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terça-feira, maio 05, 2026

Sobre a inimputabilidade

 

Há sempre aquilo, o lugar comum dos dois gumes. Está bem que não estava bem da cabeça quando cometeu o crime... mas o pobre coitado que foi assassinado...? E não pode haver um terceiro gume: o da possibilidade de voltar a acontecer?

Estes domínios, que me atraem  -- e, não por acaso, a primeira hipótese de opção profissional quando tive que escolher um curso era a psiquiatria, depois não por causa dos mortos nas aulas de anatomia, depois psicologia, mas, afinal, não porque não sabia se era reconhecido como curso superior --. têm sobre mim o fascínio de tudo se passar dentro da cabeça, de não serem visíveis a olho nu e de ainda estarmos longe de perceber o funcionamento do nosso cérebro.

Já contei que, quando ia para as minhas reuniões a norte (porque, a sul, ia eu a conduzir), tentava ir de boleia e, muitas vezes com um colega e amigo com quem tinha muita confiança. Uma das coisas que eu gostava era de ouvi-lo a falar da prima que era doida-varrida. E, por umas três ou quatro vezes, apanhei, ao vivo, aquelas delirantes conversas. Ele levava o telemóvel em alta voz e não tinha segredos em relação a mim. Cheguei também a apanhar dessas conversas no gabinete dele. Acabava por sair porque eram intermináveis, ele pura e simplesmente não conseguia pôr um fim naquilo. Tudo começava com: 'Ligaste-me?', e dizia o nome dele. Ele dizia que não. Ela insistia: 'Apareceu-me aqui o teu número. Ligaste...'. Ele voltava ao mesmo: 'Não, não te liguei.'. Por fim, pedia-lhe ele: 'Mas, vá, diz lá o que queres.'. E aí a coisa começava a ganhar graça. Lembro-me de uma vez em que ela queria que ele assinasse um documento. Ele perguntava: 'Ah, sim? Mas que documento?'. E ela dizia que o banco dizia que ele tinha que assinar um documento a dar-lhe, a ela, autorização para movimentar a conta. Ele, já não estranhando nada daquilo: 'Eu? Mas a que propósito? A conta é tua. Eu não tenho nada a ver com a tua conta.'. E ela muito admirada: 'Ah não? Julgava que já te tinhas feito titular da minha conta...'. Ele piscava-me o olho e continuava a conversa: 'Eu? Mas então uma pessoa pode fazer-se titular da conta de outra pessoa...?'. Ela ficava em silêncio. Depois dizia: 'Mas tu e a Elita não combinaram fazer-se titulares da minha conta? Ela disse-me que sim.'. Ele fazia-me sinal de que a paranoia dela começava a manifestar-se e retorquia: 'Ah foi? Ela disse-te isso? Mas como é que fazíamos isso sem a tua permissão?'. Silêncio. Ele contra-atacava: 'Mas não foi o Banco que te pediu uma assinatura minha para eu te autorizar a ti a movimentares a tua conta?'. Silêncio dela. Depois, como se já estivesse cansada: 'Eu não estou é a perceber já nada desta conversa...'. Ele concordava: 'Pois, também me parece que essa conversa não tem grande sentido, não.'. Ela ficava em silêncio, ouvia-se a respiração. Depois voltava: 'Mas então tu e a Elita não se fizeram titulares da minha conta?'. Ele começava a agastar-se: 'Olha, não vais volta ao mesmo, pois não? E era só isso? Como pelos vistos estás a fazer confusão, vai lá esclarecer melhor. Eu agora não me dá jeito, estou no carro.'. Silêncio. Depois: 'Ah, estás a conduzir... Então vê lá... Tem cuidado. Mas olha, quando chegares, depois liga-me que é para combinarmos.'. E ele já farto: 'Mas combinarmos o quê?'. E ela: 'Então, vires assinar o documento que o banco pediu.'. Ele: 'Mau... Outra vez...?'. E ela, a suspirar: 'Já estás outra vez impaciente, não se pode falar contigo. Não vês que tenho que esclarecer isto? Julgas que não percebo que já estás a despachar-me?'............

E isto poderia durar quase a viagem inteira, ele a querer desligar e ela a prendê-lo, em loop.

Solteira, sem irmãos, sem pais, apenas com dois primos. Professora do ensino secundário, a maior parte do tempo de baixa, com vários surtos psicóticos, os vizinhos a chamarem a polícia com o barulho que ela fazia supostamente a matar bichos que a queriam atacar. Com duas casas muito bem situadas, requintadamente mobiladas, com obras de arte valiosas, tudo herança dos pais, supostamente com uma conta bancária recheada. Segundo o meu amigo, para entrar em casa dela só de luvas e máscaras. Não limpava as casas nem queria lá ninguém, sempre a achar que todos a queriam roubar. De facto, ele e a prima Elita já tinham falado com ela algumas vezes que era melhor ela ter acompanhamento médico, ter alguém em casa a ajudá-la, que seria mais seguro que alguém mais pudesse também ter acesso à conta, talvez um advogado para ela não desconfiar que eles, os primos, queriam roubá-la. Nunca quis nada. Por duas ou três vezes a polícia levou-a para o hospital e ela deu o contacto dos primos. Lá chegados, encontraram-na a simular uma lucidez que não lhe conheciam. Dizia-me ele: 'Os malucos parecíamos nós, eu e a minha prima Elita'. Dizia também que dela queriam era distância pois estava sempre a insinuar que eles a queriam roubar, tinha chegado a dizer que já tinha apresentado queixa deles.

Mas, dizia-me ele: 'Se a vir, não diz. Vê-se que não anda muito bem arranjada, mas parece assim uma senhora fina, uma aristocrata um pouco alternativa, e consegue manter uma conversa completamente normal, disfarça completamente'.

E tive uma que trabalhava numa das minhas equipas, e cheguei a falar aqui dela, que nunca foi boa da cabeça, mas que chegou a um ponto que começou a ser ameaçadora, os meus colegas já temiam pela minha segurança, já me diziam para eu ter cuidado com ela. Sempre que podia, punha-se virada para mim, a olhar-me fixamente, com ar ameaçador. Chegou a entrar-me no gabinete uma vez que fiquei sozinha naquele piso, a trabalhar até tarde. Quando lhe perguntei o que estava ali a fazer, fez um sorrisinho maligno: 'Não tenha medo, não vou fazer-lhe mal.' E ficou ali a olhar para mim. Mas, ao mesmo tempo, com as pessoas com quem não tinha interacção directa, fazia-se de muito querida, fazia bolos e bolachinhas para oferecer aos colegas, desfazia-se em mesuras com toda a gente. E, no entanto, a nível pessoal a sua vida era uma complicação. Por exemplo, empreendeu que o irmão queria roubar os pais, empreendeu que o irmão tinha feito com que os pais a prejudicassem a ela, apresentou queixa na esquadra contra o irmão, o que levou o pai a cortar relações com ela, engendrava coisas surreais para virar a mãe, já meio demente, contra o irmão. E, a nível profissional, cometeu erros gravíssimos pelos quais responsabilizou outras pessoas, promoveu campanhas de vitimização e, ao mesmo tempo, de culpabilização dos colegas. Nem sei. Conseguiu que todos os colegas directos se incompatibilizassem com ela e que em alguns locais proibissem a sua entrada. Para eu me ver livre dela foi o cabo dos trabalhos. Finalmente, por acharmos que era um caso social, conseguimos mantê-la mas em funções inócuas, em que, na prática, não tinha que interagir com ninguém (pois já toda a gente queria distância e alguns já tinham medo dela), nem havia risco de causar danos com os seus erros. Já eu não estava lá quando soube que a mãe tinha morrido e que, no dia seguinte, apareceu lá, cabelo pintado de uma cor arrojada, vestida de um colorido exuberante e que ria e contava piadas por todo o lado, sem ninguém saber como reagir perante tão insólita reacção. 

Isto para dizer que muitas vezes se subestima o risco que pessoas assim podem representar para os outros. Num momento de paranoia, num surto psicótico, podem atacar alguém. Muitos dos que acabam a cometer crimes já antes tinham dado sinal de que a sua estabilidade mental e emocional não existia. 

O episódio que aqui partilho é disso exemplo.

O homem que perdeu a liberdade antes de ir para prisão | Do Outro Lado

O psiquiatra Sérgio Saraiva lembra o momento em que um doente percebeu que tinha cometido um crime violento. O caso mostrou-lhe, na prática, como a doença mental grave pode anular a vontade própria.


Desejo-vos um dia feliz

segunda-feira, dezembro 29, 2025

Solidão

 

No tema das doenças mentais há várias vertentes, qual delas a mais interessante e, talvez, a mais complexa. Como leiga, direi: misteriosa. 

De um lado há as causas, muitas vezes ocultas, da doença. E, num outro lado, há os meios para as descobrir ou controlar. De forma mais material, de um lado estão as pessoas que têm os problemas e de outro estão as pessoas que conseguem tratar as primeiras.

Se nem sempre é fácil a quem tem ataques de pânico ou sofre de depressão ou de uma qualquer outra patologia perceber o que origina as crises também não será menos verdade que também não é fácil encontrar o terapeuta que acerta na abordagem ou que consegue despertar a confiança virtuosa junto de quem precisa de apoio.

