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quinta-feira, setembro 25, 2014

John Malkovich, my man, my crazy, crazy man [Malkovich, Malkovich, Malkovich: Homage to photographic masters, por Sandro Miller - ao som de 'I'm your man' de Leonard Cohen]


No post abaixo fiz o contraponto entre o Passos Coelho de agora (moralista, justiceiro, castigador) e o Passos Coelho (que me abstenho de classificar para não poluir o ambiente deste post aqui) do tempo da ONG criada para arranjar negócio para a Tecnoforma. O tema das histórias é o mesmo, agora e nessa altura: aproveitar fundos europeus. 

Quando se tem uma cara de pau e a sorte de ter uma voz bem colocada e convincente, pode num dia dizer-se uma coisa e noutro fazer o contrário - e a coisa vai passando sem grande estrilho. 

Mas, quando se pára para pensar, não dá como não constatar que, com tantas as piruetas éticas, é caso para dizermos: bem prega frei Tomás, faz o que ele diz, não faças o que ele faz. Muita lábia, muito descaramento. Uma coisa que se torna insuportável, especialmente quando se colocam histórias de antes ao pé de histórias de agora. Ou quando se vêem vídeos antológicos.


Mas isso é a seguir. Aqui, agora, a conversa é outra. Completamente outra.


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Cante, Mr. Cohen, cante, por favor e diga-me: I'm your man

(... enquanto eu penso em John Malkovich)






Sandro Miller, Diane Arbus / Identical Twins, Roselle, New Jersey (1967), 2014



Se quiseres um par de gémeas,
eu farei tudo o que me pedires
E se tu quiseres outro tipo de amor,
usarei uma máscara ou uma boina para ti


Sandro Miller, Alberto Korda / Che Guevara (1960), 2014



Se quiseres um camarada, toma a minha mão
Ou, se me quiseres agredir com fúria,
aqui me tens.
Eu sou o teu homem


Sandro Miller, Yousuf Karsh / Ernest Hemingway (1957), 2014



Se quiseres um boxer
eu irei para o ringue para te fazer a vontade
E, se quiseres um médico,
eu examinarei cada bocadinho teu


Sandro Miller, Annie Leibovitz / John Lennon and Yoko Ono (1980), 2014



Se quiseres um chauffeur, entra
Ou, se quiseres levar-me a passear,
sabes que podes.
Eu sou o teu homem


Sandro Miller, Gordon Parks / American Gothic, Washington, D.C. (1942), 2014



Ah, a lua está tão brilhante
e o chão tão sujo
e tem que ser varrido e esfregado
e eu tenho feito tantas promessas
tantas, tantas e que nunca consegui cumprir
Mas um homem nunca teve a sua mulher de volta
se não implorasse de joelhos


Sandro Miller, Arthur Sasse / Albert Einstein Sticking Out His Tongue (1951), 2014



Se for preciso vou a nado,
cansado e de língua de fora
como um cão encalorado
e vou ganir perante a tua beleza


Sandro Miller, Bert Stern / Marilyn in Pink Roses (from The Last Session, 1962), 2014



E vou arrebatar o teu coração
e vou encher os teus lençóis de lágrimas
e pedir-te-ei por favor, por favor.
Eu sou o teu homem


Sandro Miller, Albert Watson / Alfred Hitchcock with Goose (1973), 2014



E, se te apetecer um pato*,
espera que eu vou à procura
e  hei-de aparecer com um.
Mas, se te fizer impressão o pato,
eu escondo-o de ti


Sandro Miller, Edward Sheriff Curtis / Three Horses (1905), 2014



Se quiseres um pai para o teu filho
ou apenas quiseres brincar aos índios comigo
ao longo da pradaria
Eu sou o teu homem

Eu sou o teu homem.




* Sei que é um ganso mas um ganso depenado parece-me ainda mais despoético do que um pato. Assim como assim, com um pato ainda se poderia pensar que a ideia era fazer arroz. 



_________   (sorry pela subversão Mr. Cohen)   ________

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O conceituado fotógrafo Sandro Miller já trabalhou inúmeras vezes com John Malkovich mas quando quis homenagear os grandes fotógrafos que o influenciaram pensou numa coisa em grande. Com o seu modelo de tantas vezes, resolveu recriar retratos famosos desses fotógrafos. A essa série deu-lhe o nome “Malkovich, Malkovich, Malkovich: Homage to photographic masters.” Uma coisa do outro mundo, como puderam ver uma amostra.


