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quarta-feira, janeiro 28, 2026

O Ressentimento faz a força

-- Um poderoso texto do meu filho --

 

Se observarmos a História da humanidade e a evolução das diversas civilizações, encontramos dois elementos que surgem recorrentemente: o conflito e o progresso. É provável que estejam interligados. O progresso nasce do desejo de alcançar mais e melhor, e é essa mesma vontade que está na raiz de inúmeros conflitos.

A nossa história é marcada por ciclos de mudança e por grandes disrupções: pragas, descobertas, obras colossais e destruições massivas provocadas por guerras. Periodicamente, surgem transformações profundas que criam novas eras — a queda de impérios, revoluções tecnológicas, ou a criação de armas cujo poder supera tudo o que as antecedeu.

A mudança, porém, não é necessariamente benéfica. O progresso, por definição, implica melhoria; a mudança, não. Uma inovação tecnológica pode acarretar custos ambientais tão elevados que os prejuízos ultrapassam largamente os benefícios. Um novo império guiado por ideologias de ódio pode destruir muito mais do que é capaz de criar. A história recente já nos ofereceu exemplos de ambos os casos.

Há nestes dias o acordar da consciência coletiva para uma nova fase da humanidade. 

Por alianças, proximidades geográficas e culturais e por interesses partilhados, o mundo organizou-se em blocos. Nas últimas décadas, o Bloco Ocidental liderou a ordem internacional e concentrou uma parte significativa dos recursos globais. Sem juízos de valor sobre os méritos ou falhas desse Bloco, é inegável que, para os povos que o compõem — em especial os nativos deste espaço — essa configuração de poderes foi, em geral, favorável. Foram, de forma recorrente, vencedores de conflitos, acumuladores de riqueza e beneficiários de um estilo de vida mais confortável do que a maioria da população mundial.

Hoje, esse Bloco revela fraturas profundas, que colocam em causa qualquer resquício de unidade. O fenómeno parece mais uma implosão do que um confronto externo — forças internas comprimidas numa câmara de pressão que já não suporta a crescente intensidade das tensões.

O risco para todos os povos do mundo é que esta desagregação produza uma mudança profunda, mas não um verdadeiro progresso para a Humanidade. Esta suposição contém um certo grau de arrogância (na qual na realidade nunca me revi): a ideia de que o mero funcionamento deste Bloco gera mais benefícios do que prejuízos para o mundo.

É perfeitamente concebível imaginar, num cenário contrafactual, uma ordem global diferente — mais equilibrada entre povos, menos dependente de hegemonias, mais cooperativa, mais solidária no desenvolvimento e menos assente na apropriação de recursos pela força, militar ou económica.

Mas é igualmente plausível, noutro cenário contrafactual, emergir algo pior: guerras destrutivas e globais, isolacionismo e egoísmo que aceleram a catástrofe ambiental, migrações massivas provocadas pela fome e pela seca, um retrocesso civilizacional nas liberdades e nos direitos.

Se este for, de facto, um momento de charneira, o risco é escolhermos o cenário contrafactual errado — empurrados pela cegueira de poder de elementos agitadores que exploram o Ressentimento Histórico do Homem Branco Nativo, que se vê como o “herdeiro legítimo” do Bloco Ocidental, mas que hoje se sente traído e contrariado no seu forte sentido de entitlement, de direito adquirido.

Este Homem Branco, nativo do Bloco Ocidental, não pertence às classes altas nem aos vencedores do capitalismo liberal que moldou o Bloco. Não integra a elite política nem a burocrática. Não faz parte dos ricos nem dos privilegiados. Pertence, isso sim, à classe trabalhadora — na melhor das hipóteses à middle working class assalariada, com rendimentos próximos ou abaixo da média. Cumpre a lei, paga impostos e tem opiniões. Recebeu educação, mas não chegou à universidade. Tem um emprego, mas não uma carreira. Viveu sempre no mesmo ambiente cultural e racial, partilhou com os seus vizinhos tradições semelhantes, interesses futebolísticos, religiosos e sociais.

É esta classe que está a aumentar a pressão dentro da câmara. 

Esta classe sente-se ressentida. Ressentida pela perda de poder de compra; pela nostalgia de um tempo que nunca viveu, mas que lhe foi prometido pelas gerações anteriores — a convicção de que o futuro seria melhor do que o presente e muito melhor do que o passado. A promessa de que, cumprindo as suas obrigações e trabalhando com afinco, proporcionaria aos seus filhos uma vida superior à sua. Hoje, essa promessa soa-lhes irrealista, e não têm evidências de que alguma vez venha a concretizar-se. 

O liberal económico argumentará que a oportunidade existe: “trabalharás, e chegarás lá”. Mas será mesmo assim? Será essa a realidade para a maioria? Existem oportunidades infinitas numa economia real, capaz de absorver todos os que se esforçam? E acordar cedo, trabalhar oito ou nove horas, perder duas em deslocações, trabalhar cinco ou seis dias por semana sem pausa, desempenhando bem a sua função — não é esforço suficiente esperado? A verdade é que, para muitos, não é.

A evolução do Bloco Ocidental está a gerar um conflito que parece cada vez mais insanável. À medida que o Estado reduz o seu papel de intervenção económica e se desvalorizam as políticas de redistribuição, solidifica-se uma camada de vencedores, criando-se um sistema progressivamente viciado. Como é próprio da natureza humana, essas classes vencedoras criam mecanismos para preservar a sua posição e ampliar a distância em relação aos seus competidores naturais. Assim tem sido desde os primórdios da humanidade.

Deste desequilíbrio nasce o ressentimento da classe trabalhadora, que cumpriu o contrato social que lhe foi proposto, mas não recebeu o retorno que lhe tinha sido implícita ou explicitamente prometido.

É verdade que este Homem Branco dispõe de um certo conforto material: possui um carro, uma casa nos subúrbios — quase sempre associada a uma dívida duradoura, faz férias ocasionais, tem SportTV e pequenos prazeres do quotidiano. Não vive a miséria extrema que atinge muitos povos do Hemisfério Sul ou amarguras da guerra, os verdadeiros derrotados da ordem global. O seu ressentimento nasce mais de um sentimento de abandono do que de desespero.

Este ressentimento é alimentado também pela degradação dos serviços públicos, financiados pelos seus impostos, que se deterioram a uma velocidade inversamente proporcional à expansão dos serviços privados por natureza elitistas e orientados para os vencedores do sistema. O fenómeno manifesta-se igualmente na educação, na saúde e na justiça, pilares fundamentais da democracia que lhes foi prometida. Quando estas instituições se degradam, desmorona-se, aos olhos desta classe, a própria perceção de que o sistema democrático funciona.

E são percebidos como perdedores — não porque estejam pior do que há cinquenta anos, mas porque estão estagnados há vinte, mergulhados num ambiente generalizado de degradação e desânimo. São as escolas sem professores, os hospitais a transbordar ou com as urgências encerradas, os comboios paralisados ou sobrelotados, o preço esmagador das casas, a inflação nas compras mensais e na energia, os processos nos tribunais que se arrastam, uma perceção generalizada de insegurança.

Ressentimento também por motivos culturais. Uma sociedade multicultural, com bairros étnicos, com muitas culturas e línguas, como se observa em Londres, é o que Homem Branco espera para a terra onde nasceu, cresceu e sempre viveu? O sistema de imigração deve exclusivamente dar resposta às necessidades vorazes do mercado de trabalho liberal?

O Homem Branco não está pronto para uma transformação cultural tão acelerada. Em alguns casos poderá ser Racismo e Xenofobismo ideológico, mas em muitas situações será um humano receio da mudança. A dificuldade em assimilar que tudo muda menos ele. A dificuldade em lidar com vizinhos diferentes, com comportamentos que não compreende, com línguas que não fala. A nostalgia de outros tempos, que pelo menos eram fáceis de entender.

É um Ressentimento cultural real.

O ressentimento nasce também da perceção — ainda que abstrata — de que quem governa pertence à Classe dos Vencedores, em oposição à Classe dos Perdedores. Alimenta-se a ideia de que o poder político age sobretudo em benefício próprio, sem um verdadeiro compromisso com o Serviço Público.

A esta pressão interna soma-se um elemento adicional que funciona como catalisador, tal como acontece em tantas reações físicas: neste caso, os partidos situados nos extremos do espectro político. São eles que veem nesta insatisfação profunda uma oportunidade para avançar com a sua própria transformação, oferecendo respostas simples para problemas complexos e capitalizando a frustração acumulada.

Com a queda do Muro de Berlim caiu por terra a promessa e atração do Socialismo Real. Com a ascensão do Donald Trump, das Redes Sociais e dos fenómenos migratórios de muito larga escala, num panorama estéril de promessas transformadoras, emergiram os Partidos da Direita Radical, herdeiros do fascismo do século passado. 

Os grandes atores políticos da atualidade — apoiados por estrategas experientes em propaganda e marketing, utilizadores hábeis das redes sociais e sem pudor em recorrer à mentira, à difamação e a técnicas de manipulação de massas — tornaram-se os verdadeiros vencedores políticos do nosso tempo. São os orquestradores de uma nova era que receamos poder ser pior do que a anterior: uma era em que prosperam aqueles que mais beneficiam do retrocesso, da destruição e da divisão. Emergindo do caos e do ódio, da gritaria e da acusação, das fake news e da demagogia, constroem um futuro com estas características e moldado pelo ambiente em que melhor sobrevivem. Uma simbiose perfeita entre o organismo e o meio.

As redes sociais funcionam, neste contexto, como um acelerador sem precedentes. Permitem uma comunicação direta, desintermediada e sem filtros entre o Agitador e o Ressentido — uma combinação altamente inflamável. Este canal imediato facilita a provocação e a mobilização, apelando às emoções mais primárias de indignação e ódio, ao mesmo tempo que oferece o conforto da desculpa: a sensação de que afinal ninguém está sozinho, de que esses sentimentos têm legitimidade, de que há uma razão plausível para a raiva. Alimenta-se assim a motivação para “mudar” — seja para o que for, desde que não seja isto.

