Mostrar mensagens com a etiqueta William Blake. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta William Blake. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, maio 11, 2021

Quando a invasão de privacidade nos surge pelas nossas próprias mãos

 


O meu telemóvel novo agora sugere-me que passe  colocar despertador para não me esquecer da hora de ir para a cama. Sugere-me, até, qual a melhor hora para me deitar e levantar. Vejo isto e sinto-me invadida. A moral e os bons costumes agora aparecem pela 'boca' de um aparelho que, em tempos, apenas servia para fazer telefonemas.

Acho isto de um quase ridículo. Mas o quase aqui faz toda a diferença. É que é um quase em evolução. E, pior, não é apenas quase ridículo: é quase absurdo, é quase assustador. Talvez dentro de algum tempo tenhamos que deixar cair os quases. O quase está a tender para totalmente.

A minha conta de mail recebe um mail da aplicação a sugerir-me formas de ser mais eficiente. Diz-me o tempo que passei a ler e a escrever mails, contabiliza o tempo de reuniões, faz-me sugestões. Claro que já nem abro esses mails. Dentro de algum tempo, talvez me impeça de fazer o que quero.

Vou marcar uma reunião, pergunta-me se não quero acabar quinze minutos antes para não ter reuniões contíguas. Estou na reunião, aparece-me uma mensagem a avisar-me que faltam cinco minutos para acabar. Estou cada vez mais controlada. É para me ajudar. Dir-me-ão que é para isso, para me alertar. 

Mas eu pedi alguma ajuda? 

Recebo uma chamada e, ao atender, recebo um aviso de que, se não der acesso às minhas fotografias e mais não sei o quê, não poderei atendê-la. Não dou. Portanto, não posso atender. Perco a chamada. Tenho eu que fazê-la por outra via. Como se meteu outra coisa, não a fiz. À noite recebi uma chamada: eu não tinha ajudado quem precisava de ajuda. E tudo porque não quis que a aplicação tivesse acesso às minhas fotografias e mais não sei o quê.

E já não recebo mensagens da aplicação dos passos, quando estou a dormir, a dizer que está na hora de começar a andar porque lhe bloqueei as notificações. 

Mas há pouco, ao ir ver quantos passos tinha feito, apareceu-me um anúncio a ver se queria instalar outra app. Não quis. Mas não consegui sair dali. Desliguei tudo. Que se marimbem. Estou farta destes abusos.

Tenho andado a ver cómodas claras. Comecei por ver como se pintam e depois andei à procura delas à venda. Para conseguir ver, ou aceitava os cookies ou tinha que ler trapalhadas para as quais não tive pachorra. Aceitei tudo. Mea culpa. Agora, esteja a ler o que for, seja onde for, a que hora for, aparecem-me cómodas de todas as cores. Sou bombardeada com cómodas. 

Tem graça? 

Por acaso, acho que não. Pode parecer inócuo. E, se calhar, é. Ainda é.

Até ao dia em que nos sentirmos severamente manipulados, invadidos, incapazes de resistir. Até ao dia em que, se não capitularmos, nos veremos impedidos de comunicar, definitivamente reféns.

E assim, aos poucos, os algoritmos e a inteligência artificial e todos essas cenas de machine learning vão tomando conta de nós.

Bem sei que fazem muita coisa boa mas a forma desregulada como tudo vai avançando só pode significar que há riscos enormes que estão a ser subestimados.

É o modelo de negócio destas plataformas, destas apps, destas coisas todas. Bem sei que sim. Mas sei também que é a invasão consentida.

Não nos podemos queixar: somos nós que aceitamos tudo. É bem verdade: o nosso mundo é cada vez mais o nosso telemóvel ou o nosso tablet ou pc. O nosso pequeno mundo. Um pequeno mundo que, aos poucos, vai cerceando cada vez mais a nossa pequena liberdade.


____________________________________

Pinturas de Wiliam Blake ao som de Tom Waits em "Strange Weather"

_____________________________________

Uma boa terça-feira

quarta-feira, dezembro 30, 2020

Para que serve a poesia?

 


Não tem havido poesia nos meus últimos dias. Não que tenham sido desagradáveis. Muito pelo contrário. As reuniões acabam com o ecrã repleto de rostos sorridentes. Alguns, em separado, em reuniões distintas, formulam votos dizendo 'que daqui por um ano estejamos aqui a festejar o sucesso que tivemos'. Outros dizem: 'ninguém esperava tamanha revolução' e eu, por dentro, sinto aquele arrepio que tão bem conheço, o mesmo que sentia quando, em pânico numa montanha russa, pensava 'mas porque é que me meti nisto?', sabendo que já ser tarde demais para voltar atrás. Um disse: ''uma revolução preparada cientificamente, as pessoas não esperavam uma coisa assim, estão surpreendidas e agradadas'. E eu sinto, de novo, aquele arrepio. Um mortal encarpado -- e temos que cair de pé, continuar a andar, a saltar, a ir em frente. Mas como, se não houve treino?

