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sexta-feira, julho 04, 2025

Em dia de notícia triste, socorro-me do facto de estarmos na silly season e faço a agulha para uma coisa de nada.
Eu ficava doida com as canções dela enquanto alguns amigos (no masculino) ficavam doidos com a beleza da outra

 

Estamos na silly season e, portanto, temos legitimidade para esparvoar, para falar sobre coisa nenhuma e para atirar um dia numa direcção e, no outro, numa completamente diferente.

Mas acontece que hoje, de manhã, ao olhar para o telemóvel, vi uma mensagem da menina que estava no estrangeiro, na sua viagem de finalistas. Num primeiro pensamento imaginei que fosse uma fotografia sua com amigos mas, logo depois, vi que estava a enviar a notícia da morte do Diogo Jota e do irmão, André Silva. Nada percebo de futebol e não conhecia os rapazes mas, apesar de o nome dele não me ser estranho, só o facto de morrerem dois jovens assim de repente deixou-me congelada. Mas, de imediato, pensei na mãe, a perder dois filhos. Dor inimaginável, dor existencial. Depois li que o Diogo se tinha casado dias antes, que os filhos, três crianças, tinham assistido ao casamento. Tragédia dolorosa demais. E este peso acompanhou-me todo o dia.

Não quis falar nisto pois dores imensas, em meu entender, requerem contenção, silêncio. Agora à noite, ao ligar a televisão, vejo o expectável: uma overdose, uma exploração ad nausean de uma desgraça tamanha que se abateu sobre uma família.

Por isso, não vou aqui fazer declarações sobre um tema que me deixa transida de pena, de aflição.

Espero que não levem a mal mas vou divergir, vou disfarçar.

E, para isso, trago a Janis Joplin que eu adorava ouvir, cujo LP 'Pearl' ouvi carradas de vezes, ao som de quem dancei mil vezes.

E trago a Raquel Welch que os rapazes achavam uma 'brasa', uma 'bomba', um 'avião'. 

When Janis Joplin met Raquel Welch on the Dick Cavett Show (1970)


Uma boa sexta-feira

quarta-feira, outubro 13, 2021

Do que sinto mais falta na minha vida?

 


Não sei se o título deveria ser como o escrevi. Em inglês é: What do you miss most about yourself? Não sei se 'acerca de mim' é sinónimo de 'na minha vida'. Mas, vá, fica como está. Acho que vai dar ao mesmo.

No vídeo abaixo, várias pessoas que não se conhecem nem conhecem Thoraya Maronesy respondem a essa pergunta perante uma câmara que as vai mostrar ao mundo. E, como sempre, sem dúvidas ou hesitações, respondem. Surpreende-me isso tal como me surpreende que apareçam tantas pessoas com depressões ou outras perturbações do foro mental. A gente olha e vê-as a sorrirem. Quem sofre, sabe disfarçar. 

Como me acontece quando vejo estes vídeos dou por mim a pensar no que responderia eu. 

E ocorrem-me muitas coisas. Algumas creio que são irrepetíveis pelo que não é apenas sentir falta, é mesmo a nostalgia de as considerar perdidas para sempre.

Vou enunciar algumas:

- Sinto saudades de saltar a fogueira nos santos populares. No fim da minha rua, no sítio em que se subia para outra rua, os rapazes crescidos faziam fogueiras com troncos de árvores e ramos de alecrim. O perfume era muito bom. Estava muito calor em volta. E nós tomávamos balanço na rua que descia e saltávamos por cima. Aquele medo de não ser capaz de saltar suficientemente alto e de me queimar estava sempre presente mas a vontade de vir a correr, de saltar, de sentir que estava a saltar sobre o fogo era mais forte. Noites de emoções boas, quentes, perfumadas.

- Sinto saudades de dançar muito agarradinha ao meu namorado, naqueles ambientes de garagem carregadinhos de hormonas a despontar, de descoberta, de aventura, de transgressão. Tenho saudades do momento em que descobri que o amor era uma mistura de muita coisa até então desconhecida entre as quais a atracção física, essa coisa mais boa.

- Sinto saudades da emoção que sentia quando o carteiro trazia uma carta para mim, ainda mais se o envelope mal fechava de gordo que vinha, ainda mais se mal conhecia quem estava a escrever-me. Sinto saudades das cartas que escrevia à mão num papel bonito que tinha desenhos abstractos e suaves como se fossem uma aguarela. Sinto saudades da inquietação que sentia até receber carta de resposta.

- Sinto saudades de sentir aquele abalo nas estruturas, aquela rasteira fatal, o chão a desaparecer debaixo dos pés, aquele coup de foudre fatal que leva a que um não passe sem o outro e que se sinta, sem sombra para dúvida, que aquela pessoa é a pessoa da nossa vida (sem querer saber se é ou não para sempre, que isso é pormenor para o qual não há tempo). 

- Sinto saudades da praia, da parte de trás das dunas e das giestas como dosséis. Sinto saudades de um certo apartamento e do que nele fazíamos, deitados numa cama que não era nossa, ouvindo uma música que não era nossa, dançando numa sala que não era nossa. Em cima da cama havia uma manta feita de pele de raposa, uma pele macia e quente, e havia Janis Joplin para nos fazer cantar e para me dar vontade de dançar e lá fora havia nevoeiro, estava frio e cheirava a castanhas assadas. E mal saíamos já estávamos com vontade de para lá voltar.

- Sinto saudades de sentir uma vida a formar-se no meu ventre, umas pessoazinhas pequenas a mexerem-se dentro de mim. O joelho espetado aqui, um pezinho ali, agora está a virar-se, agora está já tão grande que os movimentos são mais lentos, a mão sobre o ventre tentando adivinhar o que fazia e como era a pessoa lá dentro. Sensação única, maravilhosa, transcendente. 

- Sinto saudades do momento único e mágico em que conheci cada um dos meus filhos e, mais tarde, cada um dos meus netos, aquele momento em que o meu coração transbordava de amor e de agradecimento. E isto apesar de ainda hoje, todos os dias, sentir o mesmo amor e o mesmo agradecimento.

