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domingo, março 16, 2025

O Chicão cresceu! Tenho gostado de ouvir o Francisco Rodrigues dos Santos, ex-líder do CDS, nas noites da CNN.

 

Há uns anos era ainda muito verdinho, ainda pouco conseguia impor as suas ideias. Mas agora não, agora está mais maduro, tem as ideias mais arrumadas. E fala bem, tem verve, usa um vocabulário interessante.

As trocas de ideias com Pedro Costa (PS) são sempre bem dispostas, educadas, elegantes.

Ouço-os de gosto. A política pode ser um exercício civilizado.

quinta-feira, março 06, 2025

O que aí vem

 

Não vejo como é que o PSD vai aceitar que quem irresponsavelmente atirou o País para eleições antecipadas, depois de andar a tentar esconder o que já estava à vista de toda a gente (e ando a ouvir dizer com alguma insistência que ainda mais está para vir a lume), seja o líder que vai conduzir a campanha eleitoral que aí vem.

Além disso, começam a ouvir-se outros nomes no seio do partido. Portanto, não sei se a instabilidade dentro do PSD não virá juntar-se à instabilidade em que Montenegro lançou o país.

Acresce que o tipo parece não ter noção. Faz coisas de uma leviandade que não lembram ao diabo. Baldou-se a uma cimeira da maior relevância e, ao mesmo tempo, é visto a transportar o carrinho dos tacos de golf enquanto, ao lado, o amigo da Solverde vai de mãozinhas. Podendo alojar-se na Residência Oficial de S. Bento, fica num hotel cujos custos não se percebe como paga com o ordenado que ganha, hotel esse onde se passam todos os grandes eventos do PSD, levando a que já haja quem tema que ainda venha a saber-se que está a ter um tratamento 'especial'. Dá ideia que é aquela mania que tem que quer, pode e manda e não tem que dar satisfações a ninguém. Aliás, na Assembleia da República, até deixou sair que 'tem mais que fazer do que estar ali a dar explicações'. Talvez por isso nem se tenha dado ao trabalho de informar o Presidente da República que ia fazer um anúncio no sábado à noite, rodeado pelo governo, que, mais que certamente, ia atirar o País para nova crise. Uma desconsideração um bocado surreal demais.

Portanto, sendo o menino do calibre que já se viu, o PSD vai aceitar ser conduzido para o desastre eleitoral sem tugir nem mugir?

Do CDS não falo. Não existe.

Do lado do PS, tenho algumas dúvidas. Numa lógica de que há que ter estabilidade, o Partido Socialista tem feito de tudo para que não haja crise: deixou passar tudo o que o PSD quis e agora queria tudo menos eleições. Pedro Nuno Santos queria fazer uns Estados Gerais ao longo de 1 ano para daí emergir um Programa de Iniciativas que desse origem a um programa de governo e uma equipa ministerial. Portanto, eleições agora é tudo o que o PS fez tudo para evitar. 

Mas as coisas são o que são. Num mundo ideal fazem-se as coisas ponderadamente, com tempo, step by step. Mas o mundo real geralmente atropela o mundo ideal. Portanto, situemo-nos no âmbito em que estamos, ou seja, no meio da confusão.

Sempre achei o José Luís Carneiro mais sólido, mais estruturado, do que o Pedro Nuno Santos. Mas não foi isso que o PS quis. Portanto, é Pedro Nuno Santos que tem que ir à luta. E só espero que se saiba rodear dos melhores. Há nos quadros do PS gente muito capaz, há que saber contar com eles. E há que saber recrutar gente capaz na sociedade civil, não necessariamente dentro do partido. Os timings são apertados, a conjuntura internacional é do caraças -- ou seja, nada disto é para meninos. Portanto, há o PS tem que dar ao pedal e manter a cabeça no lugar. 

Quanto ao PCP, tudo o que faz é ao lado, é cada vez mais uma nulidade, nem vale a pena pensar nisso. 

O Bloco está esvaziado, não sei se ainda consegue tracção para ir à luta.

O Livre não consegue agarrar senão um eleitorado restrito, mais intelectual e purista. Uma base eleitoral exígua.

A Iniciativa Eleitoral tem sabido manter-se sóbria, com intervenções racionais, sem embandeirar em arco, sem ceder a facilitismos. Provavelmente continuará a aguentar-se e talvez até a subir junto do eleitorado mais jovem e mais escolado.

Sobra o Chega. Nesta perspetiva, isto é, nas próximas eleições, para mim uma incógnita. André Ventura tem uma agilidade e habilidade mental notáveis. Consegue sacudir de si todos os escândalos que têm recaído sobre os seus deputados. É aquilo que se diz: nestes partidos, escândalos que não ferem o líder, não abalam as opções de voto dos simpatizantes. E, neste caso concreto, André Ventura pode capitalizar dizendo que, ao apresentar a 1ª moção de censura, fê-lo cedo demais pois o tempo (e não foi preciso muito) veio a dar-lhe razão. André Ventura consegue ocupar a agenda mediática: é sempre o primeiro a falar para a opinião pública, é sempre o primeiro a pronunciar-se e sabe falar com clareza e eficácia. Compreende-se que uma parte significativa da população se sinta confortável a votar nele.

Mais do que termos medo de André Ventura ou mostrarmos nojo do Chega, penso que o mais inteligente é perceber como é que a forma de comunicação deste partido e desta pessoa são tão eficazes. Abstraiamo-nos da demagogia, do populismo, da falta de vergonha e fixemo-nos na eficácia, no sentido de oportunidade, na construção das frases e na escolha das palavras. Talvez haja ilações que possam ser úteis.

Uma coisa é certa: a política de amiguismo, de nomeações por filiações partidárias, os 'tachos', levadas a cabo por partidos que têm ocupado o poder merecem profundo repúdio por parte da população. Ventura cavalga em cima disso. Mas o PS deveria interiorizar também estes princípios pois são essas práticas que minam a confiança do eleitorado.

Tirando isso, o que se me oferece dizer sobre tudo isto é que, para já, coitado do Marques Mendes. Ganda nóia.

quarta-feira, outubro 09, 2024

Parece que saem de debaixo das pedras.
Tudo o que é comentador apoiante do PSD ou da AD aparece, à mão cheia, a encharcar a opinião pública de argumentos contra o PS. Uma jaca.

 

Andam a desencantá-los a todos. Muda-se de canal e lá estão eles. Um enjoo. Parece que querem fazer uma lavagem ao cérebro do pessoal. Não há pachorra.

E eu disse que isto é uma jaca mas não, é bem pior. 

E explico porquê. Para começar, devo dizer o seguinte: sou altamente favorável a experimentar coisas novas. Por exemplo, ao contrário do meu marido que, quando vai ao supermercado, se dirige directamente às prateleiras onde está aquilo de que precisa e traz a marca ou a qualidade da coisa que já conhece (despachando-se em três tempos), eu sou o oposto. Gosto de olhar para ver o que há, vou espreitar o que não conheço, fico com vontade de experimentar. Claro que demoro um pouco mais...

No outro dia vi umas latas com umas coisas amarelas, num belo tom dourado, um luminoso amarelo torrado. Dizia 'Jaca'. Nunca tinha ouvido falar em tal coisa. Pesquisei num instante e vi que era uma fruta. Como podia alimentar-me só de fruta (fresca e seca), nem hesitei.

Pois, pois. Não sei se já experimentaram...

Também devo dizer que nos últimos dias já traguei com menos dificuldade. Claro que o meu marido se ficou pela primeira dentada (e acho que só não a cuspiu por boa educação). Eu, como sou estóica, apesar do sacrifício, consegui, dia após dia, dar conta das bichas. 

Aquilo tem um sabor inqualificável. Nem sei dizer com o que se parece a nível de sabor. Mesmo que aqui quisesse dizer, não saberia. Só mesmo provando.

Fui agora ver imagens e percebo que o que comi foram as bagas que estão no interior do fruto propriamente dito, ou seja são aquelas coisas que estão no prato.


