Mostrar mensagens com a etiqueta Ernest Hemingway. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Ernest Hemingway. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, maio 10, 2016

Escrever à mão, desnudar-se


Manuscrito de Agustina


Quando, um dia, um namorado meu quis oferecer-me um livro com os seus poemas e pensou fazer uma edição de autor, eu não quis, achei que isso seria quase como lavar as palavras, tirar-lhes o rasto das suas mãos que as tinham escrito. Pedi que mo oferecesse em folhas escritas à mão.

Ele acedeu e fez ainda melhor que isso. Em papel espesso e caneta de tinta permanente escreveu os poemas e depois encadernou-o, uma bela capa em carneira com as letras cravadas. É um livro muito bonito, uma edição muito especial. Depois disso publicou livros e recebeu prémios mas penso que nenhum será tão valioso como aquele livro tão bonito, tão especial, edição absolutamente única.

Sempre gostei de ver a letra das pessoas.

José Afonso

A minha mãe tem uma letra bonita, elegante, desenhada com precisão e leveza. Mas não admira já que é professora. O meu pai tinha uma letra firme, inclinada para a frente, escrita com pressão, muito regular e apressada. O meu marido agora tem a letra legível e até a acho bonita (dentro do género, claro) mas antes era absolutamente ilegível. A minha filha tem uma letra apressada, regular, equilibrada, espontânea. O meu filho tinha uma letra impossível, inexplicável, tão rápida que era incompreensível (agora não sei como é). Acrescia que, quando escrevia à pressa, dava erros ortográficos absurdos, indesculpáveis. Despachava uma folha em três penadas com uns gatafunhos desesperantes e, se os percebíamos, era de irmos ao tecto com o disparate dos erros. Se escrevia pausadamente não dava erros e a letra lá se conseguia perceber. Um mistério.

Quanto ao conteúdo, os meus filhos escrevem muito bem. Os que por aqui andam há mais tempo talvez se lembrem do que eles (e o meu marido) escreveram sobre mim quando o Um Jeito Manso atingiu o milhão de visitas. Independentemente de me terem deixado divertida e emocionada, orgulhei-me por escreverem bem (embora eu não seja a pessoa mais isenta para o dizer, claro).

Quanto à minha letra, não a sei definir. Apenas sei, porque o meu professor de grafologia o disse, que o meu F revela que sou uma sedutora (e, note-se, disse isso só vendo a letra, sem me ver a mim).  

A minha nora tem a letra quase igual à minha e, por isso, quando escreveu uma folha para eu analisar, não fui capaz, pareceu-me que seria quase a mesma coisa que analisar a minha escrita e isso não sou capaz.

Sophia

Já aqui o disse que fiz um curso de Grafologia, um curso a todos os títulos maravilhoso, com o Professor Alberto Vaz Silva. 

Depois disso, já analisei a escrita de muitas pessoas, umas que conheço e outras que não, nomeadamente Leitores que digitalizaram folhas manuscritas e mas enviaram. Acho que nunca me enganei, pelo menos redondamente.

Passo a vida a ver se descubro pedaços de escrita manual para poder avaliar a personalidade dos seus autores. É surpreendente como a escrita espelha tão bem a maneira de ser da pessoa. Ainda no outro dia vi a forma de escrever e de assinar de uma pessoa que eu devia respeitar e que, agora, não sei como vai tal ser possível.

Outras vezes, quando não percebo bem que tipo de pessoa é alguém, fico a aguardar, sorrateiramente, que algum pedaço de escrita me seja dado apreciar. Tiro logo as teimas.

Eduardo Lourenço

Para complementar os meus conhecimentos, encomendei alguns livros franceses sobre o assunto mas, para mim, como funciona melhor é seguir o guião que aprendi no curso e depois fazer uma apreensão global e discorrer segundo a minha intuição.

Mas fica-me sempre a curiosidade: que relação existe, e tão estreita, entre a maneira de ser e forma como se escreve à mão? A que se deve isso? Porque é que a forma como escrevemos nos desnuda de uma forma tão crua? Haverá como que uma ligação directa entre a nossa mente (seja lá o que isso for) e as nossas mãos que exprimem os nossos pensamentos. preocupações e vontades?

Ernest Hemingway

E é que se pode tentar disfarçar, controlar a letra, mas até isso se nota, que a escrita é forçada. 

