O meu telemóvel novo agora sugere-me que passe colocar despertador para não me esquecer da hora de ir para a cama. Sugere-me, até, qual a melhor hora para me deitar e levantar. Vejo isto e sinto-me invadida. A moral e os bons costumes agora aparecem pela 'boca' de um aparelho que, em tempos, apenas servia para fazer telefonemas.
Acho isto de um quase ridículo. Mas o quase aqui faz toda a diferença. É que é um quase em evolução. E, pior, não é apenas quase ridículo: é quase absurdo, é quase assustador. Talvez dentro de algum tempo tenhamos que deixar cair os quases. O quase está a tender para totalmente.
A minha conta de mail recebe um mail da aplicação a sugerir-me formas de ser mais eficiente. Diz-me o tempo que passei a ler e a escrever mails, contabiliza o tempo de reuniões, faz-me sugestões. Claro que já nem abro esses mails. Dentro de algum tempo, talvez me impeça de fazer o que quero.
Vou marcar uma reunião, pergunta-me se não quero acabar quinze minutos antes para não ter reuniões contíguas. Estou na reunião, aparece-me uma mensagem a avisar-me que faltam cinco minutos para acabar. Estou cada vez mais controlada. É para me ajudar. Dir-me-ão que é para isso, para me alertar.
Mas eu pedi alguma ajuda?
Recebo uma chamada e, ao atender, recebo um aviso de que, se não der acesso às minhas fotografias e mais não sei o quê, não poderei atendê-la. Não dou. Portanto, não posso atender. Perco a chamada. Tenho eu que fazê-la por outra via. Como se meteu outra coisa, não a fiz. À noite recebi uma chamada: eu não tinha ajudado quem precisava de ajuda. E tudo porque não quis que a aplicação tivesse acesso às minhas fotografias e mais não sei o quê.
E já não recebo mensagens da aplicação dos passos, quando estou a dormir, a dizer que está na hora de começar a andar porque lhe bloqueei as notificações.
Mas há pouco, ao ir ver quantos passos tinha feito, apareceu-me um anúncio a ver se queria instalar outra app. Não quis. Mas não consegui sair dali. Desliguei tudo. Que se marimbem. Estou farta destes abusos.
Tenho andado a ver cómodas claras. Comecei por ver como se pintam e depois andei à procura delas à venda. Para conseguir ver, ou aceitava os cookies ou tinha que ler trapalhadas para as quais não tive pachorra. Aceitei tudo. Mea culpa. Agora, esteja a ler o que for, seja onde for, a que hora for, aparecem-me cómodas de todas as cores. Sou bombardeada com cómodas.
Tem graça?
Por acaso, acho que não. Pode parecer inócuo. E, se calhar, é. Ainda é.
Até ao dia em que nos sentirmos severamente manipulados, invadidos, incapazes de resistir. Até ao dia em que, se não capitularmos, nos veremos impedidos de comunicar, definitivamente reféns.
E assim, aos poucos, os algoritmos e a inteligência artificial e todos essas cenas de machine learning vão tomando conta de nós.
Bem sei que fazem muita coisa boa mas a forma desregulada como tudo vai avançando só pode significar que há riscos enormes que estão a ser subestimados.
É o modelo de negócio destas plataformas, destas apps, destas coisas todas. Bem sei que sim. Mas sei também que é a invasão consentida.
Não nos podemos queixar: somos nós que aceitamos tudo. É bem verdade: o nosso mundo é cada vez mais o nosso telemóvel ou o nosso tablet ou pc. O nosso pequeno mundo. Um pequeno mundo que, aos poucos, vai cerceando cada vez mais a nossa pequena liberdade.















