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terça-feira, agosto 25, 2020

O mal




Tenho medo de pessoas más. A impressão que tenho é que as pessoas verdadeiramente más são perigosas não tanto por serem isso mesmo, más, tóxicas, pérfidas, mas, sobretudo, por padecerem de uma qualquer patologia que as torna insensíveis, incapazes de empatia ou arrependimento, pessoas essencialmente focadas nas suas obsessões, desligadas do mundo real onde os laços de afecto são relevantes. Felizmente não tenho conhecido de perto pessoas mesmo más. Algumas um pouco, sim. Mesmo aqui na net. Volta e meia há gente que aparece cheia de elogio, gracinha, simpatia, florzinha e que, mal a gente se cansa de tanto assédio, viram onças, mudam de nome, aparecem cheias de queixas mal intencionadas, de insultos, de ameaças. Enchem a caixa de comentários com nomes diferentes mas deixando sempre o rabo de fora, reconhecíveis, pestes suínas disfarçadas de outros nomes depois de antes se terem disfarçado de simpáticas.

Na vida real tenho conhecido gente excessivamente ambiciosa que não se importa de pisar em cima de quem calhar ou gente preguiçosa que disfarça a sua inacção cozinhando pretexto, inventando mentira e desculpa falsa. Ou gente medíocre que tem inveja de todo o mundo, gente que age na penumbra, pondo pauzinho na engrenagem, lançando boato, denegrindo pela calada, gente que é santinha da cabeça aos pés. Mas isto é a minha petite histoire, o pouco que sei do mundo dos maus. Imagine-se isto em ponto grande. Os malvados no jogo da política movem-se num outro tabuleiro: são malvados encartados, dúplices, sinistros, deslocam-se sorrateiramente e, nos bastidores, malvadamente, urdem teias para apanhar vítimas, em geral vítimas indefesas (porque gente deste calibre é uma outra coisa: cobarde), jogam num outro campeonato. E digo isto na dúvida pois não estou certa de que nisto, do mal, haja campeonatos. Mal é mal é mal é mal.

E estou com esta conversa só por causa do vídeo abaixo.

Esta segunda-feira, a casa já arrumada, o dia mais tranquilo, a minha filha a passar à fase dos bibelots, a minha mãe a ocupar-se do jardim, restos de comida da véspera, pude, finalmente, dar tréguas ao meu corpo. Sinto os músculos como que rasgados. Mas sinto, também, que estou a melhorar. O descanso deve permitir que os rasgões cicatrizem. Ao fim da tarde, peguei na máquina fotográfica, e contra todos os pedidos para que não me pusesse a cirandar, fui dar uma volta pelo jardim. Devagar, meio desengonçada, tentando iludir a dor, tentando não esforçar a ligação dos músculos aos ossos que é onde sinto que o corpo fraquejou, fui curtir o fim do dia, o ar doce do fim da tarde. Um casal de rolas muito perto de nós, uns quantos pássaros pretos que eu pensava que fossem corvos e que a minha mãe diz que acha que são melros, o sol dourado, um calorzinho bom. A anterior dona perguntou se gostávamos da casa, se sentíamos boas vibrações, coisa que, segundo ela, uma arquitecta sua conhecida costuma perguntar a quem vai viver para as casas projectadas por si. E é isso mesmo, seja lá o que isso for: boas vibrações, uma boa mood, um espírito leve, um prazer em estar, uma vontade de usufruir o lugar em todas as suas dimensões.

Ou seja, depois de um dia em que iniciei (acho eu) a minha recuperação, estando a iniciar o meu desfrute deste lugar, a casa tranquila e toda a gente igualmente tranquila, a última coisa de que ia lembrar-me era do tema do 'mal'.

Mas o algoritmo do YouTube quer que eu mantenha os pés na terra e, vai daí, mostra-me como é o mundo quando enlameado e habitado por gente má.

Hesitei em traduzir evil por mal pois, em Portugal, terra de brandos costumes e fogachos alimentados a sopro e cuspo nas redes sociais, a palavra mal não é tão malvada e diabólica assim. Mas ficou. O mal, se não banalizado, é a fonte de todos os fins. O fim da democracia, o fim da liberdade, o fim de um amor corroído pelo mal de existir em solidão, o fim dos tempos.

A sobrinha, a irmã e outros que lhe são próximos, viram as costas a esse narcisista patológico que dá pelo nome de Trump, nome que, já de si, não augura nada de bom. Agora até a loura que se presta a ser apodada de burra, a Kellyanne Conway, vai largar a Casa Branca. O marido, um rapaz do Lincoln Project, essa malta que, agora, acima de tudo na vida, odeia o Trump e entourage, por sinal também vai remeter-se ao aconchego do lar. Troca por troca. Tu largas a besta-mor e eu largo o Lincoln Project. 

Pois bem: não é só do narcisista-besta-mor que nasce o mal. Há que contar com os que frequentam o seu inner-inner circle. A filha-boneca, o genro-mumificado. Gente que não parece real.

Evil is real. And it lives in Jared Kushner.



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Pinturas de Francis Bacon ao som do anti-mal, o queridíssimo Chico

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E um dia feliz a quem por aqui me acompanha

segunda-feira, outubro 23, 2017

Pedro Santana Lopes e Rui Rio vão sozinhos a votos no PPD/PSD?
Entre o bota de elástico trombudo e o enfant terrible engatatão, as hostes laranjas apercebem-se do vazio.
Começar uma nova era com ideias velhas, remoques, bafio e brilhantina...?
Bahhh... não é bem isso de que precisam, pois não...?





O PSD até que não começou mal. Olha-se para trás, para aqueles tempos de saudável tumulto e ilimitada esperança, e vê-se um grupo de gente com cabeça e savoir faire. Falavam bem, impunham um certo respeito. Bons tribunos, gente boa de palavra, prosa alinhada, ideias escorreitas. Podia ou não concordar-se mas havia ali uma notória vontade de servir o País e sentia-se que havia elevação. Não eram uns quaisquer: era gente que se sentia ser, maioritariamente, gente de bem. 

Mais tarde, alguns, ao envelhecerem, vieram a anquilosar-se e percebemos que, desses tempos, pouco sobrou e que, na verdade, apenas um deles era o esteio do grupo. Dele vinha a nobreza de ideais, o risco desenhado a direito, o corte certeiro, o olhar de águia. Mesmo na forma como conduzia a vida pessoal, percebia-se o desprendimento de quem respeitava as paixões, as alheias e as próprias. Ele foi e é ainda a única e verdadeira referência. Sá Carneiro.


Depois da sua morte, o PSD não mais foi o mesmo. Desencontrou-se. Passou a ter como cola que unia os diversos interesses apenas a apetência pelo poder -- o central, o local, e as administrações nas empresas e institutos -- e, com isso, perdeu a capacidade e o gosto pelo golpe de asa, tornou-se ladino, rasteiro.

Diversas lideranças foram ensaiando estilos mas nenhuma se afirmou nas entranhas do partido. Marcante foi o período Cavaco. Foi a altura em que o PSD virou um saco de gatos que, de vez, aos princípios e aos costumes disseram nada e que, desprovidos de nobres ideais, videirinhamente esfregaram as mãos em torno de subsídios, apoios, formações, obras e mais obras -- para poderem participar na nobre causa de gerir o bodo aos pobres, ou seja, para poderem pôr a mão na massa. 


