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segunda-feira, dezembro 12, 2022

Paula Rego recordada por Lila Nunes

 



Conheci a Paula Rego em 1985 – vim de Portugal como au pair para ajudar o marido dela [o artista Victor Willing] que tinha esclerose múltipla. Os seus filhos estavam crescidos pelo que eu não precisava de cuidar deles. Foi um ótimo tempo. Dei-me bem com a Paula desde o início. Vi-a pela primeira vez quando ela estava prestes a sair para o teatro - ela era muito glamorosa. Ela disse "Olá" brevemente e acrescentou que sentia muito por se ir embora e disse-me que me veria mais tarde naquela noite ou no dia seguinte. Saí e, quando voltei, a Paula estava a tomar uma taça de champanhe com uma de suas filhas, a Vicky, e convidaram-me para tomar uma – claro, tomei várias – e foi uma ótima noite.

A Paula tinha o dom de deixar as pessoas à vontade. Era uma boa ouvinte, interessada no que dizíamos, dedicava tempo às pessoas, não fazia julgamentos. Falávamos sempre em português. Não sei se ela sentia saudades de Portugal, mas conversávamos muito sobre isso: o comportamento dos portugueses, a política, a culpa e a vergonha associadas ao catolicismo, e falávamos sobre ser mulher.

As minhas funções eram ajudar o Vic com as suas pinturas e transferi-lo de sua cama para uma cadeira de rodas. Paula mostrou-me como esticar uma tela. Não falávamos sobre como esse momento era difícil para ela – ela seguia em frente. Ela preparava o café da manhã para o Vic, partia para o estúdio e, na maioria dos dias, voltava a tempo de preparar o jantar dele. Tenho a certeza que foi por eu fazer parte do cenário doméstico que Paula e eu nos aproximámos tanto. As nossas conversas eram principalmente sobre trabalho porque era através do trabalho dela que tudo acontecia. Quando o Vic era vivo, ela trazia trabalho para casa, pendurava-o na parede e ele comentava, dava conselhos. Depois de ele ter morrido, ela dizia sempre que sentia falta dele e que era muito difícil sem ele. Ela teve que fazer tudo sozinha e isso foi muito difícil.

Pensando bem, acredito que ela estava a lidar com uma depressão há muito tempo. Aprendeu que a maneira de lidar com isso era continuar a trabalhar. Num domingo, ela disse: “Posso fazer um desenho seu?” Eu nunca tinha servido de modelo antes. Não pensei nisso, só estava a tentar ajudar – simplesmente aconteceu. Lembro da Vicky a dizer: “Não podia acreditar, fui lá em casa e lá estava você, como a coisa mais natural, posando para a Paula...”

Paula e eu mantivemos contato e, em 1994, ela ligou para perguntar:
Poderia ir ao estúdio? Então, no meu dia de folga – eu trabalhava como enfermeira – eu vim e foi aí que [o quadro] Mulher Cão começou. Às vezes, Paula contava-me a história em que estava a pensar. Noutras ocasiões, ela tentava uma pose para mostrar o que estava a procurar. Assim que eu me posicionava, ela dizia: “Muda esse braço, muda o pescoço”. Outras vezes dizia: “Sim! É isso." Ela fazia muitos desenhos para encontrar o que procurava… Uma das poses mais difíceis foi em 1995 – a pintura de uma mulher onde não fica claro se ela está a puxar as cuecas para cima ou para baixo. Todo o meu corpo tinha que estar rígido. Foi muito difícil – os meus joelhos dobravam-se – tive que ficar parada por horas.

A Paula gostava de rotina. Trabalhávamos das 10h às 19h. A primeira coisa, tomávamos café e conversávamos, e isso podia durar 10 minutos ou duas horas, dependendo de como fosse a conversa. Eu dizia: “Escute, estamos a conversar, a conversar – temos que trabalhar”. E ela dizia: “Tudo isso faz parte do trabalho”. Desenvolvi um modo zen, distanciei-me da pose. Eu não iria olhar para o que ela estava a fazer. Ouvíamos ópera pela manhã – bem alto. A Paula tinha um sentido de humor maravilhoso. A estranheza de outras pessoas fazia-a rir, como as pessoas reagiam – a comédia da linguagem corporal. Costumávamos chamá-lo de “aquela coisa”.

A Paula uma vez disse sobre mim: “Ela é realmente eu mesma”, e o que ela quis dizer, eu acho, é que ela podia ver através de mim e revelar o que quer que estivesse na sua mente. Não é a mim que me vejo nas pinturas, é principalmente a ela – à sua vida interior – e às vezes não é nenhuma de nós. Nunca penso: aquela ali sou eu. Penso: lembro-me daquela pose, como era difícil.

A saúde da Paula começou a piorar por volta de 2009 e ela disse: por que não passa a trabalha para mim a tempo inteiro? E assim fiz. Ela continuou a trabalhar todos os dias até quase ao fim. E quando ela estava muito doente para ir ao atelier, ia eu a casa dela e passávamos o dia a desenhar com pastéis. Ela continuou, não desistiu.

Mesmo agora depois da sua morte – pensarei sempre nela e verei coisas que seriam boas para o seu estúdio. Eu costumava comprar os adereços. Sempre que eu saía para fora, voltava com coisas: bonecas brasileiras, roupas de criança, um sombrero de Monterey. Certa vez, a Paula pediu-me para encontrar um papagaio de cerâmica numa viagem a Brighton. “Precisamos de um papagaio”, disse ela. Não consegui ver muitos papagaios em Brighton, mas encontrei um.

A sua morte deixou uma lacuna na minha vida. Agora encontro-me num limbo. Sem saber o que fazer. Sinto muita falta dela. Ela era muito generosa, mas a sua confiança em si mesma era facilmente derrubada: uma crítica negativa poderia fazer isso. Ela trabalhava e trabalhava, mas precisava de alguém que lhe dissesse que o trabalho era bom. Quando começámos aqui, quase ninguém vinha ver o trabalho até que estivesse pronto. Ela não atendia o telefone, as pessoas deixavam mensagens. Talvez a dúvida fosse necessária para o trabalho. Lembro-me dela a dizer: “Não, não, não…” antes de fazer uma qualquer mudança numa pintura. Eu pensava: “Ai meu Deus... mas estava tão bom...” Só depois de  ela fazer a alteração é que eu percebia.

