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terça-feira, abril 14, 2026

Um medicamento extraordinário contra o cancro que é tão caro que ou o SNS se afunda ou milhares de pessoas ficam sem tratamento...? É isto....?

 

Desde que comecei a votar que o meu sentido é o mesmo. Identifico-me com as sociais democracias, em especial com as do norte da Europa, estáveis, tranquilas, assentes no bem de toda a população, no desenvolvimento, na felicidade.

Nunca me identifiquei com o comunismo nem nunca me identifiquei com as chamadas doutrinas sociais da igreja, conservadoras e reaccionárias, muito menos com os movimentos de direita e, mais recentemente, com os populismos.

Nunca diabolizei a iniciativa privada nem nunca defendi que, mesmo em alguns serviços que entendo que devem ser disponibilizados gratuitamente à população, a gestão tem forçosamente que ser desempenhada pela Administração Pública.

Trabalhei para empresas do Estado, nacionalizadas, trabalhei para empresas estatais mas geridas como se fossem privadas e trabalhei para empresas privadas. Conheço bem as regras de umas e outras. Como sou avessa a generalizações não vou catalogar umas e outras quanto à qualidade da gestão. 

Tenho para mim que a saúde, a educação, a segurança pública, por exemplo devem ser públicas, de acesso universal. Mas, no caso da Saúde, em que se movimentam muitos milhões e em que a componente da gestão é fulcral, não tenho dúvidas em dizer que os problemas são de gestão, que quem gere a maioria das unidades não faz ideia do que está a fazer e que a incompetência começa na ministra. Não digo que a gestão da Saúde deve ser privada mas afirmo, sem margem para dúvida, que deve ser gerida com a mentalidade de um gestor profissional. Ao contrário do que muito ignorante pensa, a gestão privada não visa apenas o lucro. O lucro em si tem perna curta. Tem que haver qualidade, apreço por parte de todos os que se movimentam dentro e em redor (o que, em linguagem de gestão, se designa por stakeholders). Se houver apreço por parte de todos, cria-se a fidelização, desenvolve-se a motivação, estimula-se a criatividade que é o motor para se encontrarem boas soluções. O lucro será a consequência de tudo o resto, perifericamente, funcionar bem.

Sei bem o que eu faria e sei que, se eu pudesse pôr em práticas as medidas que vejo como críticas e prioritárias, em três ou quatro anos, o SNS estaria disponível a muito mais gente, em muito mais valências, com índices de qualidade muito acima dos actuais, com filas de espera mínimas, com tempos de atendimento decentes, e com um gasto geral no mínimo inferior em 10 a 20% ao actual. Se fosse o caso, isto é, se eu fosse convidada para isso e aceitasse -- o que obviamente duplamente não acontecerá -- eu própria definiria estes objectivos e eu própria definiria que, se não os atingisse, seria liminarmente despedida.

E é que não se exige muito, apenas experiência e alguma competência em gestão e vontade de fazer a coisa certa. Estou certa que, tal como eu, se o mesmo desígnio fosse proposto a qualquer outro profissional experiente e competente e tivesse a cobertura de um pacto de regime que permitisse actuar a sério, se revolucionaria verdadeiramente a forma como hoje se trabalha. E quando falo em revolucionar, garanto que revolução seria a palavra certa. Poderes e poderzinhos, compras descentralizadas, negociações descentralizadas, corporativismos de toda a espécie, centralizações absurdas sem qualquer benefício -- tudo isso acabaria. E acabaria num abrir e fechar de olhos. Nestas coisas não sou adepta de ir devagarinho, sou mais na base do one time shot. Como sei o que faço não haveria risco de me atirar para fora de pé pois sei que sei nadar.

Dito isto, e continuando no domínio da Saúde, falo agora de uma notícia que verdadeiramente me perturbou e que me fez questionar se não deveríamos, enquanto sociedade, repensar algumas abordagens, deixarmos de ser tão passivos ou tão individualistas como somos.

A notícia diz o seguinte: "Merck transformou medicamento contra o cancro num êxito de vendas, mas é tão caro que poucos o podem pagar"

Pensei: o capitalismo no seu máximo expoente. Mesmo quando está em causa a vida de tantas pessoas, prevalece o endeusamento do lucro de algumas empresas. Eu bem sei que o valor das patentes financia a investigação e etc e tal. Mas quando se trata de produtos vitais à sobrevivência ou à qualidade e dignidade da vida humana, há que equacionar prioridades e abordagens. Que sentido faz, vender uma embalagem por milhares de euros quando há tantas pessoas que beneficiariam brutalmente desse medicamento? E como pode o SNS providenciar esse tratamento quando o valor é insustentável?

Fui informar-me: enquanto em Portugal os preços altos são mantidos por longos períodos devido à proteção de patente na UE, na China, o Estado exerce um controlo mais direto sobre o preço final e incentiva a produção de alternativas locais mais baratas (ou superiores) para substituir o medicamento de marca, limitando a margem de lucro dos originais.

E nos países nórdicos? Informei-me. Ao contrário de Portugal, que negoceia individualmente através do Infarmed, os países nórdicos uniram forças para aumentar o seu poder de mercado. Dinamarca, Noruega e Islândia realizam concursos públicos conjuntos para medicamentos hospitalares, forçando as farmacêuticas a oferecer descontos maiores para garantir o mercado de três países de uma só vez.

Claro que me parece que a abordagem chinesa é a que melhor defende os interesses da população e não tenho dúvidas que é o caminho certo. Mas a China tem uma dimensão que permite uma força que não está ao alcance de todos. Além disso estão formatados (e bem) para o pensamento estratégico e para a persistência. Estamos, infelizmente, um bocado longe disso. (Não vou aqui falar da liberdade de expressão, dos direitos humanos, etc. -- isso são outras vertentes que não são objecto do que aqui estou a escrever)

A Europa deveria agir desta forma, ser como a China, juntar os países nas grandes negociações. Se o fez para as vacinas Covid, deveria fazê-lo para todos os medicamentos inovadores e de grande interesse público. Esse é o caminho. Mas, enquanto isso ainda não é possível, Portugal deveria juntar-se pelo menos com Espanha e, desejavelmente, com mais uns quantos países e enveredar por esta via. Não apenas se poupariam largos milhões ao erário público como se traria maior esperança de vida a milhares de pessoas.

E quem diz isto, diz agir desta mesma forma a muitos outros níveis. 

Não podemos é continuar a pensar pequeninamente, a desbaratar milhões e milhões e a não conseguir entregar os cuidados e os serviços de que a população necessita. 

Não sou contra o capitalismo (quando é regulado e decente), sou é contra a falta de visão, a falta de ambição e de energia, a falta de definição de prioridades.


domingo, março 15, 2026

Dias de chumbo

 


Só espero que França, Inglaterra, a Bélgica ou qualquer outro país europeu não caiam na esparrela de enviar navios de guerra para o Estreito de Ormuz sob a chantagem de Trump. A situação é crítica e podemos estar em vias de enfrentar graves disrupções de abastecimento, mas, ainda assim, não faz sentido enviar carne para canhão para alimentar o desvario de Trump e dos outros palhaços que o rodeiam, mormente o bronquésimo Pete Hegseth. É deixá-lo provar o veneno que ele próprio se gaba de espalhar. Não é ele que diz que vai continuar a atirar, nem que seja pela piada de o fazer? Trump says US may strike Iran’s Kharg Island oil export hub ‘just for fun’. Sem ajuda talvez o demente narcisista perceba que tem que recuar. Embora, mesmo que um dia capitule, nada apagará o estrago, o irreparável estrago, a todos os títulos irreparável, que já causou. Criminoso.

Igualmente só espero que os cobardolas europeus, incluindo Montenegro (não esquecendo o Rangel, verdadeira chicken), que não souberam demarcar-se do demente presidente dos Estados Unidos -- que, pela mão do assassino Netanyahu --, lançou esta guerra estúpida, desnecessária e de gravíssimas consequências, sigam o exemplo de Giorgia Meloni. Se todos os europeus, a uma só voz, se demarcassem, alto e bom som, de Trump, tal como se demarcaram de Putin (e não falo de Órban pois há mais marés que marinheiros e tenho esperança que a Hungria um destes dias se veja livre dele), talvez Trump pensasse duas vezes antes de se meter em alhadas. Mas, mesmo que não pensasse (porque já se viu que é cavalgadura pouco dada a pensamentos), talvez os congressistas tomassem mais alento para avançar para o que deve ser feito. Avançar ASAP -- antes que seja tarde demais (se é que já não o é). 

Só espero também que a União Europeia, atordoada com a irrelevância com que é olhada pelos facínoras que parecem estar na crista da onda, não ceda à tentação de se juntar aos piores com receio de ser ainda mais irrelevante. É que, volto a dizer, há mais marés que marinheiros e, um dia, talvez não muito distante, pelo menos assim o espero, os que agora parecem estar na crista da onda estarão sob ela, a estrebuchar para sobreviver. Tenho para mim que, uma vez que não há mal que sempre dure, não tarda muito o dia em que toda esta horrenda corja estará na prisão, enfrentando, no mínimo, prisão perpétua.