O dilema para a sociedade torna-se, assim, evidente e deve ser recordado em cada eleição. Combater a força da direita radical através das ferramentas da política tradicional revela-se uma estratégia condenada ao fracasso junto da sua base eleitoral mais fiel — aquela parte da população que já não acredita no valor das propostas dos partidos convencionais. Para este eleitorado marcado pelo ressentimento, a frustração é tão profunda que prefere derrubar o sistema para ver o que daí resulta, em vez de persistir no caminho que considera estagnado, mesmo que não haja propostas ou projetos de mudança reais.

A única forma de transformar este momento de mudança em algo melhor — no espírito do que Mark Carney defendeu no seu discurso — é devolver esperança aos que se sentem ressentidos, através de propostas concretas e credíveis. Um futuro baseado na justiça, na confiança e na inclusão; um mundo em que ninguém fica para trás. Um mundo em que o fosso entre ricos e os remediados se estreita, em que as relações entre países se constroem sobre acordos justos e não sobre a exploração dos mais fracos pela força dos mais poderosos.

À escala de um país como o nosso, isso implica um plano de longo prazo, sustentado por um amplo consenso entre os partidos que partilham princípios democráticos. Um plano orientado para recuperar os pilares fundamentais da sociedade; para reforçar o elevador social; para criar um mercado verdadeiramente justo, que valorize e premie o trabalho e não apenas o capital.

Implica também uma gestão responsável e transparente da imigração, com políticas claras de aceitação e integração.

E aponta para um futuro em que os pais possam acreditar que os filhos terão uma vida digna e estável: com acesso a creches de qualidade, boas escolas, boas universidades, bons empregos com salários justos e habitação paga de forma sustentável; com cuidados de saúde que respondam às suas necessidades. Este era — e continua a ser — o sonho da convergência europeia e da globalização no seu melhor sentido. Era o sonho de uma ordem internacional baseada no direito e nos direitos humanos. 

A construção desse futuro não tem de gravitar na órbita dos Estados Unidos. Pode assentar num quadro multilateral, baseado em pontos de aproximação e numa interdependência pragmática entre diferentes regiões e parceiros. 

Não estamos condenados à guerra e conflito. Da cooperação pode vir uma paz longa e duradora. Da cooperação conciliada com a autonomia, do progresso aliado à justiça, pode resultar uma sociedade melhor. 

Neste cenário alternativo ao ressentimento — um cenário de esperança — o Estado tem um papel real, não pela força do seu peso, mas pela força da sua capacidade de promover mudança e transformação, em conjunto com os demais setores da sociedade. Um projeto que inclua todos, sem exceção, garantindo que ninguém fica para trás.

Não haverá sucesso nesta jornada se não se compreender e enfrentar a verdadeira origem do Ressentimento. Ignorar ou desvalorizar a parte da população que agora aderiu à Direita Radical seria um erro histórico.

Num momento tão transformador como o que vivemos, cabe às forças impulsionadoras da mudança encarar o desafio de frente e reescrever o futuro comum, com o propósito claro de transformar o ressentimento em esperança. E promover a mudança positiva em cada Eleição. 

sábado, agosto 09, 2025

Sobre a Guerra Rússia – Ucrânia"
-- A palavra ao meu filho --

 

Veio o segundo pedido, escrever sobre a Guerra Rússia – Ucrânia. 

Sendo este um texto pessoal, que expressa unicamente a minha opinião, há duas premissas de partida:

1) Culpo o governo e aparelho militar da Rússia, liderados pelo Putin, por terem iniciado uma Guerra que causou uma enorme destruição, muitas mortes civis e militares, e uma desestabilização do mundo. Provocar a morte nunca é desculpável e sobre o Putin recai essa culpa.

2) Este é um tema de enorme complexidade e, na minha opinião, a única verdade objetiva é a do ponto 1). Tudo o resto é o reflexo das últimas sete décadas de história mundial. Não sou historiador, não me preparei especialmente para este texto, não tenho uma equipa de pesquisa a trabalhar para mim, pelo que assumo desde já a superficialidade e subjetividade das minhas palavras.

Gostaria de neste texto de explorar três pontos que me parecem fundamentais para esta Questão.

1) Este conflito é um acontecimento isolado de um contexto recente?

2) Este conflito resulta da loucura imperialista do Putin?

3) A Ucrânia é inocente neste conflito?

Estabelecido o ponto de partida, vamos ao primeiro ponto. 

A sociedade foi-se interligando progressivamente ao longo dos últimos séculos, até se consolidarem dois grandes blocos geopolíticos: o Ocidental, orientado pelos princípios dos Direitos Humanos e pelo modelo capitalista, e o Oriental — ou de Leste — geralmente associado a regimes autocráticos e socialistas. Esta divisão é, naturalmente, uma simplificação excessiva, mas pode servir como ponto de partida para uma reflexão mais profunda.

A sua simplicidade é particularmente problemática porque, apresentada desta forma, estabelece logo dois lados — os "bons" versus os "maus". Por exemplo, a suposta virtude dos Direitos Humanos no Ocidente pode ser posta em causa quando se confronta com as contradições internas do liberalismo capitalista, que frequentemente sacrifica comunidades inteiras em nome da eficiência económica e da manutenção do sistema. 

A emergência e solidificação destes dois blocos resultou em alianças complexas e uma política permanente de tensão que teve altos e baixos, mas que se manteve latente, umas vezes mais global (auge da Guerra Fria) outras vezes mais episódicos e contidos (exemplo, Guerra da Síria).

Os Estados Unidos, enquanto potência dominante do bloco Ocidental, estabeleceram a doutrina de que a sua posição hegemónica exige acesso e controlo contínuo dos principais recursos estratégicos, essenciais para sustentar a sua economia e a dos seus aliados. O petróleo tornou-se o símbolo mais evidente dessa lógica, e muitos dos conflitos no Médio Oriente podem ser interpretados à luz desta necessidade geoeconómica.

A União Soviética — e posteriormente a Rússia — partilhou dessa mesma visão. A sua atuação em várias regiões, nomeadamente em África, revela uma ambição semelhante, marcada por uma voracidade estratégica sobre recursos e zonas de influência.

A tensão resultante desta pressão económica e politica sobre pontos críticos do planeta, associados ao antagonismo de ideais políticos, levou a um estado de permanente tensão militar com momentos de libertação de energia vulcânica naquilo que ficou conhecido por guerra por procuração por um lado, e por outro por operações secretas-militares altamente impactantes (caso do Chile por exemplo).

Este contexto global, marcado por disputas de poder, recursos e ideologias, parece-me ser um elemento fundamental para compreender o conflito na Ucrânia. Não se trata apenas de uma guerra territorial, mas de um episódio dentro de uma longa narrativa de confrontos sistémicos.

Os dois blocos antagonistas desenvolveram um arsenal nuclear de milhares de ogivas com capacidade de obliterar, muitas vezes, a população humana. Ainda esta semana ouvimos falar do paradigma Mão Morta, da Rússia, que assegura uma resposta imediata de aniquilação caso se dê o primeiro ataque.

Enquanto sociedade, vivemos em constante alerta perante ameaças como o aquecimento global, pandemias como a COVID-19, a proliferação de microplásticos, ou até a chegada da vespa asiática. No entanto, ignoramos com surpreendente leveza que, à distância de alguns códigos e botões, reside a possibilidade do nosso fim — não apenas o nosso, mas o dos nossos vizinhos, das futuras gerações, e de toda a espécie humana. Esta é, paradoxalmente, a maior ameaça à nossa sustentabilidade enquanto civilização: uma ameaça autoinfligida, nascida da nossa própria engenharia e ambição.

Parece ficção científica, mas a História mostra que já estivemos perigosamente perto dessa linha vermelha. O exemplo mais célebre é a Crise dos Mísseis de Cuba, em 1962, quando a União Soviética tentou instalar ogivas nucleares na ilha caribenha, a meros 150 quilómetros da costa dos Estados Unidos. Esta ação foi uma resposta direta à instalação prévia de mísseis americanos na Turquia, junto à fronteira soviética. Ambos os lados acabaram por recuar, removendo os mísseis e afastando-se das fronteiras adversárias — uma decisão prudente que evitou o colapso global.

Ora esta psicose, este receio de aniquilação que foi, pelo que leio, algo muito palpável nos anos 60 no auge da guerra fria, hoje é praticamente inexistente, por habituação, mas também porque depois das ameaças ficou o conforto de entender que em geral impera a razão (diria que a destruição mutua garantida é equilibrada pelo mais básico instinto de sobrevivência, o código mais primário do nosso DNA). Parece-me até que esta psicose foi substituída pela ideia de que esta ameaça não é credível e as armas nucleares são peças de museu, como as réplicas do Sputnik.

Mas a verdade é que o equilíbrio nuclear continua a ser uma força poderosa que molda as relações entre estes países e, em geral, entre os dois blocos. Claro que perdeu protagonismo em face das relações económicas e comerciais, diplomacia, e todas as outras formas de soft power (que Trump agora tenta destruir).

É neste enquadramento que chego ao primeiro ponto da minha tese: a guerra na Ucrânia não é um acontecimento isolado, nem fruto exclusivo do contexto atual. Trata-se, antes, de mais um episódio de elevada tensão entre dois blocos que há décadas se confrontam. A Ucrânia tornou-se, neste caso, o palco onde se projetam forças que transcendem o território e o momento histórico específico – uma guerra por procuração.

O segundo ponto decorre diretamente do primeiro: não considero que esta guerra seja simplesmente um ato de loucura desvairada por parte de Vladimir Putin. Essa leitura, embora compreensível, ignora a complexidade do cenário geopolítico. O conflito parece ser, antes, o resultado de uma pressão externa crescente sobre uma fronteira sensível, que gerou uma escalada de tensão interna — especialmente dentro do aparelho militar russo. A decisão de invadir a Ucrânia, por mais condenável que seja, inscreve-se num padrão histórico de reação estratégica, ainda que profundamente destrutiva.

Nas palavras de Mário Soares (um insuspeito aliado dos EUA contra a influência que vinha de Leste) num artigo sobre a Nato na Visão: “A NATO, criada como organização defensiva, no início da guerra fria, está a tornar-se, por pressão dos neoconservadores americanos, uma ameaça à paz.” E acrescentava “E a NATO, cercando a Rússia e instalando na Polónia e na República Checa bases de misseis, começa a ser uma ameaça para a Rússia, que a pode tornar agressiva. Um perigo!”. E por fim “Cheney foi à Ucrânia, onde tentou também dividir os dirigentes políticos, (…) Tudo em nome da Nato.”

