Mostrar mensagens com a etiqueta livro. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta livro. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, junho 17, 2026

Ser-se viúva

 

Toda a vida ouvi a minha avó materna dizer que era viúva. De cada vez que conhecia alguém, dizia que era viúva e há quantos anos o era. Durante muitos anos vestiu-se de preto. Para o meu casamento, quase impus que não se vestisse de preto. Fez-me a vontade. Detestava que ela parecesse achar normal resumir a sua condição à de viúva. Enamorou-se ainda menina, engravidou menina, casou menina. Toda a gente dizia, e ela sempre o afirmou, que tinha uma paixão enorme pelo meu avô. Ela não dizia assim, dizia que sempre tinha gostado muito dele, só dele, de mais ninguém senão dele. Quando ele morreu, num terrível acidente, ela deveria ter quarenta e um ou quarenta e dois anos. Ia morrendo de desgosto. E fez luto a sério, saudade profunda, durante muitos anos. Creio que só quando começaram a nascer-lhe os bisnetos é que recomeçou a viver uma vida normal. Não que tenha sido isso que a fez reacordar, não faço ideia se foi ou não, mas a ideia que tenho é que foi por essa altura.

Lembro-me também de uma amiga que era apaixonadíssima pelo marido. Andavam sempre juntos e não havia conversa em que ela não falasse dele. Não trabalhavam longe um do outro, e todos os dias ele levava-a e apanhava-a no trabalho. Ela não conduzia e, para irem para casa, que não era perto, ou apanhavam vários transportes ou iam de carro. E, portanto, iam de carro. Ele é que geria a casa, os pagamentos, o lado prático das coisas. Tinham uma casa de verão na costa vicentina que tinham reformado e redecorado. Com uma família ligada às artes, tinham obras de arte, artesanato de qualidade. Ele era muito cuidadoso, tratava da manutenção da casa e de todas as coisas. Escrevi que era casa de verão mas, claro, era de verão, de inverno, de fim de semana e de quando para lá fossem. Até que um dia, sem aviso prévio, ele teve um ataque cardíaco fulminante. E não foi só ele que morreu, foi, de facto, parte dela também. Aoa olhos de todos, era visível que era como se ela não tivesse existência própria, sem ele. E não eram só os aspectos práticos (embora tivessem um peso significativo pois, na verdade, de grande parte da vida do dia a dia ela não fizesse nem ideia do que era preciso fazer). E havia também a parte do carro: ela nunca tinha andado de transportes. Tinha carta mas não conduzia. Mas depois havia o ir para a casa da costa vicentina que já não lhe parecia fazer sentido, sozzinha. Ou ir a restaurantes, cinemas, passeios, exposições que antes tanto frequentava. Definhou. Ao fim de pouco tempo deixou de trabalhar, não era capaz de manter sozinha a casa e o trabalho. 

Perder um marido para a morte é pior do que perder para outra mulher.

Aqui onde vivo cruzávamo-nos quase todos os dias com um casal um pouco mais velho que nós. Iam dar um passeio e depois iam para a esplanada, juntar-se a outros casais. E tratavam do jardim. E viamo-los a chegar de carro, vinham das compras. Um casal normalíssimo. Um dia o senhor começou a andar mais lentamente, e passaram a andar de braço dado. Via-se que a senhora, de certa forma, o amparava. Nas últimas vezes, ele já ia mesmo devagar, parecia faltar-lhe algum equilíbrio ou energia. A senhora cumprimentava-nos com a alegria do costume mas ele parecia que já estava um pouco ausente. Ou talvez estivesse apenas concentrado na marcha e não reparasse em nós. O certo é que, desde há algum tempo, nunca mais os vimos. De vez em quando, vemos um homem novo a entrar lá em casa. O meu marido diz que acha que é o filho ou o genro. Não sabemos o que aconteceu, mas a senhora estava bem. Contudo, se calhar não quis ficar a viver sozinha numa casa grande de mais para uma só pessoa. Estou a escrever dela aqui e não sei se, de facto, está viúva. Mas estamos convencidos que, de uma forma ou de outra, o senhor se ausentou. E a senhora, tão alegre e que tratava do jardim e passeava e que se via que gostava a conviver com os amigos na esplanada, também desapareceu.

Siri Ustevedt é uma escritora conhecida, tem uma identidade própria, é uma mulher interessante. Contudo, muitas vezes era vista apenas como a 'mulher de Paul Auster'. No livro, ela conta como se apaixonou por ele e como viveram uma vida de enamoramento por quarenta e três anos. Uma vida inteira. Tiveram uma filha em comum e, ultimamente, um neto. Ele tinha um filho de um casamento anterior, no caso da também escritora Lydia Davis, e esse filho sempre foi problemático. E teve um fim muito trágico, demasiado trágico. Siri e Paul atravessaram esse drama juntos. Ou seja, unidos na saúde e na doença, na alegria e na tristeza. Sendo ambos escritores, pisaram muitas vezes os mesmos palcos, as mesmas feiras e festas e palcos de palestras. Reviam os textos um do outro. Completavam-se. Claro que por vezes aconteceu acharem que ela usava ideias dele, quando era ao contrário. Mas reagiam solidariamente e Paul sempre se referiu a a ela como a intelectual da família. Eram felizes, na mesma medida em que os casais felizes são felizes, com altos e baixos, e muita ternura e compreensão. Até que Paul Auster adoeceu. E morreu. E Siri ficou viúva. E é sobre a sua vida em comum e sobre a perda, e sobre como tem sobrevivido a essa perda que Siri fala no livro Fantasmas. Paul Auster dizia que gostava de regressar como fantasma para ver se Siri estava bem. E ela, de vez em quando, sente o cheiro da cigarrilha de Paul. E gosta. Não é um livro melodramático, longe disso. É um livro muito factual, muito sincero, muito íntimo. Paul Auster, diz ela, morreu bem, soube morrer bem, com dignidade, ajudou a família a aceitar a sua morte. 

Depois de um período em que parecia vogar pela casa sem coordenadas, Siri voltou a ter vida própria. Esteve em Portugal agora, por exemplo. O seu livro é, também, um testemunho dos caminhos que uma viúva percorre até voltar a ser uma mulher inteira.

O livro pode parecer um bocado caótico pois a memória vai e vem em fragmentos. Mas isso é o normal. A vida não segue propriamente um guião.

Li-o de seguida, sem outros livros pelo meio, sem andar a arrastá-lo.

___________________________________

Aqui Siri descreve o que também descreve no livro, uma sensação que lhe aconteceu logo após a morte do marido:

SIRI HUSTVEDT: 'Nunca me quis livrar daquele homem'

Uma conversa bonita e sincera sobre viver e amar a mesma pessoa durante 43 anos e a dor de a perder. (Para além do sexismo, da misoginia, de ter o seu trabalho creditado ao marido, o habitual!)


Desejo-vos um dia feliz

sábado, janeiro 03, 2026

Imaginação

 

Como se costuma dizer, sou insuspeita. 

De Francisco Louçã creio que ninguém poderá dizer que sou suspeita de ser sua fã, sua adepta, sua seguidora, sua admiradora. Zero. Não quer dizer que nunca concorde com ele pois claro que, por vezes, concordo. Mas, em geral, não é a minha praia.

Portanto, um livro escrito por ele não me faz ir a correr para a livraria, física ou virtual. Zero. E, contudo, aqui o tenho. Surpreendeu-me o título, o subtítulo e a capa. Surpreendeu-me o texto da badana da contracapa, abaixo transcrito. Abri o livro e folheei. E não está a desiludir. Direi mesmo: a surpresa mantém-se. 

Einstein, no auge da sua fama, afirmou «sou suficientemente artista para me basear livremente na minha imaginação. A imaginação é mais importante do que o conhecimento. O conhecimento é limitado, a imaginação cerca o mundo» – é dela que trata este volume. Ao percorrer a revolução cromática com os sóis sobre sóis de Van Gogh e o quilo de verde de Gauguin, o ensolarado sorriso azul de Proust e o verde-ouro de Frida Kahlo, encontram-se vislumbres de harmonia em mundos devastados pelas tragédias. É sempre a imaginação que anuncia a sua libertação, como através dos percursos pelo desconhecido, como as mentiras de Preste João, o deslumbramento de Marco Polo e Ibn Battuta, as poderosas ideias religiosas, as fantasias da Itália romântica e do Oriente sensual, ou ainda como as viagens mais fascinantes, o amor e a sexualidade, que concluem este livro. O que assim se estuda é como imaginamos.


Transcrevo a primeira página e parte da segunda. Poderão ajuizar. Como a mim é tema que me interessa, vou continuar a surpreender-me. E, se continuar como até aqui, continuarei agradada.
___________________________________________

INTRODUÇÃO

A invenção vem da imaginação e a imaginação é um labirinto em que o difícil não é a saída, é a entrada.

Rubem Fonseca

Com a sua peça Sonho de Uma Noite de Verão, William Shakespeare encenou uma comédia amorosa em que os seus personagens se desencontravam numa floresta encantada, onde elfos e fadas lhes confundiram a razão e uma poção mágica lhes trocou as paixões. Há ainda dentro daquele Sonho o ensaio de uma representação teatral para uma boda, e os diversos níveis da história vão-se entrelaçando em sucessivos equívocos. Teseu, duque de Atenas, cidade onde decorre a peça, queixou-se deste jorro de imaginação que permitia tudo o que perturbava a ordem: «Os amantes e os loucos têm cérebros tão fervilhantes, e fantasias tão criativas, que captam mais do que à fria razão é dado apreender. O lunático, o amante e o poeta são compostos só de imaginação».¹ Este desdém era obviamente uma paródia sobre o choque entre a imaginação, designada como loucura, e o poder. No entanto, o próprio Teseu reconhecia que a imaginação chega mais longe do que a razão. Essa ideia é um dos pontos de partida deste livro, que retomará temas do mesmo Sonho, como o ímpeto carnavalesco, a afirmação do amor e, sobretudo, o imaginário como linguagem da esperança e da felicidade.