Não sei se, mesmo no final da vida, ela sabia o quanto era amada e respeitada como artista. “Lila, imagine, a Tate vai fazer uma retrospectiva”, disse-me. E eu disse: “Pelo amor de Deus, já deveria ter sido feita há muito tempo.” A visibilidade do ano passado deu-lhe um impulso maravilhoso – ela foi à abertura e foi fantástico. Quando fui, senti... vi o fim.

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Cometi a ousadia de aqui ter o artigo na íntegra uma vez que o jornal é de leitura aberta (embora apele à generosidade dos Leitores). A tradução foi feita a meias entre mim e o tradutor da Google a partir do artigo Paula Rego remembered by Lila Nunes no The Guardian integrado na série The Observer's obituaries of 2022

A fotografia lá em cima mostra Paula Rego no seu estúdio em 2018 e é da autoria de Phil Fisk/The Observer. A segunda, propriedade de Lila Nunes, mostra-a com Paula Rego em 2018.

A pintura é Dog Woman, 1994, de Paula Rego (com Lila Nunes como modelo). Fotografia: Copyright Paula Rego, Cortesia Marlborough Fine Art’

A música, "Un bel dì vedremo (Madama Butterfly)" de Puccini por Renata Tebaldi, é uma escolha minha

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Paula Rego viveu entre 26 de janeiro de 1935 e 8 de junho de 2022

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Desejo-vos uma boa semana a começar já por esta segunda-feira

Saúde. Compreensão. Paz.

sexta-feira, junho 17, 2022

A room with a view -- in heaven

 


Chovia. Trovejava ao longe. Aquele som que parece familiar, uma companhia longínqua. A serra difusa, envolta em nuvens. As árvores e as flores e os musgos molhados, exalando perfume e melancolia.

Caminho devagar, inspirando o ar tão puro, caminho e ouço os pássaros, caminho sentindo-me fora do mundo em que geralmente habito. Caminho devagar, olho a copa das árvores já tão altas, olho o céu que se esconde acima da neblina branca e silenciosa.

Quando passo ao lado da casa, olho par dentro. O meu ninho, o meu conchego, o sofá onde costumo sentar-me, os espelhos por cima do sofá, a almofada forrada a lantejoulas douradas, o reflexo da folhagem e das flores no vidro da porta que quase parece uma renda. Guardo em mim a imagem, penso que vai ser uma recordação eterna de um momento efémero. Depois fotografo. Penso: vou oferecer esta imagem, vou deixá-la voar no vasto espaço etéreo onde tudo flutua, palavras, imagens, sons, emoções, sonhos, memórias.

Aqui está. A room with a view. Ou melhor: A view with a room. Momentos de felicidade em estado puro.

quinta-feira, setembro 26, 2019

O efeito borboleta





Sabes? Hoje li que as borboletas estão a desaparecer. Notícia triste, não achas?

No outro dia dei comigo a pensar que não sei para onde vão as borboletas quando morrem. Nunca as vi caídas no chão. Pensei que, se calhar, vão para o céu. O que achas? Um céu cheio de borboletas, já pensaste? 

Li que o desaparecimento tem a ver com as alterações climáticas. As borboletas e outros insectos. Li que a polinização pode ficar em perigo e, sem polinização, o que acontecerá é tão mau que nem quero falar-te nisso.

Mas deixa que te conte outra coisa. No outro dia, vieram chamar-me para ver. Fotografei-a, claro. Uma borboleta muito bonita.


Uma semana depois fotografei outra, igualmente bonita. Mais colorida. Depois, no mesmo sítio da primeira vez, vi outra igual à primeira e pensei que poderia ser a mesma. Depois pensei que não sei se as borboletas conhecem os lugares, se voltam a eles, se pensarão que estão a voltar a um lugar onde já foram felizes. Também não sei se pressentem as pessoas por perto.

(Tu pressentes-me?)

Contemplei-as, encantada com a sua beleza. E intrigada. Faz-me muita impressão que um ser tão belo -- uma daquelas belezas perfeitas para as quais conseguimos encontrar explicação: simetria, harmonia, conjugação feliz de cores -- resulte de uma metamorfose que parece um passe de mágica. Sabes o que penso? Penso que o mundo real é, afinal, um mundo de magia onde os milagres acontecem. E isso enche-me de esperança. 

Eu não sei como explicar que seres tão sublimes habitem o mesmo mundo que eu. Não sei se para seres assim, que nascem outros e que são tão efémeros na sua extrema beleza, o tempo é o mesmo que o meu. Não sei se uma borboleta, recém nascida depois de ter sido outro ser, tem consciência de como o tempo passa. Não sei se sente que o seu tempo se esvai mais rapidamente do que para mim. Talvez não. E talvez seja o meu tempo que passe sem que eu o sinta, tão longe estou. Tão longe estou. Tão longe. Sentes isso, não sentes?

Que tempo é o nosso?


Sentirá a solidão, a bela borboleta cujo tempo se esvai? Sentirá que um dia ninguém mais saberá dela? Saberá que um dia o bicho anterior não mais se transformará, deixando-a por acontecer? Quantas coisas, diz-me, quantas coisas ficam por acontecer sem que ninguém o saiba?

Olha. Fecha os olhos e pensa. Como ficará o mundo sem a beleza efémera das borboletas? Consegues imaginar? A tristeza e a escuridão descerão sobre nós? Ou teremos nós, entretanto, adquirido a capacidade de nos transformarmos em seres sem destino, inexplicáveis, fatalmente belos e efémeros? 

Faço muitas perguntas, não é? É que não sei respostas, sabes? Tu sabes? Tens respostas para mim?

Saberás tu que contemplo a beleza das borboletas? Saberás que sinto que o tempo, um dia, nos surpreenderá na sua suprema sabedoria? Será que deus, afinal, é o tempo? O tempo que está em todo o lado, infinitamente sábio, infinitamente bondoso. Um deus que nos transporta, que nos suspende, que nos traz os sonhos que nos mantêm vivos. Um deus que nos abraça. Que nos traz a palavra que nos abraça. Que nos traz aquele olhar. Aquele sorriso. A tua mão que se estende até mim. Mesmo que em sonhos.


Olha, não me respondas. Prefiro não ter respostas, prefiro sonhar com borboletas livres e eternas voando e dançando in heaven.  Prefiro adivinhar-te. Prefiro pressentir-te aí, imóvel, escutando em silêncio a minha respiração.

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E prefiro não pensar no dia em que as borboletas vão desaparecer

E sabes porquê, não sabes? É que não sei se ainda vamos a tempo de as convencer a ficar por cá e isso entristece-me muito.  