Não são por ser do Mário Soares que estas palavras se tornam em verdade absoluta. Mas é conhecimento histórico do final do século passado e início deste, que a Rússia abatida e humilhada, foi sendo sucessivamente pressionada pela EUA como forma de solidificar a sua hegemonia, o seu papel de única e indiscutível potência. Do ponto de vista económico e de influência política os EUA conquistaram de facto esta posição. Faltou o lado militar.

A Rússia de Putin sabe-se que adotou muito dos princípios da Doutrina Primakov, de multipolaridade como eixo central e da Rússia como a potência com enorme influência Euroasiática. O BRICS é um acrónimo que simboliza isso mesmo, um mundo multipolar onde o Ocidente não detém o monopólio da liderança.

Esta doutrina e esta postura é tao aceitável ou criticável quanto o são as estratégias idênticas dos EUA e da China. No caso da Rússia é quase um mandato de sobrevivência e preservação de um estatuto outrora inquestionável. Ao que parece, os russos têm uma nostalgia da Rússia imperial, de Rússia motherland. um símbolo de orgulho e de grandeza perdida.

Se aceitarmos esta leitura como credível, podemos então estabelecer a base para o segundo ponto da tese: a aproximação progressiva da NATO às fronteiras russas foi interpretada por Moscovo como uma ameaça existencial e uma humilhação estratégica. A resposta russa — militar e política — visa reafirmar o seu estatuto de potência que não se deixa intimidar, e que detém o maior arsenal nuclear do planeta.

O poder militar, e em particular o nuclear, tornou-se o último bastião do estatuto da Rússia como potência mundial. E essas mesmas armas estão no cerne da tensão entre a NATO e a Rússia no contexto ucraniano. A guerra, neste sentido, pode ser vista como uma fuga para a frente por parte de Putin — não um ato de loucura irracional, mas uma decisão deliberada e planeada, nascida da pressão interna e da perceção de cerco externo.

Este segundo ponto, sobre Putin, é uma tentativa de entender, não desculpar. Porque perante esta pressão haveria outras hipóteses, nomeadamente diplomáticas, de deterrence baseada em ameaças. 

Esta Guerra não é desculpável por nenhum dos parágrafos anteriores, apenas é mais entendível. 

Quanto ao terceiro ponto, a inocência ou não da Ucrânia, importa analisar a relação da Ucrânia com a Nato. 

Primeiro ponto, a Ucrânia pode juntar-se à Nato? 

Pode querer juntar-se à Nato! Mas a Nato não a pode aceitar!

Porquê? Porque o equilíbrio que se estabeleceu, voltando ao tema das armas nucleares, requer zonas de tampão, zonas neutras. A colocação de armas nucleares na proximidade das fronteiras resulta num risco acrescido para a Potência alvo. E a Ucrânia, com as suas planícies, é a auto-estrada para a invasão terrestre da Rússia, desestabilizando ainda mais o equilíbrio.

Por ser evidente esta necessidade de equilíbrio, diversos líderes ocidentais prometeram, em declarações públicas, que a Nato não se expandiria para a leste depois da queda do Muro de Berlim 

Mas não me parece que a responsabilidade de manter a Nato fora da Ucrânia recaia sobre a própria Ucrânia, e como tal não a culpo de lutar pelos seus interesses. Também não me parece que seja culpada por lutar pela sua independência e pela soberania da totalidade do seu território prolongando a Guerra. Creio que esse é o seu direito e quiçá dever.

Mas ponho em causa um desejo bélico incontrolado dos aliados ocidentais, que animados pelo lobby militar, continuam a enviar armas e fogem da solução diplomática. Curiosamente só Trump tentou realmente uma solução de paz, sem sucesso. E, enquanto cidadão do mundo, parece-me um mal menor a Ucrânia perder território a leste versus o prolongar e escalar um conflito com consequências globais e riscos de dimensão incalculável.

Portanto, procuro estabelecer três ideias:

1) A guerra na Ucrânia não é um acontecimento isolado no tempo. É mais um episódio de elevada tensão entre dois blocos que se enfrentam há décadas, num conflito que se inscreve na lógica de guerra por procuração, com repercussões globais em múltiplas dimensões — económicas, políticas e humanitárias.

2) Não considero que esta guerra seja fruto de uma loucura imperialista de Vladimir Putin. Trata-se, antes, de uma ação deliberada, orientada pela tentativa de recuperar o estatuto da Rússia como potência mundial. A invasão da Ucrânia é, nesse sentido, uma resposta estratégica — ainda que profundamente condenável — à pressão externa e à perceção de cerco por parte da NATO e dos seus aliados.

3) A Ucrânia e o seu povo são, indiscutivelmente, as grandes vítimas deste conflito. Não encontro razão nos argumentos utilizados para justificar a agressão. A tese do “nazismo” ucraniano não tem fundamento, e não há evidência sólida de perseguições sistemáticas contra cidadãos russófonos no leste do país. O tipo de guerra que Putin escolheu travar é moralmente indefensável, e a sua inclinação para a destruição evoca um passado sombrio que não deve ser revivido.

Em resumo, não podemos ignorar o papel que os EUA, a Nato e os aliados no geral, têm na provocação à Rússia, que, qual urso ferido, se tornou perigoso. Mas não sendo Urso e sendo um sistema de pessoas, haveria outro caminho para a Rússia – o caminho escolhido não tem desculpa. No entanto, aqui chegados, para sair desta situação não basta à Rússia recuar, também o bloco ocidental tem de fazer concessões que permitam restabelecer a integridade do equilíbrio e à Rússia evitar a total humilhação.

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Nota de minha lavra a propósito do texto acima, escrito pelo meu filho

Levou algum tempo, ainda por cima com alguns aniversários e casa cheia pelo meio do habitual muito trabalho, mas o meu filho lá conseguiu arranjar tempo para escrever o texto que eu lhe tinha pedido. Mais uma vez, enviou-me o que acabaram de ler desafiando-me e questionando se haveria lápis azul. 

Não, mais uma vez não há. Primeiro, porque não teria que haver, é a sua visão das coisas, e é livre de a ter. Segundo, porque concordo com o que ele aqui escreve. É certo que sou um pouco mais linha dura que ele pois, em abstracto, penso que não deveria ser preciso muito para fazer vergar Putin, obrigando-o a recuar. Bastaria, pela via negocial, conseguir que, por exemplo, a China deixasse de abastecer a Rússia. Mas, claro, entre a abstracção e a realidade vai um mundo de oportunidades perdidas: à China também não lhe interessa enfraquecer a Rússia, deixando que o bloco ocidental cante demasiado de galo. Também alimentei durante bastante tempo a esperança de que o assunto se resolvesse dentro das portas da própria Rússia -- mas também já se viu que Putin está bem blindado, inclusive a nível de opinião pública interna. Portanto, também a esse nível, não consigo ver qual a melhor solução (e, por melhor solução, leia-se a mais justa, a mais decente, a mais segura para o mundo, e, simultaneamente, a possível) e, portanto, também a esse nível não me arrisco a contestar o que ele escreveu, alvitrando alternativas.

Em suma, considero que o texto que o meu filho escreveu está excelente pelo que nada tenho a ressalvar.

Quando acabei de ler, fiz-lhe mais um pedido: que se pronuncie sobre a posição do PCP em relação a este assunto. Gostava de conhecer a sua abordagem pois sei que é sempre racional, que enquadra bem os assuntos. Mas aí não sei se serei bem sucedida já que me respondeu o seguinte: "Essa não escrevo, pois seria uma discussão mais de comunicação do que de conteúdo". E pronto... Mas irei tentando, prometo...

Por estes dias em que Putin e Trump, essas duas sumidades, andam a tanguear o mundo com as suas erráticas conversações sobre este conflito, por acaso gostaria que as Estátuas de Sal desta vida e seus fervorosos seguidores lessem o texto do meu filho  -- e dissessem de sua justiça.

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Desejo-vos um bom fim de semana

terça-feira, agosto 05, 2025

Dar de mamar até as crianças terem 6 anos? Mas está tudo doido ou quê? Poupem-me.

 

Não vi, até agora, nenhuma concretização de jeito por parte do Governo Montenegro. Antes das eleições, já por duas vezes, era vê-lo, fanfarrão: que fazia e que acontecia, era só chegar ao governo, e todos os problemas se resolveriam em 2 ou 3 meses -- e, afinal, como é público e notório, tudo em que tocou ficou ainda mais estragado.

Por isso, não pode haver dúvidas sobre a minha opinião geral sobre a falácia Montenegro. Mas isso não me tolda o raciocínio. Sou, e creio que enquanto tiver a mente a funcionar normalmente, assim serei isenta. Pelo menos, esforço-me por isso. E é assim que hoje vou sair em defesa de Madame Palma Ramalho.

Enfim... mais ou menos...

No que se refere ao tema da legislação laboral, continuo sem perceber qual a necessidade de tanto fuzuê. Trabalhei durante anos e anos e nunca vi que a legislação fosse um problema. Saídas por negociação, saídas por extinção de posto de trabalho, saídas por despedimento com justa causa ou mesmo despedimento colectivo são o pão nosso de cada dia. Sem espinhas.

Claro que não se consegue despedir, unilateralmente falando, alguém só porque sim. Pode não se gostar nem um bocadinho de uma pessoa, pode saber-se que é um traste de primeira, que é uma pessoa tóxica ou psicopata, e, ainda assim, não conseguirmos livrar-nos dela. Sei do que falo. Passei por situações em que toda a gente queria ver uma doida varrida pelas costas: má profissional, má colega, perigosa mesmo. Em relação a mim, por diversas vezes, usou tácticas intimidatórias. E, ainda assim, o mais que conseguimos foi mudá-la de funções. Poderíamos, claro, ter avançado para um despedimento individual coercivo. Mas teríamos que carrear provas, teríamos que nos preparar para que um advogado nos fizesse a vida negra, teríamos que arcar com o risco de que fosse para as redes sociais deturpar tudo e causar danos reputacionais à empresa. Engolimos em seco e engendrámos uma solução em que fizesse o mínimo de estragos. Mas, ainda assim, continuo a defender que é preferível arcar com as consequências de ter gente pestilenta e imprestável nas empresas do que correr-se o risco de que patrões desonestos ajam discricionariamente contra trabalhadores indefesos que não lhes caiam nas boas graças.