Penso muitas vezes, naqueles momentos em que a minha veia de optimista e de sonhadora tentam levar a melhor, que talvez, das brumas, venham a surgir aqueles que, em conjunto, vão saber travar esta deriva bélica e suicidária e restaurar os maravilhosos tempos de paz de que nunca mais deveríamos abdicar. Mas onde um Churchill, um de Gaulle, um Roosevelt? Onde os estadistas que sabem subir um degrau e pensar no mundo, pensar no futuro, pensar no bem da humanidade?

Quando vejo que Melania (que, com um desplante inaudito se gaba do que não é, descrevendo-se a ela própria como 'uma visionária'), que, ao fim de não sei quanto tempo a viver nos Estados Unidos ainda não sabe falar um inglês escorreito e que não tem quaisquer credenciais ou competências, presidiu ao Conselho de Segurança das Nações Unidas e que os representantes dos outros países aceitaram fazer parte daquele circo, ou que Trump envia como seus representantes para negociar a paz noutros países, mormente naqueles em que se coloca ao lado do agressor, (ou, melhor, para negociar de reconstrução pós guerra) o genro e um outro pato bravo e ninguém se recusa a reunir com aqueles dois descredenciados, fico desconsolada de todo. Não há quem se erga, saia da sala e diga que já chega de palhaçada?

Sempre fui furiosamente contra tudo o que vagamente se assemelhasse a teorias da conspiração. Se há uns tempos me viessem dizer que, na volta, Trump anda a toque de caixa do Netanyahu ou do Putin porque estes o têm agarrado pelas goelas, quiçá pelos testículos (pois, segundo dizem, basta um apertãozinho menos cuidadoso para já doer), porventura porque têm provas irrefutáveis que o conduziriam de imediato à prisão, eu diria que não me viessem com cantigas. Agora, depois de tudo o que se tem vindo a saber na sequência da libertação dos ficheiros Epstein e na sequência do que muitos ex-apoiantes de Trump, nomeadamente de congressistas e ex-congressistas e alguns dos mais sonantes vultos do podcast político americano, têm vindo a divulgar sobre o poder de Israel sobre o Congresso, já não digo a mesma coisa.

Também não me tinha apercebido da influência brutal, do verdadeiro poder manipulador e mesmo estrangulador, que os grandes bilionários deste mundo, talvez em especial os das tecnológicas que dominam as redes sociais, a inteligência artificial e os grandes conglomerados da informação têm sobre a condução dos destinos do mundo.

A minha visão do que se passa é hoje menos inocente e, logo, mais preocupada. Aquela imagem de que somos meros peões num jogo de que mal conhecemos as regras está hoje muito marcada em mim. Hoje sei que estamos indefesos. E, pior, sei que mais depressa se atacam e deixam morrer os indefesos do que alguém mexe uma palha para impedir os agressores de continuarem a espalhar o mal. E sei que esse mal existe tantas vezes por nada, a troco de nada, a troco de parvoíces, de desvarios, de imaturidades. 

Salva-me deste estado de espírito (talvez um realismo que chegou tardiamente à minha vida) a capacidade de me alhear, de me encantar com os musgos, com os líquenes, com as flores, com o canto dos pássaros, com as folhinhas que nascem pela primavera. Ia acrescentar: e com os meus meninos. Mas não é verdade. Preocupo-me com eles, preocupo-me cada vez mais. Em que raio de mundo estão a entrar agora que são adolescentes ou a caminho disso? Tanto que eu desejava para eles um mundo de paz, de fraternidade, de prosperidade. E, afinal, o mundo está cada vez mais perigoso, mais pejado de falsidades, de manipulações, de inimizades, menos inclusivo, mais egoísta, mais enraivecido, mais brutal. Preocupo-me, pois, sempre que penso neles, e penso tanto.

Mas, enfim, coração ao alto. É madrugada, a casa está silenciosa. Pelo menos, por aqui os mísseis não rasgam os céus e, por isso, devo dar-me por contente. E amanhã voltarei a andar pelos campos à procura de flores, de rebentos, de bagas para olhar por dentro, para fotografar. E isso é bom.

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Desejo-vos um feliz dia de domingo

segunda-feira, março 02, 2026

Um sistema intrinsecamente corrupto

 

Quando os aviões cruzam os céus para despejar bombas, quando os mísseis atravessam países, quando pessoas começam a reduzir-se à condição de corpos -- e quando as televisões nos encharcam as mentes com imagens e com explicações e mil comentários -- chego a esta hora e mais depressa me apetece falar dos meus meninos, todos os dias mais crescidos, do que de toda a instabilidade que grassa pelo mundo.

Tempos houve, e não foram longínquos, em que os países faziam as pazes, em que os muros caíam, em que as guerras, fossem guerras de bombas e botas no terreno ou guerras frias, pareciam coisa do passado. Infelizmente voltámos a esses tempos sombrios. E é um pavor.

Como chegámos até aqui?

Talvez a explicação esteja na ausência de saúde moral de parte dos regimes que, em vez de cultivarem a paz, parece que, no seu âmago, se atolam na lama.

Diz David Rothkopf que a assinatura de Trump e, na realidade, a assinatura destes tempos é a 'história' que se conta através dos ficheiros Epstein. 

E, embora já aqui tenha falado dele algumas vezes pois gosto imenso de ouvi-lo, recordo que David Rothkopf é uma pessoa particularmente bem informada, daquelas pessoas de quem se pode dizer que bebe do fino. O seu currículo é impressionante e a quantidade de pessoas que conhece e conheceu de perto, a rede de informações que facilmente cruza, e a forma simples, quase humilde, mas sempre perspicaz e sólida, tornam-no, a meus olhos, uma pessoa cujas opiniões interessam.

Aqui, no vídeo que abaixo partilho, está de novo à conversa com Joanna Coles que garante sempre conversas interessantes, leves qb e com um toque de boa disposição. A conversa decorreu no momento em que Clinton, com quem David Rothkopf trabalhou, estava a depor no Congresso. Por isso, a novidade do ataque ao Irão ainda não tinha ocorrido.

A conversa é longa mas tem interesse do princípio ao fim. 

Para quem duvida das ligações de Epstein à Rússia ou à Mossad, para quem duvida da longa mão de Putin na governação Trump, para quem ainda pensa que tudo gira à volta de sexo com menores de idade, para quem ainda não percebeu o esquema da troca de favores e da pirâmide da influência, para quem ainda não percebeu como o esquema de financiamento privado que existe nos Estados Unidos com políticos e universidades a terem que arranjar financiamento para as suas actividades leva, quase inevitavelmente, à venalidade -- aqui fala-se de tudo isso.

Porque é que Epstein é o crime que define Trump: Rothkopf | Podcast do The Daily Beast

David Rothkopf junta-se a Joanna Coles para defender que o escândalo Epstein é a crise que define Donald Trump, ligando o poder global, a desigualdade de rendimentos, a corrupção e a impunidade. Rothkopf, colunista imperdível do The Daily Beast e fundador da DSR Network, explica como Epstein envolveu uma rede de elites como Bill Clinton, Príncipe André, Peter Mandelson e magnatas de Wall Street, ao mesmo tempo que levanta questões mais profundas sobre obstrução à justiça, desaparecimento de provas e envolvimentos dos serviços de informação. Discutem também como figuras-chave encobriram ativamente irregularidades para se protegerem a si e aos seus aliados, mostrando um mundo onde o privilégio protege o crime e a verdade completa pode nunca vir ao de cima.

00:00 - Porque é que os arquivos de Epstein podem remodelar a política americana
05h05 - Clinton, Trump e a política de desvio de atenções
10h00 - Mortes, silêncio e o medo em torno do círculo íntimo de Epstein
15h00 - A Rússia, as agências de informação e a armadilha de Epstein
20h05 - Kompromat, o poder e como as elites são comprometidas
25h00 - O príncipe André, as elites globais e a troca de acesso por influência
30h00 - O "escândalo característico" de Trump e a cultura da impunidade
35:05 - Comunicação social, desinformação e obstrução à justiça
40h00 - O que revela o caso Epstein sobre a corrupção nos Estados Unidos
45:05 - Porque é que este escândalo ainda importa e o que vem a seguir

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Desejo-vos uma boa semana 

quarta-feira, outubro 22, 2025

Gaza, não tarda uma terra banhada a leite e mel

 

Não sei se a Palestina é uma abstração, um sonho, uma ilusão ou um eterno devir. Talvez uma ficção, talvez cenário de cruzadas, de quimeras. Talvez um local mítico, realmente nunca existente, provavelmente nunca materializado. 

A história da Palestina é tudo e nada, uma promessa, uma desilusão, um objectivo, um malogro, uma miragem - há uma língua, há uma história, há uma cultura. Mas não há moeda, não há economia auto-suficiente, não há controlo de fronteiras.

Se Gaza, que era governada pelo Hamas (antagónica em relação à Autoridade Palestina) é o que é e está como está, já a Cisjordânia também não passa de um acto falhado. Embora parcialmente administrada pela Autoridade Palestina, na prática é Israel que controla as fronteiras, o espaço aéreo e a maior parte do território, isto já para não falar das colónias israelitas que a polvilham.