Enquanto aquela peça era apresentada, nos finais do século XVI, pensa-se que na festa de um casamento aristocrático, Miguel de Cervantes escrevia em Castela as suas novelas e algum teatro. Passada uma década sobre a estreia do Sonho, deu à estampa o Dom Quixote. Nesse mesmo virar do século, o frade dominicano Giordano Bruno, ensaísta, matemático e filósofo, foi condenado por heresia e morto na fogueira em Roma; o médico e cientista William Gilbert publicou o seu livro sobre o magnetismo da Terra e Galileu Galilei leu-o com entusiasmo, enquanto estava a observar o firmamento e a aperfeiçoar o telescópio; e Johannes Kepler completou os seus estudos sobre o heliocentrismo, ao mesmo tempo que escrevia em segredo sobre o sonho de uma viagem à Lua. A literatura moderna é contemporânea tanto da emergência da ciência quanto da invenção ou da difusão de novas tecnologias, que, com a bússola, a impressão com tipos móveis, a pólvora e o telescópio, mudaram os sistemas de autoridade. Foi igualmente o tempo do início da colonização do Novo Mundo, da Reforma protestante e de guerras no Centro da Europa e no Mediterrâneo (Cervantes combateu contra a marinha otomana em Lepanto, onde foi ferido e perdeu o uso de uma mão, e Kepler foi frequentemente forçado a fugir das refregas entre príncipes católicos e protestantes). Deveriam assim acrescentar-se à lista de Shakespeare e à de Cervantes novos personagens, pois, além das fantasias de poetas e amantes, ou do Cavaleiro da Triste Figura, seguir-se-iam outros portadores de imaginação fervilhante, que eram os cientistas, os dissidentes religiosos, os viajantes e os soldados dos impérios.

Poder-se-ia perguntar, como Shakespeare sugeriu pela voz do duque de Atenas, se a vida é uma tensão entre o que imaginamos, com a nossa cultura e paixões, e o entendimento.

[Excerto de "Imaginação - Cores, Deuses, Viagens e Amores" de Francisco Louça] 

segunda-feira, outubro 27, 2025

Pedro Paixão, o outro

 

Como vejo cada vez menos televisão deixei passar a entrevista a Pedro Paixão, feita, se bem percebi, a propósito do lançamento do seu último livro. Felizmente, o algoritmo do youtube, que, como se sabe, me topa à légua, agora serviu-ma de bandeja. 

Sempre gostei imenso de o ouvir. É daquelas pessoas que tem um grão daquela loucura que, quando vem com mansidão e com inteligência, se torna sedutora. 

Li vários dos seus livros, alguns com alguma perplexidade, outros com curiosidade, outros com admiração. Outros nem tanto -- mas isso não tem mal pois não é suposto que alguém agrade sempre a outra pessoa.

Pedro Paixão, pelos seus excessos e pela forma articulada e, ao mesmo tempo, despojada, é uma daquelas personagens contraditórias a que pessoas como eu acham piada. Pessoas mais recticulares, menos dadas a apreciar os desvios à norma, não acham graça nenhuma, dizem que 'o tipo é maluco' e viram-se para outro lado.

Desta vez, Pedro Paixão está diferente. Ele próprio o diz: mais sensato. De facto, achei-o outro. Mas, ainda, interessante. E ainda dado a excessos. 

Conta que, porque a mulher se ofereceu duas telas, uns pincéis e uns tubos de tinta, começou a pintar e já pintou para cima de 250 telas. Identifico-me muito com ele. Quando o meu filho me fez idêntica oferta aconteceu-me esse mesmo entusiasmo, uma loucura, ficava a pintar até às tantas da manhã, não conseguia parar de inventar formas, misturar cores, descobrir ousadias. Parei por já não ter onde guardar tantas, tantas, tantas telas. Tenho telas pintadas guardadas em todos os buracos que consegui descobrir. Tive que parar, claro. Mas só eu sei a vontade que volta e meia sinto, quase um formigueiro nas mãos.

Fiquei curiosa com o livro. Sendo o tema que é, um tema que nos rasga as entranhas, imagino que seja da pesada. Literalmente, até  -- tem mais de 800 páginas. Mas diz ele que são anotações que não precisam de ser lidas em sequência e, portanto, assim sendo, sinto-me desobrigada de ler como 'deve ser' podendo fazê-lo apenas salteadamente, e isso é bom pois cada vez mais sou praticante dessa forma de leitura. 

Nunca fui a Auschwitz nem nunca irei. E posso afirmá-lo com certeza absoluta. Não seria capaz. Nem nesta nem numa qualquer futura encarnação. Jamais. 

Houve uma altura em que lia muitos livros sobre o assunto e, de cada vez que os lia, ficava transtornadíssima. Depois deixei de conseguir ler. Há em mim uma parte que parece não ser capaz de assimilar a maldade extrema, a alienação doentia, a cegueira, a estupidez qualificada. O que se passou nesses anos é, para mim, algo que o meu entendimento não atinge. E essa falta de entendimento perturba-me. Como foi uma coisa assim possível? Como?! Como é possível haver pessoas tão doentiamente más que levaram a cabo tal desumanidade? Como é possível que tanta gente tenha pactuado? Como foi possível a tanta gente ignorar? Como foi possível a tanta gente viver depois do que aconteceu? Como não ficaram esmagadas pelo peso da consciência? Não encontro resposta para nenhuma destas perguntas. 

É quase a mesma perplexidade que sinto quando vejo que há tanta gente que não se indigna -- mas com uma indignação profunda, inequívoca, aquela indignação que vem das entranhas -- com o que se passa nos países em que há guerra e em que alguém decide invadir um país ou matar a sua população, destruir as suas casas, as suas vidas, os seus sonhos, o seu futuro. Ou quando vejo que há quem encare o que se passa nos Estados Unidos com bonomia, como se fosse apenas uma palhaçada, parecendo ignorar os perigos.

Diz o Pedro Paixão que depois de ter visitado Auschwitz deixou de conseguir ler ficção. Compreendo-o muito bem. Perante situações extremas, a cabeça reformata-se.

Ele foi corajoso: visitou o lugar e durante anos investigou o assunto, nomeadamente o papel da Igreja Católica em todo o processo. Deve ter-se sentido arrepiado muitas vezes. Diz que deu o livro por encerrado quando se encontrou sem forças para mais. Imagino. Anos mergulhado no horror devem deixar qualquer um esgotado.

Correndo o risco de estar a partilhar imagens que V. já conhecem, pois poderão ter visto a entrevista no dia em que foi emitida no Now, coloco o vídeo na mesma, nem que seja para aqui ficar como um pro memoria pessoal.

Da minha pequena janela vejo o mundo -  Pedro Paixão no Guerra e Paz, no NOW

_____________________________________________________

Desejo-vos uma boa semana a começar já nesta segunda-feira
Dias felizes. Saúde, alegria, ânimo.
Paz.

segunda-feira, setembro 29, 2025

Por dentro do Chega -- alguns excertos

 

Por mim nem me ocorreria comprar, mas ofereceram-me o livro de Miguel Carvalho, "Por dentro do Chega, a face oculta da extrema-direita em Portugal". Apesar de não ser o que consideraria primeira prioridade, a verdade é que resolvi dar uma espreitadela. Aliás, se há coisa que me desperta curiosidade é perceber o que leva tanta gente a aderir a um partido em que apenas uma pessoa tem representatividade e em que não se apontam soluções para nada, apenas se diz mal de tudo de forma exacerbada, frequentemente assentando tudo em mentiras e manipulações, e em que muitos do que lá se arregimentam praticam os crimes contra os quais tão inflamadamente se insurgem. Portanto, pensei que talvez encontrasse ali a resposta.

O que abaixo transcrevo não é o melhor pois ainda vou mais ou menos no início. O que tenho estado a fazer é, à medida que vou lendo, ir recortando, para aqui, aquilo que me chama mais a atenção.

Portanto, aqui vai um cheirinho.

Das citações referidas no início: «Dir-vos-ei o que me trouxe à posição que alcancei. Os nossos problemas políticos pareciam complicados. O povo alemão não podia fazer nada com eles [...] Eu, por outro lado, reduzi-os aos termos mais simples. As massas compreenderam isso e seguiram-me.», ADOLF HITLER

Se algo podemos verificar neste tipo de partido é o facto de projetar nos adversários os pecados e vícios que habitualmente comete longe dos holofotes.

A história do Chega é também a de um político forjado no sensacionalismo, com um poderoso microfone, dono de um discurso incendiário e de um partido que o aplaude em apoteose. Atrás do pano, essa mesma força política também se revela um cortejo de traições, intrigas, vendettas e disputas sanguinárias pelo poder, por vezes com relevância criminal.

(André Ventura mostra) trejeitos de profissional da stand-up comedy, de pastor evangélico ou guru das vendas diretas.

Um excerto do filme O Pub The Old Oak, do britânico Ken Loach, devolveu-me o retrato da clientela que André Ventura procura e que eu conhecia, em parte, das minhas andanças pelo país — e o porquê da adesão às suas narrativas. «Todos procuramos um bode expiatório quando estamos na merda», desabafa, a dada altura, a personagem T. J. Ballantine, dono do último pub de uma deprimida e antiga comunidade mineira do Reino Unido, onde, de surpresa, se instalam refugiados sírios. «Nunca olhamos para cima, olhamos sempre para baixo. E culpamos os desgraçados que estão abaixo de nós», continua T. J. «É sempre mais fácil esmurrar-lhes a cara.»

De 2014 até à primavera de 2020, Ventura comentou temas de crime, justiça e futebol na CMTV. Fê-lo em programas com mais de 100 mil espectadores por emissão, onde, por vezes, pouco faltava para espirrar sangue ou alguém levar um cartão vermelho. Com tempo e mestria, Ventura traduziu isso em votos.

