de boca? É que, numa situação como a que aconteceu, tudo isto faz a diferença -- e as Seguradoras e os advogados das diferentes partes não costumam condoer-se, é o business deles, costumam defender-se com unhas e dentes, e todas as pontas soltas são boas para desmontar pretensões com pés de barro.
Só espero que o worst-case scenario não se aplique também a estes aspectos, senão a dimensão do problema alastrará e de que maneira.
Claro que há muitos intervenientes que, de uma maneira ou de outra, têm a sua quota parte de responsabilidade no que aconteceu: no que se refere a questões técnicas, a questões jurídicas, a questões administrativas, a questões de organização e, claro, a questões de gestão.
Mas, acima de tudo, e convém não a relativizar, há a responsabilidade política. Na forma como as empresas sob responsabilidade municipal se organizam, na aprovação do plano de investimentos e do orçamento de gastos correntes, nas prioridades, nas linhas vermelhas, a primeira e última palavra vai para a Câmara que, no caso, funciona como o accionista, o grande decisor.
Estar à frente de uma autarquia não é ser como o Moedas, esse oportunista que parece achar que se nos aparecer, televisão adentro, a toda a hora, em todo o sítio, como um emplastro, sempre a gabar-se, sempre em bicos de pés -- é ele que faz tudo, é ele que pensa em tudo --, uma figurinha ridícula que se acha o máximo. Não. Ser responsável por uma autarquia é tomar as grandes decisões, é garantir que o que é crucial é seguido à risca (por exemplo, é alguém que traça linhas vermelhas como 'nunca por nunca pôr em risco a vida humana'), é assegurar que há medidas de controlo para monitorizar o cumprimento dos planos. Ser responsável é saber gerir prioridades como por exemplo, ser capaz de dizer: 'não vou cortar na manutenção de equipamentos de utilização pública nem na higiene urbana nem no apoio à recuperação de consumidores de droga; pelo contrário, vou aumentar, nem que, para isso, tenha que cortar em dispêndios exagerados como os das Jornadas da Juventude ou outros folclores de utilidade duvidosa'.
Não sei o que vamos ficar a saber da responsabilidade da tragédia mas temo que conheçamos apenas uma versão superficial das coisas e temo que o Moedas, na sua hipocrisia travestida de beatice, ainda tente reverter o problema, tentando capitalizar a seu favor. Quando, em cima do desastre, o ouvi dizer que Lisboa nunca tinha sofrido uma tragédia desta dimensão (ah não? o terramoto de 1755 não lhe diz nada?) só me fez lembrar o Trump que, na estupidez do seu narcisismo exacerbado, consegue gabar-se da porcaria que faz só porque é uma grande (huge, fantastic) porcaria.
Enfim.
É tarde, daqui a nada a minha maltinha está a pé e, portanto, é bom que eu esteja antes deles. Portanto, fico-me por aqui.
Tenho ouvido com perplexidade e apreensão que agora uma, depois outra, as administrações dos hospitais públicos estão a ser varridas, tudo corrido.
Um dos casos foi notícia no outro dia, mas muito en passant. No verão, depois da contestação que tinha havido em Almada e no Seixal com a demissão, por parte da Ministra, da administração do Hospital Garcia de Orta, ouvi que já havia substituto. Para meu espanto, ouvi agora que o administrador indigitado afinal tinha desistido e que a anterior administração tinha recusado apresentar a demissão (não seria de saber ao certo o que está a passar-se?). E ouvi que a Ministra já tinha escolhido outro, tendo agora a sua opção recaído num outro, dizia o jornalista que 'filiado no PSD'.
E, ao que parece e confirmado pela própria Ana Paula Martins, a onda de 'saneamentos' não se fica por aí. Se calhar, e isto já sou eu a dizer, para lá pôr mais PSDs.
E o que eu gostava de saber é se tudo isto está a obedecer a todos os critérios legais, quer nas demissões quer nas contratações.
Gerir um hospital como o Garcia de Orta mais os vários Centros de Saúde abrangidos é como gerir uma grande empresa. Li que o Hospital tem cerca de 2.900 funcionários. Se somarmos a isso os indirectos que lá estão através de prestadores de serviço, se calhar chegamos ao dobro. Uma coisa em grande. A gestão de pessoal de uma coisa desta dimensão deve ser do mais difícil que há.
Os potenciais 'clientes', li também, são 350.000 e só isso também inspira respeito.
A ser verdade o relatório que vi, o Orçamento anual de funcionamento é da ordem dos 200 milhões de euros.
Provavelmente, como este vários outros.
Gerir uma realidade assim requer um gestor competente e exterior. Isto já corresponde a uma grande empresa. Não é uma chafarica que possa ser gerida por curiosos, com amadorismo.