Tenho aqui partilhado diversos vídeos sobre o tema e fica claro que estes domínios não são da ordem da ciência exacta. E fica também claro que o tempo dos estigmas ou dos tabus deve ser do passado. Tem que ser do passado. Ninguém está livre de ter um problema destes ou de ter que lidar com quem esteja afectado. E é importante que todos estejamos sensibilizados para esta temática seja por nós seja para podermos compreender e apoiar quem disso precisar.

Mas se as causas profundas destes distúrbios são misteriosos, também o são os vínculos entre médico/psicólogo/terapeuta e o doente, ou a forma como o terapeuta tem que se despir de si próprio para conseguir alcançar o paciente.

Já falei várias vezes de uma amiga psiquiatra que é das pessoas com a vida mais problemática que conheço. Perdi-lhe, entretanto, o rasto pois divorciou-se e éramos amigos do casal e algo se desmoronou depois dos inúmeros conflitos que ensombraram o fim do casamento. O meu marido chegou a um ponto em que, de cada vez que estávamos com eles, me dizia: 'Não tenho paciência para aturar esta maluca'. E chegava a sair da sala em que ela estava de tal forma ficava exasperado. Sendo fisicamente uma bela mulher e aparentemente normal, era, de facto, uma mente perturbada. No entanto, a nível profissional, parece que era muito competente. Chegou a directora do serviço num grande hospital. E depois deixei de saber dela. Com isto das redes sociais, descobri, no outro dia, que é amiga de um amigo meu. E vive no estrangeiro. Hei-de saber dela. Mas o que me espanta é como é que uma pessoa com forte pancada consegue ajudar os doentes de foro mental a encontrarem equilíbrio quando ela é, na sua vida pessoal, completamente desequilibrada.

Conheço também uma psicóloga, embora não tão bem como a psiquiatra. Mas, do que lhe conheço, também lhe detecto aqui e ali uns pontos que me colocam alerta. No outro dia estava com duas amigas que a conhecem muito bem e que se referiram a ela como alguém com alguns desequilíbrios. E, no entanto, profissionalmente, é conceituada e reconhecida. Portanto, há nisto também um certo mistério.

O vídeo abaixo é muito interessante. Sem meias palavras, com muita objectividade, Henrique Dias descreve o surgimento dos primeiros sinais e guia-nos pelos caminhos da sua ansiedade, da sua depressão, dos tratamentos, da procura do terapeuta que, finalmente, conquistou a sua confiança e conseguiu conduzi-lo para fora dos labirintos onde o negrume imperava.

Diz ele que quem tem problemas de ansiedade ou depressão muitas vezes não o partilham. Talvez  por amor aos mais próximos, para não os preocuparem. Talvez por incapacidade. Talvez caiba, pois, a quem está bem a responsabilidade por estender a mão. Não deixemos que os que se sentem sós no seu sofrimento, por dificuldade em sair da solidão, não possam contar com a ajuda de quem poderia ser, de alguma forma, uma boia de salvação.

Henrique Dias, depressão e ansiedade. “Há uma solidão tremenda nas doenças mentais”

Foram precisos 12 anos, a partir do diagnóstico, para encontrar o psiquiatra certo para ele e a terapia que o pôs no caminho onde está hoje. Henrique Dias, guionista, autor de inúmeros textos no teatro e na televisão e um dos criadores da série “Pôr do Sol”, da RTP, era um jovem de 22 quando teve o primeiro ataque de pânico. No Labirinto — Conversas sobre Saúde Mental, fala do percurso entre o diagnóstico, o internamento num hospital psiquiátrico e a descoberta da psicanálise.


Desejo-vos uma boa semana

segunda-feira, novembro 24, 2025

AVC

 

Claro que o tema me deixa sempre um pouco perturbada. Posso não demonstrá-lo, aliás tento não demonstrar nada, mas claro que fico perturbada. 

Quando ouvi que o Markl tinha tido um AVC senti um baque. 

Só pensei: caraças, como é possível? 

Quando li que tinha sido um AVC hemorrágico retrocedi uns anos. Não vou repetir com pormenor o que já aqui contei algumas vezes. O que se passou, os antecedentes, as consequências. A minha avó, mãe do meu pai, também teve um AVC. E o irmão dela também. E creio que antes deles a minha bisavó também. Mas o meu incómodo não vem só do receio que esse seja também o meu destino. O meu incómodo vem de não ter estado devidamente informada quando o meu pai teve os AIT que precederam o AVC e não ter sido informada das causas e dos riscos de que coisa maior pudesse estar para vir. O meu incómodo vem de não ter percebido que o meu pai devia seguir, à risca, uma medicação nem ter sabido que, por achar que estava tudo bem e controlado, de vez em quando não a tomava. E vem de não ter sabido que ele andava com arritmias acentuadas (ou taquicardias?) e que não foi ao médico. E vem de pensar que, na noite em que ele teve o grande AVC, ele e a minha mãe demoraram tempo de mais para chamar a ambulância sem perceberem o que estava a passar-se e que, por isso, as consequências foram tão devastadoras. Ainda me lembro de um médico, ao ver os exames, o felicitar e dizer que quem tem um assim, tão extenso, tão profundo, geralmente não fica cá para contar. Devíamos ter ficado contentes por ele ser a excepção à estatística mas as suas limitações eram tantas, tão arrasadoras, que naquela altura não havia notícias que nos animassem. E, por isso, o meu incómodo vem também de me lembrar de todos os horrores pelos quais passou: a perda de tantas faculdades, a perda da autonomia, a perda da dignidade.

Felizmente parece que o filho do Markl estava por perto e se apercebeu e ligou para o 112 e tudo decorreu dentro da janela temporal em que os danos são limitados e, espero, reversíveis. 

Mas há efectivamente que estar atento até porque estamos sempre tão alheados das nossas fragilidades que, quando a coisa nos bate à porta, nem nos ocorre que uma coisa assim pode estar a acontecer. 

E digo isto porque, há anos, passei por isso. Creio que também já o contei. Num certo dia, um dia de trabalho normal, o meu marido acordou a sentir-se estranho. Dizia que estava um pouco tonto. Não liguei muito e ele também não. De manhã tínhamos os minutos contados, despachávamo-nos apressadamente para não chegarmos tarde. Ele dizia que parecia que estava  tonto e eu pensei que talvez estivesse com a tensão baixa. Sugeri que esperasse pelas nove horas para ir à farmácia ver a tensão. Ainda não tínhamos medidor em casa, estávamos tão longe dessas preocupações. Mas depois dizia que lhe doía já não me lembro se era o pescoço ou o ombro. Perguntei se teria dormido sobre aquele lado, se teria dado algum mau jeito na cama. Não me ocorreu, nem a ele, que esse sintoma estivesse relacionado com as tonturas. Ainda me lembro de ele se ter encostado à parede e isso não era nada normal nele. Estávamos ambos prontos para sair de casa. Mas depois ele disse que parecia que estava com um bocado de falta de ar. E eu, espantada, perguntei o que é que a falta de ar tinha a ver com o resto. Pareciam sintomas desencontrados, que nada tinham a ver uns com os outros. Felizmente calhou estarmos à porta do quarto do meu filho e por sorte ele ainda estava em casa e por sorte, apesar de estarmos a falar baixo, ele ouviu e, por sorte, foi mais inteligente que nós e, de um salto, vestiu-se e disse que ia com o pai ao hospital e nem sei como voou e levou o pai às urgências. E chegou a tempo. Não chegou a ser grave, foi medicado, interceptado a tempo, ficou em observação, e só então caímos na real e nos assustámos. E desde essa altura está medicado.  

Ora como é que nós, pessoas informadas, não percebemos o que estava a passar-se? Custa a crer. Estávamos tão longe de que uma coisa assim nos poderia acontecer, a nós, ainda jovens, saudáveis, que não conseguimos ver uma coisa tão óbvia.

O testemunho que abaixo partilho é uma experiência diferente. No caso dela foram os médicos que desvalorizaram o que estava a passar-se. Poderia já cá não estar para contar. Impressiona. 

A nossa vida é, tantas vezes, um milagre, uma questão de sorte por estarmos ao pé de quem nos acuda, por darmos com um médico que se interesse, que acerte no diagnóstico, por conseguirmos chegar a tempo e horas.

“Estava numa situação de bomba-relógio” | Quando a Minha Vida Mudou | Observador

Celmira Macedo tinha sintomas que ninguém valorizou. Sobreviveu a dois AVC até ter um diagnóstico e um tratamento adequado. Hoje vive com sintomas difíceis, mas invisíveis aos olhos dos outros.

Arterial é uma parceria do Observador com a Novartis. Tem a colaboração da Associação de Apoio aos Doentes com Insuficiência Cardíaca, da Fundação Portuguesa de Cardiologia, da Portugal AVC, da Sociedade Portuguesa do Acidente Vascular Cerebral, da Sociedade Portuguesa de Aterosclerose e da Sociedade Portuguesa de Cardiologia. 


Desejo-vos uma boa semana
Saúde
E que a boa sorte sempre vos acompanhe

terça-feira, outubro 21, 2025

Crianças de ninguém

 

Não vou escrever muito pois este é daqueles assuntos em que as palavras se me extinguem. Nem é uma questão de não conseguir conceber, é mesmo mais que isso, é uma repulsa profunda, uma revolta que vem do mais íntimo de mim. Pensar que alguém se aproveita da inocência e da incapacidade de defesa de uma criança para a molestar sexualmente deixa-me transtornada.