E foram-se sucedendo outros líderes. Nenhum a aquecer o lugar, nenhum a conseguir entrar no coração dos correlegionários, nenhum a estabelecer nova matriz cultural, nenhum a criar escola. Nem Marcelo conseguiu impôr-se tal o emaranhado que encontrou, com armadilhas e alçapões por todo o lado.


Mais recentemente foi Passos Coelho. Uma humilhação para os militantes. Um cadáver político que tarda em poder ser enterrado na cave mais escusa da memória do partido.


Mas não é o único. Lembremo-nos também de Durão Barroso. Outro mau passo. Na verdade, no cômputo geral, da história do PPD/PSD são mais os líderes que os militantes querem esquecer (ou que, mal saíram, logo foram esquecidos) do que os que deixaram saudades.


Neste partido exausto, desenraizado, com as prebendas e as nomeações a rarearem, os militantes de coeur que ainda sobrevivem são já apenas os expatriados intelectuais que sobraram de outras eras e mais uns quantos lunáticos que teimam em imaginar que, nas veias laranjas, ainda corre algum sangue do momento inicial. 

Se alguém quiser sequenciar o ADN deste partido não conseguirá fazê-lo: entre o Social e o Popular, as cadeias celulares dividir-se-ão e aquilo do Democrático não passa de uma velha abstração de quem ninguém saberá bem dizer o que significa.


Para conseguir fazer alguma coisa por este partido, tinha que aparecer alguém que viesse para sobressaltar as hostes, que as inquietasse, que fizesse a necessária incisão para daí fazer nascer um novo rumo.

Não será Rui Rio, o soturno homem do norte, nem Santana Lopes, o estroina da capital, que conseguirão fazer renascer o partido de forma a torná-lo, de novo, necessário ao País. Ambos têm os pés enterrados no passado e ambos pensam mais em si próprios do que no País. Querem afirmar-se, citando-se a si próprios, debicando nos outros, o olhar preso ao reflexo que o espelho lhes devolve e as mãos presas à vacuidade que os rodeia -- e isso é nada. Nada. 


Ou aparece alguém que consiga perceber que aquilo de que o País precisa é de uma visão moderna de um mundo que é novo e que se afirme com alguma ideia mobilizadora que, de alguma forma, o distinga do ideal humanista, social democrático e socialista (que já tem os partidos da so called geringonça a corporizá-lo), ou será mais uma oportunidade perdida -- e o PSD continuará na rota descendente que o conduzirá inexoravelmente à absoluta irrelevância, um partido de sombras inúteis com um saudoso fundador para sempre emoldurado nas paredes de uma memória cada vez mais longínqua.


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Pinturas de Francis Bacon

Max Raabe interpreta Oops I did it again

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sexta-feira, novembro 13, 2015

Quando contei, só estavas tu... mas quando olhei, só vi uma sombra* - ou quando os beaux esprits se juntam


Quando escrevi o post abaixo estava ainda sob o efeito das notícias do dia, laparices de última hora, trampolinices do irrevogável, ameaças soezes aos socialistas, uma venda da TAP feita a correr, a comunicação social ao serviço dos pafiosos, sei lá. 

Mas agora já exorcizei do meu pensamento esses demónios que por aí andam à solta e que, se não nos acautelamos, se aproximam de nós, deixando a sua baba infecta no espaço que pisamos. 

Tinha umas quantas ideias em mente, para ainda aqui escrever, mas esta semana tem sido brava e, a esta hora tardia, eu estou cansada. Talvez amanhã fale, então, de gente rica, mas mesmo muito rica, pornograficamente rica, ou fale de poesia e de poetas e de mulheres que inspiram poetas. Ou talvez me ponha para aqui a ficcionar, ando com vontade de desligar o filtro da realidade e deixar a imaginação descobrir, sozinha, os caminhos por onde gosta de se perder. Ou talvez fale de um bosque cujos pinheiros ajoelharam ao ver a luz do dia.

Mas não hoje que hoje tenho que ir descansar. Mas, antes de ir, quero aqui partilhar a notícia boa de que o regime iraniano, aos poucos, começa a dar sinais de alguma abertura e que, como geralmente acontece, esses sinais chegam do lado da arte.

À esquerda, Mark Rothko, Sienna, Orange and Black on Dark Brown, 1962;
À direita, Andy Warhol, Suicide (Purple Jumping Man), 1965.
Cortesia do Tehran Museum of Contemporary Art



Uma colecção de arte ocidental, obras escolhidas por Farah Diba Pahlavi, estava praticamente escondida desde a revolução de 1979, quando o marido, Reza Shah Pahlavi, foi deposto. Dessa colecção fazem parte, entre outras, obras de Andy Warhol, Claude Monet, Roy Lichtenstein, Jackson Pollock, Alberto Giacometti, Willem de Kooning, René Magritte e está avaliada em cerca de 3.000 milhões de dólares.


Francis Bacon, Reclining Man with Sculpture, 1961


A exposição tem o nome de Farideh Lashai: Towards the Ineffable. Farideh Lashai foi um espírito livre, uma mulher moderna -- uma artista iraniana que morreu em 2013 com 68 anos. Na exposição, as referidas obras ocidentais enquadram as suas obras. Há também obras de outros artistas iranianos. A ideia do curador é tecer uma aproximação intercultural - e, mesmo sem ver, já acredito que esta exposição seja um acontecimento fantástico.

Farideh Lashai, I Come From the Land of Ideology, 2010


Claro que já há museus interessados em exibir partes desta exposição pelo que, quem possa e esteja de água na boca mas não esteja com muita vontade de ir até àquelas bandas, poderá vir a encontrar, mais tarde, algumas destas obras em exposições em Washington, D.C., Berlim ou Frankfurt.

Farideh Lashai, When I Count, There are Only You… But When I Look, There is Only a Shadow , 2012-2013

[* - Do título deste quadro fiz o título da mensagem.]


Se eu não estivesse como estou, quase a adormecer, traduziria parte do artigo da Vanity Fair ou do The Art Newspaper -- mas não consigo. Por isso, deixo-vos apenas os links e as imagens de algumas obras.

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E, porque um conjunto tão significativo de obras pede, como acompanhamento, um desempenho musical fora do comum, junto um vídeo que mostra um momento ímpar: em volta de um único piano, um grupo de uma dúzia de conceituados pianistas improvisa uma inspirada orquestra. Só vendo. Ou melhor: só ouvindo. Uma festa.


Washington Conservatory : What is the sound of E. Pluribus Unum?


Maravilhamentos.
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E agora, se vos apetecer emoções fortes, sigam, por favor, até ao post já a seguir.
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domingo, janeiro 11, 2015

O medo. Os ratos. E Raef Badawi que foi chicoteado em público e por quem Doudi, a filha, tantas saudades sente. E Salman Rushdie e tantos mais que afirmam corajosamente a demência de tudo isto. E os Anonymous por todo o lado que juram não dar tréguas a quem atentar contra a liberdade de expressão. Talvez haja, pois, uma esperança de liberdade. Para que se possa dançar nos céus de Paris. E que essa esperança se espalhe aos céus, às estradas, às escolas, aos campos de todo o mundo.