- Sinto saudades de sentir um serzinho esfomeado a beber o meu leite, saudades de o sentir agarradinho a mim, quentinho, cheirosinho. Sinto saudades de ter cada um dos meus netos, bebés, no meu colo. Sinto saudades de cada minuto que vivi com os meus filhos e com os meus netos.

- Sinto saudades de chegar a um campo de pedras e mato e, com os olhos quase fechados, imaginar os caminhos e os recantos ainda por fazer, as sombras das árvores ainda por plantar, os passeios que haveria de dar ouvindo o canto dos pássaros.

- Sinto saudades do dia em que dei uma entrevista na qual o jornalista, a meu pedido, não me identificou, que foi tema principal, de capa, do jornal que, na altura, mais se vendia. Tenho saudades de ver toda a gente conhecida a dizer que só podia ter sido eu a dar aquela entrevista e eu nem aí, como se não fosse nada comigo. Tenho saudades das ameaças que recebi e do risco enorme que corri. Tenho saudades do meu descaramento a desafiar os que poderiam prejudicar-me seriamente a provarem o que diziam. Tenho saudades do nervosismo que sentia nos outros ao verem-me exposta, desafiadora, descarada, a pisar brasas quentes.

- Sinto saudades de conspirar, de me reunir clandestinamente, de delinear estratégias, de arranjar apoios, de desenhar acordos, de partir para a luta com um secreto frio no fundo do estômago mas com a adrenalina a bombar, a impelir-me para o perigo.

- Sinto saudades de fazer o que não devia, de colocar em risco a minha carreira, o meu emprego, o meu bom nome, sinto saudades de arriscar até ao limite. Sinto saudades de enfrentar a acusação, a dúvida, de desafiar quem tinha o poder de acabar comigo se viesse a confirmar-se que o tinha feito. Tenho saudades de andar no fio da navalha. Sinto saudades de sobreviver a tudo isso e, mal acabada uma, ter vontade de o repetir.

- Sinto saudades das piadas ditas por meias palavras e que se adivinhavam brejeiras, acanalhadas, impróprias, politicamente muito incorrectas ditas por outros quando eu não podia rir, quando tinha que tentar disfarçar, quando morria de vontade de rir, quando chorava a rir e a ter que fingir que não, situações que ainda hoje me fazem rir. 

- Sinto saudades de viajar em wagon-lit, o comboio cruzando serras e atravessando rios, aproximando-se das cidades, eu deitada numa cama confortável enquanto via as brumas da noite, a alvorada despontando. 

- Sinto saudades de tantas coisas que o que me vale é que não fico agarrada a elas.

Mas, agora que penso melhor, coisas de que se sente saudades não é forçosamente coisas de que se sinta falta ou que se queira voltar a viver. Umas serão, outras nem tanto assim -- até porque a idade e as circunstâncias da vida foram mudando.

[E bola para a frente].

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Pinturas de Celso Orsini enquanto Janis Joplin interpreta Mercedes Benz

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E este é o vídeo de que acima falei.

What do you miss most about yourself? -- Thoraya Maronesy



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Desejo-vos um belo dia
Ânimo. Saúde. Motivação. Esperança.

sexta-feira, julho 26, 2019

Nota à Introdução





Dizer o quê? Que dos nomes da gramática retive o sujeito, o predicado e o complemento directo? Bem, o indirecto também. Já a voz activa e a passiva não sei se é coisa que encaixe na gramática ou se é outro ramo da matéria. Dividir em orações já nem me lembro do propósito. Lembro, sim, a charada das orações nos Lusíadas. Coisa para ser levada a sério tem que ter lógica, alguma matemática. Agora coisa que mais parece entretém de dondoca desocupada e que não dá para traduzir em teorema que se perceba, não pega. 

Escrever eu escrevia. Chegava à hora da redacção e eu via meia turma de cabeça no ar sem saber como pegar no título para com ele insuflar a página e já eu por ali fora, cheia de ideias, histórias a atropelarem-se para caberem todas na folha. Ler também. Muita leitura. Agora chegada à hora da gramática era uma contrariação. Sem o saber já era avessa a burocracia e aquilo era regrinha frouxa uma a seguir à outra. A minha mãe queria que eu prestasse atenção, não rejeitasse, tentasse dar importância. Qual quê.

Depois, quando os meninos foram para a escola e eu espreitava a matéria já aquilo tinha tudo mudado de nome. Os casos notáveis ou a forma de dar a volta às equações ainda estava tudo na mesma mas a gramática estava travestida, talvez para ver se tinha mais graça. Mas não. Inútil na mesma.

Agora, se calha ouvir os meninos dos meninos a falarem do assunto, é ainda pior: é língua estrangeira. Não se percebe nada mas, ao que me parece, permanece a inutilidade, a burocracia, um banho de desengraçamento em cima da beleza das palavras.

Dir-me-ão: é preciso ser muita bruta para escrever tamanha alarvidade. E estarão certos. Sou bruta mesmo. Primitiva. Podia viver nua nas cavernas, descer até ao rio e apanhar peixe à mão, subir às árvores para apanhar frutos e bagas, deitar-me na terra a ouvir o som dos bichos e ver os desenhos das nuvens. Ou podia viver num mosteiro, descalça, em silêncio, e, à hora da reza, à socapa, fugir para os claustros do mosteiro vizinho para ouvir os cânticos dos monges gregorianos e viris. 

Para quê a agramática? Para quê comezinhar a beleza singela da escrita, arranjar-lhe significados e subentendidos, minimizando-a? Não me entra. Atribuir segundas intenções ao texto, inventar-lhe sub-textos, espreitar as intimidades das palavras parece-me feio, falta de decoro, é não saber respeitar o pudor da frase. Não, comigo não, violão, não contem comigo para nada disso. 

E isto já para não falar do latim ou do grego. Grego nem nunca tentei. Latim aflorei mas não era a minha praia. Para mim, língua morta já era. Pode ser que seja a raiz e que conhecer a raiz, ou, sei lá, a semente ou a linhagem, seja importante. Não digo que não. Digo só que vivo bem sem isso. Podiam as palavras ser de geração espontânea, podia ser como se a fada do dentinho ainda por aqui pairasse e todos os dias me deixasse, debaixo da almofada, um papelinho com palavrinhas novas. Por mim, estava bem. E o grego, aquilo de estar tudo nos gregos, de ser essencial conhecer as tragédias gregas -- filho que mata a mãe, gentinha que esvazia os olhos, pai que se perde no mar mas que afinal se encontra, mulher que fica à espera feita freirinha bordadeira, órfãos incestuosos que se desgraçam a cada passo que dão (e se non è vero que estes são gregos, è ben trovato e honi soit qui mal y pense), ou ninfas, monstros ou bicharada aluada -- que é que isso acrescenta à minha felicidade? Nada.