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Não sei se o título deste post e até o seu teor podem ser considerados assédio ao Malkovich, essa criatura pérfida, esse perigoso e irresistível Valmont que, certamente, me conseguiria tirar do sério se passasse por mim na rua (... espero bem que nunca passe, senão ainda me vejo metida em trabalhos). 




Em minha defesa, digo que, no máximo, será um piropo (e a graça que eu acho aos piropos requintados - e os piropos requintadíssimos, podres de góticos, que eu atiraria ao Malkovich). Mas vá lá, parece que as bloquistas acabaram por deixar passar os piropos. É que, se o BE fizesse mesmo questão de criminalizar os piropos, de uma coisa poderiam estar certos: eu faria um cartaz e iria protestar para a porta do partido ou para as bancadas da AR: Abaixo o Bloco! Queremos os piropos! Abaixo o Bloco! Queremos os piropos!



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Acho que não vai saber bem mas, a quem seja de boa boca, permito-me sugerir a visita ao post já aqui abaixo. Continuamos com retratos: o retrato possível de Passos Coelho, com a ajuda de alguns jornalistas. Não é coisa bonita de se ver, aviso desde já. 

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Hoje estou cheia, cheia de sono. Reuniões e mais reuniões, planeamentos e orçamentos e sei lá que mais e chego aqui e, em vez de poder descansar a minha fraca cabecinha, sou assediada pelas trapalhadas do Láparo... Por isso, chego a esta hora e tenho a cabeça feita em água, já só me apetece é ir dormir.

Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela quinta-feira.


...

quinta-feira, setembro 12, 2013

Marilyn Monroe, ascensão e queda de uma estrela. A magia, o corpo, a luz, a treva interior que a habitava, os amores, a grande paixão, o grande desgosto, a solidão, a perda do controlo. E a forma como a sua escrita acompanhou o seu percurso. [E ainda, de bónus, o filme da célebre performance 'Happy Birthday, Mr. President' e um outro relativo ao seu romance com o dito presidente, JFK - que viria a ter também um fim trágico no ano seguinte à morte de Marilyn]


Ontem falei da escrita de Marilyn Monroe em contraponto com a de Jacqueline Kennedy e, tendo ficado tão surpreendida com a escrita da primeira,  não resisti a aprofundar um pouco (um pouco porque isto, aqui, tem que ser sempre coisa pela rama, e, além disso, o meu tempo para investigações detalhadas é nulo) a evolução da sua escrita ao longo do seu percurso de vida.

Marilyn nasceu em Junho de 1926 mas não nasceu Marilyn, isso foi depois. Ao nascer foi chamada Norma Jean.



Norma Jean em pequenina


A mãe era mentalmente instável, incapaz de tomar conta e de sustentar financeiramente a filha. Do pai não se ouve falar pois Gladys divorciou-se e, além disso, nunca ficou bem claro se aquele a que perfilhou Marilyn era, de facto, o seu pai. 

Na primeira infância, Norma Jean viveu com os avós ou com a mãe ou e assistiu a vários episódios traumatizantes. A mãe tão depressa a queria ter consigo e protagonizava verdadeiros raptos da filha, como reconhecia a impossibilidade de a ter e deixava que outros se preocupassem com ela. Norma Jean passou, pois, a infância em bolandas entre a casa de uma amiga da mãe que lhe incutiu o gosto pelo cinema (nomeadamente por Jean Harlow cujo look viria a querer imitar), uma tia da amiga, uma outra tia, e mais outra família, instituições, etc. Além disso, e como se isso fosse pouco, menina bonita e cativante, rapidamente despertou a gula dos homens com quem privava, levando a que tivesse que deixar a casa dessa grande amiga da mãe por o marido a ter assediado sexualmente. Não foi o único e não é claro que algum dos que tentou não o tenha conseguido.



Norma Jean sorria, sorria sempre,
parecia a miúda mais feliz do mundo


Aliás foi a essa infância altamente problemática, em que se sentia indesejada, um fardo, e em que, tão depressa era assediada por uns como rejeitada por outros, que muitos atribuíram a hiperactividade sexual que mais tarde viria por vezes a demonstrar, e as insónias, e a instabilidade emocional de que viria mais tarde a sofrer.

