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segunda-feira, outubro 09, 2023

Viajar. Ler. Estar.

 


Tenho uma amiga a passear em Itália, outro anda pela Grécia, outra está na Turquia. Outras duas, separadamente, vieram há pouco dos Açores e uma pessoa da minha família próxima chegou hoje de uns dias de férias em Paris. Outro anda em Trás-os-Montes e outra, que vive fora e cá veio de férias, sei que anda por aí, por 'este nosso belo país', mas neste momento não sei por onde. 

E eu, que tanto gostava de passear e que tanto passeei, parece que me fui desabituando disso ao longo dos anos em que, por o meu pai estar mal e sempre naquele limbo em que qualquer coisa de pior poderia acontecer a cada momento, ganhei receio a afastar-me não fosse dar-se o caso de não estar por perto em caso de emergência.

Além disso, agora não há o permanente estado de quase alarme em que vivia na altura do progressivo declínio do meu pai, mas há a minha mãe que, com os seus noventa anos e a sua tendência para a ansiedade quando algum sintoma se anuncia (mesmo que ao de leve), faz com que também não me sinta confiante em afastar-me.

Como entretanto mudei de casa e adoro aqui estar, nesta minha tranquila casa que tem um jardim tão romântico e sereno, já para não falar naquele lugar tão especial a que aqui chamo heaven, e porque, por ter deixado de trabalhar, tenho agora tempo para os desfrutar, parece que deixei de sentir o apelo por me pôr a caminho.

Com tudo o que já visitei, com todas as viagens cá e lá fora que já fiz, com as fotografias que toda a gente envia de todo o lado, com os sites, com os documentários, os vídeos e tudo o mais que por aí há, parece que tenho a sensação de que já não me surpreenderei muito com o que tenho por ver, se lá estiver, ou seja, in loco

Sobretudo, sabe-me muito bem estar. Permanecer. Desfrutar. Não ter que fazer malas, estar a ir e vir. E o meu marido está na mesma. Adora o sossego. Adora poder ler ou ver televisão ou passear com o cão ou o que lhe apetecer, sem a preocupação de ter que se despachar para ir fazer outra coisa qualquer.

Talvez daqui por algum tempo, me dê uma daquelas travadinhas que me leva a querer mudar de vida e não descanse enquanto não me puser a caminho. Mas, por enquanto, sinto uma grande felicidade em estar sossegada, poder acordar tarde, caminhar por aqui perto ou ir até à praia, jardinar, regar, lavar, varrer, cozinhar, etc., ler, escrever até às tantas, ter a família reunida ao fim de semana (ou nos dias feriados), comunicar-me com amigos, por vezes estar com eles. 

Sobre livros, a minha filha queixa-se que parece que não encontra agora livros que a encantem. Frequentemente deixa-os a meio, sem paciência para esforços que sabe de antemão que não vão compensar. Eu, desde há algum tempo, também estou assim. Mesmo muitos daqueles livros altamente propagandeados ou ditos clássicos agora me parecem básicos, sem substância ou arte. Disse-me ela que, do que tinha lido ultimamente, só um lhe tinha parecido digno de realce, 'As primas' de Aurora Venturini. Por isso, comecei hoje a lê-lo. E é verdade, ela tem razão: só não foi de penalti porque se meteram outras coisas. Mas amanhã com certeza que vai. Depois digo porquê.

Ela estava a ler e acabou-o cá, hoje à tarde, 'O quarto do bebé'. Eu já o espreitei e também me pareceu demasiado plain mas ela diz que se lê bem, que não é nenhuma obra literária, que, por ser de quem é, também estava à espera de outra coisa, que é um diário e que se percebe que é autobiográfico e que, por isso, à parte os bocados em que Anabela Mota Ribeiro descreve sonhos e outras partes mais nhec-nhec, se deixa ler sem sacrifício.

Não sei se é como nas viagens. A gente já leu tanto de tudo que, às tantas, já tudo parece simplório ou dispensável.

Por acaso o meu filho no outro dia disse que estava a ler um livro e que era talvez dos melhores livros que já tinha lido. Sabendo-o também exigente, fiquei curiosa. Mas era um nome algo estranho, não fixei. Não posso esquecer-me de lhe perguntar. Só que receio que seja um daqueles livros gigantes que ele lê com facilidade mas que a mim já me custam. Parece que agora também já tendo a sentir um certo sentimento de rejeição em relação a livros muito grandes, com mais de trezentas ou quatrocentas páginas.

Enfim, cenas.

Tirando isso, é pena que o mundo não se amanse, que as pessoas não ganhem tino. O próprio planeta devia arranjar maneira de espalhar pelos ares uns pozinhos de perlimpimpim que deixassem as pessoas todas numa de peace and love.

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A fotografia é da autoria de Matt Coughlin e Eva Cassidy interpreta Autumn Leaves

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Desejo-vos uma boa semana a começar já nesta segunda-feira

Saúde. Amor. Paz.

domingo, agosto 23, 2020

Dia cansativo, ainda por cima de perna ao peito.
Mas foi bom ver o mar e, agora, ao entrar na madrugada, foi divertido ver o Pedro Paixão naquelas suas conversas malucas
(malucas mas não parvas até porque, note-se, há uma certa diferença entre maluqueira e parvoíce)





Os dias em que vamos buscar coisas ao apartamento parece que são os piores. Cansamo-nos, vimos carregados, eu quero aproveitar para trazer mais coisas, ele, como é ele que carrega tudo o que é pesado, aborrece-se, diz que eu abuso, eu digo que ele traga só o que quiser, ele diz que, se não trouxer tudo, eu fico chateada, eu digo que ele faça o que quer e não invente que eu o pressiono. E, neste bate-papo absurdo vamo-nos aborrecendo ainda mais. Andar a buscar coisas cansa, perde-se tempo, já não há motivação. A casa praticamente vazia, com despojos, restos do que caíu ou ficou para trás na mudança, tudo meio triste. E a nós já nos falta paciência para andar a garimpar. Por um lado dá vontade de deitar tudo fora e, por outro, parece irresponsável tomar essa decisão sem cuidar de saber o que se deita fora ou aproveita. Às tantas já estamos com fome, cansados, o carro a deitar por fora. E eu, outra vez, aflita da minha perna. Sinto que tenho para aqui um músculo em tensão, talvez quase rasgado, provavelmente inflamado. Ele não quer que eu pegue em coisas que pesem, eu custa-me vê-lo tão carregado e eu só a olhar e, depois, vou ajudar e, a seguir, já mal consigo dar passo e, depois, para além da dor incapacitante, tenho-a a ele a mandar vir comigo. Portanto, é sempre uma cena.