Os médicos pensam que gerir um hospital é coisa para um médico. Mas isso é muito errado pois os médicos podem e devem estar nas áreas clínicas (bloco, ambulatório, internamento, etc.). Mas não a gerir as finanças, as compras, a área jurídica, a de auditoria, a área de manutenção, etc. Isso é matéria para especialistas das áreas (financeiros, advogados, engenheiros, informáticos, etc.)
Por isso, para saberem lidar com esta realidade complexa e saberem geri-la bem -- e não deixar os doentes sem médicos e não infectar os doentes nas cirurgias e ter equipas escaladas de forma planeada e ter os investimentos programados e bem executados e ter a informática a funcionar de forma eficiente e segura, e ter os contratos bem executados e controlados e para evitar que haja roturas de tesouraria e etc, os administradores têm que ser gente criteriosamente escolhida.
Ou seja, admito que haja regras para o preenchimento dos lugares de gestão nos Hospitais, em especial os que têm este grau de exigência: devem ter experiência, competências, etc, Mas alguém está a verificar isto? Os jornalistas, as oposições, os deputados, sei lá..., alguém está a controlar minimamente o que anda a passar-se?
Ou toda a gente já está a aceitar, na boa, que, por provável má gestão, esta gente que a ministra Ana Paula anda a escolher para gerir as unidades do SNS vá ainda enterrar ainda mais o que todos deveríamos exigir que fosse gerido profissionalmente, com rigor, com extrema qualidade? Um volume brutal dos nosso impostos (que é dinheiro nosso) vai para a Saúde e só por isso já devia haver uma observação atenta, sistemática, pormenorizada sobre o que os governantes fazem com ele. Mas sobretudo, os 'clientes' dos hospitais somos nós, nós os que talvez um dia precisemos de cuidados médicos, quem sabe para nos salvarem a vida, nós os que precisamos que lá haja médicos competentes, que talvez precisemos de exames médicos em máquinas que alguém tem que saber manusear e que têm que ser cuidadosamente mantidas, nós os que talvez precisemos de instrumentos que têm que estar devidamente esterilizados, nós que queremos que as instalações estejam limpas, desinfectadas.
E, note-se, não estou a apontar o dedo em particular a esta ou àquela das escolhas da Ministra: estou apenas a alertar em abstracto, de forma geral. Mas sentir-me-ia mais tranquila se soubesse que as oposições e a comunicação social estão atentas.
Nem de propósito. Quando entrou, certamente, Lady Betty, ou alguém por ela, teve que pagar uma caução. Provavelmente qualquer coisa na ordem dos 2.500€. Portanto, dos 50.000€, na volta, a CUF apenas viu esses 2.500. Isto, a propósito do Caro Comentador Ccastanho ter dito, e eu percebi que estava escandalizado com isso, que, quando foi internado, solvo erro para uma cirurgia, teve logo que pagar uma caução. Pois.
Agora, segundo li, o filho da Senhora Dona Lady está a tentar negociar... Não sei o que é que há para negociar numa conta de hospital. Na volta quer pagar a prestações ou está a pedir desconto. E este é um dos problemas com que os hospitais (tais como muitas outras empresas) se debatem: os calotes.
Abri o vídeo que me aparecia mas, salvo erro, só consegui ouvir até um comentador, de nome Rui Figueiredo, falar pois não consegui ouvir mais. Tirando a Teresa Guilherme que conheço e a apresentadora Maya, não sei que dois são aqueles que ali estão. Qualquer gato-sapato é chamado à televisão para opinar. Assim se (de)forma a opinião pública. Mas, então, dizia o rapaz que não compreendia porque é que a CUF não tinha cobrado logo à saída ou a tinha deixado sair sem pagar. Falava como se quem fosse de censurar não fosse quem se prepara para deixar uma dívida mas, sim, quem vai ficar a arder.
Ora bem.
Em termos práticos. Verbas desta ordem (esteve internada mais de um mês, deve ter feito inúmeros exames, deve ter feito fisioterapia, foi acompanhada até aos Estados Unidos por um médico e por um enfermeiro, etc,, pelo que os gastos devem mesmo ter sido exorbitantes) frequentemente não se conseguem pagar via multibanco. Pode também acontecer que não se tenha toda essa verba à ordem e tenham que mobilizar depósitos a prazo ou outras aplicações. Claro que quem tem um familiar internado num hospital privado deve tratar de tudo isso antes que a pessoa tenha alta. Mas sabemos que este caso é atípico. De qualquer forma, com gente séria, é normal que mandem a factura para casa e que as pessoas as paguem. Mas há gente que não é séria.
Mas, voltando ao espanto, de terem deixado a senhora sair sem ela pagar... O que sugeriria o dito Rui Figueiredo? Que a CUF não lhe desse alta? Que a forçassem, se fosse preciso sob ameaça, a dar o código do multibanco... ? Que a forçassem a ficar internada? A fazer mais despesa...?