Sempre me fez muita confusão que a dita Palestina vivesse de caridade, de ajuda humanitária. Ora não há país, organização ou grupo que subsista no tempo se não for minimamente autossuficiente. Ao pactuar com esta situação, todos (todos) os que ajudaram foram cúmplices de uma situação frágil, vulnerável, condenada ao insucesso.

Gaza, terra que tem sido de ninguém, é uma faixa de terra à beira-mar, apetecível para quem está nos negócios do real state, para quem gere fundos, para quem tem muito dinheiro para investir e para lavar. Não o têm escondido ou disfarçado: aquela terra tem muito potencial, dizem-no à boca cheia, à cara podre. Mas, para isso, primeiro tem que ser limpa. Não é com subtilezas que o anunciam, é abertamente. Quem gere fundos e se movimenta no mundo dos business plan e dos private equity não tem tempo a perder com meias palavras, quer é saber de coisas concretas: como, quando, com quem. Além disso, adequar projectos a infraestruturas existentes é uma maçada, uma perda de tempo, uma perda de dinheiro. O melhor mesmo é ser greenfield. Começar do zero. Portanto, limpeza geral. Prego a fundo nas demolições. O mais rápido é à bomba? Pois que o seja. 

Zero ideologia, excepto a ideologia do máximo proveito e o resto que se dane.

Isto em relação à nesga à beira-mar plantada, a Riviera há tanto adiada. Quanto à Cisjordânia, ali mais acima, vai continuar a ser um viveiro de revoltados, de humilhados. E viveiro também de mão de obra barata, quando fizer falta. E, enquanto o tempo passa, vai sendo progressivamente esvaziada. Tudo bem, para já está bem como está, dirão.

Talvez tudo isto pudesse ser de outra maneira. Talvez. Em abstracto. Primeiro haveria que pacificar toda aquela zona. Um plano para a paz na região passará forçosamente por esclarecer quem é dono do quê, quem manda em quem, quais as fronteiras e quem assegura a autonomia do território A e do território B. Ora ninguém está a tratar disto. Organizar a Palestina (leia-se: o território de Gaza mais o território da Cisjordânia) é caldinho para o qual ninguém parece estar preparado. Ou motivado. Não sei sequer se é possível. Diria que não. Os próprios não têm condições para isso -- pelo menos, do que se conhece, parece-me que não --, e os de fora não têm interesse nisso.

Portanto, dizer o quê...? Exigir o quê? A quem?

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Até há pouco tempo nada sabia de Candace Owens. Era Maga radical, influencer pro Trump, espaventosa, truculenta e provocadora. Mas, ultimamente, vem-se desviando. Tem-se demarcado do apoio dos Estados Unidos a Israel, tem criticado, e muito, o sinistro Bibi, tem levantado muitas dúvidas sobre o envolvimento de Israel em acontecimentos obscuros. E, por isso, agora tem estado sob fogo cerrado. E, no entanto, o grande arquitecto do plano para Gaza, o plano de reconstrução, o genro de Trump, Jared Kushner, nunca escondeu quais os seus propósitos.

É com espanto que leio agora que está a ser discutido o conflito de interesses em forma de gente que é Jared Kushner. Mas só agora o descobriram? Ele nunca escondeu o que pretende...

Este vídeo foca alguns destes aspectos. Permite a legendagem em língua portuguesa.

Candace Owens Gets It Right On Gaza AGAIN

Jared Kushner, Peter Thiel and Larry Ellison are linked to plans In Gaza that will certainly make them even richer. Cenk Uygur and Ana Kasparian discuss on The Young Turks. 

CHAPTERS:

0.00 Candace Owens Shreds Jared Kushner
1.00 TYT Explains The REAL Plan For Gaza
7.20 The Bad Guys Are In Charge
11.15 Why Israel's Press Is Better Than Ours
14.00 Bezalel Smotrich Says The Quiet Part Out Loud


Desejo-vos um dia feliz

domingo, junho 29, 2025

Jeff Bezos ou o primo da Madalena Abecassis -- ou quando o casamento deixa de ser um simples casamento

 

Tive vontade de completar o título com "... e passou a ser uma grande palhaçada" mas contive-me. Cada um sabe de si. Além disso, não se podem analisar as coisas independentemente do tempo em que ocorrem. As circunstâncias vão formatando as mentes.

Para mim um casamento é a formalização de uma união que, de alguma forma, já existe. Cada um já tem que saber que é com o outro que quer viver e formar família. Pode até acontecer que isso já esteja a acontecer sem que o 'papel passado' faça qualquer falta. 

Se fosse hoje, provavelmente não me tinha casado pois passava bem sem a cerimónia e sem a festa. Simplesmente, parece que, naquela altura, era normal as pessoas casarem-se. Casei-me sem sequer nos ocorrer que poderíamos, simplesmente, viver juntos. Mas também não sei se, na altura, a união de facto já tinha o enquadramento que hoje tem. E, de resto, também não sei se hoje estar-se casado é igual, em termos de direitos, a viver em união de facto. Se houver algum inconveniente, também não vejo que o casamento faça mal.

Mas, seja como for, para mim o casamento é uma formalização, um acto administrativo, e pode ser também um momento de reunir família e amigos dos dois lados para que se conheçam e convivam.

Já contei que o meu casamento foi decidido e tratado creio que num mês. Fomos ao notário e perguntámos qual a primeira data disponível. E foi nessa data que ficou. Era uma sexta-feira e nem pensámos que poderia ser um transtorno, o meu pai é que me censurou por isso (mas também foi uma censura relativa e, além disso, compreendi o que ele dizia, que era dia de trabalho, que as pessoas teriam que tirar um dia de férias). Depois fomos escolher um sítio para o copo de água. Vimos uns dois ou três e optámos por um lugar simpático, na cidade, com uma ementa que nos agradou. O fotógrafo foi um amigo da faculdade. Para a toilette, achei-me 'mascarada' de noiva se usasse um vestido todo produzido (que era o que havia) e por isso optei por uns jeans justinhos brancos, umas sandálias em cor nude, e uma túnica branca em organza bordada também a branco, um modelo Augustus. Depois é que percebi que era totalmente transparente. Naquela altura isso seria um bocado descabido. Por isso, usei por baixo, um top de algodão, ultrafino, de alcinhas ultrafinas. Tudo simples, sem qualquer complicação ou artifício. 

Os casamentos dos meus filhos não foram nada disto, foram grandes festas, creio que talvez umas duzentas pessoas em ambos os casos, locais preparados, com música, com reportagem fotográfica de qualidade, tudo num outro comprimento de onda. Mas, ainda assim, românticos, muito alegres, muito genuínos: a festa foi feita por eles e pelos convidados.

Agora, quando vejo os casamentos transformados em eventos, organizados como se fossem espectáculos de entretenimento e diversão, espaços e momentos de exibição, fico um pouco incomodada. Já nada têm a ver com a partilha de uma decisão íntima.

O casamento do Bezos com Lauren Sánchez é o cúmulo dos cúmulos do que, em minha opinião, é um anti-casamento. Tomados e ungidos pelo ultra poder da sua ultra galáctica fortuna conceberam o casamento como uma ultra ficção. Para disfarçar a ultra arrogância, doaram dinheiro e convidaram os convidados a fazerem doações. Os ultra ricos a darem esmola aos pobrezinhos, à cidade pobrezinha quase a afundar-se, ao planetazinho pobrezinho tão cheio de problemazinhos climáticos e o escambau. E os convidados incluem a rainha dos reality shows e da cinturinha de vespa e respectivas sisters e recauchutada mamã, a rainha das entrevistas, uma rainha supostamente a sério, o rei dos pc's, o rei do titanic e mais toda a espécie de exemplares do showbizz e arredores. Faltou o candidato a nobel da paz, o dos belos e grandes feitos, o da boquinha de rosa e mãozinhas de  bebé. Foi pena. A coisa teria ficado mais composta. Mas fez-se representar: veio a menina de seu papá, em róseo e abrilhantado vestido, mais o seu empreendedor marido, partner do sogro na visão de uma Gaza virada para a dolce vita, high luxury resort. Não sei quem celebrou o acto, se terá sido um cardeal escolhido a dedo ou se dispensaram a bênção divina. Tanto faz. E o que se viu foi que, depois de ter ajudado a eleger o tal que faltou, depois de se muscular e injectar para ser um eternamente jovem, o todo poderoso noivo resolveu dar o cinéfilo nó com a sua insuflada e reluzente noiva na terra da morte em veneza e isso, só por si, já seria uma heresia sem perdão.