Mas a questão é que a roupa fomos nós que a trouxémos, em sacos.  Eu trouxe blusas, blusinhas, tops, túnicas, saias, vestidos. Não tudo mas o que me pareceu necessário. Mas, por exemplo, esqueci-me dos soutiens. Quando tomei banho, pus a roupa para lavar e, no dia seguinte, quando me levantei... zero soutiens. Portanto, tenho andado com soutien dia sim, dia não. Ou seja, indispensável trazê-los. E queria também descobrir duas colchas brancas. A que eu usava habitualmente, aquela que a minha mãe, pela fotografia, diz que é uma toalha de mesa, ficou na cama que era nossa e que agora está num dos dois quartos das 'visitas'. Para nós, comprámos uma outra cama. Eu queria uma cama mais larga, menos clássica. As do ikea estavam esgotadas mas, numa loja de bairro, encontrámos uma equivalente. Levanta-se o estrado e é toda arrumação por dentro. Tem um metro e meio de largura. Pusemos quadros por cima e fica uma 'cabeceira' bem bonita. São dos pesados, com vidro, madeira pesada à volta. Foi o meu marido que os colocou e pôs uma bucha forte mas, pelo sim, pelo não, não encostou a cama à parede. Disse que, por via das dúvidas, era melhor deixar espaço para cairem no chão, caso se desprendam. Mas claro que não caem. Ora nesta cama coloquei uma colcha de tipo patchwork, em quadrados de cores diferentes, em veludos espessos, bonitos, em cor de tijolo, fogo, cores afins, com alguns brilhos. É pesada, bonita, confortável. Mas a minha filha, que não é dada a cores fogo mas, sim, a cores claras, pastel, branco, diz que acha que ficaria melhor com uma colcha de renda branca por cima desta que ali está.

E lá as descobri, num gavetão de um dos roupeiros do closet. Já amareladas. Já foram ambas lavadas, uma já está estendida. A outra ainda está na máquina porque, em especial quando molhadas, ficam a pesar toneladas e a minha perna já está mal de mais.

E vieram mais livros, nomeadamente os de culinária que ficaram num móvel que ainda não veio, e alguns candeeiros, e dois bancos metálicos, cinzentos, de uma cozinha que tivemos quando nos mudámos para aquela casa tão feliz para onde fomos viver quando a minha filha era bebé e onde nasceu o meu filho e onde vivemos até eles serem jovens adolescentes e os livros terem feito com que já lá não coubéssemos. Os bancos pesam horrores e, junto ao estofo, em cinza mais clarinho, já têm alguns pontos de ferrugem. O meu marido ia tendo uma fúria quando me viu a carregá-los: por um lado por eu estar a esforçar-me, estando no estado em que estou e, por outro, porque não quer trazer coisas que não estejam em boas condições. Aliás, estava irredutível, não queria trazê-los. Mas, para colocarmos junto à mesa que os anteriores donos cá deixaram e que veio da cave para o telheiro e que, justamente, é também cinza clarinho, vão dar jeito. Tenho duas cadeiras que eram deles, tenho cinco bancos de plástico e tenho quadro cadeiras com assento em verde que habitualmente estão em volta da mesa branco de ferro. Ora não chegam. Como não temos tempo para andarmos às compras, lá vieram os old bancos. E vieram toalhas de casa de banho e detergentes que havia lá com fartura e que é absurdo transportá-los para os deitar fora e depois ir ao supermercado comprar outros. Mas tudo pesa. Às tantas, tanta a discórdia, estamos a ponto de nos divorciarmos ali mesmo. Eu, pelo menos, estou. Ele está mais para mandar vir e mostrar má cara -- acho que não é tão dramático e extremado como eu. Queixa-se ainda de outra coisa: mal conseguimos arrumar minimamente a casa nova, vamos buscar novo carrego e lá fica a casa, outra vez, cheia de sacos e sacos e sacos por arrumar. Pois é. Também me chateia, isso. Mas fazer o quê? Só se não tivéssemos mudado de casa.

O que sei é que dali fomos para o supermercado. Às tantas, roídos de fome, lembrámo-nos de trazer de lá uma pizza pré-cozinhada, daquelas que devem engordar até dizer chega. Almoçámos já passava das quatro da tarde. Eu quase sem conseguir dar passo. Pouco consegui fazer. Mas estávamos a convergir numa coisa: dar uma saltada à praia. Nem nos lembrámos da minha perna nem da barafunda a sair de lá. Mal consegui andar. Mas ainda fui sentir a temperatura da água e deu para ficarmos a respirar o ar fresco do mar, para ficarmos a olhar a sua bravura. Apesar de tudo, soube-nos bem. Chegámos a casa depois das nove da noite tamanha a fila e a sua lentidão. Fiz ovas de bacalhau cozidas com batata, cenoura, feijão verde e ovo. Jantámos às dez e tal mas soube-nos maravilhosamente. E já nem nos lembrávamos da raiva mútua que sentimos a trazer coisas da outra casa.

O espaço onde tomamos as refeições é contíguo à cozinha. É muito agradável. Tinha pouca luz. Pomos agora também um candeeiro de pé muito simples com uma grande lâmpada amarela. Dá uma luz aconchegante.

Quanto à casa: tem a vantagem de ser maioritariamente térrea. Tem um sótão e uma cave, agradáveis, mas podemos fazer a vida toda ao nível do rés-do-chão. Ainda não atino bem com a orientação geográfica. Nos primeiros dias não percebia para onde davam as janelas. Tinha que ir espreitar. Mas, quando à noite estou para adormecer, tento perceber a posição das divisões e das respectivas janelas localizando-as na planta da casa e não percebo bem. Tem uma disposição interessante mas volta e meia, quando ando à procura das coisas -- e estou sempre à procura das chaves, do telemóvel, do x-acto para abrir as caixas, da tesoura, disto e daquilo  -- fico com a sensação que faço círculos, que ando desorientada. É uma casa especial, cheia de recantos e espaços especiais, e com uns certos mistérios. 