Claro que não. Quando a pessoa tem alta tem que se deixar sair até porque as camas fazem falta para outros doentes e, de resto, nestes casos, ficar mais tempo é incrementar a dívida.
Acho que desliguei quando ouvi alguém a interrogar-se porque é que a senhora não tinha um seguro. Mais uma vez, uns pseudo-comentadores demonstrando que não têm vida, mundo, conhecimentos do que quer que seja. Não sei se a Dona Betty tinha seguro, se não tinha. Mas um seguro de saúde tem um tecto para cada tipo de despesa. Para algumas, nem sequer há cobertura. Se ela tivesse seguro, poderia, por exemplo, não cobrir internamento. Ou poderia ter e o limite já ter sido excedido com internamentos anteriores. Ou poderia excluir internamentos por certas condições como, por exemplo, por violência doméstica. Além disso, os seguros são caríssimos para pessoas de idade e algumas seguradoras nem têm sequer seguros para pessoas com mas de 60 anos. Podem ter planos de saúde, que dão descontos em algumas coisas mas não cobrem internamentos.
Ou seja, sabendo que uma pessoa de idade tem algumas probabilidades de ter internamentos e cirurgias o que pode vir a traduzir-se em muita despesa, as seguradoras, que também são empresas que não querem ir à falência, também se cortam.
Ou seja, só o SNS não se previne contra calotes, contra despesas desmedidas. Na prática, é sempre a abrir. De cada vez que há pessoas a fazer cirurgias caras, a fazer tratamentos muito caros, a ter que estar internadas nos cuidados intensivos durante muito tempo, etc, etc, aparece sempre dinheiro para fazer face a qualquer despesa, aparece sempre dinheiro para aumentar médicos, para pagar horas extraordinárias, para pagar fortunas pelos contratos de manutenção dos equipamentos médicos em especial os mais caros como os de imagiologia, para pagar medicamentos, alguns dos quais caríssimos. Mas, ao contrário do que muitos pensam, o dinheiro não sai de um saco sem fundo. Os montantes de que o SNS dispõe para fazer face a todos os imponderáveis não são ilimitados. Parecem... mas não são.
Não será por acaso que uma das maiores fatias dos impostos cobrados vai para a Saúde: 22%
Com uma população envelhecida e felizmente a viver muitos anos (mas com pluri-patologias e a requerer frequentes cuidados médicos), se a área da Saúde não for criteriosamente gerida não apenas vai ter falhas permanentes e cada vez potencialmente mais graves como vai ser um incrível sorvedouro de dinheiro.
[A componente da Protecção Social também é preocupantemente alta. Aqui a demografia é também um desastre: com uma natalidade continuadamente muito baixa, com muita gente nova a emigrar e com uma população muito envelhecida, é imprescindível que haja mais gente a fazer descontos (TSU), mais imigrantes a trabalhar e a fazer descontos em Portugal, é preciso que a economia se aguente e dinamize para haver poucos subsídios de desemprego, é preciso que se auditem bem as actividades que não descontam para a Segurança Social (ou que descontam pelos mínimos dos mínimos) e que se traduzirão em pensões e subsídios para os quais não existiu a contrapartida dos descontos]
Enfim. Um tema inesgotável.
Mas é fim de semana e não vos maço mais. Conto apenas mais duas coisas:
1 - A andar por aqui, sempre encantada (embora levemente apreensiva pois a natureza, quando pujante, tem uma força difícil de controlar), encontrei uma flor inacreditável.
Nunca tal tinha visto. Já coloquei o pé que veem numa jarra aqui na sala. Recorri à app que permite a identificação de espécies e aqui está:lomelosia stellata
A perfeição, a delicadeza, a beleza desta flor parece-me uma coisa do outro mundo
2 - E andava nisto quando vejo, a meu lado, um esquilo a descer do pinheiro ao lado do qual eu ia, depois a andar à minha frente e, logo, a subir o tronco de um cedro mais à frente. A meio do tronco parou, ao alto, e ficou a olhar para mim. Com a atrapalhação, levei tempo demais a desbloquear o ecrã do telemóvel e a encontrar o botão da câmara. Quando estava a postos para disparar já ele tinha subido. Estava lá em cima a olhar para mim. Fofo. Ainda o chamei, bsch-bsch-bsch, como se fosse um gatinho. Mas não o convenci. Não desceu.
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Enquanto escrevo, vejo Marcelo na Suiça e, como sempre, está a dizer coisas. Atrás dele, um a imitar o emplastro. Não sei se viram. Se viram, digam-me se não parecia mesmo.
Enquanto foi gerido por uma PPP (concretamente, no caso, pela José de Mello Saúde) recebeu vários prémios pela excelência dos seus serviços, os inquéritos de satisfação feitos junto dos utentes revelavam uma satisfação considerável.