Portanto, eu dizia que aqueles comentadores que pululam por tudo o que é canto e esquina da televisão são uma jaca (leia-se: intragáveis) mas corrijo: são piores pois eu ainda fui experimentar porque não sabia ao que ia. Com estes comentadeiros psds e cds, reciclados, regurgitados, é pior. A gente já os conhece. Portanto, como é óbvio, evita-os. Zapping com eles. Caixote do lixo.

Prefiro ver o documentário sobre a Coco Chanel. Ah pois é, bebé.

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E sigam, se estiverem para isso, para o post abaixo. Não refiro a big rosa ao peito da Madame Avillez mas afloro o resto. Afloro, salvo seja.

terça-feira, maio 07, 2024

Portas & Bugalho, Companhia Lda.
- A palavra ao meu marido -

 

A nova aquisição da AD enquadra-se que nem uma luva na forma como esta malta faz politica. O Bagulho afirma uma coisa exatamente com a mesma convicção com que diz o seu contrário (tal como fazem o Montenegro e o Nuno Melo), é malcriado e não respeita os interlocutores (tal como faz o Hugo Soares) e nunca se lhe viu uma opinião válida nem um pensamento estruturado sobre  a União Europeia (tal como acontece com a maioria dos atuais ministros sobre os assuntos relacionados com as pastas que tutelam). Parece que está próximo ou supera o Ventura nas redes sociais destinadas a quem não pensa nem quer pensar e até tem encontros casuais com o Marcelo talvez para o professor Marcelo lhe explicar detalhadamente qual é o número de quinas que existem na bandeira portuguesa. Ou será que este encontro está em linha com os encontros do Marcelo com  a Teresa Leal Coelho, com o Moedas e do putativo encontro com o Montenegro durante  as campanhas eleitorais? Julgam que somos parvos.

Dizem que, quando for grande, o Bagulho quer ser como o Portas que foi o primeiro populista que se impôs na politica portuguesa. O "Paulinho das feiras" continua a catequisar os telespectadores da TVI no seu "comentário" semanal. É mesmo preciso a estação de televisão ter uma grande lata e o próprio um descaramento sem limites para que se considere que as análises que são feitas pelo Portas são um comentário. Comentário é analisar de forma isenta a realidade. O que é feito nesta rubrica, com o beneplácito da apresentadora, é um ataque cerrado à esquerda  e uma defesa intransigente da direita utilizando argumentos enviesados, quando não embustes. O "Paulinho das feiras" pode defender quem quer. O que não tem sentido é que o faça num espaço teoricamente de comentário e a estação o apelide de comentador. O Paulo Portas tem uma agenda que segue na TVI e a estação de televisão dá-lhe o espaço necessário para a transmitir, escondendo-a dentro de uma rubrica que é supostamente de comentário. Qual a razão para as televisões chamarem comentadores como se fossem minimamente isentos a tantas e tantas personagens de direita que pululam nos vários canais e mais tarde ou mais cedo saem do armário e se percebe que militam ou apoiam partidos de direita ou de extrema direita? Não é certamente por acaso.

O Paulo Portas e o Bugalho não são confiáveis. Este tipo de fazer televisão também não é.

segunda-feira, janeiro 31, 2022

O Chicão já era. Obviamente. O CDS foi levado na enxurrada. Zero deputados. Mais um líder ao fundo. Cada tiro, cada melro.

[Legislativas 2022 - Post Nº 12]

 

O Marcelo pediu mudança e os portugueses deram-lha: aplicaram uma valente tareia no PSD, no CDS, no PCP e no Bloco. Uma coisa como (quase) ninguém estava à espera. Os respectivos líderes provavelmente irão todos à vida e fazem bem se forem pois, de uma maneira ou de outra, fizeram mal ao país ao abrirem a estúpida crise política que conduziu a este processo eleitoral. Se dúvidas houvesse, os portugueses clarificaram o que queriam. O que queriam, não: o que querem. 

Foi mau para todos estes quatro partidos mas talvez o pior tenha sido o que aconteceu ao CDS: desaparece do mapa parlamentar. Na sua inocência, convencido que os portugueses vão em contrafações, o Chicão bem quis parecer-se com o Ventura. Não vão. 

E, com o vazio criado pelas fracas lideranças do CDS e do PSD e empurrados pelo PCP e pelo BE, abriu-se o espaço de que o populismo está sempre à espreita. 

Com aqueles olhinhos azuis de boneco e a fazer biquinho, o Chicão anunciou a sua inevitável demissão.

Portanto, com a sua actuação por vezes errática e, por vezes, a parecer oportunista, Marcelo conseguiu a linda proeza de provocar uma situação inédita: quatro dos principais partidos com representação parlamentar sofreram uma humilhação e vão certamente ver-se sem líderes a curto prazo. 

Mas talvez isto não seja mau. A renovação pode ser uma coisa boa -- assim haja inteligência e mão firme para fazer frente ao populismo trauliteiro do Ventura.

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E queiram, por favor, continuar a descer

Ups... querem lá ver que não vamos ter o Chicão como Ministro da Defesa...

[Legislativas 2022 - Post Nº 3]

 

Tadinho do puto. Se puderem ir levar-lhe uma chucha, seria simpático. O puto já por aí todo prosa a anunciar que já sabia o que ia fazer quando fosse Ministro... 

[Mas vamos com calma. Vitórias só com resultados, não com sondagens]

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E queiram, pf, continuar a descer

terça-feira, janeiro 18, 2022

Legislativas 2022 / RTP: Grande Debate televisivo entre os 9 maiores
-- balanço final
(e disclaimer sobre o meu quadrante político)


Acabou o debate e, no fim, pouco tenho a acrescentar ao que escrevi no início. O facto é que adormeci e, ao acordar, voltei a ouvir  o que estavam a dizer no início. Déjà-vu.

Por isso fico-me por onde já estava:
  • O António Costa obviamente está com a sua gravata verde. Continua bem disposto, tranquilo e a falar com segurança.
  • Tirando isso, isto ainda nem arrancou e o Rui Rio já está a falar alto de mais, dando mostras de querer desorientar-se.
  • Catarina Martins continua loura e com aquele seu arzinho sonso e teatreiro. Não aprende. Julga que está a falar para parvos e que pode continuar a vender a sua hipocrisia como se alguém acreditasse que é a santinha que finge que é. Aquele sorrisinho já não se aguenta.
  • João Oliveira continua entroncado e tisnado, com ar de quem se alimenta bem. Poderia ser um potente motorista ou um valente agricultor. Vem com a conversa engatilhada e fala compulsivamente, sem ser capaz de ir straight to the point. Não sou de dizer isto mas hoje tenho que dizer: o homem engoliu a velha cassete do PCP.
  • O Chicão começou por dizer uma anedota, o que fez o António Costa desatar a rir. Está aqui para fazer um número de stand up e tentar mostrar que é um sarrafeiro ainda pior que o Ventura. Trazer putos que estão na idade da ramboia para uma cena destas só podia dar em baderna. Alguém o leve, se faz favor, com os seus lindos olhos azuis, de volta para a escola infantil. E vistam-lhe um bibe para ficar ainda mais fofo.
  • A Inês Sousa Real veio com um look discreto que lhe fica muito melhor do que o último em que estava muito gaiteira. Mantém-se assertiva, bem preparada e continua a surpreender-me. 
  • O Ventura falou, falou, falou e, como sempre, não disse nada. É um espalha-brasas, um vendedor de banha da cobra, uma nódoa
  • O Cotrim Figueiredo está com ar lavadinho, parece que saiu do banho, mantém-se bonitinho como sempre... mas hoje está irritadiço. A continuar assim deixo de lhe prestar atenção. Não gosto de gente que se arma em agressiva. 
  • O Rui Tavares mostra que é inteligente, parece ser sensato e ter bom senso. O drama dele é não saber escolher equipas. Ainda estou traumatizada com aquele mau passo dele ao escolher a Joacine. 
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Quanto ao meu posicionamento político e partidário, aproveitando a boleia do Provas de Contacto (Provas de Contacto: ... não sei, não... The Political Compass  Votóm...), fui fazer os testes. As perguntas do Observador são simplórias e enviesadas mas, ainda assim, respondi. Depois fui para o teste mais apertado. 