A Leitora Rosa Pinto lembrou muito bem O Poema Pouco Original do Medo de Alexandre O'Neill - é que, não nos esqueçamos, se nos deixarmos levar pelo medo cedo alcançaremos a condição de ratos.

Arvo Pärt: The Deer's Cry


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O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis  
Vai ter olhos onde ninguém os veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no tecto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos  
O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
óptimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projectos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
       (assim assim)
escriturários
       (muitos)
intelectuais
       (o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com certeza a deles  
Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados  
Ah o medo vai ter tudo
tudo 
(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer) 
O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos 
Sim
a ratos 

Alexandre O'Neill, in 'Abandono Viciado'; pinturas de Francis bacon

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Centenas de espectadores numa praça pública em Jidá viram, sexta-feira, Raef Badawi a ser chicoteado 50 vezes. Durante 15 minutos, em silêncio e sem chorar, Raef Badawi foi sujeito ao castigo decidido pelas autoridades da Arábia Saudita que incluem, além de dez anos de prisão, mil chicotadas repartidas por 20 semanas por ter insultado o Islão.


Uma testemunha anónima contou à Associated Press que o co-fundador do site Rede Liberal Saudita, e laureado em 2014 com o prémio Repórteres sem Fronteiras, estava algemado mas com a cara descoberta. Foi transportado da prisão para o local, pouco depois de terem terminado as orações do meio-dia numa mesquita próxima. Cumpriu, assim, as primeiras 50 chicotadas por ter criticado o poder dos líderes religiosos na Arábia Saudita, no blogue que fundou com a activista dos direitos das mulheres Suad al-Shammari e onde defendeu o fim da influência da religião na vida pública daquele país.

Outra testemunha disse à Amnistia Internacional que a multidão se juntou em círculo. "Quem passava juntou-se e a multidão cresceu. Mas ninguém sabia porque é que Raif estava a ser castigado. Era um assassino? Um criminoso? Não reza?", perguntavam. Depois, "um polícia aproximou-se por trás e começou a bater-lhe. Raif levantou a cabeça em direcção ao céu, fechou os olhos. Estava em silêncio mas era visível pela expressão do rosto e movimento do corpo que estava a sofrer". O polícia bateu nas pernas e nas costas, contando até 50.


no Público de 10.Jan.2015


No vídeo abaixo, em Novembro do ano passado, Doudi, a sua filha de 10 anos, escrevia uma carta a Raif Badawi que está preso na Arábia Saudita, condenado a 10 anos de prisão e a 1.000 chibatadas por ter um blogue no qual defendia um debate social e político no seu país. 






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Salman Rushdie fala com Bill Maher a propósito do que aconteceu no Charlie Hebdo, fala do Islão e de toda esta cegada. Maçãs podres. O pomar estragado. Diz Bill Maher.





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Os Anonymous, um pouco por todo o lado, juram vingar os que, por defenderem a liberdade de expressão, caíram mortos às mãos dos terroristas. Os Anonymous afirmam a sua defesa da liberdade de expressão como um pilar da democracia e juram não dar tréguas aos terroristas.


Aqui em espanhol.



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O Irão condenou o atentado de Paris. A moderação a fazer o seu caminho. Talvez. Mas até há pouco tempo atrás a realidade era outra.


Rosewater - Uma esperança de liberdade



Irão, 2009. Decorre a campanha para as eleições presidenciais. Maziar Bahari (Gael García Bernal), jornalista iraniano-canadiano, regressa à sua Teerão natal para entrevistar Mir-Hossein Mousavi, líder da oposição a Mahmoud Ahmadinejad, o polémico e autoritário presidente em exercício. Quando a vitória deste é anunciada, as ruas enchem-se de protestos dos partidários de Mousavi. Bahari divulga imagens dos tumultos, mesmo sabendo o risco pessoal que esse acto acarreta. É detido pelas autoridades iranianas, que o retiram da sua casa. É acusado de espionagem. Uma das "provas" é um "sketch" com uma entrevista satírica emitida pelo programa "Daily Show", de Jon Stewart. Ao longo de 118 dias, vendado e sem saber quando (se?) voltará a ver a mulher, grávida, Bahari será submetido a violentos interrogatórios levados a cabo por um homem (Kim Bodnia) cujo nome e rosto desconhece, mas cujo perfume lhe fica marcado na memória: o senhor "Rosewater" ("água de rosas").

"Rosewater - Uma Esperança de Liberdade" marca a estreia na realização de Jon Stewart, o popular anfitrião do programa televisivo "Daily Show", e foi rodado numa prisão jordana. Baseia-se nos factos relatados no "best-seller" "Then They Came for Me", do próprio Maziar Bahari, que foi detido quando fazia a cobertura das eleições presidenciais iranianas para a revista "Newsweek". Apesar da relação entre o vídeo do "Daily Show" e a sua detenção, Bahari não guardou qualquer rancor a Stewart ("Podia estar na 'Rua Sésamo' e eles acusariam o Elmo de insubordinação", esclareceu o jornalista quando regressou ao programa). Mais: colaborou com Stewart na escrita do argumento e como consultor nas filmagens.




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E a beleza de Paris e a liberdade. E o voo junto ao céu de Paris.

Viver sem medo.

HAUT VOL




Bailarinos: Léonore Baulac e Allister Madin do Ballet da Opera de Paris 

Realizado por Louis de Caunes

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um bom domingo em liberdade, sem medo.

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quinta-feira, maio 09, 2013

Faz bem Paulo Portas em andar, feito um vulgar vendilhão, a tentar vender aos estrangeiros as nossas grandes empresas públicas? É disso que Portugal precisa? Dou a minha opinião: não! Uma vez mais, Portugal está a ser atacado, como se tivesse um cão raivoso agarrado ao seu pescoço. E sobre o Estado Providência? Temos Estado a mais? O que está a ser feito pelo Governo de Passos Coelho é liberal e bom? Uma vez mais, permitam-me que responda: nem é liberal nem é bom, é estúpido e errado. [Francis Bacon acompanha o texto com as suas imagens que nos falam de decomposição e horror e, como acompanhamento musical, The Sounds of Silence]


Este período é fértil em temas que me mobilizam. Ando para continuar a minha história da Isabel, a mulher ciumenta, e a do Dr. Sotto Aguiar, um executivo com muita pinta e uma vida familiar muito chata, e não consigo. Ainda hoje vinha danadinha para pegar no bonitão e, afinal, as notícias são sempre tão preocupantes que me apetece denunciar a má gestão pública e desmontar a deficiente interpretação de alguns factores de análise.

Portanto, hoje já não devo ter fôlego para alguma diversão depois desta minha empreitada de serviço público aqui (presunção e água benta cada um toma a que quer, certo?), e depois do meu veraneio pelo Ginjal (se é que lá vou conseguir ir...).

Agora vamos a coisas sérias (e espero que não muito maçadoras para vocês).

*

Música, por favor

(Para haver aqui alguma coisa que se aproveite)





1. Volto a Paulo Portas e só espero que não me chamem alentejana: primeiro porque seria aborrecido para os alentejanos e, depois, porque não falei ontem, como devia, porque aquela cena da histeria pela ida aos mercados me tirou do sério.