Por vezes, ao ler alguns blogues, dou por mim a tentar imaginar a escrita caligráfica dos seus autores. Nuns imagino uma letra miudinha, nervosa, noutros uma letra atrapalhada, incerta, noutros uma letra arejada, solar.

De notar que não tem a ver com ter a letra feia ou bonita mas como a letra se difunde na página (e, por isso, tem que ser numa folha sem linhas ou quadrículas), a dimensão das margens, a orientação do texto na folha e da escrita na linha, o espaço entre palavras ou entre linhas, etc. Cada aspecto tem uma leitura, ou seja, uma interpretação.

Philip Roth

Enfim, um dos muitos assuntos que me intriga e que, portanto, me fascina.

_________________________________________________________________

O que abaixo partilho convosco não tem a ver com isto mas com a caligrafia como arte: um vídeo encantador.

Calligrapher Carol DuBosch


For 50 years, Portland native Carol DuBosch has been perfecting the art of calligraphic script. We recently paid a visit to her home studio to observe the master at work. Watch the video to learn about her craft, her process and what she's working on now.


Para mim isto é um outro mundo. Um dos muitos mundos encantados que desconheço.

___

Talvez ainda cá volte (mas não garanto).

quinta-feira, janeiro 28, 2016

Disse-lhe que a situação me fazia lembrar 'O velho e o mar'


No post abaixo já falei do ex-deputado que, em tempos, precisava de pimenta na língua, o José Eduardo Martins, e que, nos frente-a-frente da SIC N, se porta como a versão bijeenche do catavento. Para evitar cenas maçadoras daquelas, com as quais já não se aguenta, apresentei umas quantas sugestões. Os Departamentos de Programação das televisões deviam pôr os olhos no que eu digo, que, entretenimento por entretenimento, que seja a valer.

Mas isso é mais abaixo. Aqui, agora, a conversa é outra. Recordações de novo, recordações de um tempo que me parece tão estranhamente longínquo. Recordações que irão sair com um certo toque de nostalgia, quer-me cá a mim parecer.



Era um homem que todos diziam frio e implacável. Muito rico. Despudoramente rico. Podendo usar carro de serviço usava os seus carros pessoais, carros antigos, vintage, lindos. Quem percebia do assunto, fazia estimativas para o valor dos carros: uma exorbitância que deixava alguns muito irritados (exibicionismo, diziam muitos). Tinha também um motorista particular. Os muitos detractores alegavam que era para tratar de negócios secretos, pouco abonatórios. Também lhe atribuíam negócios com ouro ou diamantes por terras de África. Um dia ele disse, Dizem muitas coisas mas poucas são verdadeiras. E contou-nos a proveniência da sua fortuna. Segundo ele, não passava pelo ouro nem por pedras. Também disse, Falam muito dos carros que uso. Uso-os porque gosto muito deles e porque, tendo eu possibilidades, acho que não devo usar carro de serviço. Também falou do motorista: era alguém a quem se tinha afeiçoado, já trabalhavam juntos há muito tempo, fazia recados para a família, tratava de tudo o que fosse preciso. Se podia pagar a alguém de quem se tinha tornado amigo, porque haveria de recorrer a motoristas de serviço?

Quando o filho se casou, a festa foi fantástica. Convidou-me. Convidou os colaboradores mais próximos. Muita gente, família, amigos, quer do lado dele quer do lado da noiva. Uma tenda gigante numa zona plana da sua belíssima quinta. Estava um belo dia de verão e um ambiente muito agradável. A mulher, o oposto dele, dançou a noite toda. Ele não, manteve-se reservado, quase silencioso. Mas via-se que estava feliz. Sorria vendo a alegria e a vivacidade da mulher.