Se fosse dada a cenas dessas, via as telenovelas portuguesas do horário nobre. E não quero saber que estejam de boca aberta perante tamanha ofensa à cultura matricial, à génese da civilização. Não quero mesmo saber.

Tudo o que seja obrigatório me incomoda. Não gosto de ortodoxias. Latim e grego são fundamentais? Passo.

Fundamental para mim é outra coisa: é não ter que ler documentos escritos por doutores que escrevem 'poder-mos' ou 'á um mês atráz' ou não ter que ouvir outros eloquentíssimos seres a dizer em que nunca foram fortes a matemática para se desculparem por não saberem quanto é dez por cento de quinhentos.

Portanto, é isto.

E também não sei porque é que estou com todo este converseio. Se quero ser casca bruta pois que o seja em privado, que não o alardeie em público. Mas é aquilo de a ignorância ser muito afoita. Perco a prudência e mostro ao que venho. Azarinho.

Tirando isso, com vossa licença, uma 'Nota à Introdução'

Pinar só co'a cabeça
É protérrima noção
Ca Literatura começa
Ter em muita aceitação.

Entrada a tola entra tudo: taco
tórax e veio.
Se não couber no buraco
Racha-se o buraco ao meio.

-- Nem rachar será preciso:
Só rasgar um bocadinho.
Como na árvore, inciso,
O nome do passarinho.



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O poema é de Mário Cesariny in 'O Virgem Negra', as pinturas de Júlio Pomar e o Cry Baby é cantado com as vísceras de Janis Joplin
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😜
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E queiram aceitar o meu convite e apareçam no meu Ginjal para testemunharem que não é Nem no cântico dos seios nem no soluço das pernas, coisa que proveio de David Mourão-Ferreira ao som da Carmen.

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sexta-feira, agosto 05, 2016

Deve ou não o Secretário de Estado dos Assuntos Fiscais Rocha Andrade demitir-se por ter ido à bola a França à pala da Galp?
E os outros dois?
E os outros todos, governantes e deputados, que desde sempre aceitaram oferendas e prebendas de generosas empresas?
E os deputados que fazem perninhas aqui e ali?
E só os actuais ou também os da anterior legislatura?
Pergunto. Só pergunto.




Penso que, no que ontem escrevi sobre o assunto, deu para depreender que eu nunca iria a França ver um jogo da Selecção por conta de uma empresa que não aquela na qual trabalho (caso essa empresa fosse patrocinadora da selecção). 

Patrocinar é isto; é ajudar a pagar publicidade, é financiar eventos, é adquirir ingressos (que depois serão distribuídos graciosamente pelos colaboradores, clientes, alguns fornecedores, 'opinion makers' - jornalistas ou gente que trabalha em agências de comunicação - e 'institucionais'), etc, etc. 

Isto é assim e existe desde sempre. Aplica-se a futebóis, a torneios de ténis, a provas de cavalos, concertos, you name it.

Se não houver patrocinadores, muito do que hoje se move de forma profissional, com divulgação profissional, não existiria. E, note-se, patrocinar eventos desportivos ou artísticos não tem mal nenhum.

Idosa como sou, trabalho em ambiente empresarial desde a pré-história. E sempre acompanhei como nos são solicitados patrocínios e como, concedendo-os, se fica em posição privilegiada para frequentar os eventos patrocinados e para fazer a gentileza de para eles convidar aqueles com quem empresa patrocinadora quer estar bem.

A Galp patrocinou a Selecção Portuguesa de Futebol e não sei se foi a única grande empresa a fazê-lo. Mas e a Nos patrocina o quê? Ou a EDP? E, uma vez mais, you name it. E nunca convidam gente de cenas institucionais para assistirem aquilo que patrocinam? Só convidam clientes e tal e coisa? 


Não sejamos ingénuos, ok?

... Nem sejamos fundamentalistas, ok?

Um presidente de uma empresa convidar alguém, dizendo que fazia gosto na sua companha para assistir a um determinado evento, é sinónimo de corrupção? De suborno? 

Não digo que sim. E não digo que não. Digo: não forçosamente. 

E digo, outra vez, que eu, mesmo em ambiente empresarial, não gosto de aceitar convites. Tenho este lado de não querer cultivar intimidades com quem posso ter que me indispor e com quem sinto que posso estar (ou vir a estar) no lado contrário. Sinto que me bato com mais energia pelos interesses de quem me paga o ordenado se não tiver sido levada a passear ou a frequentar grandes restaurantes por quem está a querer o oposto do que eu quero. Mas isto sou eu. Tenho colegas que não são corruptos e que, no entanto, não vêem mal nenhum em aproveitar o bem-bom que é posto à nossa disposição. Não os condeno nem critico. Apenas ajo de forma diferente. De resto, que fique também claro que quem me convida não está a querer corromper-me, está apenas a fazer aquilo que as empresas fazem na melhor das intenções: fomentar o networking. Criar um bom relacionamento entre os chamados stakeholders. Parece conversa armada ao pingarelho mas quem vive nestes meios usa este jargão. Uso-o apenas para que saibam que isto é normal nas empresas.

Ainda não há muito tempo recebi um convite para um concerto fantástico que estava, desde há muito, completamente esgotado. Convite para mim e um acompanhante. Não aceitei, claro, mas nesse caso fiquei a pensar que estava a ser burra pois foi com genuína gentileza que o convite me foi feito.

Quantas das pessoas que se vêem nos camarotes, nas tendas vip ou nas melhores filas dos espectáculos pagaram elas mesmo o bilhete? Nunca fiz inspecção mas diria que raras.