Ou seja, há por aí muita ideia errada, provavelmente alimentada por infundados preconceitos.
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Num hospital, em especial nos de média/grande dimensão, as Comissões Executivas (sejam quais forem os nomes que se deem aos órgãos de gestão), têm que dar resposta às seguintes vertentes:
Compras (de consumíveis, de serviços, etc),
Recursos Humanos (controlar presenças/assiduidades, escalas, trabalho extraordinário, pagar salários, contratar ou demitir trabalhadores, tratar da formação, comunicação interna, etc),
Financeira (contabilidade, tesouraria, controlo de Orçamentos, etc),
Sistemas de Informação (sistemas, equipamentos, segurança informática, etc),
Serviços Gerais/Infraestruturas (gestão do edifício, limpezas, segurança do edifício, frota, arquivos, correspondência, etc),
Operação/Direcção Clínica (óbvio),
Jurídica (contratos, litígios, protecção de dados, etc).
A coordenar estas vertentes, está o CEO (ou Presidente, ou Director-Geral -- chame-se o que se quiser)
De todas as valências, apenas a de Operação/Direcção Clínica requer conhecimentos na área da Saúde. Todas as demais requerem pessoas com conhecimentos específicos da área (economistas/gestores, advogados, engenheiros, informáticos, etc).
Um Centro de Saúde é uma realidade mais singela a nível de gestão, aliás, não tem nada a ver, mas, mesmo assim, diria que deveria ter à frente um Gestor e não um médico, deixando a vertente Clínica para os médicos e enfermeiros, que trabalho não lhes falta, e libertando-os de tarefas que têm a ver com gestão de contratos de limpezas, de contratos de manutenção de elevadores, de controle de assiduidade, etc.
Ou seja, não estava a falar a nível 'micro', isto é, hospital a hospital (no SNS). No entanto, nos grandes hospitais públicos penso que a gestão deve ser profissional nos termos que acima referi (se calhar já é -- mas não faço ideia). Nos hospitais privados, é assim, isso sei.
No SNS, gaste-se o que gastar, é o Estado que paga. Sejam gastos insignificantes ou da ordem dos milhares ou milhões de euros, o dinheiro sai dos cofres do Estado e é gerido via Orçamento de Estado. Se for preciso gastar mais, haja impostos que os cubram. É assim e ainda bem. Mas tratando-se de dinheiros públicos, diria eu que deveriam ser geridos com mão de ferro para evitar desperdícios, abusos (nomeadamente que pessoas se naturalizem de propósito para vir receber tratamentos milionários que no país deles não conseguem), etc.
Nos hospitais privados não há quem lá meta dinheiro de impostos. O dinheiro para pagar edifícios e equipamentos e respectiva manutenção, para pagar a médicos, enfermeiros, auxiliares, água, luz, comunicações, medicamentos, tratamentos, etc, etc, ... e impostos, só vem de um sítio: do que as pessoas ou as seguradoras lhes pagam.
Acontece que os seguros são limitados e nem sempre cobrem tudo. E, quando não há seguros, ainda mais arriscado há. Um problema grave que os hospitais enfrentam são as dívidas dos clientes. Quando são internados, pagam uma caução. Tenho ideia que, quando a minha mãe foi internada pela última vez, a verba da caução foi 2.500 euros. Tinha um seguro mas o plafond foi ultrapassado ao fim de umas semanas. No acerto de contas, descontando o plafond do seguro que foi esgotado e os 2.500 pagos de caução, ainda houve uma verba considerável a pagar. Paguei, claro. Mas, do que é sabido, há quem se queixe que não tem como pagar e, portanto, deixe uma dívida. Ou seja, a caução é uma forma de minimizar o risco de ser dívida total.
Quando ouço falar nos Privados, algumas pessoas falam como se fosse um bando de bandidos. No entanto são empresas que têm que pagar ordenados (nomeadamente a médicos, a enfermeiros, a auxiliares, a pessoal administrativo, a pessoa de limpeza e de segurança, rendas, empréstimos bancários, licenças software ou outras, enfim, pagar toda a espécie de despesas). Se um hospital privado não conseguir fazer face às suas despesas, não há quem lhe valha, não há orçamento rectificativo, não há nada. Portanto, responsavelmente, têm que ser bem geridos.
Os meus pais estiveram internados quer no SNS quer em hospitais privados. A nível de cirurgias e internamento, há algumas diferenças sobretudo a nível do apoio e da informação à família e a nível do conforto do doente. Mas, de qualquer forma, penso que o problema não está aí. O problema está em tudo o que está antes de se chegar à fase do internamento. A experiência que tenho nas Urgências é diametralmente oposta. No SNS passei horrores, horas e horas, noites inteiras sem saber o que se passava com eles, eles em macas nos corredores. Eu própria já passei uma noite e uma manhã num SO de um hospital público e foi uma experiência abaixo de terceiro-mundista, uma coisa indescritível, desumana. E a nível de ambulatório, é para esquecer (pelo menos nos grandes hospitais). E a nível de Centro de Saúde já ontem falei. Muito mau (pelo menos, nos caso que conheço).