E volto a Paulo Portas não por qualquer paranóia em relação a ele, que não tenho (porque até acho que ele, bem encarreirado e bem acompanhado, talvez até pudesse ter salvação... - assim, entregue a si próprio e pessimamente acompanhado, perde-se irremediavelmente), mas porque ultimamente o tenho visto em 'números' graves, em 'cenas' que são más para o País e que não abonam nada a favor da sua boa conduta política, profissional e, até, patriótica.

Sobre as fantochadas encenadas com o inqualificável primeiro ministro (que só não digo que faz coisas verdadeiramente under dog porque gosto muito de cães), já falei no fim de semana e na segunda feira.




Hoje vou falar de outra coisa. Vi-o ontem na televisão, penso que acompanhando o Cavaco na visita do Presidente da Turquia e de uma delegação de empresários, falando  do bom que é investir em Portugal. Até aqui tudo bem e é o papel dele. O pior veio a seguir. De que investimentos falou Paulo Portas? Pois bem: em vez de querer cativar investimento para novas actividades, não: começou a vender as empresas nacionais. Qual vendilhão, pôs-se a enumerar: vendia tudo, correios, transportes, tudo. Ao ouvi-lo saí da sala, não consegui ver mais. Não é possível termos um ministro a fazer coisas destas.

Vender as nossas empresas é vender anéis, quando não vender os dedos. Entra dinheiro, apenas isso. Mas é dinheiro que se vai evaporar como manteiga em focinho de cão. Vendendo as nossas empresas a empresas estrangeiras (e, por cúmulo da aberração, vender a empresas estatais estrangeiras!), é poder de decisão que sai do País (e eu sei, e - read my lips! - eu sei mesmo, que isso acontece e que isso é mau para o País), são serviços que fecham, quando não núcleos de actividade que 'vão à vida' (vide a Cimpor, por exemplo).




O que importa agora, mas importa muito, é cativar investimento fresco, investimento externo para desenvolver novas actividades, para criar valor no país, para criar postos de trabalho. Claro que, na prática, o que estou a dizer é investimento fresco para 'gerar' novos contribuintes (pelo lado do IRS, IRC, IVA e TSU) e reduzir beneficiários de massa social (menos subsídio de desemprego, menos subsídios de inserção social). E isto é vital para um País, vital. E, para nós, neste momento, é absolutamente indispensável.

E porque é importante atrair investimento estrangeiro? Podia ser nacional, talvez pensem. Mas digo investimento estrangeiro não apenas porque são recursos que entram no País mas, sobretudo, porque os investidores nacionais estão exangues. Tirando os grande merceeiros, quase não há mais grandes empresários endinheirados em Portugal.

Mas, meus Caros Leitores, dinheiro no mundo é o que não falta. E há bons investidores, investidores com liquidez e que buscam entrar no mercado europeu ou arranjar portas para África (de novo: read my lips, sei do que falo). E é isso que interessa atrair. Atrair investimento para novos projectos, projectos localizados cá - atrair dinheiro,  invocando a existência de mão de obra qualificada, mão de obra com conhecimento de línguas, e bom clima e um bom sistema viário, bons portos, alojamento agradável, um bom sistema de ensino, bons hospitais, e etc, etc, etc. Claro que deveriam poder também invocar um sistema fiscal justo, adequado, estável.




Ora, o que esta cambada de incompetentes está a fazer é tudo ao contrário: não apenas afugentam os jovens, a mão de obra mais qualificada e mais motivada, como deixam de manter as estradas, querem espatifar com o sistema de ensino e com o sistema de saúde e, sobretudo, não sabem captar investimento estrangeiro para novas actividades. E, no campo fiscal, não só o transformaram num pesadelo como, pior ainda, num pesadelo em constante mutação (e, caraças!, sempre para pior) - ora é sabido que as decisões de investimento assentam na previsibilidade. Para investir fazem-se planos a médio/ longo prazo. Ora, na actual conjuntura, com o país entregue a um absoluto desgoverno, quem é que consegue fazer qualquer plano usando factores variáveis internos? Ninguém. Todas as previsões do Governo falham e todo o dia são conhecidas novas medidas, mas medidas avulsas, imprecisas, medidas que caem dias depois. Um caos.

Portanto, que Paulo Portas, em vez de se concentrar no que é deveras importante para Portugal, ande a inaugurar mini ginásios na Índia ou a ver se vende a pataco as nossas empresas acho, pois, muito grave, acho uma tristeza, uma grande, grande tristeza.


2. Um outro assunto. Li hoje um texto muito interessante, escrito por alguém cujos textos (e poemas!) leio assiduamente pela oportunidade, lucidez, inteligência e cultura. O texto chama-se Caminhos de Ajustamento e aborda uma análise que merece reflexão: será possível uma sociedade liberal sem a intervenção social do Estado?

A minha opinião, tal como a de JCM, autor do texto contido no blogue Kyrie Eleison, é a de que não é possível. Ou melhor, não é desejável.




No entanto, aquilo a que assistimos em Portugal não é apenas o primado de uma visão liberal. Aquilo a que assistimos é uma visão ignorante, estúpida. Pensam que são liberais, modernos, mas, para nossa desgraça, o que são é muito incompetentes, muito pouco inteligentes.

Durante vários anos contactei muito de perto com alemães e holandeses. Na altura, eu ficava admirada com o nível fiscal elevado que tinham nos seus países. Na altura, há uns anos, Portugal não tinha um nível fiscal muito elevado. Na Holanda ou na Alemanha, na altura, era mais elevado. E, no entanto, eles não se queixavam. Na altura, o ensino lá era absolutamente gratuito. Os miúdos não pagavam nem sequer os livros ou o material escolar. Havia creches gratuitas, escolas para todas as idades, tudo gratuito. Na altura, em Portugal não havia creches gratuitas, as escolas primárias públicas funcionavam em meio horário, obrigando grande parte das mulheres trabalhadoras a terem os filhos em escolas particulares. E os livros e todo o material, que não era nada barato, era (e ainda é) pago. E lá, contavam-me eles, havia também uma assistência fantástica à maternidade (e, na altura, eu reportava-me ao meu caso, em que tinha tido apenas 3 meses de licença enquanto lá, salvo erro, era variável entre 6 meses e um ano). E havia mais um conjunto de factores com que agora não vou estar aqui a maçar-vos mas que eles valorizavam com entusiasmo.

Ou seja, uma sociedade desenvolvida não tem que desprezar o lado social da intervenção do Estado. Muito pelo contrário. E é que, também muito pelo contrário, um bom sistema público de apoio não apenas propicia condições dignas à população, como garante igualdade de acessos a toda a gente - e isso é a base de todos os sistemas democráticos, desenvolvidos, sustentados.

Quando se diz que em Portugal há um peso excessivo do Estado não se está a dizer toda a verdade.




É um facto que há uma parte significativa da população que vive do Estado (tal como há uma camada crescente que vive do ar): são os desempregados, os pensionistas, e são, claro, os funcionários da administração pública. 

Mas tudo isto não seria dramático se as contribuições e impostos estivessem a entrar na proporção do dinheiro que sai para fazer face aos pagamentos.