Contudo, atenção, não nos armemos em Catão (olá  Abraham Chevrollet!); essas pessoas não todas corruptas, de moral fácil ou deslumbradas. Muitas são apenas astutas na forma como sabem usufruir de benesses; ou simplesmente delicadas (ao não quererem recusar convites educados)

Estava a escrever isto e a pensar no Estoril Open. Acreditam vocês que aqueles vips que ali estão pagaram eles mesmo a entrada? Acreditam...?
Entre patrocínios, ofertas a clientes, despesas de comunicação e imagem (ou o que for nesta base) as empresas ajudam a viabilizar os eventos e, depois, tiram partido disso, criando laços com aqueles com quem acham que é importante ter um bom relacionamento.
Ou seja, faz parte. 

Reparem que não estou a defender nada disto, estou apenas a dizer como é que isto se passa. Contatação, apenas. Factos.

Não sei como é nos outros países mas, por cá, é assim. E fica ao critério de cada um alinhar ou não alinhar. Quando digo que eu não alinho, penso que está claro o que penso-

Dito isto, acrescento que, ontem, quando escrevi sobre o assunto, desconhecia a existência de um diferendo fiscal no montante de 100 milhões. Penso que só isso deveria ter aconselhado o Secretário de Estado dos Assuntos Fiscais a manter alguma distância em relação à Galp. Mas, enfim, quem tenha algum gosto especial pelo futebol, sinta algum deslumbramento pelas mordomias que se lhe abeiram, quem tenha verbo fácil e um carácter mundano talvez encareum convite destes com alguma displicência. Deve ter sido o que aconteceu com Rocha Andrade.


Este assunto agora veio à baila e está a fazer.se uma tempestade como se o Rocha Andrade tivesse aceitado que a Galp tivesse posto um poço de petróleo em nome dele ou como se nenhum ministro, secretário de estado ou deputado de nenhum outro governo tivesse alguma vez ido à bola como convidado de alguém. Sabou-se, entretanto, que 5 deputados do PSD, incluindo o Montenegro, também foram. Olha quem... não iam eles aproveitar a borla.


Em síntese: eu não teria aceitado e acho que não foi presciente o Rocha Andrade e os outros dois ao terem aceitado o convite da Galp para irem à bola. Mas também tomáramos nós que, ao longo da sua governação, este seja o pior erro que cometam.

E acho bem que seja rapidamente craido um código de conduta ao qual todos se comprometam. Parecendo que não, isso ajuda a estar alerta.

Contudo, como em tudo na vida, há que ajuizar com conta, peso e medida.

Vou só dar aqui um exemplo real a que há tempos assisti. Estava eu no gabinete de um alto responsável de uma grande empresa e estava ele a instruir a secretária a devolver uma caixa que tinha recebido de presente de Natal, invocando o código de ética e conduta. Como sou cusca, enquanto ouvia a conversa, fui ver a caixa. Eram bombons de chocolate caseiro, bolachinhas com ar de serem deliciosas e uns rebuçados artesanais. Fiquei perplexa e pedi-lhe encarecidamente que não cometesse a indelicadeza de devolver um presente tão inocente. Sugeri ainda que, se não queria ele aceitar pessoalmente a caixita com medo que pensassem que estava a deixar-se subornar, então que pusesse o fruto do pecado na copa, para usufruto geral. Ficou na dúvida. Acrescentei que ainda ia arranjar um problema a algum funcionário dessa empresa que, na melhor das intenções, deve ter achado que tinha arranjado um presente simpático e que, afinal, tinha desencadeado uma reacção tão desconfortável. Este argumento tocou-o. Arranjar algum problema a algum funcionário da outra empresa é que não. Por mero acaso, tive oportunidade de, no dia seguinte, lá voltar e passar pela copa. Lá estava a caixinha - e quase vazia. Pudera. Felizmente ainda consegui comer um daqueles deliciosos bombons. Não faço ideia de qual a empresa que o pagara mas era irrelevante. Era um simples e simpático presente de Natal.

A ética não pode confundir-se com fundamentalismo. Nem o moralismo pode ser exacerbado a ponto de se perder a perspectiva e cada pequena insignificância ganhar proporções catastrofistas.

Mas também não nos tornemos passivos e permissivos.

Provavelmente, no caso vertente, a coisa teria corrido melhor se, em vez de virem com desculpas, Rocha Andrade e os outros tivessem vindo a público dizer que tinham agido imponderadamente, pedir desculpa aos portugueses (sobretudo, no caso do Rocha Andrade desculpa por ser tão parvo - apesar de, segundo tenho ouvido dizer, ser um bom fiscalista), pagar a despesa e, em privado, porem o lugar à disposição. Mas, não o tendo feito, ficamos a saber de que raça são feitos e esperamos que o código de conduta apareça rapidamente para que questões desta natureza não voltem a ser tema. Seria bom que, sobre eles, apenas tivessemos que nos preocupar com o que fazem no desempenho das suas funções.

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Com isto, a saudade que eu já tenho de me deleitar com poesia.

Mas que não seja por isso, respondo-me eu. É para já.


"How Fortunate the Man With None"
de Berthold Brecht (lido por Tom O'Bedlam)


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A música lá em cima também não tem nada a ver. Apeteceu-me estar a ouvi-la.
Janis Joplin interpreta Mercedes Benz
(Dangereuses liaisons que se se estabelecem na minha pobre mente. Fazer o quê?)

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela sexta-feira.

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domingo, janeiro 24, 2016

Janis: Little Blue Girl





Na terça-feira passada teria feito 73 anos. Talvez nos aparecesse como aquelas artistas que a gente vê já com o peso dos anos em cima, pesadas, feições envelhecidas. Talvez conservasse ainda a rebeldia dos verdes anos e nos aparecesse com um ar vagamente desconcertante, cabelos compridos e fracos, pulseiras e anéis em excesso, talvez rindo-se como uma adolescente fora de tempo. 

Há pessoas que, pensando bem, parece conservarem-se melhor junto a nós se as tivermos assim, perto de nós mas de forma remota,  nós lembrando-nos delas como se paradas no tempo, para sempre imobilizadas num sorriso, num gesto, num requebro de voz. Não assistimos aos momentos de imperfeição, ao ruir do corpo, ao ruir da nossa ilusão.

Quando me encantei pela Janis Joplin já ela fazia parte do grupo das vítimas de overdose.