Ou seja, há um problema dramático de gestão, de défice de oferta, de desorganização. Há regiões do país, talvez porque agora têm mais centenas de milhares de habitantes do que quando os hospitais existentes foram construídos, que não têm hospitais que cheguem.
Claro que não é suposto que haja hospitais ao pé de casa. Por isso, quando referi que num estudo há que definir objectivos, mencionei que uma dos parâmetros é a distância razoável a que deve situar-se um hospital. Falei em 50 km como distância máxima a título de exemplo mas é uma distância que me parece razoável. Mas se me disserem que pode ser outra distância, tudo bem, seja.
Quando, há algum tempo, os médicos acharam que eu estava a sofrer um enfarte agudo de miocárdio e activaram o protocolo respectivo, me meteram numa ambulância e me enviaram para um hospital, vi-me numa ambulância a 'abrir', com sirene e luzes a piscar e, à chegada, a ser posta em cadeira de rodas e levada para uma sala de reanimação. Se estivesse mesmo em vias de 'patinar', penso que andar mais do que 50 km seria um risco. Mas estes parâmetros, que serão a chave para desenhar o mapa de hospitais e centros de saúde e para identificas as necessidades das respectivas equipas, são a chave para se obter uma solução equilibrada.
Num estudo destes, que acho que deve ser feito (aliás, que acho quase impossível que não seja feito), devem também ser equacionadas as acessibilidades e a adaptação das actuais infraestruturas às novas exigências. Por exemplo, ter um grande hospital como o S. José encavalitado naquelas ruazinhas ali por cima do Martim Moniz onde os carros quase não cabem e onde basta que alguém deixe um carro mal estacionado para o trânsito bloquear, parece-me um tremendo risco. Isto já para não falar em que, às tantas, nem a construção é resistente a sismos de grande magnitude. Mas, enfim, é um mero exemplo do muito que acho que há a equacionar.
O que acho dramático é ver a barracada permanente de ver tantas Urgências fechadas, de não se saber a quantas se anda, de ver pessoas, nas Urgências, à espera de ser atendidas ao longo de horas infindáveis, de não se conseguir uma consulta num Centro de Saúde, de tanta gente não ter médico de família... e não se pegar no touro pelos cornos, não pôr uma equipa de gente competente a equacionar estes problemas (que, relembro, são problemas típicos que se aprendem a resolver nos cursos de Matemática, nomeadamente no ramo das Aplicadas - Investigação Operacional e etc.).
E, sim, resolver estes problemas (de adaptar a oferta à procura e de optimizar a solução, garantindo o cumprimento de objectivos pré-definidos) tanto se faz na Saúde, nas Redes Logísticas (centros de Produção, Armazenagem e Expedição seja do que for, seja de medicamentos, seja de petróleo, de cimento, de adubo, de mantimentos, etc), nas Redes de Transportes Públicos (nomeadamente na definição de números de 'carreiras', nos locais das Paragens, na definição dos horários, na identificação da localização e número de Postos de Carregamentos Eléctricos, etc, etc. A Matemática, os algoritmos, os modelos, a estatística e as probabilidades têm isto de maravilhoso: aplicam-se a tudo nesta vida.
De qualquer forma, definir os locais ideais para ter unidades clínicas, a respectiva dimensão, as respectivas especialidades, etc, não requer conhecimentos clínicos. Os conhecimentos clínicos são, si, indispensáveis para traçar planos de saúde, para tratar e acompanhar doentes, para prevenir doenças, etc. A medicina é uma arte? Talvez, não digo que não... (embora nem todos os médicos sejam artistas... e embora haja outros que são uns verdadeiros artistas...).
Mas a Inteligência Artificial já faz maravilhas e, em algumas áreas, já suplanta largamente a capacidade de análise humana. O diagnóstico precoce de algumas maleitas (por exemplo, neoplasias) através da imagiologia, por exemplo, parece estar a demonstrar que o facto de a brutal capacidade de computação permitir detectar desvios ao padrão com grande rapidez e precisão parece não ter paralelo com a 'visão humana'.
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Todos os vossos comentários são bem vindos e muito agradeço a vossa generosidade por partilharem as vossas opiniões.
Quando eu trabalhava, usava, por vezes, uma expressão idêntica (salvo as devidas distâncias) à que António Costa usou no outro dia.
Em especial, quando fui responsável pelas Exportações e pelas Compras das Empresas para as quais trabalhava e em que tinha por função comprar e vender nas melhores condições possíveis (baixo preço ao comprar, preço alto ao vender), quando me invocavam relações de longo prazo para obter condições de algum favor ou condescendência, eu dizia: 'um director não tem amigos'.