Mas era implacável, sim. Quando desconfiava da lealdade ou da seriedade de algum colaborador, munia-se de provas, cercava-o sem que ele se desse conta. Depois, quando confrontava o prevaricador, o golpe era rápido e certeiro. Tantas e tão inequívocas as provas que quem assim era confrontado apenas tinha que aceitar as condições que lhe eram propostas para se ir embora. E tinha um feeling impressionante. De um colaborador antigo, que toda a gente tinha por exemplar, teve uma desconfiança estranha. Tão melindroso era o assunto que apenas confiou em mim para o ajudar a confirmar. Fiquei chocada, quase ofendida. Como duvidar assim de uma pessoa tão leal, tão séria? Inflexível, inalterável, pediu que eu lhe desse o benefício da dúvida e que fizesse o favor de atender ao seu pedido, só isso -- e de maneira que ninguém desconfiasse. Senti-me a pior das criaturas por estar a ir na cantiga dele. Mas pior fui ficando à medida que fui confirmando aquelas suas absurdas desconfianças. Nem queria acreditar. Antes de o informar do que quer que fosse, muni-me eu, pela calada, de todas as provas possíveis. Não havia dúvida: aquele de quem ele tinha desconfiado e em quem eu confiava sem pestanejar andava mesmo a roubar – e de uma forma absolutamente ardilosa, quase indetectável. Foi despedido de um dia para o outro. Ninguém soube das razões, foi como se o próprio tivesse tido razões para sair. Quando lhe perguntei como tinha desconfiado, disse-me que alguém lhe tinha dito que tinha encontrado num certo Casino uma pessoa que ele talvez conhecesse, o tal. Só isso. A partir daí, através de perguntas inocentes, foi percebendo que algumas pequenas pontas pareciam ligeiramente soltas. Desconfiou que tivesse o vício do jogo. Pensou que só com o ordenado, não conseguiria fazer face a dias de infortúnio. Pensou que de algum lado haveria de vir o dinheiro. Penso que, no fundo, foi o faro do predador.

Mas mesmo em situações menos redutoras, agia de forma irredutível, tranquila, segura. Uma vez, numa acesa reunião, um dizia que não concordava, que não podia aceitar o que ele queria. Ele dizia que agradecia a sinceridade da opinião mas que se faria como estava a dizer. O outro, ao fim de alguma insistência, levantou o tom de voz e disse que, com ele, aquilo não se faria. A mesa estava cheia. Ele, impassível, disse O senhor doutor está enervado, talvez seja preferível sair para ver se consegue acalmar-se. O outro, desabituado de ser tratado dessa maneira, ainda por cima em público, respondeu secamente: Não preciso de ir lá para fora. Mas ficou corado, quase parecia um puto que tivesse levado um raspanete. Ele, tranquilo, disse-lhe, Como queira, senhor doutor, esteja à vontade, se sentir que precisa respirar ar fresco ou dar uma volta, esteja à vontade. O outro não piou mais.

Vi-o anular várias resistências sem levantar o tom de voz. De todas as vezes teve razão em fazê-lo mas a forma como o fazia, de facto fria e implacável, assustava. Ficava-se com a sensação de que podia matar alguém a sangue frio, sem se alterar. Geralmente, a seguir, prosseguia como se nada se tivesse passado. Era uma pessoa muito educada mas inexoravelmente distante.

E era um jogador destemido. Arriscava sem medo, com a convicção de que, estando a fazer o seu melhor, mesmo que errasse teria tentado dar o seu melhor. Quando pensava numa dessas jogadas arriscadas ouvia várias pessoas. Geralmente desaconselhavam-no, aconselhavam prudência. Ele ouvia em silêncio. Depois vínhamos a saber qual a sua decisão, geralmente a que tinha em mente desde o princípio.  

Era desconfiado, não o escondia e, por isso, temiam-no. Um amigo meu ficava nervoso sempre que ia falar com ele. Quando vinha de lá, muitas vezes ia ter comigo ou telefonava-me para desabafar: ‘Acho que passei… mas olha, foi mesmo à tangente. Filho da p…!’


Comigo não se passou isso: nunca senti que desconfiasse de mim, nunca o temi. Muitas vezes, a conversa acabava com ele a fazer-me confidências. Acabei por me tornar o seu braço direito. Eu confiava nele, ele confiava em mim. Sendo a pessoa mais racional que até hoje conheci, era, noutras circunstâncias, absolutamente crente na minha intuição. Perante movimentações de risco que eu lhe propunha, esperando eu que ele as dissecasse e as analisasse numa perspectiva racional, e eu queria que ele o fizesse para me fazer sentir segura, ele olhava para mim e perguntava-me ‘O que é que a sua intuição lhe diz?’ E se eu, por dentro meio assustada, lhe dizia que sentia que era de arriscar, ele concluía, ‘Então, força’.