Por isso, de cada vez que vejo que a bandeira da legislação laboral anda outra vez de mão em mão, dou um passo atrás e fico, cepticamente, à espera de ver o que vai sair dali. Felizmente, de forma geral, as montanhas parem ratos. Haja paciência.

Não quero com isto dizer que não haja aspectos a burilar. Há. Pormenores, aspectos específicos, pontuais. E, nesses casos, mais inteligente seria se partidos, sindicatos e associações patronais pensassem no País e não nas corporações em que se entrincheiram.

Mas, aqui chegados, eis que salta para a arena o tema da amamentação. O Governo quer limitar a redução de horário (duas horas) aos primeiros dois anos. Quando ouvi, pareceu-me normal, inócuo. 

Contudo, de repente, levantou-se um banzé do caraças, toda a gente a defender que as mulheres devem ter duas horas a menos de trabalho para amamentar crianças até aos 6 anos. De loucos. Pela cabeça de quem é que passa que é normal uma mulher dar de mamar a crianças com mais de 2 anos? Em especial, que o faz em horário diurno? Está tudo maluco ou quê?

Falo com conhecimento de causa. Foi há muito tempo mas a realidade é a mesma: uma mãe a amamentar os filhos.

Amamentei a minha filha até ela ter 13 meses. Já o contei: já falava e andava e ainda mamava. Mamava de uma mama, depois levantava-se, dizia, 'agora a outa', sentava-se na minha outra perna, encostava-se a mim, e mamava. Claro que o fazia depois de ter comido a papa da manhã, antes de sairmos, e, à noite, antes de ir para a cama. Por fim, só à noite. E eu confesso: fui eu que acabei com aquilo, já estava fisicamente saturada, já me custava. E foi um processo natural que ela também aceitou bem. Disse-lhe: 'A mãe já não tem mais leitinho nas maminhas. Sabes como vamos fazer? Já és grande, agora vais passar a beber um copinho de leite como os meninos crescidos'. E assim aconteceu, naturalmente.

De todas as minhas amigas, colegas e conhecidas eu fui a única que amamentei até tão tarde. Toda a gente achava um disparate, quase como se fosse uma cedência ao mimo de uma criança. Não quis saber. A minha intuição dizia-me que era benéfico para ela e assim foi.

Na altura, só havia licença de amamentação no primeiro ano da criança.

Com o meu filho, foi diferente. Sempre speedado, com um ritmo sempre difícil de acompanhar. Mamou até aos 4 meses, mas sempre foi um desatino. Quando a minha filha mamava, era um momento tranquilo: aninhava-se em mim e mamava pausadamente. O leite do meu peito sempre foi proporcional às suas necessidades. Com ele sempre foi o oposto: mamava sofregamente, mamava, mamava, com uma força e uma velocidade que não dava para acreditar, parecia que estava sempre esgalgado de fome. Claro que depois engasgava-se. Eu assustava-me imenso, ficava sem conseguir respirar e eu levantava-o, abanava-o. Enquanto isso, o meu peito ficava a esguichar leite enquanto ele tossia, engasgado, o leite a atingi-lo na cara, a entrar-lhe para os olhos e, quando se desengasgava, chorava, incomodado. O meu peito, face a tal sofreguidão, produzia leite até mais não poder, transbordava, encaroçava. Quando chegou aos 4 meses, deixou de querer mamar. Tive um desgosto grande, uma grande preocupação. Custou-me muito que esse elixir, essa garantia de saúde, não pudesse ser-lhe proporcionada. Tentei de tudo, mas ele foi taxativo. Fechava a boca, torcia-se, rabiava, esperneava. O leite acabou por ir secando. Por essa altura, já tinha introduzido a comida sólida no seu regime, e era só disso que ele queria. Não papas, que isso o agoniava, queria era sopa, comida com sabor. Devorava comida normal. Mas, bebé que era, como tinha que beber leite, dava-lhe no biberão. Mas só de eu lhe pôr a tetina na boca, começava com vómitos. Tinha que apanhá-lo a dormir, para lhe dar leite à socapa. Mas criou-se, cresceu, fez-se grande e forte. E mantém-se um bom garfo.

A tendência agora é que a amamentação seja exclusiva até aos seis meses. Acompanhei o processo pelos meus netos.

Mas o facto de haver mais um ou dois meses de amamentação em exclusivo ou de ser claro que o leite materno é uma mais valia e que prolongar-se até aos dois anos pode não ser o disparate que antes parecia, não significa que seja natural, saudável (lato sensu), amamentar uma criança para além dos dois anos, em especial durante o dia. Diria que é um absurdo sem pés na cabeça e duvido que haja mais do que meia dúzia de mulheres que o faça. Duvido muito.  

Dito isto não quero dizer que não faça sentido que as mães (ou os pais, à vez) não devam ter redução de duas horas de horário de trabalho até as crianças terem 6 anos. Chamemos-lhe 'licença de acompanhamento parental'. Isso, sim, faz sentido.

Relembro os meus tempos de jovem mãe, com horário rígido, sem redução após eles terem 1 ano. Eu com uma menina quase bebé, depois grávida e com ela ao colo ou pela mão, depois com um bebé de colo e ela, pequenina, pela mão. Não usava carro nessa altura. Nessa altura o meu marido estava na Marinha, sem flexibilidade para me apoiar mais, e, depois, quando saiu de lá, entrou para uma multinacional que o tirava frequentemente de Lisboa e do País. Não foram tempos fáceis. Mas era o que era e, apesar dos sacrifícios, sobrevivemos. Na boa. 

Mas poderia ter sido melhor. Não tive mais uns quantos filhos por me ser tão difícil (e por não ter suporte ou apoio logístico para as dificuldades do dia a dia). Tivesse eu tido uma vida mais facilitada e não teriam sido dois, teriam sido uns três ou quatro filhos. Se bem que o que eu gostava mesmo era de ter tido uns seis. Mas era impensável, ingerível.

Mas agora que o mundo mudou e que a flexibilização de horários é uma coisa normal, que o regime de trabalho pode ser híbrido, pode -- e deve -- ir-se mais longe.

A demografia em Portugal é uma lástima. Mesmo que os imigrantes nos venham dar uma ajuda no rejuvenescimento populacional, não chega. 

Tudo deve ser feito para incentivar a natalidade e o mínimo que se pode fazer é garantir que os pais possam acompanhar minimamente os seus filhos pequenos, trabalhando menos 2 horas por dia até que atinjam os 6 anos.

Isso e mais medidas: todas são poucas para incentivar os pais a terem mais filhos. Creches gratuitas, horários flexíveis e reduzidos sem redução de ordenado, abono de família generoso e crescente consoante venham mais filhos para a família. E o mais que, razoável e inteligentemente, se saiba pôr em prática.

sábado, agosto 02, 2025

Gaza
-- O meu filho toma a palavra num texto poderoso (... e, para mim, desafiante...) --

 

Escrevo este texto a pedido da minha mãe, na sequência do meu desafio (e crítica) sobre a ausência de um texto que esperaria profundamente comovente e mobilizador sobre a situação de Gaza no seu blog.

Encontrei dois textos no blog: a transcrição de um comentário de um leitor, J., em 2015 e, já sobre os acontecimentos atuais, um texto sobre a Dra. Alaa, mãe de nove filhos assassinados por bombas. Esse texto expõe a tragédia humana, mas não comenta o contexto. Faz falta um ensaio mais vasto, que não conseguirei escrever, mas que importa provocar — não só pela urgência da mobilização da opinião pública, mas também porque me interessa explorar as eventuais contradições que originam este ensurdecedor silêncio. Perdoa-me, mãe, mas não resisto.

Em parte este meu desafio é carregado de intenção, não o nego. Depois do 7 de outubro e dos primeiros ataques indiscriminados a Gaza por parte do Bibi de Israel, eu disse emotivamente que esta era mais uma situação a criticar e condenar, tal como o ataque da Rússia à Ucrânia. Como tantas outra vezes, discutimos e não convergimos, e daí resultou uma tensão entre nós. Argumentava a minha mãe, nesses primeiros dias, que Israel tinha a legitimidade que a Rússia não tinha, e como tal, por mais que custasse observar as vítimas civis agora da Palestina haveria uma espécie de racional estratégico-militar que o justificaria, 1 vida humana de Israel poderia ser vingada com muitas mais palestinas, se com isso se eliminasse o perigo, redirecionando as culpas para o Hamas que cobardemente se esconde entre os civis. Não concordei, e argumentei nessa altura da mesma forma que argumento agora, mas com o benefício de ter os factos do meu lado. 

E quem lê este texto, evite, por favor, cair na tentação fácil de me atribuir um rótulo e assumir que estou, implicitamente, a legitimar a ação do Hamas — espero o benefício da dúvida. Retomamos este ponto no final do texto, juntamente com as contradições a que me refiro no primeiro parágrafo.

Sobre o contexto que espero ver mais bem explorado no blog, quero basear-me num brilhante episódio do podcast do New York Times, “The Opinions”, intitulado “I’m a Genocide Scholar. I Know it When I See It”, uma entrevista com Omer Bartov — historiador especialista no Holocausto, judeu israelita a viver nos EUA, que serviu como militar no IDF, posicionado em Gaza. Insuspeito q.b. Diz Omer, de forma simples, ao New York Times: o que se passa em Gaza é um genocídio — há uma tentativa sistemática de eliminar um povo ou de tornar as suas condições de vida impossíveis.

Diz ainda, de forma clara e compreensível, que os judeus israelitas têm um trauma coletivo compreensível — o da ameaça à sua existência — e acreditam que tudo se justifica para o evitar. Incluindo o que se passa agora em Gaza. Tudo é legítimo para a preservação de um povo outrora eliminado de forma sistemática. 

Para ele, é claro que, para Netanyahu, só há uma solução para a “questão de Gaza” e para a ameaça que representa enquanto incubadora de revoltados, fanáticos, militantes, mártires…: acabar com Gaza, com os seus habitantes, e redefinir as fronteiras de Israel para limites mais seguros e previsíveis. No futuro, ver-se-á o que acontecerá com a Cisjordânia.