O que achas? Temos tempo? Vamos ter o nosso tempo?

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E agora, a quem possa interessar, convido a descer até ao post seguinte. É o avesso do outro, do das metáforas. 

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E um dia feliz a todos.

sábado, março 16, 2019

Fantasias e delírios?
Ná.
Provocações e irrealidades?
Ná.
Lágrimas e suspiros também não.





Se falo verdade, há quem ache que ficciono. Tem graça isso -- e digo que tem graça porque, na realidade, não segue qualquer lógica. Se digo que fui boa aluna, desacreditam. Se dissesse que tinha sido má aluna acreditavam. Não percebo o racional dessas pessoas. Uma vez, numa história toda ficcionada que se bem me lembro incluía príncipes marroquinos a dizerem poesias, inventei uma cena que metia um jantar num palacete numa das mais belas vilas do país. Descrevi a casa, a decoração, o requintadíssimo repasto que lá tinha tido dias antes. Pois foi nisso, que era a única coisa verdadeira da história, que algumas pessoas não acreditaram. Acharam que estava a armar-me ao pingarelho. 


Licenciei-me num estabelecimento de ensino do mais clássico que há, fiz um curso que só não foi uma tareia das valentes porque sou dada a pôr os pesadelos para trás das costas. E, não sei com base em quê, há quem aqui chegue para dizer que devo ter feito daqueles cursos à Relvas, equivalências e diplomas ao domingo. Uma vez mais, não consigo compreender a linha de raciocínio de quem assim pensa.

E dizem-me que gosto que me massagem o ego. Nada mais errado. Se há coisa que detesto -- mas que detesto mesmo -- é de ser bajulada. No meu dia a dia, se alguém ensaia puxar-me o saco nem chega ao primeiro acto, vai logo de asa. E se há coisa que me diverte e me dá pica é que tentem arreliar-me. Tal como na 'vida real' gosto de uma boa disputa, gosto de discutir política, gosto de debater ideias sob visões antagónicas, aqui acontece o mesmo. Mas isso é diferente do insulto gratuito. Mas, mesmo assim, fico com vontade de dar troco. Se aqui calha aparecer um daqueles comentários que destilam fel ou parvoíce, é com entusiasmo que me atiro a dizer das minhas.


Também há quem se queixe que falo muito de mim. Presumo que sejam pessoas que não gostem do registo autobiográfico. Mas essas pessoas devem perceber que o que se passa aqui é coisa marginal na minha vida. Ponho-me a escrever porque gosto de escrever. À hora a que escrevo não tenho discernimento para ter muito assunto. Tal como os pintores que, à falta de modelo, se põem ao espelho e fazem auto-retratos, também eu, à falta de melhor assunto, falo de mim. Não frequento redes sociais, mal vejo televisão e, se não me ocorrem umas bocas sobre a actualidade, não tendo do que falar mas fervilhando-me os dedos para escrever, falo do que fiz ou do que me lembro. Se falo de mim, não invento. A menos que escreva uma história na primeira pessoa, mas aí é óbvio que se trata de ficção, no resto o que digo é tal e qual. E acho que se percebe quando é e quando não é história.


Por exemplo, se escrever assim:
Estava a conduzir numa das mais movimentadas avenidas da cidade. À minha frente, um carro branco, que reparei que tinha muitos anos, abrandou. E, para minha estupefacção, uma porta abriu-se e de lá saltou um pequeno gato preto. Travei, assustada, o coração acelerado, temendo matar o gatinho e, ao mesmo tempo, temendo que um carro me batesse. Sem ver o gatinho, sem saber em que direcção tinha ido, fiquei sem saber se podia andar. Os carros atrás de mim travaram. Avancei devagar, aflita. Mas não senti nada. Olhei para todos os lados. Nem sinal do gato. O carro branco acelerou, mudou de faixa e saíu por uma rua à direita. Ainda atordoada, pensei na maldade extrema de quem tinha feito aquilo de propósito para matar o bichinho. 
ou
Estava a conduzir. Num semáforo, ao parar, reparei que no carro ao lado estava um advogado que costumo ver frequentemente na televisão. Via-se que falava em alta voz. Ria, falava. A vantagem do bluetooth. Depois, como o sol lhe batesse nos olhos, pôs uns óculos escuros. Homem com muito charme. O sinal abriu, arrancámos. Encostei para virar e ele também, na faixa ao lado da minha. Estava calor, abri o meu vidro. Do carro dele vinha agora o som de uma ária. Pensei: Tosca. Mais à frente, pouco antes de passar por uma rua onde se encontra um dos grandes escritórios de advogados, o carro dele abrandou para virar. Reparei que ao seu lado estava agora uma mulher. Não estava antes e, no entanto, nenhuma mulher tinha entrado. Quando olhei, reparei como sorriam, ela ajeitando o cabelo.
penso que é claro que uma das narrativa é cem por cento verdadeira e que outra tem uma pitada de ficção (embora não mais que uns cinco por cento de ficção), pitada essa que, só por si e em conjugação com o lado deliciosamente verdadeiro, me deu vontade de desenvolver um suculento folhetim.


E, uma vez mais, estou com isto não porque seja importante para mim que saibam tão relevantes frioleiras mas porque me apetece escrever e não me ocorre outro assunto. Há assuntos fantásticos, fracturantes ou sensíveis sobre os quais deveria, a esta hora, dissertar em vez de estar com esta conversa de nada? Pois, acredito que sim. Por exemplo, poderia falar sobre a beleza monástica dos lírios ou sobre a lucidez sensata dos substantivos que não carecem de adjectivos ou ainda da delicadeza angelical dos olhares que caem, oblíquos, sobre o meu decote. Ou poderia falar da tristeza dos ramos nus dos plátanos ou da alegria saltitante dos passarinhos que cantam nos beirais dos blogs. Poderia, claro, mas não seria a mesma coisa.

É que aqui não há regras, não há agenda, não há propósito. Aqui não há altares, muito menos santinhas. Aqui, quem vem, vem para jogar. Mesmo que seja ao jogo da verdade ou consequência. Ou apenas para jogar às verdades. Ou para esconder o jogo. Ou para piscar o olho. Ou para mostrar as cuecas.

E espera-se que quem cá vem alinhe. E dance. E escute. E olhe. Ou seja respeitador e desvie o olhar.

Ou não.


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E para os que não acham graça a estas desconversas, tenho aqui dois vídeos muito bons que espero que compensem a falta de substância das minhas desnutridas palavras.