E, Amofinado, in heaven plantei ciprestes. Gosto muito desses seres esguios, muito dignos, vivos para sempre. Era uma terra bravia, apenas com pedras e mato. Fiz dessa terra um pequeno bosque onde as árvores, felizes, crescem jubilosamente. Aqui, não apenas o espaço é bem mais pequeno como o jardim já existe e eu não sei se quero mexer-lhe pois é lindo, tem árvores mesmo muito bonitas. Ainda não tive tempo para usar a minha máquina fotográfica. Deveria ter fotografado a casa vazia, depois a ir ganhando forma. Mas a canseira tem sido tanta que nem para tal me tem dado.Estou a escrever e a pensar que os vasos precisam de ser regados e que as zonas onde a rega não chega também. Já para não falar que todo o jardim precisa de ser varrido e limpo. Quando fiz anos o meu filho deu-me uma coisa que é meio ancinho e meio vassourão. Mas festejámos in heaven e deixei lá ficar isso e, quando lá fomos, foi tudo tão a acorrer que me esquecemos. E bastante falta está a fazer.

Este domingo espera-nos um dia cheio. Por isso, já tomei brufen e estou com gelo. Se amanhã continuar com tantas dores, terei que tomar mais.

E agora a ver se consigo levantar-me e ir a andar até ao quarto. Com as dores com que estou, ainda me deito aqui no sofá...Volta e meia, saio da casa de banho e vou em frente, entrando na salinha dos de língua portuguesa. Tenho que me recentrar, reorganizar geograficamente e virar para o ouro lado, para entrar no quarto propriamente dito. É isso e acordar, de manhã cedinho, com o som da rega debaixo da janela do quarto. Como é novidade ainda me acorda. Depois haverei de me habituar. É um som bom.

Tirando isso, hoje o YouTube tinha para me recomendar o Pedro Paixão. Deve ter sido por eu ter confessado aqui que lhe acho uma certa piada. Pois bem: acertou e estive a ver de gosto, até ao fim, encantada com tanta maluquice. Da primeira, a entrevista concedida a Anabela Mota Ribeiro, coloco apenas a 1ª parte mas, para quem esteja interessado, estão disponíveis a 2ª e a 3ª partes. Como todos os seres doidos, bipolares e inteligentes, Pedro Paixão é, sem dúvida, polémico, insólito e interessante. Não deve ser fácil conviver com uma criatura assim. Nem para ele próprio deve ser fácil mas, para quem aprecie o género, é sempre um desafio.




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Flores obviamente de Monet e um Mr. Bojangles segundo Jorge Palma

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E a todos desejo um feliz dia de domingo

segunda-feira, janeiro 30, 2017

I am the captain of my soul




Talvez por ter a rotina alterada, talvez por ainda estar sob efeito do último relaxante muscular que tomei (para aí há uns dois ou três dias), talvez porque a noite de ontem, sábado, foi obra, todos cá em casa, um chinfrim que só visto, os miúdos numa animação tal que me deram conta da cabeça (isto de estar mau tempo e não desopilarem na rua para, em casa, estarem minimamente sossegados, ontem deu num pico de energia simultânea que me ia fundindo os neurónios), a verdade é que chego a esta hora e estou a modos que off.

Há bocado estive a ler em voz alta o horóscopo chinês não apenas para o meu animal como para o dos restantes. Mas, a cada frase, já me estava a dar vontade de bocejar.

Agora já se foram todos deitar e apenas eu me deixei ficar. Estou a ver o programa da Anabela Mota Ribeiro e o Curso de Cultura Geral com a Ana Luísa Amaral e gosto de a ouvir, tem uma dicção perfeita e um tom de voz encorpado que me agrada. Também me agrada o que ela diz. Agora fala o antropólogo Miguel Vale de Almeida mas não está a dizer nada que me encante. Também ali está uma senhora com um cabeleira farta mas ainda não percebi quem é porque estou a escrever e a ouvir mais do que a ver.



Hoje de tarde, depois de chegar de um passeio na praia, que estava gelada, a fotografar redes de pesca, o mar, um trabalho do Bordalo II, e quem por ali andava, fui ao supermercado e, depois de arrumar as coisas, deitei-me em cima da cama e adormeci profundamente. Até me lembro de ter sonhado. Que sono tão bom eu dormi. Curto mas bom.

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Ah... é a Adriana Molder. Diz que não se sente culpada de flanar, de andar sem destino. Que é obsessiva quando trabalha mas que, depois, gosta de degustar o ócio. Diz que é assim aos 40 tal como era aos 12, quando estava de férias. Tem um ar um pouco ansioso.
Parece-me que o programa tem a ver com as influências do mundo exterior, parece-me que viveram no exterior durante algum tempo.
Nunca vivi no estrangeiro. Apenas em serviço ou em férias, coisas de curta duração. O maior período fora de seguida foi um mês. E nunca estive sozinha. Estar sozinha no estrangeiro, isso, desconheço. Acho que não gostaria, Também nunca vivi sozinha cá. Nem sequer fui alguma vez ao cinema sozinha. Ou à praia. Não gosto de estar sozinha. Só à noite na sala -- mas a isso não se pode chamar estar sozinha.

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Dizia eu, lá atrás, que, de tarde, tinha adormecido. Depois, quando acordei, fiz sopa, fiz o jantar desta segunda-feira, passado um bocado fiz o jantar de domingo, depois tomei banho, depois vi uma apresentação para uma reunião que tenho de manhã, depois respondi a alguns mails de trabalho (e calma, não trabalho em casa ao fim de semana por prazer ou devoção mas porque esta segunda vai ser complicada, tinha mesmo que adiantar algumas coisas), depois estive a enviar fotografias que tinha feito de manhã no parque, depois estive a preparar a roupa de amanhã porque de manhã não terei tempo para isso, depois chegaram eles, os novos habitantes cá de casa, e os mais pequenos estiveram a brincar, depois jantámos, depois brincaram mais um bocadinho, depois cama, depois a mãe esteve aqui na sala e esteve a ouvir-me ler o seu horóscopo chinês, como se fazem umas bolinhas de maçã e aveia (apple energy bites) e os efeitos benéficos de usar o açúcar misturado com o shampoo como esfoliante natural. E etc.

E agora que estou aqui e que tinha pensado escrever sobre um assunto da actualidade, estou nesta preguiça, sem energia para o que quer que seja.