Numa vez em que comprávamos regularmente uma matéria prima (que, de cada vez que era adquirida, custava a preços de hoje, milhões de dólares), decidi não a comprar ao fornecedor mais usual por não estar a fazer as condições que eu queria. O vice-presidente dessa companhia internacional meteu-se num avião para vir tomar-se de razões comigo e, já o contei aqui, foi uma das raras vezes em que, intimamente, me senti vagamente intimidada. Tínhamos tido, de manhã, uma acesa discussão ao telefone em que ele não conseguia aceitar que eu mudasse de fornecedor. De tarde, sem que eu o esperasse, apareceu-me à porta do gabinete. Muito alto, muito bonito, muito charmoso... e furioso. Estava chocado com a minha decisão e tentou dar-me a volta ao vivo e a cores e, se eu não cedesse, já tinha pedido uma reunião de urgência com o presidente da empresa. Não cedi, claro e toda a minha argumentação se baseou em que 'um responsável por fazer negócios não tem amigos'.
Não teve outro remédio senão encaixar até porque, obviamente, eu estava respaldada. Mantivemo-nos amigos mas, a partir daí, ele passou a tratar-me por 'UJM, la femme infidèle' (claro que, em vez de UJM, dizia o meu nome).
Mais tarde, enquanto membro de uma Comissão Executiva, dizia isso a torto e a direita. Se queriam aumentos ou promoções, aceitação de dilatação de prazos ou o que fosse, e se se posicionavam como sendo nós conhecidos de longa data, tinha que lembrar que a minha função não tinha amigos.
Ou seja, é a função que não tem amigos. No trabalho, temos que ter distanciamento, não podemos tomar decisões com base em afectos ou emoções.
Quando António Costa disse que 'um Primeiro-Ministro não tem amigos' é isso. Enquanto Primeiro-Ministro gere o que tem a gerir com base em critérios racionais, objectivos, e não com base em amizades.
Ele, enquanto pessoa, tal como eu, enquanto pessoa, temos os amigos que temos. Mas não é no patamar da amizade que tratamos de assuntos profissionais.
Contudo, por todo o lado, desde jornalistas descerebrados a comentadores avençados, toda a gente diz que António Costa disse que ele, ele próprio, não tinha amigos. Ora não foi isso que ele disse. Ele não disse: 'Eu não tenho amigos'. Ele disse: 'Um Primeiro-Ministro não tem amigos'.
Creio que apenas sou lida por pessoas inteligentes pelo que terão percebido isso desde que António Costa falou. Mas caso conheçam gente burra, dessa que não consegue perceber a diferença entre uma coisa e outra, peço que façam o favor de encaminhar este meu mail.
No post abaixo, o Leitor Américo Costa contesta a minha opinião de que a gestão das unidades de tratamento (Hospitais e nem sei se também os próprios Centros de Saúde) deve ser entregue a gestores. Segundo ele, é óbvio que não, que quem os deve gerir são médicos.
Porque acho que o tema é relevante, permito-me puxar para aqui o que ele diz e, de seguida, fundamento a minha opinião.
Cara UJM
Essa frase, "a gestão do SNS devia ser para gestores" deixa-me em polvorosa. Eis os meus conflitos de interesses: médico, Pneumologista do SNS em exclusividade há 41 anos. Desde 1983 que noto os mesmos problemas no seu funcionamento. E não foi por existir gestores que eles desapareceram. Até acho que, com a sua entrada e o facto de se equiparar a saúde como se fosse bananas ou sacos de cimento, que as coisas se deterioraram mais. A medicina é uma arte, não um negócio. O que o SNS precisa é de inteligência emocional e não de gestores. O que o SNS precisa é de elevarmos a literacia em saúde das pessoas, médicos com tempo de conversar com elas e não de cálculos matemáticos ou computadores XPTO. Voltar às origens. Estou cansado desta coisificação da doença, de sopesar os ganhos a torto e a direito, de tratar a doença como se fosse um tijolo que se partiu numa obra. Sejamos claros, cara UJM: fomos nós, médicos e enfermeiros que demos cabo do SNS. Só pensamos em dinheiro (e vejam hoje o motivos das greves : salário, aumento, dinheiro). Portanto, e desculpe a ousadia, teve azar. Não encontrou um médico, mas sim um gestor; não encontrou alguém que lhe resolve-se o problema, mas sim alguém que só espera o fim do mês para receber. E na privada, com dinheiro, vai encontrar de certeza. Vamos destruir o SNS com a nossa ganância.
Abraço
Américo Costa
E, então, agora exemplifico eu com algumas coisas que funcionam mal e que, com um gestor qualificado e competente, facilmente seriam resolvidas.