Olho para trás e vejo que, sem antes saberem ao que iam, os passos que davam agora lhes parecem estranhamente coerentes, como se tudo milimetricamente planeado. Um disse: 'tiro-lhe o chapéu, na altura não sabíamos porque nos tinha escolhido, agora está tudo claro, agora tudo faz sentido' e eu e aquele arrepio. É verdade. Agora tudo faz sentido. 

Por isso não penso, não planeio, nunca penso, nunca planeio. As coisas, sem eu saber como, parece que batem certo. A posteriori parece que estava a dar passos de um plano bem pensado. Mas sei que, ao dá-los e ao levar outros comigo, eu não sabia para onde estava a conduzi-los. 

E, ao contrário dos que me dão os parabéns, eu sei que só saberei se esta aventura bateu certo daqui por um ano. E o que penso é que, se me perguntarem o que vou fazer durante este ano, não saberei dizer. Mas confio que não devo pensar, deve é deixar-me ir. É um bocado assustador, sobretudo para mim.

O meu marido que assiste a esta minha caminhada, a trabalhar de manhã à noite, diz que não precisava de ser assim, tão intenso, ninguém pede, ninguém espera, que eu é que sou assim, excessiva. Mas só ele sabe que é excessivo porque os outros -- como cada um só vê uma parte, a parte em que cada um intervém -- creio que nem avaliam as horas que levo a construir com eles as peças deste puzzle que é construído sem guião e que, no fim, parece perfeito. 

É um processo. Convencer uns, conduzir outros, refrear outros, entusiasmar outros. No fim dizem: 'e quando podemos começar?'. Sorriem. Estão entusiasmados, por vontade deles começavam de imediato nesta nova vida. 

Um disse: 'Só tem que me dizer o que quer que eu faça' e eu, 'não faço ideia, não me pergunte, isso tem que você a descobrir' e ele, apanhado de surpresa, a rir: 'Ai é...?! Então, está bem'. 

Ouço-me e penso: 'É impossível que não percebam que não sou boa da cabeça'. Mas, se o pensam, não o demonstram. As ideias aparecem-me não sei como e eu só desejo é que não me faltem e que vão batendo certo. Enquanto os outros vêem estudo, preparação aturada, análise exaustiva de hipóteses, eu tenho sempre aquela sensação que é tudo aleatório, espontâneo, ao calhas. E que, assim sendo, pode esgotar-se ou pode começar tudo a sair tudo trocado. É a mesma sensação de, quando era chamada ao quadro e testada com matérias difíceis e as respostas me saíam automática e imediatamente, todas certas, e toda a gente me achava o máximo, eu me sentir incrédula com o que tinha acontecido pois não fazia ideia de como tinha respondido aquilo e acertado sempre. Achava que poderia acontecer que um dia ali chegasse e só dissesse disparates, coisas igualmente saídas da boca para fora.

Por isso, têm sido dias de alguma adrenalina e, por vezes, quase exaustão. Não de poesia. Estou na mesinha encostada à janela, de frente para as flores, mas nem tenho tempo de olhar para elas.

Ao fim do dia, noite já, fomos comprar sacos-cama. Agora já podem dormir cá, à vontade, sem que isso implique vários pares de lençóis para lavar, secar, dobrar, arrumar. Não é solução que me fosse simpática. O meu filho dizia sempre: nós levamos sacos-cama. Nunca achei isso uma boa ideia. Achava que, a dormirem em nossa casa, deveria ser em camas a preceito, lençóis lavados, edredons e mantinhas quentinhas. Mas, de facto, não é prático, por uma noite, haver tanto lençol para lavar. Rendi-me. A seguir, para me dar tréguas, fomos comprar um frango assado, na grelha de carvão. E, claro está, nada disto tem pingo de poesia. Prosa, prosa, prosa.

Agora, já bem tarde, circulei pelos jornais. Nada despertou o meu interesse. Penso que há já alguns dias que não pego num livro. Hoje também não apanhei nenhuma laranja da árvore para comer logo ali. O que valeu a pena foi o episódio do Master Chef Australia, Que arte, que técnica, que perícia. E isso, sim, talvez tenha alguma poesia. 

E estou a ser injusta: alguns posts que li também têm alguma poesia. Anjos, abrigo, efeitos colaterais. São pequenos apontamentos que trazem um pouco de luz a quem lhes passa por perto e isso, para mim, é oxigénio, é espaço largo, é doce toada.

