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sexta-feira, fevereiro 27, 2015

Zeinal Bava e o tableau de bord para o qual não olhava nem tinha que olhar. De resto, parece que não sabia nada mas também não tinha que saber. "É um bocadinho de amadorismo para quem ganhou tantos prémios de melhor CEO da Europa, não é?", atirou-lhe (e bem) Mariana Mortágua, uma deputada valente que anda a mostrar à Assembleia da República o que é profissionalismo. Zeinal sorriu, confiante, e aos costumes disse nada.


No post abaixo, dou um tautauzinho ao António Costa. Ainda não é caso para dramas mas é bom que ele perceba que o País espera uma forma clean de fazer política: nada de servilismos, nada de fretes. Disso estamos nós fartos que, nestes anos de PSD/CDS, não temos assistido a outra coisa. Limpinho e direitinho é assim que a gente espera que ele se apresente ao país, sem calculismos ultrapassados, sem deambulações à toa, sem passos em falso. Para a frente é que é caminho e tem que se perceber para onde é que se vai. 

Mais abaixo ainda há anedotas e piadiolas que metem velhinhos. 

A seguir, portanto. Aqui, agora, a conversa é outra: o jetset na gestão à portuguesa.

Sobre o acompanhamento musical proposto, agradeço primeiro a leitura do que se segue.


Atenção!

Disclaimer: Este vídeo não tem nada a ver com a nata da gestão de que abaixo vou falar nem é nenhuma indirecta para nenhuma das individualidades que vou referir. Este vídeo não é adequado a um blogue de família nem deve ser visionado por menores, virgens ou beatas. Este vídeo refere-se a uma canção cuja letra pode ferir os ouvidos dos leitores mais sensíveis. Este vídeo deve ser daqueles que o blogger não gosta nem um bocadinho. Só deve fazer play quem for duro de ouvido, duro de alma e gostar de pisar o risco. 

Avisei.




Ora bem. Vamos lá, então.

Tantas vezes aqui o tenho dito. Portugal tem um tremendo défice de empresários e gestores profissionais. Ou são de tipo pato-bravo, daqueles que confundem o género humano com o Manuel Germano, ou são aprendizes de qualquer coisa. Para poderem sentir-se ungidos pela sorte divina, intitulam-se CEO, CFO, etc. Vivem de power-points, de reuniões com consultores, circulam apressadamente entre sessões de apresentação de qualquer coisa, a lançar projectos de sustentabilidade, ética, etc, ou a receber prémios, ou a dar entrevistas, ou em almoços ou no que quer que seja - actividades que, de facto, em termos objectivos, pouco têm a ver com gestão a sério.

Zeinal Bava assegura que não tinha conhecimento de quem eram os responsáveis pela decisão das aplicações financeiras da PT no BES e no GES, nomeadamente os 500 milhões de euros que foram colocados na ESI em maio de 2013, quando ainda era presidente da PT SGPS. No entanto, o gestor não esconde que sabia da enorme exposição da PT ao GES e ao BES, até porque havia um "tableau de bord" que circulava de três em meses onde estava toda a informação.

E Zeinal diz que não sabe e que nem tinha de saber. Os deputados insistem e ele sorri, habituou-se a usar o sorriso como um precioso asset, ele é a chave do seu goodwill. Pelo menos, era. E volta a dizer que tinha confiança, que era tudo sólido, que ele nem precisava de ver, confiava que alguém via por ele. E sorri. Não desarma. Mas a conclusão que se retira é que, de facto, não sabia de nada do que lá se passava.


E todos os outros também não sabiam e também achavam que não tinham de saber. E os do BES também. Recebiam milhões em variáveis e em fixos porque atingiam os goals e estava tudo regulamentado porque há comissões de vencimentos e há modelos de governance e há auditorias para todos os gostos e há tudo o que é suposto haver.
Só não há gestão profissional. E, por isso, de facto, ninguém sabe bem o que se passa nas empresas onde são ou executive ou chairman.
Habituaram-se à vida de ricos, desabituaram-se de trabalhar - confundem estar nas reuniões a olhar para os ipads ou a mandar mails irrelevantes, confundem estar sempre a olhar para o telemóvel ou a receber ou a fazer chamadas ou a enviar sms, geralmente a marcar reuniões ou almoços ou pequenos almoços, ou a marcar viagens ou a alterar planos de voo, ou a aprovar os hotéis, com trabalhar.

E participam em torneios de golf ou de ténis ou em caçadas com colegas, stakeholders ou amigos, e, pelo meio, participam em reuniões de quadros, ou em acções de team building, ou fazem a introdução em sessões de brainstorming e fomentam o voluntariado e estão em cima de tudo o que for preciso.

Só da gestão é que não.

Claro que depois há uma máquina a funcionar, direcções, coordenações, supervisões, chefias intermédias, toda a espécie de serviços, e há outsourcings para tudo e mais alguma coisa, e há informação em barda, relatórios, data mining e tableau de bord e dash board, e há KPI's para todos os gostos e há cockpits e monitorizações e há depois avaliações porque toda a gestão se faz por objectivos e toda a gente recebe prémios e, se a avaliação não é boa, há planos de acção... e há tudo o que se possa imaginar.


E, por estarem à frente de companhias certificadas a todos os níveis (voltou a estar na moda dizer 'a companhia' e não 'a empresa'), recebem prémios de excellence e doutoramentos honoris causa (concedidos pelas universidades que essas empresas sponsorizam) e as revistas de negócios e gestão (que vivem em parte dos seus anúncios) fazem artigos com eles e eles convidam jornalistas e os jornalistas entrevistam-nos e eles aparecem a falar da fraca qualidade da gestão pública e do ajustamento de que o país ainda necessita e é um círculo virtuoso em que abundam os sorrisos, a complacência, a qualidade de vida, a perfeição.

E isso tudo.

Só gestão é que não.

Cavaco Silva, com o seu olho de lince, viu logo que tão ilustre figura deveria ser condecorada, É que ele, Cavaco, ilustre economista, sabe distingui-los a olho nu.

