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terça-feira, julho 06, 2021

Compasso de espera

 

De vez em quando esqueço-me da máscara e, ao lembrar-me, tenho vontade de dizer 'que se lixe' mas, felizmente, acordo para a realidade. Os meus filhos ainda não foram vacinados e os meus netos obviamente também não. 

A minha filha esteve cá com os meninos. Eles estão de férias e férias num apartamento não é coisa fácil, em especial quando a mãe está a trabalhar. Aqui estão à larga, podem brincar à vontade. Crescidos, divertidos, sempre com a resposta pronta.

Se estão a jogar à bola, estão sem máscara e, se eu estou ao telefone com alguém, também sem máscara, como gosto de cirandar na rua enquanto telefono, acontece-me quase me cruzar com eles. Ou, então, de vez em quando, calha pegar no computador e ir para a mesa em que a minha filha está... e estarmos ambas sem máscara. Felizmente, o meu marido -- que tem baixíssima confiança em mim e faz por me vigiar de perto -- aparece a perguntar: 'E a máscara? Já sabia...'. É certo que é ao ar livre mas nunca fiando. Ao que parece, a delta é do mais tinhoso que existe.

A máscara seca-me a boca e o nariz, às vezes quase parece que me falta o fôlego. Quando fazemos as nossas caminhadas, andamos por lugares onde praticamente não nos cruzamos com ninguém. Por isso, posso andar sem máscara. Caminhar de máscara é muito mau. Acho que me desmotivaria, se tivesse que fazer caminhadas com a boca seca, quase a arfar.

Li que Israel está a reconhecer a menor eficácia da Pfizer perante esta bicha indiana. Atenua a gravidade da doença mas não é lá muito famosa a prevenir a transmissão. Que dizer, então, da porcaria da vacina (como a minha mãe se lhe refere) que me espetaram no braço e que agora, afinal, parece que... está bem, está.

O mundo mudou completamente: há uns tempos, tempos até não muito longínquos, haveríamos de ter informação disponível para podermos optar. Agora isso é que era doce. Quando a seringa estava a milímetros da minha pele, soube, porque perguntei, qual era. A minha vontade foi dizer ao rapaz que fosse mas é dar banho ao cão. Mas naquela altura acho que nem se falava na delta nem se sabia tanto quanto hoje se sabe. E todos os dias se vai sabendo um pouco mais. Ou melhor, constatando que se sabe menos do que se pensava. 

Se eu tivesse a certeza que o que tive foi consequência da vacina, informaria o Infarmed e informar-vos-ia. Ou se tivesse a certeza que não foi, também diria: o que me espetaram no braço foi a vacina X mas está provado que o que me aconteceu não teve nada a ver.

Como não sei, não digo.

Ligou-me hoje um conhecido de longa data. Já teve, ao longo da sua vida,  uma bela dose de sustos de saúde. Disse-me que até não há muito tempo se achava saudável, invencível. Quando começou a perceber que os outros o olhavam como uma pessoa doente, percebeu que, se calhar, não era tão indestrutível quanto pensava. 

Dizia-me ele, no fim, a modos que para me consolar: Tirando o que lhe aconteceu que, ao que parece, poderia ter sido muito grave e que deve ter sido um susto dos valentes, nada do que me diz me parece especialmente grave. Se calhar é coisa... como dizer... coisa da idade...

Desatei-me a rir. Na volta...

Também me parecia que a idade passava ligeirinha sobre mim, sem me pesar. Quando era nova, achava graça quando ouvia as outras pessoas, mais velhas, gozarem com a PDI. A PDI era uma sigla que apenas se aplicava a quem estava bem longe de mim. E agora já cá estou, onde os outros estavam.

Enfim. Não tenho feito outra coisa senão andar para aqui nas lamúrias. Imagino a seca que é lerem este desfiar de coisas nenhumas. Mas a verdade é que, por muito que não queira, é um tema agora tão presente na minha vida que me é difícil ignorá-lo.

Mil vezes preferia falar de flores, das ameixas que vão caindo ainda verdes e que, quando estiverem maduras, devem estar comidas pelos pássaros.

Ontem vi um pêssego meio roído no chão: parecia que tinha sido roído por um ser humano. Mas capaz de ter sido um coelho... ou a raposa.

Ainda não foi hoje que vimos a Netflix. O meu marido tem andado cheio de dores no corpo. Não sabe o que é. Acorda de madrugada sem posição. Hoje lembrou-se: será que é da vacina? Tomou a segunda dose a semana passada.

Como dorme mal e pouco, mal se deita aqui no sofá, adormece. Depois lá vai, meio derreado, para a cama.

Olhamos um para o outro a rir e dizemos: estamos acabados. E, agora que estou a escrever isto, também estou a rir-me: estávamos bem e, de repente, virámos dois jarretas, com maleitas inexplicáveis, derreados... acabados... 

E pronto, não digo mais nada. E devia era prometer que aqui não voltava enquanto não tivesse alguma coisa de jeito a dizer. Mas, como não sou boa de promessas, mais vale ficar calada.