Não sendo eu dada a ter ídolos, nunca o fui, se me tivessem perguntado quem, na música, era a minha heroína eu teria respondido, sem pestanejar que era ela, Janis, uma heroína derrotada pela heroína aos vinte e sete anos.

No entanto, não sei porquê, eu pensava nela como estando viva.

Ainda hoje, 46 anos depois do seu desaparecimento, se a ouço, ouço-a como se ainda por aí andasse, igual ao que era, tal como eu a via na capa dos LP's. Aparecia com coletes bordados com brilhantes, túnicas coloridas, jeans, cabelos soltos, plumas coloridas sobre o cabelo que quase faziam parecer que tinha o cabelo cor-de-rosa ou verde, óculos exorbitantes. Gostava imenso de a ver assim, diferente de tudo o que se tinha visto até então.

Identificava-me com esse look.

Nunca fui de me arranjar à punk, mas usar cabelos soltos, túnicas coloridas ou jeans justinhos, pulseiras, isso sim, gostava. 

Mas não era aquele aspecto moderno, que parecia não conhecer fronteiras ou limites, nem aquele sorriso alegre, divertido ou ternurento, nem a irreverência que a mim mais me seduziam: era a voz. A voz de Janis, desde sempre, foi um grito de sensualidade, de vida, de força, de rotura. Sempre foi a forma quente, ousada, ilimitada com que ela se entregava ao momento que me prenderam. Cantava como se estivesse a nascer, a ter um filho, a entrar num mundo incandescente. Não sei explicar.

Quando era adolescente, especialmente a partir dos meus 13 anos e com intensidade crescente até aos 18, entrando depois num regime mais moderado, eu, que fazia parte de um grupo de uns cerca de 10 amigos fixos (e mais uns quantos que iam e vinham), tinha todos os fins de semana festas. Ou eram festas de anos, ou convívios que o liceu organizava, ou festas de garagem, ou fosse do que fosse. Sempre tive namorado e, portanto, essas festas exerciam sobre mim vários apelos: era o ambiente da festa em si, era a toilette, era o lanche, era a música e eram, sobretudo, horas e horas interinhas de dança. Ou dançávamos todos, freneticamente, em grupo ou eu dançava, in love, gostosos slows com o meu namorado (que começou por ser um, depois passou a ser outro; e, por fim, quando passou ao último, acabaram-se os bailaricos já que dançar não é, nem nunca foi com ele). E nessas gloriosas tardes dançantes (que, quanto muito, iam até às dez da noite), sempre que Janis entrava a rasgar, nós desatávamos todos, em uníssono, a cantar, alto e bom som, uma energia comum, uma emoção que nos electrizava o corpo e a alma. Quando a música se proporcionava, o meu namorado arrancava-me ao grupo, tomava-me nos braços e juntos celebrávamos a aprendizagem do prazer a dois, sentindo o corpo de um encostado ao corpo do outro.

Mais tarde, já com o meu desportista pé-de-chumbo, muitas vezes dancei eu, com ele a ver. E. algumas raras e gloriosas vezes, consegui puxar por ele e, a custo, dançar um dos tais gostosos slows.

A voz de Janis, aquelas canções, a forma explosiva, rasgada ou quente como as interpretava ainda me parecem actuais. Há intemporalidade naquele excesso, naquela transcendência.

Sei agora que aquele furacão que a invadia quando se encontrava em palco, a deixava vazia a seguir. Sentia-se muitas vezes sozinha. Ficava no hotel à espera que algum amigo aparecesse ou telefonasse. Enquanto eles não vinham, e muitas vezes não vinham, bebia, drogava-se. Na noite em que morreu, ninguém apareceu. Quando a encontraram, no quarto do hotel, estava caída, sem vida. Pensa-se que a heroína seria mais concentrada que o habitual. Pensa-se também que a sobredosagem, em conjunto com o álcool, aconteceram porque sim, porque eram uma forma habitual de compensar a ausência de adrenalina do quarto, ou talvez a solidão. Mas não terá havido vontade de morrer, terá sido um acidente como tantos que aconteceram nesses loucos anos.

Mas a vida é sábia. Parece haver uma lógica que muitas vezes nos escapa mas que, anos depois, se apresenta como razoável, talvez, até, justa.

Aquela voz extraordinária que arrancava uma força vinda sabe-se lá de onde -- porque daquele corpo menineiro não devia ser -- não conseguiria manter-se assim por toda a vida. Nem ela, pássaro louco e escandalosamente colorido, saberia viver como uma aquietada senhora de meia idade.

Partiu cedo, e, se calhar, partiu na altura certa, levando consigo o fulgor dos seus verdes anos.

Tomara que o filme/documentário Janis: Little Blue Girl, que saíu há cerca de mês e tal nos EUA, cá nos chegue. A sua vida foi reconstituída a partir das suas cartas, de entrevistas a amigos, dos filmes que existem, do que se conhece da sua curta e eterna vida -- e eu gostava muito de a conhecer um pouco melhor.



...

Lá em cima, no primeiro vídeo, cantando 'Cry Baby', ela não sabia, ninguém podia saber mas Janis estava numa das suas últimas actuações, em 1970, a poucos meses de morrer.

Mas o fantástico é que não morreu: aqui está, no Um Jeito Manso, e a sua autora, como sempre, está encantada a ouvi-la, com vontade de cantar com ela, de dançar ao som da sua vibrante e poderosa voz.


...   ...   ...

E daqui a nada vou votar. E vou votar esperançada de que haja segunda volta. E vou contente porque está quase a chegar a hora de nos vermos livres da múmia que se aboletou em Belém, não se sabe bem a fazer o quê. E vou a pensar que, com sorte, irá para lá alguém que dignifique o meu país e não o atraso de vida que nos últimos dez anos pareceu apreciar mais os mercados, as vacas e as cagarras do que os portugueses.

Tinha ideia de escrever ainda qualquer coisa mas já não vai dar. Cheguei agora a casa, tarde e más horas, já domingo, e, portanto, vou mas é para a caminha e amanhã há mais. 
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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo domingo. 
E, please, please, please, vão votar. Ficar em casa, no bem bom, é que non.