Giuffre (then Virginia Roberts) around the time she met Epstein and Maxwell.
Photograph: courtesy of Virginia Roberts Giuffre

E nisto não há gradações pois sou incapaz de pensar que é ainda mais grave se forem pessoas que violam crianças institucionalizadas, totalmente indefesas, ou, pior ainda, se as violações forem perpetradas por gente ligada à igreja, ou se pior ainda é se for um pai a fazê-lo a um filho ou filha. É tudo igualmente mau de mais, tudo desnaturado, tudo demasiado insuportável. Não consigo sequer pensar no trauma que isso deve causar numa criança, na vergonha, no asco, no medo que ficam inscritos no seu corpo. E depois sabe-se que quando os crimes de abuso ocorrem, é sempre pedido às crianças que guardem segredo, e é pedido sob ameaça, por vezes velada ou sob chantagem. As crianças tantas vezes a sentirem-se cúmplices, talvez até culpadas.

Não consigo sequer pensar o que é crescer com uma mancha destas dentro de si. Compreendo que quem é vítima de abusos o esconda, tente esquecer, não queira que ninguém saiba. Expor o assunto deve ser quase como se a sua intimidade voltasse a ser devassada. Não consigo imaginar. Deve ser horrível.

Se há matéria em que as minhas entranhas se reviram é esta. Dou por mim a pensar que deveria conseguir sentir alguma compaixão pelas almas perdidas, perturbadas, que o praticam, que deveria tentar entender a sua história, se calhar também uma história de abandono e abusos. Mas não consigo, é mais forte que eu. Só penso que pessoas assim, abusadoras, violadoras, têm que estar enjauladas, longe de crianças, impedidas de voltarem a praticar os mesmos actos.

Li há dias, no Guardian, um excerto do livro póstumo de Virginia Roberts Giuffre, Nobody’s Girl: A Memoir of Surviving Abuse and Fighting for Justice, no qual ela relata como foi parar às mãos dos dois predadores sexuais, Epstein e Maxwell, qual deles o mais sórdido e depravado, qual deles o mais perverso e com vida mais estranha, mais sombria. 

Li e fiquei incomodada. Tudo acontecia com a naturalidade de quem se comporta como se tudo pudesse e tudo lhe fosse permitido. Usavam e abusavam, traficavam, cediam, emprestavam. Entre sorrisos, entre promessas, entre gentilezas. Eles dois, a dupla Epstein e Maxwell, o Príncipe André e os bilionários a quem ela se refere por números. Tinha 16, depois 17 anos. Não tinha seis ou sete. Já não teria a inocência da primeira infância. Tinha, isso sim, os sonhos de uma jovem e sonhadora adolescente. E nessa idade, por muito que já se tenha passado -- e Virginia já tinha sido abusada em criança -- ainda se acredita que uma vida melhor pode estar pela frente. Desde que obedeça.

Na sequência da publicação desse excerto e por tudo o que tem estado a vir a lume, o canalha real já abdicou dos títulos. Mas, não sei porquê, não é detido para interrogatório. E, dadas as provas e os testemunhos, porque não é julgado e condenado. Velhaco. Ele e a mulherzinha dele, ambos nas mãos de Epstein, ambos a receberem favores e milhões dele. A troco de quê? A Justiça britânica não deveria averiguar?

Virginia, entretanto, como vários dos envolvidos neste escândalo, também já cá não está. Mais um suicídio nesta teia. Para ela, a sua caminhada de denúncia acabou.

Mas para tantas vítimas desta rede de pedofilia que alimentava o vício ou a luxúria animalesca de tantos 'ricos e poderosos' o pesadelo ainda não acabou. Os chamados ficheiros Epstein continuam a não ser divulgados.

Mas se lá o escândalo atingiu contornos hollywoodescos, já o que se passa na casa de tantas crianças ou em instituições em Portugal e por todo o mundo é igualmente sinistro, atormentador. 

Partilho o vídeo em que a psicóloga Gabriela Salazar fala de uma menina de 11 anos, violada pelo pai, que não percebia de que é que era culpada para ter que sair de casa e afastar-se dos seus amigos. Tudo doloroso de mais.

Por isso, considero que talvez quanto mais se falar destes fenómenos horrendos mais algumas vítimas ganhem coragem para denunciar os algozes que as molestam.

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“Do Outro Lado.” A menina que era vítima mas achava que era culpada

A primeira paciente de Gabriela Salazar, ainda durante o estágio, foi uma criança de onze anos vítima de abusos sexuais. Este caso acabou por definir o rumo da carreira da psicóloga.


Desejo-vos uma feliz terça-feira

sábado, outubro 18, 2025

Ataques de pânico

 

Já aqui trouxe várias vezes o tema das questões mentais. Sou muito sensível a isso. Aliás, recordo que, quando acabei o liceu, uma das minhas primeiras opções era a Psiquiatria. Pu-la de lado pois tirar primeiro medicina e ver-me confrontada com a presença mortos nas aulas de Anatomia era-me insuportável. Depois virei-me para Psicologia e ainda me lembro de andar com a minha mãe a procurar informação. Creio que fomos ao ISPA. Sem internet e sem informação facilmente consultável, tudo era complicado. Não conseguimos obter a certeza de que o curso era uma licenciatura e que os psicólogos poderiam exercer de forma certificada. Mas, sei-o agora, a informação que obtivemos não deve ter sido a mais correcta pois o que não falta são psicólogos mais ou menos da minha idade. desisti e fui para outra área completamente diferente. Mas o gosto por compreender o outro e de ajudar quem precisa na medida das minhas possibilidades manteve-se.

E gosto de compreender o que se esconde sob as aparências e gosto de compreender os mecanismos físicos que fazem com que tantas vezes reacções psicológicas sejam percepcionadas como reacções físicas. E são mesmo físicas. Só que o que as desencadeia não é muitas vezes uma doença 'física' mas uma reacção emocional inoportuna, descontrolada.

Felizmente tenho sido bafejada pela sorte e, até hoje, nunca me aconteceu que a ansiedade passasse das marcas e desencadeassem em mim reacções que não conseguisse controlar. Profissionalmente lidei com assiduidade com situações de stress, tive frequentemente de me expor, apresentando opiniões divergentes da linha mais corrente, tive que enfrentar quem queria impor a sua vontade contra a minha. Acontece que, nesses momentos, uma calma que até enervava os outros parecia tomar conta de mim. Pessoalmente, em particular com os problemas de saúde dos meus pais, quer com o lento e doloroso declínio do meu pai quer com a situação complexa da minha mãe que encobriu um segredo enquanto se deixava consumir pelo medo que não assumia, não têm conta os momentos de tremenda ansiedade que se ia progressivamente instalando dentro de mim, tendo inclusivamente pensado que era quase impossível que uma depressão não me colhesse. Mas, não sei como, o meu corpo sempre se conseguiu aguentar. Sorte, apenas. 

Mas trabalhei com um jovem alegre, talentoso, muito competente, reconhecido por todos, acarinhado por todos, que um dia me confessou que de vez em quando tinha tremendos ataques de pânico. Contava que apareciam do nada, muitas vezes quando até considerava que estava calmo, muitas vezes à noite, em casa. Como morava sozinho, tão aflito ficava, tão convencido ficava que estava em risco de vida mas, ao mesmo tempo, também sabendo que já antes tinha estado no hospital e que lhe tinham dito que eram ataques de pânico, saía de casa e ia para dentro do carro que estava estacionado na rua. Pensava que ali mais facilmente pediria ajuda se estivesse mesmo a morrer. Quando ele me contou, fiquei admiradíssima. Nunca tinha percebido que ele fosse uma pessoa ansiosa. 'Disfarço bem', disse-me ele. Quanto tentei perceber o que lhe provocava a ansiedade a ponto de ter ataques de pânico, disse-me: 'Tudo'. E, no entanto, parecia sempre bem disposto. 

Ou seja, as pessoas desenvolvem mecanismos para se protegerem. Ou melhor, para esconderem dos outros. E esses mecanismos nem sempre são os melhores. Quando lhe perguntei porque não se tratava disse-me que não tinha tempo, que eu sabia bem como era a sua agenda, o seu ritmo de trabalho, o seu dia a dia. Não aceitei pois se tinha tempo para ir ao ginásio ou ao dentista também podia conseguir tempo para se tratar. Desvalorizou: 'Vou conseguindo controlar. Isto passa.'. Ainda insisti mas percebi que já estava era arrependido de me ter falado nisto.

Recorrer a tratamento psicoterapêutico ainda é um passo que muitas pessoas não conseguem dar. E, no entanto, como poderia ser mais leve a sua vida, se o conseguissem.

Partilho um vídeo em que um psiquiatra fala de um doente seu e, em paralelo, fala de problema idêntico pelo qual passou. Penso que alertar para a necessidade de levar a sério e tratar devidamente as questões de saúde mental nunca será demais.