Mas, neste mesmo dia, o instagram mostrou-me um outro casamento. Tudo filmado pela Madalena Abecassis. Talvez fosse o casamento de um primo. Um reality show a céu aberto. No meio do copo de água (e será que ainda se chama copo-de-água a uma cena destas?), apareceram uns polícias. 'Vem aí a bófia!', gritou alguém, creio que ela. E, de repente, os polícias não eram polícias, eram dançarinos disfarçados de polícias. Não sei se chegaram a fazer strip se ficaram assim mesmo. O que sei é que algemaram pessoas, apontaram armas à cabeça dos convidados. E toda a gente ria, tudo bem bebido, tudo descontrolado, tudo numa histeria colectiva, e ela sempre a filmar, tudo a festejar o facto de estar com uma pistola apontada à cabeça. E eu, vendo isto, interrogo-me: é isto um casamento? O que é que se celebra assim? 

Confesso: vi sem acreditar no que estava a ver. A perversão ou a distorção de valores parece não ter limites. Não são só os governantes que fazem coisas incompreensíveis. São os cidadãos, os que elegem governantes perigosos, são os cidadãos que, no seu dia a dia, revelam ter mentes viradas do avesso, uma perversão colectiva que parece avançar sobre a consciência das pessoas como uma imparável mancha de óleo.

Tudo isto é demasiado chocante para mim.

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Felizmente ainda há protestos. Mas são devorados, engolidos pelo buraco negro da perversão.

Jeff Bezos and Lauren Sanchez's wedding underway in Venice | BBC News

Reality stars, actors, royals and A-listers have travelled to Venice for the lavish wedding of Amazon founder Jeff Bezos and TV presenter Lauren Sanchez. 

Oprah Winfrey, Orlando Bloom, Kylie Jenner and Ivanka Trump were just some of the celebrities seen on the boats and streets of the Italian city on Thursday and Friday. 

But the event has attracted protests from a variety of groups in Venice, including locals fighting over-tourism to climate change activists. 

The festivities are expected to last three days, ending with a large party for the married couple and their hundreds of guests on Saturday.


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Desejo-vos um belo dia de domingo

sexta-feira, junho 23, 2023

Quando se descobre que, afinal, os muito ricos não são invulneráveis

 

Já se sabe como acabou a aventura das pessoas que embarcaram no Titan. Com sorte a dita implosão catastrófica foi inesperada e radical não lhes dando tempo a perceber o triste desfecho das suas vidas.

Depois de ouvir os nossos ilustres marujos especialistas em submarinos percebe-se que aquela expedição milionária padecia de défice de segurança a diversos níveis. Dizem que, na Europa, provavelmente, não teria havido licenciamento pois, do que se parece saber-se, parece que não seguia diversas normas de segurança.

Não sei, não percebo nada do assunto. Por isso, não falo nisso.

Vou falar de outra coisa. 

Nisto, o que me faz espécie é a apetência pelo risco que alguns muito ricos têm. 

Desde os que se montam no foguetão (para irem ali acima, num ápice, e virem logo recambiados de volta, uns minutos a ir e vir por centenas de milhares), até agora a estes que não iam ao espaço mas ao fundo do mar por $250.000 (para irem ver, por um óculo do tamanho do óculo de uma máquina de lavar roupa, destroços do Titanic), há todo um vasto leque de 'experiências radicais' para os muito milionários.

É certo que para os muito ricos, mais 250.000 menos 250.000 não fazem qualquer diferença. Mas o que os leva a embarcar em situações em que qualquer vulgar mortal percebe que pode haver risco de vida? Aliás, eles assinam termos de responsabilidade em que assumem que foram informados e estão bem cientes de que pode haver risco de vida. Porquê?

Eu creio que é porque se acham de tal forma os maiores que quase se convencem de que estão acima das vulnerabilidades normais. Penso que se convencem que o temor é coisa dos fracos que não saem da cepa torta.

Convivi relativamente de perto com algumas dessas pessoas muito ricas. Parte delas são pessoas de famílias tradicionais, desde há muito montados em cima de grandes riquezas. Mas, em torno dessas pessoas, gravita sempre um grande número de pessoas que se tornam muito ricas ou porque casam com alguém da família e, de certa forma, passam a aceder aos elevados recursos dos outros, ou porque, pelas suas funções, passam a fazer parte do círculo mais estreito, usufruindo de muitas mordomias.

Esses são os que mais deslumbrados se mostram. Ao passo que os muito ricos 'de origem' geralmente não ostentam a riqueza nem são dados a grandes excentricidades, os outros são geralmente atrevidos, gostam de se fazer passar por irreverentes, destemidos, sempre vitoriosos.

Toda a sua vida passa a ser uma exibição da sua excelência. Têm acesso a bons advogados para que os seus actos estejam sempre contratualmente blindados, têm acesso a bons médicos para fazerem check ups regulares e para atalharem, sem qualquer restrição financeira, qualquer pequeno problema. E têm acesso aos melhores hotéis do mundo, a viagens fantásticas com guias personalizados, e tudo pago pelas empresas. E têm secretárias que lhes tratam de tudo sem terem que perder tempo a organizar ou ao telefone com quem quer que seja. 

Portanto, não só têm a vida absolutamente simplificada como tudo lhes parece possível, pois todos os riscos estão, à partida, mitigados.

A única coisa que difere disto são as situações radicais, acessíveis apenas a pessoas como eles.

Vou dar um exemplo ínfimo, que não tem nada a ver com isto, mas que ilustra este sentimento de impunidade.

Fiz várias viagens de carro com algumas pessoas do tipo que referi. Escuso de dizer que os carros que usam são sempre de super topo de gama, teoricamente 100% seguros. Mas há os limites que o código de estrada impõe, há os imprevistos técnicos, há os erros humanos, etc. Pois bem. Era normal irmos a 180 ou mesmo um pouco mais. Escuso de dizer que eu abominava aquilo, o que os divertia imenso. Eu ia pregada ao banco. Para além disso, pelo menos dois deles eram exímios em acelerar, se necessário for, colando-se ao da frente e apenas se desviando no limiar do acidente. Eu quase que tinha que fechar os olhos. E eles, os maiores, invencíveis, prego a fundo, a desafiar tudo e todos.

Apanharam multas, claro. Mas há advogados para 'limpar a barra' e provavelmente também não eram eles que as pagavam. Mas, mesmo que pagassem, não era coisa que lhes fizesse qualquer mossa. 

Apostavam, claro, em que não iam apanhar multas nem ter acidentes. E riam-se daqueles que, como eu, se preocupavam com essas minudências.

Mas isto é apenas um insignificante exemplo. 

Não é que não tenham amor à vida. Claro que o têm. O que acham é que nunca lhes vai nunca acontecer nada de mal e, se acontecer, acham que têm os meios para se 'safarem' de qualquer 'alhada' em que se vejam metidos.

É bem verdade, João, que são precisos muitos pobres para se fazer um rico. E também é verdade que o mundo real está muito longe de ser um mundo perfeito. Mas o que posso dizer é que é pena que os muito ricos não resolvam ser excêntricos fazendo coisas radicais que sejam úteis e não fúteis.

Só que há nisto um outro aspecto. Os muito ricos não gostam de ser maçados Gostam de fazer coisas, ficar felizes por as terem feito, e, uma vez feitas, partem para outra. 

Ora se se meterem em actividades de resgate a migrantes, por exemplo, dificilmente se conseguem livrar de maçadas pois a seguir ao resgate dos pobres que se fazem ao mar sem quaisquer condições haverá que enquadrá-los, arranjar-lhes alojamento, trabalho, etc. Ou seja, uma carga de trabalhos. Ora meter-se em cargas de trabalhos não é para os muito ricos. Para isso, tem os seus 'colaboradores', 'assessores', advogados, etc.

Enfim.

Agora o que eu gostava é que os nossos jornalistas investigassem estes aspectos, fizessem reportagens bem estruturadas, que fossem ouvir os muito pobres e os muito ricos, eventualmente que os pusessem até frente a frente. Seria bom que se fosse mais fundo na análise das coisas, que a comunicação social (e a opinião pública) não se ficasse apenas pela espuma dos acontecimentos.

Mas fazer o quê? O mundo é mesmo um lugar complicado.

quarta-feira, janeiro 04, 2023

Cristiano Ronaldo, o novo caga-milhões, e a sua Georgina do rabo alçado foram apresentados aos adeptos do Al Nassr e o CR7 teve oportunidade de explicar ao mundo que é único pelo que não o espanta que o contrato tenha sido único.
Muito bem.

 

Não sou de futebóis pelo que não faço ideia se o Ronaldo ainda joga alguma coisa, se tem a mania que é um astro e, qual eucalipto, seca tudo à sua volta, se quê. Não sei. 

Mas sei, do que se lê, que tem um fortuna imensa, milhões e milhões, casas de luxo por todo o lado, dezenas de carros topíssimo de gama, luxo absoluto sobre rodas, hotéis... etc. Uma fortuníssima que chega para ele, para a Georgina, para os filhos, para as manas Katia e Elma Aveiro, para o mano Hugo, para mamãe Dolores, respectiv@s companheir@s e demais família e que, se bem gerida, dará para as próximas dez gerações. 

E os rendimentos não são apenas os do futebol. São os contratos de publicidade, é o merchandising, são os direitos de imagem, são as receitas das suas empresas, são os rendimentos das aplicações e sei lá que mais.