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segunda-feira, setembro 21, 2015

O dia 19 de Setembro na minha vida


No sábado perguntei ao meu marido se sabia que dia era. Não sabia. Disse-lhe. Não achou nada de mais. Perguntei-lhe se sabia que dia se comemorava. Não fazia ideia. De resto, nem mostrou curiosidade. Ao longo dos anos tem sido isto. Confesso que, na maior parte das vezes, também eu me esqueço. E também confesso que se ele se lembrasse espontaneamente acharia que ele não era lá muito bom da cabeça. Não sei porquê não acho graça nenhuma a homens muito cheios de nove horas, mentalmente apertadinhos.

Do meu não me posso queixar de nada disso. Por regra, não liga a mínima a mariquices do género (e digo mariquices por atenção a vós, meus Leitores, porque mariquices não seria a palavra que ele usaria).

Então lembrei-o. Começámos a falar num dia 19 de Setembro faz para cima de mil anos. Mas depois rectifiquei, Começámos não, comecei eu - porque se fosse para esperar que fosses tua tomar a iniciativa ainda hoje estava à espera. Disse-me Está bem. E pronto, eu ri-me por ele ser o que é, igual há mil anos, e ele riu-se por eu ser como sou. E o assunto ficou por ali. E ficou bem. Não há mais nada a dizer.

O nosso relacionamento começou como eu acho que os love affairs que perduram geralmente começam; por uma forte atracção física.
Já aqui o contei. Repito-me, pois. Mas as coisas são o que são, não vou mudar os factos. 
Não sabíamos quem éramos mas, se nos cruzávamos, as faíscas rodopiavam à nossa volta, uma coisa aparatosa. E depois eu voltava-me para trás e lá estava ele também virado para trás a olhar para mim.
Eu namorava outro, um namoro certinho, direitinho, e o meu namorado era louco por mim mas eu, que gostava muito dele, não era louca por ele.
E então, num certo dia 19 de Setembro, em que calhou encontrarmo-nos numa sessão de apoio a Timor, com gente timorense a cantar, Foho Ramelau e etc, fiquei atrás dele e ele esteve o tempo todo num desassossego, a querer ver-me mas sem dar muito estrilho e eu, sentindo-o ali, naquela inquietação, ainda mais me apetecia inquietá-lo, saindo do ângulo de visão dele, deixando-o sem perceber se eu tinha saído.




Depois, já na rua, umas senhora vieram perguntar-me como se ia não sei para onde e eu, que não sabia, vendo-o ali perto, dirigi-me a ele e perguntei-lhe se ele sabia. Não sei, se no meio do fogo de artíficio que certamente se gerou entre nós, nos lembrámos de esclarecer as senhoras. Só sei que ele me perguntou se me podia acompanhar até ao meu destino e fomos a pé até lá e marcámos logo para o dia seguinte e nunca mais nos largámos. 

Tenho ideia que, na altura, ele ainda andava com uma que até tinha sido minha colega no liceu mas confesso que, ao longo desses gloriosos tempos, nem me ocorreu perguntar-lhe se já tinha deixado de andar até porque eu própria namorava o outro e isso era irrelevante porque a nossa vida passou a ter como propósito, quase exclusivo, estarmos um com o outro. E, enquanto estávamos um com o outro, só nós dois interessávamos, acho que nos esquecíamos do resto do mundo.

Sempre adorei gelados
e corríamos Lisboa à procura de gelatarias
abertas mesmo no inverno

Claro que, tendo eu esclarecido que namorava outro e tendo eu informado o outro que havia um outro com quem gostava muito de estar, a coisa não poderia correr sobre rodas durante muito tempo. Por isso, tanto me dificultaram a gestão da agenda e tanto me maçaram (ambos) que, ao fim de alguns meses, me vi constrangida a ter que optar.
(Já nessa altura não me deixavam ser etrusca à vontade.) 
Acho que fiz uma boa escolha mas, com o escolhido, aprendi que há o hoje porque amanhã logo se vê. Acho que nunca me disse que vai gostar de mim até ao fim dos seus dias. E ainda bem que não o disse. Aquele que ficou para trás na minha vida jurava-me amor eterno, jurava a pés juntos que nunca amaria outra mulher na vida, via-se a ele e a mim, juntos, daí por muitos anos - e isso deixava-me nervosa. Sabia lá ele se eu estava para os ajustes de gostar dele até aos últimos dias da minha vida...

Quando nos casámos (eu com 20 anos)
fomos viver para um 15º andar e ficávamos
 assim, abraçados, vendo a cidade lá em baixo

Fez-me um bocado de impressão o 'novo' me dizer aquilo que eu dizia ao 'outro' - que sabia lá se no dia seguinte ainda haveria amor. Achava que sim mas que não sabia. De repente, ouvir isso da boca de outra pessoa em relação a mim, fazia-me sentir um bocado insegura.
Então eu ia deixar um que me amaria até ao fim dos tempos para ficar com outro que dizia que não sabia se gostaria de mim no dia seguinte?... e que, ainda por cima, o dizia com ar contrariado como se eu quisesse que ele se pronunciasse sobre uma coisa absurda. 
Mas ao fim de pouco tempo, dias talvez, adaptei-me a essa nova realidade e nunca mais, sequer, falámos disso. Hoje é o que interessa, amanhã é outro dia - e isto tira pressão, deixa de haver compromissos sobre realidades que não controlamos.

Sempre gostei de dançar e ele nem pouco mais ou menos.
Diz que gosta de jogar à bola - e ainda hoje o fez na praia.
Por isso, ou danço sozinha ou danço assim:
ele sem se mexer
mas a segurar-me na mão para eu rodopiar.
E eu não acho mal.
Fazer o quê?

Também nunca temos daquelas conversas da treta em que as pessoas se esventram para darem a conhecer as vísceras um ao outro. Não sentimos necessidade disso. Conversa a mais chateia. Conhecemo-nos o suficiente para adivinharmos o que faz sentido ser adivinhado. Não nos martirizamos com perguntas, com inquéritos, com tretas. Não quero conhecer todos os seus pensamentos nem ele os meus.

De resto, também não  quero que ele goste do que eu gosto nem vice-versa.