De qualquer forma, a lista impressiona. Aos 49 anos Zeinal Bava já conta com as seguintes distinções:
  • 2009: Melhor CEO na área de Investor Relations no âmbito do “Investor Relations & Governance Awards (IRGA)”, uma iniciativa da Deloitte.
  • 2010: Melhor CEO no setor de Telecomunicações da Europa, pela Institutional Investor. Melhor CEO em Portugal pela Extel.
  • 2011: Segundo melhor CEO europeu no setor das Telecomunicações e melhor CEO em Portugal, pela Institutional Investor.
  • 2011: Melhor líder português em empresa privada, pelo Best Leader Awards, promovido pela Leadership Business Consulting
  • 2012: Melhor CEO em Portugal e melhor CEO do setor de telecomunicações da Europa, pela Institutional Investor.
  • 2014: Enquanto CFO do Grupo PT, foi eleito por três vezes consecutivas em 2003, 2004 e 2005 como o melhor chief financial officer (CFO) da Europa no setor das telecomunicações, pela Institutional Investor.

A 9 de Junho de 2014 Zeinal Bava foi agraciado com a Grã-Cruz da Ordem do Mérito Empresarial Classe Comercial.




Repito: só gestão é que não.
Sabem tudo, controlam tudo, ao pormenor. Só os milhões, dezenas de milhões, centenas de milhões é que não. Desses ninguém sabe muito bem por onde andam.
E com gente deste gabarito se afundou o Grupo GES e se deu cabo do BES, e se afundou a PT e milhares de pessoas perderam economias e andam agora com cartazes à porta das agências. Choram, dizem que era o dinheiro de uma vida.

Com a PT a mesma desgraça. Uma desvalorização bolsista sem igual. Empresas a quem foram suspensos contratos, muita gente a ver-se sem emprego de um dia para o outro.

Mas Zeinal Bava continua a sorrir. Certamente pensa nos milhões que ainda tem a haver. Afinal atingiu sempre todos os seus objectivos.

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E sobre estes artistas é isto - e mais não digo para não me indispor.

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A canção que espero que não tenham ouvido e que, reconheço, está aqui completamente deslocada é, com vossa licença, o Hino das Putas numa interpretação dos Irmãos Catita onde pontua o grande Manuel João Vieira. O videoclip foi apresentado durante o espectáculo "O artista Português é tão bom como os melhores"

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Sobre António Costa e o seu deslize chinês falo já a seguir.

E, mais abaixo, há anedotas e chalaças.

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Ainda não foi hoje que acabei a história pornográfica que mete uma sessão de sexo a transbordar de adrenalina num lugar público, a saber, num centro comercial. Era mesmo para ser hoje, já estava quase pronta. Mas, entretanto, passou na televisão a reportagem das pessoas aflitas por terem perdido o dinheiro que investiram em papel comercial do GES e, logo a seguir, vi o Bava com  o seu sorriso inabalável e vi-me forçada a largar o conto inocente que tinha em mãos para me atirar ao desagradável assunto acima vertido. Enfim. A ver se algum dia a dita história sai à cena.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela sexta-feira.

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segunda-feira, janeiro 12, 2015

A beleza das mulheres. O exemplo de Meryl Streep.


No post mais abaixo falei de um homem cujas palavras, em minha opinião, devem ser levadas em conta. Se um dia elas nos chegarem, poderosas, dos lados da Rússia, o mundo será diferente do que é hoje. Claro que entre o que se sonha e o que, de facto, se pode fazer vai um imenso mar de diferenças (Obama é apenas um, de entre tantos, que o pode confirmar) mas, ainda assim, acredito que cada vez mais russos vão começar a seguir com atenção a sua ambição. Mas sobre Mikhail Khodorkovsky falo a seguir.

Aqui, agora, a conversa é outra.


Não vou falar do imenso mar de gente em Paris, na grande marcha republicana em que mais um milhão de pessoas saíu à rua para mostrar o seu apego à liberdade, pois se, por um lado, acho emocionante que tanta gente se junte em torno de um dos mais cruciais pilares da democracia, por outro tenho a convicção de que pouco vai mudar e de que muitos dos governantes que ali estiveram, o estiveram apenas porque, enfim, noblesse oblige. Ver a cara de manequim dos fanqueiros do Passos Coelho umas filas lá para trás, irrelevante e inútil, sempre de tacha arreganhada, uma cara a rir no meio de um mar de rostos consternados, diz bem do exemplo do que é um governante que ali foi apenas para fazer número.


O galito Hollande com a sua patroa, a matrafona Merkel, Sarkozy logo ali e mais uma data de gente importante no actual panorama político - obviamente Passos Coelho não se vê, estava lá para trás, no lugar destinados às concierges
(mas na televisão, quando o focaram, juro que o vi a rir, provavelmente das gracinhas que a inconsequente Esteves ia dizendo)



Que foi uma manifestação histórica não tenho dúvidas mas que foi inútil temo bem que o tenha sido e, portanto, pouco mais tenho a dizer que isso. A psicologia de massas é isto mesmo: grandes comoções, um frémito de fraternidade emocionada a percorrer os corpos, a sensação de que tudo é possível. Mas, logo que o grupo de desfaz, tudo volta ao que é - a menos que à frente dos destinos dos países esteja gente capaz de interpretar os anseios do povo e capaz de o traduzir em actos, com garra, líderes de verdade, gente com visão de estadista. Mas o que ali vi deixa-me de pé atrás, especialmente no que se refere ao território político em que me insiro, a Europa*: Hollande é a fraca figura que se sabe, um homenzinho que vive em função da imagem e da opinião pública, Rajoy outra fraca figura, Merkel uma contabilista luterana (que tem a particularidade de ter uns grandes tomates - and sorry for my french), o malabarista Juncker, etc, etc, e Passos Coelho, a nódoa que tão bem conhecemos. 

Por isso, vou ficar-me por aqui no que a grandes temas da actualidade diz respeito. E, se me permitem, vou passar para o registo das pequenas coisas do dia-a-dia.


Meryl Streep, com uns anos de diferença mas sempre com a mesma beleza luminosa


Meryl Streep é hoje uma estrela inquestionável no mundo da representação e não há filme em que ela não brilhe com aquela luz que parece emanar dos seres especiais.


Meryl Streep em África Minha


Ela é tudo o que há para ser: namoradinha inocente, grande fazendeira africana, bruxa, mãe devota, amante divertida, executiva implacável, mulher apaixonada, governante reformada com Alzeihmer, o que se quiser - e, em qualquer papel, é perfeita.


Meryl Streep em As Pontes de Madison County


E, logo de nova, a excepcionalidade da sua arte de representar se tornou muito evidente e, desde então, não foi por ser loura, morena, alta, baixa, nunca pela perfeição simétrica do rosto ou beleza sensual do corpo que a sua arte se impôs: sempre foi a mulher que ela encarnava que se impunha.

