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sexta-feira, junho 26, 2026

A mulher fatal subiu ao céu.
E regressou -- e conta como foi e como tem sido a sua vida

 

Do que a gente se apercebe, uma coisa é o que as pessoas são no dia a dia e outra é o que são por dentro. A gente vê pessoas que convivem, que dizem piadas, que riem, que trabalham, que são bem sucedidas, que têm uma vida normal, dir-se-ia que bem-sucedida e feliz, e, depois, quando mergulham dentro de si próprias, começam a desenterrar demónios, memórias angustiantes que, aparentemente, as têm mutilidado toda a sua vida.

Uma vez mais concluo que as pessoas são muito diferentes umas das outras pois as coisas de que muitas pessoas se queixam, passei por elas e não me fizeram mossa. De resto, só me apercebo disso ao ouvir relatar, com mágoa, o que lhes aconteceu. Penso: 'Olha, comigo também aconteceu isto...', porque, na verdade, nem me lembrava, pouca ou nenhuma relevância lhes tinha atribuído.

E, note-se, comparo comigo não porque me considere o fiel de alguma balança ou o alfa e o ómega do pedaço mas porque é o caso que tenho mais à mão e de que posso falar sem estar a cometer nenhuma inconfidencialidade.

Sou fã do Anderson Cooper em tudo o que faz. E o podecast em que conversa com pessoas sobre perda, sobre luto, sobre dar a volta, é muito interessante. Ele não apenas pergunta como ouve, ouve empaticamente, e faz observações sobre si próprio. São sempre momentos de partilha e, dado o tema que é, momentos de uma considerável intensidade.

Aqui fala com Sharon Stone. A bomba sexual de Instinto Fatal, a mulher com o cruzar e descruzar de pernas mais sensual do planeta, tem tido uma vida do caraças. E há que definir 'caraças' pois se há alturas em que ser do caraças é do melhor que há, noutras é o exacto oposto. É o caso.

Desde a hemorragia cerebral que a tirou deste mundo e a fez deslocar-se pela célebre luz branca, até ao complicadíssimo divórcio, à perda da guarda partilhada do filho, os vários abortos, a difícil relação com a mãe.... tudo lhe tem acontecido.

Mas está cá para contá-lo e isso é o mais importante. Com os olhos muito abertos, tentando controlar o choro, com a voz embargada, quase não conseguindo falar, Sharon Stone -- que já não é a mulher jovem e apetecível mas sim uma mulher interessante, pintora, defensora da igualdade de oportunidades entre homes e mulheres --, não contorna os obstáculos: vai de frente, fala, expõe-se, despeja o saco. 

A mãe nunca lhe disse: 'Orgulho-me de ti. Gosto muito de ti'. E ela toda a vida carregou esse não-reconhecimento com uma grande mágoa. A minha mãe também nunca me disse isso. Mas nunca me importei. Provavelmente a diferença é que eu sempre acreditei que não são precisas palavras, e que, apesar de não o verbalizar, era isso que a minha mãe sentia por mim. De resto, há palavras que, a mim, muitas vezes me parecem enfeites desnecessários. Basta-me tomar o pulso à essência, senti-la lá, viva. Basta-me, e basta-me muito bem. Do que se percebe, e certamente por todos os antecedentes, Sharon Stone duvidava que a mãe o sentisse. 

Mas não é só da mãe que ela fala. Carrega outras dores. A que foi uma das mulheres mais desejadas do mundo, que espalhava glamour por onde passava, tem, afinal, carregado muitas provações ao longo da sua vida.

Convido-vos a ver.

O luto complexo de Sharon Stone: "Para mim, está tudo bem sentir-me livre da minha mãe."

Sharon Stone viveu muitas perdas na sua vida, a mais recente das quais a morte da mãe, Dorothy, em 2025. Conta a Anderson Cooper que sentiu alívio após a morte da mãe e se sentiu "livre da minha mãe, livre do trauma dela".

0:00 O luto complexo de Sharon Stone
11:49 Stone fala sobre a sua falecida mãe
18:00 "Queria que ela morresse em paz"
23:59 "É normal ter todos os sentimentos que se tem"


Desejo-vos uma feliz sexta-feira

terça-feira, maio 12, 2026

O que faremos quando formos velhos?

 

Tenho estado a estudar o tema da terceira idade em Portugal, tentando perceber como compara com países de referência. Ainda estou a analisar informação, a tentar obter mais dados sobre algumas vertentes desta realidade. Como habitualmente acontece, já vou na n-ésima versão do documento pois há sempre muitas perspectivas para olhar para um assunto complexo e, se omitimos alguma que seja determinante, podemos subverter toda análise.  Talvez amanhã o publique.

Estando a pirâmide demográfica deformada pelo progressivo envelhecimento da população, seria de esperar que esse fosse um dos eixos de acção de qualquer governo e que uma abordagem integrada, bem estruturada, para acompanhar e apoiar os que vão vendo deteriorar-se a sua autonomia, estivesse bem delineada e fosse do conhecimento geral.

E, no entanto, não há. Ideias vagas, talvez. Uma linha de acção concreta, projectos em desenvolvimento e do conhecimento geral não há. 

Quem tem ou teve familiares idosos, em especial em situação de vulnerabilidade, sabe as dificuldades pelos quais todos passamos. É não apenas muito doloroso, em especial para os mais frágeis, como muito desgastante (e dispendioso) para todos.

Não me esqueço como, num dia em que estava a chegar ao norte para um encontro entre empresas do Grupoe e em que, para incentivarem o convívio, tinham contratado um autocarro -- e, portanto, eu não tinha meio de locomoção própria -- recebi uma chamada do hospital em que a minha sogra estava internada. Diziam que ia ter alta nesse dia, ao meio-dia, que a fossemos buscar. O meu pânico foi total. Tinha estado com ela na véspera e não via como poderia ir ela para casa. De maneira nenhuma. Do que víamos, imaginávamos que lá estivesse ainda mais um mês, imaginávamos que não sairia sem ter sessões de fisioterapia, imaginávamos que seríamos informados com antecedência. Ao telefone disse que ela não estava minimamente em condições de ir para casa, não tínhamos condições, não tínhamos quem ficasse a acompanhá-la ou a tratar da sua higiene. Não serviu de nada. Desatei a telefonar ao meu marido, aos meus cunhados. Todos desorientados, todos a perguntarem-me se eu não tinha dito que era impossível, se não seria melhor ligar outra vez para lá a pedir para a reabilitarem minimamente antes de a mandarem para casa. 

Mas foi mesmo para casa nesse dia. E o drama que foi daí em diante ninguém queira saber. Mais tarde, com ela ainda dependente, adoeceu o meu sogro e tudo ainda se complicou mais.

A opção foi sempre a de ficarem em casa e arranjar-se uma empregada interna. Mas a tragédia que foi. Eles não aceitavam bem ter uma estranha a viver lá em casa, não gostavam. Creio que passaram por lá umas doze ou treze mulheres, e, de cada vez que uma se ia embora, era outra vez o mesmo drama para arranjar outra. Por fim, recorríamos a uma agência a quem tinha que se pagar um mês a mais, pelo agenciamento. Saiu muito caro e só correu bem com a última. Mas o correr bem foi muito relativo. Ao fim de semana, logicamente a senhora não trabalhava e era preciso arranjar solução para isso. Depois a senhora também adoeceu, esteve internada e em tratamento durante meses, e foi preciso contratar uma outra, pagando ao mesmo tempo à primeira. E depois era a fisioterapia, e era a trabalheira louca quando era preciso ir ao médico ou fazer exames. Tudo muito complicado, para qualquer coisa eram horas, dias, e tudo muito dispendioso.

Mas, apesar de tudo, creio que foi melhor estarem casa do que irem para um lar.