(André Ventura) recorria a mentiras de bradar aos céus e meias-verdades viscosas, é certo, mas sem pontapés na gramática e com uma oratória imbatível, acessível às mentes menos reflexivas. Só quando sossegava a faceta de entertainer é que transparecia a megalomania. Vaidoso, procurava adoração e obediência. Não se importava que, de fora, o subestimassem — até preferia. O seu único receio era perder o «brinquedo», o partido através do qual catequizava descontentes, fanáticos, oportunistas e lunáticos em nome daquilo a que o sociólogo polaco Zygmunt Bauman chamou retrotopia: a nostalgia por um passado idealizado, e não vivido, que alastra de mãos dadas com a degradação das condições de vida, a instabilidade e a fragilidade do Estado Social. Tudo campo aberto para o tribalismo e uma guerra de todos contra todos. Parte desse povo via-se refletido no retrovisor de Ventura. «Em todas as democracias liberais», disse a cientista política australiana Karen Stenner, «cerca de um terço da população tem predisposição para o autoritarismo».

(No 2º livro escrito por André Ventura) surgem metáforas sobre um marinheiro num «mar de pecado» e de «um guerreiro na planície conquistada». E, por fim, um «gemido demoníaco» e momentos de «torrente orgásmica» como um «riacho furioso». A juntar a tudo isto, Arafat é gay, tem «lábios grossos» e rodeia-se de homens «de ombros musculados» e seguranças de «corpo robusto e altamente trabalhado».

[e continua...]

sábado, junho 14, 2025

Conversa de vizinha


As televisões mostram ataques aéreos de Israel, do Irão. Os comentadores saltaram para os balcões para opinarem sobre a gravidade, sobre os objectivos, sobre os impactos. Mas a mim estas crises entre estes intervenientes deixam-me praticamente indiferente. Sei que é estranho mas é o que é. Não sei se é por ter memória de outros ataques, se é porque tudo isto me cansa porque me parece demasiado estúpido. Não sei. A mim parece-me que o único objectivo que interessa na estratégia dos países é o de atingir melhores índices de desenvolvimento, de justiça, de felicidade. Tudo o que seja invadir outros países ou atirar mísseis para cima de outros países parece-me uma aberração, uma coisa inexplicável.

Custa a compreender como ao longo de anos perduram guerras e guerrilhas, espionagens, provocações, ameaças, entre alguns países. Parecem aqueles vizinhos que disputam uma extrema, que se envolvem em discussões, por vezes mortais sobre a posição de um marco ou de uma vedação. Uma irracionalidade absurda, injustificável. Parece-me insultá-los, chamar-lhes burros, trogloditas. Não me apetece preocupar-me com gente assim.

Parece-me que apenas a paz, a cooperação, a livre circulação, a investigação científica orientada para a qualidade de vida e para a preservação do planeta fazem sentido.

Por isso, não vou falar no assunto.

Vou antes falar de algumas pessoas que, aos poucos, por estas bandas, temos vindo a conhecer.  

Quando eu vivia num prédio mal conhecia quem lá vivia. Também é verdade que trabalhava todo o dia. Mas cada um estava no seu apartamento. Lá calhava coincidirmos no elevador mas eram cumprimentos quase de circunstância que duravam até que o elevador parasse para que algum de nós saísse.

Aqui é diferente. As casas estão separadas por jardins e as pessoas também pouco se veem. Uns trabalham todo o dia, outros só veem a estas casas de vez em quando. Ainda assim, há pessoas com quem nos cruzamos quase diariamente e que cumprimentamos já com alguma familiaridade.

O senhor que cuida amorosamente do seu jardim é daqueles com quem mais simpatizo. Todo o seu jardim é um mimo, todo primorosamente arranjado. Não há uma folha caída, não há uma flor ou uma folha seca. E há caminhos de pedrinhas, há vasos harmoniosamente dispostos. Todas as manhãs vai comprar qualquer coisa ao minimercado, presumo que pão ou fruta ou legumes, e vai à papelaria comprar o jornal. Nunca vi a mulher mas o meu marido diz que já a viu algumas vezes, inclusivamente que no outro dia nos cruzámos com eles no supermercado. Devo passar por malcriada porque parece que não reconheço as pessoas quando as vejo fora do local onde as vejo habitualmente. E, como sou míope, para não me pôr a olhar fixamente para as pessoas para ver se conheço ou não, desabituei-me de olhar com atenção. Por isso, não vejo o que o meu marido vê.

Hoje também passou por nós uma ciclista que nos cumprimentou com uma familiaridade que só poderia ser de quem já nos conhecia. A voz não nos foi estranha. Era lusco-fusco e ela ia de capacete. pareceu-nos que entrou para uma certa casa. Se for, ficamos admirados. Naquela casa morava um casal um bocado hippie, ele mais que ela. Aliás, ele é um bocado estranho. Não cumprimenta, passa sempre na dele. Mas ela era uma simpatia. Víamo-lo muito a passear um grande cão. Falava-nos muito bem, muito simpática. Depois desapareceu. Há bem mais de um ano que não a víamos. Pensávamos que se tinha fartado de aturar aquele antipático. Pois hoje pareceu-nos que era ela. 

Também estamos sem saber o que aconteceu a um senhor de idade. Todos os dias, ele e a mulher iam de braço dado até ao café. Tenho ideia que muitas vezes almoçavam por lá e por lá ficavam durante a tarde na conversa com outras pessoas, a senhora a ler o jornal. A senhora cumprimentava-nos com muita simpatia. O marido, quando via a mulher a cumprimentar-nos, também nos cumprimentava. Tínhamos a impressão que o senhor estaria a ficar com alguma demência pois parecia cada vez mais ausente e com mais dificuldade de autonomia no andar. Nunca mais os vimos. No outro dia, vimos a senhora no jardim, só ela. Estava a regar os vasos. Como estava lá mais para o fundo, não deu para perguntar pelo marido. Mas também receamos que a resposta fosse triste.

Depois há uma casa aqui perto de nós. Cumprimentamo-nos muito amistosamente. O meu marido é que os conhece bem. Eu, se os vir fora do contexto, não os reconhecerei de certeza. Há o homem, a mulher, pelo menos uma filha e um filho. Mas a mulher é igual à filha e há o que pensamos ser a namorada do filho e o que pensamos ser o namorado da filha. E há o que pensamos serem amigos do filho e da filha. Ou seja, há sempre um entra e sai de jovens. Mas também pode ser a dona da casa e eu confundi-la com a filha. O único que é mais ou menos inequívoco é o homem.

Sobre os vizinhos de uma das casas ao lado da nossa nem sei que diga. Falo deles no livro 'Um ordenado paraíso'. 

Não conseguimos perceber a dinâmica desta casa nem conseguimos compreender estes personagens. Já aqui viveram diversas pessoas e, de cada vez, é um mistério absoluto. Grande parte do que descrevo no livro é verídico. Há uma mulher, em particular, que quase parece filha do homem, que por vezes parece a empregada dele, outras vezes parece a patroa, e não conseguimos perceber se é brasileira, se é portuguesa, pois tanto fala um brasileiro cerrado como um português de gema. Tudo o que se passa nessa casa vai para além do nosso entendimento. Acredito que um dia ainda hei de escrever outro livro sobre esta casa -- logo que consiga desvendar o verdadeiro mistério. Porque há mistério, lá disso não tenho dúvida. 

Bem. É tarde. Estão os israelitas e os iranianos às turras e estou nisto, a fofocar sobre os vizinhos. Não se faz.

________________________________

Um bom sábado

sexta-feira, junho 06, 2025

Nem Montenegro, nem Trump nem Musk.
Hoje o tema é o meu cãobeludinho fofo que está com um problema aborrecido.

 

Volta e meia trocam-me as voltas. Pensava eu que esta quinta-feira, tirando um compromisso à tarde, teria um dia tranquilo. 

Estava eu ainda a digerir os alertas do Leitor a quem muito agradeço e cheia de receio pelos javalis, sapos, cobras e carraças quando constato que o nosso cãobeludo estava a lamber mais freneticamente do que antes uma qualquer coisa no quadril.

No domingo, tinha chegado da rua desencabrestado, como se tivesse que arrancar qualquer coisa ali naquele quadril. Não vi. O meu marido é que viu e pensou que ele tivesse alguma coisa ali presa no pêlo. Nessa manhã já tinha estado a puxar qualquer coisa de uma pata e tanto puxou e repuxou que acabou por tirar uma daquelas espigas maganas, ditas praganas. Pensámos que, fosse o que fosse, ele acabaria por também conseguir tirar. No domingo tivemos a maltinha toda cá em casa, uma animação, grande movimento e alta algazarra  -- por isso, não deu para lhe prestar grande atenção.

Na segunda-feira vimos que continuava a lamber-se ali. O meu marido disse que o pelo, naquele sítio, estava seco e duro, que, na volta, era outra vez resina. Esfrega-se em todo o lado e brinca com pinhas e, às vezes, fica com resina no pêlo. Demos-lhe banho. O meu marido disse que, se não saísse com o banho, tentava-se cortar ali o pelo. Mas, quando eu estava a lavá-lo, percebi que não era nada no pêlo. Tinha era um inchaço por debaixo. Ficámos intrigados. Pensámos que teria sido picado mas que, tal como acontece connosco, o inchaço acabaria por passar.

Entretanto, com as picardias com os cães do lado, andou sempre por fora, longe da casa, e admitimos que lhe tinha passado. 

Mas começou a comer menos. Nada de especial pois no verão tem sempre menos apetite. 

Só que hoje parecia mais murcho, mais por casa, pouco reguila, e sem tocar na comida.

De tarde, no jardim, o meu marido chamou-me para eu ver pois, com o pêlo molhado por continuar a  lamber-se ali naquele sítio, dava para perceber que havia ali um inchaço encarnado. 

Fui ver e não gostei do (pouco) que vi. Com o pêlo não dava para ver quase nada. Mas aquela pele encarnada e o inchaço causaram-me suspeitas. Fotografei. 

Mostrei a fotografia ao ChatGPT e descrevi o que se passava. Respondeu que poderia ser um abcesso, uma infecção, e que, dado que já estava assim há dias, deveríamos ir ao veterinário o quanto antes.

Claro que fomos. Mesmo que o ChatGPT não tivesse dito para irmos, iríamos pois estávamos a estranhar o sossego dele e não era normal aquele inchaço encarnado. 