Se houver poucos desempregados, se estiverem a entrar novos contribuintes ao ritmo a que entram no regime de reforma novos pensionistas, se os serviços prestados pelo Estado forem adequados às necessidades e não menos eficientes que equivalentes privados, todo o sistema estaria a funcionar balanceadmente, sem desequilíbrios.




O que está mal em Portugal (tal como está mal nos países em que tem imperado a receita estúpida, burra, da austeridade como único critério de gestão da coisa pública) é que se desequilibrou a equação.

Gente burra é um problema. Onde metem as patas dão cabo de tudo.

É o que tem acontecido: ao diminuírem o rendimento líquido de parte significativa da população, retiraram liquidez da economia. Sem liquidez e sem confiança (que são os grandes motores da economia), o sistema económico entrou em desequilíbrio. Isso levou ao encerramento de grande número de pequenas actividades intermédias (que, no conjunto, empregam muita gente): pequenas lojas, restaurantes, etc. Com isso, começou a ruir, em cadeia, toda a economia de retalho.




Quando isto acontece, não apenas são pessoas que deixam de consumir (retiram os filhos dos colégios, deixam de ir ao cabeleireiro, deixam de ir ao cinema, etc, acarretando novos encerramentos) como deixam de contribuir com o anterior nível de impostos e contribuições. Ou seja a equação começa a tornar-se inequação. Mas, ao entrarem no desemprego, acresce que as pessoas passam de contribuintes a beneficiárias. Ou seja, mais agravam a inequação pois há uma actuação nos dois lados da equação e, em ambos os casos, mexendo no sentido errado. 

(Para facilitar: supondo que entravam 100 nos cofres de estado e que era preciso efectuar 100 de pagamentos. Estaria tudo bem, à justa, mas bem. Suponhamos agora que, com medidas burras, em vez de 100, passam a entrar menos impostos e contribuições, que entra apenas 70. Já tinha desequilibrado isto tudo pois os 70 já não davam para pagar os 100. Só que, com as medidas estúpidas, as pessoas passam de contribuintes a beneficiárias, ou sejam, passam a receber subsídio de desemprego, e, em vez de ter que pagar os 100 anteriores, passa a ser necessário pagar 130. Ou seja, desgraçam a vida das pessoas e qual o resultado? De receitas passam a ter 70 para fazer face a 130 de pagamentos. Ou seja, não dá! Deram cabo de tudo!)




E quando constatam isto, o que é que estas alimárias concluem? Ou seja, como é gente sem cabeça, o que é estes governantes fazem? Aqui d'el rei, o país não suporta tanta despesa social! E então, vai daí, reduzem o número de funcionários públicos, reduzem as reformas, deixam de pagar subsídio de desemprego a mais pessoas ... ou seja, agravam o problema. Ou seja, continuam retirar liquidez da economia... e mais actividades a fecharem. E vai daí, continuam, continuam.

Antes disso já tinham, é claro, suspendido todos os investimentos públicos. Acabaram com a construção ou reparação de estradas, acabaram com o TGV, com a nova ponte, com o Parque Escolar, com o programa Pólis e com tudo o que fazia girar a economia. Eram investimentos públicos, é certo, mas, ao serem investimentos que chegavam a todo o território, eram empregos que existiam um pouco por todo o lado, empresas que faziam projectos, que produziam materiais, operários, engenheiros, e depois era preciso haver restauração local para acorrer a esses trabalhadores, era preciso haver transportes para levar pessoas e materiais, etc. Era gente que descontava, eram impostos que entravam, eram contribuições para a Segurança Social. Ora, por obra e graça desta gente, tudo isso acabou.

Claro que não estou a dizer que o que havia era um mundo perfeito. Não era. E não era porquê?

Porque, no decurso  de todos estes anos de UE, Portugal foi levado (e aceitou! Com Cavaco à cabeça!) a encerrar grande parte da sua actividade produtiva ou extractiva. 

O País não estava bem pois importava mais do que exportava. E era aí que se deveria incidir. Sócrates tentou-o: tentou construir e exportar navios, computadores, casas pré-fabricadas. Nem tudo lhe correu bem mas conseguiu algumas coisas e isso é melhor que nada. E, sobretudo, tentou.

Estes sujeitos agora é que não fazem nada do que é importante e, pelo contrário, agindo com as patas (é que nem é com os pés...), fazem tudo ao contrário, dão cabo de tudo.




Mas o pior ainda está para vir. Não quero ser a versão feminina do Medina Carreira mas ouçam o que eu vos digo: o pior está para vir.

É que não são só os desmandos que esta gente anda a levar a cabo nisto que acabei de, sumariamente, descrever: é também a demografia.

A gestão de um País tem que assentar na sua demografia. Ora isso por cá é chinês. Ninguém sabe, ninguém quer saber. Uma correcta gestão nacional tem que fomentar, através de políticas públicas, uma demografia saudável.

Ouvi no outro dia que o número de alunos do ensino básico é agora cerca de 51% do que era há uns anos. Ora estes 51% de miúdos, serão 51% de adultos a curto prazo. Dramático. E, desses, a continuarmos na mesma onda, grande parte estará desempregada. E será a pequena parcela empregada que irá sustentar todo o sistema social da população. O que significa isso? Impossibilidade matemática. Logo: miséria. 




Vamos voltar ao que era antes do 25 de Abril. Não conheci, como adulta, essa realidade - mas ouvi falar. Velhos sem rendimentos, dependentes da esmola dos filhos. Mas pior. Nessa altura, a demografia estava em crescendo. Havia velhos pobres mas havia uma geração adulta em ascensão, com rendimentos. Daqui por uns anos haverá poucos adultos, muitos dos quais desempregados ou que emigrarão fazendo os seus descontos noutros países. Ou seja, não haverá quem sustente o estado social, sequer quem garanta o alimento à população mais velha.

*

O texto saíu-me imenso e ao tentar aligeirá-lo, inserindo algumas imagens, mais uma vez me ocorreu Francis Bacon, o pintor que se auto-retratou como se estivesse em decomposição, que retratou outros corpos como se estivessem tomados pelo horror, pela abjecção. Não são imagens bonitas de se ver. Mas não me ocorreu nada mais apropriado.

Em contrapartida, apeteceu-me ter aqui Simon and Garfunkel e o seu inesquecível The Sounds of Silence (Hello darkness, my old friend,..., And in the naked light, I saw ten thousand people, maybe more, people talking without speaking, people hearing without listening...).

Os sons do silêncio parecem-me apropriados ao momento mas a sonoridade da canção traz-nos algum amparo.

*

Caso encontrem gralhas, por favor relevem, está bem? Não consigo ainda ir rever isto, tenho sono... Mas, se encontrarem algum há sem h ou outra calinada do género, avisem-me sem qualquer espécie de prurido, está bem? 

*

Muito gostaria ainda de vos convidar a visitarem-me também no meu Ginjal e Lisboa. Hoje não encontrei por lá a paz que tão bem me faz. Pela mão de André Tomé as minhas palavras não se aquietaram. Mas, ainda assim, gostava de vos ter por lá. A música, essa sim, é uma animação: a música do Mali pelo fantástico Ali Farka Touré.