Com o pai aconteceu praticamente o mesmo, a nível de alta hospitalar. Quando ainda andávamos a dar voltas à cabeça e a deitarmos contas à vida a pensarmos o que faríamos quando ele tivesse alta, julgando-a não imediata, eis que dizem que o podemos ir buscar. A casa ainda não estava adaptada a ter um acamado que não se podia locomover e ainda não sabíamos como lidar com a situação. A minha mãe estava boa, forte e vigorosa, mas à primeira tentativa percebemos que nem com a ajuda uma da outra conseguíamos pô-lo sentado na cama para lhe dar de comer. Não é só uma questão de força, é também de jeito, de prática. Para o meu pai era também terrível, uma ferida aberta na sua dignidade. Via que eu e a minha mãe nem conseguíamos levantá-lo para ajeitarmos a almofada e ele, coitado, mesmo que quisesse ajudar, não conseguia, era um corpo morto. Felizmente, conhecia-se uma senhora que não morava longe e que, justamente, trabalhava num lar. Estava pois muito habituada e era possante, pegava-lhe pelo cós das calças, virava-o, puxava-o. Coitado do meu pai. Quando penso no que ele sofreu... Então, antes de ir trabalhar, a senhora ia tratar da higiene do meu pai, quando saía do trabalho passava por lá e, à noite, voltava para o preparar para a noite. Entretanto, eu e a minha mãe andávamos a ver se arranjávamos uma solução mais permanente. Batemos à porta da Misericórdia e dos Socorros Mútuos e de mais não sei quê. Já não me lembro se não tinham disponibilidade ou o quê. Por sorte, lembrámo-nos de contratar uma fisioterapeuta que ia lá a casa todos os dias, perto da hora do almoço, fazia exercícios e deixava-o na posição de tomar a refeição. Só que, pouco depois, o meu pai piorou e voltou para o hospital, praticamente em coma, com o sódio e o potássio completamente descompensados. Esse internamento deu tempo a modificarmos a casa de banho, a arranjar uma cama articulada e uma cadeira de rodas. E, pouco depois, a senhora reformou-se do lar e passou a estar disponível para dar assistência mais assídua ao meu pai e foi isso que nos valeu. 

O meu pai esteve em casa até ao dia em que morreu, mas os sobressaltos por que passámos, nomeadamente com a sonda gástrica que ele, sem querer, puxava e que só podia ser posta por um enfermeiro -- e onde é que arranjávamos enfermeiros em tempo útil? -- ou com tantos outros problemas foram do mais desgastante que se pode imaginar. E, claro, o que se gasta nestas situações não está ao alcance de muita gente.

Por isso, interrogo-me: o que acontece a quem não pode pagar a uma empregada, a um fisioterapeuta, a enfermeiros e médicos particulares? É certo que a médica de família e os enfermeiros do centro iam lá de vez em quando mas não com a assiduidade requerida e, sobretudo, nunca em situações críticas ou de de urgência.

Com a minha mãe foi diferente. Quando teve o cancro no cólon e teve que ser operada, foi recuperar-se (e descansar da situação de cuidadora) para uma residência assistida, talvez a mais luxuosa e dispendiosa do país. Ao princípio ainda gostou mas, pouco depois, já estava farta. Para ela aquilo eram só velhos de boca aberta, que já não diziam coisa com coisa ou muito dependentes, e ela ainda estava boa. 

Queixava-se que não tinha companhia e que não tinha nada que fazer. No entanto, fazia lá ginástica, tinham actividades diversas, ia ao cabeleireiro, etc. Mas achava tudo aquilo deprimente e, sobretudo, acho eu, ali sentia que não tinha um propósito. Portanto, pouco depois, regressou. Estava bem era em sua casa, com a sua autonomia, a sua ida às compras, o seu jardim, durante uma fase a ida à universidade sénior ou a ida a passeios com as amigas. Por prudência, mantivemos o contrato com a senhora que acompanhou o meu pai: continuou a ir lá a casa de manhã e à noite para garantir que estava tudo bem, fazia-lhe as compras, levava o lixo, de certa forma vigiava a sua condição. E ia uma empregada de vez em quando, fazer as limpezas maiores (porque, as do dia a dia, a minha mãe fazia questão de ser ela a fazer tudo). No último ano, por não fazer a medicação, piorou e esteve internada uns dias e, do hospital, resolveu seguir para a mesma residência onde tinha estado anos antes, uma vez que têm enfermagem em permanência e médico todos os dias, e isso dava-lhe segurança. Aí foram só problemas. Já não estava bem e punha defeitos em tudo, só descansou quando voltou para casa. Só na recta final, quando se sentiu muito fraca, quis ir para uma residência, para uma onde estavam amigas. Mas acho que nem um mês lá esteve, foi internada a seguir. Mas, uma vez mais, não apenas o ambiente não era o que ela gostava, estava desenraizada, fora do seu ambiente, como o valor que pagava não está ao alcance de grande parte dos reformados, a menos que recorram às poupanças. 

Quem não dispõe de boas reformas ou não tem confortáveis poupanças e não pode ficar em casa, por não estar bem ou por já não ter total autonomia, como faz?

Daí haver tantos lares clandestinos. Devem ser os que as pessoas com menos posses conseguem pagar.

Por isso, perante esta situação, de que é que os Governos estão à espera para traçar um caminho que dê segurança e conforto à população mais velha ou a caminho disso?

E isto não é um problema dos outros. Não: é de todos. De uma maneira ou de outra, é assunto que tarde ou cedo toca a todos.

Se amanhã já conseguir dar por concluído o trabalho que tenho em mãos, partilhá-lo-ei. 

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Desejo-vos dias felizes

segunda-feira, novembro 24, 2025

AVC

 

Claro que o tema me deixa sempre um pouco perturbada. Posso não demonstrá-lo, aliás tento não demonstrar nada, mas claro que fico perturbada. 

Quando ouvi que o Markl tinha tido um AVC senti um baque. 

Só pensei: caraças, como é possível? 

Quando li que tinha sido um AVC hemorrágico retrocedi uns anos. Não vou repetir com pormenor o que já aqui contei algumas vezes. O que se passou, os antecedentes, as consequências. A minha avó, mãe do meu pai, também teve um AVC. E o irmão dela também. E creio que antes deles a minha bisavó também. Mas o meu incómodo não vem só do receio que esse seja também o meu destino. O meu incómodo vem de não ter estado devidamente informada quando o meu pai teve os AIT que precederam o AVC e não ter sido informada das causas e dos riscos de que coisa maior pudesse estar para vir. O meu incómodo vem de não ter percebido que o meu pai devia seguir, à risca, uma medicação nem ter sabido que, por achar que estava tudo bem e controlado, de vez em quando não a tomava. E vem de não ter sabido que ele andava com arritmias acentuadas (ou taquicardias?) e que não foi ao médico. E vem de pensar que, na noite em que ele teve o grande AVC, ele e a minha mãe demoraram tempo de mais para chamar a ambulância sem perceberem o que estava a passar-se e que, por isso, as consequências foram tão devastadoras. Ainda me lembro de um médico, ao ver os exames, o felicitar e dizer que quem tem um assim, tão extenso, tão profundo, geralmente não fica cá para contar. Devíamos ter ficado contentes por ele ser a excepção à estatística mas as suas limitações eram tantas, tão arrasadoras, que naquela altura não havia notícias que nos animassem. E, por isso, o meu incómodo vem também de me lembrar de todos os horrores pelos quais passou: a perda de tantas faculdades, a perda da autonomia, a perda da dignidade.

Felizmente parece que o filho do Markl estava por perto e se apercebeu e ligou para o 112 e tudo decorreu dentro da janela temporal em que os danos são limitados e, espero, reversíveis. 

Mas há efectivamente que estar atento até porque estamos sempre tão alheados das nossas fragilidades que, quando a coisa nos bate à porta, nem nos ocorre que uma coisa assim pode estar a acontecer. 

E digo isto porque, há anos, passei por isso. Creio que também já o contei. Num certo dia, um dia de trabalho normal, o meu marido acordou a sentir-se estranho. Dizia que estava um pouco tonto. Não liguei muito e ele também não. De manhã tínhamos os minutos contados, despachávamo-nos apressadamente para não chegarmos tarde. Ele dizia que parecia que estava  tonto e eu pensei que talvez estivesse com a tensão baixa. Sugeri que esperasse pelas nove horas para ir à farmácia ver a tensão. Ainda não tínhamos medidor em casa, estávamos tão longe dessas preocupações. Mas depois dizia que lhe doía já não me lembro se era o pescoço ou o ombro. Perguntei se teria dormido sobre aquele lado, se teria dado algum mau jeito na cama. Não me ocorreu, nem a ele, que esse sintoma estivesse relacionado com as tonturas. Ainda me lembro de ele se ter encostado à parede e isso não era nada normal nele. Estávamos ambos prontos para sair de casa. Mas depois ele disse que parecia que estava com um bocado de falta de ar. E eu, espantada, perguntei o que é que a falta de ar tinha a ver com o resto. Pareciam sintomas desencontrados, que nada tinham a ver uns com os outros. Felizmente calhou estarmos à porta do quarto do meu filho e por sorte ele ainda estava em casa e por sorte, apesar de estarmos a falar baixo, ele ouviu e, por sorte, foi mais inteligente que nós e, de um salto, vestiu-se e disse que ia com o pai ao hospital e nem sei como voou e levou o pai às urgências. E chegou a tempo. Não chegou a ser grave, foi medicado, interceptado a tempo, ficou em observação, e só então caímos na real e nos assustámos. E desde essa altura está medicado.  