Toda a gente que trabalha com ela refere a forma osmótica como a personagem se apodera dela, levando-a a adquirir a voz, os mais específicos sotaques, os tiques, quase a personalidade da personagem que representa.


Meryl Streep em O Diabo veste Prada


Mas, antes de tudo isto, ela foi rejeitada. Era feia, não servia para o papel, disseram-lhe. Custa a acreditar porque feia ela nunca foi. Tinha, então, 26 anos, foi a um casting para o papel feminino do King kong e Dino de Laurentiis disse que ela era che brutta, feia demais. O papel foi para Jessica Lange.



Jessica Lange em King Kong


O vídeo abaixo mostra Meryl Streep, na semana passada, como ela sempre é - segura, divertida, resplandecente na sua beleza intemporal - descrevendo esse episódio.


Meryl Streep ‘Not Pretty Enough’ To Be In King Kong - The Graham Norton Show




Para se ver o que são as coisas. A relatividade das coisas, quero eu dizer. A relatividade de tudo, vendo bem as coisas.

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E chega de coisas. Por agora, fico-me por aqui que esta segunda-feira a coisa promete, afazeres de toda a espécie e feitio, incluindo familiares que a coisa não anda especialmente fácil. Por isso, adiante antes que se faça tarde.
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* - Sobre a Europa, recomendo a leitura de um artigo (que em comentário abaixo foi deixado por  Fernando Ribeiro) da autoria do neo-convertido, o polifacetado Moita Flores. 


O artigo intitula-se: 

Europa terrorista - A quadrilha que vai liderar a manifestação de Paris prostituiu a Europa, matou os projetos de Vida.


Lê-se e não dá para acreditar. Também tu Moita Flores...?

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Relembro: sobre uma figura da qual, por cá, pouco ouvimos falar mas que me palpita que um dia destes será bem conhecida falo já a seguir - alguém que sabe do que fala quando fala de liberdade ou não tivesse estado preso durante alguns anos.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa semana a começar já por esta segunda-feira. 
Saúde, sorte e afecto é o que vos desejo.

E que, por um qualquer milagre, a PT não seja condenada ao esquartejamento, isto é, que não seja vendida.


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sexta-feira, outubro 24, 2014

Rapariga com brinco de alarme em vez de pérola numa noite fora de casa, ou seja, com Banksy a fazer-me companhia, enquanto reflicto sobre a PT, sobre o capitalismo e sobre outras governanças





Como sempre nesta altura do ano (e noutras também), estou fora, dois dias no meio do nada. Para ser um retiro espiritual faltam-lhe apenas os momentos de meditação e oração, se bem que, se alargar o conceito, quase se poderia dizer que também o fazemos. 

Parte do público alvo está alojado num hotel da cidade mais próxima e um pequeno grupo está alojado na guest house existente no próprio local onde decorre o encontro. Por isso, a esta hora presumo que parte dos meus colegas ande a bater perna pelos bares da cidade enquanto eu estou aqui, nesta casa maravilhosa (e só não tiro fotografias para vos mostrar porque, parecendo que não, ainda tenho algum juízo nesta cabeça) a escrever-vos.

Por aqui, durante o dia e até à hora de jantar, fala-se de estratégia, de concorrência, de negócios, de como as dificuldades não são dificuldades mas sim desafios, de como os contratempos não são contratempos mas sim oportunidades. 

Não há lugar para temas luminosos como os que envolvem a ética ou o amor como critérios de gestão nem temos oradores convidados. Nem há lugar para divagações ou angústias, o mundo real não deixa tempo para frescuras. De vez em quando o clima adensa-se, algum lá sai do registo de salão mas logo a coisa se compõe e tudo prossegue como previsto, focado, um objectivo comum. Claro que nos coffee breaks ou cocktails os grupos sussurram private jokes ou não é difícil adivinhar que alguns se dedicam ao corte e costura, metendo as inevitáveis alfinetadas. Mas isso não tem mal, não é nada de mais. As organizações são compostas de pessoas e as pessoas não são máquinas.

Amanhã às 9 horas os trabalhos recomeçam e eu tenho que fazer uma apresentação. Claro que talvez pudesse estar a aqui a ensaiar, quando há cenas destas com dezenas de pessoas e convidados a assistirem, alguns dos meus colegas ensaia. Eu não o faço. Fiz a apresentação, sei o que lá está e, no momento, falo de improviso. Sempre assim o foi e sempre assim o será.

De resto, não sei nada do que se passou hoje. Há bocado quando falei com o meu marido, perguntei-lhe o que se tinha passado no mundo. Disse-me que, por cá, nada, tirando a trapalhada do IRS. Claro. Gente sem tino arranja lenha para se queimar (e, depois de tudo estar a arder, ainda aparecem com cara de tontos a pedir perdão pelos transtornos e o chefe ainda aparece a elogiá-los, dizendo que a situação só prova que os escolheu bem pois não fugiram a sete pés da baderna que armaram). Se esta gente trabalhasse numa empresa, ao fim de meia dúzia de meses levava-a à falência. Nunca vi tamanha incompetência.

Agora dei uma volta pela internet e li que a queda da PT no precipício está a levar várias empresas também ao charco. E muitas mais irão. Muitas, muitas. A queda da PT vai dar um abanão do caraças na já de si tão débil economia nacional. Mas devo confessar que me fiquei pelo título: ler uma miséria destas deixa-me angustiada. Como, de repente, uma empresa que era das mais valiosas do país, que emprega umas 10 ou 11.000 pessoas e dá trabalho indirecto via outsourcing a mais umas 16.000 e ainda a mais uns milhares de pessoas em empresas fornecedoras de tudo e mais alguma coisa, uma empresa que era 'vendida' como de sofisticada governance, comete erros crassos que não tem como corrigir e se vê devorada pela fome encarniçada dos mercados sem que ninguém levante um dedo para a salvar. 

Isto é o capitalismo selvagem na sua insanidade mais acabada. Claro que não são só os mercados, tenho que ser objectiva: muito do que era excelente governance não era excelente coisa nenhuma, era espuma, cagança, faz de conta, show off, servilismo perante o dono, palermas endinheirados armados em bons. Mas se isso se aplicava a uma vintena de iluminados, o resto das pessoas era esforçada, dedicada, competente. Mas, claro, o problema está sempre nas elites e em Portugal, salvo honrosas excepções, as elites são muito fracas e, ainda por cima, deslumbradas.