Quando entrou na adolescência, uma vez mais a família que, na altura, a acolhia teve que se mudar e, para Norma Jean não ter que ir para uma casa de acolhimento, foi convencida a casar-se com um jovem seu amigo, o filho de um vizinho. Foi o seu primeiro marido que, logo a seguir, foi para a guerra.



Norma Jean Baker, morena, nariz largo
sorridente apesar de tudo o que lhe acontecia


Era assim a letra de Marilyn por esta altura, a letra de uma jovem
 que vivia na defensiva, medrosa, hesitante


Norma Jean foi então trabalhar para uma fábrica ligada à aeronáutica. Com o objectivo de figurar numa revista feminina dirigida às mulheres,  especialmente àquelas cujos maridos estavam na guerra, Yank, the Army Weekly, foi-lhe sugerido que fosse fotografada, como modelo, para aparecer lá. Nessa altura era ainda morena mas disseram-lhe que seria preferível que se pusesse loura como a Jean Harlow. Norma Jean nem pensou duas vezes. As fotografias foram um sucesso.

Era uma segunda Jean Harlow e não tardou a despertar a atenção da gente do cinema.

Foi então que mudou de nome. Monroe era um dos nomes da mãe e, depois de alguma hesitação, aceitou ser Marilyn, um nome que soava sexy, disseram-lhe.

Começou, entretanto a dar nas vistas como actriz e começou a ter mais papéis. Em 1950, tendo assinado um contrato por sete anos com o estúdio  20th Century Fox, aceitou fazer uma pequena cirurgia plástica ao nariz para o tornar mais afilado, mais perfeito.

Em 1951 inscreveu-se University of California, Los Angeles, onde estudou literatura e crítica de arte.



Marilyn fotografada por Eve Arnold
Marilyn tem numerosas fotografias a ler,
gostava muito de ser fotografada com os seus livros


Começou a fazer figuração em pequenos papéis enquanto começou a ter aulas de canto, dança e representação. Quando não tinha trabalho no cinema, trabalhava como modelo. Foi, por essas alturas, que aceitou posar nua por 50 dólares.



Marilyn e os nus da polémica que a ajudariam, afinal, a lançar-se
Esta, em concreto, foi capa da Playboy
Fotografia de Tom Kelley em 1952


Exuberante, irregular, impulsiva, insegura -
assim era a letra de Marilyn nesta fase de descoberta e euforia


Uns anos depois foram divulgadas as fotografias de nus, o que provocou um escândalo que fez vacilar o estúdio quanto à sua conduta. Marilyn resolveu assumir que eram de facto dela as fotografias mas que o tinha feito porque precisava de dinheiro para viver. O público desenvolveu uma simpatia ainda maior por ela e Hugh Hefner fez dela a 1ª Playmate of the Month, fazendo a capa da Playboy.

Passo a passo, acabou por se tornar internacionalmente conhecida mas, por outro, o seu aspecto sensual fazia com que frequentemente lhe atribuíssem papéis de loura burra, o que de todo não era.



Belíssima, os fotógrafos adoravam fotografá-la, diziam que não se percebia se a luz se reflectia nela como em ninguém mais ou se a luz vinha mesmo de dentro dela.

Aqui fotografada por Milton Friedman


Teve aulas com Lee Strasberg no Actor’s Studio que disse "Já trabalhei com centenas e centenas de actores e actrizes e só há dois que se destacaram dos outros. O número um é Marlon Brando e o número dois é Marilyn Monroe."

As câmaras adoravam-na, captando a sua subtileza, a sua sensualidade. A luz parecia reflectir-se no seu corpo e no seu rosto fazendo parecer que era dela que a luz irradiava.



Marilyn, uma material girl avant la lettre,
aqui de novo segundo Milton Friedman

A escrita de uma mulher bem sucedida, segura, exuberante na sua sensualidade,
assim era a escrita de Marilyn 


Apesar de tímida, de ter medo do palco, de chegar atrasada ou de se esquecer das falas, querendo repetir as cenas vezes sem conta até se dar por satisfeita, o resultado era sempre um sucesso, tendo sido nomeada e agraciada com alguns prémios.