Ora como é que nós, pessoas informadas, não percebemos o que estava a passar-se? Custa a crer. Estávamos tão longe de que uma coisa assim nos poderia acontecer, a nós, ainda jovens, saudáveis, que não conseguimos ver uma coisa tão óbvia.

O testemunho que abaixo partilho é uma experiência diferente. No caso dela foram os médicos que desvalorizaram o que estava a passar-se. Poderia já cá não estar para contar. Impressiona. 

A nossa vida é, tantas vezes, um milagre, uma questão de sorte por estarmos ao pé de quem nos acuda, por darmos com um médico que se interesse, que acerte no diagnóstico, por conseguirmos chegar a tempo e horas.

“Estava numa situação de bomba-relógio” | Quando a Minha Vida Mudou | Observador

Celmira Macedo tinha sintomas que ninguém valorizou. Sobreviveu a dois AVC até ter um diagnóstico e um tratamento adequado. Hoje vive com sintomas difíceis, mas invisíveis aos olhos dos outros.

Arterial é uma parceria do Observador com a Novartis. Tem a colaboração da Associação de Apoio aos Doentes com Insuficiência Cardíaca, da Fundação Portuguesa de Cardiologia, da Portugal AVC, da Sociedade Portuguesa do Acidente Vascular Cerebral, da Sociedade Portuguesa de Aterosclerose e da Sociedade Portuguesa de Cardiologia. 


Desejo-vos uma boa semana
Saúde
E que a boa sorte sempre vos acompanhe

domingo, fevereiro 23, 2025

As pneumonias nas pessoas de idade e com saúde débil

 

O meu pai viveu cerca de doze anos depois de ter tido o grande AVC que não o levou mas que o deixou muito incapacitado. Já aqui falei disso: foi um processo lento e doloroso, em especial para ele. Antes era um homem em excelente forma física, que se sentia orgulhoso pelo seu bom estado de saúde, pela sua resistência física e, creio, pelo seu bom aspecto. Quase não tinha cabelos brancos. Sempre teve o cabelo preto e muito liso. Tinha praticado desporto até tarde, até ter partido uma perna a jogar futebol e ter feito uma cirurgia onde lhe puseram uma placa metálica e um parafuso. Mas continuou a fazer caminhadas e a manter-se em forma. Nunca fumou, não tinha hipertensão nem colesterol alto. 

Ver-se sem se poder mexer, sem orientação geográfica de proximidade e sem metade do campo visual foi, para ele, um rude, rude golpe.

Mas, com a fisioterapia persistente, voltou a andar. Mas a andar com muitas limitações, sempre apoiado.

E não percebíamos se as flutuações de humor ou a agressividade ou as fixações em temas inexistentes se deviam à medicação ou ao próprio estado. Foram anos complexos.

A fase final foi pior: depois de, em casa, ter caído e ter partido o colo do fémur, tendo sido operado, não voltou a andar. Todos os dias era levantado, cada vez com maior esforço. Mas não queria estar sentado. Implorava que o deixassem ficar na cama.

Creio que foi por essa altura, quando começou a estar permanentemente acamado, que teve a primeira pneumonia. Não sei quantas teve. Talvez três ou quatro. A última foi uma pneumonia por aspiração. Foi a partir daí que passou a ser alimentado através de sonda naso-gástrica.

De cada vez que teve pneumonias preparavam-nos para a gravidade do seu estado, em especial dada a debilidade do estado geral. Numa dessas vezes chamaram-me para me ir despedir dele pois dificilmente estaria vivo à hora da visita. Nesses internamentos também 'apanhou' bactérias multi-resistentes, uma das vezes no coração. Tínhamos que nos cobrir de alto a baixo para chegar perto dele, que, nessas alturas, estava completamente isolado.

Houve uma tarde em que nem sei como não tive eu um colapso nervoso. O monitor cardíaco apitava quase em contínuo: os batimentos ora iam abaixo das 30, ora iam acima do patamar crítico (já não me lembro bem mas creio que 150). Quando começavam a descer, a descer, e o apito era contínuo, a enfermeira dizia para eu chamar por ele e apertar-lhe os pés. Passei a tarde numa aflição, 'Pai! Pai!', e a abaná-lo, a apertar-lhe os pés, as mãos. Estava medicado mas, às tantas, suspenderam parte da medicação pois o cardiologista entendeu que alguma dela estava a conflituar com outra. Os médicos diziam-nos que poderia morrer de um momento para o outro, que já não havia muito que se pudesse fazer.

Contudo, sempre sobreviveu às pneumonias, às bactérias multirresistentes, às instabilidades gerais, ao quadro de falência geral que parecia irreversível.

Para o fim, já tinha que estar permanentemente com oxigénio, mas não foi de problemas respiratórios que morreu.

Recentemente, há menos de um mês, morreu um outro familiar meu: também infecção respiratória, também sobre um quadro clínico de debilidade. Neste caso, infelizmente, não se conseguiu reverter o quadro.

Mas cada caso é um caso.

Vejo que as televisões já começam a apresentar retrospectivas sobre a vida do Papa Francisco. Ultimamente já estava muito inchado. Provavelmente já estava a tratar-se com cortisona. É natural que o seu estado seja crítico pois com oitenta e muitos anos, uma saúde que já andava débil e uma pneumonia bilateral em cima, e a ter necessidade de levar transfusões, se calhar com o coração e os rins já não muito funcionais, as perspectivas não podem ser animadoras. É, pois, natural que o seu estado geral seja reservado.

Mas vejo os jornalistas, quais abutres, já a rondarem, já por lá, vejo os programas de televisão que já parecem louvores póstumos, obituários, e penso que pode acontecer que o Papa Francisco lhes troque as voltas. Quantas vezes estive eu numa aflição, com receio que o telefone tocasse de noite ou ao início da manhã... e, depois, como se por obra e graça, tudo parecia recompor-se...

No entanto, seja como for, a verdade é que somos perecíveis. Todos. Ninguém cá fica.

Quando o quadro clínico é complexo e as hipóteses de sobrevivência (em bom estado, em estado de independência e de lucidez) são diminutas, quando se sabe que, se a pessoa sobreviver, é apenas para sofrer ainda mais, nunca sei bem o que se deve desejar.

Sinceramente, o que desejo é que, se Jorge Bergoglio sobreviver, fique bem. Mais do que isto não sei o que dizer.

sábado, setembro 24, 2022

Joe Biden 'perdido no palco'. Caso para chacota?

[E memória do meu pai].

 

Um vídeo com Biden supostamente perdido no palco, aparentemente sem saber bem para onde ir, tornou-se viral. E não houve gente medíocre e com reservas mentais quanto aos democratas dos Estados Unidos que não saísse à cena  a dizer que estamos bem entregues ou que Biden não bate bem da bola.

Biden Completely Lost on Stage During Global Fund Speech

Claro que não conheço o boletim clínico de Joe Biden nem as circunstâncias em que aquilo aconteceu.

O que sei é que olho para aquelas imagens e não apenas não consigo tirar conclusões como, sobretudo, não consigo gozar.

Por uns momentos, vendo aquele excerto, descontextualizado, lembrei-me do meu pai.

Quem por aqui me tem acompanhado lembrar-se-á que o meu pai, que entretanto morreu há pouco mais de dois anos, teve cerca de doze anos antes um AVC extenso e grave que o deixou muito debilitado. Depois de muita fisioterapia recuperou o andar e esteve durante muitos anos autónomo a nível da movimentação (embora com algum acompanhamento), a nível de se alimentar e de tratar da própria higiene. Falava, estava lúcido, tinha boa memória. Para o fim, talvez dois anos antes de morrer, depois de ter partido uma perna e de ter sido operado, aí, sim, entrou em declínio acentuado e tornou-se quase totalmente dependente.