Não quero falar mais disto. Preocupa-me, assusta-me. Somos frágeis e vulneráveis. Conheço pessoas que trabalham na PT, belos empregos, belos níveis de vida, orgulho por trabalharem numa empresa sólida, numa das poucas empresas de bandeira do país. E, de repente, vêm pela ribanceira abaixo, uma derrocada brutal que, na queda, arrasta outras empresas.

Muito deveria ser repensado depois do descalabro do BES e agora da PT. Tanta auditoria, tanta consultoria, tanta compliance e, ainda por cima, sendo empresas cotadas, sujeitas a todo o tipo de escrutínio. E, no entanto, mais vulneráveis que uma mercearia de bairro.

Não basta lavar as mãos como Pires de Lima o fez, ao dizer que os prémios de gestão obtidos por Zeinais e Granadeiros e outros que tais são comprados (toda a gente sabe disso) e que, portanto, com as empresas nas mãos de gente assim, vou ali e já venho. Não basta. Há que ir mais longe e perceber que modelo de gestão e de economia é que queremos para o país um dia não acordar e estar feito em pó, com chineses e angolanos a tomarem conta do que sobrar.

Mas, enfim, estou a maçar-vos com isto, falo e volto a falar no mesmo e isso deve ter maçador para vocês.

Tenho aqui comigo, trouxe para ler à noite - e já estive a dar-lhe uma voltinha e a ver se, antes de adormecer, leio mais um pouco - uma edição especial da National Geographic dedicada a Einstein com subtítulo A Teoria da Relatividade, O espaço é uma questão de tempo. Encanto-me com isto, leio como quem passeia no espaço ou como quem lê um poema invadido pelo silêncio.


Estive a ver se dava para transcrever umas passagens maravilhosas mas não dá. Estou com internet móvel, a pedal e, pior, volta e meia a pen desengonça-se do computador e fico sem internet. Estive a ver se descobria um vídeo interessante sobre Einstein mas isto fica a remoer e ainda não consegui que o youtube se mexesse. Depois o quarto tem uma luz débil, se aponto para o livro quase deixo de ver o computador. 

Por isso, fico-me por aqui.

Escolhi imagens relativas às provocações de Banksy apenas porque sim. A primeira, lá em cima, é a sua última obra.


O artista Banksy atacou de novo e desta vez deixou a sua versão do quadro A Rapariga com Brinco de Pérola numa rua de Bristol, Inglaterra. O mural, a que Banksy chamou Girl with Pierced Eardrum (Rapariga com Tímpano Furado) surgiu segunda-feira na zona portuária da cidade.


O trabalho parece ter sido vandalizado na manhã de terça-feira, com uma mancha de tinta preta.

Banksy incorporou uma caixa de alarme no mural, no lugar do icónico brinco no quadro de Johannes Vermeer. O antes e depois da pintura da parede pode ser visto na página de Banksy, assim como vários ângulos do mural visto da rua.


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E agora vou entregar-me à relatividade. 

(Se isto estiver cheio de gralhas, por favor, relevem. 
Com a internet neste estado e com pouca luz não estou a atinar com isto)


Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela sexta feira.

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terça-feira, outubro 21, 2014

Milan Kundera, Caliban e a Portuguesa


No post abaixo já desvendei um segredo a propósito dos burros que vivem à babugem do poder. Foi a Lovely Lídia que me contou. Regressou e veio com tudo. Já fazia cá falta e é com alegria que lhe dou as boas vindas.

Mas isso é a seguir.

Aqui, agora, a conversa é outra. Livros, livros, livros.






Podia dizer o que já tantas vezes aqui o contei, que, desde pequena, era vidrada em livros, que lia os que tinha em casa, os que os amigos dos meus pais tinham em casa, os que havia na biblioteca do liceu, os que encontrava. Lia até altas horas da noite. Acendia a luz da mesa de cabeceira e lia até não aguentar mais ou até a minha mãe desconfiar e vir, pé ante pé, dar comigo a ler e me obrigar a apagar a luz. Pelos anos e pelo natal queria livros (a complementar outras coisas... que também não era propriamente rata de biblioteca) e, mal me apanhei com mesada, preferia comer menos ou comprar menos roupa e embrenhar-me nos alfarrabistas, nos saldos da Bertrand e onde calhasse.

Portanto não é de agora. Mas agora tenho um motivo suplementar: tenho medo de que um dia me aconteça um desaire, que fique desempregada ou assim, ou que aumentem o imposto sobre livros de tal forma que fiquem mais caros que trufas raras, caviar exótico, chanel nº 5, sei lá. E, então, dou por mim quase que a querer açambarcar não vá esgotarem-se e já não poder comprar novas edições, ou que a partir de certa altura, impossibilitada de comprar novos, tenha que me cingir aos que tenha em casa e que já não tenha nada de novo para ler.

Sei que não é razoável ou lógico pensar assim mas há aspectos da minha vida que se regem em contra natura, em contramão, como queiram.

Afogo-me em livros, não consigo dar vazão, mas não consigo deter-me. Parece-me que só o facto de os ter, de os folhear, de ler parte deles já me consola. Depois, aos poucos, aleatoriamente, vou voltando a eles e a muitos deles parece-me que já me são familiares e a esses eu dou saída, avanço por eles dentro. Em relação aos que não me dizem nada, aos que não me agarram o olhar ou o coração, aí dou folga, fica para a próxima.

Hoje o meu marido quis O Capital no Século XXI do Piketty e, por isso, fui com ele mas pensando que ia numa de chaperone. Mas então, fazer o quê? 

Claro que acabei por trazer outros, tentações tão fortes.


Vamos, por favor, com Manuela Azevedo - Carinhoso




[José Peixoto - guitarra clássica; Fernando Júdice - baixo acústico; música de Pixinguinha]




Chegaram ao apartamento de D'Ardelo duas horas antes do início do cocktail. 'É o meu assistente, minha senhora. É paquistanês. Peço desculpa, ele não sabe uma única palavra de francês.', disse Charles, e Caliban inclinou-se cerimoniosamente diante da senhora D'Ardelo, pronunciando algumas frases incompreensíveis. A indiferença delicadamente superior da senhora D'Ardelo, que não lhe prestou nenhuma atenção, confirmou a Caliban o sentimento de inutilidade da sua língua laboriosamente inventada e a melancolia começou a invadi-lo.

