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quinta-feira, setembro 30, 2021

Divagações desarrumadas

 


Tenho a dizer, e nem é para me desculpar. que a noite passada foi noite de São João. Complicada. Muito mal dormida. Acordada antes de tempo. 

Já me custa suportar noites muito mal dormidas. Não apenas tenho muito sono como parece que me dói tudo. A manhã, na continuação da noite, também complicada. A tarde com reuniões e telefonemas de seguida. Telefonemas e mails e confusões até às tantas. Quando, perto das oito da noite, me reclinei no sofá para papar mais um episódio da Segurança Nacional, ligou o meu marido. Queria saber como estava tudo e dizia que não tardava. Depois chegou. E houve várias coisas para fazer. Quando finalmente penso que vou descansar, há sempre mais qualquer coisa.

Há bocado, depois das muitas coisas para fazer, consegui regressar à série. Adormeci de súbito. Sem apelo nem agravo. Acordei algum tempo depois. Estava cheia de frio. Fui buscar o poncho de lã verde-seco que a minha mãe fez o ano passado. Daquelas peças insubstituíveis, leves, quentes qb.

Estou de calções brancos, de algodão alinhado e havaianas. Estava calor à tarde. Na parte de cima tinha uma camisa de seda em tons de azul. É o que se vê no ecrã. E uns brinquinhos de pérola e um colarzinho também de pérolas. Por cima estou apresentável. Por baixo, podia ir para a praia -- mas para uma praia mal frequentada. 

Adormeci, portanto. Mas acordei também com os pés frios. Fui buscar umas meias curtinhas em rosa fúcsia. Nada a ver com nada. Mas agora estou quentinha. Pior é que me dói um ombro, as costas, uma anca e, se me puser de ideia apurada, sou capaz de achar mais bocado de corpo dorido. Por exemplo, acho que também me dói uma perna e um bocado da cabeça. Não sei porquê. Só pode ser de não dormir.

Estive a reler os comentários. Suculentos. Devia costurá-los e apresentá-los à plateia. Mas estou incapaz, lesionada. 

Lancei uma vista de olhos às notícias. Não as havendo, as vizinhas inventam intrigas. Entre ministros, entre marinheiros fardados. Vale tudo. 

Sobre isso não tenho nada a dizer. Só se for que, ao ver o Vice-Almirante naquela sua bela e aprumada farda branca, me lembrei do meu tenente privativo. Acho que era tenente. Ou sub-tenente? Ou seria segundo-tenente? Já não sei bem. Acho que andava à volta disso. Lindo que só visto. Barbudo e de luva branca e espada. Provavelmente por ter muita pinta, nos desfiles punham-no à frente das tropas em formatura e dar as vozes. Muita pinta. 

Mas cenas militares não eram com ele. Eu gostava que ele ficasse. Ele nem pensar. Chegou aos dois anos e, em vez de aceitar o convite para um curso nos States, deu as costas. Queriam fidelizá-lo durante oito anos. E ele nem oito meses mais, quanto mais oito anos. Tentaram convencê-lo. Eu também. Nem aí. Nunca gostou do espírito da coisa. Nada a fazer. Ainda temos as fardas, a branca e a azul escura. A marinha é outra louça. E quando o comandante, para me cumprimentar, bateu pala? Que coisa mais engraçada. Eu sem saber se deveria retribuir e a sorrir, atrapalhada, estendendo a mão. Uns rituais do caneco. Gente com muita pinta, eles e as mulheres. Conhecemos algumas. Mas, pronto, não quis, não quis. Cada um é para o que nasce. Hoje, quando penso no primo general, percebo que é mesmo para quem nasceu para elas. O meu marido não nasceu. Mas o Vice-Almirante nasceu e é daqueles que impõe respeito sem ter que levantar a voz, usar dichote ou fazer maledicência. Impõe respeito só por ser como é. Um homem do mar. Os homens do mar têm sempre aquele je ne sais quoi. Que me desculpem os de terra e de ar mas as verdades são para serem ditas. 

Conheço ex-fuzileiros e é outra coisa, outra filosofia. Penaram nos treinos e recordam isso com saudade, como se quisessem ainda voltar para lá. Não são de belas fardas, são mais de andar a rastejar na lama, de noite, a rachar de frio. Lá está, cada um é para o que nasce.

Bem, já não sei a que propósito vinha isto. Se calhar de nada, se calhar estou a dormir, a sonhar. Nem imagino o que seja ler isto. Devem estar a pensar que devo estar com os fusíveis todos queimados. E pensam bem.

Vou dormir, senão amanhã ainda estou pior.


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Fotografias pertencentes ao conjunto das vencedoras do concurso 2021 Nature Conservancy
De Fauré: Elégie in C Minor, Op. 24 na interpretação de Sheku Kanneh-Mason

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Uma bela quinta-feira.
Saúde. Boas notícias. Espírito leve.

quinta-feira, fevereiro 13, 2020

Eutanásia





Confesso: é tema sobre o qual não quero nem pensar, talvez porque gostava de nunca, em circunstância alguma, ter que tomar qualquer decisão que se relacione com isso.

Tendo que lidar de perto com a finitude da vida, e tendo já por várias vezes visto de perto um fim que, milagrosamente, a seguir, se adia, o que posso dizer é que não antevejo que alguma vez consiga ter coragem para pensar em ser eu a agente da decisão de pôr fim à vida de quem quer que seja. 

E não é por amar demasiado a vida para pensar em interrompê-la. Ou, se calhar, é por isso e mais porque tenho em mim este sentido de esperança que parece que me obriga a confiar no rumo natural das coisas.