E, meanwhile, enquanto este enervante compasso de espera -- em que um merdinhas de nada fez o mundo baquear e andar aos pinotes, em marcha atrás -- não passar, vou-me entretendo por aqui. Por exemplo, vou pondo uma musiquinha à maneira e imaginar que um dia poderei organizar aqui no jardim uma cena assim, tudo a cantar e a dançar, sem máscaras, sem doenças, sem dores, sem preocupações. 

O que eu tenho vontade disso, caraças.

Hauser - Waka Waka

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As pinturas são, respectivamente: Cymon and Iphigenia - Frederic Leighton, Ida Rubenstein -Valentin Serov, Portrait of Jeanne Hébuterne - Amedeo Modigliani, No. 22 - Special - Georgia O'Keeffe, Unknown title - Amadeo de Souza Cardosoc. 

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Desejo-vos um dia feliz
E, se não puder ser tão feliz assim, respirem fundo, olhem pela janela, fechem os olhos, imaginem os dias melhores que estão por vir.

quinta-feira, outubro 24, 2019

O meu avô. A vida simples.
[E Li Ziqi que mostra como se comem as castanhas chinesas, como se fazem candeeiros e cestos, etc.]





O meu avô, que viveu uma vida longa, teve uma infância difícil. Contudo, isto sou eu a dizer porque a ele nunca ouvi um queixume nem o meu pai ou a minha avó alguma vez o referiram. Já o contei. De família abastada, o meu bisavô cedo se perdeu em mulheres e jogo, perdendo casas, terras, animais e, quando nada mais restava que a casa onde vivia com a mulher e três filhos pequenos, creio que para escapar a dívidas e vexames, fugiu para longe e, esqueci-me e ainda não me lembrei de perguntar á minha mãe, foi para a Argentina ou para a Venezuela. Não faço ideia o que aconteceu a seguir. Só sei que, ainda adolescente, o meu avô se fez à estrada e começou a trabalhar onde calhava. Presumo que se deslocasse a pé. Ou, então, de bicicleta. Andou de bicicleta até aos oitenta e muitos anos. O meu pai e o meu tio tinham medo, diziam que ele já não ouvia bem, que já não tinha idade para andar de bicicleta. Ele fingia que não ouvia, e continuava a fazer o que queria. Lembro-me dele com a cana de pesca em diagonal nas costas e a cesta para o peixe presa atrás.


Trabalhou em França e eu gostava imenso de o ouvir a falar em francês. Depois, não sei como, foi parar onde se fixou. Ali trabalhou até se reformar, vivendo perto. A casa tinha um terreno ao lado, onde tinha árvores de fruto e uma horta. Depois o terreno subia em socalcos onde ele, em pequenos talhões, plantava alhos, cebolas, favas, batatas. O terreno ia até lá muito acima. Acedia-se aos níveis superiores por caminhos, degraus, caminhos, degraus. Cá em baixo, tinha ainda uma capoeira grande; mas isso era pelouro da minha avó.

Lembro-me do meu avô sempre ocupado. Sempre que possível, ia à pesca e vinha carregado de peixes que eu pedia sempre para arranjar, as mãos mergulhadas nas vísceras, os dedos nas guelras puxando as tripas que vinham agarradas, ensanguentadas. E a minha avó sempre com medo que tivesse ficado um anzol na goela e eu ficasse presa. 


Ou, então, tratava da horta ou apanhava fruta. E a minha avó sempre a zangar-se por ele não limpar bem os pés no tapete que havia à porta da cozinha e levar terra agarrada aos sapatos. E ele a fingir que não ouvia. Mas nas mãos dele tudo passava por cuidados que me maravilhavam. Ele apanhava as cebolas e os alhos com a rama e entrançava-as, fazendo réstias que pendurava naquilo a que chamávamos 'a casinha'. Também o tomate. Havia tomate maduro todo o ano pois não se estragavam. A casinha tinha pouca luz. Talvez fosse por isso. Não sei. Quando alguma galinha ficava choca, era também nessa casinha, não tão pequena quanto isso, que se deitava a galinha, numa cama que lhe faziam, onde estavam os ovos. Por isso, era aí que nasciam os pintainhos. 

No quintal, havia ainda a casinha das ferramentas e a bancada onde estava um torno. Contudo, penso que o que ele aí fazia tinha sempre a ver ou com fazer um portão de madeira, ou uma escada para ir à fruta, ou um banco de madeira para a capoeira. Coisas assim, simples.


E tinha uma arte. E essa arte fascinava-me. Dos seus tempos de criança tinha-lhe ficado a lembrança da cestaria. Devia evocar a lembrança das pessoas da terra e, aos poucos, foi tentando reproduzir os movimentos e cada vez fazia melhor. Creio que ele falava em palma. Creio. Eram folhas estreitas e finas que ele abria ou dobrava. Tenho ideia que umas vezes fazia com as folhas secas e outras com elas ainda frescas. Fazia cestos para guardar os ovos, cestos para a fruta. Não eram muito perfeitas e, portanto, não se usavam como objecto decorativo. Mas eu gostava tanto. Gostava em especial quando ele os fazia com asas de lado ou uma única, ao alto, grande, a meio. Tenho ideia que uma vez pensei que queria ficar com uma recordação e quis uma dessas cestinhas. Mas com as mudanças de casa, com o tempo a passar, às tantas, perdi o rasto a uma que tinha. Não sei como foi possível. Ficou apenas a terna recordação.