Felizmente, logo após esta decepção, um pequeno prazer veio consolá-lo: a criada a quem a senhora D'Ardelo ordenou que se mantivesse ao serviço dos dois senhores não conseguia descolar os olhos de um ser tão exótico. Dirigiu-se-lhe por várias vezes e quando percebeu que ele só conhecia a sua própria língua começou por ficar confusa, depois estranhamente descontraída. Porque ela era portuguesa. Já que Caliban lhe falava em paquistanês, tinha uma rara oportunidade para abandonar o francês, língua de que não gostava, e utilizar apenas, também ela, a sua língua natal. A comunicação em duas línguas que não compreendiam tornou-os próximos um do outro.

(...)

Em seguida Charles afastou-se até ao salão, deixando Caliban preparar as últimas bandejas. Uma rapariga muito jovem, segura de si, entrou na cozinha e virou-se para a criada:

- Não podes mostrar-te por um segundo que seja no salão! Se os nossos convidados te vissem, fugiriam! - Então, olhando para os lábios da Portuguesa, desatou a rir: - Onde é que foste desencantar essa cor? Pareces um pássaro de África! Um papagaio de Bourenbouboubou! - e saiu da cozinha a rir.

Com os olhos húmidos, a Portuguesa disse a Caliban (em português):

- A senhora é simpática! Mas a filha! Que malvada! Disse aquilo porque você lhe agrada! Na presença dos homens, é sempre má para mim! Dá-lhe prazer humilhar-me em frente dos homens!

Nada podendo responder-lhe, Caliban acariciou-lhe os cabelos. 

Ela ergueu os olhos para ele e disse-lhe (em francês):

- Veja, o meu batom é assim tão feio?

Rodava a cabeça para a esquerda e para a direita, para que ele pudesse ver bem a largura dos seus lábios.

- Não - disse-lhe ele (em paquistanês) -, a cor do seu batom é muito bem escolhida...

No seu casaco branco, Caliban parecia à criada ainda mais sublime, ainda mais inverosímil, e ela disse-lhe (em português):

- Estou tão feliz que esteja aqui.

E ele, arrebatado pela sua própria eloquência (sempre em paquistanês):

- E não apenas os seus lábios, mas também o seu rosto, o seu corpo, toda você, tal como a vejo diante de mim, é bela, muito bela...

- Oh, como estou feliz que esteja aqui - respondeu a criada (em português).




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O texto em itálico é um excerto da Quarta parte: Estão todos em busca do bom humor, na sub-parte intitulada 'Os casacos brancos e a jovem Portuguesa' do mais recente livro de Milan Kundera intitulado A Festa da Insignificância numa tradução de Inês Pedrosa.



Sétima parte: A Festa da Insignificância - um outro excerto




As imagens que escolhi para ilustrar o texto são de Sara Sampaio, a bela Portuguesa, e David Gandy que não é paquistanês mas que não seja por isso, está perdoado, é como se fosse.


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Um brevíssimo parêntesis

O que está a acontecer à PT deixa-me quase de rastos. Deixar os mercados à solta e nada fazer, assistir aos abutres a devorarem um corpo vivo é uma coisa que me parece inconcebível. O governelho português lavou as mãos, a CMVM está a ver o sangue a jorrar por todos os poros e nada faz (parece que agora vai proibir as vendas a descoberto, mas de que vale isso agora, quando já quase que só resta a carcaça e um coração latejante?) Uma situação ultrajante e dolorosa, uma humilhação e um rombo tremendo na economia e, a prazo, no emprego, no PIB, sei lá. Custa-me tanto isto que nem me apetece falar.


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Relembro: se quiserem saber a explicação para haver tanto burro à volta do Poder, desçam, por favor, até ao post seguinte.


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Incapaz de reler o que escrevi e, portanto, pedindo a vossa indulgência para as gralhas, fico-me por aqui e desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa terça-feira.

(Agora que já começaram os descontos de outono/inverno, eis que entrámos no Verão. Não faz mal. Voltei aos braços ao léu e isso sabe-me bem)


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terça-feira, outubro 14, 2014

PSD e CDS: esta gente falhou em tudo e vai continuar a falhar até ao fim. E, até ao fim, sem perceber nada do que aconteceu. Cá para mim não é ideologia, é burrice mesmo. Assim de repente, faço uma breve resenha do que se passou desde que se alaparam no poder. E, no fim, para me ajudar a superar a arrelia que isto me provoca, chamo para o pé de mim Luís Filipe Castro Mendes que sabe do que fala, quando fala da Misericórdia dos Mercados. E chamo também os bailarinos do Nederlands Dans Theater para ajudarem a esconjurar os maus espíritos dos maus mercados e dos seus mentecaptos servos.


Por favor, vamos com música que vamos melhor

Philip Glass - Metamorphosis II





(com quem muito divergi nos tempos que ele refere ao dizer que integrava então a escola da pureza inconsequente)




Em 2008 a Europa estava a ferro e fogo com os fundos abutres a sobrevoarem as economias mais débeis, fundos que fazem apostas e que ganham com os incumprimentos, fundos que sobrevoam os países ou as empresas onde sentem o cheiro morno na carniça.

Poderia relembrar que a mesma Europa que antes, e bem, tinha tentado fazer frente a essa ofensiva dando ordem para que se avançasse em força com o investimento público para ver se se mantinham os motores da economia em movimento, veio depois (assustada com o escândalo das contas públicas falseadas da Grécia - falseadas com o apoio da Goldman Sachs e com a Alemanha a olhar para o lado, a fingir que não via, note-se) a mandar travar a toda a força, impelindo estes países para uma austeridade radical, provocando a angústia e incompreensão dos povos envolvidos. 

 "O Fabricante de Máscaras", (Wikicommons, Carlos Orduna)


Debaixo de um fogo externo severo (e não tendo maioria no Parlamento e, ainda por cima, sujeito a campanhas sórdidas forjadas pelos apaniguados do PSD, nomeadamente pelos Jotas que vieram depois a descrever em pormenor a forma concertada como actuavam nas redes sociais e comunicação social), Sócrates negociou um programa que tinha o apoio da Comissão Europeia, da Merkel, da França, do BCE, contando que, entretanto, viesse a ser aprovado um outro programa europeu que permitisse a Portugal sobreviver sem ter que se chamar a troika - uma vez que sabia que, entrando a troika, Portugal ficaria francamente sem grande margem de manobra para decidir. Tentou fazer aquilo que, mais tarde, por exemplo, a Espanha conseguiria, isto é, resolver, por meios próprios e recorrendo ao menor mal, o ataque que se abatia sobre o País.