Quanto a mim própria não sei. Tenho pavor a ser um fardo para alguém. Estar num estado em que alguém tenha que ser escravizado para me manter viva é coisa que me mataria por dentro. Contudo, tenho esperança de que, se um dia isso acontecer, eu tenha recursos financeiros para que o tratamento seja profissional e levado a cabo por quem seja pago para o fazer, podendo as pessoas revezarem-se. E tenho também esperança de que a vida ou o acaso sejam generosos comigo e me poupem a sofrimento prolongado. É que não sei se, sendo o sofrimento físico e psíquico insuportável, quereria continuar a viver. Mas sei que não quereria passar o ónus de dar a ordem ou de facilitar a operação para alguém que ficasse com esse peso para o resto da vida.
Sei bem o que sofri e ainda sofro quando penso no último olhar da minha cãzinha quando o meu marido a levou à clínica veterinária e ela, tão mal que estava, tão mal, minha querida, tão mal, sem qualquer esperança, e já mal se aguentando viva, ainda assim estranhou que eu ficasse no carro, eu que sempre a acompanhava e lhe fazia festinhas para que ela se acalmasse. Virou a cabeça para olhar para mim, um olhar intrigado e triste. Não esqueço esse seu olhar. Tomara que não tenha percebido. Mas fui cobarde, infamemente cobarde, não suportei assistir ao seu fim nem suportei a ideia de a levar até onde a sua vida iria ser encurtada. 

Outra coisa diferente, e ainda não há muito passámos por isso, é quando a pessoa está muito mal -- em estado terminal, sem qualquer possibilidade de sobreviver -- e os médicos explicam qual a situação e perguntam se se autoriza que se suspenda a medicação de sobrevivência, administrando apenas tratamento paliativo. É muito doloroso, é coisa que não se quer ouvir, mas há a consciência de que se está apenas a deixar a natureza seguir o seu rumo, mas fazendo-o sem sofrimento. Ainda no outro dia, um amigo me contou como passou exactamente por essa mesma situação. Horrível. Muito doloroso. Mas há a convicção de que, a não ser isso, seria continuar a infligir um prolongamento de vida artificial, dependente, contranatura, a alguém que muito se ama. E isso a legislação já o permite e os médicos já o fazem. E fazem com sensibilidade, com cuidado, com respeito pela dignidade de todos.

Portanto, por mim, prefiro não falar em eutanásia, prefiro que não ande meio mundo a falar nisto como se fosse um tema-bandeira, uma causa-fracturante, um lugar-comum, uma coisa-de-nada, uma banalidade para ser usada como arma de arremesso na praça pública.

Se forem para a frente com a merda de um referendo, abster-me-ei. Se for a votos na Assembleia, não quero nem saber.


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Pinturas de Mark Rothko do seu período dark que já prenunciava a escuridão que o estava a envolver

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domingo, novembro 03, 2019

E em volta dos meus passos eu sinto os grandes anjos cujas asas contêm todo o vento dos espaços






Tenho estado a fazer como que uma gostosa cura de sono. Não tanto quanto se calhar precisaria mas, enfim, o possível. E tem sido bom.

Conto.

Na sexta-feira, estava ainda no primeiro sono e já estava a ser acordada. Como habitualmente, para justificar o mau acto, acrescentou quase meia-hora à hora real. Enfim. Desculpou-se: tínhamos muita coisa para fazer. Pronto, desculpei, se calhar era verdade.

Dali seguimos para casa dos meus pais e, daí, para o campo. Era para almoçarmos num restaurante onde vamos às vezes mas, ao ligarmos, fomos informados que estavam repletos até às duas e meia. Tarde demais, nem pensar. Portanto, fizemos uma inflexão e fomos para outro lado. Nunca lá tínhamos ido. As doses eram de oito ou nove euros. Sem pestanejar, pedimos duas doses. Quando vieram duas travessonas nem queríamos acreditar. De facto, ao olhar à volta, em mesas de duas pessoas só vi uma travessa. Na minha, sobrou mais de metade. Na dele, quase metade. Felizmente os restaurantes agora têm caixas para trazermos o que sobra. Portanto, deu para o jantar de ontem e para o de hoje.


Entretanto, ao sairmos, vimos uma seta para o Lidl e, como tínhamos que nos abastecer para o fim de semana e como gosto de ir ao Lidl, fomos. Aproveitei para comprar mais coisas. Os produtos da marca deles são boas e baratas. E, em geral, o que lá têm é bom. Tinha pensado fazer favas com entrecosto mas tinham de tudo menos favas. Portanto, para domingo, trouxe coisas para um cozido à portuguesa em versão light. E para o almoço de sábado trouxe uma cabeça de pescada do Chile. Uma senhora cabeça. Nem vi quanto pesava mas talvez um quilo ou mais, nem sei. Fiz com batata normal, batata doce, cenoura, feijão verde, cebola e ovo. Para ele ficou a parte de posta e para mim a cabeça propriamente dita. Tudo o que seja para rapar espinhas ou ossos é para mim. Os pobres dos gatos ou dos cães que aqui aparecem não têm grande sorte. Dou-lhes os restos mas já pouco têm para depenicar. Belo peixinho. Estava bem bom. Tal como a minha menininha linda, também eu tenho o peixe cozido com batatas e etc como um dos meus pratos preferidos.

Bem, mas falava eu do sono. Ontem à tarde, depois de termos chegado e arrumado as compras, depois de ter feito uma caminhada e feito montes de fotografias, reclinei-me no sofá e, pimbas, desatei a dormir.


Acordei, fomos dar um passeio e, enquanto ele ficou a fazer não sei o quê, voltei para casa e comecei a devorar Bem-vinda a casa, Memórias, um livro num registo autobiográfico de Lucia Berlin. Muito bom. E ontem quase o acabei. Depois de jantar deu-me, outra vez, o sono e dormitei. Escrevi o post sobre O problema dos homens e, pouco depois li um pouco mais e fui dormir. 

Pois bem. Quando acordei, de manhã, pensei que ainda fosse cedo. Pensei: se for para aí umas nove horas ainda tento dormir mais um bocadinho. Como sempre, estava sozinha na cama, certamente desde quase madrugada, e isso explica que estivesse a dormir sem interrupção. Não há lugar do mundo onde consiga pôr o sono em dia como aqui, especialmente quando estamos só os dois. Levantei-me, fui abrir a portada para entrar o ar fresco e ouvir os pássaros. E fui ver as horas. Onze e quarenta e cinco. Olhei várias vezes para confirmar. Por um momento ainda pensei que tinha mudado a hora, que na volta ainda eram dez e tal. Mas depois lembrei-me que isso da mudança da hora já era.