Eu olhava para aquele avô com um grande fascínio. Como viveu até tarde, lembro-me especialmente dele quando reformado. Depois de almoço, sentava-se no cadeirão de madeira que agora tenho lá em casa, in heaven, ligava a televisão ou o rádio, pegava num jornal ou num livro, lia, e, por vezes, dormitava. Tirando isso, andava sempre ocupado. Nunca se zangava, nunca protestava. Por ele estava sempre tudo bem. A minha avó queixava-se do reumático ou das artroses, queixava-se dos filhos, queixava-se da outra nora que a afastava do filho, queixava-se de uma ou outra vizinha, queixava-se de ele trazer muito peixe e de ela já não ter paciência para o arranjar, queixava-se de ele ser pouco cuidadoso com o quintal, com o jardim e com as flores. Ele fazia de conta que não ouvia e, à socapa, sorria para mim. 


Sempre tive uma grande cumplicidade com ele. Quando deixei um namorado, ela preocupou-se e, quando apareci logo com outro, preocupou-se ainda mais. E quando aos vinte lhe disse que ia casar ainda mais preocupada ela ficou. Ele não. Ele não dizia nada, apenas sorria, deixava-a fazer os dramas. Não era bem dramas, era mais como se fosse uma agonia que ela tentasse disfarçar sem o conseguir. Nesse dia em que, em casa dos meus pais, eu lhes disse que dentro de um mês ia estar casada e que ela ficou arrasada ele ficou como se nada se passasse. Apenas veio ao pé de nós, de mim e do meu namorado, e disse: ela casou-se aos dezoito e ao fim de pouco tempo, já o teu pai tinha nascido e, pouco depois, o teu tio. Eu tinha vinte e cinco mas ela tinha dezoito. Por isso, aos vinte parece-me uma boa idade. 

Isto do lado desse meu avô.
Esqueci-me de referir um aspecto que talvez explique muitas coisas. Ele tinha umas feições levemente orientais que o filho mais novo herdou e de que uma das minhas primas ainda é portadora. Penso que talvez por isso tivesse aquela paciência de chinês.
Do lado da minha avó do lado da minha mãe era também sempre uma actividade mas aí uma coisa mais restrita: era renda. Fazia rendas lindas. Colchas, toalhas de mesa, rendas para lençóis, entremeios de mesa. Nunca estava sem nada que fazer e era altamente produtiva. Tenho várias coisas feitas por ela. 'Tirava' por amostras, 'tirava' por revistas, 'tirava' por onde calhasse. Eu adorava ver a destreza daquelas mãos.


Talvez por isso, quer a minha mãe, quer o meu pai sempre foram muito activos, sempre ocupados, muito habilidosos. Com o que calhasse. Contudo, lembro-me especialmente dessa actividade e criatividade depois de reformados pois antes a vida profissional ocupava-os bastante. 

E, talvez também por isso, eu seja como sou, incapaz de estar sem nada que fazer. Contudo, vejo-me limitada. Limitada, desde logo, em tempo. E, talvez tão importante como a falta de tempo, é o sentir-me limitada pelo preconceito de recear não saber fazer. O receio contraria a confiança e para se fazer o que se quer é preciso ser-se afoito. E para se ser afoito é precisa ignorância. Ora, se a gente se põe a pensar muito, estraga a ignorância, perde a afoiteza e lá se vão os sonhos.

Mas, senhores, que vontade sempre tenho de fazer coisas. Pintar, fazer tapetes, fotografar (como estas fotografias que fiz no outro dia in heaven), cozinhar, varrer, escrever. E outras coisas. Tantas outras coisas.


. . .   &   . . .

Já aqui mostrei muitas vezes aqueles vídeos que, para mim, são uma fonte de tranquilidade. Os movimentos serenos da jovem Li Ziqi, os seus passeios pelos bosques, a forma harmoniosa como se move, os gestos ancestrais no manuseio de frutos, de flores, o fogo, os preparados que faz, a comida que confecciona, as peças que talha. Tudo me faz ficar presa a olhar. Mesmo que não perceba o que faz, mesmo que não saiba que produtos usa. Mesmo assim eu fico a olhar. Penso que era uma vida assim que eu gostava de ter. Uma vida simples, sem tempo, sem pressa, sem ruído, embalada pelo canto dos pássaros. 

Fazer coisas bonitas para a casa.

(E foi por vê-la a fazer cestas que me lembrei tanto do meu avô)



Os frutos secos do Outono



Mas quem é Li Ziqui que tem milhões de seguidores?