As imagens na televisão não deixam margem para dúvidas, há factos que ninguém de bom senso e bem informado pode negar:

Israel alcançou com sucesso - e ainda mantém - um programa de destruição total das infraestruturas e de todo o edificado de Gaza. Sobram pouco mais do que ruínas - é agora inabitável.

Os palestinos que sobrevivem em Gaza estão a ser vítimas de Fome de forma deliberada e sistemática pelo estado de Israel, a Fome como arma de guerra – é a morte que daqui resulta.

São muitas dezenas de milhares as mortes civis, por certo muitos deles inocentes – não é só o Hamas o alvo das bombas assassinas.

o Percam um segundo, pensem numa criança que vêm a morrer na televisão como vossa. Não é demagogia nem psicologia barata. É um mundo de guerra que poderia ser nosso, como aquela criança.

Se comentamos a situação internacional e condenamos os crimes que observamos, como nos podemos calar nesta situação? É porque Israel faz parte do mundo ocidental e o seu povo se assemelha a nós e é mais fácil vê-los como vítimas do que como agressores? Porque ao longo destes anos de “terror muçulmano”, desumanizámos os árabes e aceitamos melhor a sua tragédia? Porque estamos demasiado habituados a um mundo unicamente dividido em dois, e Israel faz parte dos “bons” e a Palestina, em tempos apoiada pela União Soviética e agora pelo Irão, dos “maus”?

Agora ouvimos, na minha opinião tarde demais, os estados ocidentais a condenar a Fome em Gaza, a colocar pressão no Estado de Israel, a reconhecer o Estado da Palestina. São as ações corretas, mas superficiais, simbólicas. Se à Rússia se aplicaram sanções, porque é que a Israel se dá bombas? Pode a geopolítica valer mais do que os mais básicos Valores? Se for esse o caso, pensemos então nos Valores que partilhamos enquanto sociedade.

Em algum momento temos de re-definir esses Valores, os sinais são claros mas não inéditos. Mais desigualdade, mais guerra, mais extremismo, menos empatia, menos consenso, menos cooperação. Perdemo-nos em discussões polarizadas porque nos vemos rigidamente presos em quadrantes políticos que nos obrigam a assumir certas posições e argumentos e, depois, discussões que deveriam ser unânimes geram discussão. Esta é uma delas, assume-se que alguém da esquerda mais extrema legitimará a Rússia e condenará Israel. Por outro lado, alguém mais à direita irá condenar a Rússia e aceitará a atuação de Israel como um mal menor. 

Errado, a sociedade deverá reger-se por princípios Humanistas e em questões de razão fundamental sobre a vida humana não hesitará em condenar quem de forma deliberada e sem a mais elevada justificação decide de forma programática retirá-la. E francamente, criticará ainda de forma mais assertiva, quem como Israel, em pleno século XXI promove um Genocídio.

Por fim, como nota de rodapé, dois temas referidos no inicio do texto 

É evidente que critico profundamente o Hamas e as suas ações e reconheço como legítimas as ações militares de Israel em consequência do 7 de outubro. 

É também para mim claro, mas muito mais complexo e difícil de justificar, que um Estado como a Palestina que está ocupado e onde o seu povo vive de forma segregada há anos, sem liberdade e diariamente humilhado, vai originar fanáticos, pessoas sem nada a perder, que alimentam as fileiras de organizações como o Hamas que serve outros interesses. Há muito tempo que a ONU defende uma solução pacifica de dois Estados, de coexistência. A alternativa é a guerra. Não podemos atribuir todas as culpa a Israel, mas não podemos aceitar o que se tem passado nos últimos anos em Gaza e temos de condenar de forma muito veemente os acontecimentos dos últimos 2 anos. 

Segundo tema. Nas posições mais moderadas e de sistema, sobrevive uma contradição fundamental. Essa contradição é, simplesmente, a existência de algumas poucas verdades absolutas que se sobrepõem à razão na análise. Um exemplo: a América é a nossa referência de liberdade e democracia — devemos seguir a sua liderança. Assim fomos para a segunda guerra do Iraque sem nunca pôr em causa a sua legitimidade. E, se alguém o fizesse à data, seria visto como um extremista de pensamento. Agora, com Trump, já é legítima a crítica aberta à América. Pois a mim pouco me interessam os rótulos, e vejo enorme virtude em pessoas como a minha mãe, que pensam e dão a sua opinião sem receio.

Será que, na questão de Gaza, caiu na armadilha do pensamento corrente?

Uma vida é uma vida. E nisto, sei que a minha mãe concorda comigo. Quem não consegue pôr esta verdade universal acima de tudo o resto ou é mal-intencionado ou está perdido na polarização extremada que nos tolda o discernimento. 

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Nota de minha lavra sobre o texto acima, escrito pelo meu filho

No outro dia, quando o meu filho me enviou o link para o podcast sugerindo-me que me pronunciasse, pedi-lhe que escrevesse ele um texto. Tem-me censurado, e não poucas vezes, por eu não falar com a frequência e veemência que esperaria da minha parte sobre o que se passa em Gaza. E, porque gosto de o ouvir e porque tem opiniões sempre bem fundamentadas, achei que ninguém melhor que ele para dizer o que acha que deve ser dito.

E o texto cá está.

Mas devo corrigi-lo: não falei no assunto apenas duas vezes. Falei mais: não muitas vezes, é certo, mas, ainda assim, encontrei os posts cujos links deixo abaixo, entre os quais os dois que ele refere.

E não falei mais vezes pois é um tema sobre o qual a minha opinião não é clara. Quando estou perante um problema, por natureza tendo a pensar na possível solução. No caso em questão, identifico o problema mas não estou certa sobre qual a (boa) solução. 
  • Por um lado não tenho dúvida em condenar, inequívoca e fortemente, a chacina que Israel está a levar a cabo em Gaza. Netanyahu e os que o rodeiam causam-me horror sob qualquer ponto de vista -- e isso é claro, claríssimo. Não tenho palavras para descrever o que sinto ao ver aquela chacina, aquela tragédia, aquele horror. A guerra é sempre cruel. É difícil encontrar uma gradação de aceitável ou 'legal' para a guerra mas, quando se destrói a eito, se aniquila e se mata pela fome. Condeno-o com todas as letras e sinto uma imensa repulsa. Ver crianças com fome, ver as mães a não conseguirem acudir ao sofrimento dos filhos moribundos, ver pessoas a correr e a serem mortas quando procuram alimentos, ver tudo destruído e as pessoas a sobreviver como animais acossados parte-me o coração e não posso encontrar desculpa para quem pratica tão desumanos e bárbaros crimes.
E dito isto, está dito. Sem margem para dúvidas.
  • Mas, por outro, depois há o capítulo seguinte da história, o day after: o dia a seguir ao fim do massacre que Israel está a levar a cabo sobre a população em Gaza. Esse dia há-de chegar.
E é aqui que tenho muitas dúvidas. Não sei qual a solução pacífica. E tenho dúvidas porque questiono a viabilidade e sustentabilidade de países que assentam os seus fundamentos em matrizes religiosas. 

Países conflituantes, com abordagens conflituantes a nível religioso e que disputam os mesmos territórios e com um historial de barbaridades mútuas que jamais será esquecido por ambas as partes -- parece-me garantia de que jamais haverá paz em tais territórios. 

Ou seja, tenho dúvidas no racional que conduziu à formação de um país 'judeu' no meio de territórios de matriz muçulmana. E imagino que o facto de a Palestina ser um estado reconhecido, paredes meias com Israel, não vai ser garantia de que a panela de pressão não estará sempre prestes a rebentar.

Haver dois estados parece ser a 'boa' solução, a que, no reino das boas intenções, fará com que tudo corra bem. Abstractamente, parece o ideal. Mas entre o 'ideal' e o 'real' vai um grande passo. Ou seja, parece-me que a história desmente a probabilidade de que corra bem. 

Se, de facto, Israel e a Palestina quisessem viver em paz, parece-me que teriam que admitir, assimilar, interiorizar e aculturar-se de forma a que cada um dos países fosse aberto a qualquer religião, um estado ecuménico. Sem isso, será uma never ending história de crime, ódio, vingança.

E há um outro aspecto que quero referir: não confundo um país com o regime que o governa ou desgoverna. Israel, apesar de todas as patifarias, infâmias e crimes de guerra que, em determinados períodos da sua história, tem praticado, fora desses períodos tem sido um país notável. A todos os níveis, nomeadamente científico, Israel é um país desenvolvidíssimo. E isso não deve ser esquecido ou desprezado. O combate não deve ser contra Israel mas contra o regime assassino do corrupto Netanyahu. 

Sobre a Palestina terei que reconhecer que tem sido massacrada e humilhada ao longo dos tempos e, talvez por isso, parece ter-se rendido a ser palco e berço e viveiro de extremismos e de regimes que jamais poderemos aceitar como aceitáveis, que cultivam o terror, que desprezam as mulheres, que privilegiam o mais tacanho obscurantismo. A defesa da Palestina não pode ser a defesa de regimes que nada têm a ver com o respeito dos direitos mais elementares. 

Quanto ao resto, toda a geopolítica daquela região é complexa demais para que eu consiga alvitrar soluções ou formular raciocínios. Diria que só grandes estadistas, políticos sérios, cultos e estrategas, poderiam sentar-se à mesma mesa e encontrar soluções. Não é tema para leigos, para curiosos.

E estes são textos, aqui do blog, que encontrei falando no assunto. 




De qualquer forma, filho, muito obrigada pelo teu texto. Como escrevi no título, é poderoso. 

[E, como vês, publiquei-o na íntegra, não houve lápis azul... 😜]

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Desejo-vos um sábado feliz

segunda-feira, dezembro 30, 2024

Dia super feliz in heaven.
E a relação entre os signos e a gastronomia.

 

Entre sexta e sábado foi limpeza a fundo: os outsides todos varridos e lavados e esfregados, nos interiores, spray de cera de abelhas nas madeiras, limpeza de vidros, tudo sacudido, limpo, lavado, spray de lixívia em uniões e juntas das casas de banho e todo um vasto etc. e etc.

Fomos também ao supermercado da vila onde têm carnes excelentes. Também costumam ter bons peixes e afins mas não tinha o que eu queria (choquinhos pequeninos para fazer com tinta). Pena o senão do vagar das empregadas que conversam com os clientes que conhecem. Uma pessoa desespera sem saber quando é que a confraternização vai acabar. Mas ninguém parece ter pressa. Olho em volta e vejo toda a gente na boa, à espera. Parece que só eu é que ainda não aprendi a aguardar serenamente.