O resultado aqui está. Não me admiro. Diz-me que tenho uma coincidência de 80% com o programa do PS. É o que é. Ou melhor, sou o que sou.

A nível da bússola estou no quadrante balizado pela esquerda e pelo look libertário cosmopolita. Está certo.


Quanto ao teste mais completo, confirma-se: esquerda libertária. 
Tá-se.

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E agora?

sexta-feira, novembro 05, 2021

Marcelo -- ou a arte de dissolver a Assembleia e, en passant, também dar uma ajudinha na dissolução dos partidos à esquerda e à direita do PS

 


A data deixa-me indiferente. A ter que dizer alguma coisa, direi que é razoável. Mas o tema não é a data. O tema é o absurdo disto tudo. 

Dois partidos de esquerda, desfasados da realidade e atados ao que pensam ser o fio de ariadne que os prende ao que resta do seu exíguo eleitorado, entenderam que deveriam impor ao PS medidas com que o PS, que tem a responsabilidade de assegurar as boas contas e que já tinha feito inúmeras e generosas concessões, entendeu não dever comprometer-se. O Orçamento era equilibrado e francamente à esquerda, beneficiando amplamente o eleitorado natural do PC e do Bloco. 

Marcelo, que gosta de ser ele a estar no centro da agenda mediática, em vez de ser sensato e esperar que o PCP e o BE caíssem neles e constatassem que nunca tinham tido orçamento tão favorável, não senhor, resolveu chamar o protagonismo a si e, precipitadamente, informou que, se o Orçamento fosse chumbado, liquefaria a Assembleia e convocaria eleições.

Ninguém o levou a sério: parecia ser mais uma das suas sound bites para conseguir saltar para as primeiras páginas.

Com os nervos à flor da pele -- e com medo de desagradar aos membros mais fundamentalistas dos respectivos partidos -- e marimbando-se para o 'povo', o orçamento chumbou mesmo. 

Para espanto e incompreensão de toda a gente, o Bloco e o PCP apareceram de braço dado com o PSD, o CDS, a IL e... quem poderia imaginar?... até com o Chega. A esquerda e a direita do PS unidas para fazerem o País perder tempo e andar para trás numa altura crítica em que o sentido de Estado aconselharia a unir esforços num sentido construtivo e não destrutivo. Uma vergonha de que os portugueses não se esquecerão.

O retratista do reino deveria ter mandado que se sentassem todos do mesmo lado da mesa para lhes tirarem um retrato para a posteridade.

Aí chegados, o Marcelo, enfiado na saia justa que ele mesmo costurou, não teve outro remédio senão passar das palavras aos actos.

Confrontados com a consequência dos seus actos, o Bloco e o PCP, na maior imbecilidade, vieram, então, dizer que não queriam que isto acontecesse, queriam esticar a corda mas nunca, jamais, em tempo algum, provocar a liquefacção do parlamento. Tarde demais. Pela segunda vez, a espúria aliança já tinha sido consumada. Uma vez mais, o Bloco e o PCP trairam os seus eleitores. Logicamente, o mais normal é que, nas eleições, sejam dissolvidos de vez.

E, perante este cenário, para animar a festa, o PSD e o CDS resolveram começar a devorar-se uns aos outros. Agridem-se à bruta e, não contentes com isso, deram também em fornicar-se mutuamente, a toda a hora, à frente de toda a gente. Uma orgia de tal forma alargada e assanhada que chega a ser indecente. De cada vez que um deles fala, demonstra aos eleitores que neles é que ninguém se pode fiar. Nem internamente conseguem ser civilizados e responsáveis, faria se se apanhassem aos comandos do país. 


Não é só o espectáculo de lavarem a roupa suja em público. É mesmo a falta de decoro. É agressão, fornicanço e canibalismo praticado a toda a hora, à frente de toda a gente. A maior pouca vergonha.

No meio disto, Marcelo apareceu hoje ao País com ar esvaído, quase a fazer beicinho, aspecto de quem se sente acossado (quando foi ele próprio que se meteu nesta ratoeira), esforçando-se por justificar o que aconteceu. No fim da alocução, saiu de fininho, curvado, enfiado, rabo entre as pernas. Longe vão os áureos tempos em que corria para observar o acidente do eléctrico na Baixa, para acudir na queda da avioneta ou para andar a distribuir beijinhos e selfies pelas feiras, pelas ruas, de casa em casa, e em que, arrebatadamente, não resistia a ligar em directo para o programa da Cristina Ferreira. Longe, muito longe, vão esses tempos.

E a gente percebe que ele percebe que corre sérios riscos de ficar para a história como o presidente que dissolveu não apenas a Assembleia da República mas também os partidos à esquerda e à direita do PS. Dissolvidos, feitos em água, reduzidos a pó. E a ver se, no processo, não se dissolve a ele próprio.

Está bonito isto, está, está.


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E, já agora, a propósito de se sentarem do mesmo lado da mesa para ficarem todos no retrato, aqui fica a Última Ceia by Mel Brooks

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Inté

quarta-feira, outubro 27, 2021

A Catarina Martins, quase em lágrimas, quase implorou a Costa que a impeça de votar contra o OE.
O coração do PCP balança: não sabe se trame os portugueses ou se esqueça os comunas da linha dura.
Rui Rio porta-se como um alienado e nada do que diz pode ser levado a sério.
O CDS está à beira da estrada a ver se alguém os leva a dar uma voltinha,
O Ventura mostra, uma vez mais, que está aqui apenas para atirar foguetes.
O Cotrim, perante tudo isto, mostrou como é que deve vestir-se um deputado.
A Inês mostrou que o PAN pode não ser muito para se levar a sério mas que a ela devemos prestar atenção.

O título foi longo e poderia ficar-me por aí. Mas, como sou extrovertida, aproveito para responder a alguns comentários e mails e, de caminho, para acrescentar uns pontinhos.

Acredito que o Orçamento ainda pode ter pernas para andar. Convém termos presente aquela coisa da estupidez: a estupidez é uma burrice sem beneficiários. Ora, se a estupidez ainda não se materializou, ou seja, se a votação ainda não ocorreu, ainda pode acontecer que os que se meteram nisto armados em leões percebam que o melhor é saírem de fininho. Entrada de leão, saída de sendeiro. Melhor isso do que se atirarem da ribanceira abaixo.

Talvez recuem percebendo que não iam apenas prejudicar os portugueses em geral (coisa para a qual se estão a marimbar) como se iriam prejudicar a eles próprios. Talvez o PCP e o BE percebam que perderam a noção da realidade ao pretenderem que o governo altere a sua linha governativa legitimada pela votação obtida nas últimas legislativas para governar de acordo com a vontade deles que tiveram 6% e 9%. Talvez tenham um lampejo de lucidez e percebam que os 36% de eleitores do PS não querem ser governados segundo as suas arrogantes imposições. Talvez percebam que são pequenos e, em trajectória descendente, cada vez mais pequenos. Talvez percebam que, se voltam a trair a confiança dos poucos que ainda votam neles, então mais vale dedicarem-se à pesca ou a outra coisa qualquer. 

Ou pode acontecer que, num derradeiro acto de misericórdia, o Costa lhes atire um peanut qualquer para eles, perante os seus fiéis, poderem fingir que ganharam alguma coisa.

Depois de ter visto as imagens do Parlamento, com a bancada do Bloco de Esquerda toda tef-tef, margarida, desorientadas, e a própria Catarina, com ar aterrado, quase a chorar, a pedir que o Costa lhe pegue ao colo ou, pelo menos, lhe dê a mão, acredito que, pelo menos, o Bloco já percebeu que fez porcaria (só que agora não sabe como sair do beco em que se enfiou). 