O doente que superou os ataques de pânico | Do Outro Lado

Ao acompanhar um jovem com ataques de pânico, o psiquiatra João Perestrelo recordou-se da sua própria luta, na juventude, e da coragem necessária para enfrentar a ansiedade


Desejo-vos um bom sábado

domingo, janeiro 07, 2024

Do outro lado --- casos reais de saúde mental contados por profissionais da área

 

Nos dias que atravesso a relação entre saúde física e saúde mental é recorrente. Dito desta maneira, se calhar fica a ideia, errada, de que a saúde mental não é física. Creio que é embora nem sempre rastreável através de exames médicos. Ou seja, não há controlo analítico ou RX ou ecografias para se perceber se uma pessoa está com uma depressão, sofre do Síndrome de Munchaüsen ou se, simplesmente, está a atravessa um período conturbado. E se nos é relativamente fácil saber que, se estamos com uma patologia evidente, por exemplo, se fracturamos um osso, devemos procurar ajuda médica, já para as questões mentais pode não ser óbvio. Ou porque achamos que faz parte da nossa maneira de ser, ou seja, não é coisa que deva ser tratada, ou é coisa passageira que saberemos ultrapassar, creio que não é às primeiras que as pessoas, em geral, percebem que devem procurar ajuda.

Ao longo da minha vida tenho-me cruzado com pessoas que, creio, teriam ganho em ter tido acompanhamento psicológico. Uma amiga, por exemplo, saiu directamente de um comportamento tímido e reservado para um totalmente desbragado, sem prestar atenção a nada do que lhe dissessem, entregando-se, sem defesas, a toda a espécie de situações que eram, à vista de todos, situações inviáveis, perigosas, ratoeiras nas quais se ia perder. E, no entanto, atirava-se de cabeça. E saiu de umas para outras, num percurso errático que lhe deixou marcas. Penso que ainda hoje continua a ser como era quando entrou neste registo: atirando-se de cabeça, adolescente até à medula, sem conseguir dosear as emoções, mostrando de forma inocente as suas perplexidades e frustrações. Não sei como é que um psicólogo poderia ter ajudado mas acredito que sim.

E tive um colaborador que era calado, calado, calado. Nunca se percebia o que lhe ia na cabeça, nunca dava opinião, nunca era capaz de fazer um ponto de situação razoável pois, temendo as dificuldades que sentiria até o trabalho estar concluído, dizia sempre que não sabia quando o acabaria. Tive vários problemas por causa dele. Ninguém conseguia relacionar-se de forma saudável com ele. Parecia ter sempre capital de queixa, notoriamente sentia-se injustiçado, mas nada fazia para contrariar essa situação. Por exemplo, numa reunião, pedia sugestões sobre um tema. As pessoas falavam, opinavam, sugeriam. Ele nada. Quando eu lhe perguntava qual a opinião, fazia um esgar de contrariedade, quase sarcástico, dizia que não queria dizer nada porque os outros antes já tinham dito tudo. Uma vez, sem ninguém perceber porquê, do nada, deu-lhe um ataque de fúria, levantou-se, pegou na cadeira em peso e bateu com ela no chão até a despedaçar. Depois virou costas e foi-se embora. À sua volta, estavam todos estarrecidos. Não vi. Contaram-me. Na verdade, acho que ficaram em pânico pois ele passou do habitual estado de quase zombie a monstro desaustinado. No dia seguinte, chamei-o e perguntei-lhe o que tinha sucedido. Com ar espantado, certamente fingidamente espantado, disse-me que se tinha passado porque a cadeira não prestava, que estava sempre a desencaixar-se mas que tinha vindo mais cedo e a tinha montado, que já estava boa. Penso que era um caso em que teria beneficiado de acompanhamento pois alguma coisa naquela cabeça não estava bem encaixada.

E já nem falo numa outra que, sob a capa da santinha, da boazinha que levava bolinhos feitos por ela para distribuir pelos colegas, que trabalhava horas a fio, até de madrugada e que surpreendia todos pois quando os mais madrugadores chegavam já lá a encontravam, frequentemente fazendo trabalho que nem lhe competia, numa de ser amiga dos que precisavam de ajuda, e que veio a revelar ser dona de uma mente perversa, causando sérias perturbações familiares, sérios danos profissionais, chegando até a causar medo a quem com ela lidava mais de perto. Face à gravidade dos casos em que a soube envolvida, mais diria que seria caso até de internamento.

E, do que tenho visto e sabido, não apenas beneficiam de acompanhamento as pessoas que padecem de algum problema, como os acima referidos, como aqueles que, tendo que lidar com essas pessoas, chegam a um ponto de exaustão ou infelicidade ou permanente dúvida sobre como lidar com a situação que, precisam mesmo de alguém sabedor que, de fora, ajude a encaixar as peças soltas do puzzle e forneça pistas sobre como melhor levar a vida adiante.

O Observador, que não tenho por hábito acompanhar enquanto jornal, tem esta louvável iniciativa de ter um 'canal' em que se debruça sobre os labirintos da mente, quer convidando pessoas a falar sobre os seus problemas e sobre como conseguiram procurar alívio com acompanhamento profissional quer convidando justamente diversos profissionais da área da saúde mental que aqui falam sobre casos concretos. "Do Outro Lado" é a nova rubrica do projeto Mental, do Observador.

Escolho, para já, apenas dois dos vídeos, o primeiro porque me impressionou bastante, até porque desconhecia que havia um síndrome identificado para este tipo de patologia, e o segundo porque me fez lembrar o caso de um colega dos meus filhos que me preocupou bastante na altura e o do filho de um colega meu, um rapaz que, de tão viciado, não apenas deixou de estudar como quase deixou de viver, tornando-se até agressivo para os pais.

“Do Outro Lado”. A doente borderline que inventava sintomas para ser cuidada pelos médicos

A vontade de ajudar a primeira ("e última") paciente com síndrome de Münchhausen levou o psiquiatra João Carlos Melo a uma dedicação que desafia os limites habituais da relação terapêutica.


"Do Outro Lado". O caso do rapaz que jogava online 22 horas por dia

Um paciente dependente de videojogos que não falava nas primeiras consultas. Uma psicóloga grávida pela primeira vez. O caso ajudou Rosário Carmona e Costa a tornar-se a psicoterapeuta que é hoje. 

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Desejo-vos um belo dia de domingo
Saúde. Serenidade. Paz.

segunda-feira, dezembro 18, 2023

Fernando Alvim e o défice de atenção
[LABIRINTO - CONVERSAS SOBRE SAÚDE MENTAL]

 

Creio que já falei aqui de uma colaboradora que tive que era deveras obesa. Chegou a fazer cirurgias para reduzir o peito e para reduzir o estômago. Mas se, mais ou menos, víamos o efeito logo a seguir, a verdade é que um ou dois anos depois já não víamos diferença nenhuma, continuava obesa.

Quando vi os filhos fiquei um pouco chocada pois as crianças eram também obesas. Dizia-me ela que os miúdos só queriam comer pão de forma daquele muito branco e sem côdea, só queriam beber coca cola, comer gomas. Eu dizia-lhe que não desse isso aos filhos, que isso as engordava, que tivesse cuidado. Ela ria-se e dizia que eles saíam a ela, eram uns gulosos, e se recusavam a comer outro tipo de comida.

Entretanto, o rapazinho era muito problemático. Dizia ela que o menino era hiperactivo e tinha défice de atenção e que tinha que tomar ritalina. Pensei -- mas não disse -- que se calhar a quantidade de calorias que a criança ingeria tinha alguma coisa a ver com isso. Contudo, se andava a ser clinicamente seguido, certamente a obesidade tinha sido tida em atenção e, se calhar, o défice de atenção tem causas distintas, ou seja, não tem a ver com terem energia a mais, fruto do excesso de calorias.

Naqueles dias em que as crianças estão de férias mas os pais não, ela pedia se podia ter lá os miúdos com ela. Claro que sim. Ela levava os tablets para os miúdos estarem entretidos. Eu ia lá vê-los e falar com eles e tentava que fizessem desenhos, escrevessem histórias, mas os miúdos não estavam nem aí. Mas até aí eu ainda compreendia. Mas ficava era muito estupefacta com os pacotes de bolachas, daquelas altamente amanteigadas ou com chocolates e recheios, bebidas completamente desaconselháveis e toda a espécie de farnel hipercalórico que a mãe lhes punha em cima das mesas. Com o máximo de diplomacia, eu perguntava à mãe se não podia evitar aqueles alimentos em tal quantidade e ela, com o ar mais natural, dizia que tinha que ser para ver se estavam sossegados e sem levantarem ondas, senão não conseguiria aguentá-los quietos durante tanto tempo. Eu ficava estarrecida.

Com os meus filhos fui fundamentalista e eles ainda hoje se queixam disso. Não havia internet para me informar mas tinha livros de medicina infantil que não largava e seguia à risca todas as recomendações. Não havia produtos com aditivos suspeitos na alimentação deles. Só lhes dava comida tida por saudável. Por mais que se sentissem infelizes por eu não lhes dar o que eles viam os amigos comer, eu não abria mão com medo que um cagajésimo de miligrama de algum produto menos saudável viesse a fazer-lhes um mal terrível para o resto da vida. Em contrapartida, queria que comessem todos os dias os alimentos tidos por recomendáveis. Quando eram bebés ou pouco mais que isso, para onde eu ia, ia com caixinhas de comida feita em casa pois era a única maneira de ter a certeza que as vitaminas, os sais minerais, as proteínas, os hidratos, etc, estavam todos na dose certa e que tinham sido cozinhados como mandavam as boas regras. Os meus pais e o meu marido e o resto da família achavam que se poderia abrir uma ou outra excepção e eu, por vezes, com pena das crianças, violentava a minha consciência e lá deixava que acontecesse uma extravagância, dizendo a mim própria, que era uma vez sem excepção. 