Desejo-vos uma quinta-feira tranquila e boa

sábado, agosto 18, 2018

Passear à beira-rio, jantar em Cantão.
[E um amor inexplicável]




E, assim sendo, hoje o fim da tarde e a noite foram passadas no bem bom passeio à beira rio, o sol já posto, a temperatura afável, muita gente flanando. Em momentos assim, o tempo parece suspender-se, o vagar parece abraçar as árvores, as silhuetas, os corpos. O entardecer no verão de Lisboa é coisa boa e bonita de se viver. 

Podem os dias ser árduos, tormentosos, complexos que, dêem-me um cair de noite assim, todos os meus problemas se evaporam como que por artes mágicas. Quem me visse e ouvisse, de mim diria que tenho uma vida fácil, isenta de preocupações, que os meus dias são brincadeira de criança. E, se calhar, são mesmo.


Como nós, muitos outros passeiam, conversam, riem. Outros fazem poses, casais fazem românticas selfies. Alguns sentam-se a olhar o rio e a linha do horizonte, outros abraçam-se ou beijam-se, isolados do resto do mundo -- como se para ali, para aquela amena ponta do mundo, tivesse convergido toda a paz do mundo.

Até ali fui encontrar uma conhecida directora-geral que volta e meio vejo na televisão, sempre muito assertiva, e que hoje, por ali, andava perdida, meio pardalita, com um aspecto frágil e solitário. Disse: até me apetece ir dizer-lhe uma palavrinha de conforto. O meu marido disse: havia de ter graça que a fosses chatear. A mulher deve estar à espera de alguém. Não me pareceu. Inclino-me para que lhe tivesse apetecido respirar ar puro em ambiente de liberdade.


Resolvemos ir ao dim sum, gracinhas gastronómicas de que tanto gostamos. Costuma estar folgado, silencioso mesmo quando tudo à volta fervilha. Mas, mal entrámos, percebemos que hoje, ali, o filme era outro. Gente, gente, gente. Salvo a nossa mesa e uma outra com africamos, tudo asiático. Todo aquele amplo salão estava repleto de asiáticos. Não sei se japoneses, chineses ou what. Mesmo as duas salas privadas estavam cheias. Felizmente, lá nos arranjaram uma mesa. Não tinha vista de rio como aquelas onde costumamos sentar-nos mas, em tempos de escassez, não se pode ser esquisito... e conseguir jantar sem reserva nesta noite lisboeta é milagre.


A grande maioria eram mesas redondas. Repletas. E eram só travessas de santola, lagosta e lavagante. Tantas travessonas. Um empregado não fazia outra coisa senão ir ao aquário pescar grandes crustáceos. E as empregadas, sem parar, iam levando marisco de grande porte, enquanto os empregados iam levando Cartuxa que, segundo alguém comentou na nossa mesa, custam 20 euros cada. E vá de levar garrafas. A espaços, a malta de uma mesa levantava-se, todos riam, faziam um brinde e zás: copo abaixo. De penálti. 


E logo outra mesa, como que ao despique, se levantava, e outro brinde. E venham mais cartuxas.

Penso que é escusado dizer que, para o fim, parecia que tínhamos desembarcado em plena Cantão. Conversas muito alto, risos, uma alegria, uma animação, tudo bem regado, homens, mulheres, rapazes, raparigas, tudo num chilreio, numa galhofa. Enquanto nós comíamos, na calminha, os nossos crepes de arroz com carne e mel, a nossa sopinha wantan, os nossos bolinhos também de carne e mel com molho de soja, os nossos raviolis de legumes grelhados, os nossos crepes viatnamitas e outros petisquinhos daborosos, nas outras mesas rolava o tinto, devoravam-se suculentas lagostas e ria-se aberta e ruidosamente.


Observei-os a todos de gosto. Cantão em Lisboa. O ambiente dos bazares, dos restaurantes de rua, aquela boa disposição que parece congénita, inocente, famílias inteiras na maior festança, amigos divertidos. O meu marido contrapôs: tudo já com os copos. Mas o meu marido, apesar de saber dizer de cor e até com uma certa graça, poemas e poemas, desde Camões até aos poetas mais improváveis do romantismo, é um pé em termos de poesia, tão pragmático que até chateia. Portanto, na mesa ninguém lhe deu ouvidos.

Não sei de onde veio toda aquela gente. Verdade seja dita: é a primeira vez que ali vamos jantar. Almoçar, sim, muitas vezes. Mas jantar não. Na volta aquilo é malta daqueles belos hotéis que se aloja ali na zona para arejar a nota no casino e que, à noite, antes de se deslocar até às machines e à roleta, vai fervilhar de animação enquanto se enche de marisco e tintol. Conhecido meu que é dado ao jogo (coisa que a mim me assusta) diz-me que, por ali, aquilo até ferve de chineses endinheirados. Mas não sei. Podem ser simples excursionistas.


O que sei é que, por ali, pela beira-rio, tudo é bonito, tranquilo. Árvores floridas, a calma das águas, o perfume do ar, a suavidade de quem passa. E eu, como sempre me acontece, senti-me de férias, bem comigo e com os outros, confiante, feliz da vida. Problemas...? Quais problemas...? Desconheço. (É tão bom ser uma incorrigível simplória).