Mas o PSD de Marco António, Relvas e Passos Coelho estava noutra, a avidez pelo poder era muita, era cega. O CDS, qual mulher fácil, abeira-se sempre dos que se acercam do poder e, portanto, também embarcou na aventura. Numa união espúria (que para sempre carregarão nas costas), o PCP e o BE aliaram-se ao grupelho mais desqualificado de que havia memória.

O que aconteceu foi o expectável: o Governo caíu, a troika veio.


Na altura, tirando alguns aspectos como alguma redução dos direitos dos trabalhadores (que achei que deveria ser, depois, renegociado) e tirando o facto do prazo ser muito curto (devendo, também, ser posteriormente renegociado), não fiquei especialmente chocada com o programa da troika. Havia um conjunto de propostas, até relativamente equilibradas, para reformar todas as artroses da administração pública, as metas eram razoáveis, estimulava-se o diálogo entre os parceiros e o reforço dos apoios sociais.

Contudo, como todos os alunos marrões e pouco dotados, o novo governelho, este que ainda se conserva em funções, achou que se um comprimido por dia fazia bem à anemia, então porque não tomá-los às mãos cheias?

Nessa altura, quais porcos a tomar conta da quinta, decretaram que o programa da troika era o programa deles e que iriam ainda mais longe do que o que era requerido.

Mas talvez tão grave quanto isso foi nunca terem percebido a razão da crise. Desde o início - e penso que até agora - pensaram que o problema residia na imoralidade ou fraqueza individual dos mais carecidos: os velhos que recebiam pensões mais altas do que o que precisavam, os desempregados que não trabalhavam porque não queriam, os mais pobres dos pobres que tinham contas no banco, os que compravam uma televisão quando podiam vê-la na montra da loja. Entretidos com a sua própria estupidez e moralidade balofa, não cuidaram sequer de fazer um simples cálculo aritmético para perceber quão ridículo era o seu raciocínio: quanto é que cada um desses pobres ou piegas precisava de ter gasto a mais para gerar um buraco tão grande nas contas do país? Se o fizessem perceberiam que jamais aí poderia ter residido a raiz do problema. Não perceberam isso tal como não perceberam que são os erros de gestão, nomeadamente os de gestão financeira (não terem renegociado os swaps de alto risco), o material de guerra pago por valores excessivos para cobrir luvas e outras prebendas, o dinheiro desviado da economia para offshores, o peso do serviço da dívida, a importação para suprir a ausência de indústria, e todas essas debilidades nacionais que pesam, e como pesam, no drama deste pobre país - e que deveria ser aí que deveriam ter incidido a sua acção, 

Mas não. Não têm cabeça para tanto.

O desastre foi o que se viu. Perante os sucessivos desaires, Vítor Gaspar ia-se confessando perplexo, nunca percebia o que acontecia. Cortava nos ordenados e nas pensões, aumentava impostos, cortava nos apoios sociais, aumentava transportes e taxas moderadoras e, para espanto dele, as empresas começaram a fechar e o desemprego a aumentar para além do previsto.



Como todos os burros encartadados, os membros do governo não conseguiram nunca perceber o nexo causal entre as causas e as consequências, olhando apalermados a realidade que desfilava perante si. E, para espanto da maior parte da população, para tentar corrigir a rota, os do governelho persistiram na receita e, alheados até da lei, foram sempre tentando aumentar a dose.

E foi assim que a Segurança Social começou a desequilibrar-se, a dívida pública a aumentar, o défice a não abrandar, a recessão a impor-se, a emigração a aumentar.

Até que, não conseguindo mais gerir o descalabro, Vítor Gaspar se foi embora, confessando que tudo lhe tinha fugido das mãos, que a receita estava errada.

Poderia pensar-se que os que ficaram aprendiam alguma coisa com a lição. Mas não. Menos inteligentes ainda do que Vítor Gaspar, continuaram a persistir nos erros.

Depois de cortarem no rendimento disponível e na liquidez circulante, desataram a cortar naquilo a que chamaram gorduras: na investigação, no ensino, na saúde, na justiça. Sempre à toa.

É que poderiam tê-lo feito (embora o não devessem porque racionalizar não é eliminar!) com um mínimo de ponderação ou racionalidade. Mas não. Cortaram mãos, braços, pernas, com a displicência de quem corta cabelos ou unhas. Com os corpos em sangue e em sofrimento, apresentam-se, lampeiros, a pedir desculpa pelos transtornos ou a fazer pueris habilidades verbais.

Mural de Rivera pintado no Palácio Nacional, México

E nós assistimos perplexos à desvergonha, ao desrespeito desta gente. Pensamos, com pudor, que um povo não deveria ser governado por gente tão ignorante. É que é tudo muito mau, mau demais, humilhantemente mau demais.

A devastação que esta gente provocou no País vai ser difícil de corrigir.

Há questões que são estruturais e só gente muito inconsciente e irresponsável é que, querendo fazer arranjos em casa, desata a deitar abaixo os pilares e as traves, as paredes mestras, a escavar dentro de casa. E nem mesmo quando lhes cai o tecto em cima percebem que a culpa é do que estão a fazer.

Durante muito tempo me interroguei: será deliberado? será ideologia?

Mas agora tenho para mim que não: é burrice mesmo, apenas burrice, aquela burrice estulta dos que nem sequer se sabem burros.

Augustin de Lassus

Ao fim de três anos, a dívida disparou para valores assustadores, o défice não desceu nem dá mostras de estar controlado, o desemprego mantém-se elevado, o esbulho fiscal mantém-se, a economia está mais débil que antes e, mais preocupante, e isto é mesmo o mais grave, o investimento parou e a demografia prenuncia uma catástrofe a prazo. Ou seja, o mal que foi feito não é apenas um mal imediato: não, é um mal que vai perdurar.


Poderia ainda falar em tantos outros aspectos. Mas são tantos.

Por exemplo, poderia falar na cegueira e leviandade como se actuou no caso BES deixando ruir e despedaçar um banco que era um pilar do sistema financeiro português, poderia falar no que está a acontecer na PT em que com a mesma ligeireza dizem que não têm nada a ver com isso, como se os 14.000 empregos directos e os ainda em maior número indirectos ou um importante centro de decisão nacional ou a detenção de tecnologia fossem letra morta, objectos dispiciendos.

Poderia também falar na ligeireza com que entregaram a energia aos chineses, parte significativa dos seguros aos chineses, os aeroportos aos franceses, os correios a não se sabe quem, e, com idêntica ligeireza, querem entregar os transportes públicos a quem calhar, as águas a quem der mais (mais ou menos, tanto lhes faz), e etc, etc.