Contudo a nível pessoal as coisas não iam tão bem. Já ia no terceiro marido (Arthur Miller) e os sintomas de vulnerabilidade pareciam acentuar-se. Outra coisa a perturbava profundamente: queria ter filhos mas abortava, o que a deixava de rastos.

Pelo meio teve um breve caso com Yves Montand que não resultou pois ele não quis separar-se de Simone Signoret. 



Simone Signoret, Marilyn Monroe e Yves Montant


Falam-se de outros flirts, um ou outro algo mais que simples flirt, mas era ao segundo marido, a Joe DiMaggio que ela chamava quando estava mais em baixo.

É que, entretanto, os problemas de insónias tinham começado a acentuar-se e teve que  começar a ser medicada. Mas ia a vários médicos, tomava medicamentos de mais. Tornou-se dependente também do psiquiatra Dr. Ralph Greenson. E, se ele não estava por perto, mais medicamentos e álcool ela ingeria. O último filme, The Misfits, os Inadaptados, já foi um calvário. Doente, chegando sempre atrasada, levando a equipa toda ao desespero, esquecida das suas falas, levou-a a ter inclusivamente a ser internada durante dez dias.

Foi por essa altura que Eve Arnold fez a fotografia que mostrei ontem. Vejo as fotografias e tirando uma ou outra em que algum cansaço é notório, as outras mostram uma Marilyn belíssima, alegre, com aquela sensualidade inocente e feliz que parecia caracterizá-la. Aquela sua duplicidade era qualquer coisa de extraordinário. Dá ideia que ao sentir-se olhada por uma câmara, se tornava outra, tomada pela leveza, sem quaisquer pesos a desgraçar-lhe a vida. Parecia irradiar serenidade.



Marilyn, por Eve Arnold, também por altura da rodagem de The Milfits
Olha-se e parece ver-se uma mulher tranquila, confiante, feliz.
E, no entanto...


Depois do filme divorciou-se e voltou a ser internada, desta vez para ser operada às trompas de Falópio (não sei mas, provavelmente, outra gravidez mal sucedida).

E não dormia e sentia uma angústia que a quebrava por dentro. Estava péssima, infeliz, frustrada, dependente.



Letra muito irregular, texto irregular na forma, as margens desiguais ao longo do texto,
 a tender para baixo, letra disforme, estrutura atabalhoada
Assim era a letra de Marilyn quando estava internada



O seu estado de ansiedade acentuava-se e tenha crises de pânico, e um verdadeiro pavor de representar.

Em Maio de 62, nessa altura em que já estava assim, foi convidada para cantar os parabéns a você a John Kennedy, Presidente dos EUA, a convite de um cunhado deste. Sexy e provocante, um vestido sobre o corpo que quase a deixava nua, sem roupa interior - ninguém diria o estado em que estava. Vejo o filme e pasmo. Esta era a pessoa que vivia quase à custa de medicação? Que não dormia senão drogada? Que bebia demais? Que se sentia miserável? De facto, no início, vê-se pela respiração que está tensa mas também era normal (eu, se fosse comigo, se perante aquela imensa plateia tivesse que actuar para um Presidente, ainda por cima, para um Presidente do qual fosse amante, estaria petrificada de terror - se bem que nem consigo imaginar tal situação sendo o Presidente o Cavaco. Credo).





Teve um caso com o Presidente e, apaixonadíssima por ele, ligava volta e meia para a Casa Branca, tendo chegado a dizer à própria Jackie Kennedy que ela, Marilyn, seria a próxima Primeira Dama. O estado de desnorte em que estaria para fazer uma coisa dessas… Jackie ter-lhe-ia respondido friamente que poderia ir andando. Farta de saber dos deslizes do marido estava Jackie. Vivia a aturar-lhe as insuportáveis dores nas costas e os descarados adultérios. E, perante o exterior, também sempre sorrindo suavemente - tal como vos mostrei ontem, assim a captou também Eve Arnold: Jackie, a sereníssima esposa, a orgulhosa mãe da filha Caroline que brincava com as flores. 