E habituámo-nos ao que somos. Ele sabe que eu sou intrinsecamente livre, digo e escrevo o que me apetece, gosto de me rir, de rir muito, apaixono-me loucamente por aquilo de que mais gosto, perco-me com aquilo de que gosto, e sou extrovertida e, reconheço, sou um bocado anárquica. E ele já desistiu de tentar educar-me. De resto, nunca se esforçou muito senão ter-se-ia tornado maçador e, com isso, correria alguns riscos. Ele tem um humor de tipo surreal (digamos assim) que me faz rir a toda a hora, mas é mais reservado que eu, nem se compara, é contido - embora volta e meia explosivo -, é organizado, e nada de grandes paixões com coisas como escritores, pintores, músicas. Gosta mas não é dado àqueles arroubos que me caracterizam. E felizmente. Odiaria viver com alguém cheio de arrebatamentos ou pior, igual a mim. Somos muito diferentes, sempre o fomos. Mas talvez por isso mesmo - e também porque aquilo que nos atraíu ainda antes de nos conhecermos nos continua a atrair - a verdade é que nos mantemos unidos ao fim destes gostosos mil anos.

E é isto. No dia 19 de Setembro de 2016, se eu me lembrar, perguntar-lhe-ei se ele sabe que dia é, ele não saberá, e quando eu lhe disser, é capaz de encolher os ombros e eu acharei muito bem porque eu própria, tirando estas coisas, já sabidas e ressabidas, também mais nada tenho a dizer.

...

Os desenhos são da autoria de Puuung. E nem a menina dos desenhos é muito parecida comigo nem, muito menos, o menino é parecido com aquele por quem o meu coração disparou desde a primeira troca de olhares. O meu era barbudo, não usava óculos (agora usa para ler), e nem tinha aquele cabelinho à nerd. Pelo contrário, por tudo, mais parecia um guerrilheiro.

E, de resto, nem eu nem ele somos do tipo de apreciar posters fofinhos ou desenhos a pingar amor mas, para ilustrar o que escrevi, o que é que eu ia escolher? Casalinhos de mão dada ao pôr do sol...? Quando os visse, ficava todo incomodado. E, mesmo assim, só por já estar habituado a estes meus escritos imoderados, é que não o ficará. E já sei que, quando lhe perguntar se leu isto, dirá que sim. E eu perguntar-lhe-ei se gostou e dirá que sim. E eu perguntarei: Sim? Mais nada? E ele perguntará Que é que queres que eu diga? E pronto, ficaremos assim. Com tudo dito.

...

Janis Joplin, Cry baby.
Escolhi esta mas poderia ter sido outra dela. Nesta nem é que a letra tenho muito a ver mas a intensidade da interpretação vale por qualquer coisa.

(E não explico porque é que coloco aqui: o destinatário sabe-o)



..

E hoje fico-me por aqui. No sábado deitei-me às 3 da manhã julgando eu que ia ter um domingo com pouca actividade. Tinha dito que, entre o almoço e as quatro e picos da tarde, hora a que iria para a praia com os meninos, poderia dormir um bocado, quiçá começar as desbravar os livros que aqui tenho. Errado. Tinha eu feito a minha caminhada matinal, quando soube que, afinal, o programa começaria logo ao almoço. Depois foi non stop até às oito, metendo a praia pelo meio (a praia estava uma delícia mas, bolas..., que trânsito estava para sair de lá).

Uma tarde inteirinha, feliz, buliçosa. Mas uma certa estafa, diga-se. Depois, cá em casa, a seguir ao banho, ainda fiz sopa, assei carne, tratei da roupa, etc. E o sábado tinha sido uma coisa jeitosa, ó se tinha. Por isso, estou perdida de sono e não quero começar uma semana de trabalho com vontade de dormir a sesta lá na empresa. Dantes tinha um sofá de três lugares no meu gabinete mas agora, neste sítio novo, os gabinetes encolheram e já não dá para essas mordomias.
No entanto, não fiquem agora a pensar..., quando tinha aquele belo sofá de pele verde escura à minha inteira disposição também nunca lá me deitei (mas olhem, sabem o que acho?: que fui parva, que devia ter aproveitado, que aquilo era sofazinho para lá se fazerem umas belas sonecas).
...

Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela semana a começar já por esta segunda-feira. 
Saúde e amor para todos.

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quinta-feira, fevereiro 05, 2015

Miss Dior ouve Janis Joplin


Muito dancei eu ao som de Janis Joplin. Em várias circunstâncias. 

As primeiras vezes aconteceram teria eu uns doze anos. Aos treze a coisa começou a refinar. De cada vez que um de nós fazia anos, havia festa. Como o grupo era grande, havia festa quase todas as semanas. Para além disso ainda havia os convívios do liceu que também eram bons e mais alargados, com uma população com a qual a ligação era mais longínqua. Mas eu preferia as festas de anos. Dos rapazes do grupo, grande parte viria a formar-se em engenharia, mais concretamente engenharia electrotécnica. Portanto, pelavam-se por montar aparelhagens, amplificadores, luzes a piscar e toda a espécie de habilidades próprias para simularem um dancing club, uma boite, qualquer coisa de clandestina e gostosa.

Foi uma época de grandes músicas, muitas delas ainda actuais. Descobri quase todos esses fantásticos músicos nessas calientes festas de anos, nas quais, na nossa maior inocência, descobríamos a nossa sensualidade e aprendíamos o sentido da palavra amor, desejo, ternura. A primeira vez que estive nos braços daquele que o meu coração amava foi numa dessas festas, e como ele me abraçava, e como ele afastava para um dos lados os meus longos cabelos para me beijar a nuca, deixando-me completamente arrepiada, rendida.

Por essas alturas eu adorava dançar, levada nos braços do meu amor até a todas as nuvens que ele inventasse para mim, ao som de Leonard Cohen. Eu adorava a Joan of Arc que tinha uma parte que eu queria dançar como valsa e que ele começava por me fazer a vontade para logo me abraçar com força e me prender entre os seus braços.