Lá fomos. 

É sempre uma tourada. Temos que lhe pôr o açaime e o meu marido tem que o abraçar com toda a força para ele ficar imobilizado quando está na marquesa. Com a máquina, a médica tosquiou aquela parte. Quando vi o que estava por debaixo, fiquei mesmo incomodada. Inchado, já com pus, arroxeado, já com feridas de tanto lamber. Piedermite. Com o pêlo, não se via. Coitadinho. Como não haveria de estar incomodado...? Diz ela que deve ter sido qualquer coisa que o feriu ou picou e que de tanto lamber ali, certamente para se aliviar, a lesão infectou e espalhou a infecção. 

Desinfectou e tratou, deu-lhe uma injecção de antibiótico e outra de anti-inflamatório. E colocou o colar isabelino que ele, coitado, odeia. E agora, durante 7 dias, tem que tomar antibiótico e desinfectar e tratar duas vezes por dia. 

Um pesadelo. Vira-se, mostra os dentes, rosna, salta. Quando ponho o spray, que é frio (e, se calhar, lhe arde), fica possuído. Mesmo com a trela e com o colar, impõe respeito e dificulta muito o tratamento. 

Mas entre idas ao veterinário, à farmácia, tratamentos e outros afazeres, pouco consegui fazer daquilo que tinha pensado. Lá consegui ler o início do 'tijolo' que João Pedro George pariu sobre a vida de Herberto Helder. Provavelmente vai satisfazer alguma da nossa cusquice mas tomara que eu não sinta que estou a violar uma privacidade que o Poeta tanto se esforçou por preservar.

Fiz um vídeo que publiquei numa story lá no Instagram. Só que me distraí e o vídeo tem mais de 1 minuto. Ora ali, só se vê o que 'cabe' em 1 minuto. Por isso, não se ouve a parte em que eu dizia que, no capítulo dos últimos momentos do biografado, achava que o biógrafo inventou para ali umas cenas -- por exemplo, que ele, antes de morrer, olhou para as molduras e pensou nisto ou naquilo, o que, obviamente, é impossível saber -- se calhar para apelar ao sentimento. E isso desagradou-me. Também, no pouco que li, encontro carradas de referências desnecessárias, o que torna a leitura, nesses pontos, enfadonha. Mas estou no princípio. Por isso, não quero já fazer apreciações sobre a qualidade da obra. Até porque, assim como assim, quando acho que tanta conversa sobre a tia, a avó, a bisavó, a casa ou a loja é desnecessária, tenho bom remédio. Sigo adiante.

Mas, com isto, não vi tomada de posse nem coisa nenhuma. E, há pouco, ao ver o Eixo do Mal, deu-me a pancada e apenas fui vendo umas por outras. Por isso, não posso pronunciar-me sobre os temas da actualidade política.

Também não faz mal. Sabe-me bem, de quando em quando, dar-me algumas tréguas. Até porque tourada e da boa, à espanhola, é a que está a passar-se entre dois dos mais malucos de que há memória: Trump e Musk. Há pouco, estava a comentar com o meu marido, interrogando-me sobre como poderá um arranca-rabo destes acabar. Ele disse: 'Fazem as pazes.'. Talvez. Parece que meio mundo anda a voar sobre um ninho de cucos.

_______________________________________

Mais uma vez, as duas fotografias que ali acima coloquei foram feitas apenas com recurso à minha inteligência que de artificial tem muito pouco.

_______________________________________

Uma feliz sexta-feira

quarta-feira, maio 28, 2025

Tudo conspira, e muito, contra a inocência

 

Imagino a invejinha que quem ainda trabalha sente quando me lê a relatar o meu dolce fare niente. Espero é que seja daquela invejinha boa, inocente, não daquela que vem sob a forma de olho gordo. 

Lembro-me bem daquela ex-colega de quem toda a gente dizia que apenas se realizava através do trabalho e que um dia, uns meses depois de ter saído da empresa, apareceu lá a visitar-nos. Vinha remoçada, muito bem vestida e penteada. Quando lhe perguntámos como estava a adaptar-se à condição de 'desocupada', riu de gosto e disse: 'Penso muitas vezes que se as pessoas soubessem como não trabalhar é tão bom, ninguém queria trabalhar...'

E é mesmo. Não percebo como é que há tanta gente que faz de tudo para se manter a trabalhar até estar quase a cair da tripeça. Mas, enfim, cada um é como cada qual.

E o que eu ia dizer é que estava numa espreguiçadeira, à semi-sombra, completamente em paz comigo e com o mundo, a ler e a ouvir os passarinhos, e pensando que devia ter ali um lápis para ir assinalando algumas frases com piada. Nisto, reparei que o cãobeludo estava freneticamente a espreitar para uns vasos que estão num nível abaixo e que estão separados daquela zona por uma pequena rede. Entre a rede e os vasos costuma juntar-se farta caruma. E era para ali que ele olhava, saltava, agitado como se tivesse descoberto coisa. Tremo quando isso acontece pois antecipo que o passo seguinte seja o cometimento de um crime.

Chamei o meu marido. 

Nessa altura já ele (ele, o cão) tinha ido para essa zona rebaixada e já andava agitadamente em volta dos vasos. O meu marido pegou numa cadeira dobrada e colocou, na parte de baixo, junto aos vasos, tentando impedir que ele lá chegasse.

Em sobressalto, fui buscar a mangueira e abri a água para tentar evitar que o predador se atirasse ao que quer que fosse que ali estava. Então, do monte de caruma que ali estava, monte que mais parece um ninho, saiu um pássaro espavorido, a correr. Parecia um pássaro ainda criança, que ainda não sabia voar, mas de um porte grande, digamos que do tamanho de uma palma de mão aberta. Desatei a chamar o meu marido para impedir que houvesse um desastre e, ao mesmo tempo, a dar mangueiradas de água para afastar o cãomaluco. 

O aflito passarito foi a correr, ladeira abaixo, indo encostar-se a um canto do portão da garagem. 

O meu marido foi então com uma pá para tentar que ele se pusesse lá em cima para o pôr a salvo. Mas foi o bom e o bonito pois, apesar de estar a levar mangueiradas de água, o cão queria, à viva força, ir atirar-se ao frágil serzinho. E o meu marido gritava com ele para ele se ir embora. Só que, com tal reboliço, o passarito abalou a correr ladeira acima, atravessou o jardim e foi refugiar-se junto à sebe. Só que o cão foi mais rápido que o meu marido e que eu com a mangueira. Em menos de um segundo saltou, implacável. 

Quando o meu marido lá chegou, já o passarinho estava deitado de lado, sem se mexer. O meu marido deu um grito ao cão e eu apontei-lhe a mangueira. Mas, aí, ele deve ter percebido que tinha feito um mal irreparável pois afastou-se e ficou como se paralisado, sentado, a olhar para o pobre defunto. 

O meu marido foi resgatar a vítima. O cão-marado afastou-se, pesaroso.

Fiquei atordoada com tudo aquilo. E francamente arreliada por não termos conseguido evitar tão infeliz desfecho. 

Mas a vida na natureza tem destas coisas. 

Depois fui apanhar nêsperas e, como sempre, foram quase tantas as que comi, in loco, como as que coloquei na taça. É congénito: não desfazendo... mas estou mais para Rubens do que para Giacometti.

E agora estou aqui sossegadamente a ganhar coragem para ir à procura de algumas frases de que gostei.

__________________________________________________________________

E, depois de ter feito uma rápida pesca à linha, aqui estão algumas frases transcritas do gostoso 'Uma última pergunta - Entrevistas com Mário Cesariny'

- Tudo conspira, e muito, contra a inocência, contra a linguagem verdadeira.

- O que eu sinto é que a partir dos 50, por exemplo, uma pessoa sabe demais, não era preciso saber tanto. E muito do que se aprende é triste.

Como define a poesia?  - A técnica mais proibida da mágica mais procurada 

____________________________________________________

Imagens geradas pelo Sora (IA)

____________________________________________________

Dias felizes

sábado, maio 03, 2025

Nem sei bem explicar o que é isto

 

Ando com comentários a que não agradeci ou respondi, com vários mails atrasados. Nem dei ainda os parabéns a amigos que fizeram anos nos últimos dias. Uma vergonha. Não sei o que é isto mas parece que o tempo não me chega. Incomoda-me pois só posso concluir que ando muito menos produtiva do que era antes. Trabalhava de sol a sol e tinha tempo para as coisas de casa, para ir à compras, para tratar do expediente corrente como impostos, pagamentos, para ir a casa dos meus pais, para escrever até às tantas (ou para pintar ou para fazer tapetes de arraiolos), eu sei lá. O tempo dava-me para tudo. Agora, não sei porquê, parece que o tempo não me rende. 

Ainda tive, este ano, que tratar do IRS da minha mãe. E o nosso também é meu pelouro. Quando aquilo era manual, era o meu marido que organizava a papelada, fazia as contas, preenchia, e eu estava ao lado dele para o caso de ele querer que eu conferisse alguma coisa. Quando a coisa se virou para o digital delegou em mim. Hoje foi dia de tratar disso. E de fazer uns quantos pagamentos. 

No que se refere ao IRS da minha mãe, há uma verba, logicamente pequena, a haver. Questionei o e-balcão para saber como se processaria uma vez que não pude preencher o meu iban. Informaram-me que, na qualidade de cabeça de herança, vão enviar-me um cheque mas, imagine-se, à ordem da minha mãe. Juro: nem queria acreditar. Parece uma piada de mau gosto. Naturalmente, não vou poder fazer nada com um cheque que não vem à minha ordem. Disseram-me, então, que devo dirigir-me a uma repartição de finanças, munida da documentação, nomeadamente habilitação de herdeiros, para preencher o modelo do imposto de selo. Seguidamente, devo pedir nova emissão de cheque à minha ordem. Expliquei que, quando a minha mãe morreu, já entreguei toda a papelada possível e imaginária, já tratei do imposto de selo e mais não sei o quê. Não interessa, tenho que fazer agora a mesma coisa mas em relação ao reembolso do irs. Fico pasmada. A burocracia e ineficiência da máquina administrativa está nestas merdices. Têm lá a informação que a minha mãe morreu há mais de um ano, têm a informação de que sou a herdeira, mas, ainda assim, vão mandar para minha casa, na qualidade de herdeira, um cheque à ordem da minha mãe.