Na casa de Maggie Gyllenhaal e Peter Sarsgaard em Brooklyn




Arte é vida - A colecção de Marianne e Pierre Nahon


E tenham um belo sábado, está bem?

domingo, maio 20, 2018

Ai flores, ai flores do meu heaven, sabedes porque cresceis tanto?






Portanto, acabámos por chegar aqui, in heaven, já bem ao finzinho da tarde. Já nem abri as portadas, daí a nada estava a anoitecer. Só abri as de dentro, de vidro, para arejar. E, de máquina fotográfica ao peito, fui logo laurear.

Estava um fim de dia todo ele doçura. Uma luz dourada, suave, os pássaros cantando, as flores despontando por todo o lado, tantas, de todas as cores, perfeitas, lindas, perfumadas. 


E as árvores assombrosamente altas. Muitas, no sítio onde as podámos, têm agora tufos de rebentos.


Olho-os com encantamento porque estou a testemunhar a força imbatível da natureza, não se rendendo, reinventando-se.

O meu marido não: diz que, ao ver aquilo, pensa que mais vale desitir, que nunca vamos conseguir domar aquela força.

Compreendo-o. Muitas vezes penso o mesmo. Mas não o verbalizo porque parece que tenho medo que a terra me ouça e nunca mais faça de conta que está a deixar alindar-se às minhas mãos. É um dos casos em que prefiro iludir-me.


Como sempre, quando chegamos já fora de horas e os pássaros estão convencidos de que não aparecerá alguém para os perturbar, quando passo ouço a agitação que se forma no meio da folhagem até que se libertam, arreliados por terem sido incomodados com a minha presença. Hoje, de dentro da azinheira grande, até penas eu vi caírem quando umas rolas esvoaçaram de lá de dentro. 

E, no entanto, vou silenciosa, andando devagar enquanto olho o prodigioso crescimento dos arbustos e das árvores desde a semana anterior. Como é que desta terra pedregosa sai tanta vida? Espanto-me. Não me canso de me espantar.

Olho o rosmaninho, os oregãos que já estão a ficar grandes, o tojo que o meu marido cortou e que já está a rebentar de novo, verdinho, arrebitado, o alecrim que está viçoso, enorme. Apanho um ramo de alecrim para o jantar.


Os arbustos de madressilva estão enormes, carregados de flores. Trepam pelas aroeiras, enfeitam-nas, perfumam-nas. Ocorre-me a palavra luxuriante mas talvez sejam inocentes demais para esta adjectivação que associo a alguma sofisticação na exuberância e estas florzinhas são tão bonitas e simples que mais parecem ser próprias para um idilíco paraíso do que para uma selva tropical. 

Depois, vim para casa. O meu marido continuou lá fora, nas suas lidas. Gosta quase tanto de cá estar quanto eu. Ou, na volta, tanto quanto eu mas, como é pouco expansivo na exibição das suas emoções, não o demonstra de forma tão expansiva quanto eu.


Em dias assim trago para fazer para o jantar uma coisa simples, que se faz rapidamente e que se come sempre bem: lombos de salmão congelados. Claro que, apesar de virem num saco térmico, já estavam descongelados.

Para acompanhar só cá tinha batatas, das normais e das doces. Se, na vila, o pequeno supermercado estivesse aberto quando por lá passámos, teria comprado tomate para fazer arroz de peixe ou, então, salmão em tomatada para acompanhar com arroz branco. Mas claro que já não havia onde comprar nada. Portanto, um jantar mais minimalista.

Liguei o forno. Quando quente, coloquei um pequeno tabuleiro com azeite no fundo, uns raminhos de alecrim, os dois lombos com um pouco de sal, mais alecrim e reguei-os a azeite. Ao colocar o tabuleiro, reduzi a temperatura para 160º. Entretanto, pus algumas batatas a cozer. Quando estavam já a amolecer, tirei-as do tacho e coloquei-as no tabuleiro, ao lado do salmão. Rebolei-as no azeite e no alecrim. Depois, para dar um ar da minha graça, pus um pouco de vinagre de Modena por cima. Voltou tudo ao forno para alourar e uniformizar sabores.

Acompanhámos com alface. Estes ares saudáveis abrem-nos o apetite.

As nêsperas já estão amarelinhas mas ainda precisam de ganhar mais doçura. Como sempre, já começou o despique com os pássaros. As mais doces já eles lá andaram a debicar. Sempre isto. 


Amanhã vou à horta buscar morangos. Cá de cima, vi que já lá estão encarnadinhos. Por entre os ramos das couves que se puseram gigantes e floridas, lá estão eles.

Os figos ainda estão muito no início, só lá para o Verão estarão carnudos e doces. As uvas ainda são apenas uns pontinhos minúsculos e verdes agrupados em cachos. Ainda falta até que estejam roxas e doces. 

As transformações da natureza maravilham-me. São metamorfoses mágicas. Milagres. Nestes milagres eu acredito: vejo-os, cheiro-os, como-os.


Só os figos da figueira brava estão desenvolvidos. Não são figos a sério. Por dentro nada têm que comer. Caem cedo. Mas a figueira está perto da casa e no verão dá uma sombra fresca, boa e cheirosa. 

Não quero cortá-la. O vizinho assusta-nos, diz que esta árvore é traiçoeira, deita raízes que se infiltram dentro de casa, que vêm agarrar-se aos canos. Diz que podem levantar o chão de uma casa. Sei que é verdade. Quando fizémos obras na cozinha, havia uma teia de raízes entre a parede e o armário e, de facto, tinham vindo enlear-se na canalização. O meu marido, que tem sentido prático, já disse que, se calhar, o melhor é mesmo cortá-la. Eu não quero nem ouvir falar nisso, prefiro arriscar. A árvore é magnífica e a sua sombra -- que me traz os cheiros do Algarve, de quando eu era pequena e ia ficar nas terras da minha avó, onde se secavam figos, amêndoas e aflarrobas -- é preciosa. 


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E, por agora, é isto. Mas, antes de me ir, deixem que partilhe convosco o vídeo abaixo. Ouçam a voz deste jovem, vejam a sua emocionante actuação, vejam como o seu sonho se trasforma numa assombrosa realidade. 

Gruffydd Wyn interpreta Nessun Dorma 


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E, caso tenham agora chegado aqui e ainda não tenham estado na praia comigo, queiram descer, talvez até para colherem algumas das florzinhas que lá crescem no areal.