Depois do pequeno almoço, fui caminhar. Estava ele a chegar a casa. Tinha andado nas vidas dele. Curte as neblinas matinais, curte o cheiro das árvores, curte as cores e os sons da manhã ainda imaculada. Diz sempre que não sei o que perco. Mas os meus horários aqui são outros.

E fui, então, andar de novo por entre as árvores, pisando a caruma macia, aspirando os cheiros íntimos da terra, ouvindo os pássaros, sentindo aquele frémito de quase susto quando algum pássaro apanhado de surpresa bate as asas apressadamente, fazendo toda a árvore estremecer até conseguir libertar-se e começar a voar. 

E, tal como ontem, assisti maravilhada a este fenómeno que sempre me surpreende. Da terra rebentam cogumelos como se não houvesse amanhã. Parece um milagre. Uma aparição. Cogumelos de todas as cores, de todos os tamanhos. Por todo o lado. Não têm conta. Impressionante.


Há milhares de pontinhos brancos. Ínfimos, tamanho quase de cabecinhas de alfinete. Ponho-me de joelhos no chão, sinto a terra molhada. E vejo que os pés são fininhos como cabelos transparentes.  Tão perfeitos, tão delicados. Tão efémeros.

Amplio, ponho o flash, fotografo quer com a máquina quer com o telemóvel para enviar à minha mãe.


Outros são castanhos e estão enleados na caruma. Parecem folhas secas. Outros são grandes, redondos, brancos, levantam as pedras afirmando a sua vontade. Outros são elegantes, cinematográficos. Outros são carnudos, tumefactos, húmidos. Outros são enormes, gigantes, rendilhados. Uns têm o pé grosso, outros um pé delgado. Outros levantam a terra e têm ainda folhas, ramos, paus, terra em cima. São fortes apesar de parecerem macios.

Acho-os lindos. Melhor: acho extraordinário este fenómeno de, do nada, desatarem a sair do chão estes seres misteriosos. Tão diversos, tão intrigantes.  Como se explica uma coisa assim?


A minha mãe, como expectável, escreveu: se fossem bons que belo almoço. Depois acrescentou aquilo que, por esta altura, sempre diz: mas não lhes toques, não arrisques, podem ser venenosos. Respondi que alguns estão já com dentadas e que não vejo coelhos ou javalis caídos por perto. Mas que, claro, não ia arriscar. Depois escreveu que há tantos porque há uma grande cama de folhagem húmida

E há. Uma manta macia, molhada, perfumada. Um cheiro a fertilidade, a beleza, a espanto.


E está tudo tão lindo. As cores estão lindas, acobreadas, douradas, os verdes mais verdes, tudo tão harmonioso, tudo tão tranquilo, tudo tão bom.

De manhã, ainda tratei da casa. Varri, limpei o pó, sacudi tapetes. Gosto de ter a casa limpa. Trouxe da Area um óleo perfumado, com um cheiro cítrico e a verbena. Um perfume fresco, suave. Coloquei o frasquinho com os pauzinhos junto à lareira. Mas acho que é suave demais, ainda não dou pelo perfume. Mas o meu marido, antes de se ir deitar, passou por lá e perguntou que cheiro era aquele e que não percebe para que é aquilo. Mas eu percebo: é porque gosto.

Precisava de mais uns dias para dar uma volta aos roupeiros, aos livros, reorganizar, também aqui, os livros. Acaba por andar sempre tudo misturado, brinquedos, livros de crianças, objectos tresmalhados, panteras que aparecem onde antes estavam peças de cerâmica que, por causa dos meninos, subiram para locais mais intangíveis, coisas assim. Mas, ao mesmo tempo, gosto. Para onde me vire há sempre sinais de todos eles e isso é outra fonte de felicidade.


Mas, com o tempo aqui sempre tão contado, fico-me pelo essencial. Limpeza básica. A ver se agora de manhã me vou às teias de aranha que estou agora a ver que subsistem junto aos candeeiros aqui da parede. Uma praga. Apanham-se à larga durante a semana e acham que é tudo delas. tecem, tecem, tecem.

E faltam-me ainda as casas de banho mas só as lavo depois dos banhos que, aqui, são antes de almoço, depois de andarmos nas nossas lides.


O meu marido, entretanto, de tarde, esteve a fazer uma fogueira com ramagens, desbaste de árvores, tojo, mato, restos ainda do verão. Aquele cheiro bom de uma fogueira no campo, aquele fumo bonito, aquela névoa: tudo maravilhoso. Durou até ao entardecer. Gosto muito, parece que me traz sentimentos antigos, bons. Tão apaziguador, uma coisa que provavelmente remonta até raízes ancestrais de que devo ainda guardar memória. 

Repito-me se disser aquilo que já disse tantas vezes: viver o contacto próximo com a natureza enche-me de felicidade. E é tão melhor quanto me dou conta disso, sinto mesmo que estou a viver momentos de felicidade. Desfruto. Devagarinho. Contemplo, toco, aspiro, caminho. Tão bom.


E, entretanto, acabei o livro da Lucia Berlin. Uma vida complicada, a dela. Não sei como há pessoas que conseguem sobreviver sãs de cabeça, mantendo os laços familiares, em circunstâncias tão complexas. A minha filha é fã dela. Foi a minha nora que lhe deu o Manual para mulheres de limpeza e ficou admiradora. Já leu os três dela traduzidos cá. Eu não, só este. Mas agora vou ver se leio outro.