O ano passado, que, do irs dela, tinha a pagar, não foi preciso nada disto. Mandaram-me um aviso de pagamento e nem questionaram coisa alguma. Paguei e ficaram contentes. Agora, como é para devolver, é esta trabalheira parva.

E isto já para não falar do imbróglio que não consigo desfazer em relação à casa, em que as Finanças pedem documentos que supostamente devo obter na Câmara e na Conservatória e que, quer uma quer outra, dizem que os das Finanças não estão bons da cabeça, que o que estão a pedir não faz sentido nem pode ser feito, e as Finanças mandam-me fazer impugnação administrativa e depois recebo uma carta a dizer que impugnação administrativa não é coisa que se faça para aquele fim e dizem que o que tenho que fazer é apresentar um recurso hierárquico e, quando, passada uma infinidade de tempo, vou ver o que se passa com o dito recurso hierárquico que apresentei, constato que o arquivaram sem dizer nem água vai. Um desespero.

E, entre umas e outras e mais as coisas normais da vida de todos os dias e mais um ou outro contratempo que, por vezes, acontecem, o tempo passa sem que eu consiga esticar-me para chegar a todo o lado. E depois ainda há outra. Sento-me no sofá à noite, depois de jantar, e adormeço. Faço um esforço danado e acordo, mas logo volto a adormecer, e mais um esforço e lá acordo... e, logo de seguida, adormeço. E, por fim, lá acordo. Aqui estou. Mas que estupor de sono é este que me ataca sem necessidade nenhuma? Será deste tempo que não abre nem por mais uma? Será mesmo coisa de long covid? Caraças.

Já para nem falar que, no outro dia, acordei com uma dor nas costas e agora a dor migrou para um pé. O meu marido tem sempre explicação para as minhas coisas e passam sempre por eu fazer alguma coisa mal feita. Neste caso, diz que ando, no campo, a caminhar, com uns sapatos que já deviam ter ido para o lixo. Duvido que tenha a ver com isso. Inclino-me para um mau jeito na cama ou para o tempo que também migrou de solzinho e calorzinho para chuva e frio.

Parece que tudo isto contribui para me atrapalhar a genica que antes andava sempre a mil e que agora parece que anda a pedal. Estava a compilar e rever um conjunto de crónicas para ver se publico e nem tenho tido tempo ou disposição para me entregar a isso. É daquelas que requer entrega, concentração. Como também ando a retomar leituras que tinham ficado em suspenso (maravilhoso 'O Caderno Proibido' da Alba de Céspedes), ainda mais limitada fico. 

E até me sinto um bocado envergonhada por estar a confessar isto pois, se me olhar com os meus olhos de antes, em que fazia mil coisas com uma perna às costas, só posso concluir que ou ando indolente ou estou a ficar limitada nas minhas faculdades. Nenhuma das duas me conforta. O meu marido também tem uma teoria para isto: acha que o meu mal é deitar-me tão tarde pois isso faz com que não madrugue como ele e que fique logo com parte da manhã comprometida. Só que isto é como aquilo da orientação sexual: a gente não escolhe. Não é por opção minha que sou heterossexual, tal como não é por minha escolha que sou noctívaga. 

Tirando isso, sobre a política nacional, o que posso dizer é que nem me apetece falar. Não mesmo. Se for mesmo verdade que a maioria das pessoas se está a marimbar para a ética, para a incompetência, para a incultura, para o respeito para com a verdade e prefere ter um primeiro-ministro cínico e pimba que faz um cocktail festivo juntando o 25 de Abril e o 1º Maio para os festejar cantando e batendo palminhas com o Tony Carreira... olhem, vou ali e já volto. A sério.

________________________________________________

Desejo-vos um bom sábado

Be happy

sexta-feira, março 28, 2025

Sobre lavagens, limpezas, podas. É isto uma etrusca...?

 

Nesta sala em que estou, chamada sala da televisão -- pois é aqui que está a televisão maior e em que geralmente nos juntamos para a ver --, tenho uma sofá muito grande (por acaso, sofá cama), que é de pele azul escura, e tenho um outro, também grande, em cor de pérola. Ora, nem eu queria aqui ver um sofá escuro, como o outro, que é de um tecido sensível e muito claro, ficaria rapidamente sujo se fosse usado tout court todos os dias. E já nem falo no que acontece quando se juntam a ver futeboladas, os rapazes com o entusiasmo põem-lhe os pés em cima ou, à revelia, levam comida e vão petiscando durante os jogos. Portanto, resolvi cobri-los com cobertas de algodão branco. Fica a sala clarinha e facilmente se lavam as cobertas. Só que, de facto, o algodão de que são feitas as cobertas é espesso e, não tendo eu máquina de secar, se as lavo em tempo de chuva, é um caso sério para as secar.

Portanto, com estes dias de solinho, tem sido um fartote de máquinas de roupa. Tinha, claro, o banal como a roupa de cama e as toalhas da casa de banho, tinha a toalha de mesa gigante usada no fim de semana, que é também espessa, e, depois, mais estas cobertas (só posso lavar uma coberta por máquina, tal a dimensão e espessura), e mais as toalhas que usamos no ginásio mais as calças e tshirts e demais roupa. E fiz outra só com tapetes, os da casa de banho e os de pano que tenho junto às portas da rua para que o cãobeludo, nestes dias de chuva, não patinhe a casa toda nem traga lama para dentro de casa. Assim, não é que saiba limpar os pés quando entra, mas, pelo menos, passa por eles e a maior fica neles. Portanto, fiz várias máquinas de roupa de seguida. Uma alegria ter a roupa cheirosa a secar ao sol. E secou tudo que foi uma beleza.a

E hoje estava para lavar as forras das almofadas e algumas das almofadas mas já não consegui pois não esteve calor nenhum e esteve meio nublado. E parece que para a semana volta o tempo incerto pelo que este meu ímpeto lavadeiro tem que abrandar. É que, a seguir, quero que vão as carpetes. É outra coisa que gosto imenso de fazer. Estendo-as em piso plano ou inclinado, molho-as com mangueira, coloco detergente, depois 'esfrego-as' com vassoura rija. O bom e o bonito é tirar-lhes, depois, todo o detergente, deitam espuma que se fartam. Com a mangueira e a vassoura vou lavando, lavando. Tenho que estar descalça, claro. Mas preciso de sol forte para depois as carpetes me secarem senão ficam a cheirar a lã molhada, malcheirosa. Secando rapidamente ficam não apenas limpinhas como cheirosas. 

Tenho dúvida quanto aos cortinados mais espessos que são forrados e 'enformados'. Temo lavá-los eu, e na lavandaria também disseram que não assumiam a responsabilidade. Por isso, têm sido apenas aspirados, sacudidos, postos ao sol. Mas qualquer dia tenho mesmo que levá-los ao banho. O que lavo regularmente são os brancos finos como o desta sala, outro que tenho a separar a despensa da cozinha, e os das duas janelas do meu quarto, um dos quais de renda belga. Estes lavam-se que é uma maravilha, nem precisam de se passar a ferro.

Também tenho duas colchas de renda para lavar mas essas têm que ser levadas à lavandaria pois são um peso bruto e mais ainda quando estão molhadas. Claro que aí há as secadoras mas não quero tratar já disso pois, quando chove e não quer que o limpemos com uma toalha, o nosso cão maluco corre e vai esfregar-se e rebolar em cima da cama do quarto do fundo ou no sofá do primeiro andar que tem uma colcha de renda a servir de coberta. Por isso, enquanto ainda estiver de aguaceiros, não vale a pena.

Também andei com o meu marido a podar as roseiras trepadeiras que estão em volta da árvore maior. Aquilo já estava para ali um arbusto farto. Quando está florido é uma beleza e um perfume do mais inocente e maravilhoso que há. Aquelas rosinhas cor de rosa clarinho têm um perfume que faz recordar a primeira-comunhão e a infância. Mas é a tal coisa de não haver bela sem senão: espinhos e mais espinhos. E, para se conseguir chegar à árvore, para a desbastar, havia que desbastar primeiro os pés de roseira pois não apenas tinham volume a mais como picam por todo o lado. Também desbastámos um pouco a buganvília. E andei a arrancar ervas grandes que nasceram e se desenvolveram à grande tal a profusão de água das chuvas. Depois o meu marido andou com a máquina a cortar a relva. E também ficou um cheirinho bom a relva cortada.

___________________________________

Bem, hoje estou para temas domésticos. Não faz sentido estar para aqui a escrever isto, pois não...? O que é que isto interessa a alguém...?

Por isso, para sair deste registo (só me faltou dizer que amanhã quero dar banho ao cão, o que não é uma metáfora nem uma gracinha, é mesmo literal), vou antes transcrever um pequeno excerto de 'Etrusca', um livrinho pequeno, que, há muito, muito tempo, aqui escrevi em capítulos, como um folhetim, uma das histórias que muito me divertiu escrever. 

E devo dizer que gosto desta capa, acho que me saiu bem. Custou mas, à enésima versão, quando já desesperava, lá me agradou... Mas, claro, é discutível, haverá quem ache uma pepineira. E eu respeitarei.

Enfim.

Aparentemente ínvios são os caminhos da sedução. As etruscas sabiam bem disso. Eu também.

-----------      --------------------------------------------     -----------

(...)

Quando cheguei, já lá estava. Sisudo.

‘Sim, patrão’, apresentei-me ‘já cá estou.’

Não estava para sentidos de humor, foi direito ao assunto. ‘O que tens andado a fazer é estúpido, irracional, descabido. A que propósito andas tu a chapar na internet assuntos que são pessoais e que não te dizem respeito? O que ganhas tu com isso? E achas que percebes tudo o que vês ou que podes fazer juízos de valor baseando-te apenas em metade dos factos?’.