Não respondo a comentários, não respondo a mails, uma vergonha. Mas é tal a indolência que me tolhe as mãos (e o raciocínio) que, como podem ver, não passa disto. Desculpem-me.

Nem a corrida em osso no Valls, nem a vitória de Benoit Hamon, nem as inqualificáveis anormalidades do palhaço Donald, nem a vitória do Moreirense (tema que chegou a dar uma certa disputa entre os dois meninos, ele a dizer que o apoiava e ela a dizer que gostava de todas as equipas menos do Moreirense), nada -- não consigo alinhar meia dúzia de palavras sobre o que quer que seja.


Tenho aqui ao meu lado um livro sobre Guilherme Parente, pintor de que muito gosto, e gostava tanto de transcrever parte de uma sua entrevista ou, então, um pouco do livro de Imre Kertész do qual, antes de adormecer, ainda consegui ler um pouco (e ontem também; vá lá). Mas nem isso. Senhores. Nem isso. 

E li há pouco alguns blogues, destes que aqui tenho na minha galeria. Algumas coisas boas. Pensei: vou fazer um cadavre exquis com frases de uns e outros. Estava a pensar se lhe dava a forma de poema ou de prosa. Pois, pois. E energia para isso? É que nem energia para desempatar entre a poesia e a prosa.


Por isso, vocês desculpem-me: hoje fico-me por aqui (apesar de agora estar a ver o Jordi Savall e só isso justificar que, em condições normais, eu fizesse até uma directa).
Antes de me ir deitar, ainda vou ver ver se os meninos estão tapados. Geralmente não estão, especialmente ele.
No entanto, para tentar que não protestem e não me exijam de volta o dinheiro do bilhete, deixo-vos com um dos poemas preferidos de Mandela e do qual eu também muito gosto. Tomara que também gostem e que achem que justifica o tempo que vos fiz perder até aqui chegarem.


Invictus de William Ernest Henley lido por Morgan Freeman


Out of the night that covers me, 
      Black as the pit from pole to pole, 
I thank whatever gods may be 
      For my unconquerable soul. 

In the fell clutch of circumstance 
      I have not winced nor cried aloud. 
Under the bludgeonings of chance 
      My head is bloody, but unbowed. 

Beyond this place of wrath and tears 
      Looms but the Horror of the shade, 
And yet the menace of the years 
      Finds and shall find me unafraid. 

It matters not how strait the gate, 
      How charged with punishments the scroll, 
I am the master of my fate,
      I am the captain of my soul. 


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Entretanto, a Anabela Mota Ribeiro, já publicou as listas dos participantes do programa deste domingo, 29 de Janeiro do ano da graça de 2017. Como apanhei o programa já no final, não vi esta parte. Leio agora.


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E, se ainda tiverem saco para tal, aceitem o meu convite e desçam, por favor, até à campanha da H&M: Bring it on

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segunda-feira, fevereiro 29, 2016

Longos dias têm cem anos




"Longos dias têm cem anos". assim me diziam quando se tratava de protelar um assunto, de o fazer amadurecer na lânguida separação do inadiável. E os longos dias passavam, carregados de justo sentimento pelas coisas que devíamos fazer de maneira lesta e durável. às vezes, não se faziam nunca. Outros planos, mudanças, resistências, vazios súbitos do coração, que é quem nos comenda o trabalho e a fantasia. "Longos dias têm cem anos". Era uma admoestação e uma ironia para o preguiçoso inveterado que num século acha tempo adequado para os seus projectos e a combinação laboriosa que os acabe. Só que eu, como o frade no seu horto, acordo sempre a horas, e retomo a palavra que tinha começado muitos anos antes. 

Foi assim com Maria Helena e Arpad. Disse um dia: "Vou escrever um retrato de ambos.". Não sei quando disse isto. Ontem, parece-me; acontece que podia ter sido nos anos sessenta -- os anos sessenta foram importantes para mim. Mas não foi, com certeza, no dia em que os conheci. Porquê? as primeiras impressões não são decisivas. Às vezes são fatais, mas não decisivas.

Lembro-me que chegaram a casa de Sophia de Mello Breyner, à noite, e era como no teatro quando entramos tarde e se passa um bocado sem que se compreenda nada da peça. Entendi que se tratava de pessoas vindas de longe. Falavam do Brasil. Eu sabia pouco de tudo. Ainda hoje sei muito pouco de tudo, o que me causa embaraço quando vejo a tremenda bagagem de conhecimentos que têm as pessoas. Se ouvirmos tudo o que se diz nos autocarros, nas praias, nas repartições, ao fim do dia podíamos escrever uma enciclopédia em vinte volumes e até ter êxito com ela. Não há nada de mais aceitável do que a pequena sabedoria, os amores confessáveis e as histórias de doenças.

Maria Helena falava pouco. Olhava, sobretudo. Olhava com uma intensidade fria, como se estivesse a atravessar um rio e se dividisse entre o perigo e o prazer. O fundo arenoso onde se recortavam peixes prateados dava-lhe aquela expressão suspensa e maravilhada; mas, de repente, o remoinho da água trazia a noção da forte corrente, e, um pouco mais, era a dúvida, um temor concentrado, a razão alertada. O rosto exprimia angústia, os olhos abriam-se mais e ganhavam uma cor cristalina. 

Entretanto, Arpad falava muito. Como todos os homens belos, conhecia bem o descontentamento que é merecer o amor. Disse: "A Maria Helena (bicho) estudou em Itália. A mãe dela mandou-a para lá quando ela tinha vinte anos, e passou lá bastante tempo. Uma mulher sustenta-se com pouco, e assim pode aguentar melhor do que um homem. Um homem tem que comer um bom bife.". pensei que Arpad observava bem, mas não me convenceu. Madame Curie sustentava-se de rabanetes no seu tempo de estudante de Paris, o que não a impedia de desmaiar de fome. 

Imaginei Maria Helena em Florença, bastante acautelada de necessidades, recebendo as mensagens da mãe e da avó com quem se criara em Lisboa. Uma avó e mãe como as do jovem Proust, extremamente corajosas para a surpresa do génio. Olhei para ela e, nesse momento, pude localizá-la em Florença; com um vestido azul e os cabelos espessos presos com uma fita verde. Verde e azul eram as cores combinadas em certos trajos-alfaiate dos anos imediatos ao cubismo. O azul era uma cor da juventude; a cor da cólera, por mal que pareça dizê-lo. Não é o vermelho que é a cor do arrebatamento, mas o azul. A época mais deslumbrante de Picasso foi chamada "azul"; a de Vieira da Silva também. Esse azul traduz um vigor concordante com o melhor das aptidões humanas.