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segunda-feira, novembro 13, 2017

Memórias com lágrimas


Filipe disse o poema. Benedita ouviu-o de olhos fechados. Pensou que poderia ficar a vida inteira assim, tranquila, de olhos fechados, ouvindo Filipe a contar histórias, a desfiar memórias, a dizer poesia.

Quando acabou, foi como se acordasse, como se tivesse que encarar o mundo de novo.




E pediu: Mais, Filipe. Não pares. Parece que a tua voz cura a minha ansiedade, faz-me esquecer os meus medos. Talvez vocês não saibam. Tenho sempre medo. Medo pelo que a minha mãe possa fazer. Tanto medo. Ela pode voltar a fazer o que já fez. Ela nunca mais se cura. Tenho tanto medo. E medo pelo que a minha irmã possa fazer. Posso nunca mais saber dela. Medo pelo que o meu pai possa fazer. E nem sei dele. Se calhar já nem é vivo, se calhar nem se lembra de mim. Medo por mim. Medo que um dia acorde e o meu rosto esteja deformado, medo de não conseguir sorrir, medo de não conseguir enfrentar a luz do dia ou a luz dos flashes, medo de acordar sem me lembrar do meu nome, medo de não ter vontade de viver. 

Ou outros ficaram em silêncio. 

Depois Meninha reagiu. Abraçou-a, fez-lhe festas no cabelo: Que é isso, menina, nem diz bobagem, não. Menina tão linda, tão boazinha... Pr'a quê essa tristeza, esse mal de viver...? Deixa isso pr'a lá. Fico até assustada por você. Porquê isso, Beny? Não tem razão pr'a isso, não. Qu'é isso, menina? Deixa isso pr'a lá, menina, deixa mesmo, ouviu? Me escute: cê não sabe o que é medo, não sabe o que é ter razão pr'a ter medo, menina.... Se eu fosse te contar meus troços, cê nem ia acreditar.'

E parou.

Benedita, surpreendida, disse: Sempre tão alegre, Meninha. Sempre te vi tão alegre. Que medos são esses...? Conta...

Filipe, baixo: Se não quer, não fala, Meninha. Deixa. Eu continuo a contar histórias...


Então, repararam que Meninha deixava correr uma lágrima enquanto começava dizer em voz baixa e trémula: Tanta pobreza na minha meninice, viu, Beny? As crianças eram criadas na rua, comiam o que os vizinhos davam, o que achavam, o que pegavam. Levava tareia de toda a gente. Não era igual aos outros menino, não queria aquela pobreza pr'a mim, não aguentava mau-trato. Fugia da rua, ia pr'a avenida, pedia dinheiro a quem passava. E vinha o policial e me levava. Ia pr'a casa de correcção. E fugia. Não aguentava. Queria outra coisa pr'a mim. Minha mãe teve pr'a cima de dez filhos, nem sei, a gente nem contava os que vinham chegando, ninguém ligava pr'a nenhum, nem ela ligava. Acho que dava alguns. Os mais bonitos, sempre havia alguém que queria pegar. Dos outros, nem isso ela queria saber, nem dava nem queria saber. Pai não conheci. Ninguém queria saber de uma criança suja e esfomeada que andava fossando pelas rua. Não sei como me criei. Ia na escola uns dias e fugia nos outros. Fui aprendendo. Mas fiquei bruta, sabendo coisa nenhuma. Um desgosto ser assim, uma ignorante. Não tenho raízes, não. Quando andei na rua passei muito e nem posso dizer quanto. Quero esquecer. Criança pobre, sem dono, aceita tudo pr'a poder ter alguma coisa pr'a comer. Até que um dia um senhor que era director numa televisão quis saber de mim. Era importante, ele, gente fina. Me ajudou muito. O que eu fiz pr'a ele não conto, tenho é dívida. Deu comer, deu tecto. Aí já eu tinha treze ou catorze anos, espigada. Levava-me com ele nos estúdios, fazia limpezas, fazia tudo, ninguém dizia que eu era tão novinha assim. Aprendi a tratar cabelos, a fazer maquilhagens. Foi lá que arranjei maneira de vir pr'a cá. Não aguentava mais.

Benedita, a medo perguntou: Mas ele não te tratava bem, Meninha?

Tratava, sim. Mas não do jeito que eu queria. Sofria muito, mas tudo escondido. Tinha medo que ele me pusesse na rua, não me levasse mais com ele. Fui fazendo o que ele queria. Mas era uma menina, sabe? Tinha meus sonho, minha liberdade pr'a conquistar. Não queria ser serva. E a voz de Meninha muito presa, agarrada às más memórias, era uma voz cheia de infelicidade.

Benedita, temendo o pior: Mas ele não tinha família?

Meninha, quase rouca: Tinha. Mas não dava muita bola pr'a ela, não. Visitava eles às vezes mas nunca conheci. Mas tinha muitos amigos. Políticos. Gente da moda. Gente do cinema. Jornalistas. Vivia sozinho. Mas tinha muita visita. Uma cobertura de luxo. Muitas festas, muita comida, muita bebida. Todos cheiravam. Queriam que eu também. Não ia acreditar se eu contasse. Muita coisa. Muita meninagem, às vezes, também. Coisa que não quero nem lembrar.

Filipe abraçou-a. Deixa, Meninha, não conta. Deixa. Há coisas que o melhor é deixar enterradas no passado. Para quê remexer? Não conta.


Depois, tentando sorrir: Olhem, meninas, a conversa está triste. Vamos parar com isto. Vamos ouvir música. Posso fotografar... Querem? Ou preferem dançar...?

Benedita abraçou Meninha. Não disse nada. Apenas abraçou.

Depois disse: Boa. Vamos fazer uma sessão. Vamos divertir-nos. Chega mesmo de tristezas, de más recordações, de medos. Já chega. Vamos fazer uma sessão das boas. Filipe, mostre o que vale. Apague a tristeza do nosso rosto. Vem Meninha, vamos escolher uma roupa bonita.

Mas Meninha ficou jururu mesmo. Sentou-se num canto do sofá. Tentou sorrir, fazer piada. Vai você, Beny. Fico a ver. Prefiro, acredita. Faz tua cara mais hot. Arrasa. Faz Filipe salivar, vai. Ele que é tão abusado... deixa ele pr'a morrer, vai.

E, então, Beny começou a despir-se, procurando com o olhar a objectiva de Filipe. Toda a sua vontade de viver naquele olhar, como se do que ele soubesse conquistar dependesse a sua vida. Vai Filipe, mostra do que és capaz. Faz parecer que sou a sua wild rose. Ou não. Faz parecer que sou uma leoa sem medo. Faz parecer que estou aqui para te conquistar. Faz parecer que estou aqui para te comer, Filipe, faz...