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E, não me perguntem porquê, apetece-me agora ouvir um dos poemas de que mais gosto. Mas é um gostar tão inexplicável que me sinto até um pouco constrangida por estar a colocá-lo aqui para aí pela terceira vez apesar de não encontrar explicação para gostar tanto dele. Mas gosto. E quando se gosta de uma coisa ou de uma pessoa de uma forma assim tão orgânica e irracional, não devemos tentar contrariar ou justificar: simplesmente aceitar e desfrutar o prazer de gostar.
(...)
left with no trace
as if not spoken to in the act of love 
as if wounded without the pleasure of a scar.

You touched 
your belly to my hands 
in the dry air and said 
I am the cinnamon 
peeler's wife. Smell me.



The Cinnamon Peeler
de Michael Ondaatje (lido por Tom O'Bedlam)

sexta-feira, agosto 12, 2016

O que é arte? O que é pornografia?
- ou o absurdo moralismo americano
[Medo.... Juro. Tenho medo dos moralistas, dos puritanos. Medo.]


Às vezes até me custa a acreditar no que ouço. Dá para conceber que as grandes estações de televisão americanas exerçam censura sobre a exibição de obras de arte? O puritanismo é tão radical e tão estapafúrdio que não lhes basta impedirem a visão de seios ao vivo (e de genitais nem vale a pena falar): não, até tapam ou desfocam partes de obras de arte. Mas não me refiro a obras ultra-realistas. Não. Refiro-me a Picasso ou a Modigliani. Imagine-se onde isto já chegou.

E parece que já ninguém se indigna.

Pode uma das maiores potências mundiais, senão a maior, portar-se como um bando de beatas assanhadas?

Assusta-me isto, palavra que assusta. Quem tem tal espírito censor, é capaz de quê?

Podem os putos ir armados para as universidades, podem passar a toda a hora séries e filmes com assassínios, torturas, perseguições, sangue a jorrar por todos os poros. Isso para aqueles dementes parece ser normal. Mas a visão do corpo humano é interdita. É pecado. Provavelmente acham que ver os seios de uma mulher numa pintura provoca comportamentos desviantes. Mas se fosse uma virgem vestida até ao pescoço e de pistola na mão se calhar já era aceitável.

Que civilização é esta, caraças?

No vídeo abaixo, Stephen Colbert parodia a situação. E ao parodiar, denuncia-a. Vá lá. Menos mal: pelo menos, isso ainda é permitido.

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Ao menos por cá ainda nos é permitido admirar a arte integral, sem desfocamentos ou tapamentos. Pode gostar-se ou não -- estamos no domínio do subjectivo --, podemos até achar que não é arte. Mas, pelo menos, ainda podemos ver.

Ora bem. Antes que a lei da cega cesura chegue à blogosfera, deixa-me já aqui deixar algumas obras. 

Do fotógrafo Robert Mapplethorpe, cujo arte tanto admiro:






O sonho de Picasso, uma das minhas obras de eleição:


A obra censurada de Modigliani (a tal mulher nua de que Colbert fala, arrematada num leilão por 170 milhões de dólares):


Ou, se recuarmos a 1751, a François Boucher:


Ou ainda mais, a 1555, à Venus e ao Cupido de Ticiano:


Para se poder ver num canal por cabo nos EUA, tudo isto seria lancetado? 

Bem, talvez escapassem as flores. aquelas lá de cima de Mapplethorpe. 

Porque as de Georgia O'Keeffe já seriam, concerteza, amputadas ou desfiguradas.


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O mundo parece que está a andar para trás. 

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Pelo sim, pelo não, não vá estar mesmo e daqui a nada desatar a acelerar a caminho do vórtice final, vamos mas é fazer um brinde: À nossa! Saúde! E viva a Arte!

Se estiverem de acordo, brindemos com vinho italiano da região de Friuli.


Um filme de Iris Brosch.

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E que é feito do vinho...?
As meninas, com tanto folguedo, esqueceram-se de nos trazer o vinho, não foi...?
Ora bolas.

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domingo, fevereiro 17, 2013

50 obras de arte que toda a gente deve ver, segundo o Expresso - e algumas das muitas que, em meu entender, ficaram de fora (... e mais mil ficariam sempre)


O caderno Actual do Expresso dá destaque este sábado às 50 obras de arte que toda a gente deve ver. Opinam Celso Martins, Jorge Calado e José Luís Porfírio.

Muito subjectiva é a empreitada e é de louvar quem com ela não se intimida. Se eu tentar eleger as de que mais gostei até hoje fico bloqueada, nem tento. Sei que cometeria muitas injustiças. A minha memória é traiçoeira.

Vejo a que eles escolheram e revejo-me em algumas mas sinto que há qualquer coisa de redutor numa selecção deste tipo. Nem sei se faz sentido fazer estas selecções. Séculos de arte, e tantas disciplinas que a arte tem, como é possível esquecer tanta beleza, tanta inquietação ou harmonia e seleccionar apenas cinquenta obras?

Por exemplo,

  • onde as mãos, a catedral, a pureza, a simplicidade, a perfeição e o silêncio de Rodin?