(...)

Íamos nisso do meu primeiro encontro com o Arpad e a Maria Helena. Arpad disse que estavam ali as três mulheres de mais talento em Portugal, e, por sorte, ninguém mais o ouviu senão nós três. Ele sabia que não ia acender rivalidades porque tínhamos diferentes artes. Modalidades, como se diz no Porto. (...) Pois nós não nos acotovelávamos na modalidade. Maria Helena pintava, eu escrevia romances, a Sophia fazia poesia -- e assim continuamos dentro do território demarcado, sorrindo, aplaudindo e permitindo ao génio a cumplicidade em que a emulação não mete o dente. A Sophia era um caso -- uma mulher que tem a cortesia de parecer vulnerável. Eu era um caso -- incerteza apaixonada. Vieira era um caso -- uma mulher justa, o que é extraordinário e incalculável. Por exemplo: eu não sou justa, ajuízo as coisas. Eu e a justiça somos pura coincidência; o facto de isto se repetir faz talvez o prodígio, mas não a certeza.

(...)

[Excerto de 'Longos dias têm cem anos' - presença de Vieira da Silva, de Agustina Bessa-Luís, mais uma bela edição da Guimarães editores]

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Devo confessar que é com esforço que me detenho. Ler as palavras de Agustina é, para mim, um prazer inesgotável. Transcrevê-las também. Há na escrita desta mulher um vigor exuberante, uma alegria sem preocupações, que me prende, que me prende como se fosse a primeira vez, uma sedução virginal. Posso lê-la muitas vezes e, a cada vez, é sempre esta surpresa.. Por vezes até me abstraio do que ali se diz para me render à forma como o diz. Contudo, quando Agustina fala de alguém que admiro, então, o fascínio é redobrado. Este livro, em que fala de Maria Helena Vieira da Silva e também de Arpad é maravilhoso.

Agustina Bessa-Luís, 93 anos
Longos dias têm cem anos


E, procurando imagens de Agustina, encontrei um vídeo interessante que aqui partilho convosco, no qual o marido, Alberto Luís, companheiro e suporte de toda a vida, e a filha, Mónica Baldaque, falam dela para a Rádio Renascença.

O mundo de Agustina


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Já agora, sugiro também a leitura da entrevista que Anabela Mota Ribeiro fez a Mónica Baldaque sobre a mãe, Agustina Bessa-Luís

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A primeira imagem, da autoria de Arpad Szenes, é Marie-Hélène X, 1942, óleo s/ tela, Col. Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva. A última de Maria helena Vieira da Silva é Estuaire Bleu.

Lá em cima, Anna Netrebko interpreta A Canção da lua da ópera Rusalka da autoria de Antonín Dvořák sobre imagens de obras de Maria Helena Vieira da Silva.

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E sobre o vestido mais bonito da cerimónia Oscar 2016 (e outros, também bonitos), queiram, por favor, deslizar até ao post seguinte.



segunda-feira, agosto 18, 2014

"A estas coisas permitiremos o terem sido". O tempo antes do tempo. E o agora e o futuro.


No post abaixo já vos falei de um talentoso português, Daniel Pinheiro, um excelentíssimo wildlife filmmaker. O seu Mondego dá-nos vontade de mergulhar nele, de largar tudo e partir à sua descoberta. Depois de ter visto este e os outros filmes, quase sinto que o que dá mesmo vontade é filmá-lo a ele a fazer aqueles belos filmes. Que prazer imenso ele deve sentir quando recolhe e trata imagens tão belas.

Mas isso é a seguir. Aqui, agora, a conversa é outra.

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Talvez tenha havido um momento em que tudo começou. Uma colisão, uma explosão, um big bang. E talvez tenha havido um tempo antes disso.

Somos insignificâncias sobre um pedaço de matéria à deriva no espaço, uma aleatoriedade incompreensível.

Mas, a maior parte das vezes, em vez de nos maravilharmos com a sorte que temos por estarmos aqui e agora, estragamos tudo. Guerras, vãs ambições, mesquinhas invejas, neuras fúteis, tristes doenças de alma. 

Por quanto mais tempo terá a espécie humana o privilégio de poder andar a surfar o imenso espaço sobre este belo planeta azul, acho que ninguém sabe. Que cada momento fosse vivido em reverência e como se fosse o último é o que me pareceria inteligente.

Mas, enfim, de verdadeiramente inteligente a espécie humana não tem muito, isso já o sabemos. As flores, as pedras, os pássaros, esses sim, sabem apreciar o dom de ser e estar.

Li a entrevista concedida por Frederico Lourenço a Anabela Mota Ribeiro no Público e gostei, claro que gostei, é uma entrevista ímpar. É uma pessoa inteligente e franca, ele, despe-se sem rebuços e expõe, com clareza, o que pensa e sente. Pessoas assim às vezes tocam o limite do suportável e acabam por sofrer. Sofreu.


Gosto do que ele escreve, aprecio (na fraca medida das minhas possibilidades) a sua obra, e partilho com ele a dificuldade na compreensão da poesia de seu pai.

Contudo, diz coisas terríveis, coisas nas quais não me revejo:

É um erro fundamental as pessoas pensarem que têm direito de ser felizes. O normal é estarem a sofrer, em situações que são desafiantes, injustas, doridas. Isso é o que distingue a vida da morte

Mas revejo-me no desprendimento com que agora encara o passado:

Há um verso da Ilíada que é dos mais importantes da minha vida. Aparece duas vezes, diz o seguinte: “A estas coisas permitiremos o terem sido”... Vou aceitar que o passado existiu desta forma, não vou entrar em luta com o que foi o passado, vou centrar-me no agora e no futuro

Contudo, em minha opinião, o que Frederico Lourenço diz não deve ser lido como a apologia de que as crises existenciais, as amarguras, as insatisfações ou desajustes são a verdade essencial de que a vida é feita, ou que tudo o que é alegre ou sereno é fútil. Há uma altura em que Frederico Lourenço refere que:

O bailado dá-me uma felicidade irradiante. A arte de um modo geral tem esse condão.