Este domingo foi dia grande, desde cedo a maltinha toda reunida in heaven. Corte de árvores, queima. Um avanço na limpeza que foi um gosto. Tanto o trabalho que um dos jovens trabalhadores até andou, parte do tempo, em tronco nu.





E o mais pequeno já anda de bicicleta que dá gosto, por lá anda, sozinho, em caminhos estreitos, subidas, descidas, curvas. E os mais crescidos fizeram corridas de trotinete e depois todos jogaram ao Monopólio para Batoteiros, coisa que dá muita luta e que até levou à expulsão do batoteiro-mor.... 

E o almoço foi um regalo, com o meu filho, uma inesgotável força de trabalho, que, depois de serrar, carregar, queimar, se atirou ao barbecue. 

Dia maravilhoso. Frio mas, ao sol, suportável. E em casa bem.

Mas vinha eu a pensar que já o meu pai, que era caranguejo, adorava cozinhar e ter-nos lá todos em volta da mesa. E eu e o meu filho também somos assim. Claro que o meu marido e a minha filha e a minha nora também gostam tal como a minha mãe também gostava, são todos muito bons anfitriões. Mas creio que não há aquela 'coisa' muito intrínseca de queremos dar de comer aos 'outros', parece que queremos ter a certeza de que se alimentam bem e de que temos aquilo de que gostam, 'coisa' essa que esses 'outros' nem sempre compreendem ou aceitam bem. 

Pois agora, ao ver a Madame le Figaro, vejo um artigo em que se fala na relação de cada signo com a gastronomia. Transcrevo a descrição de como é o Caranguejo. Por mais surpreendente que possa parecer para alguns, supostamente existe uma ligação entre a astrologia e a gastronomia. A astróloga Amélie Weill fez dela o tema do seu primeiro livro, Astro food (Éd. Flammarion). E, segundo ela, as sete estrelas da constelação em forma de panela da Ursa Maior seriam o sinal supremo.

Caranguejo

O Caranguejo, o primeiro signo de água do zodíaco, leva-nos ao território das emoções. O que mais gosta é de unir as pessoas e fazê-las felizes. O Caranguejo preocupa-se com os outros e, para ele, a comida é cuidado. Atento, adivinha e antecipa as necessidades de todos, e até se questiona porque é que os outros não fazem o mesmo... Em suma, não se limita a cozinhar, coloca amor em tudo o que faz.

A sua fantasia secreta? Vivendo numa antiga casa de pedra, rodeada por um magnífico jardim e repleta de amigos e crianças, todos se reuniam à volta de uma mesa para saborear os bolos da avó, desde mil-folhas gourmet a tarte de mirtilos acabada de sair do forno. O pequeno guilty pleasure alimenta a sua vida diária... E se não gosta do que ele lhe preparou, não lhe diga, nem use luvas de pelica. A cozinha é como uma família, não se lhe toca!

Só neste último aspecto é que não me revejo: não me importo que critiquem. Aceito bem críticas, reprimendas e sugestões. Claro que nem sempre as sigo (porque, como é óbvio, há coisas que são mais fortes que eu) mas, enfim, esforço-me e não levo nada a mal, até agradeço.

Para quem tenha curiosidade, aqui está o link para o artigo com todos os signos: Nos préférences et compatibilités culinaires signe par signe, selon une astrologue

E uma semana para todos!

quarta-feira, dezembro 18, 2024

Uma loura de 35 anos e uma morena de 52 encontram-se.
Depois tiram as meias e brincam dentro de cálices de água (espero que quentinha):
qual a mais sexy?

 

Não vos digo nem vos conto. Ando aqui numa fona que me tem ocupado de sol a sol e para além disso (ou seja, o sol põe-se -- o que não é difícil pois anoitece a meio da tarde -- e continuo até às quinhentas). Forçosamente tem-me faltado tempo para o resto. Tinha resolvido que entre domingo à noite e amanhã à noite ia estar concentrada nisso. Na quinta-feira tenho um programa compacto e, por isso, o que tenho a fazer tem que ser até amanhã. Claro que a seguir às festas ainda é dia, há mais que tempo. Mas eu sou de despachar tudo o que meto na cabeça para depois me atirar ao que se segue.

Mas, afinal, amanhã também já não vou poder estar focada no meu assunto pois o meu filho já arranjou maneira de nos meter em trabalhos. Quando perguntou o que é que nós estávamos a pensar fazer para o almoço de Natal, falei-lhe no que estava a pensar como prato de peixe e como prato de carne. Para o peixe estou a pensar inventar uma coisa, que nunca fiz, que não faço ideia se já alguém fez alguma coisa assim, e para prato de carne algo mais banal. O meu filho disse que para o prato peixe lhe parecia bem mas, para carne, achava que deveríamos fazer uma coisa mais tradicional, a saber, um assado em forno de lenha. Quer eu quer o meu marido, ao pensarmos no produto final, ficámos tentados. Mas agora estamos apreensivos. Primeiro, já vi que a lenha boa para o efeito não pode ser pinheiro que é o que temos cá. Teremos que ir comprar azinho ou carvalho ou oliveira e só espero que não tenhamos que dar a volta ao bilhar grande para descobrir. Também temos que ir ao talho encomendar o que queremos pois não podemos correr o risco de chegar à véspera e o talho não ter. Mas o que nos preocupa é que, desde que para cá viemos, nunca usámos o forno de lenha. Mesmo no campo, onde temos um forno destes, há anos que não usamos. É uma trabalheira: horas para a lenha pegar e aquecer o forno, depois horas para a carne lá cozinhar. Ora quando temos que garantir que por volta da uma ou duas da tarde tem que estar tudo bem cozinhado, a que horas teremos que nos levantar para dar início à faena? Não vou levantar-me às seis da manhã... Teria que ser o meu marido. Mas é violento. O meu filho falou em deixarmos a carne a cozinhar durante a noite. Mas na véspera só cá devemos chegar lá para a uma e tal (ou seja, já no dia 25) e se nos vamos pôr a atear a lenha, teríamos que nos levantar lá para as quatro para colocar os tabuleiros com as carnes. Também não dá. Ou seja, não estou ainda a ver como vou desembrulhar esta.

Mas isto para dizer que amanhã não vou conseguir estar o dia inteiro a estudar e a testar e a tentar aquilo que agora meti na cabeça fazer. Por isso, mal acabe de escrever isto, vou-me atirar de novo.

Não tenho conseguido responder a comentários nem responder a mails pois estes dias estão curtos demais para a dimensão da minha ignorância e da minha inexperiência. Não levem a mal mas isto é mesmo uma enorme falta de tempo.

Por isso, também não vou comentar nada sobre actualidades ou desactualidades. Estou numa de 'me dá igual'. A minha cabeça está noutro lado e só tenho uma, não consigo que ela esteja ali e aqui e acoli ao mesmo tempo.

Por isso, deixo-vos com duas beldades. Uma é loura e oura é morena. Taylor Swift e Dita Von Teese. Da segunda já não falo aqui há algum tempo mas acho-a o máximo. É a rainha do burlesco, género que makes my days

Bejeweled (Behind the Scenes with Dita Von Teese)

E aqui o produto final:

Um dia feliz a todos!

terça-feira, novembro 26, 2024

No 25 de Novembro dou conta do que almoçámos a 24: comida de tacho com as cores de Outono

 

Uma vez que não fui eu que cozinhei, não partilho a  receita uma vez que não sei pormenores. Contudo, como o Chef foi o meu filho, há alguns aspectos que consigo referir:

1 - A comida foi cozinhada em tacho de ferro fundido, no forno, um tacho grande, fundo e muito pesado. 

2 - Primeiro, as carnes com cebola e abóbora, uns minutos com o forno ao máximo. Depois, creio que duas horas ou um pouco mais, a 160º.

3 -  Do que sei, 5 kg de carnes (porco e vaca), cebolas, couve chinesa, abóbora pequena com a casca, batata doce roxa e maçarocas de milho. Os legumes terão entrado mais no fim, quando o forno estava desligado, depois de entalados cá fora.

4 - O tacho sempre tapado. 

O que posso dizer é que estava delicioso. Comida de conforto. Na fotografia não se vê o molho que, no fundo, era constituído pelos sucos que os ingredientes foram deixando enquanto cozinhavam. Saboroso e saudável.

Para a sobremesa, a Chef Doceira (mulher do Chef 'de salgados') fez arroz doce com leite de amêndoa. Lamentavelmente não há fotografia. E, neste caso, também não sei a receita mas creio que será equivalente à que usa o leite de vaca. Bom. Como o que sobrou ficou cá em casa, agora estou a dar cabo da dieta (que, em boa verdade, também nunca existiu...). Estou eu e está o meu compagnon de route que, em tempos, não gostava de doces...

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Sobre as comemorações do dito 25/11 nada posso dizer pois tive mais que fazer mas quem viu disse-me que uma senhora que ia a acompanhar o marido ia vestida como se fosse a um casamento em Espinho. Também fez referência a um outro aspecto, algo cómico, mas prefiro não falar nisso pois parece-me tão improvável que receio não ser justa na descrição e pecar por defeito. E não me perguntem mais nada sobre o 25 do 11 de 2024 pois não faço ideia nem do que disseram, nem do que fizeram: não vi, não ouvi, não cheirei, não inalei.

domingo, agosto 25, 2024

Festa de anos da leoa mais tardia da família
-- E, porque vem muito a propósito, tutorial de maquilhagem para ficar como o Trump --

 

A última leoa esteve fora no dia dos seus anos pelo que este sábado é que foram as comemorações familiares. A reunião começou por volta das três e picos e prolongou-se creio que até às onze da noite, mais coisa menos coisa. 

Foi um dia em cheio, bom, bom, a malta toda reunida. Os anos passam, estamos todos cada vez mais sábios. Haverá quem diga que qual sábios qual carapuça, estamos é mais velhos. O tanas. 

Claro que os mais jovens estão mais altos, os do meio mais maduros e os mais velhos mais tranquilos. 

E todos estamos cada vez mais na boa. 