Quando o Presidente deixou Marilyn (um Presidente não pode correr o risco de ter um caso com uma pessoa desequilibrada que mete na cabeça ser Primeira Dama), ela teve um profundo, profundo desgosto. Consta que amava John Kennedy com verdadeira paixão (o que também não é de estranhar já que John era uma criatura solar, um carismático líder, belo e sedutor) e que tinha idealizado poder viver com ele um grande e legitimado romance de amor.



Marilyn vs Jackie
(Não podiam ser mais diferentes)



Nesse período de turbulência consta que mantinha em simultâneo um caso com o irmão, Bob (que, segundo se diz, a teria visitado no dia em que ela apareceu morta) e que foi para este irmão que se virou mais intensamente quando abandonada por John. Marilyn estava, pois, a tornar-se incómoda para a Casa Branca: instável, sentindo-se abandonada, dependente de medicação, já não media bem o impacto dos seus actos. Um caso sério.

Por essa altura conturbada, Marilyn faltava constantemente às filmagens. A consequência era inevitável: foi despedida e obrigada a indemnizar o estúdio. 

Foi então que Marilyn desencadeou uma série de ofensivas mediáticas, aceitando entrevistas e sessões fotográficas para a Vogue (a última sessão, The Last Sitting, com Bert Stern é das mais famosas), para o Cosmopolitan e para a Life.



Marilyn fotografada por Bert Stern

Bert Stern achou-a divertida, com sentido de humor, brincalhona,
ousada, muito sensual, orgulhosa do seu corpo - uma deusa material

Seis semanas depois morria


Sempre luminosa, um corpo belo, um rosto feliz. Não se vêem traços de noites em claro, se bebia demais isso não lhe alterava o semblante, se vivia deprimida, infeliz, isso não transparecia por entre o sorriso insinuante, os gestos soltos, descontraídos.

Sabemos que temia, sobretudo, a solidão. A mulher mais desejada do mundo não tinha, muitas vezes, com quem passar a noite, com quem festejar o aniversário, com quem conversar.

Mas, enfrentava uma câmara e nem rasto de tristezas, de medos, de dependências. Nada. Apenas beleza.



Ainda de The last sitting, Marilyn por Bert Stern para a Vogue
(finais de Junho de 1962)


Entretanto, no meio de toda esta vida complicada, andava a estudar outras possíveis participações em filmes. Nada fazia prever que tencionasse pôr fim à vida. Aparentemente não o fez deliberadamente. A não ter ocorrido intervenção de alguém no infeliz desfecho (coisa que nunca se soube ao certo), o mais provável é que o álcool e o excesso de medicamentos tenham levado acidentalmente ao trágico final (embora tudo o que envolve esta triste situação esteja envolto em contradições).

No início de Agosto de 1962, com 36 anos, Marilyn, foi, pois, encontrada morta, nua, na cama, com um frasco de comprimidos ao lado. Diz-se que o seu último telefonema terá sido para o Presidente. 

Apenas 31 pessoas a acompanharam o enterro. A polícia vigiava de perto.

*





****

Senhores, que isto ficou longo demais! Como é que eu vou conseguir reler tudo com o sono com que estou? A ver se me levanto mais cedo para o fazer. Desculpem, portanto, as gralhas que por aí encontraram.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma quinta feira muito feliz.


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E, já depois de ter fechado este post, volto para aqui colocar um poema da Leitora Era uma Vez  (a quem muito agradeço) sobre Marilyn





Quando aquela súbita ventania
nasceu do centro da terra
e soprou sensualidade no seu corpo de mulher
um aceno "iluminou o mundo"

tudo parecia belo e sem defeito
a brisa o branco a transparência
tudo tão perfeito
o olhar deslumbrante e deslumbrado

então
que nome
que tédio
que segredo
que mistério
desenhou um traço a negro
na alvura do momento errado???

«»

domingo, julho 07, 2013

Não vi o 'casal de conveniência' Passos Coelho e Paulo Portas na sua comunicação ao País e não devo ter perdido nada. Parece que foram passar a tarde a um hotel para festejarem a nova relação (talvez uma relação aberta para evitarem futuras cenas de ciúmes). Quem está de parabéns é Nuno Portas, que foi distinguido com a Medalha de Mérito Cultural no âmbito do Ano da Arquitectura Portuguesa. Estou in heaven, entre alfazema e outros perfumes, sossegada. Claro que tenho que me ir regando de vez em quando, tanto o calor, que isto está mesmo de ananases, senhores...!