Quanto ao PCP, acredito que o coração deles balança. Por um lado, a linha mais racional quer ter uma atitude responsável mas, por outro, a linha dura, a linha que gosta de manifs e punho erguido, quer é ter motivos para o protesto e, para isso, têm os portugueses que estar a ser bem lixados. Portanto, a ver o que o Jerónimo vai fazer: se opta por satisfazer os comunas de linha dura ou se opta por querer o bem dos portugueses.

Mas também acredito numa coisa. Se por uma bizarra convergência de burrices, houver mesmo eleições antecipadas, acredito que 

  • o PS ver-se-á reforçado já que nisto tudo é quem, a par do PAN, tem mostrado ter cabeça e sentido de responsabilidade;

  • o PSD levará uma tareia das valentes, ainda por cima destrambelhados como andam ;
  • o PCP e o BE, obviamente, levarão um valente chega para lá pois ninguém gosta de irresponsáveis, arrogantes e gente que se porta de forma estúpida;
  • o CDS quase desaparecerá do mapa; 
  • a IL talvez se aguente pois o Cotrim, para além de ter pinta e de se saber vestir, é elegante e educado;

  • o Chega deve subir, repescando os distraídos, os manipuláveis, os desiludidos e os destituídos que assim se juntarão aos desinformados, aos ignorantes, aos arruaceiros e aos patifes que já lá estão. 

Portanto, acreditando que, a haver eleições, o PS sairá reforçado, a verdade é que não me agrada nem um bocadinho que, em vez de haver uma oposição construtiva e responsável, se tenha apenas um bando de gente desorquestrada e de um Chega perigosamente circulando com via verde para fazer a porcaria que quiser.

Quanto ao Marcelo, ele sabe bem que, se houver eleições antecipadas, o seu nome ficará ligado ao reforço do PS, ao estilhaçar dos partidos à esquerda e à direita do PS bem como à ascensão do Chega. E o que se seguirá poderá não ser bonito de se ver. 

E essa não é, seguramente, a forma como quererá ser recordado. Marcelo sabe bem que a memória das pessoas é curta. Os últimos tempos do seu mandato facilmente apagarão os seus áureos tempos pré-pandemia, o tempo dos afectos, das selfies e dos beijinhos. 

Por isso, pode muito bem acontecer que esteja a pôr toda a sua habilidade de experiente jogador político ao serviço da aritmética que pode garantir pelo menos mais um ano de governação estável.

E depois há aquilo em que parece que ninguém antes tinha pensado e que pode ser saída para se seguir em frente. Em frente mas com uns a irem ao charco e outros enfiados num saco de gatos. Em frente mas com os comentadores todos em histeria, todos a terem epifanias -- uma coisa também muito difícil de suportar. 

Enfim, vamos esperar que, fruto de interpretações regulamentares, habilidades alheias ou arrependimentos próprios, haja quem, à última hora, consiga que não se perca tempo com frivolidades e que, pelo contrário, possamos concentrar-nos no que é necessário (desenvolver-nos, por exemplo).

E agora vou pensar noutra coisa para não cansar a minha beleza.

domingo, outubro 24, 2021

E para o OE não vai nada, nada, nada...?
Tudo! Tudo! Tudo!
[Para disfarçar, inclui crónica do meu pequeno dia]

 


Não me interessa muito esta chicana do orçamento. Todos os anos é isto. Um filme pouco inspirado que se repete ano após ano.

As do Bloco de Esquerda gostam de se pôr em bicos de pés e não conseguem resistir à tentação de assim andarem a toda a hora mesmo quando isso é despropositado. A forma como falam, como se tivessem o rei na barriga, é pateta. Poderia dizer que é patético mas acho que a palavra é grande demais para elas. Na minha terra, em situações assim, diz-se: 'já o carapau tem tosse...'.  É que não se enxergam. Acham que podem impor ao país a sua vontade, esquecidas da insignificante votação que tiveram. Não se aguenta. Estas suas atitudes despropositadamente impositivas e arrogantes penalizam-nas em todas as eleições mas, armadas em reizinhos, não percebem que cada vez há menos pessoas a terem pachorra para elas.

O PCP tem outra atitude, são gente crescida, gente confiável. O problema deles é outro. Ainda vivem num outro mundo. Confundem os sindicatos que ainda controlam -- e que representam cada vez menos gente -- com as reais preocupações do mundo laboral. Mantêm-se agarrados a causas que interessam cada vez a menos gente. Muito do que era o seu eleitorado típico está agora a marimbar-se para o que ainda são as causas comunistas. 

Muitos que integram o anteriormente designado proletariado, nomeadamente o operariado ligado a empresas industriais, estão-se nas tintas para a precariedade e para as carreiras. Querem é andar de empresa em empresa, consoante lhes paguem melhor. Por exemplo, quando alguma empresa os quer contratar, dizem: quero ganhar mil e quinhentos líquido. Ou mil e oitocentos, o que for. Tanto se lhes dá se recebem metade por baixo da mesa ou por fora, tanto se lhes dá se o que é descontado para a segurança social é o mínimo dos mínimos. E se lhes oferecem mais para irem trabalhar lá para fora, nem pensam duas vezes, vão. E se puderem fazer carradas de horas de extraordinárias, melhor. Na minha terra também se diz sobre atitudes assim: tudo o que vem à rede é peixe. E é nessa que estão muitos dos actuais operários. Preferem empresas de vão de escada, que fogem a responsabilidades, ao fisco, às recomendações da ACT mas que lhes garantem o 'líquido' que eles pedem. Ora, nestas águas, o PCP já está fora. 

Ou seja, os poucos por cento que o PCP representa já não têm muito a ver com nada da vida real.

Portanto, o pobre do Costa ali anda, sem dormir, a aturar uns e outros a ver se consegue que viabilizem o Orçamento.

À direita o despautério é ainda mais oco, embora seja mais colorido, mais divertido. 

No PSD devoram-se uns aos outros. A galinha cacarejante continua a ser levada ao colo pela comunicação social, mostrando-se entusiasmada com o que imagina ser uma onda laranja que, na realidade, não existe. E o desagradável mangas de alpaca que, volta e meia, quer dar um ar da sua graça mas apenas consegue que o olhem com algum espanto e comiseração, anunciou que vai outra vez a jogo. Entre uma galinha cacarejante e meio careca e um carapau de corrida venha o diabo e escolha. Não vão longe.

O CDS já não existe e o Chega é uma agremiação de patifes, malfeitores, fala-baratos e, num ou noutro caso, parece que verdadeiros bandidos. Portanto, nem vale a pena pensar no que querem. Não querem nada. Querem apenas fazer barulho e lançar confusão. Apenas existem porque a comunicação social lhes dá palco. Senão, seria fumaça que se dissiparia por si.

Depois há o PAN com a sua moçoila simpática e o IL com um líder que tem a vantagem de ser um peralvilho com alguma pinta. Conteúdo em qualquer dos casos: zero.

Portanto, o que posso dizer é que espero que o raio do orçamento seja aprovado e que, se não for, que o Costa siga em frente e governe na mesma.

E espero que o Marcelo consiga manter a cabeça fresca para pôr alguma ordem na mesa e assegurar a estabilidade suficiente para o país conseguir sair o melhor possível deste vulcão de desgraças que não pára de lançar lava e cinza sobre todo o mundo: pandemia, crise energética, escassez internacional de matérias primas. 

Só gente intelectualmente destituída ou desonesta é que pode achar que faria sentido, no meio disto, irmos agora para nova campanha eleitoral.

Enfim. Adiante.

Tirando isso, só se for para falar da minha vidinha, do meu pequeno dia. 

Dia tranquilo. Caminhada alargada. Depois supermercado. A seguir, fomos abastecer-nos a um nepalês, um restaurantezinho pequeno, simpático a meia dúzia de quilómetros daqui.

Ao chegarmos a casa, ao arrumar as coisas do supermercado, verifiquei que uma peça de carne não me cheirava bem. Arrumámos tudo menos isso. Depois fui pôr uma máquina de roupa a lavar. A seguir almoçámos parte do que trouxemos e constatámos com agrado que daria para três refeições. Muito bom. Que saudades tinha. Que bem que soube. 