Exemplo 1
A minha mãe tinha uma consulta marcada para o hospital para um certo dia que a mim não me dava jeito pois coincidia com um compromisso meu.
Alterar o dia deveria ser coisa simples, não é?
Errado. Um calvário.
Liguei e liguei. Nada. Ninguém atendia. Tocava, tocava até que atingia o limite de tempo, deixava de tocar e a chamada era interrompida.
Como temos um número directo para o serviço, resolvi ligar para lá.
Fui atendida por uma pessoa que, quando eu disse o que queria, me deu uma desanda, que aquele número não era para tratar de assuntos administrativos. Quando lhe disse que do outro número ninguém atendia, ela disse que sabia disso mas que eu fosse tentando. Respondi que estava a tentar há dois dias. Então, disse-me que, por uma vez sem exemplo, lhe dissesse o que queria que ela transmitiria aos serviços.
Fiquei à espera que alguém dos 'serviços' me ligasse. Nada. Fiquei sem saber se sempre iam mudar ou se mantinham. Voltei a ligar e ligar e ligar... sem que alguém me atendesse.
Até que a minha mãe recebeu uma carta com nova marcação. Felizmente não coincidiu com nenhum compromisso. Mas... e se coincidisse? O que é que eu fazia...?
Não seria mais fácil terem um serviço de atendimento em que agendassem as consultas em consenso com os interessados, sendo depois a data confirmada por sms automático como acontece nos hospitais privados?
Não senhor, escolhem eles as datas, mandam cartas, envelopam cartas, expedem correio (ou seja, gastam tempo e dinheiro) para prestar um mau serviço.
Reparem: nada disto tem a ver com temas clínicos. Isto é um mero assunto que um gestor saberia como resolver.
Exemplo 2
Outro caso. Numa das últimas vezes de consulta de acompanhamento, chegámos lá, tirámos a senha, depois fomos chamadas para a inscrição. Algum tempo depois, na nossa vez, a enfermeira chamou a minha mãe, colheram sangue, viram-lhe a tensão, etc. A seguir mandaram-na para a sala de espera, que o médico já chamava. Até aqui tudo bem.
Nestes dias, levanto-me bastante cedo para ir buscar a minha mãe e para estarmos lá cedo pois aquilo é por ordem de chegada.
Só que nesse dia a demora foi superior ao habitual. Passou uma hora, passaram duas, e nada. O médico não chamava. Nem a minha mãe nem ninguém. Fui lá dentro espreitar. As enfermeiras zangaram-se, que eu não podia ir lá sem a minha mãe ser chamada. Entretanto, o médico estava no gabinete, sozinho. Das vezes em que o vi, estava a olhar para o computador. Numa das vezes estava a escrever ao computador. Interpelei-o. Ficou varado. Disse que estava ocupado, tinha que acabar uma coisa e que esperássemos lá fora.
Lá fora, a minha mãe desesperava, enervada, que não se admitia uma coisa assim. Creio que já passava da uma da tarde. Uma outra senhora dizia que era diabética, que não podia estar tento tempo sem comer, que já estava a sentir-se mal.
E ninguém chamava ninguém.
Às tantas a senhora diabética foi-se embora, revoltada, 'Não há direito, saí eu tão cedo de casa, a que horas vou chegar a casa? Não estou nada bem...'. E foi-se embora. Ia a andar um bocado de lado, não sei se já meio cambaleante.
Quando chegou a nossa vez, eu disse ao médico: 'São horas a mais à espera, não lhe parece...?'
Resposta dele: 'Para a próxima não venha para aqui espreitar. E se não chamei ninguém foi porque tinha outra coisa para fazer!'
Respondi-lhe: 'Mas será que o atendimento de doentes, ainda por cima o tipo de doentes que é, não será prioritário? Olhe, uma senhora até teve que se ir embora...'
Resposta dele, interrompendo-me: 'Foi-se embora? Fez bem. Melhor assim. É menos uma...'
Fiquei furiosa: 'Acha...? Se ela se foi embora depois de horas à espera é porque estava a sentir-se mal...'
Já não respondeu nada. No fim, meio entredentes, pediu desculpa pela demora.
Ora, agora digo eu: se houvesse algum controlo automatizado e realizado em permanência para ver, por serviço ou por médico, quanto tempo os doentes estão à espera para serem atendidos, talvez os médicos gerissem o seu tempo e as suas tarefas de outra maneira. Assim, estão à vontade. Pode um médico deixar os doentes três horas ou mais à espera que ninguém o chamará para se explicar.
E nós que esperemos. E se não quisermos esperar, pelos vistos, melhor para eles, sempre somos 'menos uns'.
Exemplo 3
Outro exemplo.