Quem tem tanto não sei se precisa de mais. Não sei. Diria que não. Mas quem sou eu para saber coisas desta? Também não sei, em particular, se precisa de ir viver e trabalhar na Arábia Saudita, um país como a Arábia Saudita (e escuso-me de falar nos hábitos e nas práticas sociais deste país). Não sei mesmo.

O que sei é que, depois de se ter portado como um prima donna nos últimos tempos, eis que vai ganhar mais umas centenas de milhões para um lugar como aqueles. 

[Muito sinceramente, não sei se o dinheiro justifica tudo, em especial para quem já o tem de sobra -- mas a minha realidade está nos antípodas dele pelo que não poderia esperar que nos regêssemos pelos mesmos princípios e prioridades).

Há dias, a mulher ofereceu-lhe um Rolls-Royce que vale umas centenas de milhões de euros. Mais um.

Vinha com laço, o carro, e todos se fizeram fotografar ao lado do natalício presente para que o mundo pudesse ver a generosidade da Georgina.

A mesma Georgina que se fez fotografar numa cama redonda quase king size com a filha Alana. 

Nada de mais não fora a coisa dar-se dentro do jacto privado do marido. Tal como foi noutro spot do jactinho que se fez fotografar de gorro, ténis, casaco de pele, joia ao pescoço e carteira igualmente topo de gama, tudo marcas que representa.

E isto para dizer que, em minha opinião, quer Cristiano Ronaldo, quer Georgina já não são eles, são um mero mostruário de marcas, despersonalizaram-me, são, na verdade, a mais pura encarnação da ambição desmedida por mais dinheiro. 

Agora, sendo isto verdade (e não creio que possa ser negado), qual a razão para a comunicação social portuguesa fazer tamanha cobertura dos passos do CR7, pôr tantos comentadores a debater as suas razões, os seus estados de alma? 

Ganhou muitos prémios, é certo, é (ou foi) um grande jogador -- disso não há dúvida. Mas as suas birras, a forma algo descompensada como agiu no último campeonato, a gabarolice que agora parece exibir ao declarar-se como 'único' e como veículo de uma mudança de imagem da Arábia Saudita, a ostentação quase obscena que alardeia e a maneira como quer acabar a sua carreira, sobrevalorizando os milhões de que parece doentiamente sedento, deixam muito a desejar. 

E creio que a comunicação social melhor faria se percebesse o ridículo de que se cobre ao continuar a endeusar a marca CR7.

quarta-feira, abril 29, 2020

Solilóquio de uma mulher que deixou de ser consumista





Há coisa que não tem jeito. Faz nem sei quanto tempo que não consumo. Abstinência total. Um bom comportamento de dar direito a medalhinha. 

Curioso é que nem fiquei de ressaca. Nada. Parece que esqueci o tempo em que consumir fazia parte da minha vida.

Curioso, também, que nem sequer sonhei.
Digo isto porque, depois de ter deixado de fumar, volta e meia sonhava que fumava. Longas inspirações. Ou aspirações, tanto dá. Depois expirava lentamente. Aquele prazer. E invariavelmente, nessa altura, acordava num sobressalto, tinha voltado a fumas, tinha-me esquecido de que já não fumava. Até que, aos poucos vinha a mim e percebia que tinha sido um sonho. Mas aquela sensação tinha sido absolutamente verdadeira. Custava a voltar a adormecer, tão intrigada ficava com aqueilo: tinha mesmo revivido a sensação de fumar.
Mas nada. Nada mesmo. Nem blusinha, e tanto que gosto de blusa fininha de seda, nem brinquinho, e se eu sou amarradona em brinquinho, nem um chanelinho, e se eu curto um cincozinho. Nem livrinho. Nada. Livrinho novo, nada. Tanto que eu gostava de andar a fazer-me rogada, que só ia olhar de longe, que nem pensassem que iria bandear-me, no way, já estou bem servida, não preciso de mais, só olhar que olhar não arranca bocado. Mas depois, já cedendo à tentação, toda eu a inclinar-me para o pecado. Se me parecia de bom verbo, de bom aspecto, elegante, bom ao toque, já eu me sentia a cair, toda eu a arrastar a asa. Saía de lá com um pela mão. Ou mais. Em dias de gula e destempero, já era um em cada mão, ou, se era para a desgraça, uns três ou mais encostados ao peito.

Chegava a casa e cheirava-os, espreitava-lhes os interiores, passava-lhes a mão pela lombada. Um prazer. Abrir ao acaso, ler, perceber como eram quando apanhados na curva, sem aviso prévio. Tão bom que era.

Há quanto tempo.

Asceta dos quatro costados, agora. Enfiada no campo, roupa do fundo das gavetas do fundo, sem uma gotinha de perfume que se justifique, toda eu entregue à comidinha caseira, a passeios pelo campo, fotografia a toda a hora de florzinha simplória. Esta agora sou eu.

Está certo que, pelo meio, faço outras coisas mas isso agora não interessa para nadinha.

Num desses pelo meio nova discussão: está na hora de se regressar ao local de antes do merdinhas? Eu acho que a coisa tem que ser na base da prudência, só regressar quem tem que regressar, manter as empresas a trabalhar mas da forma mais segura possível. Mas claro que se isto, por um lado, bate tudo certo e parece sensato, por outro, implica que mais gente como eu se torna não consumista. E, se isto é muito lindo, a verdade é que toda a gente que trabalha neste tipo de comércio vê a vida a andar para trás. Claro que aparecerão novas actividades, claro que tudo, aos poucos, se reajustará. Mas, pelo meio, os donos das grandes torres de escritórios e das grandes catedrais de consumo devem estar a deitar contas à vida. Quanto desemprego para tanta gente?
A propósito: li que um dos donos do Colombo é um dos futuros donos da Brisa. Ui. Numa altura em que as contas do Colombo devem andar pelas ruas da amargura vai assinar pela concessão de autoestradas que estão vazias. Coitados dos que estão à espera de bons rendimentos à conta destes investimentos. 
Adiante que, à noite, no meio do campo, a minha mente não tem nada que se esgueirar por tão ínvios caminhos.

Dizia eu. Isto do consumo. Coisa perversa. Penso: mas será que estou capaz para voltar a uma livraria? Passar a mão neles, pegar-lhes? E se algum corona ranhoso lá pousou? Quem garante que uma tosse ou uma mão contaminada não o contaminaram também?

E blusinha linda? Vou provar? Vou pegar numa coisa em que outras mãos pegaram?

Mas também para quê? Preciso lá eu de mais alguma coisa?

Ando nisto, nesta divergência entre mim e mim. Quando vou voltar a circular para além do básico? Vou ao supermercado e já me chega. Trabalho em casa. Ando pelo campo. Estou bem assim. Quando puder circular, irei ver os meus amores e amorzinhos. E eles poderão vir cá. E tudo ficará melhor ainda.

Mas vai ser esta a vida? A minha? A de todos os reconvertidos? 

Recebi uma sms da simpática cabeleireira de bairro onde ia quando o rei fazia anos. Diz que podemos contar com o cuidado dela. Coitada, tenho pensado tanto nela. Mas vou lá fazer o quê? Quando preciso de cortar no cabelo, pego numa tesoura a corto.

Paguei outra vez o mês inteiro à senhora que lá ia a casa, na cidade, uma vez por semana limpar a casa e passar a ferro. A casa está vazia há mês e meio. Quando vou voltar a precisar de limpezas semanais naquela casa? E vou querer que uma pessoa que circula por várias casas por lá ande,  pela minha casa, mexendo em tudo? Mas coitada dela. 

E estou nisto. Cheia de dúvidas. A cabeça dividida. Sem saber para que lado orientar os neurónios. Os chamados mixed feelings.


Vá lá que, quando a cabeça precisa de se alienar ou não atina com o caminho, há os vídeos que caem do céu para me tirarem dos becos de onde não sei sair.

Pode ser uma que não faço ideia quem seja ou outra que idem. Não faz mal. Ponho-me a ver e gosto. E gostos não se discutem, ora essa. E se aparecem a mostrar a casa ainda melhor. Gosto de ver casas. Excepto as escuras, as armadas ao pingarelho ou as desnaturadas. Mas estas que o meu amigo me recomendou são bonitas. Gostei.




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As pinturas são de Maqbool Fida Husain que, à primeira vista, não me parece que vá muito à bola com o Smile interpretado pelo David Gilmour. Mas quem sabe se à segunda...

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E uma boa quarta-feira. Saúde e carapaus para o gato.

segunda-feira, novembro 25, 2019

Podia ficar-me pelo meu encantamento in heaven ou pela maravilhosa decadência do Ginjal.
Mas prefiro chamar a vossa atenção para aquilo que sabem.





Fim de semana tranquilo. Mas não estive na melhor forma, estive um pouco adoentada. Resfriei-me na sexta-feira e mais do que pensava. 

No sábado estive no campo. De tarde, pensei que estava melhor, pus-me a passear por entre as árvores, andei nas minhas deambulações, nem dei pelo frio. 