_________________________________________________________

Angélica Argüelles Kubli, Min Jeong-gi, Jason Pawley, Olaf Hajek pintaram as paredes

 ao som de Never Goodbye, Max Richter

___________________________________________

E, porque preciso mesmo de terminar o dia com poesia, com vossa licença,

The Tyger – William Blake (lido por Tom O'Bedlam)


____________________________

Uma quarta-feira feliz

sexta-feira, setembro 28, 2018

Os tigres dele




Na minha vida sempre houve tigres. Tão entrelaçada está a leitura com os outros hábitos dos meus dias que não sei verdadeiramente se o meu primeiro tigre foi o de uma gravura ou esse, já morto, cujo obstinado ir e vir pela jaula eu seguia, enfeitiçado, do outro lado das barras de ferro. Ao meu pai agradavam as enciclopédias; eu apreciava-as, tenho a certeza, pelas imagens de tigres que me ofereciam. Recordo agora os de Montaner e Simón (um branco tigre-da-sibéria e um tigre-de-bengala) e outro cuidadosamente desenhado, que saltava e no qual havia algo de rio. A esses tigres visuais acrescentaram-se os tigres feitos de palavras; a famosa fogueira de Blake ("tyger, tyger, burning bright") e a definição de Chesterton: "É um emblema de terrível elegância". 


Nenhuma outra cidade, que eu saiba, confina com um secreto arquipélago de verdes ilhas que se afastam e perdem nas duvidosas águas de um rio tão lento que a literatura pôde chamar-lhe imóvel. Numa delas, que nunca vi, matou-se Leopoldo Lugones, que terá sentido, talvez pela primeira vez na vida, que estava livre, enfim, do misterioso dever de procurar metáforas, adjectivos e verbos para todas as coisas do mundo.






..........................................

Na companhia de  Pedro Abrunhosa a interpretar Quem me leva os meus fantasmas, excertos de 'O meu último tigre' e 'As ilhas do Tigre'  in Atlas de Jorge Luis Borges numa tradução de Fernando Pinto do Amaral

No final Tom O'Bedlam diz "The Tyger" de William Blake. Obtive as fotografias de tigres no The Guardian.

segunda-feira, novembro 20, 2017

Um olhar cravado na pele
[Isto é, na parede]




Podia um dia, caminhando sozinha, sentir o bafo ainda quente de quem por aqui passou antes de mim. Podia um dia, rasando paredes abandonadas por onde um dia a vida aconteceu e agora já não, sentir que um olhar longo pousou um dia em mim e em mim ficou colado para sempre.

Podia nada dizer, as palavras esvaídas, as saudades magoadas, o frio à flor da pele, passar rente ao rio, e, de repente, sentir que uma mão me prende, um coração bate junto ao meu, e eu avançar sem vontade, querendo entrar por dentro das paredes, procurar o dono do olhar, o dono da respiração que, para sempre, sentirei junto a mim.

Podia em dias de azul ficar-me apenas contemplando as águas, o céu, a luz do dia. Mas não. Caminho transportando em mim a memória de palavras vindas de um outro tempo, a memória de um sorriso pousado no meu, e cores, mil cores rasgando os meus segredos, mil cores desafiando a emoção que escondo no mais fundo de mim.

Terá sido um tigre que um dia cruzou os meus passos, um tigre azul que ninguém viu mas que acariciou o meu coração? Terá sido um tigre com uma alma vadia que cruzou céus e mares para vir deitar-se junto à fogueira que arde no meu coração?

In what distant deeps or skies 
Burnt the fire of thine eyes? 
On what wings dare he aspire? 
What the hand dare sieze the fire? 


.................................

Fotografias feitas no Ginjal.

"The Tyger" de William Blake é aqui lido por Tom O'Bedlam

.........................................

quinta-feira, outubro 26, 2017

Botão




Pardal Festo Festo
Entre as folhas verdes
Botão satisfeito
Vê que és seta lesto
Para o estreito cesto
Junto ao meu Peito

Pisco Giro Giro
Entre as folhas verdes
Botão satisfeito
Ouve o meu suspiro
Pisco Giro Giro
Junto ao meu Peito


[Tal como o poema do post seguinte: in Canções de Inocência e Experiência, William Blake. 
Tradução revista por Jorge Vaz de Carvalho, numa edição belíssima da Assírio & Alvim]

....................................................

Gozo infantil





'Não tenho nome
Eu tenho só dois dias'.
Que chamo eu a ti?
'Eu sou feliz,
Gozo é o meu nome'.
Bom gozo haja em ti!

Lindo gozo!
Bom gozo de só dois dias,
Bom gozo eu chamo a ti:
Sorris tanto.
Assim eu canto,
Bom gozo haja em ti!


[in Canções de Inocência e Experiência, William Blake. 
Tradução revista por Jorge Vaz de carvalho, numa edição belíssima da Assírio & Alvim]

.......