Mas, antes desse terrível AVC, teve pelo menos quatro AITs. Eram coisa ligeira, em especial dois deles, nem ninguém percebeu que eram um aviso para levar muito a sério. Apenas depois, pelos exames que fez noutras alturas, se percebeu, pelas pequenas marcas que deixaram no cérebro, que tinham ocorrido. Os outros dois últimos já foram mais evidentes mas, em qualquer dos casos, eram coisas momentâneas e das quais recuperava completamente, fazendo uma vida normal. Mas, de vez em quando, percebíamos, por pequenos sinais, que havia ali qualquer coisa que não estava absolutamente bem. Contudo, só as valorizámos depois do AVC.

O meu pai sempre teve uma saúde robusta, era muito activo, fazia caminhadas, praticou desporto até tarde, tinha orgulho nos seus hábitos saudáveis e na sua vida tão cheia de energia. Não era hipertenso, não tinha colesterol alto, não era gordo e, fisicamente, parecia mais novo que era.

Contudo, era um bocado stressado, tendia a dormir mal e de vez em quando tinha arritmias. Como fazia uma alimentação saudável e achava que tinha controlo sobre o seu corpo e, além disso, era avesso a medicamentos, geralmente não seguia a medicação devida. 

E foi isso que o tramou. Mas só o percebemos tarde demais, quando teve o AVC.

O primeiro AIT foi assim: estava em casa e, ao ir no corredor, fraquejou momentaneamente, como se lhe tivesse faltado a força nas pernas. Agarrou-se ao fecho de uma porta, equilibrou-se. Durou uma fracção de segundo. Mas ele achou estranho, a minha mãe achou estranho. Mas ficou bom, continuou a sua vida activa, normal. Não pensou mais nisso.

Outra vez, no verão, estavam a passar férias in heaven com os meus filhos. Quando lá estavam, ele fartava-se de trabalhar: aplicava verniz protector nas portadas de madeira, montava rede protectora para as janelas com armação de madeira para não entrarem bichos, regava, etc. Um dia, ao almoço, por uma ou duas vezes, ao levar a comida à boca, parecia que não acertava bem com o garfo. Nem ele percebeu o que se passava nem a minha mãe o percebeu. Pensou que estava com os braços e as mãos cansadas, ou que tinha estado tempo demais ao sol. Ficou bom, não ligou. Mas, quando lhes liguei, a minha mãe referiu isso. Mas aquilo tinha durado uma fracção de segundo, tinha ficado logo bem. 

Entre uma e outra coisa, podiam passar anos de vida normal. Iam de férias para o Algarve, iam de férias para as Beiras, passeavam, iam ao cinema, tudo tranquilo. 

Até que uma vez foi pior. De manhã, ao acordar parecia que as palavras não lhe saíam bem. Mas tinha dormido mal, pensou que precisava era de dormir. Mas, em vez disso, foi andar para a rua, a ver se espertava. Um vizinho disse à minha mãe que achava que ele não estava muito equilibrado, que parecia hesitante no andar. A minha mãe estava a estranhar aquilo e disse-lhe que era melhor irem ao hospital. Zangou-se, estava bem. Mas a minha mãe não achou que ele estivesse absolutamente normal. Falou com o meu tio, irmão dele. Ele foi vê-lo e também achou que alguma coisa não estava completamente bem. Ligou à minha prima, que é médica, e ela disse que era melhor levá-lo ao hospital. Aí foi detectado o AIT e foi nessa altura que se percebeu que já lá havia umas marcas de pequenos AITs anteriores. Passou a noite lá, por precaução. Fui buscá-lo do dia seguinte. Saiu pelo seu pé, vinha normalíssimo, a achar que tínhamos exagerado nos cuidados. 

Nos tempos seguintes esteve óptimo e ninguém pensava mais em tal coisa. Supostamente estaria medicado embora houvesse sempre divergências entre ele e a minha mãe, ela que achava que ele deveria seguir a medicação à risca e ele que achava que ele é que sabia e que ela não tinha nada que andar com aquelas conversas.

Nessa altura, a nossa boxer ficava lá durante a semana e ele ia passear com ela para o campo ou para a praia, fazia móveis em madeira, ia às compras, era activo e estava saudável. Nem mais nos lembrámos do AIT. Até ao seguinte.

O último poderia ter tido consequências graves. Tinha ido ao shopping com a minha mãe e, no parque de estacionamento, tinha ficado com o pé na embraiagem e não o conseguia levantar. Apanharam um susto. Se o carro estivesse em movimento, o que poderia acontecer... Aí perceberam nitidamente que a perna tinha ficado momentaneamente sem acção. Foi também apenas uma fracção de segundo. Dali seguiram, com ele a conduzir, para o hospital. Outro AIT, claro. 

Dessa vez, houve uma sequela, por sinal muito bizarra: esqueceu-se dos números. Não os reconhecia e, claro, não sabia fazer contas. No dia seguinte foi para casa, fresco, a andar e falar normalmente. Mas aquilo dos números era muito estranho. A minha mãe ensinou-o e ele rapidamente recuperou o conhecimento. Nessa semana, na sexta à tarde, quando lá fui buscar a cadela, já ele estava a resolver raízes quadradas à mão, números imensos cujas raízes quadradas resolvia na maior das calmas. Ficou bom de novo. 

E mais uns anos passaram até que veio aquele terrível AVC.

Esteve muito tempo no hospital e voltou para casa com meio lado do corpo morto, com meio campo visual perdido, com dificuldade na fala. 

Veio a recuperar a mobilidade e a fala. O campo visual perdido é que não teve volta. Mas uma outra coisa apareceu comprometida: a orientação espacial de proximidade. E isso era muito estranho. Se lhe perguntássemos como se ia de casa até um sítio qualquer na cidade ou noutra, ele descrevia as ruas, o percurso todo, ao pormenor, sabia onde se poderia estacionar na proximidade, tudo. Mas quando saía da sala, por exemplo para ir à casa de banho, parecia ficar perdido, não sabia se era para a esquerda ou para a direita, hesitava. Mesmo quando se levantava da cama, via a porta do roupeiro e ficava na dúvida se a porta do quarto era ali ou se era noutro sítio. Era muito estranho. Vacilava, ficava perdido (e muito infeliz).

Nessa altura, descia as escadas sozinho, andava no jardim, ia à rua, tudo bem, e arranjou truques para se orientar. Mas uma vez, vinha da rua, talvez encandeado ou talvez simplesmente desorientado, entrou na sala cuja porta é perto da entrada e deu uma volta à chave, tirando-a da porta e colocando-a numa estante. Pensava que estava a fechar a porta da rua e a pôr a chave num móvel chaveiro que há parede. Quando a minha mãe percebeu o que se tinha passado, começou a dizer-lhe para abrir a porta. Mas, como não percebeu o que tinha acontecido, pensou que, inadvertidamente, se tinha fechado em casa deixando a minha mãe na rua. Então, dizia à minha mãe para dar a volta à casa e tentar entrar pela outra porta. A minha mãe, aflita, dizia que ele se tinha fechado na sala. Como via mal, como a sala estava com a janela fechada e às escuras e como ele estava completamente desorientado, foi o cabo dos trabalhos. Teve que se chamar uma pessoa que, não sei como, conseguiu entrar pela janela. Ele estava muito nervoso pois, nestes momentos, sentia-se diminuído e até envergonhado por dar trabalho e pela situação a que tinha chegado.

Não faço ideia do que se passou com Joe Biden no dia que o vídeo mostra. Pode ter sido apenas cansaço, exaustão. Não sei.

O que sei é que acho que não devemos gozar com quem passa por situações assim. As pessoas podem estar bem, fazer a sua vida normal, estar lúcidas, na plena posse das suas capacidades e, no entanto, momentaneamente, passaram por um qualquer estado de perturbação. Pode acontecer com os nossos pais, pode acontecer connosco. Somos todos feitos de matéria frágil. 

domingo, julho 10, 2022

Cérebro meu, cérebro meu, como garantir que, até ao fim, serei sempre eu?

 



De novo um dia muito preenchido. Entre o programa de festas da manhã e o da tarde, tempo para fazer peixe cozido para o almoço (maruca com batata, feijão verde e ovo, temperado com azeite e sumo de limão). Acabámos de almoçar à três e tal e, como a companhia da tarde não chegaria antes das quatro e meia e eu estava que não podia, deitei-me no sofá e liguei a netflix. Para dizer a verdade nem sei se cheguei a começar a ver alguma coisa. Tenho a vaga ideia que sim mas não faço a mínima sobre o que foi. Acordei estremunhada quando eles chegaram. Devo ter dormido uma hora ou quase. Estava mesmo cansada.