Por exemplo, os meus cunhados eram o oposto. Iam com os filhos, ainda bebés, sem levarem nada a não ser cerelac. Não me esqueço de um dia em que resolvemos ir fazer um grande picnic perto da praia. Outros tempos. Fomos antes ao mercado comprar peixe e o resto da comida e fomos fazer uma sardinhada. Era um grupo enorme. Um dos meus sobrinhos teria um sete ou oito meses, nem sei, talvez menos. Éramos talvez tantos miúdos quantos graúdos. Entre irmãos e primos era um grupo grande de miudagem. Pois bem, o bebé foi entregue ao cuidado dos diversos primos. Os rapazinhos talvez jogassem à bola ou trepassem às árvores e as miúdas ocuparam-se do bebé. Era literalmente um boneco na mão das primas, todas pequenas. Pois deram-lhe à boca sardinhas assadas, pão com molho de sardinha, batatas, deram-lhe melão. E ele tudo comeu. Ao lanche já não me lembro o que comeu mas qualquer coisa foi, certamente o mesmo que os outros, e, como ficámos até tarde, mais para a noite, fizeram-lhe uma papa cérelac. Comeu tudo que se regalou, sem protestar. E este regime liberal mal não lhe fez pois, que se saiba, é um adulto saudável. 

De todos, comparando-o com a irmã e com os vários primos, o mais irrequieto de todos sempre foi o meu filho. Muitas vezes eu pensava que ele era hiperactivo. Muitos vezes penso que ainda é. A quantidade de actividades que ele faz, parecendo ter sempre necessidade de fazer coisas para se cansar sempre me deixou espantada.  Mesmo quando estava na minha barriga, deixava-me até incomodada com a violência das cambalhotas que cá dava dentro. E quando estava já enorme, mais para o fim da gravidez, a violência dos esticões que dava fazia-me sentir que me ia pontapear o estômago para fora da boca. E, quando nasceu e ficou a dormir no porta bebés, virava-se de tal maneira que punha uma perna quase de fora, parecendo, por diversas vezes, que ia virar o porta bebés ou cair de lá. Eu não conseguia perceber a força que ele tinha para, tão pequeno, fazer aqueles movimentos. Por isso, apesar de ainda tão bebé, tive que pô-lo logo na cama de grades que era da irmã e tivemos que comprar à pressa uma cama grande para a minha filha. E depois, quando tinha dez meses, começou a fazer birras diabólicas durante a noite, puxava os vómitos e vomitava-se, levantava-se e recusava-se a deitar-se e uma vez, não sei como, trepou e atirou-se da cama, pregando-nos um susto do caraças ao darmos com ele caído no chão. Exausta, sem conseguir dormir, sem sabermos já o que fazer (ainda por cima, sempre se recusou a usar chucha), resolvemos fazer uma experiência: pô-lo a dormir na cama grande da irmã. E ela, coitada, foi dormir para o sofá cama. Pois foi remédio santo. Passou a dormir que foi uma maravilha. Eu punha almofadas no chão não fosse ele, irrequieto como era, cair da cama. Mas caía e levantava-se. Nunca mais deu noites desgraçadas, nunca, nunca mais. E, claro, tivemos outra vez que encomendar à pressa uma cama para a minha filha. 

Mas se era hiperactivo, défice de atenção não tinha, nem tem. Focava-se totalmente, concentrado no que lhe agradava. Por isso, nunca considerei que fosse caso para preocupação. 

Mas ocorreu-me isto, certamente a despropósito, ao ver a entrevista do Fernando Alvim no âmbito da rubrica Labirinto, as interessantes entrevistas do Observador sobre temas de saúde mental. 

Quando trabalhava, se o horário coincidia, vinha na companhia do Alvim na sua Prova Oral. Quando dava na televisão também não perdia. Ainda agora, se calha virmos no carro àquela hora, é certo e sabido que nos colocamos na Antena 3 para virmos de gosto na companhia do grande Alvim. É ímpar. É genuíno. Muito bom. E o seu testemunho é importantíssimo para sensibilizar as pessoas para a necessidade de identificar e tratar as perturbações de comportamento que têm origem em alterações a nível da saúde mental.

Fernando Alvim e o défice de atenção. "É muito difícil estar concentrado numa coisa"

Cresceu como um miúdo agitado, sempre a fazer muitas coisas, mas só em adulto, há muito pouco tempo, o apresentador foi diagnosticado. Um acaso que, diz, lhe mudou a vida. 

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Agradeço os comentários e os mails. Têm sido muito importantes para mim.

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Desejo-vos uma boa semana

Saúde. Coragem. Força. Paz.

segunda-feira, março 13, 2023

Ataques de pânico
Anabela Figueiredo e a ansiedade. “Deixei de andar de carro, de jantar com amigos”

 

Não é tema para noite de Óscares nem sequer para passadeira vermelha.

Mas também não tenho frequentado o escurinho das salas de cinema para aqui poder botar faladura sobre matérias cinéfilas.

Portanto, com vossa licença, vou falar de um tema pouco sexy.

Já aqui o referi: felizmente não conheço a experiência dos ataques de pânico pelo que não posso aqui trazer o meu testemunho pessoal. Contudo, conheço quem já tenha passado por essa terrível experiência.

Ainda não há muito, uma pessoa me contava que, na noite anterior, tinha tido um angustiante ataque de pânico. Depois de muitos exames médicos em que tentou despistar diferentes doenças pois tinha a certeza de que tinha um problema físico, concreto, com sintomas muito evidentes, e porque aquelas manifestações exuberantes aconteciam do nada, sem que estivesse nervoso, tinha finalmente reconhecido que o problema de que padece é do foro mental.

Por exemplo, nesse dia, segundo me contou, estava em casa a cozinhar, tranquilamente. 

Como vive sozinho, apesar de já saber que são ataques de pânico e não cardíacos, ainda tem um certo receio de que alguma consequência grave ocorra e, por isso, quando isso acontece e está em casa, vai para o carro. Acha que, em situação de ser preciso algum socorro, na rua, mesmo que dentro do carro, estará mais perto de alguém que passe. 

Diz que já identifica quando os ataques estão a chegar e já consegue ter algum autodomínio nessas situações.

Tem uma vida profissional muito exigente e, diria, muito stressante. A nível pessoal tem também alguns factores que não são especialmente estabilizadores. 

Por causa dos ataques de pânico que são, segundo ele, incapacitantes, começou a ter algum receio de conduzir. E esse facto, o de, por vezes, não conduzir, é um outro factor que, por si, também não ajuda pois perguntam-lhe porque não usa o carro e ele, não querendo contar o que se passa, vê-se na necessidade de inventar desculpas que a ele mesmo parecem esfarrapadas, deixando-o ainda mais enervado. E, uma vez mais, está a ocultar coisas, deixando-o ainda mais inseguro, com receio que descubram. Tem receio que, se descobrirem que tem ataques de pânico, o considerem pouco apto para as suas funções ou gozem com ele.

Perguntei ao Chat GPT o que são ataques de pânico e eis a resposta:

Ataques de pânico são episódios súbitos e intensos de medo e ansiedade que podem ocorrer sem aviso prévio. Eles geralmente duram de 5 a 20 minutos, mas podem durar mais em casos extremos. Durante um ataque de pânico, a pessoa pode sentir uma sensação intensa de perigo iminente ou de morte iminente, mesmo que não haja uma ameaça real presente. Alguns sintomas comuns de ataques de pânico incluem:

    • Palpitações cardíacas ou taquicardia
    • Sensação de sufocamento ou falta de ar
    • Tremores ou tremedeira
    • Suor excessivo ou frio
    • Náusea ou dor abdominal
    • Tontura ou vertigem
    • Sensação de irrealidade ou despersonalização
    • Medo de perder o controle ou enlouquecer

Os ataques de pânico podem ocorrer como resultado de transtornos de ansiedade, como o transtorno do pânico, ou podem ser desencadeados por eventos estressantes, como a morte de um ente querido, mudanças na vida, problemas de relacionamento ou problemas de saúde. O tratamento para ataques de pânico pode incluir medicação, psicoterapia ou uma combinação de ambos. É importante procurar ajuda profissional se você está sofrendo de ataques de pânico ou qualquer outro problema de saúde mental.

Porque se chamam ataques de pânico se a pessoa aparentemente não sente medo?

Embora possa parecer que as pessoas que estão tendo um ataque de pânico não estão sentindo medo, na realidade elas estão experimentando um medo intenso e incontrolável. O nome "ataque de pânico" se refere à intensidade e rapidez com que os sintomas aparecem, assim como à sensação de perigo iminente que muitas pessoas descrevem sentir durante um ataque.