Encontrava-o geralmente durante o dia mas quase parecia ao lusco-fusco. Corria quase completamente os estores, dizia que com muita luz não via muito bem, e geralmente só recebia uma pessoa de cada vez. Quando havia mais pessoas para a conversa, a coisa convertia-se em reunião e decorria noutra sala.

Uma vez, havia uma cena importante em curso. Ele chamou-me e disse-me qual a sua ideia. Achei coisa de envergadura, não sabia se tínhamos pedalada nem se os outros que ele queria envolver teriam peito para isso. Parecia-me um sonho impossível. Mas ele acreditava. Falou com todos, de facto aderiram, confiavam nele -- era, verdadeiramente, um lobo ou, melhor, aquilo a que se chama um falcão. Metemo-nos, pois, nessa aventura. Mas, como logo percebemos, os dados estavam viciados.

Lutou como um leão mesmo quando era mais do que óbvio que não poderíamos ganhar. No fim, quando a derrota se confirmou, tivemos um enorme desgosto, ele mais do que todos os outros. Apesar de não levantar a voz, quase parecia que, por dentro, rugia. Ou uivar em silêncio como um lobo revoltado, esfaimado.

Resolveu avançar para os tribunais. Dissemos-lhe que estávamos com ele. Estávamos.
Mas eu alertei: Se fizer isso, será certamente destituído. Respondeu-me que não acreditava que o fizessem, que era um cidadão livre, que podia fazer o que quisesse na sua vida privada sem que isso interferisse na sua vida profissional. Homem conservador, lembrou-me a mim, cujo coração sempre bateu mais à esquerda, Vivemos em democracia, miúda.
Avançou (avançámos) em força para os tribunais. Gastei algum dinheiro nisso mas ele muito mais, muito mais do que qualquer um dos outros. Não quis acordos, queria mesmo a reparação do erro. Por vezes parecia querer sangue, de tão revoltado que estava. Mas sempre educado, aspecto sereno, voz baixa. Sentia que estava com a razão e, quando assim era, só estava habituado a ganhar. Várias vezes lhe dei o meu apoio mas dizendo-lhe que achava que o corredor se estava a estreitar, que talvez fosse preferível desistir, aceitar um acordo ou desistir mesmo. Que não, que não era pessoa de se ficar pelo caminho.


Um dia, algum tempo depois, estranhei que não quisesse falar comigo durante o dia como habitualmente. Chamou-me ao fim do dia, a escuridão era quase total. Disse-me em voz baixa: Fui destituído. Tinha razão.

Fez-se silêncio. Durante um bocado, não fui capaz de dizer nada. Depois disse-lhe que me estava a lembrar de O Velho e o Mar. Ele fez que sim com a cabeça, que percebia a analogia, mas que não poderia ter feito outra coisa. Não sei o que lhe disse a seguir mas lembro-me do que ele me respondeu: Sinto que as suas palavras são um abraço. Nesse dia fiquei muito triste, senti que um capítulo importante da minha vida estava a chegar ao fim.

Foi-se embora.  Tinha (e tem) as suas próprias empresas e muitos bens. Nada daquilo ali lhe fazia falta. Estava lá porque gostava daquilo, porque tinha ambições muito legítimas, porque, de certa forma, tinha um sonho (que eu partilhava). Nessa altura perdi muitas das minhas ilusões. O país estava, de facto, votado ao empobrecimento a troco do favorecimento de uns quantos eleitos.

Já lá vão uns anos.

Deixou para trás alguns inimigos (alguns, ainda agora, com uma antipatia e rejeição tão fundas como na altura, o que é o costume quando se está perante pessoas carismáticas), muito poucos amigos e muitos, muitos admiradores. Eu, tendo conhecido, antes dele, pessoas extraordinárias, depois dele poucas mais conheci com a visão, capacidade de liderança, determinação e coragem que lhe reconhecia.

Um dia, tempos depois, num almoço, contei-lhe, Vou ser avó. Olhou para mim incrédulo, O quê, miúda…? A sério…?. Estava emocionado. Tantas guerras, tantas situações complicadas pelas quais o vi passar e sempre impassível, frio, e foi preciso saber que eu, a miúda, ia ser avó para o ver de lágrimas nos olhos. Tenho para mim que foi a constatação de que o tempo passa, de que a vida continua, de que aquele sonho de tempos antes haveria de ser esquecido, que de tão longínquo e de tão utópico que já parecia, haveria por não ser lembrado por ninguém, talvez nem pelos próprios que o viveram.