Voltaram a aparecer as pegadas de bicho grande, a terra escavada. Eu estava longe mas pareceu-me o meu nome chamado pelo meu marido. Era ele mesmo: tinha visto aquelas marcas, quis alertar-me não fosse haver javalis por ali. Mas não. Provavelmente só por ali andam à noite. Pelo menos, assim o espero.


O que é curioso é que aparentemente andam a lavrar a terra com o focinho ou com as patas exactamente nos mesmos sítios onde andaram antes. A minha mãe no outro dia, quando lhe mostrei fotografias de tantos cogumelos, disse: 'Se calhar, também por lá tens trufas'. Não sei, não faço ideia. Mas, ao ver como a terra está, fico com a ideia de que há animais por ali a quererem encontrar alguma coisa. Será mesmo trufas? Nem sei como descobri-las. Sei que se parecem com torrões de terra pelo que não faço ideia de como procurá-las. E há também muitos cogumelos arrancados, meio comidos.


O campo está verde, lindo. Tudo se cobre de musgos, de líquenes. Não consigo olhar para os campos e ver ali o ocaso de nada. Pelo contrário, o próprio processo de transformação das folhas rubras em nada, misturando-se e preparando-se para a a dissolução final, tudo me parece um fenómeno maravilhoso, de uma beleza difícil de reproduzir ou descrever, como se tudo estivesse a nascer, a acontecer.


As cores e os perfumes e as aragens enchem o espaço bem como o canto dos pássaros que parecem andar mais felizes e livres do que nunca. 

Fotografo, fotografo. Parece que nunca vi tamanha beleza, parece que é um milagre que estou a testemunhar pela primeira e única vez, parece que é uma bênção de que me é dado fazer parte.


O sentimento de pertença que ali sinto envolve-me toda, todas as células do meu corpo. Uma paz, uma felicidade, uma harmonia tão absoluta, uma total fusão com a terra, com o ar que transporta cheiros e cantos, com a magia da luz cuja cor muda os cenários em minha volta. Um estado de encantamento, de puro e agradecido encantamento. Não sei dizer de outra forma.


Convencida de que já estava bem, fui à noite a casa dos meus pais. Por precaução, levei a echarpe em volta do pescoço, a tapar-me a boca. Embora um resfriado não seja contagioso, não quero que haja o risco de lhes passar alguma coisa.

Mas talvez tenha voltado a apanhar frio. Este domingo de manhã estava outra vez um pouco congestionada mas, como não tenho paciência para estar fechada e me apetecia ir a um sítio onde não ia há algum tempo, fomos ao Ginjal.


E, de novo, aquela sensação de alegria pela descoberta. A cada vez que lá volto as paredes estão diferentes. Como um ser vivo que se transmuta, assim aquelas velhas e decadentes paredes: sempre novas, cada vez mais belas. 


Fotografei, fotografei. Como é possível um lugar assim?

Lisboa vista dali é bela, magnífica. Tão bonito tudo. E tão bom andar por ali. A maré muito cheia, as águas muito perto, aquela frescura boa, molhada, aquele cheiro a beira do rio, aquela vastidão, aquela perfeição que as paredes grafitadas, tingidas, devastadas pelo tempo apenas complementam. E o rio, largo, imenso. E os barcos e as gaivotas e as pessoas. Tudo tão bom, tão bonito.


E, de novo, devo ter apanhado algum frio pois voltei a sentir-me pior. Felizmente a mim o chá quente e uma sesta fazem milagres e voltei a sentir-me boa. 

Estive a ler. Cercada de livros, no conforto desta minha sala tão acolhedora, com um chá quente, com uma luz a incidir nas páginas e pouco mais, eu estou nas minhas sete quintas.

O meu marido antecipou-se-me e está ele com o Augustus do Stoner. Não faz mal, leio-o a seguir. Estive com aqueles livros em que os arquitectos falam das suas casas, mostrando como é o lugar onde vivem. Gosto do que dizem os arquitectos (alguns arquitectos). Casas, objectos, memórias, o espaço, a luz, o interior e o exterior, o conforto, a simplicidade, a história das suas vidas, a partilha -- uma maneira interessante de falar das coisas.

E agora que aqui estou, depois de há bocado ter escrito sobre a Joacine e o Livre, estou a ouvir a chuva, a ouvir música, sons bons que se misturam, feliz e tranquila, sentindo o conforto bom da minha casa.

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Antes de começar a escrever vinha com a ideia de falar um pouco mais sobre como é impossível romper com o sistema (seja lá o que isso, na realidade, significa) estando dentro do sistema como, por vezes, ingenuamente parecem acreditar os que se deixam encantar por falas aparentemente rebeldes como as do Livre (e digo isto simpatizando com o Rui Tavares a quem acho um homem genuinamente bem intencionado).

E tinha a ideia de mostrar um vídeo que me impressiona bastante. E impressiona-me não apenas pelo vídeo em si mas porque fico a pensar que o mundo poderia ser um lugar menos perigoso se mais pessoas, em lugares de decisão e poder, pensassem e agissem como parece que o protagonista deste vídeo, Feike Sijbesma, CEO da DSM, pensa. Mas não sou ingénua. As disparidades são tão abissais, o mal feito ao planeta é tamanho, a estupidez intrínseca dos humanos é tão destruidora que não é a visão solidária e inclusiva de uma pessoa, ou de cem pessoas que sejam, mesmo de mil pessoas, mesmo de cem mil pessoas que vão fazer a diferença.

Ou talvez seja. Talvez.

Talvez se muitas vozes se levantarem, talvez se, em vez de se propagarem mentiras, intrigas, futilidades e disparates nas redes sociais e na comunicação social, se difundirem bons exemplos, gritos de alerta, passos no caminho certo, talvez progressivamente haja uma leve inflexão no sentido da destruição, talvez nos desviemos da rota para o abismo que temos vindo a trilhar. Talvez. 

You know


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Sergei Polunin está lá em cima no lugar das bandas sonoras mas, obviamente, é mais, muito, muito mais que isso. Não deixem, por favor, de ver como ele voa.

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E uma boa semana a todos a começar já por esta segunda-feira.

sexta-feira, agosto 23, 2019

E o cristal vai crescendo, com as memórias que acodem, com as notícias que não tinhamos tido, com a descoberta de vergonhas escondidas...

Quiçá um mundo onde humanos deixarão de existir e dar lugar a outros melhores que nós.

O conhecimento é cumulativo e ferramentas analíticas do passado servem muitas vezes no presente


[A palavra a três Leitores de Um Jeito Manso]


Hoje é daqueles dias em que os assuntos se atropelam, fervilham. Mas são todos daqueles em que tenho que ter largueza mental e disponibilidade, toda eu entregue a cada um. Só que, como são vários, teria que ter engenho e arte para os cerzir de forma natural, sem costuras e pontas à vista, para não estar a escrever sobre um e, desconcentrada, a pensar noutro.

Mas não é hoje o dia até porque os comentários entretanto recebidos meteram o pé à porta, querem entrar, passar à frente. E têm razão. Não desfazendo, bons demais para ficarem na cave.

Por isso, agradecendo cada um dos comentários de ontem, permitam que, em vez de responder e agradecer a cada um em particular, opte antes por repescar três para os quais peço a vossa atenção.

O que aqui transcrevo em primeiro lugar emocionou-me muito. Se isto se tem passado ao vivo, seria daquelas vezes em que, depois de ouvir palavras tão tocantes, eu ficaria calada, a olhar em silêncio para quem as proferiu, sem saber o que dizer. Talvez, para disfarçar, me limitasse a dizer que sim, um Museu da Liberdade. E ficaria a pensar no que se esconde por detrás de cada palavra dita, sem saber como estender a mão até elas.

Depois o segundo. Tão desanimado, tão lúcido, palavras de uma clareza tão cristalina, tão cortante. O que diria eu? Tenderia talvez a falar em esperança, sabendo eu que a esperança, nestes tempos, é luz distante, difusa, dir-se-ia que morrente. Em esforço, talvez dissesse que não podemos baixar os braços, fechar a porta à esperança. Em esforço, quase descrente.

E o terceiro também quase descrente mas disposto a pegar nos tijolos, na pá de pedreiro, começar a construir caminhos, disposto a puxar velhos e novos para a roda, para que, juntos, cantando e dançando, de mãos dadas, ergam um novo edifício moral onde caibam todos.

Não me perguntem porque escolhi pinturas de Sidney Nolan, Sir Sidney Robert Nolan, um australiano que viveu entre 1917 e 1992, ou Daiqing Tana, nascida em 1983, para nos acompanhar com a sua voz que canta palavras que não compreendo. Não me perguntem porque não saberia o que responder.




A palavra a Abraham Chevrolet


Com mais tempo agora, quero contar-lhe o seguinte: preso pela PIDE ainda na Universidade e logo obrigado a fazer a Guerra Colonial, como combatente, quase 30 meses no mato angolano numa guerra cruenta...

Difícil não ter uma firme posição tomada. Posição que cristaliza em camadas sucessivas de desprezo... um núcleo original de desprezo, recoberto segundo as regras estritas do sistema de cristalização. E o cristal vai crescendo, com as memórias que acodem, com as notícias que não tinhamos tido, com a descoberta de vergonhas escondidas...