Os sintomas de um ataque de pânico, incluindo palpitações cardíacas, sudorese, falta de ar, tontura e tremores, podem ser tão intensos que a pessoa pode sentir que está tendo um ataque cardíaco ou morrendo. A sensação de medo e terror que acompanha esses sintomas pode ser esmagadora e incapacitante.

Embora as pessoas que têm ataques de pânico possam parecer calmas em outras circunstâncias, isso não significa que elas não sintam medo ou ansiedade. Na verdade, muitas pessoas com transtornos de ansiedade, incluindo transtornos de pânico, podem ser altamente sensíveis ao estresse e à mudança emocional, o que pode desencadear um ataque de pânico, mesmo quando não há um evento estressante aparente.

Qual a melhor estratégia para uma pessoa lidar com um ataque de pânico?

Existem várias estratégias que podem ajudar uma pessoa a lidar com um ataque de pânico. Aqui estão algumas sugestões:

  • Respire profundamente: A respiração profunda pode ajudar a reduzir os sintomas de ansiedade. Tente respirar lentamente pelo nariz, segure a respiração por alguns segundos e expire lentamente pela boca. Repita esse processo várias vezes até que se sinta mais calmo.
  • Identifique e desafie seus pensamentos: Durante um ataque de pânico, é comum ter pensamentos negativos e assustadores. Tente identificar esses pensamentos e desafiá-los, questionando sua validade e racionalidade.
  • Pratique a atenção plena: A atenção plena envolve concentrar-se no presente e aceitar seus pensamentos e emoções sem julgamento. Isso pode ajudar a acalmar a mente e reduzir a ansiedade. Tente se concentrar em sua respiração, notando como o ar entra e sai do corpo.
  • Use técnicas de relaxamento: Existem várias técnicas de relaxamento que podem ajudar a reduzir os sintomas de ansiedade, como meditação, yoga e exercícios de relaxamento muscular progressivo.
  • Busque apoio: É importante procurar ajuda de outras pessoas durante um ataque de pânico. Fale com um amigo, membro da família ou profissional de saúde mental sobre o que está acontecendo e como se sente.
  • Considere a terapia: A terapia, como a terapia cognitivo-comportamental (TCC), pode ajudar a identificar padrões de pensamento e comportamento que contribuem para ataques de pânico e ajudar a desenvolver estratégias para lidar com eles.
  • Considere a medicação: Em alguns casos, a medicação pode ser prescrita para ajudar a controlar os sintomas de ansiedade. Fale com um profissional de saúde mental sobre as opções disponíveis.

Lidar com um ataque de pânico pode ser assustador, mas há muitas estratégias eficazes que podem ajudar a reduzir os sintomas e controlar a ansiedade. É importante encontrar o que funciona melhor para você e procurar ajuda profissional, se necessário.

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Está disponível mais um vídeo da fantástica série sobre os Labirinto - Conversas sobre Saúde Mental do Observador. 

É necessária muita coragem para uma pessoa expor desta forma as suas fragilidades. É sobretudo um acto de generosidade pois, com o exemplo, estes testemunhos ajudam certamente muitas pessoas que sofrem em silêncio este tormento.

Anabela Figueiredo e a ansiedade. “Deixei de andar de carro, de jantar com amigos”

Começou com um ataque de pânico, acabou por transformar-se em fobias que lhe limitaram severamente a vida. Gestora, Anabela Figueiredo só nunca deixou de trabalhar — e hoje interroga-se porquê. 

Desejo-vos uma boa semana a começar já nesta segunda-feira
Saúde. Serenidade. Força. Paz.


quarta-feira, dezembro 21, 2022

Pedro Barroso, um pedaço de mau caminho, poderoso, bem sucedido... e viciado em cocaína.
[Mais um testemunho poderoso da série Labirinto - Converss sobre saúde mental]

 

Como não costumo frequentar as telenovelas portuguesas não conheço o trabalho de Pedro Barroso.  Tinha vagamente ideia de se tratar de um actor com um físico invejável. 

No outro dia, numa de zapping, parámos num daqueles programas em que as pessoas conhecidas da televisão são exibidas, são usadas como entretenimento. Provavelmente elas acharão que são elas próprias que decidem exibir-se e, se calhar, acreditam que se divertem. Mas facilmente percebemos que estão apenas a ser um veículo de promoção para os programas de televisão em que participam ou para marcas cujos produtos usam como se não passassem de uma montra.

Esses programas são o cúmulo da futilidade. Todos se riem muito e todos ostentam felicidade, momentos de amor com a 'nova' relação ou de entusiasmo com o 'novo' projecto. Os entrevistadores geralmente colocam questões infantilóides, desprovidas de sentido, e os entrevistados, sempre sorrindo muito, dão respostas muito parvas. 

Se calhar durante uns tempos gostam, se calhar sabe-lhes bem o dinheiro que ganham. Mas é mais do que natural que, ao fim de algum tempo, se sintam vazios, esvaziados até às entranhas, sugados, incapazes de se aguentarem mais naquele registo.

Vemo-los elegantes, fisicamente muito bem tratados, muito bem arranjados. E, depois, de vez em quando somos surpreendidos com a notícia de que atravessaram períodos de vício, períodos de depressão. 

Já aqui falei de um conhecido próximo, dantes dir-se-ia 'prente' ou 'aparentado'. Jovem, bem sucedido, bem disposto, sempre com amigos, com uma vida amorosa preenchida, uma família amiga. E, no entanto, aos poucos foram-se percebendo alguns aspectos que pareciam não bater muito certo. Muitas vezes, em reuniões familiares, afastava-se e, quando regressava, vinha eufórico, eléctrico, esfusiante. Não se percebia de onde tinha surgido tamanha energia. Depois, começou a pedir dinheiro emprestado. Nunca se percebia bem para quê. Pertencendo a uma família abastada, tendo uma boa profissão, não tendo despesas elevadas, não se percebia. Mas pedia dinheiro ora a um, ora a outro e, como era tema sensível, os que emprestavam guardavam reserva. Logo, não sabiam uns dos outros. Ou seja, ninguém sabia a dimensão que as dívidas estavam a assumir.

Continuava a trabalhar mas percebia-se que aquela não seria bem a sua praia. Esforçava-se por encaixar num destino que a herança familiar parecia querer traçar-lhe e pensava-se que noitadas eram uma forma de espairecer do espartilho profissional. 

Mas, tirando um ou outro insignificante pormenor, no dia a dia, tudo parecia normal. 

Uma vez, numa dessas ocasiões em que a meio do convívio familiar se afastava, alguém ouviu um barulho suspeito na casa de banho, como se alguém estivesse a inalar qualquer coisa. Quando de lá saiu vinha brincalhão como sempre mas imparável, tudo a uma velocidade vertiginosa, metia-se com um, metia-se com outro, ria, dizia piadas, uma coisa for de normal. A namorada, inocente e enfeitiçada como sempre, sorria embevecida, contente com o seu namorado hiperactivo. Toda a família inocente, muito longe do que estava a passar-se. 

Até que a bomba rebentou. Estava cheio de dívidas, estava viciado. O núcleo mais próximo abafou. Pouca gente sabe. Largou a profissão, afastou-se, mudou integralmente de vida. Casou, tem um monte de filhos. Ninguém toca no assunto. Como é que ele conseguiu esconder de toda a gente, onde se abastecia, como conseguiu gastar tanto dinheiro, como conseguiu arranjar tanto dinheiro, isso acho que ninguém sabe. Talvez só ele. 

A entrevista de Pedro Barroso é outro testemunho poderoso. Divulgo-o pois, como em todas as questões de foro mental, o primeiro passo é reconhecer que se tem um problema, o segundo será pedir ajuda, o terceiro aceitar ajuda. Um vez que quem sofre destes problemas, começa geralmente por ter vergonha em assumir, muitas vezes achando-se culpado pela situação, geralmente não querendo preocupar aqueles que se amam, penso que é importante que quem passou por isso dê a cara, partilhe a sua experiência. Claro que há estigmas associados à doença mental -- maluco, lelé da cuca, fraco, drogado, incapaz, etc. -- mas, se se souber que há muita gente a passar por estes problemas, talvez quem atravessa um labirinto que parece não ter saída ganhe coragem para pedir ajuda.

A entrevista, um vez mais, é muito boa, sensível, directa, interessante. E o Pedro Barroso não é apenas um pedaço de mau caminho, é também um homem corajoso.

Pedro Barroso e a adição. “A cocaína era como se fosse o meu medicamento”

Aceitou ajuda quando os consumos já eram diários e percebeu o descontrolo em que vivia. O tratamento foi o primeiro passo, mas não deixou o ator imune a duras recaídas. Uma parceria Observador/FLAD.

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Desejo-vos um dia bom

Saúde. Compreensão. Coragem. Paz.

segunda-feira, novembro 21, 2022

A depressão e a ansiedade de Marta Rebelo, a corajosa maluquinha assumida

 

Mais um testemunho muito sincero sobre um problema de saúde mental vivido na primeira pessoa. E, uma vez mais, uma surpresa. Desta vez é Marta Rebelo de que me lembro quando era deputada da Nação, socialista e fashionist. Looks sempre modernos, por vezes arrojados, ela era uma imagem arejada em meios que tantas vezes tresandam a convencionalismos.