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O episódio que acabaram de ler e que acabei de escrever, o oitavo, vem na sequência de:
Sétimo episódio: Noite de histórias
Sexto episódio: Noite de juízo
Quinto episódio: A solidão das mulheres bonitas
Quarto episódio: Actos falhados, sentimentos desencontrados 
Terceiro episódio: Uma wild rose com red carnations nos seios 
Segundo episódio: Beny e Meninha numa tarde especialmente quente
Primeiro episódio: Wild Rose
................... 

domingo, junho 25, 2017

Indócil, não me permito
sossegar no rumor
nem fugir da minha vida

ignorando o fulgor


Pela primeira vez desde há algumas semanas, Lu resolveu sair de casa. Arranjou-se, pegou em livros, na máquina fotográfica, no portátil, meteu alguns alimentos num saco térmico e foi para o campo.




Voltou a gostar da sensação de conduzir. Na estação de serviço olhou para as primeiras páginas dos jornais. Receava ver alguma coisa. Não, só o expectável. Quase lamentou. Inconscientemente, era como se preferisse que o que acontecesse não fosse de sua responsabilidade.

Quando chegou a sua casa, surpreeendeu-se com a altura dos arbustos junto à vedação. Floridos, as cores quentes do verão, aquele perfume doce e intenso de que tantas vezes sentia saudades.


As árvores, enormes. Tudo parecia ter crescido de uma forma inusitada. Um bosque tal como ela tinha sonhado quando o terreno não passava de uma matagal raso no meio de um terreno pedregoso.

Quando abriu a casa reconheceu aquele cheiro tão característico. A casa parecia guardar todo o ano a memória das noites de lareira. Sorriu como que agradecida. O ambiente mantinha-se familiar apesar do abandono a que ela ultimamente o tinha votado.

Quando saíu à rua pareceu-lhe ver passar, no chão, um pequeno vulto. Foi ver melhor e não viu nada. Talvez uma ilusão de óptica.

Saíu pelo campo, câmara fotográfica, disponibilidade para o encantamento de antes. Aproximava-se, baixava-se, redescobria o prazer de captar as quase invisíveis belezas que a natureza guarda apenas para os olhares mais atentos.


Enquanto ia andando, aspirando o ar limpo e perfumado e sentindo o canto dos pássaros, ia recordando todas as vezes recentes em que lá tinha ficado com ele.

No período em que tinha vivido com o outro, aquele a quem os pais tratavam como um filho e de quem sempre esperaram que viesse a vir um neto, ficavam lá todos os fins de semana e, por vezes, no verão, toda a semana. Mas ele era demasiado boa pessoa para a prender. Dele apenas vinha acalmia, compreensão, ternura, uma vida previsível, e ela queria fogo, desafio, desequilíbrio. Mal se separaram, no dia seguinte, já ela estava a reatar com aquele a quem mentalmente tratava por traste. Não era amor, não era desejo, era sobretudo o gosto pelo risco, por pisar o risco. E, a partir de certa altura, percebe agora, a vontade de o destruir.


As idas ao campo voltaram a ser mais esporádicas. Ele era casado, tinha uma agenda familiar, e ela não gostava de lá estar sozinha. Contudo, ambos tinham deslocações frequentes ao exterior pelo que era normal, para ele, dizer em casa que tinha que ir para fora mas que estaria de regresso um ou dois dias depois. Lu aceitava bem que assim fosse e tinha o cuidado de que ele, na medida do possível, não lesasse o equilíbio familiar. Por vezes, parecia que era maior o cuidado dela pela família dele, do que dele próprio. Ali, na casa de campo dela, ele sentia-se em casa. Dizia-se um homem do campo.
Aliás, dizia-se mais do que isso, dizia-se um agricultor. Mas ela dava desconto pois, mitómano como era -- mitómano ou megalómano, que, entre uma coisa e outra, ela nunca tinha conseguido optar pela classificação mais adequada -- ele achava que tinha alma de tudo, de empresário, de camponês, de nobre, de homem do povo, de marchand de arte, de benemérito, de intelectual, de connaisseur de mulheres, de vinhos e de rosas. Claro que com o dinheiro que tinha possuía herdades onde se fazia vinho, possuía obras de arte para dar e vender, era patrono de cinquenta mil organizações que a companhia ou a fundação a que presidia ajudavam. Mas ele, ele mesmo, era pouco mais do que um narciso contemplando-se no espelho da comunicação social, das redes sociais e, até, no site da empresa e, mesmo, na intranet onde fazia com que se cultivasse um verdadeiro culto de personalidade em torno do extraordinário senhor presidente.
Estar no campo sozinha, ficar lá à noite, era, pois, experiência nova para Lu. Mas estava a agradar-lhe.


Maravilhada pelas pequenas flores do campo, pela natureza em estado quase selvagem, Lu sentia-se sempre mais livre. Fotografava tudo, encantada com a luz, com o efeito de halo luminoso que parecia rodear as flores.

Lembrou-se: ali mesmo, naquele caminho em que ia, ele a olhar para ela, a pedir-lhe que se virasse em contra-luz, queria fotografá-la no meio das flores. Depois, como tantas vezes o fazia, pediu-lhe que se despisse. Fotografou-a assim, nua, banhada pela luz do cair da tarde. Lu, lembra-se de, naquele momento, ter dito: Já não vou poder ter um filho, já é tarde demais. E não me desculpo por isso. Não sei como deixei passar o tempo, não sei que prioridades foram as minhas, não sei como cheguei a este ponto. Ele olhara-a, perplexo: 'A que propósito vem agora isso?'. Ela continuara: Um acabei com ele, outro na prática também. E agora dava tudo para ter um e tenho medo de tentar, é tarde demais. Ele abraçara-a: 'Não penses nisso'.  Com distanciamento, ela respondera: Tens filhos, tu. Não sentes falta de mais. Aliás, pouco ligas aos que tens. Eu não tenho nem vou poder ter. Ele protestara: 'Não digas isso. Claro que ligo. Adoro os meus filhos. Mas esquece. Tens uma vida plena, Lu'. Ela não respondera. Só uma pessoa muito desprovida de muita coisa poderia achar que ela tinha uma vida plena. Tinha uma vida vazia, isso sim. E não mais deixara de ter esse pensamento sempre presente. 