Falar em Museu do ditador antes de se falar do Museu da Liberdade? Museu da Liberdade onde se demonstrassem todos os atentados que Ela sofreu!!!

Desprezo, desprezo,desprezo...

A vida trouxe-nos para um patamar claro e quase limpo. Temos que ser alegres, solidários e felizes...





A palavra a JV


Infelizmente, o problema não é Pardal. Nunca é Pardal. Chame-se Trump, Bolsonaro ou Mussolini... 


O mundo de hoje é um mundo cheio de oportunidades. Um mundo novo, de partilha imediata, de uber à mão de semear, de apartamento em Amesterdão à distância de um clique. É um mundo de onde será possível nascer uma civilização melhor, mais avançada, mais interligada. 

Quiçá um mundo onde humanos deixarão de existir e dar lugar a outros melhores que nós. 

Por enquanto... até esse mundo novo emergir, milhões, milhares de milhões de pessoas vão ficando para trás. 

Sem oportunidade de entrar no mundo onde as oportunidades surgem como os cogumelos que brotam em redor das árvores. Cada vez mais para trás. Sem voz e sem escape. 

Então outros, oportunistas de má índole, idiotas cujo mantra se limita a fazerem pela sua vidinha, usarão cada vez mais a vida desgraçada dos outros para se auto-promoveram na sua caminhada em crescendo de agigantamento da idiotice mascarada de ódio.




A palavra a Paulo Batista


Apesar de o meu discurso parecer ancorado no passado, não sou um saudosista de soluções engendradas em contextos históricos. 

No entanto, o conhecimento é cumulativo e ferramentas analíticas do passado servem muitas vezes no presente, ainda que com as devidas correções. A divisão da riqueza e do poder são elementos estruturais e quase invariantes, sendo nesses que urge atuar. As soluções não são fáceis e exatamente por se colocar tanta energia a destruir estruturas sociais, supostamente "do passado", ao invés de ir construindo soluções de futuro.

Eu percebo e aprecio a energia que os jovens podem imprimir à sociedade, mas os jovens, infelizmente, parecem cada vez mais tolhidos financeiramente, atomizados e avessos ao risco social. De qualquer forma discordo. Esta é uma responsabilidade intergeracional, até porque não podemos abandonar os mais velhos. E eles estão a ser abandonados em larga escala.

A melhor proteção para os mais desprotegidos é exatamente integrá-los neste processo de transformação imparável, trazendo-os para as decisões, para as reflexões. Isso implica capacitar as pessoas com os recursos básicos (e isso só o consegue fazer quem tem poder para tal...). 

E sim, passa também pela cultura: a este respeito, em Lisboa, sois uns priveligiados!

Um exemplo de um interessante laboratório de energia criativa intergeracional que merecia mais projecção? Isto, por exemplo: http://www.outfest.pt/



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Muito obrigada ao Abraham Chevrolet, à JV e ao Paulo Batista e a todos os que aqui vêm por bem e comentaram ontem e nos outros dias e a todos os que, não comentando, aí estão desse lado a fazer-me companhia. 

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E talvez queiram ainda descer um pouco mais para verem o presidente de um Parlamento civilizado, em plena sessão, a dar biberão ao bebé de um deputado. Imagens Ímpares.

quarta-feira, abril 17, 2019

Carta de Paulo* aos políticos e aos capitalistas hipócritas






Permita-me algumas considerações pessoais sobre o debate em torno da “Sustentabilidade do sistema de pensões português”. Não sou especialista na matéria e, correndo os riscos de imprecisão de um leigo, procurarei apenas com as minhas considerações pessoais ancoradas no tal estudo demonstrar que o grande problema do estudo não é “técnico” mas político. 

O “crime” cometido pelos autores e promotores do estudo é exatamente procurarem esconder a relação – incontornável – entre a economia (enquanto ciência) e a política.

Ora, os estudos em ciências sociais (e na economia em particular) adotam necessariamente um conjunto de pressupostos e assumpções as quais, na generalidade, podem facilmente ser associadas a determinadas opções políticas.

Neste estudo em particular as conclusões são facilmente explicáveis desde logo pelos pressupostos explícitos (ou seja, sem analisarmos os implícitos): consideram-se a) a imutabilidade das regras atuais do sistema, b) baseia-se num determinado cenário de projeções demográficas e c) assenta numa análise da evolução da economia no que concerne apenas ao emprego e salários.

O que salta logo à vista neste trabalho é uma análise cuidada dos diferentes efeitos associados à evolução da produtividade e à consequente distribuição da riqueza gerada.

- Para começar, mensurar a produtividade não é tão simples como possa parecer. O estudo adopta a perspetiva salários+contribuições sociais / hora trabalhada. Ora, este indicador é especialmente indicado para avaliar a resistência de uma dada opção política estabelecida face a possíveis efeitos exógenos. Por exemplo, a produtividade mensurada pelo PIB / horas trabalhadas dá-nos, naturalmente, perspetivas diferentes sobre a economia como um todo e é especialmente útil para analisar diferentes opções políticas face a um mesmo cenário.
https://data.oecd.org/lprdty/gdp-per-hour-worked.htm#indicator-chart 
Um dos argumentos do estudo para os resultados negativos do atual sistema de protecção social é uma evolução muito comedida do primeiro indicador de produtividade que referi. No entanto, um comportamento negativo deste indicador não tem de representar necessariamente uma baixa geral da produtividade dos trabalhadores (ou seja, não tem de ser propriamente “negativo”). De facto, tal poderá ocorrer por motivos positivos (por exemplo, redução do horário de trabalho mas manutenção dos níveis remuneratórios). Infelizmente, os motivos negativos provavelmente são os mais prováveis: uma tendência de moderação dos salários e contribuições, mantendo-os sistematicamente abaixo da evolução do produto interno bruto (ou seja, uma diminuição do bolo que é produzido atribuído aos trabalhadores…). Assim, um dos primeiros pressupostos questionáveis do estudo é considerar que os cidadãos vão permitir uma perda dos ganhos crescentes associados ao cada vez maior volume e valor da produção (que pode ser obtido por via da crescente automatização e robotização de muitos processos produtivos num período em que transitoriamente os trabalhadores não terão as competências necessárias para abraçar os novos trabalhos que surgirão na economia – e note-se que até estou a pressupor que no longo prazo não haverá propriamente uma destruição de emprego por via da robotização, mas no curto / médio prazo acho-a inevitável. 

Vamos agora às questões de distribuição.

As contribuições para a segurança social somam apenas 9,3% do PIB (valor que não tem registado grandes alterações desde 2000), sendo uma das percentagens mais baixas da Europa.
https://data.oecd.org/tax/social-security-contributions.htm 
Ora, não vejo porque devemos admitir que esta opção política de colocar em segundo plano o esforço coletivo na construção do sistema de segurança social não se irá alterar. De facto, poderá alterar-se de muitas maneiras. Podemos, claro, privatizar o sistema, o que provavelmente tornará o sistema mais caro e, desta forma, para os mesmos níveis de protecção, necessitaremos de gastar mais. Mas podemos admitir também que a segurança social passa a ser um dos grandes desígnios de política pública e, das duas uma, admitimos um aumento da carga fiscal (com a contrapartida de um sistema melhor e mais robusto) ou, mantendo a mesma carga fiscal em % do PIB, abdicamos do papel do estado noutras áreas geridas pelo estado. Note-se, no entanto, que o estudo refere, no cenário mais negativo, a necessidade do orçamento de estado transferir para a segurança social o equivalente a 5,2% do PIB. Ora, independentemente deste valor ser obtido por via do aumento de impostos ou realocação da despesa do estado, isto colocaria o peso relativo do financiamento da segurança social ao nível do que se regista hoje em países como a Alemanha, Eslovénia ou República Checa. Nada de extraordinário portanto.