O que fazia de Dj intercalava e volta e meia apareciam coisas que não justificavam os slows em que gostávamos de passar a tarde. Susie Q, por exemplo, e todos cantávamos então, alto e bom som. Ou Black Magic Woman. E eu ficava à espera que a coisa sossegasse de novo. E lá vinha o Bridge over Troubled Water. Mas eu gostava mesmo era da Janis Joplin. Dançávamos separados, o corpo à solta, e depois juntavamo-nos e depois toda a gente cantava. Por exemplo, Me & Bobby McGee e os rapazes todos a cantarem muito alto 
Hey, feeling good was good enough for me, hmm hmm,
Good enough for me and apalpa-me aqui  
Na na na na na na na na, na na na na na na na na na na na
Hey now Bobby now, apalpa-me aqui, yeah.
Guardo de todas as fases da minha vida as melhores e mais doces recordações. Da infância guardo a liberdade da rua, do campo, dos meus amigos de brincadeiras, e, em especial, do meu grande, grande amigo, das longas conversas que espantavam os nossos avós. Da minha adolescência guardo as descobertas, a alegria, os amores, o meu grande amor e depois, mais tarde, um outro não tão grande e, a seguir, o amor maior, e as grandes amizades, a partilha e cumplicidade, a intimidade partilhada. E daí para a frente tem sido ainda melhor. Mantenho-me a mesma menina, a mesma adolescente e tenho ainda mais liberdade e tenho ainda mais afecto, o afecto de todos os que nasceram de mim e se vêm multiplicando.

Mas isto derivou para aqui nem sei porquê, já que o que eu queria mostrar não tem muito a ver com nada disto.


Anton Corbijn realizou, Natalie Portman interpretou. A música é Piece of my heart na potente e desbragada voz de Janis Joplin.


Miss Dior



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terça-feira, março 05, 2013

'Um ramo de rosas' para os Leitores de Um Jeito Manso



num jardim da antiga china podia
ler-se que era proibido colher flores,
mas o vento não sabe ler...

*



                                                                     Rosa. Rosa do mundo.
                                                                     Queimada.
                                                                     Suja de tanta palavra.

                                                                     Primeiro orvalho sobre o rosto.
                                                                     que foi pétala
                                                                     a pétala lenço de soluços.

                                                                     Obscena rosa. Repartida
                                                                     Amada.
                                                                     Boca ferida, sopro de ninguém.

                                                                     Quase nada.








                                                         Quando à noite desfolho e trinco as rosas
                                                         é como se prendesse entre os meus dentes
                                                         todo o luar das noites transparentes,
                                                         todo o fulgor das tardes luminosas,
                                                         o vento bailador das primaveras,
                                                         a doçura amarga dos poentes,
                                                         e a exaltação de todas as esperas.







                                                              Ali, onde as rosas se doavam
                                                              a quem, pousando a mão, se debruçasse,
                                                              ficou uma saudade sem história
                                                              Nem dor... Só de alegria
                                                              o sentimento pleno a quem ousasse
                                                              colhê-las na memória.

                                                              Ninguém perceberá morta a distância,
                                                              nem o aroma breve que evolavam.

                                                              Só a saudade de uma luz perfeita,
                                                              descendo na minha alma a minha vida,
                                                              descobre, junto a uma pétala desfeita,
                                                              o teu olhar puríssimo.







                                                                      Coroai-me de rosas,
                                                                      coroai-me em verdade,
                                                                      de rosas —

                                                                      Rosas que se apagam
                                                                      em fronte a apagar-se
                                                                      tão cedo!

                                                                      Coroai-me de rosas
                                                                      e de folhas breves.
                                                                      E basta.








                                                            Abro a rosa com as pétalas viradas para dentro
                                                            de mim, sugando-me o ser com os seus lábios
                                                            de veludo. E quando estou dentro da rosa, ouvindo
                                                            a música que corre ao longo do caule, num êxtase
                                                            de seiva, troco em versos o que a rosa me diz,
                                                            sentindo que a rosa se fecha, em botão, para
                                                            que o meu ser não saia de dentro dela. Então,
                                                            sei que habito o próprio centro do efémero,
                                                            enquanto as pétalas vão caindo, uma a uma,
                                                            à medida que a rosa se abre, e o sol que entra
                                                            para dentro da rosa, empurrando o meu ser
                                                            para fora do seu centro, corre nas minhas veias,
                                                            como seiva de fogo, até fazer com que os outros
                                                            botões nasçam, para que me suguem o ser, até
                                                            entre mim e a rosa não haver senão a frágil
                                                            fronteira de um espinho, em que me pico,
                                                            sentindo que a gota de sangue do meu dedo
                                                            podia ser a seiva em que a rosa nasce do ser
                                                           que a deseja, no instante efémero do amor.




***   ***   ***


Um Ramo de Rosas
Colhidas por José da Cruz Santos
na Poesia Portuguesa e Estrangeira

Direcção gráfica de Armando Alves

da Editora Modo de Ler 


Todos os poemas podem ser lidos no muito belo livro cuja imagem mostro acima entre ramos de rosas aqui em casa. 

  • O primeiro é de Eugénio de Andrade e chama-se Rosa do Mundo. 
  • O segundo chama-se As Rosas e é de Sophia de Mello Breyner. 
  • O terceiro, Ali, onde as rosas... é de Ruy Cinatti.  
  • O quarto é uma ode de Ricardo Reis. 
  • O último é Rosa com Espinho e é de Nuno Júdice.

  • A fotografia a preto e branco é Rose de Robert Mapplethorpe.´
  • A inscrição em itálico como legenda da fotografia encontra-se na entrada do livro 
  • O primeiro vídeo é o desdobrar de uma rosa ao som da Suite Nº 1 para Violoncelo de Bach. 
  • O seguinte é The Rose interpretado por Janis Joplin. 
  • O bailado é o ballet  Le Spectre de la Rose dos Ballets Russes baseado num poema de Théophile Gautier aqui com  Lillian Gish e Patrick Dupond. 
  • O último vídeo é A red, red rose de  Robert Burns cantado por Andy M. Stewart
  • A seguir à rosa com espinho está Marilyn Monroe.


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Se vos apetecer continuar um pouco mais na minha companhia, convido-vos a virem até ao meu Ginjal e Lisboa onde as minhas palavras se deliciam com um cesto de laranjas e com as palavras de Herberto Helder. A música é outra grande interpretação de Martha Algerich, desta vez tocando Domenico Scarlatti.


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E nada mais por hoje. 
Mas quero ainda desejar-vos uma terça feira muito feliz. 

E, com este ramo de rosas, quero dizer-vos que vos desejo que o perfume e a graça da vida nunca vos abandone.