Depois comecei o da raposa da Herta Müller. Só que a luz do fim do dia estava a encantar-me e fui à rua fazer mais fotografias. E a seguir estive a ler parte do Colóquio de Letras dedicado a Correspondências


Antes de jantar, escrevi o post dos medronhos macios e doces e, a seguir ao jantar, surpreendentemente, voltei a adormecer. Um sono, um sono. Parece que, no decurso dos dias, o corpo vai andando, aguentando-se aparentemente bem com as poucas horas de sono, mas, na primeira oportunidade, desforra-se, descansa, recarrega baterias, faz um saudável reset. O que tenho dormido é incrível. Nem consegui responder a mails e acho que nem vou responder a comentários. Estou, outra vez, capaz de ir dormir, o corpo a pedir-em aconchego, caminha boa.


E, enquanto escrevo, ouço o vento lá fora. Sopra com força. É a Amélie. As árvores que guardam a noite não conseguem evitar que as ramagens se inquietem, fustigadas pela ventania. As bolotas caem sobre o telhado e fazem um barulho a que já me habituei. A chuva cai. Gosto de ouvir. São sons bons. Tudo na natureza me deixa encantada. Os deuses que por aqui guardam estes meus espaços têm-me também nos seus braços. E eu deixo-me abraçar, deixo-me embalar.

Há sempre um deus fantástico nas casas
Em que eu vivo, e em volta dos meus passos
Eu sinto os grandes anjos cujas asas
Contêm todo o vento dos espaços.

[Sophia]


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E a todos, homens ou mulheres, com ou sem problemas, desejo um feliz dia de domingo

segunda-feira, outubro 14, 2019

A minha experiência na urgência de um hospital




Infelizmente, nos últimos anos, já tive que ir muitas vezes a hospitais, muitas vezes às urgências, outras vezes ao SO, outras vezes a enfermarias. Muitos sustos. Se em alguns casos, os meus familiares recorreram a hospitais privados (e felizmente têm seguros que lhes permitem fazer face a essas despesas), noutros a experiência é a dos hospitais públicos.

Durante a semana que passou, o meu pai esteve, uma vez mais, no hospital. Foi chamado o INEM e foi levado paar o hospital público da cidade.

A urgência estava apinhada. Os corredores estavam pejados de macas com doentes que gemiam, gritavam, arfavam. A chamada sala aberta -- que não percebi se era apenas a sala onde estava o meu pai ou se também uma outra sala -- estava identicamente cheia de doentes em estado complicado. Lá fora, várias ambulâncias não podiam ir-se embora pois não havia macas suficientes no hospital e os doentes que tinham levado continuavam nas macas das ambulâncias. 

Ao fim de duas horas do meu pai ter entrado, consegui ir ao pé dele e a enfermeira disse-me que ele aguardava o resultado de exames mas que, da forma como aquilo estava, ainda deveria demorar talvez mais uma hora ou hora e meia. Não consegui falar com o médico que lá vi pois, enquanto lá estive, ele esteve ocupado. Aliás, coitado, não sei como aguentava aquilo.

Ao fim de cerca de mais duas horas cá fora e sem nada conseguir saber, a informação que, a muito custo, consegui obter é que afinal ainda não tinha ido fazer os exames pelo que continuaria em observação e em manobras de mitigação dos sintomas. Esperámos. Até que acabaram por nos dizer que podíamos ir para casa e voltar de manhã para tentar obter notícias. 

Ao fim da manhã do dia seguinte o meu pai teve alta e na nota de alta pode ler-se que ainda aguarda RX ao tórax. A urgência estava ainda mais caótica. Aparentemente desistiram de esperar que ele fizesse o exame e mandaram-no para casa.

E a minha dúvida é a seguinte: ainda não começaram as gripes e durante as longas horas que lá estive não vi que chegassem tantos doentes que justificassem tal lástima na urgência. Aliás, hoje vi na televisão que as ambulâncias tiveram que ser desviadas de lá pois a urgência não conseguia receber mais doentes.

Portanto, inclino-me para que aquela situação desastrosa terá origem não em afluxo anómalo de doentes mas, sim, num estrangulamento interno na própria urgência: ou faltam médicos, ou enfermeiros ou pessoal auxiliar ou, então, pessoal ou equipamento no laboratório ou nos aparelhos de diagnóstico como o RX. E deve ser por isso que os doentes se acumulam nos corredores sem que lhes consigam dar 'vazão'. Diria eu que uma averiguação básica deveria ser capaz de identificar as razões do estrangulamento e, sem grande acréscimo de custos, resolvê-la.

Contudo, aqui entra uma outra dúvida que tenho. Por todo o lado se vêem hospitais privados em construção ou hospitais privados já existentes em obras para duplicar a sua capacidade. E não apenas novos grandes hospitais mas também clínicas. E eu interrogo-me: de onde vêm tantos médicos, tantos enfermeiros, tantos técnicos de meios de diagnóstico? Não percebo. Não pode haver tanto pessoal. em especial médicos. Que eu saiba não abriram mais faculdades de medicina nem alargaram o número de vagas. Portanto, ou muito me engano ou é na escassez física de recursos humanos que reside a raiz do problema.

E, se assim é, que se inventariem os técnicos de saúde necessários no país (médicos, enfermeiros, técnicos - e não junto aqui o pessoal auxiliar pois admito que seja mais fácil recrutá-lo do que aos que exercem funções mais especializadas). E que, por uma vez, se tirem as análises partidárias da equação -- porque são estúpidas e tendenciosas -- e se faça uma análise algébrica simples. E se há um défice efectivo de profissionais pois que, com urgência, se estabeleçam protocolos com as escolas e institutos para aumentar rapidamente o número de vagas (e se mande a Ordem dos Médicos à fava caso não queiram alargar o número de vagas). Mas, até lá, que se recrutem do estrangeiro todos os que hoje e nos próximos anos faltam. Urgentemente.

E não falei noutros técnicos que provavelmente são também deficitários: os técnicos de manutenção de equipamentos médicos, nomeadamente os de electromedicina e outros mais sofisticados. Se esses equipamentos avariam e não houver quem os repare, os doentes esperarão horas a fio por um resultado que pode não vir.

Acredito que não está em causa um aumento significativo no orçamento da Saúde pública pois o que hoje se paga em trabalho suplementar, em folgas compensatórias, em pagamento de reparações de equipamentos seja a que custo for a empresas externas poderia ser compensado por ter mais técnicos residentes a praticarem horários normais.