Numa das vezes em que fui com a minha mãe para as urgências, no hospital, fomos ao início da tarde. Foi vista, fizeram análises, rx. E ficou à espera. Eu cá fora, ela lá dentro. Ia-lhe telefonando. Estava à espera. O tempo foi passando e ela à espera. Depois repetiu análises. E ficou à espera. Às tantas tinha anoitecido.
Pedi informação ao chamado Gabinete do Utente. Resposta: tinha feito exames, estava à espera dos resultados. Depois estava à espera de ser vista outra vez pelo médico.
Abreviando: já era de madrugada e nada. O Gabinete do Utente fechado. Ia-me contactando com ela por telemóvel mas a bateria do telemóvel dela estava quase esgotada e ela enervada por não ter onde carregá-lo e eu enervada não fosse ela ficar incontactável e eu ainda mais às cegas.
É que, com isto, eu continuava cá fora sem saber se a mandavam para casa, se quê.
Bem de madrugada, nem sei a que horas, finalmente chamaram-me. A minha mãe ia ficar em observação. Estava eu ao pé dela, lá dentro, para ela me dar os pertences todos, quando apareceu outro médico que ficou muito admirado por eu estar ali àquela hora. Disse-lhe que só então me tinham chamado para dizer que ela ia lá ficar. Ficou ainda mais admirado. Com a idade dela e aquelas patologias e sintomatologia, desde que entrou que era óbvio que ia ficar em observação e que o mais certo era ficar internada. Não percebia porque não me tinham informado logo que a viram à tarde.
Estive seguramente mais de 12 horas à espera.
Ora custaria muito terem respeito pelos acompanhantes e informarem-nos? Não se trata de actos clínicos mas de ter um processo que informe atempadamente os acompanhantes. Assim não.
Não nos deixam entrar, não nos informam. Aceitam como normal que as salas de espera e as entradas das Urgências estejam pejadas de gente que espera por notícias dos que estão lá dentro.
Exemplo 4
Este não tem directamente a ver com os exemplos anteriores. Mas conto na mesma. Em 2021 enviei para os serviços da Segurança Social um relatório médico elaborado pela Médica de Família dela por a minha mãe ter tido um problema oncológico e por outros problemas para que emitam um atestado de incapacidade que lhe permitirá ter um certo abatimento no IRS. O passo seguinte seria chamarem-na para uma Junta Médica. Meses depois, nada. Enviei um mail. Responderam que as Juntas Médicas estavam atrasadas. Mais de dois anos depois, voltei a contactar dizendo que o estado clínico da minha mãe era agora mais complexo. Informaram-me que agora estão a chamar os processos que entraram em 2020. E que enviasse novo relatório. Não sei quando será chamada.
Ora, pergunto eu: para que tem um doente que se sujeitar a uma Junta Médica se o médico de família já atestou o seu grau de incapacidade? Quando foi do meu pai, que tinha uma incapacidade superior a 90%, sem andar, sem ver, sem falar, sem se alimentar sozinho, estivemos para não o sujeitar a isso. Foi uma violência. Uma violência desnecessária. Mas tinham gastos mensais tão pesados que era também disparatado não pagarem um pouco menos de IRS. Mas, pergunto: para que andam os médicos, que são tão poucos, a perder tempo para atestarem o que está no relatório do Médico de Família? Para que sujeitam à situação de quase humilharem os doentes? Não deveriam ser os médicos a demonstrarem à Segurança Social que deveriam estar a exercer medicina e não a fazerem figura de verbo de encher, sacrificando os doentes e respectivos acompanhantes?
Ou seja...
O penúltimo caso aconteceu já comigo reformada. Mas quantas noites inteiras, directas mesmo, já eu ali fiz (nomeadamente quando o meu pai tinha pneumonias), sem saber se o mandavam para casa ou se ficava lá ou se me iam chamar? Por acaso não sou de faltar ao trabalho e ia a casa tomar banho e seguia para o trabalho. Mas quantas pessoas muito justamente não traziam um papel e faltavam ao trabalho? Que impacto na produtividade e na qualidade de vida se poderia conseguir com medidas simples como informar atempada e respeitosamente os acompanhantes?
Um gestor olha para estas coisas e põe-se logo a pensar que processos e sistemas se poderiam montar para que tudo fluísse melhor, e que processos se deveriam montar para monitorizar o bom funcionamento e o grau de satisfação dos doentes e acompanhantes?
Assim, são médicos que estão na sua luta, muito justamente com motivações clínicas, descurando completamente todos estes aspectos que, a eles, lhes parecem acessórios.
E isto são pequenos exemplos, ínfimos exemplos.
Por isso, volto a dizer: a gestão das unidades clínicas deve ser entregue a gestores. A direcção clínica, sim, claro, deve ser entregue a médicos.
E, repare-se: não falei uma única vez em lucros. Falei apenas num bom serviço.
Mas, se estou errada, queiram, por favor, pronunciar-se. Sou toda ouvidos.