E ia andando, fotografando, olhando a bela e protectora serra ao longe e pensando que, à noite, no computador que felizmente não se tinha partido, ia escrever sobre isso. E ia também contar a discussão terrível que tiveram no escritório na véspera do dia em que ela tinha acordado com um formigueiro nos dedos e vazia, ausente, quase se deixara cair num poço sem fim. Ia contar como tinha descoberto o esquema, como o confrontara com isso, como o ameçara, como negara que sempre tivesse sabido, ia contar como, quando ele insistira que ela sabia, que sabia desde sempre, lhe dera uma bofetada e de tal forma violenta a bofetada que os óculos dele tinham voado, que, quando ele se preparava para lhe devolver a bofetada, ela lhe tinha atirado à cara um monte de papéis, de como o tinha visto, furioso mas meio perdido, sem óculos, o chão pejado de papéis. Ia descrever, com pormenor, a forma habilidosa como, durante anos, as contas foram falseadas.

E, enquanto ia pensando em tudo isto, Lu ia caminhando, fotografando. As flores, os frutos.


Ao regressar a casa, já lusco-fusco, de novo um pequeno vulto branco correndo. Assustou-se. Procurou. Não viu nada. Quando estava quase a entrar em casa, a mesma sensação, de novo um pequeno vulto correndo, sem deixar marcas. 


Ficou parada junto à porta a olhar. Quase a anoitecer. Os pássaros quase silenciosos. E, de repente, a impressão de estar a ser observada. Olhou em redor. E, então, ao fundo, não um mas dois, dois pequenos vultos brancos. Aproximou-se devagar. Fugiram na direcção da vedação. Foi ver.


Do outro lado, no meio do mato dois gatinhos brancos. Pequeninos. Olhavam-na, ar assustado. Lindos. Ela fez bssschh, bschhsch, gatinhos, gatinhos lindos. E ali ficou a olhar para eles e eles para ela. Certamente filhos da gata branca que, furtivamente, por lá via passar de vez em quando.


Uns bebés tão lindos. Goastava de lhes poder fazer uma festa.

Quando regressou a casa, as lágrimas corriam-lhe pela cara. Talvez emoção por ver que tinham nascido lá, filhos daquela sua amada casa, uns gatinhos tão bonitos. Mas também talvez tristeza pela sua vida tão vazia.

Depois percebeu que tinha acabado de tomar uma decisão e, conhecendo-se bem como julgava conhecer-se, sabia que era uma decisão sem retorno.

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O título do post foi extraído do poema de 'Indócil' de Maria Teresa Horta in 'Poesis'

Excepto obviamente as de Kate Moss, as restantes fotografias foram feitas por mim, este sábado, in heaven.

Amira Willighagen, com a condução de André Rieu, interpreta O Mio Babbino Caro de Puccini

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Este texto, que acabo de escrever, vem na continuação de:
Num excesso sempre incontido de perda e perdição

E continua em 'Lu, a mulher infiel' que também encerra este folhetim.

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terça-feira, fevereiro 28, 2017

Cartas a Lucílio




Há dias que cheiram a férias. Nem apetece ir trabalhar. Depois, as estradas limpas. E uma pessoa a pensar que bom, bom, era ter ficado em casa.

À hora de almoço, a mesma disposição: estava-se bem era noutra. Árvores, pássaros, cheiro a terra. E assim foi. E continuou: era bom era ter ali a máquina e fotografar, andar a descobrir os tesouros que se escondem nos muitos recantos quase secretos.

E o almoço. Muita gente num. Experimentar ir ao outro. Também muita gente mas vá, também para quê a pressa? Brás de pato com courgettes e cogumelos. Bem bom. Depois vontade de ficar por ali. O Almada cheio, fila para os bilhetes. Ainda não.

A livraria. A atracção daqueles livros com aquela bela encadernação, aquele papel, aquela paginação, aquele cheiro bom a livro de verdade. A vontade de me sentar e ficar por ali.

A vontade de veranear, livro na mão. Cartas a Lucílio. Folhear, entrever. Ao acaso:
Continuas então a indignar-te ou a lamentar-te disto ou daquilo, sem entenderes que o único mal efectivo é o próprio facto de tu te indignares ou te lamentares?! Se queres saber a minha opinião, eu entendo que nenhum motivo de aflição existe para o homem além da própria circunstância de ele julgar que a natureza contém em si motivos de aflição.No dia em que eu deixar de poder suportar o que quer que seja, deixarei de poder suportar-me a mim mesmo.
Tem razão. E penso como se falasse e falo como se ele estivesse ali para me ouvir. Depois fechar o livro. Olhar em volta, sentir o peso dele. Penso: tenho que me esforçar mais para conseguir manter a minha ignorância, a ignorância deve permanecer intacta. Ler todos os livros como livros de enfeite, não deixar que nada fique impresso. Volteio, então, entre lenços de seda, louça gravada, medalhas de prata, pequenas caixas de cuidado desenho. E leques com coloridas pinturas.

Mas logo, de novo, a atracção: a relatividade, as grandes leis, os grandes desafios, a física das partículas, a lógica, a análise. 

As cores das capas mudam, são uniformes por ramo do saber. Poder-se-ia viver uma vida inteira num limbo, entre jardins e lagos, entre estantes com livros suavemente coloridos, entre revistas que são livros e que falam de utopias, de ilhas, de magias. 

Mas, pensando bem, seria muito trabalho, muito esforço: se uma pessoa se distraía, capaz de macular a ignorância. Perdia-se a inocência, a graça de ver pela primeira vez. Melhor apenas pairar sobre as leituras.

Olho o relógio. Continua com o ponteiro dos minutos certo e o das horas avariado. Não faz mal. 

Abro outra vez ao acaso o livro de Lúcio Aneu Séneca.
Hoje tenho o tempo todo por minha conta, benesse que fico devendo menos a mim próprio do que à realização de uma 'esferomaquia' e à atracção que tal espectáculo exerceu sobre todos os possíveis importunos. Ninguém virá interromper-me, ninguém impedirá o curso das minhas meditações que assim, com esta certeza, prossegue com maior firmeza. Não ouvirei de vez em quando a porta a abrir-se, não verei afastar-se a cortina do meu gabinete: poderei prosseguir em paz e sossego, o que é tanto mais necessário para quem caminha sozinho seguindo a sua própria via. Não pretendo negar que sigo os meus predecessores; claro que os sigo, mas reservando-me o direito de descobrir, alterar ou abandonar alguma ideia; não sou escravo dos meus mestres, apenas lhes dou o meu assentimento!