  • onde a pulsão do sangue e os abismos do carne, o descaramento do desejo e a tragédia de Caravaggio?




  • onde a ingenuidade das cores, o calor ou a noite, o deslumbramento de Van Gogh, a sua peculiar visão?





  • onde o génio sem limites, a desmesura, a imaginação de outro mundo de Gaudi?





  • onde o abandono dos corpos, a beleza rente ao coração, a quietude de Jeanne vista por Modigliani?





  • onde o carinho da lua, as flores para a bem amada, os pássaros imprevistos, a ternura encantatória de Chagall?





  • onde a truculência, a ironia, a irreverência, a provocação de Magritte?





  • onde a pureza das linhas, a violência da dor, a beleza pura (ou impura) de Mapplethorpe?






  • onde inocência, a perversão, a alegria, a denúncia, a inteireza de Paula Rego?





  •  .....


E mil, muitas mil obras mais estarão sempre de fora porque infinita é a beleza e a forma como se manifesta.

*

Desejo-vos meus Caros Leitores, um domingo muito bom.

domingo, novembro 11, 2012

Numa noite de chuva, junto a uma salamandra quente, na companhia das mulheres de Schiele e Picasso, in heaven (infelizmente, Jeanne está lá fora, despida, ao frio)





Estou in heaven. A internet hoje está impossível, vagarosa, a pedal, e cai, cai, cai. Vamos ver se tenho a paciência necessária para me aguentar aqui sem desistir. 

Chove, chove muito. Numa casa térrea ouve-se mais a água, ouço-a no telhado, ouço-a a cair dos beirais, imagino-a a escorrer das folhas das árvores. Acabei de ir espevitar o fogo e de pôr mais um tronco na salamandra que aquece esta sala. São boas as noites assim. Um chá quente, o calor orgânico do fogo, a chuva que cai, o som familiar da televisão, almofadas confortáveis.

O dia já vai longo, passa das duas da manhã.

Hoje o dia começou cedo, com um passeio pela beira do rio. Como sempre quando a noite é de mau tempo, as águas levam árvores, arbustos, ramos. 




Gosto de fotografar as águas assim, agora mansas mas carregadas de despojos, raízes à vista, folhas verdes, cheias de vida, mas, de facto, arrancadas à vida. 

Hoje havia mais gatos do que é costume. Muitos. Reproduzem-se muito estes animais livres que vivem aqui na beira do rio, no meio de casas em ruínas, no meio das rochas junto à margem, que entram e saem dos buracos junto aos muros, procurando restos de peixe que os pescadores por ali deixem.




Fotografo-os também, seres misteriosos que me olham sem suspeição, que deixam que me aproxime, que vigie os seus movimentos, seres superiores que não temem as mulheres que deslizam em silêncio fotografando a sua intimidade. Admiro e invejo a sua liberdade.




Aproximo-me, olhos nos olhos e, com desarmante cumplicidade, deixam-se olhar, olham-me também, olham-me com compaixão, sabem que eu queria ser um deles. Gata da beira do rio. Ou gaivota.

Depois, saciada, voltei para cá, para a casa onde a chuva é uma música líquida e suave, envolvente.

A vinha virgem despede-se da folhagem ardente; em breve não restarão senão pequenas garras agarrando a parede.




E as laranjeiras têm cachos de laranjas lustrosas, lavadas pela chuva. Em breve estarão boas, sumarentas e doces.




Mas já há medronhos maduros, uma polpa macia e doca, por fora vermelhos, por dentro cor de carne. Disputo-os aos pássaros. Doces, doces. Coexistem os maduros, os que estão a caminho disso, as pequenas flores que parecem minúsculos balõezinhos brancos. E intercalam-se os ramos do medronheiro com os do cedro, este carregado de bagas.




E, de repente, do chão que parece fértil, atapetado e húmido, nascem cogumelos, muitos, carnudos, com as belas cores deste outono chuvoso. Gostava de saber se são comestíveis mas não sei, não me arrisco. Mas dá vontade mexer-lhes, são pequenos animais carnudos, de aspecto macio. Há-os por todo o lado. À volta dos pinheiros, a caruma e as ervas e as folhas secas envolvem estes belos seres mágicos e eu tenho vontade de inventar histórias que metam bosques aconchegados que abriguem duendes, grutas profundas onde vivam seres que se alimentam de cogumelos dourados.




E, depois, quando olhei para o céu, tive a prova de que o mundo é perfeito, imaginado, belo demais para ser real.




As árvores estavam douradas, o céu escuro abria-se para deixar passar uma luz dourada. E um arco colorido, com as cores da infância, desenhava-se, perfeito, perfeito, belo, muito belo, desenhava-se  sobre mim. Uma imagem efémera, irreal. Se eu pudesse tocá-la com as minhas mãos, sentir que é de verdade... mas não, não posso. Talvez tenha sido apenas uma visão, um sonho. Uma aparição.

A seguir o céu voltou a fechar-se, escureceu, e a chuva voltou a cair, muita chuva.