O que me vale é que durmo um niquinho e acordo fresca. Mas estes niquinhos não chegam. Sinto que estou a precisar de descansar e o aborrecido é que não estou a ver maneira de consegui-lo nos próximos tempos. Precisava de poder dormir de manhã até o corpo querer, sem despertadores, sem ter que me preocupar com o que tenho que fazer a seguir. E precisava que isto pudesse acontecer durante vários dias seguidos. Precisava também  de dormir a sesta todos os dias durante vários dias. Claro que também era bom que conseguisse passar a deitar-me mais cedo. Só que este bocado, à noite, é o meu tempo, o bocado em que estou sozinha, sem ter mais nada que fazer senão o que me apetece. 

Outro que está como eu é o dog. Com este calor só lhe apetece descansar à fresca e ou somos nós que saímos e o levamos ou é a animação que vem até nós. Acresce que o cão da casa ao lado o tira totalmente do sério. Aliás, o cão não faz quase nada. Mas existe e é carismático e isso perturba a existência do nosso cabeludo. Corre, salta e ladra freneticamente durante tempos e tempos. Não consegue descansar de dia e, chega a esta hora, e deixa-se cair, completamente desfeito.

Mas a tarde foi boa, a companhia animada. E deu até à noite. Estivemos na rua até talvez às dez. Depois de um caloraço durante o dia, pôs-se muito bom para a noite, uma temperatura agradável, uma levíssima aragem a refrescar o ambiente. As luzinhas solares são o máximo, criam uma onda acolhedora. Para além disso, são fotogénicas. Hei-de fotografá-las para vos mostrar. 

Uma noite de verão assim é uma maravilha. Infelizmente sabemos que se há casos em que as aparências iludem este é um deles. 

As temperaturas anormais e persistentemente altas como corolário de um ano demasiado seco mostram o que serão os calores cada vez maiores e mais frequentes, os riscos cada vez mais intensos de incêndios difíceis de controlar e o devastador problema da falta de água. Ou acordamos seriamente para a necessidade de puxar pela cabeça, da ciência dar as mãos à tecnologia e de arregaçar as mangas ou o país tornar-se-á um lugar não apenas perigoso como francamente inóspito para algumas espécies, nomeadamente para a humana. 

Mas, enfim, adiante.

Na sexta, o meu filho não perdeu os Metallica e, neste sábado, foi a minha filha que me falou no imperdível concerto dos Da Weasel. E disse-me que se podia acompanhar na rtp. Desconhecia. E, por isso, quando chegámos à sala, foi na rtp 1 que nos sintonizámos. Já ia adiantado mas, até ao fim, não despegámos. Muito bom. Fabulosa energia.

Pasmo com a incrível multidão que ali esteve, unida, em comunhão, vibrando com o potente som e a muito boa vibe daqueles matulões da margem sul. E estão melhores, muito melhores. Ganharam uma outra dimensão. 

Agora, enquanto escrevo, actuam os Two Door Cinema Club. Nunca tinha ouvido. Estou a gostar. Estou a escrever e a dançarinhar ao mesmo tempo. No recinto mantém-se uma multidão.

Dá ideia que a malta se marimbou de vez para a covid, se marimbou para distanciamentos e para a vida em suspenso. A malta quer é curtir, quer é viver em liberdade. A vida é uma coisa extraordinária.

Há pouco, enquanto a Filomena Cautela enchia chouriços com uns bacanos, dei uma volta pelo youtube. E vi este que aqui partilho e que, lamentavelmente, não tem legendas em português.

Explica o que é a doença de Alzeihmer e, de certa forma, como tentar preveni-la. Nada de novo: fazer exercício, ter uma boa alimentação, em especial na base da dieta mediterrânica, conviver, evitar o stress prolongado, aprender coisas novas e... dormir o suficiente. Pode não trazer novidades espampanantes mas é claro e bem sistematizado. Recomendo-o.

Lembro-me da minha avó paterna. Para o fim, de vez em quando tinha alguma perturbação que a fazia ter comportamentos algo estranhos, deixando-nos desconfortáveis, sem sabermos como deveríamos agir. O meu avô fazia por ignorar. Eu tentava relativizar. O meu pai não. Reagia como se ela estivesse normal, zangava-se. Lembro-me de uma vez estarmos em casa dos meus pais e de ela e o meu avô lá estarem também a almoçar. Ela queria ir, a seguir, a casa do seu outro filho, o meu tio, e estava preocupada que se fizesse tarde. E, então, por mais do que uma vez, levantou-se da mesa com a intenção de se ir embora. O meu pai irritava-se, que estivesse a almoçar sossegada, onde é que ia?, todos à mesa e ela naquele disparate, o irmão sabia que ela lá ia, não ia sair, ela que tivesse calma. Ela não respondia mas estava ansiosa. Sentava-se, comia mais alguma coisa e, de seguida, voltava a levantar-se e a dirigir-se para a porta. Aquilo fez-me muita impressão. Fez-me também muita impressão ver como o meu avô assistia com aparente indiferença mas não era indiferença, era impotência. Em vão, tentava que aquilo nos parecesse normal ou irrelevante. Muito triste.

Outra vez perdeu completamente o conhecimento. Partiu uma perna, foi operada. A seguir apanhou uma pneumonia. Esteve muito mal. O hospital fez-lhe também mal. De alguma confusão inicial passou para a total ausência de tino. Não dizia coisa com coisa nem conhecia ninguém. Os médicos diziam que era normal as pessoas ficarem confundidas em situações assim. Não era aconselhável que tivesse muitas visitas pois ainda mais baralhada ficava mas os meus pais disseram que não sabiam como é que a situação ia evoluir pelo que era melhor eu ir lá. Não conhecia ninguém. Mas mal me viu, reconheceu-me: 'Olha a minha menina, a minha querida', disse o meu nome e abraçou-me e beijou-me muito. Estava quente, febril. Foi uma sensação estranha pois comigo falava normalmente e com as outras pessoas era o vazio. Não sei se teve Alzeihmer ou um outro tipo de demência ou se era fruto de AITs que na altura não sabíamos que tinha, só o soubemos quando teve um AVC que viria a ser fatal.

Com o meu pai foi diferente. Foi o AVC que lhe varreu o cérebro e o deixou com sérias limitações. Estava lúcido e com excelente memória mas foi perdendo a audição, depois a visão. Depois ficou acamado. E muito medicado. De vez em quando passava por períodos muito complicados. Até que se acertasse com a dosagem era, por vezes, um calvário. Chegou a perguntar se já tinha morrido. Nem sabia se estava vivo. Muito complicados esses períodos. Quando ficava lúcido, pedia para o deixarmos morrer. Muito difícil. Por isso, para o fim quase só dormia e a comunicação era quase nula. Também quase não falava, estava com sonda gástrica e com oxigénio em permanência. Se calhar, para ele foi melhor não assistir lúcido ao inevitável desenlace.

Talvez por estes dois casos próximos, a falta de lucidez, a dependência e o declínio que acompanham as limitações mentais assustam-me bastante. E gosto de me informar.

Espero que também achem útil.

5 ways to build an Alzheimer’s-resistant brain | Lisa Genova

Only 2% of Alzheimer’s is 100% genetic. The rest is up to your daily habits.

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Desejo-vos um feliz dia de domingo

quarta-feira, janeiro 06, 2021

Uma coisinha sobre a vida

 


Estou a ver um programa sobre o João Cutileiro. Mais um que se foi. Dirão os mais sensatos que é a lei da vida. E é. Ninguém cá fica. Acontece que, para quem está nessas idades e ainda tem o gosto pela vida, essa lei é cruel. Se olharmos com distanciamento, e é inteligente que o façamos, achamos que nem vale a pena ter pena lamentar quando os velhos se vão. E esquecemo-nos que, se vivermos até essa idade, esses velhos seremos nós, um dia. E, um dia, talvez olhemos a vida com pena que tenha decorrido tão depressa e que ainda tenhamos tanta coisa para fazer, tantas palavras por dizer. 

A vida passa e as oportunidades também.