Depois enchi-me de coragem e fui trabalhar. 

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Séneca - 6ª Carta: Sobre a partilha de conhecimentos



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As fotografias foram feitas no fim de semana durante um rápido passeio in heaven.

Não sei se, por lá, vi borboletas mas, enquanto escrevia, apeteceu-me ouvir Puccini.

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A propósito de livros, queiram, por favor, descer para conhecerem uns livreiros como não haverá muitos.


sexta-feira, janeiro 06, 2017

O futuro está a chegar.
[E cuidado com ele...]




Não é novidade para quem por aqui me vai acompanhando: eu própria já me movi em terrenos relativamente próximos da inteligência artificial e, oh céus, eu própria me surpreendi com a correcção e capacidade de decisão daquilo que eu própria tinha idealizado e que, perante situações reais, processava mais informação, em menos tempo e melhor que eu.

Há mundos que, por quem deles se abeira, devem ser vistos com respeito, forte sentido de ética e com instinto de sobrevivência.

Podemos desenhar modelos e conceber mecanismos que sejam melhores que nós em determinadas funções. Fazê-lo, para quem o sabe, é canja. Mas não devemos também deixar de ter presente que mesmo que invisíveis, há linhas que devem ser vistas como linhas vermelhas. As tentações, nestes domínios, são perigosas armadilhas. 

No outro dia já aqui falei de bonecos de aspecto humano e que, ao contrário das vulgares bonecas sexuais (antes simplesmente insufladas), inertes e desanimadas, são animadas, falam, respondem com inteligência e que até já estão a ser preparadas para demonstrar emoções e para serem sexualmente interactivas. 

Pode parecer que tem piada.


Imagino: aqui ao meu lado, um tarzan, todo giraço, e eu: 'lindo, diz-me um soneto de Shakespeare' e ele, prestável, voz timbrada, simpático,
All the world’s a stage,
And all the men and women merely players;
They have their exits and their entrances,
And one man in his time plays many parts,
His acts being seven ages. (...)


E depois eu, 'fofo, agora dá-me um beijinho' e ele, cortês, a debruçar-se sobre mim e a perguntar-me com ar malicioso 'onde, madame...?'.

Muita graça. E, no entanto, graça nenhuma.

Deve ser uma coisa como, quando os bebés estão habituados a mamar do peito da mãe, em que têm que fazer força para puxar o leite, em que encontram sabores diferentes -- e depois um dia experimentam beber leite artificial pelo biberon e nunca mais querem outra coisa. Assim eu com o tarzan. Às tantas, tão simpático, tão disponível, tão prestável a toda a hora, tão fofo, tão diseur, quiçá cantador de baladas, quiçá até arranjava um que tocasse piano, ou, quiçá até que dançasse o tango --- e eu, esperta, pensava 'mas pera lá aí, com este tarzan que nunca protesta com nada e que tem o feitio de um santo, para que é que eu quero este aqui ao lado, que qualquer dia vai para velho, que se chateia quando tiro mais de mil fotografias e que acha sempre que faço comida a mais quando cá vem alguém e não pára de me chamar para me perguntar se eu estou à espera que ele fique a comer restos durante uma semana...? Ná. Fico mas é com o tarzan.'

O drama é que o meu marido poderia arranjar também um sucedâneo de mim, uma Kate Moss tal e qual, uma espécie de eu mas em bom, e, um dia, chegava eu a casa e tinha a beldade estendida no meu lugar do sofá, a falar sobre futebol com ele e ele todo entusiasmado por ter finalmente uma parceira capaz de o acompanhar em conversa tão relevante. Ou, quem diz a falar de futebol, diz a fazer a dança do varão. E ele todo babado, sem tirar os olhos dela.


Isto já para não falar que, quando fossemos trabalhar, ficavam a Kate e o Tarzan sozinhos em casa e, às tantas, ainda se apaixonavam um pelo outro e, quando chegássemos a casa, tínhamos as malas à porta e a fechadura trocada porque os marmanjões se tinham aboletado com a nossa querida casinha e tinham resolvido que estavam melhor sem nós. Forrobodó todo o santo dia e no need for humans.




Ficção...?

Pois. Mas talvez não muito distante.

E no trabalho. Há muitos anos que as linhas de produção estão automatizadas, que são autómatos que regulam e optimizam o seu funcionamento. Há muito que, a nível administrativo, os sistemas informáticos automatizam processos de facturação, de gestão de stocks, de organização de transportes, etc. Onde antes trabalhavam largas centenas de pessoas, pode agora o mesmo trabalho (ou melhor: mais trabalho) ser feito por escassas dezenas. Claro que há desemprego. Como não?

E é irreversível, isto.

Obviamente a população trabalhadora vai-se desviando para outras actividades: para o turismo, para a cultura, para o entretenimento. Mas a tendência é esta: grande parte dos trabalhos tende a ser desempenhada, com vantagem a nível de eficiência e de custos, por máquinas ou por programas informáticos.

E vem isto a propósito de quê, meus Caros?



Programa tem "tecnologia cognitiva que lhe permite pensar como um humano" e deverá aumentar a produtividade da empresa

Uma empresa japonesa de seguros vai substituir 34 dos seus funcionários por um software de Inteligência Artificial. A Fukoku Mutual Life Insurance acredita que ao instalar o Watson Explorer da IBM poderá aumentar em 30% a produtividade e poupar 140 mil ienes por ano, cerca de um milhão e 100 mil euros. (...)

O Watson Explorer vai ser instalado este mês por 200 mil ienes, cerca de um milhão e 600 mil euros, segundo o Telegraph, e a empresa acredita que em dois anos conseguirá reaver o investimento. Os trabalhadores vão ser despedidos em março. (...)


Mas não temos que ir tão longe. Senão, vejamos.

Meet Amelia, your first digital employee.



ou o Watson:


Learn how IBM Watson works and has similar thought processes to a human





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O tema tem tanto de fascinante quanto de assustador. 

E uma coisa é certa. Não é ficção, não senhores. É a realidade e vamos lá ver se, burros como somos, burros, burros, burros, não nos estamos a habilitar a ser os dinaussauros dos tempos modernos.


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Informação aos leitores: 

O post abaixo trata de um caso patológico. Não digo que o senhor, coitado, seja um psicopata. Mas bom da cabeça, cá para mim, é que ele também não é. Refiro-me a Campos e Cunha.


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