Depois estendemos a roupa. Estava sol e ventinho, bom para secar.

A seguir fomos ao supermercado para entregar a carne malcheirosa e receber o dinheiro de volta, o que aconteceu sem piarem ou sequer confirmarem a veracidade da queixa. Dizem que as pessoas, por vezes, deixam as arcas frigoríficas abertas. Não sei. 

Dali fomos à minha mãe o que deixou o little baby bear doido de alegria. Abraçou-a, quis mordiscá-la, agarrou-a, correu e saltou em volta dela. Pelo meio tentou tirar a mantinha que estava no cadeirão e roubou-lhe um chinelo. A minha mãe só lhe chamava 'seu maluco'. No fim, para nossa surpresa e alegria da minha mãe, queria lá ficar. Só saiu de casa quando a minha mãe também saiu. Penso que é o espírito de pastor. Só sai quando todas as ovelhas saem.

Também estivemos com o meu tio, irmão do meu pai. 

Como não o conhecia, a pequena fera não deu confiança, manteve-se sentado a ladrar-lhe, depois rodeou-o a cerca de meio metro sempre a ladrar. Estava nitidamente desconfiado. O meu tio tentou fazer-lhe uma festa mas ele não deixou. Apenas ao fim de algum tempo, quando constatou que o meu tio não era um perigoso predador, é que começou a brincar com ele, já permitindo festas. Aí foi uma festa, tentou empoleirar-se, saltou. O meu tio falou dos cães da minha prima, aquele mais velhinho, grande, uma ternura, e este agora, mais novo, igualmente escolha da filha da minha prima. 

A seguir, fomos a uma clínica levar um aparelho de um exame cardiológico que a minha mãe tinha feito.

Quando chegámos a casa, apanhámos e dobrámos a roupa. E arrumámos coisas. E tomámos banho. E fomos jantar mais comidinha nepalesa.

E estivemos na sala da televisão, o peluche animado a tentar mordiscar-nos, a tentar arrancar o galão de uma banqueta, a tentar roubar-nos almofadas, a tentar arrancar a franja de uma coberta, a tentar roer as pernas de uma mesinha. O dono tenta educá-lo mas ele à educação diz nada, quer é brincar. É uma graça.

Agora ambos dormem, o pequeno urso peludo e o dono. 

E eu estou aqui, escrevendo como se estivesse a conversar convosco. Só que não vos ouço. 

Não sei como foi o vosso dia, não sei se já vestiram uma camisola mais quente ou se ainda andam com roupa de verão, não sei se preferem o ruído ou o silêncio, a confusão ou a solidão, não sei se gostam mais de ler ou de ver televisão. 

Mas, apesar de não saber nada de vocês, continuo a gostar de conversar convosco.


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Pinturas de Hamed Nada na companhia de Daniil Trifonov que interpreta : Etude, Op. 42 No. 5 de Scriabin

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Desejo-vos um belo dia de domingo

terça-feira, setembro 28, 2021

Ascensão e queda de alguns. Ascensão e futura queda de outros.

 



Tenho a reconfessar que estas eleições não mexeram comigo. Do pouco que vi na televisão ou do que li, nomeadamente em alguns programas eleitorais, foi o que referi há dias: mais do mesmo.

No entanto, acredito que a vitalidade da democracia se mede também através da qualidade de vida nas cidades (ou vilas) e, para isso, é relevante a competência, a dedicação, o profissionalismo e a visão estratégica das equipas que conduzem os destinos autárquicos. E, talvez por isso, ouço o que dizem os candidatos e acho que deveriam ser todos (ou quase todos) rifados.

No que se refere ao Porto, não vivo dentro nem tenho acompanhado: não me pronuncio, pois. 

Mas sobre Lisboa tenho opinião. Lisboa está magnífica. Pode ter pontos de imperfeição ou pode ter coisas que não funcionam bem. Mas, no cômputo geral, está magnífica. É magnífica. 

A reviravolta no bom sentido começou antes do Medina. Vem de Sampaio, vem do Costa. Mas o Medina executou a estratégia e não desgraçou tudo. Pelo contrário, continuou a melhorar a cidade. Não falo dos bairros históricos transformados em alojamento local. Foi tendência geral, cá e em todo o lado onde o turista gosta de andar. Chama-se gentrificação e é fenómeno global. Não vale a pena armarmo-nos em beatos, querendo ver culpa no vizinho do lado, neste caso no Medina. Não. Voo barato e, portanto, muita procura tem esta implicação: aumenta a oferta. É o mercado, nada a fazer.

Para mim, o pior mesmo, o que o fez perder as eleições, foi a colagem excessiva à imagem do aparelhista bem comportado, o socialista linha soft, menino apertadinho, que vai à televisão falar em nome do PS. Mas quem fala assim, sem garra, fugindo assustado de problema, desfazendo-se em desculpas e mais desculpas mesmo do que não tem culpas, renegando o que for preciso para continuar na primeira fila, dedinho no ar, não pega. Junto do público feminino, então, não pega mesmo. Mulher não gosta de homem com espírito fraco. Ainda por cima, imagem televisiva semanal e monocordicamente gasta a desfiar comentário morno sobre tudo e sobre nada, cansa. A gente quer pensar que na autarquia está um gestor eficiente, um executivo incansável e não um principezinho bem comportado que se dedica ao comentário e ao falatório político. 

E depois tem aquilo das ciclovias. A Penélope explica tudo muito bem. Concordo. Ciclovia é, obviamente, uma boa ideia. Cidade limpa, ecológica, toda a gente gosta. Mas uma coisa é haver avenida larga, passeio largo, coisa planeada ab initio: o peão ou a bicicleta ser quase o rei ou a rainha e os carros um acessório. Isso é bom. O pior é quando o carro está por todo o lado, na estrada, no estacionamento (quando não no próprio passeio), e a estrada é reduzida ou o passeio é cortado ou cruzado por ciclovia e a gente nem saber bem se pode pôr o pé ou deixar criança andar à vontade.

E há mais: do que se comenta por aí, subsiste na Câmara o que de pior existe da velha escola dos boys socialistas, as assessorias pagas a peso de ouro que mais não fazem do que alimentar a intrigalhada partidária e a manha e a amizade ao trabalho de faz-de-conta. Ora isso já não está com nada. Isso e as mordomias que a Guida gorda gosta de ter. O eleitorado já não tem pachorra para isso. O eleitorado castiga.

Pode tudo isto não ser extraordinariamente significativo mas foi o suficiente para Medina ter perdido a Câmara. Como ele disse, por um voto se ganha, por um voto se perde.

A vitória caiu de bandeja no colo do Moedas. Uma ave-rara que promete aos lisboetas, em tempos de paz e de progresso, "sangue, suor e lágrimas", em condições normais levaria uma corrida em osso. Só um wanna be desfasado do realidade se lembrava de tal disparate. 

Dizem que foi um bom Comissário e até acredito. Mas foi também um fiel homem de mão de um inqualificável Láparo e disso eu não posso esquecer-me. Pode não ser totalmente incompetente, pode não ser gatuno, corrupto ou analfabeto. Menos mal. Mas parte do seu passado é negro e o seu presente não revela golpe de asa, visão fora da caixa ou sentido de modernidade. Tomara que consiga fazer um trabalho que não desmereça o legado dos seus antecessores na Câmara. A bem dos lisboetas e de todos quantos cá trabalham ou cá estão de visita, é bom que faça um bom trabalho e, nesse sentido, só posso desejar-lhe boa sorte.

Tirando isso, tenho pena pelo Bernardino. Não sei como foi a sua gestão mas tenho-o em boa conta. 

O mundo vai andando, umas vezes para a frente, outras para os lados, a maior parte das vezes aos tropeções. Mas ninguém suportaria que andasse para trás. E o PCP tem isso: quer ficar preso ao passado, à conversa do já era, aos ideais que já tombaram faz tempo. Pode até ser gente honrada e bem intencionada -- aliás, não tenho dúvida que o é. Mas são sectários ao porem-se do lado errado da trincheira, e errada porque a guerra já é outra. A população já não quer ouvir falar de coisas que já não lhes dizem nada. Aqueles a quem a conversa do PCP ainda diz alguma coisa já estão velhos e em minoria. O eleitorado, na sua maioria, já está noutra. Tenho pena, em especial pelo Jerónimo, o último dos moicanos, um homem digno e sério. Mas é a vida. 