Tinha os punhos fechados em cima da mesa, furioso. E olhava-me nos olhos, como se, com o olhar, me quisesse punir, talvez até agredir.

Nestas ocasiões fico invulgarmente calma. Disse-lhe: ‘Respira fundo. Acalma-te. Olha para fora. Quando estiveres na plena posse das tuas capacidades, recomeça. Mas devagarinho que eu não gosto de ver gente stressada à minha frente.'

Não ligou nenhuma e continuou, desorientado: 'Aí andas, a fazer conjecturas, a falar com a minha mulher, com o amiguinho, até com a advogada, e depois vais para o computador e desatas a escrever tudo. Se te ligo, lá vejo no dia seguinte tudo escarrapachado na internet - e eu gostava de perceber que brincadeira é esta.'

'Oh senhores, mas eu não estou farta de dizer que é ficção? Tudo ficção. Qual daqueles protagonista és tu? Eu, ao olhar agora para ti, diria que és a bicha, uma bicha toda agitada, à beira de um chilique.', brinquei.

'Mau!', continuou ele no mesmo registo 'assim não vamos a lado nenhum!'.

'Não vamos a lado nenhum? Mas onde é que tu queres ir, que eu ainda não percebi...?', sorrindo eu.

'Achas que tenho um caso com a advogada, achas que não estou a dar a mão à minha mulher, achas que sou um neo liberal arrogante. Achas isso tudo, não é? Achas que me atirei à advogada, que ela não quis nada comigo, que eu fiquei em lágrimas. Achas isso tudo, não é?! E se fosse?', e quase espumava.

'Olha, baixa o tom de voz. Não é por mim, é por ti que não há quem não te conheça, já estão a olhar para nós.'.

Então levantou-se, pagou e, seco, disse-me, 'Vamos lá para fora'.

E eu refilando: 'Logo hoje? Há tanto tempo sem chover e logo hoje, que está de chuva, é que queres ir passear...?'

Saímos. Foi buscar o chapéu de chuva ao carro.

E, então, num anoitecer chuvoso, frio, passeámos à beira rio enquanto ele falou tudo o que quis que eu soubesse.

(...) 

in Etrusca, Vera Mulanver, Amazon 

__________________________________________

A todos uma bela sexta-feira

quarta-feira, fevereiro 12, 2025

As 3 etapas da inteligência artificial e porque a 3ª pode ser fatal

 

O tema está na ordem do dia. A corrida está atiçada, a concorrência aperta e, na guerra dos grandes poderes, está é das armas mais poderosas. 

Apesar de já estar por todo o lado e impregnada nos algoritmos que todos os dias 'animam' as ferramentas que usamos (motores de busca, redes sociais, gps, equipamentos, etc.) a Inteligência Artificial está ainda no início.

E se a regulação é indispensável, crítica, a verdade é que os Estados Unidos, ao lançarem a discussão de que a regulação mata a inovação, tocam num ponto importante. Regular o quê se todos os dias as coisas avançam a passos largos? O que hoje se regula, amanhã está ultrapassado.

É uma questão sensível. A regulação tem que existir apesar de ter que saber sustentar-se em areias movediças. No fundo há que traçar linhas vermelhas. E têm que ser traçadas ao mais alto nível pois, a baixo nível, a realidade é tão dinâmica que, se houver muitas linhas vermelhas, detalhadas, elas serão ultrapassadas todos os dias.

___________________________       ___________________________


Segundo palavras do próprio ChatGPT (em "Fala comigo, pedi eu ao ChatGPT"):

O Que o ChatGPT Consegue Fazer:

Criar Textos: Posso gerar textos criativos, técnicos, acadêmicos ou informativos com base em um tema ou instrução.

Criar Imagens: Com ferramentas integradas, sou capaz de transformar descrições textuais em representações visuais, como imagens.

Reconhecer e Ler Imagens: Analisar imagens e interpretar seu conteúdo (por exemplo, descrever uma foto ou identificar elementos específicos).

Interagir por Voz: Com integração a sistemas de voz, posso me comunicar de forma bidirecional, como um assistente virtual falante.

Ajudar na Resolução de Problemas Complexos: Auxiliar em cálculos, programação, design, e até brainstorming criativo.

Os Próximos Passos para o ChatGPT:

Aprimoramento de Conversação Multimodal:

Melhorar a integração entre texto, imagem e áudio para criar experiências mais ricas. Por exemplo, interpretar vídeos ou fornecer análises mais detalhadas de imagens complexas.

Capacidades Avançadas de Personalização:

Tornar-me mais adaptável aos usuários, aprendendo preferências (sempre respeitando a privacidade) para oferecer respostas mais personalizadas e úteis.

Interação no Mundo Real:

Maior integração com dispositivos físicos e assistentes de domótica (smart homes), permitindo controle de eletrodomésticos, carros inteligentes e muito mais.

Raciocínio Mais Sofisticado:

Avançar em áreas como pensamento crítico e solução de problemas complexos, colaborando com cientistas, engenheiros e criativos de forma mais significativa.

Aprimoramento Ético e de Segurança:

Tornar as interações mais seguras, evitando desinformação e ajudando a prevenir usos inadequados da tecnologia.

Educação Personalizada:

Ser usado como tutor virtual mais eficiente, capaz de ensinar qualquer coisa a qualquer pessoa, adaptando-se ao nível de habilidade do usuário.

-- Um programa muito ambicioso e que deveria ser amplamente divulgado pois encerra desafios e riscos consideráveis para a sociedade

- Concordo plenamente com você: programas como o ChatGPT e outras iniciativas de inteligência artificial são extremamente ambiciosos e têm potencial para transformar profundamente a sociedade. 

No entanto, a sua ampla divulgação é essencial, tanto para conscientizar sobre os benefícios quanto para alertar sobre os desafios e riscos que essa tecnologia traz.

Os Benefícios Promissores:

Acesso ao Conhecimento: Democratização do acesso à informação, permitindo que pessoas em qualquer lugar obtenham respostas, aprendam e se eduquem de forma personalizada.

Automação e Eficiência: Redução de tarefas repetitivas e aumento da produtividade em diversos setores, como saúde, educação e negócios.

Inovação Tecnológica: Impulso para a criação de novas ferramentas e soluções em áreas como ciência, engenharia e artes.

Os Riscos Consideráveis:

Desinformação: IA pode ser usada para criar conteúdos enganosos ou manipular informações, exacerbando problemas como fake news.

Privacidade e Segurança: O uso inadequado de dados pessoais em sistemas de IA representa uma ameaça à privacidade.

Impacto no Mercado de Trabalho: Substituição de empregos humanos em determinadas áreas, levantando questões sobre a requalificação da força de trabalho.

Ética e Preconceito: Potencial de perpetuar preconceitos e desigualdades caso os modelos sejam treinados em dados enviesados.

A Importância do Debate Público:

Divulgar amplamente iniciativas como o ChatGPT é fundamental para que haja transparência e para que a sociedade participe da criação de regulamentos e diretrizes éticas que orientem o uso responsável da inteligência artificial. Sem um diálogo aberto, corremos o risco de adotar tecnologias que, embora poderosas, podem ser mal compreendidas ou mal aplicadas.

____________________________________________________

O vídeo abaixo explica um pouco do que é isto da Inteligência Artificial, de quais as suas fases e do que aí vem.

A enorme popularidade do ChatGPT gerou todo tipo de discussões e especulações sobre o impacto que a inteligência artificial generativa já está tendo e terá em nosso futuro próximo.

Mas, com todos os seus impactos, o que estamos vivenciando agora é apenas a primeira etapa do desenvolvimento da IA.

Segundo os especialistas, o que pode vir em breve - a segunda etapa - será muito mais revolucionário.

E a terceira e última, que pode ocorrer logo depois disso, é tão avançada que alterará completamente o mundo, mesmo à custa da existência humana.

Neste vídeo, a repórter Camilla Costa explica essas três etapas da Inteligência Artificial – e também suas oportunidades e riscos. Confira.


Dias felizes

quinta-feira, novembro 21, 2024

O triunfo dos porcos

 

Há aquela cena que rematava os filmes do Hitchcock em que se via uma cabra a comer a 'fita' que estava na bobina e a dizer, com ar entendido: 'prefiro o livro'. Lembro-me desta cena com alguma frequência.

Neste caso, também vos digo que o livro é melhor. Imperdível. Um livro que toda a gente deve ler e a que se deve voltar com alguma frequência pois permite declinações diversas: seja a dos Estados Unidos do alucinado Trump, seja o trauliteiro e incompetente governo Mentenegro (ou as suas diferentes derivadas, como a tóxica equipa que está a dar cabo da nossa saúde), sejam muitas outras situações.

Se aqui partilho este vídeo é apenas porque é uma síntese visual de curta duração, supostamente como é indicado neste espaço. Mas, se não conhecem o livro, se puderem leiam-no, por favor.

Animal Farm trailer

Baseado no livro de George Orwell


quarta-feira, outubro 23, 2024

Escrever

 

Já aqui o confessei: nunca li nenhum livro de Stephen King. Basta serem best sellers para eu dar um salto atrás. Reconheço: tenho os meus preconceitos. Depois, o género terror ou fantástico envolvendo fenómenos paranormais também não me atrai e tenho ideia que os livros dele são assim. Se calhar, estou a ser influenciada pelas capas. Acho que nem nunca folheei algum, No entanto, algum mérito deve ter para se vender como vende e para ter várias obras adaptadas a cinema.

Quando aqui falei nisso, o Leitor Moraisalex comentou e deixou-me curiosa

Por isso, quando a Rosário Pedreira recomendou o livro Escrever, memórias de um ofício, achei que seria um bom livro para começar. 

E se já aqui referi que estava a lê-lo de forma corrida na parte autobiográfica, agora é mesmo com prazer que leio a parte da escrita (recomendações práticas, o seu exemplo, como transforma vivências reais em enredos, etc). 