Sempre gostei muito de escultura e, se tivesse as minhas fotografias organizadas, poderia aqui mostrar as fotografias que, ao longo do tempo, fui fazendo a obras de Cutileiro. Por isso, vou ter que usar fotos obtidas na net.

Não sei se ele estava fatigado e com vontade de descansar ou se ainda tinhas trabalhos em curso ou em mente. Não sei se ele percebeu o que ia acontecer e teve pena ou se não deu por isso ou, se deu, se se sentiu puxado pela tal luz branca, indo, feliz, nessa direcção. Sei é que eu tenho pena.

Convivi de perto com o lento caminhar para a morte e sei como pode ser doloroso. Depois de ter ficado diminuído pelo avc, durante algum tempo havia desespero no meu pai. Impaciência. Queria recuperar os seus bons tempos e via que isso não ia acontecer. Antes pensava ser um homem saudável. Em boa forma física, aspecto jovem, não tinha doenças. Contava, com orgulho, como a sua vida saudável o trazia tão bem. Explicava a alimentação que seguia -- muito peixe, pouco sal, muitas saladas, muita fruta -- explicava os longos passeios no campo ou na praia. Nunca lhe ocorreu que um dia poderia acontecer-lhe o que lhe aconteceu. Mas aconteceu: nesse dia tudo se foi. Não valorizou as ameaças anteriores. Não ficou com medo. Achava-se sempre capaz de superar essas ameaças. Só que aquela, tão grande que quase o levou, venceu-o a ele. Mas levou doze anos a levar-lhe a melhor. Perdeu o andar e voltou a andar, perdeu a fala, recuperou a fala, perdeu a independência e voltou a recuperá-la. Mas nunca completamente. E sempre de uma maneira que se sentia ser efémera. Quando parecia estar melhor e a progredir no sentido da recuperação, apanhava uma pneumonia, depois uma bactéria hospitalar, depois voltava a perder o andar, a piorar. Ou, uma vez, no dia um do ano, caiu em casa, partiu uma perna, teve que ser operado. Não voltou a andar. Sempre assim. Desilusões sucessivas para ele, para nós.

As sequelas foram tão extensas e profundas que teve que passar a estar fortemente medicado. Alguns medicamentos tinham efeitos secundários que confundíamos com o seu próprio e intrínseco estado físico. Se estava agitado, enervado, não sabíamos se era alguma coisa nele ou de algum medicamento. Se estava ausente, não sabíamos se tinha tido outro acidente ou se estava sedado em excesso. Muitas vezes, resolvíamos retirar parte da dosagem, aos poucos, para ver se voltava a estar mais normal. Mas logo notávamos que isso tinha consequências que se calhar eram pior para ele. O neurologista dizia: vão aferindo, tentando acertar na melhor dose consoante ele esteja, não há outra maneira. Era muito difícil, nunca sabíamos o que era melhor para ele. E ele, antes tão orgulhosamente independente, não podia ter uma palavra a dizer sobre a sua própria condição.

Uma vez disse à minha mãe: 'Nós temos uma filha?'. A minha mãe disse-lhe que sim, disse-lhe o meu nome. Continha as lágrimas ao contar-me isso. Fiz de conta que a mim não me fazia impressão para que ela não sofresse ainda mais. No fim, quando não via, mal ouvia, e já praticamente não conseguia falar, quando eu chegava perto dele, lhe punha a mão no ombro e o beijava. a minha mãe perguntava-lhe: 'sabes quem é?' e ele esforçava-se por dizer o meu nome. Era um esforço enorme para dizer apenas uma palavra. 

Mais do que uma vez perguntou à minha mãe se já tinha morrido. A minha mãe assustava-se, dizia que não, que ideia, que não dissesse isso. Não percebíamos o que se passava na sua cabeça para colocar a hipótese de já ter morrido. Uma vez também perguntou se estava dentro do caixão. Muitas vezes não sabia onde estava e dizia que queria ir para casa. E, estando acamado, frequentemente, enquanto falava, gritava que a minha mãe ou a senhora que a ajudava se despachassem, dizia que queria ir para a cama para dormir. As vezes que dizia que queria morrer não têm conta. Muitas vezes, quando eu chegava perto dele e lhe perguntava 'Então, pai, como está?' ele respondia -- por fim, com a voz quase impossível de se perceber -- 'Quero morrer'. 'Que coisa, pai, não diga isso'. Mas percebia muito bem esse seu desabafo ou esse seu apelo. A degradação do seu estado físico foi progressiva, lenta, dolorosa. Uma pessoa antes com tanta vitalidade e tão orgulhosa ficou totalmente à mercê de outros: tinha que ser levantado, lavado, alimentado, aspirado. Não sei no que pensava quando estava mais lúcido. Sabemos, isso sim, que manteve até ao fim, pelo menos enquanto conseguia exprimir-se e salvo horríveis lapsos como os que acima referi, uma memória surpreendente. Mas parece que apenas reagia se chamássemos por ele e lhe fizéssemos perguntas. Senão, mantinha-se ausente.

Quando morreu, no meu íntimo, senti que o meu pai tinha, enfim, descansado, que não merecia ter sofrido tanto. O que senti como injusto foi o avc que teve há doze anos e o lento declínio a que assistiu aprisionado no seu corpo. Lembro-me de a minha mãe ter dito, no dia em que teve o avc, como um profundo lamento: 'acabou-se...'. E, quando lhe perguntei ao que é que tinha acabado, esclareceu: 'a vida que tínhamos'. A minha avó materna tinha morrido pouco antes e, finalmente sem encargos nem preocupações, os planos deles eram passear mais, iam de férias para o algarve no verão, iam para as beiras na primavera, iam para perto de nós com maior frequência, estavam a imaginar uma vida de qualidade. E uma rasteira assim, indecente, roubou-lhes doze anos de vida. Quando alguém sofre um tal sofrimento, é toda a família que o sofre, em especial os que lhe estão mais próximos.

Enfim. 

Moral da história: não guardar para depois o que agora pode acontecer mas amanhã não sabemos. Não guardar decisões, palavras, afectos. Se podemos fazer ou dizer hoje, é hoje mesmo que o deveremos fazer ou dizer. Quanto ao que vai acontecer amanhã, isso nunca o sabemos. Amanhã pode ser tarde de mais.

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Gosto do vídeo abaixo. Pensei dar o seu nome a este post, a thing about life. Mas seria pretensioso. Fica antes 'uma coisinha sobre a vida' porque não consigo falar sobre a Vida, a vida em geral, só o consigo sobre a vidinha, em especial sobre a minha já que é sobre ela que falo com maior à vontade, sem recear tocar em pontos alheios, pontos privados onde não tenho o direito de tocar.


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Um dia bom

quinta-feira, julho 25, 2019

Sharon Stone, a bela e sexy mulher que teve o desplante de não morrer nova






Há algum tempo recebi a visita de uma ex-colega que não via há algum tempo. Quase tive um choque. Mantinha a mesma maneira de se pentear e de se vestir mas tinha engordado, o rosto tinha papos por todo o lado, a pele estava baça e disfarçada com base, num colorido artificial. O cabelo estava também sem vida apesar do tom avivado. No conjunto, estava uma caricatura do que tinha sido.

Quando uma outra colega entrou na sala em que estávamos, não a reconheceu. Tive que fazer de conta que ela estava distraída: 'Então, sempre acelerada, nem repara na Drª Ana que aqui veio visitar-nos...?'. Pela reacção, quase um sobressalto, percebi que estava a ter a mesma involuntária impressão. Ao fim do dia, quando pude comentar com esta última, ainda não me tinha restabelecido: 'Já viu como ela está...? Tive que me esforçar para não deixar transparecer a surpresa que estava a sentir'. E ela: 'Nem me diga nada... tive que disfarçar...' E eu: 'Mas o que é? Está mais gorda...? Viu os papos? Quase parece desfigurada...' E ela: 'O que é? É simples: são 10 anos a mais. E acha que nós estamos iguais ao que éramos há dez anos...?' Acho que já não respondi. Devo ter ficado apreensiva, senão mesmo um bocado triste.

Tendo trabalhado em várias empresas e passado por fusões e cisões, tem sido frequente perder de vista muitas pessoas e, passados alguns anos, calhar a encontrá-las. E há uma interjeição recorrente quando me vêem: 'Ah... mas está igual...' ao que geralmente respondo: 'Olhe que não, olhe que não... capaz é de estar a precisar de óculos, não...?'. Racional como sou, não me deixo levar pois, a ser verdade, ainda estava com cara de dez anos.