Não vi a comunicação de Passos Coelho ao País, tenho mais que fazer do que perder tempo com fantochadas. Quando aqui em casa se ligou a televisão, os noticiários falavam do calor e de coisas assim, e do acidente do avião que se despenhou em São Francisco. Interrogámo-nos: será que afinal aqueles dois não falaram ao País? Mas também não quisemos saber.

Agora que me sentei ao computador, dei uma volta pelos blogues aqui da galeria, espreitei os jornais. E lá vi uma imagem do ex-Doce com o Portas ao lado, este calado, parece que outra vez a fazer de mudo. Mas confirma-se, portanto, que Paulo Portas voltou uma vez mais atrás, engoliu o que tinha comunicado ao País com pompa e circunstância, e agora até é capaz de achar que ganha alguma coisa em ficar vice-primeiro-ministro com responsabilidade pela economia, pela reforma de Estado e pelas conversas com a troika. Pensará ele... mas o País inteiro perdeu-lhe o respeito. Desculpa-se a primeira, tolera-se a segunda mas à terceira ou à quarta ou à quinta já não se aguenta. Como dizem os brasileiros: sujou.

                                                                       Palavra sem palavra
                                                                       Entrada altiva
                                                                       Revogada
                                                                       Palavra saída
                                                                       Pela mesma porta
                                                                       Morta…


[Palavra Morta de José Rodrigues Dias  em Traçados sobre Nós]


Adiante.

Vi a fotografia do pai, Nuno Portas, nos altos do Sobe & Desce do caderno Actual do Expresso, por, em conjunto com Nuno Teotónio Pereira e Alcino Soutinho, terem sido distinguidos com a Medalha de Mérito Cultural, atribuída pela Secretaria de Estado da Cultura, no âmbito do Ano da Arquitectura Portuguesa que está a decorrer.

Transcrevo as palavras de J. Barreto Xavier: 'A vida e obra dos três confundem-se num ponto específico onde coexistem a prática arquitectónica e urbanística, a investigação, o ensino, a actividade social e a ligação entre a sua formação de base e outros domínios do universo artístico'.

Sinto admiração por Nuno Portas, uma pessoa tão talentosa, tão inteira, tão genuína, que parece ser tão boa gente, tão acima da mediocridade. 



Nuno Portas,
alentejano de nascimento, talvez tripeiro de coração, arquitecto, urbanista,
homem de cultura e muito mais
 (e um homem com muita pinta)


Não quero estabelecer comparações. Custa-me. Como mãe sei bem como queremos sempre ouvir dizer bem dos filhos e como queremos que os filhos sejam melhores que nós. Não sei se teria arcaboiço para ouvir dizer mal de algum dos meus filhos nos jornais, nas televisões, na blogosfera. Acho que ficava doente. Felizmente a nenhum deles lhes deu para uma carreira política. Mas, nunca se sabe, pelo que, se isso vier algum dia a acontecer - e espero bem que não - tomara que eu consiga ter a imunidade suficiente para não me deixar atormentar.

Por isso, refiro apenas que, logo no dia em que o Expresso está cheio de Paulo Portas e tudo tão pouco abonatório, sempre nos Baixos, é curioso que seja, justamente, o pai, Nuno Portas, a receber a posição de destaque num dos Altos. Merece-a, sem dúvida.


Mas voltando àqueles dois, ao casalinho que se foi reconciliar passando a tarde de sábado no hotel: depois de terem andado a desgraçar o País ao longo de dois anos, por causa agora de uma birra puseram a cereja em cima do bolo: fizeram o País perder mais uns mil milhões num dia, conseguiram que os portugueses se enojassem um pouco mais com a política, confundindo a política com os seus actuais míseros agentes. E, no entanto, irresponsáveis como são, agora aí andam armados em vendedores da banha da cobra, parecendo que têm um produto novo para vender. Não têm noção. Desaderiram da realidade. Uma tristeza.

Depois destas cegadas todas, em que andam a condicionar o Cavaco, na prática quase o impedindo de tomar outra decisão que não deixá-los continuarem a espatifar o País, fico ainda mais revoltada com esta porcaria toda.