*

Resta-me desejar-vos uma bela quinta feira. Ânimo, energia, alegria é o que precisamos.

terça-feira, outubro 09, 2012

Miguel Relvas vai à Assembleia da República explicar aos partidos que em 2013 vai despedir entre 40.000 e 50.000 funcionários públicos, que vai reduzir o valor das horas extraordinárias para metade do que já é uma pálida amostra do que era, que em 2013 vai passar a idade da reforma da função pública para 65 anos, que vai roubar um ou dois ou mais ordenados a quase toda a gente que trabalha ou recebe reformas, que vai roubar uma parte das economias a grande parte da população por via do IMI, que vai cortar na educação, na saúde, na segurança e que, até, na Cinemateca, os filmes em língua estrangeira, vão deixar de ser legendados. Ou seja, Relvas vai explicar que o Governo do seu amigo Passos Coelho vai roubar e atirar para a miséria quase toda população, destruir a economia, humilhar e atentar contra a dignidade dos portugueses. Alguém acredita que isto vai avante? Eu não. Tudo isto é tão disparatado que só pode ter um destino: o lixo. O orçamento de 2013 do Governo de Passos Coelho, Gaspar e Portas para o lixo, e o Governo para o caixote do lixo da História. Para ilustrar: Francis Bacon





O grande estadista Vai-Estudar-ó-Relvas vai esta terça-feira apresentar aos partidos com assento na Assembleia da República as grandes linhas para o Orçamento para 2013.

Contudo, de véspera, alguma coisa já começou a ser conhecida e, claro, só coisas extraordinárias. Coisas na linha das anteriores: inusitadas, perigosas, sem nexo.

Eu gostava que alguém me viesse dizer que isto é para os apanhados porque, se isso não acontecer, vou ficar a pensar que ou eles estão doidos, eles e quem ainda os apoia, ou, então, que fui eu que endoideci.

Ainda mal as empresas acabaram de pôr em prática os cortes no valor das horas extraordinárias, por via do absurdo 'pacote laboral' - e que corte violento  ocorreu...! tão violento que (read my lips) os patrões já estão a compensar os trabalhadores atribuindo-lhes novos susbsídios - e já ouço que o governo quer aplicar novo brutal corte, reduzindo para metade o que já tinha sido tão cortado. Mas o que é isto? Atentar contra a dignidade das pessoas? Porque é que não lhes apontam, antes, uma pistola à cabeça para que trabalhem sem receber um chavo?

Esta gente não pode ser boa da cabeça! 




E ouço que se preparam também para mandar para o olho da rua mais cerca de 50.000 funcionários públicos, grande parte das quais professores, mas também das autarquias e empresas municipais. Tudo no mesmo ano. E que, para ajudar à festa, quer prolongar já a idade de reforma no estado para os 65 anos. Medidas recessivas em cima de medidas recessivas. O efeito cumulativo de todas estas medidas é napalm para a economia, uma coisa irreversivelmente arrasadora.

Gaspar, com aquela sua conhecida dificuldade em alinhar dois raciocínios de seguida, diz, em voz mal articulada, desconchavada, que não quer participar num concurso de adjectivos: enorme? colossal? e que no final se verá qual o melhor adjectivo. Pois, não é preciso esperar pelo fim Sr. Gaspar-não-acerta-uma: já chegámos ao fim há muito tempo. O resultado das suas políticas já está à vista: um colossal incumprimento de todas as metas.

Foi aos mercados, diz ele, e que isso é uma vitória. Brilhante. Destrói o país mas vai aos mercados. Olha que bom.

E resta saber a que mercados foi ele. Soam insistentes rumores de que foi a segurança social e bancos portugueses que acorreram. Ah a banca... que bonzinhos e cooperantes que agora estão e que estranhamente caladinhos que andam. Será que se estão já a alinhar para filar a CGD? 

Mas volto ao (des)governo: ou esta gente é destituída de capacidades cognitivas ou são uns bombistas falhados ou, então, volto a dizer, sou eu que, de repente, fiquei tapada de todo.

Porque, do que vejo o que posso dizer é que não sabem nada de nada - nem sabem fazer operações elementares. Ao atirar tanta gente para o desemprego, estes que agora se anunciam mais todos os das empresas privadas, ao retirar rendimento livre (aos que trabalham ou são donos de uma casa) através do brutal aumento de impostos, estão a retirar liquidez à economia. Ora, desta forma, o buraco vai cavando cada vez mais fundo. Assim é impossível,  aritmeticamente impossível pagar a dívida, cumprir o défice.... e sobrevivermos. Impossível.

É que, como a nossa frágil economia assenta sobretudo no consumo interno, estas medidas levam directamente ao colapso.




Diz o inteligente Passos Coelho que estas medidas serão bem sucedidas se os mercados europeus para os quais exportamos não se forem abaixo porque estas medidas assentam no pressuposto que a economia portuguesa vai reanimar através das exportações. Novo disparate.

Para que aquela ideia luminosa fizesse sentido, ter-se-ia que desviar a economia de consumo para uma economia assente na industrialização, com produção de bens transaccionáveis. E isto é, de facto, o que deve ser feito. Só que, valham-me todos os santinhos, não se faz isso em um dou dois ou três anos! Faz-se no mínimo numa década. No mínimo! Pois se andámos durante 30 anos a fechar fábricas, a destruir a frota pesqueira ou a pôr de lado os campos cultiváveis (obrigadinha, Dr. Cavaco Silva...!), como pode alguém querer voltar com as sardinhas ao prato num ano ou em dois? Só gente doida. E, para mais, onde é que está o dinheiro para financiar empresários para, do nada, se porem agora a inventar produtos, inventar fábricas, admitir pessoal, conseguir descobrir como se exporta e quais os mercados adequados? 




Com a população a caminhar rapidamente para a miséria, com os desempregados a perderem já o direito ao subsídio de desemprego e já com muitos milhares de famílias sem um cêntimo de rendimento (quase 300.000 pessoas deixaram de receber subsídio de desemprego ou RSI!), como se aguenta um País assim durante uma década? 

Ou será que o que estas mentes brilhantes querem é que isto passe a ser coutada de angolanos e colombianos e chineses para virem para cá eles fazer fábricas, contratando a cêntimo uma população esfomeada que, por um prato de lentilhas, se vai predispor a trabalhar seis dias por semana, doze horas por dia, sem direitos, sem nada? 

O que se está a passar, com o país a atravessar um período tão crítico, e entregue a um grupo de gente incompetente para além do normal, é um filme de terror. Temo ser repetitiva e maçadora mas não consigo deixar de falar nisto.




Na gestão de umas finanças públicas, a gestão da dívida e a gestão do défice orçamental são duas frentes de uma batalha que tem muitas frentes.  Dívida há sempre e é normal que haja. Não tem a  ver com boa e má gestão. Dívida há sempre. Tem é que ser equilibrada, tem que haver cobertura para ela. E tem que ser bem gerida. Há até um tipo de dívida que não se paga: é a dívida permanente relativamente à qual se pagam apenas os juros. E há dívidas que foram contraídas para serem de curto prazo e que, por negociação normal, passam para dívidas de médio ou longo prazo. Claro que os bancos ganham sempre pois, se se paga mais tarde, paga-se mais juros mas, desta forma, alivia-se a tesouraria em anos maus.