Por fim, olhemos para o problema concreto do financiamento indexado às compensações por trabalho recebidas pelos trabalhadores assalariados (salários mais contribuições para o sistema de proteção social). O indicador que mede o peso dessas compensações em função do valor acrescentado produzido pela economia tem vindo a cair ligeiramente (de 54,92% do valor acrescentado em 2000 para 50,12% em 2015 e uma ligeira recuperação para 51.87% em 2018. https://data.oecd.org/earnwage/employee-compensation-by-activity.htm#indicator-chart Ora, estes dados sugerem que um dos grandes problemas do sistema de segurança social pode ser exatamente a cada vez menor repartição do valor acrescentado produzido com trabalhadores; como o financiamento da segurança social é sensível à alocação de recursos que a economia coloca nos trabalhadores, se estes recebem uma proporção cada vez menor, naturalmente o sistema, num momento de transformação demográfica, ver-se-á sobre pressão (lembra-se daquela medida fantástica do Passos Coelho de diminuir drasticamente as contribuições asseguradas pelas empresas por cada trabalhador e aumentar as contribuições diretas do trabalhador? Vinha exatamente acelerar este fenómeno de realocação dos recursos produzidos pela economia, beneficiando a empresa e os seus proprietários). Claro que a direita argumenta que é necessário dar uma parte maior do bolo às empresas, para elas investirem e fomentarem o crescimento económico; dando crédito a esta ideia peregrina em Portugal… eu diria… sim, tudo bem, mas não vamos financiar as empresas à custa da segurança social! (e depois são os “ciganos” que vivem à custa da segurança social…)



Agora que descasquei no estudo, vamos ao que interessa mas que os senhores do estudo se esqueceram – bem como a maioria dos actores políticos no geral: existem mudanças importantes / opções políticas “indirectas” que poderiam ser adoptadas e ter efeitos muito positivos sem mudar por aí além o sistema atual (ou seja, como os senhores do estudo fizeram, assumindo o sistema atual como ele é e atuando noutras variáveis do sistema socioeconómico que alterem, de alguma forma, os pressupostos base adoptados nas previsões que fizeram). De entre essas alternativas destaco algumas que poderiam permitir aumentar significativamente a eficiência do sistema contributivo atual:

- Acabar com grande parte dos inúmeros regimes de exceção de contribuições para a segurança social, os quais abrangem desde a) isenções a empresas como forma de estímulo ao investimento e à contratação (note-se que não falo acabar com estímulos ao investimento, mas sim que os mesmos não sejam financiados pela segurança social!) até b) os regimes de trabalho não reconhecido – puxando a brasa à minha sardinha – como é exemplo os bolseiros de investigação (mais de 25 000 que não contribuem durante anos para a segurança social, na fase da sua vida em que mais “lucro” dariam ao sistema! Estamos a falar de valores que devem andar na ordem dos dez milhões de euros por ano, que o estado desvia da segurança social para outras despesas públicas… ou seja, mais uma vez, fazendo outras políticas públicas com o financiamento que deveria ser direcionado para a segurança social!)

- Tornar os sistemas de proteção social na doença mais eficazes. É necessária uma “reforma estrutural” enérgica nas condições de segurança e higiene no trabalho: continuamos a ter estatísticas negras de acidentes de trabalho e a eficiência de utilização dos seguros de acidentes de trabalho está longe de ser efetiva (acabando quer por o serviço nacional de saúde ser onerado em muitos casos sem ser ressarcido pelas seguradoras, quer a própria segurança social que acaba por assegurar prestações e afins que deveriam ser asseguradas pelas seguradoras!). 

- Tornar o sistema de protecção no desemprego muitíssimo mais eficiente e focado naquilo que é essencial: requalificar a força de trabalho, diminuindo dessa forma as probabilidades de desemprego e aumentando o valor acrescentado que o trabalhador pode oferecer ao sistema produtivo. O sistema de proteção no desemprego atual está inundado de ineficiências – desde colocar os desempregados em formações curtas, de qualidade e utilidade questionáveis, desarticulando / segregando os desempregados socialmente, colocando os desempregados a cumprir exigências absurdas e descabidas (como a caça ao carimbo em empresas para comprovar a procura ativa de emprego) e terminando nos benefícios fiscais (mais uma vez redução ou isenções nas contribuições para a segurança social dos empregadores) na contratação de desempregados, sem que se garantam exigências como contrato sem termo, taxa de rotação reduzida, etc.


Desculpe(m) o longo comentário mas é um tema que me interessa e que me preocupa, pelo que não podia deixar de debater. E desculpe(m) a escrita enrolada (é texto bruto, sem revisão).

Permita-me só mais um comentário:

As conversas criticas / miserabilistas que refere não são propriamente uma inveja genuína sobre quem ganha razoavelmente. Essas conversas, parece-me decorrem de várias situações, das quais destaco: 1) as pessoas têm rendimentos miseráveis (o rendimento declarado por 72% dos agregados familiares não vai além de cerca de 1300€/mês mais coisa menos coisa!! cerca de 650€/mês/pessoa num agregado com dois elementos que obtém rendimento), pelo que acaba por ser difícil de compreender e aceitarem as decisões de consumo de outros que os rodeiam (até porque as condições miseráveis tornam as pessoas muito mais dependentes umas das outras e isso leva-as a criticar a pessoa que compra um livro e depois dá o golpe no autocarro e não paga o bilhete...); 2) as pessoas têm ambientes de trabalho muitas vezes inacreditáveis, convivendo com desigualdades gritantes no dia-a-dia, inclusive com a ostentação agressiva de pessoas que ganham pouco mais que elas mas o suficiente para investirem na ostentação e em mecanismos de uma patética demonstração de estatuto; e isto nem é tão pronunciado na grande empresa, onde o tal CEO , filho do patrão, ganha 153x (tipo pingo doce) mais que o empregado caixa (mas nunca se cruza com este e até mostra um certo low profile quando isso acontece) [se bem que me recordo do recente caso do senhor da altice que veio visitar o centro de investigação e desenvolvimento da empresa que comprou (PT), de helicóptero, com aparatos de rock star... e passado uns tempos desatou a despedir malta de forma agressiva... e estamos a falar de malta altamente qualificada nas tecnologias de informação... ], mas por vezes não se imagina a violência dessa ostentação agressiva a que as pessoas são sujeitas na "chafarica" da porta ao lado, onde trabalham, numa pequena / média empresa familiar, em que 50% dos funcionários são familiares em primeiro ou segundo grau, que não cumprem códigos do trabalho, de segurança e higiene, etc (e o nosso tecido económico é maioritariamente constituído por pequenas e médias empresas).

Sim, por cada exemplo mau, acredito que haja pelo menos um bom. Mas ainda assim... para quem vive com a corda na garganta todos os meses até o mais ínfimo luxo (um livro) pode ser uma "afronta". 



A classe média é importante sim. Mas infelizmente ela é muito reduzida e não tem propriamente aumentado. O que temos é muitas situações miseráveis e uma massa de malta remediada mas que tem pouco autonomia, depende muito da decisão do vizinho do lado (porque se ele se mostrar muito aberto a luxos, aumentam o pão...) e por isso pouco racional nas observações que faz sobre a vida dos outros.

Um problema complicado!




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* O texto que acima transcrevi é da autoria de Paulo Batista e gostei tanto de lê-lo que tomei a liberdade de o puxar dos comentários do post dos 'misteriosos pobrezinhos'  aqui para cima.

Fui intercalando pintura contemporânea da Argentina apenas porque me apeteceu ter aqui cores vibrantes e juntei-lhe Itzhak Perlman a tocar o meu tango preferido  só porque sim.

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Posfácio de Paulo Batista, depois de reler o texto publicado:


Acabei de reler o texto.

Desde logo fico preocupado: a displicência "gramatical" com que escrevo nos comentários deixa-me envergonhado exposto assim. Desculpe (e desculpem) o menor cuidado.

Fazendo alguma autocrítica ao texto, não posso deixar de salientar que talvez tenha sublinhado demasiado um certo conflito trabalhador versus empresa, quando não é tanto esse o ponto fulcral. Por exemplo, quando falo na opção de aumentar a carga fiscal não é tanto nesse dualismo trabalhador vs empresa. De facto, não sublinho o problema essencial que não permite que tal medida possa sequer ser equacionada: as enormíssimas desigualdades de rendimentos dos indivíduos e, sobretudo, a enormíssima desigualdade na taxa de esforço nas contribuições. Ou seja, o foco não é tanto um problema na divisão do bolo entre os trabalhadores e a empresa em abstracto, mas o comportamento, cada vez menos solidário, dos indivíduos que lideram essas mesmas empresas - não só aqueles que delas extraem o grosso dos seus rendimentos, mas também daqueles que as lideram, extraindo um quinhão substancial do rendimento gerado (os tais que ganham 153x mais que os trabalhadores que menos recebem). 

São estes grupos de indivíduos que não só recebem uma proporção pornográfica do rendimento, como ainda por cima contribuem substancialmente menos que a generalidade do trabalhador assalariado de baixo e médio rendimento - ou seja, são estes que subtraem a responsabilidade social das empresas que lideram em benefício próprio.

Alarmante ainda é a completa cegueira política, não só sucessivamente incapaz de desenhar soluções para esse problema, de redistribuição dos esforços, como tendo vindo a promover exatamente medidas que amplificam estes problemas. 

O problema não é assim tanto de desigualdade entre trabalhadores assalariados ou até dos esforços contributivos genéricos / proporções dos contributos trabalhadores vs empresas (enquanto instituição coletiva). O problema está nestes buracos negros de privilégio - dos monopólios entregues pelo estado e por ele protegidos, das suas concessões e parcerias ("público - privadas"), das suas ações de discriminação "positiva" desses mesmos "rendistas" (o caso do imobiliário é gravíssimo embora se fale pouco por desse fenómeno...), da proteção dessa elite "gestionária"(nomeadamente, da elite financeira / bancária), (etc etc etc), porque a estes "buracos negros" estão associados esses indivíduos que subtraem a esmagadora maioria do rendimento gerado, fazendo-o desaparecer (tantas vezes legalmente!), sem qualquer contribuição.

Concluindo, coloquei demasiada ênfase naquilo que são opções políticas, quando na verdade faltam até as condições de base para essas opções políticas serem discutidas. 

Um problema ainda complexo...