Abriguei-me, então, junto a Jeanne Hébuterne que, também desabrigada, junto à mesa coberta de folhas murchas e restos de figos apodrecidos, sob a figueira agora de ramos nus, sente o frio e o abandono deste outono frio e chuvoso, saudosa do seu tão dramaticamente amado Amedeo.




Voltei então para casa. Aqui mais duas mulheres me aguardavam. Agora eram as mulheres de Egon Schiele e Pablo Picasso.

São mulheres belas, serenas. A beleza tem estrutura própria. Invade e penetra como uma boa música. E ocupa o momento de forma tão inesperada que você respeita. Emana uma alegria só de ver, é uma força de vida. Um ser muito belo não pode estar trabalhado nem muito preparado. Tem de ser uma surpresa.




E por aqui me fiquei. Aqui estou, pois, a salamandra quente, as chamas aquecendo o ambiente, a chuva tombando com força, companhia fraterna. Aqui estou convosco, trazendo-vos para dentro da minha casa, oferecendo-vos as minhas palavras como quem oferece um chá quente. Aqui estou, ouvindo a chuva, escrevendo-vos como se vos estendesse a minha mão.


*

A música é o Prelúdio de Chopin conhecido por Raindrops.

As palavras em itálico fazem parte da interessante entrevista de Ivo Pitanguy concedida a Ana Soromenho e Bernardo Mendonça, publicada na Revista do Expresso este sábado.

*

Desejo-vos, meus Caros Leitores, um bom domingo. 

domingo, setembro 02, 2012

Eu, a minha frágil condição humana, as casas em que eu vivo e os grandes anjos que sinto em volta dos meus passos - a propósito da entrevista a Paul Auster no Expresso deste sabado



Para nos acompanhar, uma valsa especial, por favor


Mário Laginha sobre Chopin, Valsa nº 2 Op. 34
Interpretação do próprio Mário Laginha, Bernardo Moreira e Alexandre Frazão.
 Fotografias de Zeev Parush

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Eu não penso que seja uma pessoa interessante ou que tenha tido uma vida notável. Quando penso em mim, penso no que significa ser humano, e não na minha história. Penso em como é viver dentro de uma mente, de um corpo, as coisas que acontecem a uma pessoa no decorrer da sua vida, as mudanças de sorte, os altos e baixos, o sofrimento físico e mental, o prazer físico e mental. Tudo está profundamente integrado.

As neurociências e a psiquiatria concluíram que a memória e a imaginação têm funções praticamente idênticas no cérebro. Há uma sobreposição. De facto, recordar é uma forma de imaginar. É um exercício confuso, inexacto, cheio de sombras.

O enquadramento é extremamente importante. E os espaços, todo o tipo de espaços, interessam-me muito. Em especial os domésticos, a forma como nos ajustamos a eles, como vivemos num pequeno quarto ou numa grande casa. A vida em cada um é necessariamente diferente.


Estes excertos fazem parte da interessante entrevista que Luciana Leiderfarb fez a Paul Auster e publicada no Actual do Expresso, na sequência da publicação do livro autobiográfico Diário de Inverno.

Transcrevo-os porque se referem a temas que me interessam.

Sobre esta questão da identidade (que, na verdade, nós próprios desconhecemos), do que a condiciona, do que a influencia muito tenho, ultimamente, reflectido. Bem, reflectido não será bem o termo porque não sou especialmente dada a grandes reflexões. Mas é um assunto que aflora ao meu pensamento.

Quando há quase dois meses fui internada para me submeter a uma intervenção cirúrgica, ao ser levada na cama do hospital, corredor fora, despojada da minha condição habitual de cidadã pedestre, amiga de dar caminhadas junto à água, e subitamente transformada numa indefesa paciente, percebi como é tão frágil a nossa condição, tão indecentemente frágil.

Felizmente o mal que me afectava, apesar de ultimamente me vir provocando incapacidade a nível da mobilidade, não era grave, embora fosse suficientemente incomodativo para levar à decisão da intervenção. E o que eu julgava ser resultante de uma queda dada muitos anos atrás veio, afinal, a revelar ter uma outra causa, causa essa ainda por desvendar e que tem vindo a ser objecto de análise. Tudo se passa dentro do meu corpo, de forma silenciosa, e eu não o controlo nem sequer conheço. Ou seja, há uma parte de mim, que me condiciona, que actua com vontade própria, sem lealdade, e sem capacidade de comunicação comigo própria. Se quero saber que realidade é a que existem dentro de mim, tenho que fazer com que outros, mais conhecedores do que eu, me vejam através de máquinas ou analisem o meu sangue ou o que entendam por bem analisar. Eu, que sou eu, desconheço-me.