Mas também temos que ver que estamos a pagar a dívida (a dita dívida soberana) a juros que rondam, em média, os 4,5% e os privados, então, podem pagar as suas dívidas a 7 ou 8% ou mais. No entanto, para a Alemanha, por exemplo, os juros são, respectivamente, 1 e entre 3 e 4%. Veja-se pois a disparidade de condições de competitividade entre a Alemanha e nós, pobres países esmifrados até à medula.

O que deve ser feito e, se fosse feito com inteligência, sê-lo-ia conjuntamente entre a Espanha, a Itália, a Grécia, a Irlanda, Portugal e uns quantos mais, seria negociar com os bancos credores a redução das taxas de juro e a dilatação dos prazos de amortização - ou isso, ou deixar de pagar.

Aqui chegados, logos os medricas de serviço vêm dizer, ah e as reformas? e os ordenados? Porque se eles não aceitarem isso, a troika pode ficar ofendida e cortar-nos o dinheirinho.

Pois o que tenho a dizer-vos é que negociar matérias deste tipo não é para medrosos, é para gente com estômago e com sangue frio. E alguém que reúna esses requisitos sabe que se vários devedores aparecerem a dizer que não pagam, os bancos credores não poderiam arriscar uma situação desta pois já não têm margem para grandes imparidades, ou seja, para encaixar nos balanços grandes montantes de incobráveis e, logo, optariam pelo mal menor, o de aceitar renegociar a dívida. Não tenham dúvidas.




E isso já iria aliviar as finanças, libertando meios para a economia. E, acabando simultaneamente esta inenarrável sangria através dos impostos, talvez a economia, ao longo de uns dez anos, conseguisse pôr a cabeça fora de água e fazer com que a industrialização renascesse. 

Quem diz isto em relação à dívida, diz também em relação ao défice. O défice, numa gestão saudável, deve ser zero. O ideal será até que haja um superavit. Mas só é possível isso em períodos de crescimento. 

Ou seja, manda o mais elementar bom senso que o foco da gestão pública, numa altura recessiva, deixe de ser a redução do défice e passe a ser o crescimento.

Ou seja, o grave de tudo isto, não é apenas o absurdo de cada uma das medidas em particular: é o conjunto. Mais: o pior não é tudo isto, o pior é que isto vem na sequência de um ano e meio de experimentalismos que se traduziu num buraco de todo o tamanho. E, contra tudo o que seria lógico, em vez de perceberem que andaram a fazer tudo ao contrário e corrigirem a rota, não senhor: carregam ainda mais na dose. Tudo isto é tão irracional que até dói.




Por tudo isto e por mil razões mais tais como:

- Não se pode ter um primeiro ministro e demais ministros que, onde quer que vão, são chamados de gatunos
- Não se pode ter um ministro de estado que mostra em público que não concorda com nada do que se passa no governo mas, hélas, a quem falta depois a coragem e o sentido de Estado para bater com a porta
- Não se pode ter um Governo em que os empresários dizem que têm vontade de fazer greve
- Não se pode ter um Governo de quem todos os anteriores apoiantes (Catroga, Medina Carreira, João Duque, etc, etc, etc) dizem publicamente, alto e bom som, o que Maomé não disse do toucinho
- Não se pode ter um Governo a quem o Presidente da República não perde uma oportunidade para dar públicas e ferozes bicadas
- etc, etc, etc




por tudo isto, dizia, não acredito que este Governo se aguente muito mais. E este Orçamento não pode ir avante. Mas é que não pode mesmo.

Levantemo-nos, pois, com o orgulho que ainda nos resta. E que ninguém diga de nós, portugueses,

Assim os claros filhos do mar largo
atingidos no sonho mais secreto
caíram de um só golpe sobre a terra
e foram possuídos pela morte

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Todas as  imagens que ilustram o texto são pinturas do pintor da carne que se dissolve, da degenerescência, do desânimo que se arrasta amargamente pelo chão, Francis Bacon.

O poema que termina o texto chama-se 'Assim os claros filhos' e é de Sophia de Mello Breyner Andresen

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Se vos apetecer espairecer na minha companhia (há gostos para tudo, não é?), convido-vos a visitarem uma casa da minha memória, uma casa já só feita de palavras e doces recordações, em volta da casa de Sophia e ao som de um belo cisne a quem Camille Saint-Saëns. É já ali no Ginjal e Lisboa, a love affair.

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Desejo-vos uma bela terça feira!


quarta-feira, setembro 12, 2012

Com a conivência e o silêncio (patriotismo, diz ele) de Paulo Portas, Vítor Gaspar (o tal que não acerta uma) avança com novo pacote de austeridade. Acho que está bem claro que, com isto, se pretende aumentar a miséria, acelerar o descalabro. Mais IRS, mais cortes nas pensões, despedimentos na função pública, mais empresas a serem vendidas. (O IMI nas casas acima de 1 milhão é coisa para enganar o zé povinho). 'Gatuno!', chamaram-lhe os manifestantes à porta da SIC. E algumas coisas que eu, ao invés, acho que deveriam ser feitas para Portugal tirar o pé da lama. (Francis Bacon e João Cutileiro acompanham-me ao longo do texto)


A saga continua. Tudo correu mal. Está provado, comprovado, oficializado. Um desastre.




Apesar de todos sangrentos esbulhos aos que não lhes podem fugir,  apesar da maioria que lhes permite governar à vontadinha, apesar de fazerem tudo o que querem, de irem mais longe do que a troika e ninguém lhes pôr travão, apesar de uma oposição bentinha composta por meninos velhos, apesar de uma população submissa como indefesas cobaias, apesar de tudo isto, o Governo falha em toda a linha: o défice não abranda, a economia definha, o desemprego atinge níveis letais e a dívida não pára de crescer. 

O Estado não pára de crescer, tudo devorando, um perigoso buraco negro que suga qualquer resquício de vida que encontre à sua volta. O estado transformado no vórtice de uma assassina espiral recessiva.

Estranho? Incompreensível? Misterioso?

Não, que ideia. Tudo previsível. A receita está errada, tanta a gente o viu desde o início: os ingredientes não são estes, a forma como se deveriam combinar está longe de ser esta, os tempos não são estes e, finalmente, os cozinheiros são atrozmente incompetentes. Com esta explosiva mistura de enganos e de incompetências, nunca poderia dar certo.

E mesmo os que incautamente no início acreditaram, logo que as primeiras campainhas começaram a soar perceberam que a rota tinha que ser corrigida. Todos menos Passos Coelho e o grupinho de que se rodeou.




E, de novo, com o País inteiro estupefacto perante tamanho estampanço e tão estrondosa incapacidade em perceber o que se passa, o Governo reage fazendo o quê? Claro, fazendo aquilo que os ignorantes fazem: a mesma coisa, esperando que resulte de maneira diferente.




Ou seja, constatando-se que foi um ano perdido, um ano de inúteis sacrifícios, e em que os objectivos deste ano passam agora a ser os do ano que vem - o mesmo ano que há menos de um mês o Passos anunciou que já não ia ser de recessão - os mesmos incompetentes resolvem aplicar a mesma receita mas agora reforçando ainda mais os ingredientes. 