Depois perdia-a de vista e nunca mais me lembrei dela. Algum tempo depois houve aquele episódio sobre o fim de uma relação porque o namorado tinha deixado fugir o gato. Foi o fim do mundo em cuecas, a gargalhada geral. Nestas coisas há sempre quem queira parodiar o desgosto e as aflições dos outros. Mas a verdade é que os tempos mudam e talvez hoje não houvesse a crueldade jocosa a que então se assistiu. Depois despareceu outra vez do meu radar.

Surge agora em mais uma das utilíssimas e muito bem conduzidas entrevistas do Observador, na Série Labirinto - Conversas sobre saúde mental.

Aqui Marta Rebelo fala da depressão que a atormentou durante anos e sobre a ansiedade, nomeadamente os terríveis ataques de ansiedade, que condicionaram toda a sua vida.

Conta como disfarçou e escondeu a sua condição, por vezes quase incapacitante, com receio do estigma a que certamente estaria sujeita se se soubesse. Uma deputada maluquinha? Ficar em casa, incapaz de sair da cama, e telefonar a dizer isso, que não conseguia ir trabalhar...? Nem pensar.

Acredito. Aconteceu com ela e deve acontecer com muita gente: o receio de ser visto como fraco, o receio de ser considerado incapaz de estar à altura dos desafios profissionais, incapaz de dar conta do recado com os filhos, o receio de ser olhado de lado pelos outros. 

Para evitar isso, muita gente esconde, tenta fazer de conta que está tudo bem. Marta Rebelo conta como ria e disfarçava mesmo quando se sentia como se estivesse a ter um ataque cardíaco fulminante. Hoje espanta-se como conseguiu enganar tanta gente durante tanto tempo. Diz que hoje 'fareja' quem está a passar pelo mesmo e fala em geral sobre o tema mas não assumindo, na primeira pessoa, que vive essa circunstância. Mas não se admira pois ela própria fez isso.

Marta Rebelo tentou o suicídio. Não foi apenas o pensar nisso. Não, tentou mesmo. 

E todos os que estavam junto a ela ajudaram a esconder o que se tinha passado. Fizeram-no para a proteger, para a ajudar a melhor superar esse momento terrível.

E, no entanto, Marta Rebelo, às tantas, começou a sentir que o secretismo em volta da sua condição estava a atrofiá-la e a prejudicar a sua recuperação. Quando decidiu falar no assunto, sentiu que o sofrimento pelo qual vinha passando há tanto tempo talvez fosse útil para chamar a atenção para os problemas e os estigmas associados às doenças mentais.

E é verdade: é da máxima importância que se fale nisso.

Há contudo um tema que ainda não vi abordado e que seria útil que viesse para o conhecimento público: como se deve lidar com alguém que tem uma depressão ou que sofre de crises de ansiedade?

Eu não sei. Se eu estiver junto a alguém que pressinto que está a padecer de depressão ou com crises de ansiedade mas se a pessoa o negar e disfarçar, como devo agir para ajudar? Intuo que não se deve forçar... mas não sei o que fazer. Assistir ao sofrimento de alguém que se ama e que não quer tratar-se nem quer assumir o seu problema é uma coisa terrível, uma pessoa sente-se impotente. Seria importante que esse tema fosse abordado. A depressão ou a ansiedade não são apenas problema para quem disso sofre mas também para os que os amam.

Marta Rebelo e a depressão. “Cheguei a tomar nove medicamentos diferentes”

Esteve “no inferno” várias vezes durante mais de 10 anos. O ponto mais duro chegou quando era deputada. Sente que se escondeu e isso pesa-lhe, por ser “cúmplice” do estigma. Parceria Observador/FLAD


Precisa de ajuda? Estas são as linhas de Apoio e de Prevenção do Suicídio em Portugal

SOS VOZ AMIGA
Horário: 16:00 – 24:00
Contacto Telefónico: 213 544 545 | 912 802 669 | 963 524 660
Linha Verde gratuita: 800 209 899 (21:00 – 24:00)

CONVERSA AMIGA
Horário: 15:00 – 22:00
Contacto Telefónico: 808 237 327 | 210 027 159

VOZES AMIGAS DE ESPERANÇA DE PORTUGAL
Horário: 16:00 – 22:00
Contacto Telefónico: 222 030 707

TELEFONE DA AMIZADE
Horário: 16:00 – 23:00
Contacto Telefónico: 222 080 707


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Continuo sem responder a mails ou a comentários. Por bizarro que possa parecer (a mim parece-me), continuo submersa numa onda de moleza absoluta e de grande sono, com mais frio do que é costume e com algumas dores nas pernas. Sei que estas vacinas têm este efeito em algumas pessoas. A mim nunca tal me tinha acontecido pelo que é novidade. Presumo que amanhã ou depois esteja melhor. Também estive, este domingo de manhã, com um familiar que veio a saber horas depois que está com Covid. Mas estivemos ao ar livre pelo que não há-de ser nada. Mas isto para pedir a vossa compreensão para a minha ausência de respostas. Haverei de sair em breve desta letargia.


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E queiram continuar a descer. Abaixo há um comovente momento de união e afecto em torno de Jorge Palma. Muito bonito. Não percam, por favor.


sexta-feira, novembro 04, 2022

José Carlos Pereira, médico e actor: “A partir do segundo copo, já não existia limite”

 

Um dos meus grandes amigos tinha um problema de alcoolismo. Contudo, se isso era inegável para todos, ele não o reconhecia como problema. Ou melhor, reconhecer até reconhecia mas achava que durava enquanto ele quisesse. Em situações em que estivéssemos juntos, víamos todos onde é que aquilo ia parar. Bebia um copo, depois outro, depois outro. E nós víamo-lo a ficar com os olhos vermelhos e brilhantes, cada vez mais bem disposto e brincalhão... e queríamos pará-lo. Mas era impossível. No fim ainda bebia whiskey e, se fosse preciso, não um mas mais copos. 

Preocupávamo-nos que conduzisse assim. Mas dizia que não ia deixar o carro para trás. Por exemplo, se ia na Marginal, dizia que ia devagarinho, com cuidado para ir entre os dois traços. Quando estava sóbrio ria-se pois claro que não há dois riscos, há um único, o risco de separação das faixas. Portanto, deveria ir -- devagarinho, dizia ele -- a meio da estrada. Foi apanhado algumas vezes. Uma das vezes foram devagar a escoltá-lo até casa. Noutras vezes foi multado. Não havia, na altura, a severidade que há hoje em relação aos excessos de alcoolemia. 

E tinha uma coisa. Guardava sempre umas notas junto aos documentos. Quando o mandavam parar e lhe pediam que mostrasse os documentos, apareciam as notas. Às vezes funcionava. 

Claro que ficávamos chocadíssimos com isto mas, quando estava alcoolizado, facilitava e abrandava os rigores morais e a única coisa que queria era chegar a casa. Uma vez o truque das notas não resultou e acabou na esquadra. Claro que o advogado o tirou de lá. Contou que na altura ficou preocupado e envergonhado mas logo aquilo passou a ser mais uma das várias peripécias com as quais se divertia.

Uma vez, estávamos, um grupo grande, a almoçar num restaurante ali na zona de Alvalade. Bebeu que deus a dava. Caipirinha atrás de caipirinha. Não era o único, mas ele mais que todos. Depois vinho. E escolheram um tinto dos bons. Vieram garrafas sobre garrafas. Inteligente e divertido como era, nessas alturas ficava hilariante. Aquela mesa era uma festa. Mas, ao fim de muitas, naquele dia a coisa deu-lhe para o sentimento. Lembro-me que lhe deu para nos contar que tinha passado o dia do enterro da Princesa Diana em casa, numa tristeza, a ver televisão, comovido. Um outro, gozão: 'Mas o quê, Senhor Doutor, chorou? Chorou...? Foi mesmo de ir às lágrimas...?' e ele, já comovido, 'Ah, sim, quase, quase...' e quase a chorar. E nós todos a rirmos. Às tantas, ar aflito, disse-me em segredo: 'Tou aflito para mijar...'. E eu: 'Então, porque é que não vai?'. E ele: 'Acho que não consigo lá chegar...'. E eu: 'Olha, agora esta. Se está aflito tem que ir'. E ele, todo tarará: 'Qual o melhor caminho...?'. E eu: 'Vá por aqui, encostado à parede. Vire só lá ao fundo na direcção da casa de banho, se for preciso apoie-se a alguma mesa'. Encheu-se de coragem, lá foi, devagarinho, dobrado de aflito que estava. Os nossos colegas riam-se mas a mim fazia-me muita impressão. 

Até que adoeceu. Apanhou um susto e que susto. Teve o apoio de toda a gente, deixou de beber. 