Este tema tem que ser visto desapaixonadamente mas tem que ser visto já. É que não estou a falar apenas do desconforto de doentes e acompanhantes que esperam horas a fio: falo da saúde das pessoas. Falo de experiências que podem ser traumáticas ou fatais na vida das pessoas.

Diria que António Costa deveria conseguir um acordo de regime para conseguir pegar o tema da Saúde pelos colarinhos. Se não há pessoal que chegue, e estou convencida que não chega mesmo, o lençol não esticará e rasgará pelo lado mais frágil: o Serviço Nacional de Saúde. E isso não pode acontecer. É a saúde de todos que tem que ser defendida.

E Marcelo Rebelo de Sousa que tanto fala da Saúde deveria assegurar isto mesmo: o tema não é de esquerda nem de direita nem de chicana nem de bandeira nem arma de arremesso nem de ricos nem de pobres -- o tema é sério, é urgente e é de todos.

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As pinturas podem não parecer mas são de Rothko,  «Une berceuse de la mort...» é de Fauré

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Uma boa semana a começar já por esta segunda-feira.

terça-feira, março 12, 2019

Canto ostinato





É que se calhar nem é do que faço em cada dia mas do acumulado de anos. Porque hoje o dia nem foi dos piores e, no entanto, parece que só me apetece dormir. Mas, antes de me ir, vou contar uma coisa.

À hora do almoço voltei a pecar. Como sempre, não ia tocar, muito menos cheirar ou inalar. Curada do vício. Mas nem foi preciso: bastou ver. Um porque tem a ver com a maneira de pensar dos artistas e eu disso não passo sem, gosto de saber como pensam os artistas. Outro porque achei que era a cara do meu marido e só o facto de eu assim me expressar já diz muito da minha motivação. Cabin Porn. Quando à noite lhe dei e disse isso, que era a cara dele, olhou desconfiado e disse: 'Não me lembro de ter pedido nada'. Conhecendo-me como me conhece viu logo que ali havia coisa. Expliquei-lhe que é para ter em que se inspirar quando resolver dedicar-se à coisa. Continuou desconfiado. Tive que desvendar que era para ter ideias quando tiver vontade de construir, com as suas próprias mãos, um refúgio no bosque. Arranjou logo um contra-argumento: 'É para depois cair em cima da cabeça de alguém'. Desculpas. Mas agora fui à procura e não encontrei o livro. Cá para mim esteve a ver antes de dormir e escondeu-o para não dar o braço a torcer. 


Tirando isso, é de referir que esta segunda-feira usei uns sapatos que a minha filha me deu. No outro dia, disse que não gostava do formato, que não usava, perguntou se eu queria. Achei bonitos, de uma boa cor, indefinida. O meu marido viu-me a vir com um par de sapatos, ficou admirado: 'Mas que sapatos são esses?'. Contei-lhe. Achou uma parvoíce: 'tem algum jeito? E tens alguma falta?'. Até parece que não me conhece. É que sou disto, de aproveitar tudo. Até nos pratos. Se algum dos meus deixar uma espinha mal limpa ou um osso mal roído, só se fizer muita cerimónia é que não rapino do prato alheio para dar largas aos meus instintos de animal dos antigos. O meu marido passa-se. Não quero saber. Portanto, hoje já me empoleirei em cima de uns sapatinhos usados, para mim novos, que, apesar de altos, são bem confortáveis. Ainda senti algum aperto no peito mas isso é que ainda não estão feitos ao feitio do pé.

Bem. Como até cheguei mais cedo e estando o jantar já despachado, pus-me a descansar no sofá e a descobrir coisas de outro mundo. E descobri no alto de uma escarpa: mel. Abaixo mostro os caçadores de mel, uma coisa extraordinária.


E depois o YouTube que já percebeu que ando nesta onda bem comportada, alérgica a partidarices bacocas e a políticos mal arraçados, resolveu presentear-me com um vídeo bem engraçado. E engraçado é uma forma de expressão. Ou melhor, é falta de vocabulário. Porque o que eu queria dizer é que embirro com filmes moralistas porque lições de moral eu só consigo receber de gente que não se rala muito com a moral mas, desta vez, abro uma leve excepção porque aquilo de que aqui se trata é o pão nosso de cada dia. Toda a gente a dar palpites e a fazer juízos de valor sem saber nada de nada sobre os assuntos. Pre-conceitos é o que, por aí, mais abunda -- e eu própria, que gosto de me imaginar desempoeirada, luto frequentemente contra a minha cabeça para me libertar deles.

Before You Judge Someone - WATCH THIS




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E pode parecer que é mais uma que não tem nada a ver -- e se parece é porque é -- mas gostava muito que vissem este bailado. Infelizmente são apenas escassos segundos. Mas quanta coisa neles cabem. Maravilhosos. Tal como lindas as pinturas de Suk Chul-Joo.

Canto Ostinato -- uma coreografia de Lucinda Childs




Dias felizes para todos.

segunda-feira, março 11, 2019

A alegria da natureza segundo Hockney e Van Gogh
-- E uma ou outra insignificância que nem sei se vêm a propósito --




Acredito que para muitas pessoas o domingo seja um dia de descanso e, até, um dia de tédio e abatimento.

Quando penso nisso, lembro-me de, há mil anos, teria eu uns treze, catorze, quinze anos quando passava o fim de semana com os meus pais. Eles organizavam o seu tempo e eu tinha que me encaixar nele. Um tédio. Ou ficávamos em casa e calhava haver algum programa de televisão razoável ou, então, eram horas intermináveis que pouco tinham para me oferecer.

Quando os meus filhos andavam por estas idades e iam connosco para o campo também começaram a achar uma 'seca'. Os amigos e os seus programas estavam longe e a natureza era motivo pouco interessante para o seu gosto. Primeiro ela, que é mais velha, depois também ele, até que, quando já mais crescidos, acabámos por deixar que ficassem sozinhos na cidade, de sábado para domingo. Era para mim uma aflição, com vontade de saber deles a toda a hora e numa inquietação enquanto não ligavam a dizer que estavam em casa. 