Nesse dia, ali na antecâmara do bloco operatório, o médico que me ia aplicar a anestesia perguntou-me se eu estava tranquila e eu disse-lhe que me fazia impressão ir levar uma injecção na coluna. Então, ele sorriu, disse que não ia custar nada mas que me ia dar uma coisinha para eu ficar zen. Acto contínuo adormeci. Quando acordei estava já na sala de recobro, com o cirurgião assistente ao meu lado. Relatava aquilo que, segundo ele o cirurgião já me tinha explicado (e de que eu não tinha qualquer ideia), o que tinham feito, o que tinham visto, e fartou-se de rir por eu ter dormido tanto (supostamente aquela anestesia tira a sensibilidade mas não a consciência). Entretanto, eu não sentia as pernas e assim ainda fiquei por um bom bocado mais. A enfermeira dizia para eu mexer as pernas ou os pés mas eu nem fazia ideia onde eles estavam. 

Durante as duas horas que durou a intervenção os médicos espreitaram para dentro do meu corpo, cortaram, repararam, fizeram o que quiseram e eu não dei por nada. Eu, que sou tão voluntariosa, ali estive, inerte, absolutamente passiva e com o meu corpo à disposição do que quisessem fazer dele (e falo do meu corpo como se o meu corpo não fosse eu, como se houvesse um outro 'eu' acima do meu corpo; e, na verdade, com uma injecção ou umas gotas, nem sei, esse meu 'eu', isto é, a minha vontade, foi tão facilmente anulada).

E depois, aos poucos, recomecei a sentir as pernas mas tudo era estranho. De repente, eu tinha voltado a mim mas na condição de acamada, dependente, a soro. As enfermeiras apareciam e viam a temperatura, davam-me comprimidos, uma infecção na barriga, viam os drenos, depois veio o médico e eu ali, deitada, submissa, muito longe do que era antes (do que era ou do que julgava ser). No dia seguinte, de manhã, as enfermeiras, eficientes, apareceram para me lavar. Fiquei muito admirada, não estava nada à espera daquilo, mas elas disseram que eu não me podia levantar sem o médico autorizar e, num ápice, viravam-me, passavam-me com uma esponja, limpavam-me, viravam-me. Reconheci-me, então, eu própria, como um objecto desconhecido, um objecto que gente desconhecida podia facilmente manusear.

Umas horas depois o cirugião apareceu de novo e, com a ajuda das enfermeiras, levantaram-me e mandaram-me andar. E, quase incompreensivelmente, o meu corpo, ainda que a medo, deu uns passos. E passadas umas horas fui para casa, pé ante pé, muito devagar, totalmente apoiada, mas fui.

Por isso, achei interessante a expressão de Paul Auster sobre viver dentro de uma mente ou de um corpo.

E por isso e por tudo o mais, vou seguindo a minha vida, agradecida, abençoando o dom de estar viva e de poder ir pensando nestas e noutras coisas, assistindo ao milagre da renovação da vida, testemunhando a maravilha que é a natureza apesar de todas as incógnitas e mistérios.

Poderia dizer que vou seguindo o meu caminho das pedras.



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Passo, assim, para a outra afirmação de Paul Auster ao referir a influência do espaço que habitamos na nossa própria vida.

Por estas alturas, in heaven, o terreno que piso é assim, pedras, pedras e mais pedras, terra seca, vegetação natural muito seca. 

Para tentar ter sombras e as árvores que tanto amo, inventei canteiros altos para lhes poder meter dentro muita terra. E inventei canteiros que são bancos e mesas e que cobri com imagens de outras mulheres e onde mandei escrever poemas de que gosto.



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Quando agora me sento aqui já tenho sombra. Junto à figueira, e sob a sombra dos grandes cedros que crescem no canteiro, senta-se comigo Jeanne Hébuterne tal como Modigliani a pintou, senta-se Sophia, senta-se Herberto Hélder, senta-se Eugénio de Andrade. 

As coisas não têm que ser apenas o que são, não temos que encarar com fatalismo as circunstâncias que nos envolvem; nós podemos moldar, ou, pelo menos, tentar moldar as circunstâncias.

Este calor antecipa o Outono e as folhas caem, secas, os figos caem, deixando no ar um aroma doce, orgânico.

Mas o espaço que habito não é apenas aquele que os meus pés pisam. O meu espaço é também aquele que a minha vista alcança. E, quando olho ao longe, para lá da minha casa, vejo a grande serra, maternal, azulada.



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E eu sou o meu corpo mas sou também o que os meus olhos vêem, o que a minha mente pensa, o que o meu coração sente e sou o que foi feito assim mas também o que eu e o espaço e os outros me fazem. 

E, é verdade, eu acho que não seria eu tal como sou sem os espaços que habito, sem a largueza que a minha vista alcança, mas esta largueza fui eu que a procurei, e procuro todos os dias ao olhá-la pois podia estar lá e eu não olhar para ela e, então, seria como se não existisse.



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Mandei serigrafar este poema de Sophia nuns azulejos que cobrem um pequeno recanto de onde se avista a serra serena. Estas palavras vivem dentro de mim, tal como os anjos que me acompanham, tal como um desconhecido deus que talvez se compadeça de mim e da minha frágil condição, tal como os ventos que fazem rodopiar as folhas que caem para que outras nasçam, tal como os imensos espaços que habito e que são cheios de céu e de lonjura.

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E tenham, meus Caros Leitores, um belo domingo neste quente início de Setembro.