As grandes lutas agora já não são as sindicais, com os sindicatos da função pública à cabeça, a luta agrária, esses temas de antigamente. As grandes lutas agora são as do ambiente, as da luta pela felicidade, pela qualidade de vida, as da demografia, as da diversidade e da inclusão. O PCP não sabe estar nessas lutas. Mesmo quando quer estar, usa um vocabulário de tempos passados. O PCP e essa abstracção chamada CDU voltaram a perder e o pior é que não sabem interpretar as derrotas. Para eles, as derrotas são sempre por culpa alheia. Aos poucos vão caminhando para o próprio fim. 

O Bloco de Esquerda também perdeu e é natural que tenha perdido. Com o viço com que apareceram há uns anos anunciando a diferença, atraíram os que estavam cansados de partidos velhos. Sol de pouca dura. Com esta direcção, Catarina & Manas Mortáguas, o BE vem revelando à saciedade que é sangue populista o que lhes corre nas veias. Num local, não sei onde, perderam um vereador e o Chega ganhou um. Um populista substituiu outro populista. É natural: populismo é populismo, vista-se de esquerda ou vista-se de direita. Não vão acabar bem.

Do CDS não vale a pena falar. Aliás, não há nada a dizer. O perfeito nulo.

Quanto ao PSD, o que tenho a dizer é que as hostes laranjas sabem mexer os cordelinhos autárquicos. Ou não fosse o burocrata Rio um homem do aparelho. Mas o aparelhismo tem perna curta e o ar de quem está permanentemente fornicado com qualquer coisa, seja lá o que for, faz com que a malta queira é vê-lo pelas costas. O ambiente fica pesado com o Rio por perto. Portanto, este balão de oxigénio é coisa que não cura o estertor, apenas o adia. 

Mas adia o tempo suficiente para que a galinha cacarejante tivesse cacarejado, uma vez mais, antes de tempo. Numa campanha de relançamento em que valeu tudo, até sair mediaticamente do armário, Rangel deixou-se embalar pelos que anteviam uma demissão de Rio na noite das autárquicas e, destravado como só ele sabe ser, atirou-se para a frente das luzes da ribalta. Correu-lhe mal. Portanto, dupla sensação de vitória para o sempre aziado Rio. 

Mas vai ser coisa efémera. 

Não sei se sobra alguém mas acho que não. Mas, mesmo que sobre, não teria mais nada a dizer.

Faz falta sangue novo, um olhar novo, um pensamento novo. Enquanto isso não aparecer, isto das autárquicas é uma grande seca.

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Volto para responder ao comentário sobre o Santana Lopes. Não sei bem que diga. Vida mais errática não há. O que ele já fez e desfez, a forma como se lança e depois se cansa, tornam-no não apenas imprevisível como pouco confiável. Há funções para as quais a determinação e persistência são fundamentais e a de presidente de uma câmara (ou de um governo) é uma delas. Ora, determinação e persistência são coisas que a ele não lhe assistem lá muito. Dá ideia que se move pela adrenalina, pelo prazer da novidade. 

Contudo, apesar de toda a aleatoriedade no seu percurso, ao chegar aos sessenta e cinco e continuar a ser assim, abalançando-se para estas coisas, voltando a percorrer uma etapa que já tinha ficado lá para trás no percurso da sua vida, há que lhe reconhecer algum mérito. Mostra que é sobretudo um personagem literário de que um dia alguém fará um filme. É um romântico. Deve ser respeitado enquanto tal. Um dos últimos românticos.

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Para ver se conseguia amenizar a aridez do texto, usei fotografias de Niki Colemont
e trouxe Birdy com Evergreen para nos fazer companhia

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Desejo-vos uma boa terça-feira.

Boa sorte. Saúde. Confiança.

sábado, fevereiro 06, 2021

As chagas de carácter social

 

Tenho a certeza que é muita insensibilidade da minha parte não vir para aqui carpir sobre as agruras nacionais. É mesmo. Toda a gente lamenta coisas. Toda a gente e eu, que não sei se sou gente, se sou bicho, também. Como, estando eu imersa neste pequeno rectângulo sobrelotado de gente lamentando-se, não me deixo contagiar...? É muita insensibilidade. Muita.

Como, por exemplo, não estar aqui a lamentar que o Chicão, esse menino mais fofo, esteja agora a ser maltratado pelo Adolfo e demais amigos? Logo o Chicão, esse destemido gaiato com uns olhinhos azuis mais lindos. Devia lamentar, que o momento é de tristeza e chicana. Mas não me ocorre o que dizer.

Também me parece insensível da minha parte não fazer um reparo ao conselho amigo que Mário Machado, essa incontornável e cadastrada figura, líder de movimentos sobejamente tintilantes, veio fazer ao Ventura para que modere a agressividade e a conversa potencialmente apelativa à violência. Parece-me um gesto bonito, bonito demais, e auto censuro-me por não estar aqui a louvar estes actos de coração. Mas dizer o quê? O que se diz numa situação destas... Que é a lei da vida...? Que branco é galinha o pôs...? Não sei...

E mais. Soube há pouco que o governo não vai dar tolerância no carnaval. Não me parece nada bem e ainda pior me parece eu não fazer da condenação de tão insana medida a minha guerra pessoal. Se este não é motivo para a mais sentida lamentação não sei o que seja... A gente quer fazer desfiles e não pode, quer fazer rodar a baiana e não pode, quer despir-se de alto a baixo, só com uma estrelinha brilhante nos sweet nipples e na rosa clandestina, e não pode, quer ir fazer uma festa bem danadinha de boa, todos tapados e mascarados do pescoço para cima, e não pode... e, como se a afronta não bastasse, ainda nos cortam a tolerância. Mas como? Temos que ficar em casa...? Não pode...! Fechados? Não... Mas vou dizer o quê? Que mascarar-me de irmãzinha da caridade-pum e não poder ir para a rua fazer de conta que sou a Alcoforado não me parece bem...? Bahhh, não tenho saco. Esgotei. Já dei para esse peditório.

Claro que poderia falar da meia-irmã da costureira da prima da cunhada da amásia do padrasto do presidente da Junta de Freguesia de Caganita de Baixo que se abifou com uma vacina já meio morna. Mas quê? Pôr-me a fazer concorrência à impoluta e suportável Sandra Felgueiras...? Ainda se eu fosse como o colega dela e soubesse praticar aquela eloquente e histriónica língua gestual, se me faltasse a parte detrás da cabeça, se tivesse orelhas de abanico e conseguisse falar como se estivesse sempre a ponto de apanhar com um míssil no missing toutiço... Mas não. Eu sou só eu. Fazer o quê...? Nada, né? É que, para falar a verdade, ninguém merece.

Portanto, na presença de tão grande insensibilidade e na ausência de ter mais o que dizer, calo-me já.

E que entrem os convidados.






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O título foi retirado do discurso de Vasco Santana

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Desejo-vos e belo e confinado sábado.

quarta-feira, janeiro 29, 2020

Miguel Sousa Tavares praxou o Chicão


Vi a entrevista na segunda à noite, aos bochechos, enquanto acordava e adormecia: na TVI, no noticiário, o Miguel Sousa Tavares praxava o jovem Chicão. Fazendo cara de mau, o Miguel fez uma entrada a pés juntos. O rapazito esgueirou-se, tentou ripostar, tentou a lisonja, mostrou a inocência dos inexperientes. Face a isso, o Miguel, certamente pensando que o jovem é mais novo que os seus filhos, apiedou-se, quase sorriu com as gracinhas do puto, refreou o killing instinct.