Mas eu, moi-même, tédio por usar o tempo de forma fastidiosa só tenho ideia nesses meus anos de entrada na adolescência. Antes, em criança, entretinha-me com qualquer coisa e depois, quando arranjei namorado e um grupo de amigos inseparáveis, comecei a ser eu a determinar como ocupar o tempo.

Mas isso sou eu e eu, espero que já toda a gente saiba, não sou exemplo para ninguém.

E isto para dizer que acredito que, para quem passe o domingo sossegado, com pouco que fazer, se calhar a desejar que acabe depressa, pode ser cansativo ler que eu, como sempre, andei numa roda-viva. Mas é a verdade. E é a história da minha vida: desde o desrame das árvores, até a concertar a vedação, às limpezas no campo e na cidade, a cozinhar, a arrumar, de manhã até às quinhentas, foi sem parança.


Durante o dia, descansámos um pouco a seguir ao almoço, para aí durante uma hora, enquanto dava o 007. Não sei se consegui manter-me acordada durante esse tempo.
O Daniel Craig é um belo homem, disso não há dúvida, a história é sempre aquela ebulição -- sedução, perseguições, maluqueira da grossa -- mas acho sempre que falta aquela componente de credibilidade mínima que me impede de ficar presa ao desfecho.  
Conheço um inglês que se veste assim, que fisicamente até é parecido com o Craig, que todo ele é ironia e até fisicalidade. Hoje, ao ver o 007, pensei que não percebia como é que antes nunca tinha reparado que esse meu conhecido tem tudo a ver com o Bond, James Bond. Mas tem. Tudo. Até nos disfarces em que é exímio.
Além disso, há uma coisa que eu aqui não deveria confessar mas que confesso: a actividade de espionagem atrai-me. E também não deveria aqui dizer mas digo: conheço um ou outro e os portugueses não têm nada a ver com as incursões espaventosas do Graig. Mas, na volta, é porque, por cá, somos dados ao comedimento. 

Adiante.

É que isto é o intróito para me penitenciar por, uma vez mais, deixar passar ao largo o jogo branco do Marques Mendes (conversa fiada, esfiapada), os excessos da Catarina Martins (um destempero), as candidatas a mulher do agricultor (umas desmioladas a ver se casam com outros que tais) ou outros temas candentes da nossa joyeuse actualidade. E não é só porque os temas são velhos e relhos ou meras bolas de sabão. Não. É que chego aqui já tarde, o sono a abater-se fatalmente sobre mim. Já micro-adormeci várias vezes. Penso que não vou conseguir chegar acordada ao fim deste post a ponto de conseguir responder aos comentários, coisa que me custa sempre. Isto hoje não está nada fácil. 


Mas, antes de me deixar cair nos braços do tal tipo, o Morfeu, I mean, gostava de vos dizer que a primavera avança galopante, as árvores rebentam, dos ramos nus despontam pequenas folhas, outras estão floridas, lindas. Uma alegria. A ameixeira, o pessegueiro, o abrunheiro -- lindos, gloriosos, um hino à vida.

E, agora que as árvores estão tão desbastadas, a luz do sol passa melhor por elas e, por isso, parece que, in heaven, a luminosidade é outra, uma claridade mais festiva. E, não sei se é por isso, os pássaros cantam, cantam, numa felicidade inocente que parece ainda mais efusiva que antes.


E eu gostava que vissem o vídeo abaixo no qual David Hockney fala da sua afinidade com Van Gogh a propósito da exposição Hockney - Van Gogh: The Joy of Nature que estará no Museu Van Gogh até 26 de Maio. As imagens que aqui partilhei convosco mostram pinturas de ambos. É muito interessante. É certo que gosto sempre de ouvir, ver e ler os pintores mas, a sério, este vídeo é mesmo interessante.
From 1 March, the colossal works of David Hockney will be on display in the Netherlands. For the first time, this spectacular exhibition offers an extensive and colourful exploration of the common ground between the work of Vincent van Gogh and David Hockney.
‘The world is colourful. It is beautiful, I think. Nature is great. Van Gogh worshipped nature. He might have been miserable, but that doesn’t show in his work. There are always things that will try to pull you down. But we should be joyful in looking at the world’. - David Hockney
[A menos que os comichosos do Museu mudem de opinião, serão remetidos para verem o vídeo directamente no YouTube mas não faz mal, não é caso para desistirem. Ok?]


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E uma boa semana a todos a começar já por esta segunda-feira. 

[E que me desculpem por não conseguir responder e agradecer os comentários do post anterior.]

segunda-feira, outubro 30, 2017

É verdade, L., in heaven os poetas acompanham os meus passos




Nem sempre possa dar largas à minha imaginação ou à minha vontade. Nem eu nem ninguém, acho eu. A vida vai criando mecanismos para nos cercear, sejam eles económicos, sociológicos, de índole interior ou outros. Acontece-me tantas vezes ter vontade de fazer coisas e ter que me auto-moderar. Contudo, verdade seja dita, sempre que posso dar largas à minha vontade, não alimento receios ou restrições.


In heaven estou, a todos os níveis, em minha casa. Esta é a minha terra, o meu pedaço de chão, o lugar do mundo onde posso ser quase tudo. Aqui inventei caminhos, escadas de pedra, plantei árvores e bancos à sua sombra (que, na altura, era apenas uma ilusão já que as árvores pouco mais tinham que um palmo), sonhei muros onde o vento se detivesse e pudesse ter espaços de conforto e puro desfrute, desenhei uma lareira que seria feita com pedra da montanha, enfiei estantes dentro das paredes e criei um risco de que hoje ainda não me restabeleci, inventei um jardin zen, criei uma capela, enchi telas de pinturas, fiz tapetes de arraiolos, decorei uma casa de banho com parede azul escura, louças pintadas à mão e espelhos dourados... e nem sei que mais. E desenhei paredes onde pudesse ter pinturas e poemas.