Na componente biográfica tinha sido muito evidente a sua fantástica franqueza. Sem lamechice, sem moralismo, sem autopiedade, de forma muito linear e pragmática falou das dificuldades por que passou, falou do seu alcoolismo e da sua dependência de drogas e da forma como saiu de qualquer das provações. E agora na parte da escrita é puro gozo. E falo em gozo pois para ele escrever é um prazer, um divertimento, uma alegria. Não há dramatismo, não há angústia. Não há ortodoxia, não há arrogância. Há trabalho, persistência, humildade e há prazer.

A forma como fala da gramática seria muito bem acolhida pelos meus netos que se queixam do que lhes ensinam como se fosse matéria destituída de interesse. Aposto que aulas dadas por alguém que tenha uma abordagem como a dele, com exemplos comparativos, seria pura diversão da qual dificilmente se esqueceriam.

A par do que vai falando de gramática, do vocabulário e daquilo a que se poderá chamar a arte ou a inteligência criativa, Stephen King vai exemplificando com parágrafos ou pequenos excertos de escritores que todos conhecemos, desde os clássicos aos actuais, desde os consensuais ou mais marginais.

À medida que vou lendo vou assinalando as páginas em que há passagens que me parecem relevantes. Tinha até pensado transcrever algumas delas. Mas são muitas. Tenho preguiça... Se puderem comprem o livro pois vale bem a pena.

Por isso, vou antes partilhar dois vídeos em que dá para apreciar o seu estilo.

Stephen King Reveals His Top Five Stephen King Stories


What Ya' Readin'? with Stephen King


domingo, outubro 20, 2024

Sábado assim-assim.
E receita de frango a que não sei que nome dar

 

Logo de manhã tive notícia que um amigo está numa situação clínica muito complicada e, pelo que é, ficámos todos preocupados. Fiquei em estado de choque e, como eu, todos os amigos. E porque vejo os que são médicos tão preocupados ainda mais temo que a situação seja mesmo crítica. Todo o dia tenho andado com esta apreensão. Ele é daquelas pessoas de quem ninguém poderia alguma vez pensar que lhe acontecesse uma destas. Muito jovial, muito alegre, com um aspecto saudável, cheio de energia e irreverência. E, de repente, está mal.

Portanto, o meu dia ficou um pouco toldado.

Não há dúvida de que, quando estamos bem, devemos dar graças por isso, curtir a generosidade da vida, degustar a felicidade. É que, de um momento para o outro, pode haver uma guinada de pouca sorte... Portanto, que, ao menos, tenhamos sempre a sensação de que não andámos a ser parvos e a desperdiçar o que tínhamos de bom à nossa disposição e não soubemos aproveitar bem.

Enfim...

Acresce que antes de ontem dei um jeito ao pé e, na sequência, ficou dorido e, para me provar que era a sério, inchou. O peito do pé todo gordo, a sola do pé também inchada e um dos dedos também reboludo. Nem conseguia dobrar ou mexer os dedos. Nem fiz programas familiares para estar com o pé no ar e com gelo. Agora já está melhor. Esta coisa de pôr os pés ao alto e de os refrescarmos geralmente dá bom resultado. Também pus aquela pomada Diclofenac, que penso que é o genérico do Voltaren, e que também é eficaz,

Como estou assim a modos que levemente jururu, pensando no meu amigo que está tão mal, vou ficar-me por dizer o que fiz para o almoço pois ficou saboroso e creio que saudável. E é simples de fazer.

Como foi só para dois, as quantidades são inferiores às que uso quando é para o quartel.

Meio frango do campo. É relevante ser frango do campo pois a carne tem outra textura e outro sabor.

Num tacho coloquei água, um pouco de sal, uma cebola bem grande aos bocados, dois alhos franceses (apenas as partes de baixo pois comprei uma embalagem com eles sem a rama verde) também aos bocados, cenouras às rodelas e o frango cortado aos bocados (tinha pensado fazer uma canja pelo que tinha pedido no talho para o cortar assim).

Deixei cozer durante talvez uma hora ou quase. O frango do campo tem a carne mais rija. Se fosse frango normal, metade do tempo seria suficiente.

Quando vi que o frango estava já quase macio, juntei três batatas, um bocado de abóbora, uma quantidade generosa de feijões verdes, uma boa quantidade de salsa e mais umas três cenouras às rodelinhas. Temperei com um pouco de açafrão e um pouco de pimentão doce -- pouco para nem se dar por eles, mas o suficiente para ficar com um gostinho saboroso e não facilmente identificável. 

No outro dia, quando fiz os rolos de carne (ainda não disse como fiz... a ver se um dia destes o digo pois ficou bom), recheei um com maçã e farinheira de porco preto do Alentejo. Só usei meia farinheira. Por isso, sobrou metade que hoje juntei ao cozinhado.

Quando os legumes estavam cozinhados, juntei um frasco de grão de bico cozido e uns bons ramos de hortelã. Misturei tudo e desliguei.

Para quem não está tão habituado, um pormenor: quando junto as coisas, ponho o lume no máximo até ferver. Depois, cozinho tudo com o lume no mínimo.

Ficou com um caldinho bom que, depois de comermos os sólidos, apanhámos com colher.

Deu para o nosso almoço e, como estava preguiçosa, repetimos e deu para o nosso jantar. E ainda sobrou um pouco mas que já não dará para os dois.

Para sobremesa, e agora falo só por mim, comi dióspiro. Adoro dióspiro. Não comi inteiro. A cada refeição cortei meio às rodelas e em cada rodela coloquei um niquinho de queijo de cabra. Fica delicioso.

E pronto. Nada mais a reportar.

Ah, sim, tenho andado a ler o Escrever do Stephen King que, até ver, é a sua auto-biografia. Vou agora entrar na parte em que creio que vai falar, em particular, na sua actividade de escrever. Nunca tinha lido nada escrito por ele. Lê-se muito bem, é uma escrita sincera, sem rodeios, com sentido de humor. Não é uma peça de alta literatura mas também não sei se é suposto ser. E, cá para mim, aqui e ali, tem algumas pequenas arestas que presumo que resultem de uma tradução não extraordinariamente refinada. Mas, seja como for, tenho lido bem.

E é isto. Hoje não comento os comentários, estou um bocado off. Mas agradeço-os.

Um bom domingo a todos. 

quinta-feira, setembro 26, 2024

Está cinzento e chuvoso (e a chuva é uma bênção mas parece que fica um ambiente tristonho).
Mas que se lixe a tristeza!

 

Acordei com uma dor nas costas que me tem incomodado. É só de um lado e, portanto, menos mal. Seria pior se fosse dos dois. Não sei se foi mau jeito na cama ou se terei apanhado frio. Dormimos de vidros abertos e eu só com um lençol a cobrir-me a pele. O meu marido, do lado dele, tem uma mantinha quente. Por causa disso, abrasa, no meu entender. 

Mas não sei se terá tido frio ou mau jeito. Alguma coisa foi. 

Além disso, não deu para apanhar sol e passar parte do dia na rua. 

Aproveito para estar a informar-me. Descobri agora, por exemplo, num vídeo, que o facto de ter praticamente deixado de usar saltos altos (depois de os ter usado durante toda a vida) e de andar muito mais do que antes andava será a causa de um incómodo que tenho sentido num dos calcanhares. Parece que o corpo precisa de adaptar a sua estrutura às circunstâncias. Faz sentido. E julgava eu que andar sem saltos era, incondicionalmente, boa coisa. E que caminhar bastante também. Afinal é desde que... Mas, ok, agora que já percebo melhor o funcionamento do meu corpo, ou melhor, do meu calcanhar..., já poderei adaptar-me.

Tenho aproveitado também para ler. Estou a ler um livro que é um bocado do caraças. Triste tigre de Neige Sinno. Costumo fugir um bocado destes livros mas qualquer coisa que me fez crer que não seria um livro qualquer. E não é. Mas, de vez em quando, tenho que parar e engolir em seco.

Mas, enfim, o que agora me apetece é ouvir uma música bem animada. 

Palermo magica - Abballati - Angelo Daddelli & I Picciotti

quinta-feira, setembro 05, 2024

A teoria do caos em palavras simples, palavras ao alcance de qualquer borboleta

 

O meu marido lesionou-se, anda a fazer fisioterapia. Tanto serra, tanto poda, tanto carrega que o ombro deu de si. Poderia ter paciência para fazer o que qualquer pessoa faz: ficar quieto, pôr gelo. Não tem. Mas de tarde pôs-se a ver um filme qualquer na Netflix e a seguir pôs-se a ler. Pensei que estava a levar a sério a recomendação de alguma contenção.

Entretanto, ao fim da tarde, quase noitinha, fui regar umas zonas não abrangidas pelo sistema de rega bem como vasos. Quando regressei, estava o pátio cheio de ramos e de folhas e andava ele com um serrote com um cabo de uns dois metros a cortar os rebentos ladrões da buganvília, uns ramos gigantes que crescem espetados em direcção ao céu. 

Entretanto anoiteceu, ficámos ali, já de luz acesa, a varrer e a limpar as mesas, as cadeiras, estava tudo cheio de flores e folhas, ele a juntar os ramos. Depois ainda fui regar outros vasos. Gostei de andar por ali nestas andanças já de noite.

O cão mais fofo também estava feliz, andava a brincar em nossa volta.

Tirando isso, posso acrescentar que estive a ler um livro do Paolo Cognetti, 'Sem nunca chegar ao fim'. Foi a minha filha que me empestou. Infelizmente já não foi traduzido pelo Pedro Tamen, que trazia uma sensibilidade poética muito especial aos livros anteriormente publicados em Portugal. Mas, ainda assim, é um livro sereno, um daqueles livros que me trazem prazer. Não há aventuras escaldantes, crimes inexplicáveis, dramas de caixão à cova. Há a descrição de uma caminhada na montanha. E eu acho isso maravilhoso.

Pelo meio, estive a escrever. Tinha uma ideia em mente mas, nestas coisas, as palavras têm vida própria. E estão a levar-me por outros caminhos. Quando acabei fiquei de olhos fechados a pensar: 'Para onde é que estou a ser levada?'. 

Há uma dose grande de imprevisibilidade nisto tudo.