Creio que já contei que, num dos últimos enterros a que fui, dei de caras com um homem que conheci na minha infância. Ele estava com uma mulher que não reconheci como sendo a mulher dele até porque estava certa de que ela tinha morrido. 'Não me estás a conhecer, pois não...?', disse-me ele. E eu, atónita, a achar que não podia ser, o senhor não podia estar quase igual ao que era umas décadas atrás, apenas um bocado mais velho. Não arrisquei: 'Acho que sim, que conheço mas não estou bem a ver quem...', até porque tinha até ideia de a minha mãe, em tempos, me ter dito que o senhor também tinha morrido. Então ele disse-me o nome e eu só não me deixei cair para trás porque já aprendi a disfarçar quando levo um murro no estômago. Era o meu grande e insubstituível amigo, o meu primeiro amor, minha companhia de brincadeiras e longas conversas -- até ter ido cada um para seu lado. Fiquei sem acção. E ele: 'Pois eu conheci-te logo, estás igual, o mesmo sorriso.' E eu muda, provavelmente o mesmo sorriso pasmado no rosto. Depois apresentou a senhora, era a mulher. E ela disse: 'Toda a vida ouvi falar de si'. E eu, em estado de estupor catatónico, incapaz de retribuir a simpatia. Só me ocorria que a senhora parecia capaz de ser minha mãe, que não podia ser a mulher do meu amigo de infância e que ele não podia estar transformado naquele homem enorme, encorpado, ar pesado e olhar triste. Quando comentei com a minha mãe, ela contou-me que ele tinha saído do banco onde tinha um cargo dirigente, tinha tido uma depressão, vivia agora toda a semana numa quinta, que estava transformado num homem do campo. Ao fim de semana, vinha à cidade ou a mulher ia ter com ele ao campo. E senti alguma tristeza. Já aqui falei muitas vezes desse meu grande amigo. Sempre foi reservado, tímido. De uma inteligência invulgar, chegou a receber o prémio do melhor aluno do país, coisa que soube pelos meus pais e não por ele. Eu era então provocadora, gostava de fazê-lo sofrer, fingia que não gostava dele, fingia que preferia os outros meninos, desafiava-o para fazer coisas que ele não gostava de fazer mas que se sentia compelido para não me contrariar. Mas, na verdade, eu não conseguia passar sem ele. Andávamos sempre juntos. Eu conversava, sonhava alto, fazia-o viajar nas minhas palavras e ele, calado, sorridente, nunca me contrariava. Nunca, nunca. Tinha uma paciência incrível e eu, embora nunca lhe dissesse, sentia-me agradecida por poder contar com ele.

Não suportou o peso da vida na cidade e a sede daquele grande banco que fervilhava com centenas de pessoas, aquele ambiente, aquela pressão, foram-lhe insuportáveis. Aguentou talvez uns trinta anos e depois refugiou-se no campo.

Mas isto para dizer que o tempo passa inexoravelmente sobre nós. Sorte a de quem lhe sobrevive.

Quando aqueles que achamos muito belos morrem na flor da idade, lamentamos muito e guardamos deles a imagem da sua eterna juventude. Habitam a nossa memória (e agora habitam também o infinito repositório da net), cristalizados, iguais ao que eram quando a sua beleza impressionava quem os via.

Claro que agora aquela app que, através da inteligência artificial, não apenas fica com um manancial de inumeráveis rostos como simula como ficam as pessoas quando envelhecerem, conseguimos ver como seriam hoje aqueles que, em tempos, cativavam o mundo com a sua radiosa beleza. Os próprios fazerem isso é uma coisa, cada um decide por si. Ou fazer isto com pessoas que estão vivas também é como o outro. Agora, quando fazem isso com quem já morreu, sinto que é preciso ingratidão e maldade para querer ver como teriam sido frágeis e decadentes aqueles que se evadiram da lei da vida sem que o mundo as visse a perecer.

E eu, ao olhar o belo rosto de Sharon Stone, que está viva e bem viva, e ao ver como as pálpebras tombam e o cabelo embranquece e como o seu corpo tentador hoje se encobre para lamentar o afastamento a que se viu votada, sinto pena -- o tempo é ingrato e mau. Ou não é o tempo, são as pessoas. Ingratas e más. E, no entanto, que bonita que ela é e que bem que está e que sorte teve ao escapar, sem sequelas, a esse inferno que é um maldito AVC. E que solidariedade, cá muito minha, sinto ao pensar no que ela deve ter sofrido ao ver-se sem falar, sem andar, totalmente dependente, a ter que reaprender tudo, a força necessária, a coragem, a superação do medo e do desgosto. Tão difícil tudo.
Penso no meu pai. Tão bem que estava, tão saudável, tão orgulhoso que sempre foi e, no entanto, um dia viu-se inerte, apenas com metade do campo de visão, sem orientação, sem força num braço, sem andar, de fraldas, a ter que ser alimentado à boca, a ter que ser lavado, a ter que depender de outros para tudo.
Felizmente ela conseguiu ultrapassar tudo: está bem, saudável, inteira.


Mas queixa-se que a esqueceram, que deixaram de lhe dar trabalho. O cinema queria-a como mulher sensual, maliciosa, enérgica, intimidantemente tentadora, não como uma mulher de meia idade que, em tempos, foi isso tudo e que agora perdeu o viço. Como deve ter sido difícil para ela esforçar-se por recuperar, sentir que estava de novo a reconquistar a plenitude das suas facultadas e, ainda assim, sentir-se rejeitada. Uma coisa horrível.

Quando agora fiz anos perguntei aos meninos se sabiam quantos anos eu tinha feito. Não sabiam, atiravam números à sorte, uns para cima, outros para baixo, e eu esclarecia-os dizendo que tinha cem anos. Desatavam a rir, que era impossível. E eu, muito séria, dizia que era mesmo. Cem anos. Riam, perguntavam aos pais. Mas eu, no meu íntimo, antecipava o prazer de viver cem anos e ainda estar para as curvas, com vontade de brincar e de rir, com vontade de seduzir, de provocar, com vontade de me pôr a caminho.


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A segunda vida de Sharon Stone


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Isabella Rossellini, Jack Nicholson e Jennifer Lawrence aparecem aqui sob o efeito de uma outra app, desta feita uma que converte as pessoas em pinturas de antanho. Por acaso, se não me importasse de oferecer o meu rosto a estranhos, gostava de me ver nesta.

A Lady Di, a Marilyn Monroe, o Brad Pitt, o Putin, o Trump, o Zuckerberg e outro que não sei quem é foram envelhecidos pela FaceApp e nesta é que eu não me meto. Livra.

A Sharon Stone, na fotografia, está como é agora e como era antes, sem inteligência artificial à mistura. 

Crossroads pelo Don McLean, que eu não conhecia e que é tão bonita, está aqui porque estou a gostar imenso de ouvir. Acho-a triste, triste, mas não consigo deixar de ouvir.

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Tenho andado a tentar reavivar o meu Ginjal e Lisboa, a love affair pelo que, se estiverem para aí virados, serão muito bem vindos nesse meu lugar à beira Tejo plantado. Hoje tenho: E o seu nome seja o seu próprio pudor sobre poema de António Ramos Rosa ao som de Divna Ljubojević. E eu gostava muito que gostassem de lá estar. 

[E desculpem por, nos últimos dias, não ter respondido a comentários ou mails mas, acreditem, o meu tempo não dá para mais. Hoje respondi, ou melhor, coloquei uma pergunta porque era um único comentário e a minha pergunta era simples. Mas leio sempre (e fico sempre com um sentimento de culpa por achar que parece pouco educado por não retribuir a simpatia de quem por aqui passa mas ponho-me a escrever posts e quando dou por ela são quase horas de me levantar)]


segunda-feira, julho 08, 2019

Gracias a la vida:
os segredos dos que se esquecem de morrer, nas 'zonas azuis' do planeta




Acho bonito que chamem às zonas do mundo onde as pessoas vivem até mais tarde 'zonas azuis'. O azul é uma cor saudável, tranquila, a origem e o fim de tudo -- isto, claro, depois e antes do branco original e final, depois e antes do grande infinito. O azul, o vasto horizonte que se funde com o grande líquido azul que transporta e preserva a vida, dentro e fora de nós.