Se antes resultou em comida salgada, pois agora, nada a saber: junte-se ainda mais sal. E, vai daí, novo agravamento no IRS, e isto a somar ao roubo à mão armada dos recentemente anunciados 7%, em cima do aumento do IVA, em cima do aumento escandaloso que se anuncia para o IMI, em cima do roubo dos subsídios para a Administração Pública e reformados. 

Se antes a comida estava intragavelmente picante, pois agora, nada a saber: junte-se ainda mais picante. E agora são também as pensões de reforma, com uma dentada que pode ir de 3.5% a 10%.




Tudo isto quase parece já demência. Começo a não ser capaz de formular mais vezes aquela minha dúvida metódica: pode isto ser só incompetência e ignorância ou é mesmo perversidade? É gente apenas incapaz que nem para ser varredor servia (sem desprimor para os varredores) ou é gente a mando de futuros patrões, que quer agora apenas comprar barato o que está a ser vendido ao desbarato?

Não sei. Já me parece incompetência e ignorância a mais. Começo a inclinar-me mesmo para a falta de valores morais, éticos e para tudo aquilo que costuma rodear a falta destes valores.




E, neste momento, coloco no mesmo saco criaturas como o Passos de Massamá, o Vai-estudar-ó-Relvas, o Gaspar-não-acerta-uma e o Paulo Portas. Nem sei se não acho ainda mais indigna a atitude de Paulo Portas. Depois de tudo o que se tem estado a passar consegue ele ainda olhar os seus eleitores nos olhos? Consegue ele ainda manter a cabeça erguida?

Talvez se sinta tentado a isso, o seu gosto pela performance pode levá-lo a isso. Mas aconselho-o a que não o faça. Olhar nos olhos e manter a cabeça erguida são gestos que devem estar reservados a pessoas de palavra.



Entregues que estamos a esta trupe, a única coisa que sinto é que têm que ser afastados o mais rapidamente possível do governo. 

Em pouco mais de um ano, a devastação que levaram a cabo revela que não têm escrúpulos e que prosseguirão com o maior dos à vontades. 




Ainda hoje vi o Vai-estudar-ó-Relvas, esgargalado, esgar desagradável, dizendo as vulgaridades do costume e, invariavelmente, sinto uma náusea insuportável. Não existe a noção do que é a vergonha, do que é a dignidade. Não existe. 

O país vai estando cada vez mais miserável, mais sem soluções, com as principais empresas nas mãos de estrangeiros (de estados estrangeiros em que a democracia não se escreve com as mesmas letras que se escreve por cá), com cada vez mais famílias sem casa, recorrendo à sopa dos pobres, com os jovens a debandarem, com os velhos entregues à sua sorte - e, no Governo, em vez de termos pessoas em quem possamos confiar e a defender-nos, temos gente mal formada, pouco instruída, gente que nos rouba, nos ameaça, gente que nos faz sentir inseguros, indefesos, pobres.

Cavaco Silva que, por muito menos, tudo fez para apear o anterior Governo, assiste seráfico a tudo isto. Vendo o País a desmoronar-se, vendo os apoiantes do PSD e do CDS a retirarem sonoramente o apoio ao Governo, vendo o contrato social à beira de ser rasgado, vendo o bem comportadinho Tozé finalmente a estrebuchar, vendo a Igreja a rebelar-se, vendo os permanentes desacatos levados a cabo pelo bando de desordeiros que mais parece ter tomado de assalto o Governo, deve estar sem saber que volta dar a isto mas esta sua perplexidade é bem capaz de se resumir a preparar palavras para dizer que já disse. O país também já desaderiu dele.




Estamos, pois, num daqueles momentos que são o limbo que precede as rupturas.

*

O que deve ser feito a seguir, quando o Estado vier a estar nas mãos de gente de bem?

Bem, receitas milagrosas não as haverá mas há, isso tem que haver, a vontade, a determinação de obter aquilo que se deseja.




E o que eu desejo é isto (e vou escrever à medida que me ocorrer, sem me preocupar em prioritizar):

Olhar o País numa perspectiva integrada, de longo prazo, e tendo por pressuposto basilar que tudo o que vier a ser feito o será em prol das pessoas, pugnando pela melhoria das condições de vida de todas as pessoas. 

Aproveitar fundos europeus que não estão a ser aproveitados e, em vez de gastar o dinheiro em subsídios de desemprego e encaixar perdas de IRS (porque os desempregados são, para um Estado, um custo em várias frentes), canalizá-lo para investimentos que gerem trabalho directo e indirecto. 

Relançar a economia, lançar um programa de revitalização reprodutível, lançar programas de economia verde, reabilitar edifícios públicos, pontes, prosseguir a reabilitação de escolas, de tribunais. 

Apostar em força na educação, na investigação, na formação profissional, lançar um programa de estímulo a quem regresse ao País.

Lançar um programa coerente de estímulos à natalidade.

Lançar programas integrados virados para o mar (pesca, biologia marítima, indústrias ligadas ao mar como, por exemplo, a conserveira, etc).

Lançar um programa de construção de creches, de lares, de espaços para tempos livres de novos e velhos.

Lançar um programa mas um programa a sério para o turismo.

Apostar fortemente na cultura e transformando-a na imagem de marca do País.

Ter como objectivo de base, relançar a industrialização do País, após análise das áreas em que pode haver vantagens competitivas. 

E, claro, acabar com toda a espécie de organismos que não fazem falta, reduzir o número de autarquias e de executivos camarários, reduzir o número de deputados (o que é um peanut mas é um exemplo e mal não faz já que metade dos deputados não anda lá a fazer nada), acabar com a pouca vergonha de, para tudo e para nada, contratar consultores e escritórios de advogados, acabar com mordomias abusivas.

E, como é evidente, reorganizar a justiça, trabalhando em conjunto com os seus agentes. É indispensável agilizar e dignificar a justiça. 

E voltar a restituir a dignidade profissional a profissões primordiais como a dos médicos e demais agentes de saúde, professores e demais agentes ligadas à aprendizagem e à aquisição de conhecimentos.




E podia continuar mas não vos maço mais. É nisto que acredito e é isto que funciona a bem das pessoas e da sociedade. E económica e financeiramente funciona, balanceia, e permite dirigir o País no sentido do futuro e o futuro é o destino de um País.


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As pinturas são todas de Francis Bacon (1909-1992), pintor inglês nascido na Irlanda, pintor da carne em decomposição, dos corpos que se desfazem, dos corpos putrefactos, infelizes, sem destino, pintor da corrosão, da degenerescência, do fim sem glória, do desolado e solitário fim dos tempos.

A escultura é de João Cutileiro, escultor de corpos com vida, com sensualidade, com amor, e é uma das suas mulheres, mulheres muito mulheres.

O nenúfar foi fotografado por mim este sábado e pretende mostrar que, até num charco, pode nascer uma flor pura, bela, colorida. A vida pode renascer, a esperança e o futuro devem fazer parte de nós.

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Se chegaram até aqui (eu confesso que já estou perdida de sono - e, portanto, incapaz de rever o texto; tomara que isto não tenha as vírgulas todas fora do sítio e letras trocadas), saibam que vos desejo um dia muito feliz, com muita energia e vontade de viver uma vida feliz.