Confesso que, pela parte que me toca, aquilo de estar mais sábia é um pouco forçado... estou é cada vez mais ignorante... Mas isso é uma sensação que também é boa. Ignorante e a estar-me nas tintas para muita coisa é um good feeling, ohié.... Noutras situações fico com vontade de as aprender e isso também é bom.

Naturalmente houve presentes, desporto (o meu marido a meio da tarde foi dar uma volta com o cão e disse que a milhas se ouvia o chinfrim que eles faziam), lanche, leituras, conversas, penteados (entre tia e sobrinha, claro), houve execução de colares e pulseiras (a tia e a sobrinha, claro), houve conversas impenetráveis sobre futebol (entre os irmãos/primos rapazes, claro), houve visualização de um jogo de futebol (primos e pai/tio, claro), houve jantar, bolo de anos e parabéns a você e tudo a que os aniversariantes têm direito. 

Dia feliz, bom, bom, bom.

Sempre na rua. Está-se bem. Acho que é muito melhor estar ao ar livre do que encafuado em casa.

Sempre na rua, salvo seja. Entre o lanche e o jantar os rapazes estiveram nesta sala a ver cenas na televisão e, quando o meu marido aqui entrou, disse que não sabia se aqui poderia ficar. Referia-se ao cheiro. Mas a janela estava aberta e arejou o qb antes de eu entrar. Já não caí para o lado. De resto, tomaram banho (tomaram banho cá em casa, antes de jantar, é o que eu quero dizer). Mas também não sei a natureza do cheiro, diga-se. 

Adiante.

O que sei é que as cobertas que coloco em cima dos sofás estavam, como sempre, todas tortas, parte no chão, as almofadas umas caídas, outras em locais que não o delas. E a própria carpete estava meia enrolada. 

Não encontrei um dos comandos mas o meu marido conseguiu dar com ele. Menos mal. Não há muito, só demos com ele no dia seguinte.

O meu filho continua a perguntar-me por uns calções que perdeu e que diz que só podem estar cá. Não digo que não pois aqui reaparecem coisas que se julgavam perdidas. Mas, de facto, já se afastaram sofás, já se espreitou para baixo de tudo. Nada. 

Enfim, mistérios.

Depois, quando já estávamos os dois sozinhos, ainda fomos dar um passeio com o cãobeludo. Sabe bem passear enquanto se respira o ar fresco da noite.

A propósito. Se há coisa que o dog mais fofo adora é ter a casa cheia (cheia mas de gente que ele aprove, claro, nomeadamente a família). Fica numa alegria quando eles chegam e anda o tempo todo ao pé de um e de outro. 

Mas, mal ele pressente que a minha filha está numa do ir, começa a agarrar-se a ela, a fazer-lhe marcação, a querer segurar-lhe os pés. Não sei se ouve alguma palavra (por exemplo, ela a dizer para a sua trupe para se irem embora) ou se se apercebe através da dinâmica de partida. Curiosamente não faz isso com o meu filho e com todo o resto do pessoal, só com ela. Talvez seja porque ela o mima imenso e se entendem bem um ao outro.

Bem.

Isto para dizer que, para variar, quando me sentei aqui na sala e liguei o computador passava da meia noite. E parece que, em simultâneo, desliguei os neurónios. Deu-me um sono do caraças. Desculpem lá isto, parece um disparate, eu sei, e, na volta, é mesmo mas os dias são tão cheios que, ao fim do dia, estou para lá de bagdad.

Por isso, nada mais conseguindo pronunciar, dou passagem a um tutorial sobre como nos maquilharmos para ficarmos com aquela maravilhosa tez alaranjada do Trump. Parece-me útil. Na volta, quem queira agradar ao líder parlamentar laranja pode aqui aprender a pôr-se parecido com o seu guru. Ohié.

✨ Honest Donald Trump Makeup Recreation! 💄


E tenham um belo dia de domingo, está bem?

domingo, agosto 18, 2024

Grelhados suculentos e saudáveis, doces à Chef, lanche para gente sem apetite e etc.

 

Por estes dias, aqui chegada, à noite, não tenho muito assunto. Muitas vezes nem muito nem pouco. Não vejo televisão nem sei de notícias senão quando aterro aqui no sofá. 

Abro a página em branco e penso: 'Escrevo o quê?'. E, muito sinceramente, só me ocorre falar do que foi o almoço. Fazer o quê? 

Por isso, aqui vai e vai sem mistérios: grelhada mista.

Fui ao talho em que estou a habituar-me a ir pois tem carne boa e um jovem talhante que sabe ir ao encontro do que lhe digo. 

O meu filho tinha-me falado em piano. Não havia. Mas tinha uma peça de entrecosto alto, ainda com o courato. Não se atrapalhou: retirou o courato e o toucinho. Isso não veio. Depois, retirou um rectângulo de carne alta. Ficou, então, a parte do osso com fina camada de carne por cima. Mas depois vi aquele rectângulo de carne e resolvi trazê-la. O rapaz sugeriu abri-la ao meio, transformando-o em dois bocados de carne baixa. Pareceu-me interessante.

Depois trouxe costeletas do cachaço mas em corte largo, para ficarem costeletas grossas.

Trouxe também pernas de frango do campo pois toda a gente gosta de pernas de frango grelhadas. O meu filho tinha-me falado em peitos de frango. Aí o rapaz sugeriu abrir os peitos ao meio e eu achei boa ideia. Afinal o meu filho disse que ficariam melhores inteiros, altos. Para a próxima, já sei.

Trouxe também bifes do pojadouro que ele me disse que eram um espectáculo mas para se lhes dar apenas um cheirinho de calor.

Logo de manhã recebi uma mensagem do meu filho para preparar uma marinada mas apenas para as carnes de frango e de porco: 1 cerveja, sumo de 1 limão, alho picado (não muito pois o pessoal não gosto de sabores demasiado intensos), louro, um pouco de pimentão doce e sal. Juntei também orégãos. 

Os bifes de vaca, apenas uns leves grãos de sal e sumo de limão na hora de irem à grelha.

Ao contrário do que dantes eu pensava, não se deve pôr azeite no tempero da carne. Pelo contrário, deve pôr-se limão ou cerveja pois o ácido cítrico do limão ajuda a quebrar as fibras musculares da carne, tornando-a mais macia. A cerveja também amacia. Além disso,  ao grelhar carne em altas temperaturas, são gerados compostos como aminas heterocíclicas (AHCs) e hidrocarbonetos aromáticos policíclicos (HAPs), que têm potencial cancerígeno. Marinadas à base de ácidos (como o sumo de limão) ou antioxidantes (presentes na cerveja) podem ajudar a reduzir a formação desses compostos.

Acresce que, às brasas, foi adicionado um pouco de alecrim, que perfuma a queima mas é tido um outro cuidado: usam-se grelhas altas por forma a não submeter a carne à queima directa ou ao contacto com temperaturas muito elevadas.

Aprendemos isto com nutricionistas ou investigadoras como a Conceição Calhau.

E, digo-vos, faz toda a diferença. Claro que é também essencial haver arte no grelhador. Juntando a arte e o conhecimento, o produto final é uma maravilha. E bem mais saudável.

Depois, na mesa, para temperar a carne grelhada, tinha um molho simples feito com azeite, sumo de limão, orégãos e coentros migados. Mexendo tudo, emulsiona. 'Servi' com um pincel para se poder pincelar devidamente a carne ao ir para o prato. Fica muito bom mas, mesmo não pondo nenhum molho, o tempero e o ponto estavam suficientemente bons para até poderem dispensar tempero adicional.

Para acompanhar, tinha batatas fritas (de pacote, tradicionais, umas normais e outras light), salada de alface (que fiz com alface ice, que é nutricionalmente mais fraca mas de que todos gostam, abacate aos bocados, azeite, orégãos e vinagre bio com mel), salada de tomate (tomate maduro cortados aos quadradinhos, com azeite, orégãos, e queijinhos mozzarelas às bolinhas) e feijão preto (num tacho, com um pouco de azeite, frito cebola picada e um pouco, para aí um quarto ou menos, de chouriço artesanal aos bocadinhos e salsa. Quando está tudo douradinho, juntei duas latas de feijão preto mais ou menos escorrido. Mexi bem, deixei ferver mas sempre em lume brando). Tinha ainda pão de Rio Maior.

Para sobremesa tinha salada de frutas e um doce que o meu marido fez e que estava bom.

Numa frigideira cozinhou maçãs cortadas aos cubinhos, com casca (apenas sem o pé e sem caroços), juntamente com um frasco inteiro de compota de pêssego. Juntou um pouco de sumo limão e um pouco de canela. Quando a maçã estava cozinhada, passou para a fase seguinte. 

O forno estava a aquecer a 200º. 

Forrou um tabuleiro com papel vegetal e pincelou com azeite. Em cima colocou a massa folhada fresca que comprámos no supermercado, com formato rectangular. Encheu com a fruta cozinhada em compota. Foi ao forno que, entretanto baixou para 170º

Só depois se lembrou que, supostamente, era para levar amêndoa torrada aos bocadinhos. Poderia remediar-se mas já estava farto, não quis pôr. Mas estava bom na mesma. Serviu-se com gelado de limão. Aqui não foi especialmente apreciado, disseram que teriam preferido de baunilha ou natas. Fica para a próxima.

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E pronto, não sei que mais vos conte. Só se for o lanche. 

O almoço acabou já depois das 3 da tarde. Depois ainda houve jogos de cartas e outro de que não me lembro o nome mas que me fez rir até às lágrimas. Depois, parte deles, na verdade todo o sector masculino menos o avô (incluindo o mais novo de sete anos), como a tarde estava de assar, resolveram ir fazer um passeio de bicicleta. São doidos. Saíram todos de capacete, parecia a volta a Portugal, tudo em fila de pirilau a encher a estrada. Depois, passado um bocado, vieram deixar o mais novo em casa (furioso, a achar-se discriminado) mais o guarda-redes mais velho que não queria perder o jogo do Sporting, e continuaram para um passeio mais puxado. Regressaram passada uma hora, completamente afogueados. E claro que o desporto não se ficou por aí pois ainda houve partida de vólei. 

Banhos tomados, hora do lanche. Que ainda não estavam com muita fome, que se calhar não era preciso nada de especial.

Pois... Como se já não os conhecesse...