O rapazito, com um bonito olhito azul (aliás, com dois), lá se foi desculpando entrevista afora. Às tantas, não querendo mostrar muito mais o seu coração mole, o Miguel tentou armar-se em mau: 'As listas são só de homens. Não gosta de mulheres?'. Truque fácil: sabe que todos os adolescentes temem que questionem a sua sexualidade, ainda por cima em público. O Chicão vacilou mas foi coisa de um breve instante. Assumiu a culpa: trabalho feito à pressa, não tinha tido tempo. O aluno impreparado a espalhar-se na prova oral, o velho professor a passar rasteiras a toda a hora. E nem percebeu, coitado do rapaz, que não foi preciso muito. Para verdinhos, todo o salpico na estrada é casca de banana.

No fim, quando a entrevista acabou, poor boy, quase se sobressaltou, nem estava à espera, já tinha interiorizado que ia sair dali com as tripas de fora. Intimamente deve ter pensado: 'Uffff, sobrevivi...'. Aposto que, a seguir, ligou aos pais e à namorada a perguntar como o tinham achado, se achavam que tinha passado. 

in Flash
E, no rescaldo do grande momento, o que tenho a dizer é que o puto Chicão ainda não está pronto para o mundo dos crescidos. Fiquei também com a ideia que, em pequeno, deve ter calhado meter-se na Jota dos Betos e, por isso, formatou-se para ser de direita. Mas fiquei com a ideia que, no fundo, aquilo ali ainda está em formação e, bem trabalhadinho, guinava à esquerda que era uma pinta. Aliás, ficava bem era ao pé dos gatos do PCP.

Mas uma coisa é certa: talvez por ser bonito (ou melhor, enquanto é bonito), talvez por ter carisma (ou, pelo menos, a graça dos infantes), talvez por parecer que pode dar para vários lados (calma, ó Chicão, refiro-me aos lados políticos), a gente fica com vontade de ver para onde é que aquilo vai evoluir.

Só espero é que aquela que tem pinta de bruxa-má não dê cabo dele para continuarmos a vê-lo com o dentinho encavalitado todo sorridente. Tirando isso, é ver como se esquiva à corte que o láparo, esse inteligente, começou a fazer-lhe. E, por ora, mais nada.

segunda-feira, janeiro 27, 2020

Quem é o Chicão?


Não posso dizer que saiba muito dele pois, a bem dizer, nunca o ouvi falar. Sei que é bonito, tem olho azul e, apesar de ter o seu lado fofinho, preza o seu look mais formal pois a verdade é que não despreza a gravata. 

Conheço-o desde novo e, desde que o vi, senti simpatia por ele. Tanto que passou a ser presença assídua cá de casa.

O meu filho também sempre gostou dele. Pelo menos é o que deduzo, vendo o Chicão ainda em bom estado. 

Agora são os seus filhos que também já nutrem alguma simpatia por ele embora sem grandes arroubos. Eu própria, mantenho-o ao dispor dos afectos familiares. Volta e meia meto-o na máquina de lavar e ele também resiste às cambalhotas debaixo de água.

Coelhinho de peluche que vive cá em casa desde que o meu filho era bebé
e que dá pelo nome de Chicão

Do outro, do do CDS, nada tenho a dizer. Desconheço. Parece-me ser daqueles homens que tende a engordar e de quem, daqui por uns anos, quando tiver perdido o viço dos seus verdes anos e compararmos a sua papada gorda com a fotografia de agora, ufano e vitorioso por ser o sucessor da Cristas-da-Coxa-Grossa, sentiremos alguma pena por ter perdido tão rapidamente a graça. Tirando isso, parece-me daqueles betinhos de cabeça oca, um daqueles jotinhas que querem parecer mais maduros do que são, mas que são apenas tristemente reaccionários e desinteressantes. Mas digo isto ao ver as suas fotografias nos onlines, ao ter visto o vídeo que o Brumas divulgou e, agora, enquanto escrevo, no noticiário. Admito que, conhecendo-o melhor, possa ficar com uma ideia pior.

segunda-feira, outubro 07, 2019

Primeiras impressões sobre as Legislativas 2019:
sobre a Cristas e sobre o CDS, sobre o PAN, sobre a Joacine Katar Moreira como possível deputada e sobre a quebra do PCP.
E sobre a inutilidade das campanhas eleitorais.


Obviamente os portugueses passam bem sem a campanha eleitoral. É um período de ruído a todos os níveis. Dá ideia que naquilo de in vino veritas deveria substituir-se o vinho por campanha eleitoral pois, quando chega o período eleitoral, parece que o pior de cada um aparece à vista: a veia populista e hipócrita de uns, o défice de carácter de outros, a vacuidade indisfarçável de aqueloutros. Mas, mesmo isso, parece não afectar o sentido de voto dos eleitores. Aparentemente a opinião das pessoas forma-se observando a governação de quem está no poder e a oposição dos demais.

Ainda bem.

Mas isto deveria ser motivo de reflexão para as próximas eleições. 

Quanto ao que se antevê face aos resultados, as minhas primeiras observações são estas:

1 - Os portugueses não estão nem aí para o CDS e, notoriamente, não vão à bola com a Cristas. Antevejo que vá de vez cuidar do cabelo, mudar de guarda-roupa recorrendo a toilettes de contrafacção, em especial, indo abastecer-se a feiras onde predomina a ciganada (e, obviamente, a terminologia é do próprio CDS), quiçá até dar banho ao cão.

Não vai recandidatar-se e não faz senão bem. Ninguém tem paciência para os seus disparates e, para dizer a verdade, também não se percebe qual é a do CDS.

Anunciou que vai bazar e bazou mesmo, adeusinho por aqui me desbaldo e aí vai ela de braço dado com o marido.

2 - Parece que o PAN vai ter mais do que 1 deputado, quiçá 3 a 5. E eu, que estava convencida de que as pessoas que tinham dado a cara como candidatos eram figurantes, interrogo-me sobre o que fará o PAN, se a esta hora estão a deitar contas à vida a ver onde irão arrebanhar alguém que possa ir para o Parlamento e não fazer má figura. Mas, aviso desde já, isto é o meu desconhecimento a falar pois não tenho acompanhado a vida dos panistas.

3 - Também pode acontecer que Joacine Katar Moreira vá a deputada. Tenho simpatia pelo Livre e, ao ver a entrevista com a Joacine fiquei com simpatia por ela. Mas a simpatia que tenho é porque acho que é boa gente, bem intencionada. Não sei se acrescentam alguma coisa mas pode ser que sim, que tenham uma visão 'limpa' sobre o mundo.

Agora uma coisa antevejo eu caso a Joacine vá a deputada: vamos ter vídeos bem dispostos de cada vez que ela intervenha. Tempos épicos podem estar a caminho.

4 - Se acontecer o resultado que se antevê para o PCP, já o disse e volto a dizer: tenho pena. Nunca votei no PCP para as legislativas ou para as europeias (apenas, por vezes, nas autárquicas) e não consigo identificar-me com a sua raiz ideológica. Deveriam ter sabido reinventar-se. Deviam manter os nobres ideais mas perceber que os trabalhadores de hoje já não são exactamente o proletariado de antanho nem os papões de hoje são os mesmos do século passado.

Acho, contudo, que é gente honrada, honesta e, talvez por isso e talvez por não ter largado a pele do passado vestindo a dos tempos de hoje, viram-se ultrapassados pelo Bloco. E isso, devo dizer, acho que não apenas é injusto para o PCP como pode ser um factor de desestabilização no país e uma porta aberta a um populismo mais despudorado.

De qualquer maneira, Jerónimo, com o aquele seu fabuloso rosto esculpido pelo tempo, assumindo que o resultado é penosamente fraco, com a sua dignidade habitual, já traçou qual o seu caderno de encargos e promete manter a guarda na defesa dos trabalhadores. É um lutador que não verga a coluna. Merece respeito.