--------


O Velho e o Mar começou por ser um livro de Hemingway
(depois foi filme, animação, metáfora, etc)
.....

Os desenhos são da autoria da polaca Justyna Stoszek excepto o penúltimo, mais colorido, que é da autoria de Dimitra Milan (que tem apenas 16 anos). Lá em cima Kenny Wheeler & John Taylor interpretam Fordor.
...

E, para uma coisa mais actual e para uns números a la Monty Phyton ou para uma padaraia muuuuuuiiito especial (a propósito da participação do José Eduardo Martins num debate da SIC) queiram, por favor, descer um pouco mais.

....

domingo, outubro 06, 2013

'Escrevo-te, logo existes'? - Emma Bovary e Flaubert, Rui e Dulce Maria Cardoso, Milena e Lídia Jorge, refere, a título de exemplo, Ana Soromenho na Revista do Expresso. [A (des)propósito: alguém sabe o que é feito de Eva? Ou se a Lídia e o Paulo terão adoptado uma criança?]


Na Revista do Expresso, Ana Soromenho escreve um interessante artigo sobre personagens literários que ganham contornos de gente de verdade e que acabam por ficar para a história de forma vívida, como se tivessem existido de verdade.


Vários exemplos são referidos, alguns escritores foram ouvidos (incluindo o Valtinho a quem parece que toda a gente teima em incluir na categoria dos escritores). Se há um Mário de Carvalho que cria, usa e depois arruma os seus personagens, há os outros que, de forma geral, ficam com eles a viver uma vida paralela dentro da sua cabeça.




Tenho pensado por vezes nisto. 




Quem é mais real? Personagens como uma Maria Eduarda (de Os Maias de Eça de Queirós) ou um Ravic e Joan Madou (do Arco do Triunfo de Erich Maria Remarque) ou Robert Jordan e Maria (de Por quem os Sinos Dobram de Hemingway), e tantos, tantos outros, que quem teve o prazer de conhecer não mais esquecerá, ou o Zé Maria dos Anzóis que teve carne e osso mas de quem nem os bisnetos se calhar ouviram falar quanto mais eu e você, meu Caro Leitor?



(Foi pura coincidência a repetição da Ingrid Bergman. Lembrei-me dos personagens dos livros e, apenas ao escrever sobre eles aqui, me dei conta de que, em ambos os casos, foi Ingrid Bergman que lhes deu corpo. No entanto, a própria Ingrid Bergman já se foi há uns anos e são essencialmente as personagens que interpretou que ficarão na nossa memória, mais do que, propriamente, a vida real dela - que, por acaso, até foi uma vida bem cheia de romance e aventura)




Na minha vida fora da internet não sou nada de me colocar no centro da conversa mas, aqui, em que não posso ouvir as vossas opiniões, tenho eu que fazer a conversa toda. Por isso, trago à liça tantas vezes o meu caso pessoal. Percebam que não me considero referencial para coisa nenhuma mas, à falta de quem aqui exerça o contraditório, tenho eu que me chegar à frente.

Vem este aparte agora a propósito de que, também a mim - que não me considero escritora, mas nem de longe nem de perto mas que na minha useira e vezeira insustentável leveza do ser, já me deitei a ficcionar por estas bandas uma dúzia de vezes - me acontece ficar com alguns personagens a viverem ao meu lado, uma existência quase paralela à minha.

Lídia, a mulher triste, Eva, a sedutora, Isabel, a ciumenta (cuja história nunca foi acabada), Tomás, o carpinteiro calado e digno, Paulo, o homem que restituíu o sorriso a Lídia, são alguns em quem penso muitas vezes. O que andarão a fazer? Por onde andarão? 

Por vezes, dou por mim curiosa como se eles fossem gente de verdade. Para mim são. Dei-lhes um bom bocado da minha vida e depois ganharam vida própria. Quando me sentava aqui a escrever nunca sabia o que ia sair, eram eles que me contavam o que faziam. Afeiçoei-me a eles. De cada vez que acabei uma das minhas histórias foi sempre com pena por me ir separar deles.

Ora se isto acontece comigo e com os meus personagens, imagino o que se passará com escritores de verdade.