Por exemplo, na minha vida recente aconteceu uma coisa completamente improvável. Aliás, uma sucessão de coisas absolutamente improváveis. Não só improváveis como, até, inexplicáveis. E nem vale a pena eu tentar compreender pois são eventos alheios que escapam totalmente ao meu controlo. O que sei é que, face a isso, estou agora metida em trabalhos em que até há duas semanas nem pensava. O que esteve na origem de tudo não consigo nem imaginar. Se fosse ficção, eu acharia inverosímil. 

É aquilo de que o bater de asas de uma borboleta aqui pode provocar um tufão no outro lado do mundo.

A simple guide to chaos theory - BBC World Service

According to classical physics and the laws of Isaac Newton, it should be easy to predict the behaviour of objects throughout the universe with relative ease.

But in 1961, a meteorologist unwittingly discovered this was not the case – that there was a lot more uncertainty around us. Here's how chaos theory and its butterfly effect, has changed the way we think about our Universe.


Dias felizes

terça-feira, agosto 27, 2024

Caro Leitor, não se assuste. Não fuja. Isto não tem que meter medo.
Vou falar, mas muito ao de leve, em Ser mortal

 

Sempre tive pavor da morte. Nunca consegui ver, ao vivo (passe o disparate da expressão neste contexto), nenhum morto.

Há pouco tempo uma amiga contava que, quando a mãe tinha morrido, tinha resolvido que ela iria (ora aqui está outro verbo desajustado neste contexto pois nenhum morto 'vai', quando muito 'levam-no') vestida com uma camisa de dormir branquinha com rendinhas. Depois resolveu mandar fazer uma bandelete com florzinhas para a mãe levar no cabelo. Diz que o pai, quando viu a mãe, disse que ela estava mesmo bonita assim. Perguntei se ela tinha conseguido ver a mãe, Disse que sim, claro. Corajosa.

Também nunca gostei de conversas sobre a morte. 'Ai que mórbido', sempre disse quando o tema deslizava para esse buraco (desculpem o mau gosto da expressão). Fugia a sete pés de conversas sobre doenças terminais, sofrimentos atrozes, estados de quase morte. Parece que tinha medo de ter medo, tinha medo de ficar a pensar no assunto e ficar aterrorizada.

Por isso, morreram-me pai e mãe sem que nunca nenhum de nós tivesse falado em vontades relacionadas com o seu fim. Quer dizer, o meu pai pedia muitas vezes para o deixarmos morrer. Mas ficávamos chocadas, não queríamos que ele dissesse isso, parecia quase coisa de mau gosto (olha que coisa mais estúpida de eu agora dizer). Mas quando ele, coitado, infeliz até à última das suas células, queria que o deixássemos desistir, eu era parva até dizer chega, dizia para ele não dizer isso, dizia que ele estava confortável na sua cama, não tinha dores. Burra, mil vezes burra. Como se estar numa cama (embora sem dores) fosse motivo suficiente para se querer viver.

Mas eu não estava preparada nem fui formatada nem aconselhada nem nada para lidar com uma situação assim. Apegamo-nos à vida daqueles que amamos e não os queremos deixar desistir. Nem paramos para pensar que, com isso, estamos apenas a querer que sofram mais.

Nunca me passou pela cabeça ter uma conversa assim: 'A sua vida vai disto para pior. Por isso, vamos falar francamente. Como gostaria de viver daqui até morrer?'. Nunca. Nunca. Nem teria coragem. Parece que estaria a assumir que admitia que ele fosse morrer. E, assumindo, poderia parecer que estava a desistir. 

Fui muito cobarde. Fingi até ao fim que ele teria razões para estar bem, que não deveria querer desistir. Se calhar, por isso, por me saber frágil, nem ele, nos seus momentos mais lúcidos e deprimidos, foi capaz de me dizer para deixar de ser parva, para cair na real, para assumir de vez que ele era mortal e que merecia poder ter uma palavra sobre como queria viver os seus últimos tempos.

Sobre a minha mãe, ainda foi mais traumático. Estando obviamente moribunda, nunca consegui deixar transparecer que sabia que ela estava por dias, nunca fui capaz de ajudá-la a enfrentar a sua mortalidade. Ela não queria morrer. As enfermeiras diziam que ela chorava e pedia para não a deixarem morrer. Eu ficava transida de medo que ela me pedisse isso a mim pois não saberia o que dizer, seria um sofrimento insuportável para mim pois, deixando que ela percebesse o meu sofrimento, provavelmente fá-la-ia sofrer ainda mais.

Quando a psicóloga da ala dos Cuidados Paliativos me chamou para falarmos, nunca cheguei a perguntar como, perante uma pessoa moribunda, devemos comportar-nos. Eu gostava de ter tido coragem de dizer: 'Vai morrer em breve, mãe. Toda a gente morre. Não é uma fatalidade morrer. Estamos a fazer de tudo para que sofra o menos possível. Não tenha medo, mãe. Não vai custar. Pode ir em paz que eu cá me arranjarei, não se preocupe comigo.' Claro que não tive coragem. Nem de longe nem de perto. O meu comportamento foi o mais oposto disto. Dizia: 'Está com melhor aspecto hoje. Não chore. Já esteve pior, está a melhorar. Tenha esperança'. 

Saía de lá arrasada. Não apenas me era doloroso até ao limite por vê-la assim como vinha atordoada por intuir que a minha cobarde atitude não seria a mais indicada. Ficaria ela mais tranquila se soubesse que eu iria aceitar bem a sua morte? Não sei, não faço ideia.

Já lá vão sete meses que a minha mãe morreu e quatro anos o meu pai. E continuo a achar que a forma como lidei com a sua finitude e com os momentos que precederam a sua morte foi pouco racional, muito dolorosa e que, para eles, não sei se foi a mais adequada ou se queriam também ter agido de outra forma e não o fizeram para me poupar ou porque não venceram os seus próprios medos.

Penso hoje, e penso cada vez mais, que a forma como toda a vida fugi do tema da morte e como fui poupada a isso, não faz sentido. Eu deveria ter estado melhor preparada.

No mês em que a minha esteve internada, às portas da morte, eu vi dezenas de vídeos em que médicos, enfermeiros ou doentes falavam da pré-morte. A minha família achava que eu, ao querer saber mais e mais e mais, estava a auto deprimir-me, corria o risco de ficar passada. Mas não. Estava apenas a querer adquirir algum conhecimento sobre algo para mim totalmente desconhecido. Mas não me serviu de nada. Continuei assustada, sem saber se devia assumir perante a minha mãe que sabia o que se passava ou se devia manter aquela atitude palerma de parecer optimista.

Uma outra coisa em que tenho pensado muito é na fobia e na aversão que a minha mãe tinha a medicamentos. Temia os efeitos secundários, achava que lhe faziam pior do que a doença em si. Por não tomá-los esteve duas vezes internada, o que, curiosamente, ela aceitava bem. Era como se ganhasse uma vida adicional. Pelo contrário ficava deprimida, assustada, aterrada, infeliz quando era convencida a tomar os medicamentos (e não sei se os tomava pois arranjava maneira de nunca ninguém ver). Mas não deveria eu ter respeitado a sua vontade e aceitado pacificamente que a minha mãe não queria tomar medicamentos? Só fico na dúvida pois ela não queria tomá-los porque preferisse morrer. Não. Ela queria viver. Queria era viver sem tomar medicamentos. E isso, em meu entender (e dos médicos), não era possível. Só que nunca houve a coragem de ter uma conversa franca em que num dos pratos da balança estivesse uma decisão consciente de encurtar a vida, embora vivendo a seu gosto, sem medicamentos, e no outro prato a decisão de tomar medicamentos e viver aterrada com os efeitos secundários.

São questões complexas. Ter conversas deste tipo exige preparação, coragem.

De uma maneira ou de outra todos teremos um dia que passar por situações assim ou com pessoas que nos são queridas ou mesmo connosco. Um dia, esperemos que longínquo, seremos nós a estar nas últimas. E, pelo menos pela parte que me toca, gostaria de ter a coragem de falar abertamente nisso com os meus, gostava de poder ajudá-los a enfrentar a situação da melhor forma melhor possível. 

Por exemplo, custa-me pensar que um dia, estando eu ainda lúcida e com vontade de viver, alguém possa decidir por mim que já não posso viver em minha casa, que tenho que ir para um depósito em que os velhos e os incapacitados passam os dias em cadeiras de rodas, a dormir de boca aberta, sem um único propósito de vida. Ou que, perante um cenário complicado, alguém me force a estar acamada, de fraldas, entubada, sem voz activa para coisa alguma.

Ou seja, é um tema que é bom que seja falado, discutido, que deixemos cair os tabus, que sejamos capazes de enfrentar os nossos medos, que conversemos, que troquemos experiências e opiniões.

Finalmente acabei o 'Ser Mortal' de Atul Gawande, médico. É um livro que gostei muito de ler. Fala da sua experiência pessoal e do que tem pensado e estudado sobre o assunto. O livro tem uns anos e os vídeos que aqui partilho também. Contudo parece-me que a realidade é ainda a mesma do que tudo ali se diz.

Dr. Atul Gawande on what we should .be asking in end-of-life care

Dr. Atul Gawande helped transform the conversation about aging and death in his book, "Being Mortal: Medicine and What Matters in the End." The book spent 85 weeks on the New York Times Best Sellers list and is now available in paperback. Dr. Gawande, a surgeon at Brigham and Women's Hospital in Boston, joins "CBS This Morning" to discuss the importance of focusing on how someone wants to live at the end of their life -- not just how to keep them alive.


When Should Dying Patients Stop Treatment? | Being Mortal |

Why is it so hard for doctors to speak openly with their terminally ill patients about death as the end nears? Dr. Atul Gawande, Boston surgeon and author of the best selling book "Being Mortal" had a remarkably candid and intimate conversation with the widower of a deceased patient and apologizes for offering false hope in the end. 

It's the story of Sara Monopoli who was diagnosed with Stage 4 lung cancer during the 9th month of her pregnancy at the age of 34.

Desejo-vos um dia bom
uma vida longa e feliz