Fiz batido de leite e fruta para uns

Fiz batido de kéfir com latte dourado para outros

Uma das comensais comeu iogurte natural com salada de fruta.

Quase todos comeram salada de fruta.

Depois tostas (fatias de pão-de-forma de Rio Maior, tostadas) com queijo fresco e presunto e outras com tomate.

Depois tostas com fatias de queijo e o doce de gamboa.

E, no fim, estando o lanche terminado, para meu espanto, um dos meninos veio ter comigo e perguntou se não havia mais e se não podia comer uma sandwich ou qualquer coisa que o enchesse mais.

Fui então buscar uma carcaça, enfiei-lhe lá um bife do pojadouro (do que tinha sobrado do almoço), pus um pouco de ketchup e como piada, juntei, lá dentro, batatas fritas. Chamou-lhe um figo, claro.

Talvez fossem já umas sete ou mais da tarde, nem sei bem.

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E agora é que já não sei mais que vos diga. Só se for para vos desejar um feliz dia de domingo.

segunda-feira, janeiro 22, 2024

Em dia de sol e família
acabo na companhia da Sharon Stone e de Rothko

 

A família tenta que eu não fique tão exclusivamente focada no problema que nos toca a todos. Não há quem não tente pôr-me racionalidade na cabeça. Compreendo-os mas há coisas que não resultam apenas da nossa vontade. O meu marido, para além disso, quase me empurra à força para a psicóloga. Mas eu, nesta fase, não tenho disponibilidade de qualquer espécie pelo que não vou já agendar nada; mas acredito que, mais tarde, talvez agende umas sessões.

Mas não estou passada de todo pelo que, pelos meus próprios meios, estou a tentar continuar a viver com a normalidade possível. 

[A minha filha disse que quando, no final do ano (ou no início deste?) fiz o balanço de 2023 só falei das coisas negativas, esquecendo-me de todos os bons momentos, do muito que escrevi, de todas as muitas vezes em que estivemos juntos, etc. Disse-me também que nem pareço eu pois eu, tal como era, não reagiria como estou a reagir. E o meu filho, no outro dia, disse-me que não posso esquecer-me que tenho filhos e netos. E disse-me que parece que envelheci trinta anos. E eu, ouvindo-os, reconheço que têm razão em tudo o que dizem.]

Então, fomos todos almoçar fora, passeámos à beira rio, os meninos estiveram e brincaram juntos e eu senti-me feliz. Claro que há sempre aquela sombra, aquela preocupação, aquela angústia que me aperta as entranhas. Mas vê-los contentes, conversadores, estando com eles e deixando-me contagiar pela alegria buliçosa das crianças, sinto-me melhor e, de vez em quando, consigo mesmo abstrair-me do que se passa.

É que, por muito que nos custe assistir, de perto, diria até que por dentro, a uma situação como aquela que atravessamos, a vida continua. 

E os meus netos são bem a prova viva disso. E são também, só por si, um motivo de felicidade absoluta, tal como o são os meus filhos.

Portanto, apesar dos pesares, este domingo foi um dia feliz, luminoso.

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E agora, para que não venham outra vez dizer que parece que não sou capaz de falar de outra coisa, deixem que partilhe convosco dois vídeos muito interessantes. Pode até parecer heresia juntar a Sharon Stone e o Rothko mas eu sou herege. Nada a fazer.

[Os textos abaixo são traduções google dos textos que acompanham os vídeos]

Sharon Stone, artista

Quando era estudante universitária, Sharon Stone viveu a vida de uma artista faminta, vendendo as suas pinturas por US$ 25 cada. Hoje, a atriz nomeada para um Oscar voltou ao seu amor pela pintura, com as suas obras a ser vendidas na casa das dezenas de milhares. Já teve duas exposições em galerias nos EUA, com uma terceira prestes a ser inaugurada em Berlim. O correspondente Lee Cowan visita Stone no seu estúdio em Los Angeles e observa-a a criar um novo trabalho.


Mark Rothko -- visita privada à exposição na Fundação Louis Vuitton

As obras abstratas… Sim, mas não só. Mark Rothko defendeu-se afirmando que a sua pintura estava viva. Demonstração aqui na Fondation Vuitton, com esta magistral exposição, a maior do mundo dedicada a ele. 115 obras-primas em formatos absolutamente monumentais que estão disponíveis nos 4 andares da instituição parisiense. Diante desta paleta XXL, é difícil não nos sentirmos absorvidos por essas cores difusas, quase hipnóticas, que exercem sobre nós esse misterioso poder de fascínio. À distância, massas perfeitamente equilibradas, com geometria difusa. De perto, um nevoeiro difuso que nos absorve. Dê um passo para trás. A obra não é mais o que você via no início. Nosso olhar muda, decifra, sente.
Exposição Mark Rothko  --  Fundação Louis Vuitton, Paris  -- Até 2 de abril de 2024
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As fotografias foram feitas no domingo no Parque das Nações

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Desejo-vos uma boa semana a começar já nesta segunda-feira
Saúde. Ânimo. Paz.

terça-feira, dezembro 26, 2023

Agradecer e abraçar

 

Afinal o dia de Natal não foi cá em casa. Eu com dores de garganta, meio engripada mas sob controlo. O meu filho, depois de bem atacado, já quase bom, embora ainda com tosse, mas a minha filha pior, a sentir-se doente, a sentir que não devia sair de casa.

Estávamos a ver as coisas mal paradas. Natal sem estarmos juntos e, em especial, sem que a criançada esteja junta não é Natal. Mas, felizmente, tudo se resolveu pelo melhor. Fomos nós ter com ela. Esteve com máscara e almoçou fora da mesa, embora perto de nós, não fosse contagiar os demais (os demais que ainda conseguem aguentar-se livres do bicho).

Eu e ela provavelmente apanhámo-lo nos hospitais por onde temos andado. Parece que está meio mundo apanhado.

De tarde, ver a minha mãe, por via das dúvidas, só meu filho e a minha nora. Encontraram-na menos queixosa, melhor encarada. Face ao estado em que a vimos, quase parece milagre que esteja a recuperar tão bem.

O meu marido foi para o parque com os rapazes. Não passam sem uma futebolada. Até o mais pequeno já gosta de se pôr à baliza. Se daqui por uns anos derem conta de dois irmãos mais dois irmãos, primos uns dos outros, todos guarda-redes, provavelmente dois pelo Sporting e dois pelo Benfica, já sabem que serão os meus quatro queridos rapazes.

Desta vez, despassarada e atordoada como tenho andada, incapaz de atinar com combinações, foi o meu filho que cozinhou as carnes. Óptimas, no ponto, saborosas e bem cozinhadas. É um chef, o meu filho. Eu limitei-me a fazer batatas raclette e molho de tomate.

Desta vez não levámos o cão maluco. Impossível num apartamento cheio de gente, com miúdos barulhentos, com o momento de agitação que sempre é o da troca de presentes, com bolas de futebol à mistura, com comida à mão de semear, com um movimento permanente. Portanto, foi mais tranquilo pois se, em cima disso, tivéssemos um cão a querer abocanhar tudo e toda a gente a zangar-se com ele, teria sido mais complicado.

Quando chegámos a casa, de noite, o bichinho, coitado, estava como sempre está nestas ocasiões: nervoso, amedrontado, com receio de vir à vontade ter connosco. Temos que lhe fazer festinhas e fazer-lhe perceber que não ficou de castigo, que não estamos zangados com ele. Quando percebe isso, fica numa alegria desmedida, salta e atira-se para o chão para lhe fazermos festas, brinca à nossa volta. Fomos fazer uma caminhada nocturna, o ar gélido, eu agasalhada e a recear piorar. E se calhar piorei mesmo. Estou para aqui cheia de frio, cheia de arrepios. Já bebi um chá quentinho e daqui a nada vou chupar outra pastilha. A ver se isto não se complica para aqui.

Entretanto, enquanto escrevo, vou vendo o que os meus amigos vão enviando sobre os seus natais, outros vão publicando piadas. E a minha filha encaminhou a fotografia de uma amiga comum, em casa, com as suas crianças. Todos muito bem vestidos, chiques, mesmo, as meninas vestidas de igual, todos sossegados, direitinhos, a fazerem pose para a fotografia. Fico sempre intrigada. Como conseguem? As nossas fotografias são o desconchavo habitual, uns sentados no chão a jogarem ao 'vírus' (se é que percebi bem), outros estendidos no sofá relax, um deles quase a fazer a cambalhota, por fim esse em tronco nu. Tinha pensado que neste dia de natal iria tentar que ficássemos na escada, todos sentados, a família toda junta. Afinal não aconteceu. A ver se no ano novo.

Não falei dos doces. Estou desconcentrada e a sentir-me meio adoentada. Gaita. Adiante. A minha filha tinha pavlova de chocolate e arroz doce e eu levei dois bolos da padaria portuguesa. E a minha nora levou mousse feita pela mãe. E bombons. E, uma coisa muito boa, um prato de belas bolachinhas, muito saborosas, feitas pela minha menina mais linda, tão querida, que gosta de também colaborar na confecção da ementa natalícia. Com tudo isto, sobraram muitos doces. Trouxe algumas bolachinhas e o que sobrou dos dois que levei, e congelei. Descongelo no ano novo.

E, com isto, a semana começa numa terça-feira. Não parece, não é? Diria que, no máximo, seria segunda-feira. Mas não senhor. Terça feira. Continuo desfasada das rotinas mas, agora que parece que a esperança numa recuperação não é ficção, a ver se consigo encaixar as idas ao hospital sem quebrar a rotina da piscina ou das leituras ou da escrita. Não sei bem como consegui-lo mas acho que terei que tentar porque senão parece que nem sou bem eu. Isto já para não falar que há não sei quanto tempo que não conseguimos ir ao campo, à nossa maravilhosa casinha in heaven. Enfim. Uma coisa de cada vez. É o que me dizem, é o que a minha filha está sempre a dizer-me: um dia de cada vez.

E pronto. O Natal já passou e daqui a nada o ano também já se foi. Mas estamos aqui e isso é o que importa. Agradecer e abraçar. E seguir em frente. É isso, não é?

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Maria Bethânia - "Agradecer e Abraçar"


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Muito obrigada pelas vossas palavras simpáticas e não levem a mal que não agradeça a cada um, está bem?

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Um dia feliz
Saúde. Força. Paz.