Poderia também falar da ligeireza com que se acolhe gente cujas fortunas não são explicáveis e que estão a comprar todo o património imobiliário relevante, tal como poderia falar na igual ligeireza com que fecham os olhos ao facto de grande parte da comunicação social já estar nas mãos de angolanos.

Poderia ainda falar no preocupante e gravíssimo desprezo pela arte, pela cultura em geral, pelo conhecimento no seu todo.

Poderia falar no desprezo pela dignidade das pessoas, na indiferença perante a dor e o sofrimento dos que ficaram desempregados, nos que caíram na mendicidade encapotada, nos que foram para longe das famílias, nos que foram formar família longe do seu país. Poderia falar de tanta coisa.




Mas vou poupar-me porque falar nisto deixa-me doente. Se eu pudesse e se soubesse que não me ia meter em trabalhos, juro que soltava os cachorros atrás desta gente que tão mal fez ao meu País.


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Não gosto de acabar o meu dia debaixo de uma nuvem de arrelia malsã. 

Podia, claro, escrever um outro post como geralmente faço. 

Mas, em vez disso, vou antes chamar um Poeta para ver se, com as suas puras palavras, me ajuda a purificar o ar por aqui. Luís Filipe Castro Mendes com Imitado de Alberto Caeiro e depois com A Casa na Noite em A Misericórdia dos Mercados parece-me ser a voz certa para isso.

















Ontem um homem das cidades
veio explicar-me os valores da vida.
Disse-me que a minha sobrevivência era um privilégio
e o conchego dos banqueiros uma justiça.
Falou-me de uma nova sociedade, feita de esperteza e água fresca.
Deixei-o falar.
Ele não sabe que ficou também do lado dos que perdem
e até o descobrir virão mais rosas
e a areia cobrirá todos os jardins.



Máscaras de dança da tribo Yupk, século 19
















O que foi teu e o que juntaste à vida,
tudo te mostra a casa iluminada:
no fim do caminho a luz estremecida,
no rasto dos teus passos a morada.


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E a dança, senhores. Que os corpos digam de sua justiça.





Nederlands Dans Theater

SLEEPLESS
coreografia Jirí Kylián, música de Dirk Haubrich
GODS AND DOGS
coreografia Jirí Kylián, música de Ludwig Van Beethoven
MINUS 16
coreografia Ohad Naharin, música de autores vários

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 E, por hoje, por aqui me fico.

Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa terça-feira.


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quinta-feira, outubro 09, 2014

O tempo é o novo dinheiro: férias ilimitadas. Voto na ideia. Mas custa-me um pouco falar nisto enquanto assisto quase petrificada ao que está a acontecer na PT. Uma desgraça e uma vergonha.


No post abaixo já lamentei a decisão do DN ao prescindir da colaboração do grande jornalista que é Baptista Bastos. Fez mal o DN, por todos os motivos e mais um: é que Baptista Bastos trazia público ao DN. Só espero que rapidamente algum outro jornal o contrate. Eu e todos os milhares de leitores que não perdiam as suas crónicas, segui-lo-emos para onde ele for.

Mas sobre este assunto falo no post a seguir. Aqui, agora, falo de um outro coisa.



Noches Noches La Luz - Aurora



Avishai Cohen



No outro dia a minha filha enviou-me um mail com um link


Richard Branson Is Right: Time Is the New Money. 


O tema é interessanteIn the participation age, a new form of payment is emerging: time.


Férias ilimitadas, regime de trabalho livre.

Há locais em que isto se pratica, empresas de prestígio - mas em Portugal não conheço. 

No Grupo em que trabalho não é assim, os dias de férias são os de lei. Mas, na medida do que é possível gerir de forma directa, facilito ao máximo a vida das pessoas que trabalham comigo. Têm menino com festinha na escola, pois que vão, estejam com os filhos e, nessa tarde, nem precisam de vir, trabalhem a partir de casa, como queiram. Têm assuntos para tratar e vão levar parte da manhã pois que tratem e podem vir apenas de tarde, estão com dor de cabeça e querem ir logo para casa, pois claro, que vão. E sou incapaz de fazer as pessoas estarem numa reunião, se souber que têm que ir buscar os filhos à escola ou se tiverem qualquer outro compromisso. Não concebo outra forma de gerir pessoas. O trabalho não deve ser apenas uma obrigação, muito menos deve ser um castigo. As pessoas trabalham melhor se estiverem tranquilas e felizes, se se sentirem respeitadas e estimadas. 

Aliás, tento não ocupar ninguém depois das seis. Se ficam é porque acham que precisam. Não controlo o tempo que estão no local de trabalho mas sim o que fazem. Da mesma forma, é raro o dia em que não estou um bocado à conversa com quem me procura ou com quem encontro, mesmo que na copa. Conversamos sobre tudo e estimulo que se interessem e valorizem uma vida equilibrada, com tempos livres, com tempo para o prazer.

Contudo, há muita gente noutras áreas da empresa que é ou se faz passar por workaholic. Trabalham até às quinhentas, trabalham à hora de almoço, enviam mails à noite, ao fim de semana. Na minha área desincentivo isso em absoluto.

Gosto de ter a trabalhar comigo pessoas que me falam dos livros que lêem, dos filmes que vêem, de passeios que dão, de programas que vêem na televisão. E rimos, e há alguns que são muito engraçados, e há diferentes pontos de vista, e forma-se um sentimento de equipa, de pertença a um grupo de pessoas que puxa para o mesmo lado. Não sou assim por razões interesseiras, para que a produtividade seja melhor, faço-o porque era assim que eu gostava de trabalhar quando era chefiada por pessoas que me respeitavam como pessoa, e faço-o porque esta é a minha maneira de ser. Mas, claro, sei por experiência própria que nada mata mais a produtividade e o gosto por trabalhar do que a falta de reconhecimento.

Além do mais, não é por uma pessoa estar obedientemente presente no local de trabalho oito horas ou mais por dia, que o resultado do seu trabalho é melhor. Tenho colegas que são certinhos, certinhos, certinhos e que, no entanto, para tomar uma decisão ou para produzir uma opinião levam uma eternidade.

Nem todas as empresas terão músculo ou condições para aguentar um regime mais livre mas, sempre que o possam, estou em crer que este modo de estar a nível profissional irá fazer o seu caminho. Quem trabalha por turnos, quem tem que estar atrás de um balcão ou a servir a um restaurante não poderá dar-se a estas liberdades mas, quem possa, acho que deverá fazê-lo.