Não me lembro se já algma vez aqui falei disto: os locais da Terra onde há idosos a quem a idade não pesa, vivendo muitas vezes até para lá dos cem anos, mas vivendo com qualidade, felizes da vida.

A nova obra do Bordalo II - um big gato na Expo


É um fenómeno que tem atraído a atenção de jornalistas e de cientistas. E eu, que sempre convivi de perto com gente de avançada idade, interesso-me pelo assunto.

Ainda conheci uma bisavó. Eu era muito pequena e lembro-me de uma velhinha deitada num quarto da casa da minha avó. Dos outros bisas não faço ideia. Tenho uma fotografias de um casal de bisavós e julgo que eram os pais da minha avó paterna mas não garanto. Nada sei deles, não me lembro de alguma vez ter ouvido falar deles. Daquele que fugiu às dívidas de jogo e mulheres ninguém sabia nada. Durante muito tempo, se se falava nele, alguém dizia: 'Se calhar ainda está vivo' mas, que eu saiba, nunca ninguém mexeu uma palha para saber do seu paradeiro. Sabia-se que tinha ido lá para as américas do sul e pouco ou nada mais. E creio que o recíproco também foi verdadeiro. Digo creio porque é isso: mão juro que assim tenha sido.


Quanto aos meus avós, tirando um que morreu novo num acidente horrível, os outros viveram até bem tarde. E o tempo vai passando e agora já são os meus netos que vèem um velhinho na cama e o velhinho agora é o meu pai. E ainda me custa chamar velhinho ao meu pai porque o meu pai sempre foi um homem tão desportista, tão autónomo, tão 'bem conservado' e parece que ainda acho que aquele AVC foi, de facto, uma coisa acidental, que não devia mesmo ter acontecido, daquelas rasteiras que veio mudar o rumo normal das coisas, interromper o que tinha tudo para ser uma vida tranquila para ele e para a minha mãe. Tentamos todos que viva o melhor possível mas o grau de consciência dele já é uma coisa que, para nós, é cada vez mais enigmática.

Mas a minha mãe, essa, sim, poderia muito bem figurar numa destas reportagens das blue zones. Tem uma vitalidade, uma jovialidade e um aspecto que parece de mulher muito mais nova. O que ela faz, o que ele pensa, o que ela ri, transforma-a num exemplo para quem lida de perto com ela. Os netos e bisnetos adoram estar lá em casa. E não é só pelo banquete que ela sempre prepara, é mesmo pela boa onda, pela compreensão e leveza com que encara a vida (apesar da tristeza -- e prisão -- que é partilhar a vida com alguém que se vê a definhar progressivamente, sem esperança que um dia melhore).


Mas, voltando às zonas azuis, o que parece ser comum entre os muito idosos que vivem até tarde conservando a qualidade de vida é:
  • a convivência -- porque a solidão é um mal terrível, uma coisa que corrói a alma e esgota a seiva que alimenta a vida, 
  • a alimentação natural -- muitos legumes e frutos, de preferência de época, locais, e ervas aromáticas, nomeadamente o alecrim, e carne não muitas vezes por semana, para aí umas duas ou três vezes; não são vegans, são apenas minimalistas no consumo de carne. 
  • o exercício, actividade física -- porque a inactividade faz perder massa muscular, faz perter o tónus, faz amolecer a alma e a vontade de festejar a vida; vários idosos têm a sua horta que cuidam e da qual provêm alguns dos seus alimentos

Fiquei contente por saber. Agrada-me a forma simples de viver e sempre que ouço que isso faz bem ao corpo e à mente fico descansada. Saber aquilo do alecrim, então, para mim foi uma alegria. Gosto imenso de usá-lo e os meus filhos estão sempre a aborrecer-se comigo, dizem que uso e abuso, e o meu marido faz coro, arma-se em vítima como se fosse obrigado a ingerir comida envolta em arbustos do campo. Nada disso. Uso de forma moderada e quando me parece que vem a propósito.

Por exemplo, hoje para o jantar (e a contar que sobrasse para a semana) fiz um guisadinho e, ao temperar, hesitei mas resolvi não usar alecrim. Conto como fiz e parece que ficou bom e digo que 'parece' porque  apenas o meu marido o provou.
(Eu hoje, ao jantar, fiquei-me pela sopa de legumes que tinha feito pouco antes, queijo e fruta, acompanhados por dois ou três goles de Trinca-Bolotas, e que rematei, à laia de sobremesa, com um quadrado de chocolate negro comido ao mesmo tempo que dois cubos de gengibre cristalizado). 

Mas, então, a receita do meu guisadinho. Tinha comprado vitela, em bocadinhos para fazer a kind of jardineira. Num tacho coloquei azeite, uma cebolona gigante cortada aos bocados, um tomate também bigalhão igualmente aos bocados, salsa, duas folhas de louro, uma meia dúzia de dentes de alho. Pus a frigir ligeiramente para que os sabores se misturassem. A seguir, juntei os bocados de carne, um pouco de sal, pouco, e, quando hesitei a propósito do alecrim, acabei por optar por um pouco de orégãos. Estava o calor no máximo e, quando levantou fervura, baixei. Gosto de cozinhar a baixas temperaturas. pelo que os meus cozinhados nunca ficam 'repuxados'. Coloquei uma pinguinha de água, apenas para poder estar a cozinhar durante mais de uma hora sem risco de acidentes. Quando voltei à cena já a carne estava macia. Nessa altura preparei cenouras, batatas doces, mais cebola, mais tomate, mais salsa, coentros e uma novidade dos meus cozinhados: quiabos. Juntei tudo e envolvi com uma colher, levantando a temperatura até que voltasse a ferver. Depois baixei, temperatura 3 numa escala de 1 a 9. Ficou ali a cozinhar por mais uns quinze minutos. Quando desliguei, continuou sobre a placa para que apurasse um pouco mais. Estava um cheirinho mesmo bom. 

Não sei onde iam estes seres irreais
que avistei hoje quando estava a caminhar à beira rio, desta vez do lado de cá

E, por ora, é isto. Deixo-vos com um vídeo de apresentação de uma série que vai passar em França e onde Angèle Ferreux-Maeght, chef de cuisine e naturopata e Vincent Valinducq, médico e investigador, investigam o que se passa nas zonas azuis junto de gente que anda por volta dos cem no Jaão, Sardenha, Grécia e Costa Rica.

Mais informação pode ser vista em À la découverte des "zones bleues", ces villages reculés où les centenaires vivent heureux, no site de Madame le Figaro.




Já agora, a quem possa interessar, mais alguma informação sobre os Segredos de uma vida longa, agora falado ou legendado em português.


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Todas as fotografias foram feitas este domingo.

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E a todos vós desejo uma bela semana a começar já por esta segunda-feira.

Paz, saúde e amor.

domingo, março 25, 2018

Champanhe para Agustina. Tchim-tchim!



(A filha, Mónica) vem todos os dias à casa do Gólgota ver se está tudo em ordem, agora que só cá vive a escritora, sempre acomponhada por uma senhora que toma conta dela e a segue como uma sombra. "Nunca a sua presença foi tão forte na casa. Sentimos a sua força, a sua intensidade, só que agora já não interfere. Só há o silêncio. Às vezes é muito desconcertante.", diz. Como um enigma.

Confere que a mãe acabou de almoçar e bebeu uma taça de champanhe. Faz questão de beber uma taça ao almoço e outra ao jantar, um hábito que adquiriu desde de que estabilizou depois do AVC, naquele acto de voluntarismo que espantou a neta. A filha interpreta esta vontade de champanhe a acompanhar cada refeição como a celebração de mais um dia. 

Das imagens mais fortes que guarda de Agustina é dela na sala, a escrever com uma prancha em cima dos joelhos, papel e caneta na mão. Mónica entrou de repente na sala, a mãe interrompeu-se e deu-lhe atenção, depois regressou ao texto, numa expressão que a filha estranhou, "como em transe". Como se tivesse passado por um mundo diferente.



[Excerto do artigo "Agustina íntima" de Ana Soromenho, no Expresso deste sábado que comprei de propósito para ler este artigo.  As fotografias obtive-as eu na net, ou seja, não integram o artigo]


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Já agora permitam que partilhe um vídeo que estive agora ver: 

Agustina, no Porto, à conversa com Manoel de Oliveira




E, uma vez mais, o documentário "Agustina Bessa-Luís - Nasci Adulta e Morrerei Criança"



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Tchim-tchim!