Tinha um outro colega que bebia bem, sempre, mas que, à sexta-feira, era demais. Nesses dias, aparecia de almoço só lá para as quatro ou cinco da tarde. Vinha sempre radiante e estar com ele nesses restos de tarde era uma festa. Por vezes, excedia-se e fazia disparates dos valentes. Uma vez chamou os responsáveis de áreas que dependiam directamente dele e disse-lhes: 'Estou farto de vos ver sempre nas mesmas funções e nos mesmos gabinetes. Reúnam-se entre vocês e troquem. Troquem à vontade. Na segunda não quero ninguém nem nas mesmas funções nem nos mesmos gabinetes.' Contou, perdido de riso, que os outros o ouviam sem acreditar no que ouviam, boquiabertos, preocupados. Eu ouvia-o a contar a proeza, todo feliz com a parvoíce que tinha feito, e fiquei também preocupada. Claro que isto se espalhou e foi com muita apreensão que se tentou mitigar o impacto do disparate. Nessas alturas, dizíamos-lhe que era sorte que no edifício onde estávamos não houvesse controlo de alcoolemia. Dizia que não teria problema. Sabia conter a respiração e enganar 'o balão'. No caso deste não sei se seria um caso de adição pois apenas o víamos fora das marcas à sexta-feira. Em ambiente social, ao fim de semana, sei que também bebia bem mas não tenho ideia que fosse dependente disso.

Poderia contar outros casos de bebedeiras épicas ou, pelo contrário, o caso de um infeliz, alcoólico em último grau, que pediu indemnização para sair. Durante algum tempo, hesitámos. Sabia-se que acabaria mal, longe da nossa vista. Temíamos que usasse o dinheiro da indemnização nos copos. Um dia apareceu lá a mãe, uma senhora bem idosa, a pedir que o deixássemos sair para ele ganhar força de vontade para se tratar. Lá foi. E perdemos-lhe o rasto.

Sobre drogas, poderia falar de um caso próximo mas dado ser, de facto, próximo, não vou falar. Escrevi, há algum tempo, um folhetim em que um dos personagens era inspirado nele. Estava viciado, agarrado, e conseguiu esconder de grande parte da família. Quando a situação assumiu proporções deveras graves, afastou-se do meio lisboeta em que se perdia e onde já se tinha afogado em dívidas (afastou-se... ou foi afastado quase à força), deixou a profissão, isolou-se no campo, casou-se e agora não para de fazer filhos. E creio que é feliz. 

Mas a adição, qualquer adição, é, a partir de certo momento, uma prisão, uma pedra amarrada aos pés. Quem sofre de adições sofre muitas perdas e, a dada altura, começa a perceber que as perdas são penosas demais e que o prazer que se obtém implica cada vez mais riscos e mais perdas.

Uma vez mais partilho uma entrevista da série Labirinto - Conversas sobre Saúde Mental do Observador

Aqui Sara Antunes de Oliveira entrevista o actor e médico José Carlos Pereira que chegou a ser capa de revistas pelo estado alcoolizado em que era visto nas noites lisboetas e pelos atrasos nas gravações. Uma vez mais, temos uma pessoa a falar aberta e humildemente dos problemas que viveu.

E a mensagem é, de novo, a mesma: há saída. É preciso pedir e aceitar ajuda, é preciso persistência, é preciso querer muito. 

José Carlos Pereira e a adição. “A partir do segundo copo, já não existia limite”

Começou a beber socialmente, até perceber que já não se divertia sem álcool ou drogas. Sofreu com a dependência e com o rótulo. Hoje está focado em não voltar atrás.


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Um dia bom
Saúde. Ânimo. Paz.

terça-feira, novembro 01, 2022

O grande Raminhos e o seu TOC

 


Volto à saúde mental. Uma expressão que muito me agrada é aquela de que o cérebro é a última fronteira. Nada sabemos do que o habita. Ou melhor, saber até sabemos. Mas não conhecemos inteiramente o que há para além do que se sabe. Isso não sabemos. E isso é muito.

  • Somos o que a nossa mente é? 
  • E a mente é o que o cérebro processa? Ou é o que é, independentemente das faculdades dos neurónios e das sinapses?
  • E se há ligações no cérebro que, por doença ou acidente, não estão a funcionar bem? Deixamos de ser quem, na verdade, somos?
  • É a nossa maneira de ser, a nossa personalidade, que se altera ou, simplesmente, há algo que tem que ser tratado?

Por felicidade minha -- felicidade ou sorte, não sei -- até hoje ainda não sofri de depressão, não sofro de distúrbios obsessivos compulsivos e, se sinto ansiedade, parece-me legítima e controlável. 

Mas conheço quem já tenha sofrido ou sofra destas perturbações. E sei como sofrem... Um sofrimento terrível, muitas vezes dúvidas sobre se alguma vez vão conseguir ter uma vida normal ou ser capazes de experimentar a felicidade. Ouço as pessoas falar: acordar já com ansiedade mesmo não sabendo exactamente porquê, ter medos, por vezes medos abstractos, indefinidos, medos incapacitantes. 

Ou ter ataques de pânico, crises que se confundem com quase-morte. 

Há algum tempo alguém me contava que tinha tido mais um ataque e que, estando em casa sozinho, com medo de estar sem ter quem o acudisse e medo que fosse um problema de saúde 'a sério', ataque cardíaco, por exemplo, saiu e foi para o carro. Assim, se sucumbisse, talvez alguém o visse e socorresse.

De pessoas que têm assiduamente problemas deste tipo, medos, ansiedades, crises que parecem mesmo de saúde física -- e não de foro "mental" [como se o 'foro mental' não fosse também de ordem física...] -- pode dizer-se que essa é a sua maneira de ser, uma maneira de ser depressiva ou ansiosa, ou são pessoas que apenas estão doentes e a necessitar de tratamento?

Conheço uma pessoa que é obsessiva compulsiva e que, por exemplo, se está na dúvida sobre se desligou o computador, pede-nos a nós que vamos verificar senão ele já sabe que lá terá que voltar umas três vezes a fazer essa verificação. Já se conhece bem, já identificou o seu problema e já consegue lidar com ele, verbalizando as suas dificuldades. Mas não o consegue ultrapassar. Conta que, por exemplo, já se programa para sair mais cedo de casa do que seria necessário pois sabe que é mais que certo que volte várias vezes a casa para verificar se fechou a porta ou se desligou o gás ou a água. Conta que sabe que é absurdo mas que, se não o fizer, a meio do caminho dá meia volta e vai a casa fazer essa verificação.

E tive um colega que, quando havia reunião, nos pedia para fazer a acta, mesmo que tal não fosse necessário. Levava três cadernos e algumas canetas, cada uma de sua cor. E, consoante o que lhe parecia ser o tema dominante, escrevia em seu caderno, usando canetas de cores com sentidos por ele pré-definidos. Raramente participava na conversa tão concentrado estava no registo do que se passava. Antes de começar a escrever, era como um ritual: colocava à frente dele, muito alinhados, os três cadernos e as canetas. Nunca ninguém quis saber daqueles apontamentos. Dizia que tinha estantes cheias de cadernos. Contudo não o dizia com orgulho. Era quase como se fosse uma penitência à qual não conseguia fugir. Dizíamos-lhe que não era preciso, que deixasse para lá, que não se preocupasse em escrever a acta. Qual quê. Parecia que tinha que ser, que era uma compulsão. Claro que era alvo de gozação pelas costas e pela frente. Mas não conseguia parar. Uma vez pediu para sair da empresa, queria negociar a saída. Saiu, claro. Depois disso já publicou vários livros que acho que ninguém deve ler. Dizem-me que são livros chatos, intragáveis, ilógicos. Deve continuar a escrever, certamente de forma muito sistemática, mesmo que que não exista um propósito. 

Ainda existem muitos estigmas sobre as doenças mentais. Quem as sofre teme ser visto como maluco. Para os outros, alguém que se trata em psiquiatras ou psicólogos pode ainda ser visto como um fraco ou como um perturbado, inapto para funções mais exigentes. Ou confunde-se a doença com traços de personalidade. Muito desconhecimento, muito preconceito.

E falo isto sem conhecimentos, apenas pelo que ouço, pelo que leio. 

O que sei é que geralmente quem tem este tipo de problemas sofre muito mais do que sofresse de gastrite, de enxaquecas, de angina de peito ou de rinite alérgica. É que, nestes casos, a doença é reconhecida facilmente como doença e não há pudor ou receio em tratar. Já no caso de uma doença mental não apenas não é ainda frequentemente reconhecida como doença como, sendo-o, há algum receio de tratar-se, receio de adquirir habituação aos medicamentos, receio de ficar com as faculdades limitadas, receio de ficar conotado com uma personalidade fraca ou disfuncional.

Por isso, é importante partilhar testemunhos. Quem sofre não é o único a sofrer. Quem sofre deve poder saber que há tratamento, que há uma saída.

No outro dia já aqui partilhei a entrevista de João Vieira de Almeida sobre a depressão. Hoje partilho a entrevista ao Raminhos sobre o seu transtorno obsessivo compulsivo, a dúvida metódica transformada em paroxismo, em inferno. Uma vez mais, trata-se de uma entrevista da série Labirinto do Observador. Muito sincero, muito lúcido, muito explícito. 

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Raminhos: “‘Eh pá, não penses nisso’ é o pior que se pode dizer a alguém que lida com ansiedade"

Sentiu logo o estigma quando lhe falaram em medicação: "é porque sou maluco". António Raminhos fala sobre o seu transtorno obsessivo-compulsivo, que chegou a impedi-lo de sair de casa, no 'Labirinto — Conversas Sobre Saúde Mental'.


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Esculturas de Bruno Walpoth na companhia de Joyce DiDonato com Lascia ch'io pianga

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Um bom dia feriado
Saúde. Serenidade. Paz.