O mundo é habitado por muitos seres, uns a quem o sangue alguma vez correu nas veias e outros que, apesar de sempre terem sido intangíveis, são eternos.

*

E, já agora, por insustentável leveza do ser, aqui vos deixo o trailer da adaptação do livro homónimo de Milan Kundera, com realização de Philip Kaufman


Daniel Day-Lewis é Tomas, Juliette Binoche é Tereza e Lena Olin é Sabina

(E não me venham dizer que Tomas, Tereza e Sabina nunca existiram... Então eu não li a história deles? Eu não os vi depois? Não me lembro eu tão bem, até, do cão que a Tereza tinha e do desgosto tão grande no fim? Então não me lembro? Vão agora dizer-me que inventei tudo?)


*

Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo domingo.

quinta-feira, agosto 23, 2012

Sobre Ernest Hemingway e sobre Madame Hemingway, The Paris Wife, a sua primeira mulher


Música, por favor: Nora Bayes, uma cantora que Hemingway ouvia muito nos seus anos de Paris


Over There [tentei encontrar a música que ele mais ouvia, o Make Believe, mas não descobri]

*

Um dos livros que li na minha adolescência e que me marcaram bastante foi, sem dúvida, Por quem os sinos dobram.  Na altura devia ter, creio, uns catorze anos e desejei ser a intrépida Maria que era sofrida, ingénua e bela, determinada e justa, que andava nas montanhas e que tinha um cabelo curto, incerto, espetado, onde os dedos de um homem corajoso e apaixonado mergulhavam, com carinho e desejo.

Lia-o como lia omnivoramente tudo o que me aparecia à frente (e já várias vezes aqui falei disso). Lia o que havia em casa, tudo, lia o que as amigas da minha mãe me emprestavam (comentando, em voz baixa, que se calhar não era coisa adequada à minha idade), lia o que encontrava na biblioteca do liceu e, pouco tempo depois, lia o que comecei a comprar com o dinheiro que recebia pelos anos ou pelo Natal. Por isso, li este livro depois de ter devorado a obra completa de Fernando Namora, a de Ferreira de Castro e na sequência de Somerset Maugham, Pearl Buck, Erich Marie Remarque, Dostoievsky, D. H. Lawrence e sei lá que mais.

Dado que a minha mãe também trabalhava, fui habituada, desde cedo, a ser bastante independente e, por isso, lembro-me de ter ido sozinha ao dentista e de ele - dada a intervenção algo complexa que não me lembro se era desvitalizar ou arrancar um dente - ter perguntado, muito admirado, se eu tinha ido sozinha e ter comentado, também muito admirado, que o livro que eu tinha ao colo, sentada na sua cadeira dos horrores, era um livro muito bom e, com ar curioso, perguntar se eu estava a gostar.

Registei a sua admiração sem a perceber bem pois eram coisas a que estava muito habituada e que fazia com naturalidade: andar sozinha a resolver o que havia a resolver e ler tudo o que estivesse à mão de semear.

Apenas bem mais tarde tive conhecimento que havia um filme; e, quando o vi, apesar de gostar tanto de Ingrid Bergman, não achei que ela fosse a Maria que eu tinha imaginado: era menos agreste, menos selvagem que a Maria que eu tinha idealizado anos antes. E o filme romanceava demais uma história que eu recordava como uma história de resistência, pó, dureza, dificuldades extremas, valentia. Mas sei lá. Foi há tanto tempo.





Ernest Hemingway foi, na altura em que comecei a lê-lo, um prazer, não era literatura de salão, não havia dramas existenciais (se bem que eu, na altura, não traduzisse o que achava através destas palavras), havia ar puro, a voz da terra, a voz do mar, a voz do corpo, tudo muito autêntico, muito genuíno, muito directo, uma vida em que os homens eram muito viris, em que a natureza era quase excessivamente poderosa. A seguir, entusiasmada,  procurei tudo o que encontrei dele e parei na pequeno e maravilhoso O velho e o Mar, um dos livros a que, de vez em quando, volto.



Ernest Hemingway, americano, 21 de Julho de 1899 - 2 de Julho de 1961, maior que a vida
Recebeu o Pulitzer em 1953 e o Nobel em 1954


E, depois, havia o terrível mistério. Na minha cabeça era incompreensível que alguém com tanta vida pudesse ter-se suicidado e, sempre que o lia, tentava descobrir nas suas palavras algum enfraquecimento, alguma sombra atrás da qual a vida se esgueirasse. Mas não me lembro de alguma vez ter detectado algum sinal disso.