  • Quanto ao PSD e ao PS preciso de ter dados mais concretos para me pronunciar. 

sexta-feira, outubro 04, 2019

No restolho da campanha
-- E Freitas do Amaral que não faz parte desta história --


Volta e meia coincide eu ir no carro e estar a dar um resumo da campanha. No outro dia, uma senhora dizia que, salvo erro, da Venezuela lhe tinham cortado parte da reforma ao que Catarina Martins se insurgia, que não estava certo, que devia receber a reforma por inteiro. E não sei se foi essa senhora, se outra, que lhe disse que ela lhe fazia lembrar a Princesa Diana. E a Catarina, em vez de dizer 'cruzes, canhoto, ó mulher vire essa boca mas é pra lá que não quero ter o fim triste que ela teve', fez um sonzinho enaltecido, acreditando-se já a princesa do povo, rainha dos corações. 

E isto foi o que registei na memória em vários dias.

Não, peço desculpa, registei também outra coisa: o Negrão, o tal puro que usou assinaturas de pessoas sem lhes pedir autorização, a dizer que o parlamento ia ficar cego, surdo e mudo durante a campanha por não ter sido aprovado uma reunião deles na sexta-feira para debaterem se o ministro sabia se não sabia.
E eu, ao ouvir aquela conversa desesperada, só me lembrei daquele jingle da TSF em que se ouve o dito líder da bancada do PSD, voz trémula, lançando um lancinante 'o senhor tem pelos no coração...!' ao Costa. É que, quando ouço aquele grito de dor, só me ocorre que ainda bem que foi ele e não Catroga que assim se manifestou.  
Logo a seguir, ouvi o Rio a dizer a propósito da conversa do seu líder: não morre ninguém por causa disso. E, ali no carro, sozinha, no meio do trânsito, desatei a rir. Cego, surdo e mudo, na volta também com pelos púbicos no coração mas, vá lá, morrer não morre. Menos mal.

Mas, portanto, da campanha, que me lembre, não registei mais nada.

Volta e meia, entre um e outro zapping, vi peixeiras ou mulheres no mercado ou na rua a convidarem candidatos para o quarto ou a dizerem brejeirices que deixam os pobres homens encabulados. Uma, sorrisinho malicioso no canto da boca, dizia para o candidato pôr a bandeira direita e perguntava se ele já não conseguia endireitar o pau. Geralmente, nestas ocasiões, o meu marido diz: 'Eu bem digo: as mulheres são muito piores que os homens'.
E eu, ao agora escrever isto, lembrei-me do comentário do Onirocrata e estou aqui a pensar que ele, o Ony, deveria fundar um #MeToo_Y para os homens com razão de queixa das mulheres, ou seja, para quase todos. É que as mulheres, essas malucas, são um perigo: umas deixam-se agredir física e psicologicamente pelos homens e outras apalpam-nos e fazem de tudo para desviá-los por maus caminhos. Um perigo, as mulheres. Tadinhos dos serzinhos do cromossoma y, sempre vítimas delaX.
Quanto a debates também não posso pronunciar-me pois tenho ideia que só vi um, o dos quatro contra o Costa. E entrevistas, assim de repente, acho que só o Ricardo Araújo Pereira com a Joacicine do Livre.

Mas até pode acontecer que tenha visto ou ouvido mais. Mas não me lembro, não ficou cá nada.

Para mim, estas campanhas são uma indigência intelectual, um desperdício político, uma canseira para os candidatos que andam em tournée, uma perfeita inutilidade para todos. Salvo quaisquer excepções de que agora não me lembro -- e nas tintas se alguém aí, Martin incluído, acha que o digo por sectarismo -- mas, na realidade, do pouco que vi e ouvi, foi o que constatei: acho que só o PS se limitou a dizer quais as suas intenções. O resto andou todo a malhar no PS: só chicana, maledicência, intrigalhadas, quadrilhices. Não me assiste. Ainda se essa grande figura da política nacional não tivesse desistido... Agora, com o grande Castelo Branco fora de combate, foi basicamente mais do mesmo. Sem graça. Sem conteúdo.

Não sei como é nos outros países. Nestas coisas acho que não vale a pena inventar a roda. Chama-se a isso fazer benchmarking. Gostaria, pois, de saber como fazem em países onde a democracia já leva mais anos de estrada. Não acredito que, em locais onde a malta é civilizada há mais tempo, os políticos andem em feiras a gritar 'toda a ciganada a votar no CDS', a insultarem-se, a lançarem suspeitas, a avacalharem a conversa ou a prometerem amanhãs que cantam mesmo que seja em Caracas. Ou a perguntarem o nome dos cães. Acredito que há maneiras evoluídas de mostrar aos eleitores quais as suas ideias sem ter que poluir o ambiente nem abalar a sanidade mental dos mais incautos.

Ah, é verdade, lembrei-me ainda de mais outra: aquela tal do Rio que num dia até prendia jornalistas por alimentarem a Justiça de tabacaria e, no dia seguinte, já esquecido do seu ponto de honra, os chamou para lançar a acusação contra um inocente (relembro: até prova em contrário toda a gente é inocente), fazendo o julgamento na praça pública do ministro Azeredo e do Costa. O mesmo Rio que, não tendo a malta toda desatado a apedrejar a mulher do Costa (sim, porque se o ministro sabia, o Costa claro que sabia e, logo, a mulher também tinha que saber), inventou outra: a de que o Centeno deveria receber uma aula do Sarmento, o ministro das finanças que o Rio já nomeou não se sabe bem para quê. Claro que o Centeno, que tem os dedos de testa que faltam ao Alpakas, o mandou dar banho ao cão.

E eu, que não sabia quem era esse tal génio da batata frita, o Joaquim Sarmento, resolvi googlá-lo, para lhe tirar a pinta. E tirei mas não me alongo. Hoje estou em dia bom: a santinha desceu em mim com o regaço a transbordar de caridade. Mas uma coisa eu tenho mesmo que dizer. É que, olhando o dito Quim, achei que o senhor até pode ser bom a dar aulas sobre a contabilidade das laranjas mas uma coisa ele não sabe: que as mangas das camisas do homem não devem ter vinco.

Tirando isso, noves fora nada, alekui-alekuá, xiripitatá-tatá. Urra. Urra.

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Hesitei. Freitas do Amaral merecia estar em melhor companhia aqui no Um Jeito Manso. Ou sozinho, num post apenas a ele dedicado. Mas, tudo sopesado, acho que estará bem aqui. A demonstração pelo absurdo é um método tão bom quanto qualquer outro. De um lado a Cristas, o Rio, a Catarina, o Ventura e etc e, do outro, ele.

Nunca votei em Freitas do Amaral nem sequer, em seu original tempo, alguma vez senti simpatia política pelas suas ideias. Depois, aos poucos fui adoçando a opinião. Fui achando que, independentemente das suas ideias, era um senhor, era uma pessoa respeitadora e digna. E comecei a sentir simpatia. Não propriamente pelas suas ideias que não me pareciam muito definidas mas por ele. Ou fui eu que ganhei maturidade ou tolerância ou foi ele que se chegou ao lado gauche da vida, seja lá o que isso quiser dizer.


Foi-se e eu, ao ouvir a notícia, senti pena. No outro dia, quando ia no carro com a minha mãe, passámos por uma casa que deve ter sido bonita e que está, há muitos anos, abandonada, cada vez mais degradada. Contou-me que era de dois irmãos, ambos sem herdeiros. Foram para uma residência, a casa ficou ao abandono. Agora que morreram ainda mais ao abandono ficou. Assim o CDS, uma casa que, percebi mas tarde, nasceu inteira, digna. Havia o Freitas e o Adelino. Gente inteligente, íntegra. Foi-se um, de uma maneira traumática, depois saiu outro. E o partido nunca mais foi o mesmo. Monteiro, Portas -- e, agora, descambou de vez com a Cristas. Agora que Freitas morreu, acaba a memória do CDS. Ficará ao abandono até que alguém o deite abaixo.

Mas Freitas do Amaral sobreviver-lhe-á -- quer através da obra que deixou, quer através da memória de coragem, dignidade e elevação na política que dele ficou.

Se há um panteão da memória da democracia portuguesa, de uma coisa podemos nós estar certos: Mário Soares está lá de braços abertos para receber o amigo.


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