Já muitas vezes aqui os mostrei mas o número de leitores vai aumentando e, não me conhecendo de outros posts, acontece que alguns estranhem algumas coisas que digo. Por exemplo, no outro dia contei que um rapaz que lá tinha estado a fazer uns arranjos nos disse que tinha levado a mulher para ela ver e que ela tinha gostado muito dos poemas.


Recebi então mail de uma leitora que me perguntava se eu tinha escrito poemas nas paredes. Respondo aqui: por acaso, sim, L.. Em algumas pintei à mão poemas de Nuno Júdice, Maria Teresa Horta, Herberto Helder. Mas o tempo tem desbotado as cores e as fotografias já não os mostram bem. Um dia vou ter que repintar essas paredes e reescrever alguns poemas, provavelmente outros.


Mas a maior parte da poesia está em painéis de azulejos. Numa oficina de azulejaria mandei fazer painéis uns com poemas manuscritos e outros com reproduções de pinturas. O que mostro é uma parte. O prazer em conceber cada espaço, em escolher os poemas, em dispô-los... isso é das boas, maravilhosas memórias que vivem em mim.


E agora que o tempo já deixou impressas as suas marcas, é com deleite que ando por estes caminhos -- aspirando o perfume das árvores e dos arbustos que rebentam desta terra tão pedregosa e, afinal, tão fértil -- e vou lendo os poemas. É como se os poetas de quem eles nasceram também vivessem aqui e por aqui andem acompanhando os meus passos, guiando-me nas descobertas que sempre faço -- os pássaros, as flores, o desenho que a luz desenha, as sombras nas pedras, o musgo, a caruma, os cheiros, as nuvens, a lua branca, a dourada folhagem, um sino tocando ao longe.


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domingo, outubro 01, 2017

Profissões boas




Quando tinha catorze anos tive que decidir para que lado queria eu balançar a minha vida. Apesar de gostar tanto da língua portuguesa e de tudo o que com ela se relaciona, achei que devia pender para o lado das ciências exactas.

Depois, aos dezasseis, tive que decidir que profissão queria ter para resolver em que curso me deveria enfiar.

Sem saber o suficiente de cursos -- na verdade, bastante ignorante a esse respeito -- sem conhecer nem uma ínfima parte das profissões possíveis e, para dizer a verdade, também pouco preocupada com isso, acabei por fazer uma escolha que ainda hoje acho surpreendente e que não sei se foi a acertada.


O primeiro ano do curso foi horrível, o segundo só não foi tenebroso porque andava com o coração apaixonado, dividido e em permanente sobressalto, o terceiro quase nem dei por ele porque, a nível amoroso, me tinha decidido e, portanto já em regime de exclusividade, vivia nas nuvens, o quarto já foi uma peninha pois, casada, a trabalhar, e, tendo enveredado por um ramo do curso bastante estimulante, tudo parecia ter-se encaixado de forma harmoniosa e o quinto já foi feito com alguma descontração pois já começava a antever o que poderia vir a ser a minha profissional, a matéria sobre a qual resolvi fazer o trabalho de fim de curso era ultra-nova, ultra-interessante e, a nível pessoal vivia a mil entre as aulas que tinha, as aulas que dava, a vida de casa e os permanentes programas com amigos.

Se nos primeiros anos, em especial no medonho primeiro, cheguei a temer não conseguir suportar aquele pesadelo, a partir daí a coisa seguiu o seu rumo natural, sem dúvidas existenciais.

Contudo, volta e meia, ao ter conhecimento de algumas vidas, penso que há profissões maravilhosas e que, tivesse eu pensado nelas, poderia ter uma vida bem mais feliz.

A profissão da pessoa a que se refere o vídeo abaixo é daquelas que eu exerceria em permanente estado de encantamento. A vida ao ar livre, o contacto com a natureza, tudo tão bom. Que diferença para a minha, sempre entre gabinetes, tantas vezes a aturar gente complicada, a ter que enfrentar situações stressantes e sempre desperdiçando tempos infinitos no trânsito.


O marido de uma das duas melhores amigas de adolescência fez engenharia. O pai era dono de uma empresa. Quando ele acabou o curso, foi para a empresa e, naturalmente, seria o natural sucessor do pai. A minha amiga é médica e ele tinha, pois, também uma profissão segura. De hobby tinham ambos gostar muito de cinema, iam sempre aos festivais, acompanhavam tudo o que se fazia com qualidade; além disso, ele gostava de fotografar. Quando lá íamos, eu via com admiração as suas belas fotografias, geralmente a preto e branco. Eis senão quando, sem que nós o pudéssemos supor, largou o emprego, deu um desgosto aos pais e passou a dedicar-se exclusivamente à fotografia. Quando soube isso, fiquei perplexa. Nem percebia que profissão era essa. Por essa altura, passou a fazer expedições pelo Portugal profundo, por montes e vales, aldeias de montanha e de beira de água. Dias fora de casa. Semanas fora de casa. A minha amiga encarava o assunto com alguma expectativa (e, contando, que, se a coisa desse para o torto, haveria sempre a rectaguarda da empresa do sogro). De facto, ele começou a vender o seu trabalho ao Turismo, aos Municípios. Hoje tem vários livros publicados, já participou em numerosas exposições, tem fotografias nas mais prestigiadas bases de dados, é conceituado -- e continua com o mesmo semblante sereno e feliz. Estive agora mesmo a ver o seu site e a ver a sua fotografia. E vejo o percurso que fez desde os tempos em que se aventurou por um caminho tão arriscado.


O vídeo que aqui partilho trata de um biólogo que se tornou fotógrafo e que é muito feliz na sua profissão. Transcrevo:
Jeff Kerby is a National Geographic explorer, photographer, biologist, and conservationist. Kerby is part of a decade-long gelada research project founded and run by Peter Fashing and Nga Nguyen, anthropologists at California State University, Fullerton. In this video, he shares some of his favorite moments from studying gelada monkeys. 
São de Jeff Kerby as fotografias que aqui mostro, nas quais se pode ver uma macaca a dar à luz. Maravilhoso. 