Há momentos de felicidade irradiante.

Pode a vida de algumas pessoas ser mais infeliz do que a de outras - pais que não sabem amar os filhos, filhos que se ausentam deixando os pais sem razão para viver, corpos que têm desejos que outros não entendem, circunstâncias avaras, rudes golpes de infelicidade, desencontros irrecuperáveis. Pode a vida ter tudo isso. Mas a vida não é uma luta, à partida, perdida. A vida tem também momentos de magia, coincidências extraordinárias, acasos de felicidade, a sorte de podermos testemunhar uma lua branca que se esconde em dias marcados, milhões de estrelas que iluminam as nossas noites, flores e pássaros, passos de dança que transportam quem os vê, memórias e futuros, risos de crianças, palavras voando livres pelo imenso espaço, mãos generosas que se estendem através da escuridão.

Talvez existam outros universos paralelos, talvez dois universos tenham colidido em tempos e talvez muitos outros existam por aí. Não sei se algum ser fantástico está a comandar todas estas derivas. Talvez não. Talvez tudo não passe de um conjunto de acasos, de fugazes momentos de sorte, de um inexplicável devir, de um infinitamente grande conjunto de pequenos infinitos, de vidas que passam e vão para outros universos, de uma eternidade efémera. Não sei. Mas acho que temos muita sorte por podermos presenciar este maravilhoso mundo - e isso deveria ser mais forte do que tudo o resto.




Before the Big Bang: looking back in time - Parallel Universes (BBC science)



O Universo conhecido




The Known Universe takes viewers from the Himalayas through our atmosphere and the inky black of space to the afterglow of the Big Bang. Every star, planet, and quasar seen in the film is possible because of the world's most complete four-dimensional map of the universe, the Digital Universe Atlas that is maintained and updated by astrophysicists at the American Museum of Natural History. 


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Relembro: descendo até ao post seguinte poderão ver, de perto, a maravilha que é este nosso planeta, este nosso País. Daniel Pinheiro leva-nos pela mão e mostra-nos um Portugal que existe belo, limpe e livre (apesar da seita que nos desgoverna).


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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa semana a começar já por esta segunda-feira!


domingo, agosto 18, 2013

Já que a Anabela Mota Ribeiro não me faz o Questionário Proust, faço-o eu a mim própria. Quer não tem cão, caça com gato. [Mas, depois de ter respondido a tanta pergunta, tenho a dizer que acho isto uma coisa mesmo chata. E será que, depois deste absurdo exercício de narcisismo, alguém vai ficar a conhecer-me melhor? A minha personalidade estará patente no que respondi? Não faço ideia] ---- > texto revisto por causa de uma irrelevância



Usei as perguntas tais como Anabela Mota Ribeiro as fez a Clara de Sousa (peguei nesta entrevista apenas porque foi a última publicada (*), puro comodismo meu, mas as perguntas são sempre as mesmas, o que pode variar são as observações mas, enfim, não alteram o sentido da pergunta).

Já agora, para quem não saiba o que é isto do Proust Quest (Proust Questionnaire), digo muito brevemente que é um conjunto de perguntas que, supostamente, permite que se perceba melhor a personalidade de quem responde. O que isso tem a ver com Marcel Proust e os pormenores da coisa podem ser vistos por exemplo aqui, na Wikipedia



Então, vamos lá a isso.


Proust disse que uma necessidade de ser amado e cuidado era a sua característica mais marcante. Mais do que ser admirado. Qual é a sua?


- Talvez querer fazer tudo o que me apetece enquanto posso. Tenho muito consciente a noção da finitude. Não quero nunca iludir-me: a vida é curta e, por vezes, rasteira-nos. Não sei quanto tempo vou viver, nem sei quanto tempo vou viver sem limitações físicas. Por isso, se me apetece dizer parvoíces, digo, se me apetece passear no campo, entre as árvores escuras, ouvindo os sons da noite, iluminada apenas pelo luar, ando, se me apetece pintar, pinto, se me apetece ser excessiva na demonstração dos meus afectos, sou. São exemplos inócuos, estes que dei, mas são exemplos. No entanto, tenho também sempre muito presente o não fazer nada que prejudique outras pessoas. Mas preconceitos, inibições, receio de ser censurada, hesitações, ou protelar o que me apetece para melhores dias, etc, isso não é comigo. 

Qual é a qualidade que mais aprecia num homem? Proust falou de “charme feminino”...


- Inteligência com humor. Não é apenas nos homens que aprecio isto mas, num homem, então, é fundamental. Não tenho paciência para burros, mas é que não tenho mesmo. Apetece-me ignorá-los, fingir que nem os vejo. (Imaginem o que é para mim viver num País governado por quem o governa. Não vejo noticiários há uns dois dias, pelo que me poupei ao sacrifício de ver aqueles inteligentes que devem andar a desfilar pelo Pontal. Agora que escrevi isto, fiquei na dúvida: aquilo é festa só de um dia ou é o fim de semana todo, uma coisa tipo festa do Avante? Não sei). Adiante. Dizia que não suporto burros. Mas há outra casta de homens para os quais também não tenho paciência: os cepos, sem sentido de humor. Uma pessoa diz uma coisa na maior ironia e eles respondem a sério, não perceberam que era ironia nem têm sentido de humor para encaixar e dar o troco. Uns chatos do piorio. Ou os inteligentes armados em intelectuais, carapaus de corrida, uns chatos de primeira, todos prosa, citações, grandes tiradas.


E numa mulher? Ele mencionou “franqueza na amizade” – golpe baixo para as mulheres ou sagaz comentário?


- Sim, a franqueza. Aprecio mulheres francas. Mas também aprecio a generosidade. Não gosto de mulheres mesquinhas, quezilentas, que infernizam a vida aos outros (aliás não gosto nem de mulheres nem de homens assim - desperdiçam a própria vida e chateiam os outros - e para quê?). Gosto de mulheres que mostram alguma superioridade na capacidade de perdão; ou de aceitação. Não descurando o que pensam, são, no entanto, capazes de aceitar os outros nas suas diferenças.


Ternura, desde que acompanhada de um charme físico..., era o valor mais precioso nas amizades de Proust. E nas suas?