A principal barreira será a mesquinhez das mentes mais apertadas. Os menos dotados são sempre os mais castradores. Sempre vi os mais fracos, os que têm mentalidade de vizinhas, fazerem da censura o seu modo de vida. Mas cabe às lideranças fortes ultrapassar preconceitos e ideias do passado e fazer valer uma nova maneira de estar.

O trabalho não deve ser tudo na vida, não deve ser uma obsessão. Pelo contrário, deve ser uma componente da vida, uma componente que traz dignidade, autonomia e sentido de realização à vida das pessoas. 

Richard Branson também acha isto e eu estou curiosa por saber como vai ele pôr em prática a ideia. E vou tentar perceber melhor o conceito.

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Falo de bem estar no local de trabalho, falo de motivação e, enquanto isto, penso no que está a acontecer na PT. É um drama difícil de descrever.


Conheço algumas das boas instalações da PT. Participei em encontros promovidos ou patrocinados pela PT, participei em visitas guiadas às suas instalações. Ouvi várias vezes falar pessoas da PT sobre os seus modelos de governance ou sobre a aplicação de novas metodologias de gestão. Não há em Portugal grande ou pequena empresa de serviços, nomeadamente consultoria das mais variadas espécies, que não tenha a PT entre os seus clientes de referência.

A PT era uma das grandes empresas portuguesas. Grande em volume de negócios, grande em números de colaboradores, grande em número de fornecedores, grande em número de clientes, grande em quase todos os indicadores.

Contudo, devo confessar - e quem lida comigo sabe bem disso - que sempre me pareceu que havia ali algum deslumbramento, muito dinheiro fácil, muita apetência por modas. Ou seja, uma gestão algo fútil.


Tenho também a ideia de que gestores florescentes, espampanantes, que primam pelo seu poder de show off, que apadrinham toda a espécie de modas, não dão sólidas garantias aos accionistas e stakeholders.

O tempo rende mais para uns do que para outros, é certo, mas a sua relatividade não é infinita. Uma pessoa que está hoje aqui, amanhã ali, depois a dar entrevistas, depois a fazer palestras, depois a almoçar com jornalistas, depois a dar uma aula, depois a fazer um road show, depois a ter uma reunião para ver apresentações e assim sucessivamente, forçosamente alguma coisa deixa para trás. E, geralmente, o que fica para trás é o cuidado na análise, é a proximidade ao negócio, é o ouvir os colaboradores, é, na verdade, a gestão.

Gestores mediáticos assim ou gestores que adquirem o vício de se sobreocupar com eventos que dão visibilidade, são gestores que, regra geral, delegam demais. E aqueles em quem eles delegam, não se sentindo muito apertados, delegam nos de baixo, e os de baixo sentindo-se importantes, delegam nos de baixo, e aos de baixo já lhes falta a competência e, então, inventam uma desculpa qualquer e contratam consultores e as empresas de consultoria para serem competitivas e terem boas margens, contratam miudagem que vai trabalhar por tuta e meia. E, assim, acabam estas grandes e aparatosas empresas por ter as decisões de gestão a cargo de miudagem das empresas de consultoria ou a cargo de estruturas deslumbradas mas pouco responsáveis. Não é sempre assim - mas é muitas vezes assim.

A gente da PT vivia entre o mediatismo da vida glamourosa do alto empresariado e os macios corredores do dinheiro e do poder.

Até um dia.

Sem que ninguém tivesse exactamente percebido como, de um dia para o outro, a equipa dos gestores excelentíssimos rebentou com um património estimável, com a reputação dos gestores portugueses, e com uma empresa enorme e desejável. 

Eu disse de um dia para o outro mas disse mal. Foi um pouco todos os dias - até que uma gota fez transbordar ao copo. Os 900 milhões aplicados não se sabe como na Rioforte foram apenas a gota de água.

Agora são cerca de 15.000 trabalhadores em pânico, são infraestruturas valiosas, é um património incrível que está à venda na rua - e uns quantos (de outros países, claro) a verem por quanto podem ficar com um saldo destes. Quem comprar vai fechar instalações, despedir pessoas. Era uma empresa sólida, rentável e valiosa, com planos de expansão. Agora, para quem quer comprar barato, é um bagaço, um fruto seco, um saco de ar.




Henrique Granadeiro saíu. Zeinal Bava foi corrido. Os brasileiros não brincam em serviço. Voz de mel mas mãos de ferro. Aos olhos do Brasil, a PT e os grandes gestores portugueses devem ser apenas os restos de uma monarquia tonta com deslocadas manias da grandeza, gente falida, uns pobres amadores.


No Grupo PT a instabilidade impera, a incerteza corrói - e não é para menos.

Perante isto, perante a ruína de tantos que nada fizeram para que uma vergonha e desgraça destas lhes caísse em cima, perante a depreciação de uma empresa tão valiosa, perante o empobrecimento que isto acarreta (porque a PT dava modo de vida aos seus trabalhadores mas também aos seus imensos fornecedores), só espero que se apurem responsabilidades. Mas a sério. Só espero que não ponham nenhuma Mónica Ferro ou outra andorinha assim a apurar responsabilidades nem no Parlamento nem na Justiça; ponham gente séria e com cabeça. E façam justiça. 

Mas, calma aí, os maiores responsáveis para além de Granadeiro, Bava e outros da PT, são os senhores do Governo que assistem a tudo imperturbáveis. Deixaram ir a golden share sem cuidarem de quaisquer cuidados, e agora deixam que tudo aconteça sem que mexam uma palha para salvar nem que sejam apenas os salvados.

Tudo isto tem que ser julgado. Há casos em que a irresponsabilidade e a incúria devem mesmo ser objecto de séria condenação - e este é seguramente um deles.


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Tinha ainda uma coisa giríssima, desta feita enviada pelo meu filho. Mas já não tenho tempo, estou só a bocejar (e temo que vocês também pois só agora reparo no lençol que já para aqui vai). Amanhã.

E há ainda a questão dos livros sobre os quais ando para falar. A ver se amanhã, também.




A ver se faço ideia de quem é o autor que vai ganhar o Nobel. Sinto-me sempre a maior das ursas quando sai a alguém de que nunca tinha ouvido falar antes.

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Relembro: sobre o afastamento de Baptista Bastos do Diário de Notícias, falo já aqui a seguir.


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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela quinta-feira!


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