Surrounded By Monkeys: What This Photographer Loves About His Job | National Geographic



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domingo, novembro 13, 2016

Este meu sábado




A sala já não está em sossego. Agora há meninos a conversar, a falar nos brinquedos que vão querer pelo natal, negoceiam entre eles, fazem selecções e reconsideram, o mais crescido faz as listas para distribuir pela família. Antes estiveram a cear, depois estivemos a fazer a cama, coisa que para eles, vá lá saber-se porquê, faz parte da festa. Penso que virem dormir cá é como se viessem a acampar. 

Estar a escrever aqui na sala enquanto tenho crianças à minha volta é uma sensação de paz e doçura que me descansa o corpo e a alma.

Foi muito tranquilo o meu dia. Tão extenuantes têm sido os dias de semana que chego a sábado e parece que entro em férias. Durmo até mais tarde, preguiço pela casa, espreito o rio. Hoje apeteceu-me fazer flocos de aveia para o pequeno almoço. Numa tigela ponho um bocado de flocos e cerca do dobro de água. Micro-ondas durante dois minutos. Arrefeço durante um bocado, pondo a tigela dentro de água fria no lava-louças. Depois misturei um iogurte. O que eu gosto disto. Antes desta mistura tinha comido uma banana e uvas. Depois um café. Comecei, pois, o dia da melhor maneira.

E rua que se faz tarde. Em direcção ao rio. Uma hora de caminhada boa. O ar brando, um passeio gostoso. Fotografias. Espreitar as ruínas, as águas, os barcos, as gaivotas. Felicidade.

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Tive que interromper a escrita porque o processo de irem dormir é uma luta. Primeiro que vistam os pijamas, que vão à casa de banho e lavem os dentes... é dureza. Tenho que usar todas as minhas armas desde as da simples persuasão até à ameaça. Violência física não foi necessária.

Depois foi o processo de adormecerem. Gostam de ouvir histórias. Mas, se um interrompe para saber se há mesmo raposas prateadas, logo outro o manda calar -- e aquietarem-se, está quieto (passe o pleonasmo). E a história tão bonita me saíu que até eu já estava emocionada com a amizade entre a coruja e a raposinha que não sabia dos pais. Devia gravá-las pois vejo que os miúdos adoram ouvi-las e, assim, mal acabo de contar uma e parto para outra, já nem me lembro da que inventei antes. Passam imediatamente à história, as minhas histórias.

E, mal acabo uma história e penso que posso retirar-me, que nada. Mais outra. Foi a do comboio com carruagens uma de cada cor em que só podiam entrar as pessoas vestidas dessa cor. E o menino tinha uma camisola azul com um super-homem encarnado e não sabia para onde entrar. Mas o senhor dos comboios disse que havia uma carruagem toda às cores para os meninos com camisolas com bonecos às cores e ele entrou e viu muitos meninos, todos às cores e todos brincalhões. E  etc e tal até à parte em que apareceu uma senhora com um carrinho com lanchinhos em que os sumos tinham super poderes e aí foi o bom e o bonito. E etc.

E eu com a voz mais baixa, cada vez mais baixa a ver se lhes dava o sono. E eles: 'Tá, estás a ficar rouca?'

E eu, entre a vontade de rir e de chorar: 'Não! Caluda, nem mais um pio!'

Finalmente adormeceram.
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E ia eu contando do meu dia. Depois do passeio, supermercado. De caminho ainda parei na frutaria dos indianos (ou paquistaneses?) para me abastecer de dióspiros, quer dos rijos quer dos polpudos. São a metade do preço dos do supermercado. Nestas alturas, tiro a barriga de misérias. Adoro diospiros maduros, doces.

Depois, almoço. De novo, um saboroso misto de maranhos e bucho da Sertã com migas de couve. Gosto tanto. Acompanhado com um vinho tinto macio, algo traiçoeiro.

A seguir, no sofá, deu-me o sono, adormeci. Acordei com um sms da minha filha a mandar-me uma fotografia da praia a dizer que gostava que eu lhe pintasse um quadro assim. Suspirei. É rara a vez em que adormeço e que ou um ou outro não me acorde com um sms.

Hora de fazer avançar o programa de festas. Ida a casa dos meus pais. Antes, paragem na Padaria Portuguesa para lhes levar uns bolinhos. Não é que os açúcares lhes façam falta mas, enfim, sempre lhes adoçam um pouco a vida que é tudo menos uma pêra doce.

Levei também marmelos lá do meu heaven para a minha mãe fazer marmelada. Fica sempre óptima. Como tem andado com uma dor num dedo, artrite, disse-lhe que não descascasse os marmelos, custa imenso, a casca é dura e a marmelada fica boa mesmo com casca, desfaz-se tudo,

E levei-lhe uma Rainha Sta Isabel pequenina, muito perfeitinha, com rosinhas no regaço, que trouxe do Mosteiro de Sta Clara e que me tinha esquecido de levar a semana passada. Gostou, achou bonita, Foi pôr no quarto.

Depois, à vinda, no carro, vim a ler sobre as últimas do Trump mas tudo aquilo parece anedota de mau gosto. Por isso, resolvi ler em voz alta artigos sobre queijos. Gostamos muito de queijos. Em casa da minha mãe tinha lido um artigo sobre cuidados a ter com queijos gordos. Pronto, agora já fiquei a saber quais os melhores, quais os que devem ser evitados. E encomendei piza em forno de lenha para lá ir buscar.

E antes que chegassem a trazer os meninos ainda estive a arrumar a casa. Parece que a desarrumação que já começou e que amanhã continuará tem mais graça se partir de uma base zero. Portanto, antes das campainhas soarem, casinha arrumadinha.

E ainda tive tempo para descobrir o último vídeo do Cine Povero.

Agora, a casa está silenciosa, só eu estou acordada. Gosto destes momentos. Mas vou dormir que já sei que de manhã não poderei prolongar o sono


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E só me resta mesmo desejar-vos, meus Caros Leitores, um belo dia de domingo.

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