- A intemporalidade. A não necessidade de assiduidade. Não tenho paciência para as amizades que são cheias de 'temos que combinar almoçar', 'temos que combinar isto e aquilo'. A amizade boa é aquela que se manifesta nos momentos certos. Uma palavra dita quando se sente que o outro sente falta dela. Um gesto quando se intui que vai fazer bem. Sair de cena quando não faz falta estar-se. Reaproximarmo-nos quando fizer sentido mesmo que seja anos depois. E o encontro ser tão natural como se tivéssemos estado juntos na véspera. Não fazer perguntas quando o silêncio deve ser respeitado. 


Vontade fraca e incapacidade para entender, foi a resposta que deu quando lhe perguntaram qual era o seu principal defeito. Partilha destes defeitos? E que outros pode apontar?


- O meu maior defeito, segundo os outros me apontam, é a falta de paciência para suportar aquilo de que não gosto. A questão é que nem tenho paciência para disfarçar. Baldo-me imenso a encontros, almoços, festinhas sociais, coisas assim, porque não tenho paciência para conversa mole, trivialidades, gente que fala sem parar, que me cansa de tanta vacuidade, que diz coisas à toa. Ou quando estou em reuniões de trabalho e há gente que fala, fala, sem dizer nada, que empata, enrola, não dança nem sai da pista, fico numa impaciência que geralmente me leva a dizer coisas à bruta. Tenho uma certa fama de, de vez em quando, ser bruta como as casas. Nada a fazer.

Qual é a sua ocupação favorita? Amar, disse ele...


- Viver. Dito assim parece uma resposta estúpida, eu sei. Mas é a verdade. Viver dá-me muito prazer. Viver e fazer a cada momento o que de melhor posso - porque nem sempre posso fazer o que me apetece, claro. Mas agora, por exemplo, depois das 2 da manhã, depois de um dia maravilhoso (in heaven, com os meus amores e amorzinhos), o que me apetece é estar aqui a escrever - e, apesar do sono, é o que estou a fazer. Quando estou no carro, numa fila que não acaba, poderia apetecer-me largar o carro ali mesmo e ir a pé - mas isso não posso. Mas mesmo nessas alturas, ouço música, olho a paisagem, penso em coisas que me agradam. E, por isso, muitas vezes, quando estaciono, não consigo sequer lembrar-me se estava muito trânsito. A cada momento, viver o melhor possível. Caminhando, fotografando, lendo, escrevendo, pintando, cozinhando, nadando, e, claro, claro, amando, amando sempre, amando muito.


Qual é o seu sonho de felicidade? A resposta de Proust é esquiva: não fala de molhar madalenas no chá e diz que não tem coragem de o revelar... Mas que não é grandioso e que se estraga se for posto em palavras. O que é que compõe o seu quadro de felicidade?





- Estar em casa e ver a luz através da janela, estar rodeada pelos meus amores, abraçar os que amo, saber que estão bem, que são felizes, e viver cercada por livros, plantar árvores e vê-las crescer, imaginar caminhos, desenhá-los, caminhar depois por eles, cozinhar e pôr a comida na mesa e ver a família comendo, repetindo com gosto, conversando, leve e feliz. 


O que é que na sua cabeça seria a maior das desgraças? Proust respondeu, aos 20 anos: “Nunca ter conhecido a minha mãe e a minha avó”. Mas aos 13 respondeu apenas quando lhe perguntaram pela maior dor: “Ser separado da mamã”.


- Não quero nem falar, seria terrível, insuportável. 


Quando lhe perguntaram o que é que gostaria de ser, respondeu: “Eu mesmo”, aos 20, e Plínio, o Novo, aos 13. As suas respostas seria diferentes? Quem gostaria de ter sido aos 13 anos? E agora?


- Aos 13 eu não sabia o que queria ser, talvez psicóloga. Por essa altura já tinha desistido de ser cabeleireira. Aos 20 sabia que não queria ser professora, queria trabalhar numa empresa grande, embora em nenhuma função em particular, apenas trabalhar numa empresa grande. De facto, tenho exercido muitas funções, díspares, mas sempre em empresas grandes. Tenho sorte, faço o que queria. Mas hoje sei que poderia fazer outras coisas. Penso, aliás, que um dia ainda as hei-de fazer.


Proust gostaria de viver num país onde a ternura e os sentimentos fossem sempre correspondidos. O país onde gostaria de viver existe deveras? Onde fica?


- Não sou dada a utopias nem a ideais. Maça-me até a perfeição. Vivo em Portugal e é aqui que quero viver. Se me acontecer ter que viver algum tempo noutro país, sei que quererei sempre voltar para cá. Apesar de tudo.


Quais são os seus escritores preferidos? No momento em que respondeu, Proust lia com especial prazer Anatole France e Pierre Loti.




- Muito difícil responder a isto. Também não sou dada a eleitos. Escritores de que gosto há muitos. Seria ridículo escolher um ou outro. Ao acaso apenas alguns: Clarice Lispector, Hélia Correia, Eça, Jorge Luís Borges, Yourcenar, Thomas Mann, Pedro Tamen, Manuel António Pina, Herberto, Sophia - e vou parar porque estes não são os preferidos, são apenas alguns dos que muito gosto.


E os poetas? Ele mencionou dois, e um deles faz parte das listas eternas: Baudelaire.


- Que pergunta... Então os poetas não são escritores? Já mencionei alguns na resposta anterior. Mas são muitos. A poesia para mim é a simetria perfeita da matemática. A expressão destilada, perfeita das coisas. Venero os poetas. Citei aqueles na pergunta anterior mas poderia ir por aí fora. Não o fazendo e apenas para não deixar a pergunta sem resposta substantiva, acrescento dois: Luís Filipe Castro Mendes e Jorge Carreira Maia.


Qual é o seu herói de ficção preferido? Aos 13 anos, Proust falou de Sócrates e Maomé como figuras históricas de eleição... E aos 20, referindo-se às mulheres, elegeu Cleópatra.