Portanto, para mim, Ernest Hemingway não era apenas o fantástico escritor, era também o indecifrável homem.

Era e ainda é. Sempre que há qualquer coisa sobre ele não deixo de ler. Por exemplo, li com insaciável apetite a sua entrevista que consta na bela tradução de Carlos Vaz Marques, 'Entrevistas da Paris Review'. Conhece-se aí o lado mais seco de Hemingway. A entrevista foi feita em 1954 e ele pôs fim à sua vida em 1961, à beira de fazer 62 anos. Talvez volte um dia a esta entrevista. Hemingway fala dos seus hábitos de escrita. 



Ernest Hemingway, um trabalhador incansável, organizado, escrupuloso  e um bon vivant  absoluto


E quando lhe perguntam quais os escritores que mais o influenciaram, refere muitos entre os quais Flaubert, Stendhal, Tchékhov e vários outros mas, pelo meio, inclui Bash, Giotto, Van Gogh, Mozart e vários outros que não são escritores e diz que não explica porque aprendeu tanto com uns como com outros porque seria preciso mais um dia para poder explicá-lo.

Vem isto que estou a escrever a propósito do livro que estou a ler. Originalmente chama-se The Paris Wife, é colheita recente, 2011. Em Portugal chama-se Madame Hemingway e é uma tradução de Maria João Freire de Andrade. A autora é Paula Mclain, licenciada em Poesia, autora de dois livros de poesia, um livro de memórias e um outro romance. É um livro muito bem escrito, que se lê com curiosidade e prazer.



O dia do primeiro casamento para ambos: Elizabeth (Hadley) Richardson e Ernest Hemingway


O livro ficciona (com base em acontecimentos e personagens verdadeiros) a história da primeira mulher de Hemingway, Hadley Richardson, o primeiro encontro, o tempo em que Ernest já era amado pelas mulheres, o período de intensa correspondência, o namoro, o casamento, o início da carreira de escritor de Nesto, a vida em Paris, o apoio inicial de Gertrude Stein que, quando ele a visitava, conversava com ele no canto dos homens enquanto Hadley conversava com Alice Tocklas no canto das mulheres. 


Pintura de Hilary Harkness com o título Girl with a Basket of Flowers
A pintura mostra o célebre quadro de Picasso que figurava na salão de Gertrude,
mostra um  quadro de Matisse, mostra Toklas segurando a cabeça de Hemingway,
mostra Gertrude Stein de namoro com uma senhora,
ou seja,  alude aos tempos de convívio em Paris


No ponto em que vou, Hadley e Ernest eram ainda um casal feliz que vivia a vida e se apoiava mutuamente. Hemingway ainda não tinha conseguido que qualquer editora aceitasse as suas obras mas trabalhava, trabalhava afanosamente, com uma inabalável convicção da sua vocação e do papel que um dia teria no panorama literário internacional. Era humilde, frágil, especialmente quando recordava o seu acidente de guerra, era encantador, aventureiro. Hadley apoiava-o e amava-o incondicionalmente.



Jovens (Hemingway uns anos mais novo que Hadley), cúmplices, enamorados - um casal
que vivia feliz nos ardentes anos de Paris



Talvez volte a este tema, à vida de Hemingway. Entretanto, deixo-vos com Paula McLain, uma pessoa que deve ser muito simpática. Nunca consigo encontrar versões legendadas. Não sei se não há ou se sou eu que não sei procurar. Aos que não conseguem perceber, as minhas desculpas.




*

E, por hoje, meus Caros leitores, é isto.

Juro que, ao começar, estava decidida a escrever pouco para não vos maçar para além da conta. Agora que acabei e devia rever, reparo que, uma vez mais, isto me saíu grande demais e, se até para mim, é chato agora passar os olhos por tudo o que escrevi, imagino para vocês. Que coisa esta. Acho que vou passar a cronometrar, tipo relógio de ponto, e, quando tocar, acabo, esteja onde estiver, a ver se me disciplino. Ora esta...!

Desejo-vos uma quinta-feira muito amável. 
A vida é melhor se também for vivida com amabilidade (acho eu).