As ligações perigosas dão sempre pares memoráveis


- Outra vez... Preferências é coisa que não joga comigo, é estreitar muito o que é imenso. Há tantas coisas de que gosto que reduzi-las apenas para dar uma resposta é coisa em que não alinho. Mas, vá lá, alguns exemplos, e repito-me uma vez mais: apenas exemplos. Aos pares: Marquesa de Merteuil e o Visconde de Valmont; Lara Antipova e Yuri Jivago; Karen Dinesen Blixen e Denys George Finch Hatton. São exemplos. Podia puxar pela cabeça e referir mais umas dezenas. E, claro, não tem que ser aos pares. Muitas vezes são personagens que se destacam na sua individualidade. Adriano seria, por exemplo, um deles (e estou, claro, a lembrar-me das suas memórias ditas pela Yourcenar). Mas para que faria esse absurdo exercício? Ficariam de fora outros tantos, muitos outros tantos. Mas quero juntar um outro par, ou melhor mais dois personagens que 'me enchem as medidas': Lisa e Bart Simpson, talvez até mais o Bart. Mas também todos os outros membros da família. 


Quem é o seu compositor preferido? Aos 13 anos, escreveu Mozart, aos 20 Beethoven, Wagner, Schumann. Mas Proust não podia conhecer Tom Jobim ou Cole Porter...


- Fogo... estou quase a desistir. Maçada, isto. Todos os referidos na pergunta e mais cem. E Leonard Cohen. E Rodrigo Leão. E José Afonso. E tantos, tantos mais. 


Proust não foi contemporâneo de Rothko. E escolheu Da Vinci e Rembrandt como pintores favoritos.



"Amor vincit omnia", Caravaggio, 1602 c.


- E continua... Mas vá lá... Rothko, sim, o absurdo de uma cor que nos atrai de forma incompreensível. E a luz de Van Gogh. E as sombras, a sujidade, o vício de Caravaggio. E Paula Rêgo, controversa. E Picasso desbragado. E Balthus, perverso. E cem mais.



The Golden Years, Balthus, 1945

(A primeira imagem que encabeçou o Um Jeito Manso;
acho que esta menina tem muito de mim - e não me perguntem porquê)


Quem são os seus heróis da vida real? Ele apontou dois professores.


- Os desempregados. Não sei como vivem. Não sei como continuam vivos, não sei como encontram forças para se manterem vivos. Curvo-me perante eles. 


“Das minhas piores qualidades”, respondeu o escritor da “Recherche” quando lhe perguntaram do que gostava menos. E no seu caso?


- Esse Proust, credo, parece que não via muito além dele próprio. Eu aquilo de que gosto menos é capaz de ser da hipocrisia. E da mentira dita com descontracção, olhos nos olhos: acho um perigo. Da maldade: tenho medo das pessoas que são más.


Que talento natural gostaria de ter? As respostas de Proust são óptimas: “Força de vontade e charme irresistível”!


- Gostava de saber tocar piano. Nunca consegui. A minha filha toca, aprendeu com uma facilidade impressionante. Eu que lhe ensinava tantas coisas, não apenas não sabia ensinar-lhe isso, como não conseguia aprender. Mas nem os mínimos. Colcheias, semi-colcheias, tra-la-la. Zero. Mas nem tocar de ouvido. Nunca consegui, escusado. E tanto que gostava de saber, de deixar os meus dedos voarem sobre o teclado. 


Como gostaria de morrer? “Um homem melhor do que sou, e mais amado”.


- Proust era mesmo um lírico. Eu sou mais simples: a dormir, sem dar por nada. Pensando melhor, não, que pregaria um susto a quem desse por mim. Por isso, talvez sentada, a ler ou a olhar pela janela, na boa, sem sofrer, sem incomodar os outros, sem me aperceber. 


Qual é o seu actual estado de espírito? “Aborrecido. Por ter que pensar acerca de mim mesmo para responder a este questionário”. Pensar em quem é traz-lhe aborrecimento?


- O meu actual estado de espírito? Será preciso responder? Farta de estar aqui a responder a isto. Não me tinha apercebido que isto era tão comprido, senão não me tinha metido nisto, que seca. (Pensar em quem sou traz-me aborrecimento? perguntam. Não, nenhum. Gosto de ser quem sou)


Proust era condescendente em relação às faltas que conseguia compreender. Quais são aquelas que irreleva?


- Irrelevo (isto é, não perdoo) o que é feito com irresponsabilidade ou com maldade, prejudicando os outros. Por exemplo, irrelevo a devastação que o Governo de Passos Coelho tem levado a cabo no meu País.
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Volto e esta resposta pois fiquei a pensar que, ao responder, atribuí à palavra irrelevar o sentido oposto ao de relevar, ou seja, quis dizer não desculpar. Contudo, parece-me agora que o sentido mais comum que a ela se atribui é o de tornar irrelevante. Por isso, respondo de novo.
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- Irrelevo (no sentido de não dar importância) a atitudes de efeito pouco significativo tomadas no calor de uma discussão ou decorrentes de uma maneira de ser precipitada (por exemplo, disparates ditos ou feitos quase sem pensar e de que, ainda por cima, regra geral, os seus responsáveis por eles se vêm a arrepender)



Por fim, preferiu não responder qual era o seu lema, temendo que isso lhe trouxesse má sorte... É supersticioso como Proust? O que é que o faz correr?


- O meu lema não sei qual é, talvez viver bem e contribuir para que os outros vivam também melhor. Voar. Abraçar. Dar. Coisas assim. O que me faz correr? Acho que não corro. Não tenho pressa, vivo cada instante, degustando-o, e isso é incompatível com correrias. Caminho, aspiro o perfume do ar, deixo o meu pensamento voar.


Acabou? Ufffffff. Parecia que não acabava. Bolas.


[Não vou rever. Passa das 3 da manhã, imagine-se. Que coisa tão comprida esta, credo. Por isso, já sabem, é como nas outras vezes: se encontrarem erros graves, por favor, avisem-me, está bem? Se forem vírgulas ou letras trocadas, por favor, relevem, sim?] 

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E, para não darem a visita por perdida - que isto de lerem isto tudo também deve ter sido uma seca das antigas - aqui vos deixo Leonard Cohen.





U2 & Leonard Cohen,  Tower of Song
(uma ao acaso)


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Entretanto, agora de manhã, que vim aqui dar uma rápida vista de olhos, reparei que a Clara de Sousa já não é a última, já lá está uma nova entrevista da Anabela Mota Ribeiro, seguindo o Proust Quest., agora com a Guta Moura Guedes. Mas vou ter que deixar a leitura disso para mais tarde, que os meus afazeres não podem esperar. Estar agora aqui no computador é uma frescura incompatível com os trabalhos pesados a que tenho que deitar mão.


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E tenham, meus Caros Leitores, um domingo muito feliz!!!!!!!!!