Ainda bem, portanto, que não os vi na televisão. Aliás o meu marido, mal eles aparecem, começa a insultá-los e, ou desliga a televisão, ou levanta-se e vai para bem longe. E a minha filha, uma pacifista, ao telefone, insurgia-se e interrogava-se:  'Mas como é possível o Paulo Portas voltar atrás? E será que o Cavaco vai nisto? É que é tudo tão surreal! As pessoas não vão ter paciência! Não sei se qualquer dia não há uma revolução...' Nem sei que lhe diga. 

Estive, isso sim, a ver o interessante documentário sobre Bert Stern. 






Tenho o livro dele com as icónicas fotografias de Marilyn, tal como tenho outros livros de fotografias dela, a quem ele ficaria, para sempre, ligado.



Marilyn por Bert Stern


Como sabem os que por aqui costumam parar, sou apaixonada por fotografia. Mas, como em tudo, sou uma apaixonada em estado bruto. Uma pura diletante. Não quero saber de técnicas, não quero saber de cronologias, de bibliografias e outras filosofias. Quero apenas deixar-me impressionar pela fotografia em si, tentar ver pelos olhos de quem viu a imagem que estou a ver.

E não apenas devoro a fotografia dos outros, como gosto muito de fotografar. Desde sempre que sou apaixonada por fotografar. Vejo as coisas de maneira diferente quando as vejo através da lente - parece que o meu olhar repara de outra maneira nos pormenores, nas perspectivas, se encanta como se fosse a primeira vez.

Em tempos também as revelávamos, ampliávamos e imprimíamos em casa, à noite, quando os miúdos dormiam, e era pura magia, ampliador, bandejas com líquidos, pinças de pontas de borracha, as imagens a surgirem do papel antes em branco.

Com o digital isso perdeu sentido, até parece uma coisa pré-histórica. Temos muitas fotografias a preto e branco dessa altura. Agora isso está tudo num armário da despensa, aqui in heaven. No outro dia reparei que ainda há líquido nos frascos.

Hoje, por causa do calor, só fui para a rua ao fim da tarde. Antes estive a ler o Expresso aqui na sala, com uma ventoinha apontada na minha direcção. Depois adormeci.

Ao entardecer, fui então lá para fora. Estive deitada no chão, sobre um colchão fininho, debaixo das árvores. Nem uma aragem.



O céu visto a partir do chão onde estava deitada


Gosto muito de estar no campo, deitada no chão.

Os cheiros ficam mais próximos, e aqui, por baixo do cedro e do tamarix, junto aos gerânios e ao alfazema, há um perfume que cheira a âmbar, tabaco, e a flores. Envolvente. Muito bom.

E, enquanto as cigarras num alvoroço, ponho-me a ver as formigas numa azáfama, levando restinhos de folhas, indiferentes ao meu corpo que ali está a apanhar o sol suave do entardecer.



O loendro está coberto de flores cor de rosa que ficam louras com este sol



Aqui onde estou deitada vejo em frente o loendro que está enorme, as chuvas deste ano fizeram com que deitasse ainda mais corpo e está todo coberto de flores cheirosas. E o perfume do loendro (ao qual Natália Correia chamava aloendro e que, por estas bandas, chamam cevadilha) é, como é sabido, doce, sensual.

                                                                                                   [O corpo é praia a boca é a nascente
                                                                           e é na vulva que a areia é mais sedenta
                                                                           poro a poro vou sendo o curso de água
                                                                           da tua língua demasiada e lenta
                                                                           dentes e unhas rebentam como pinhas
                                                                           de carnívoras plantas te é meu ventre
                                                                           abro-te as coxas e deixo-te crescer
                                                                           duro e cheiroso como o aloendro]




Abelha felpuda voando de flor em flor no alfazema



Por esta altura o alfazema desponta, as espigas abrem, lilases, perfumadas, delicadas. Há sempre uma abelha bebendo o seu sumo doce. Eu fotografo-as, encantada, são um ponto de luz dourada sobre as pequenas flores, e elas não se importam com a minha presença silenciosa, sou aceite como um ser pacífico que não perturba a sua vida normal.

Amanhã irei apanhar algumas espigas para levar à minha mãe, ela gosta do perfume do alfazema, talvez depois as coloque dentro de saquinhos que gosta de ter nas gavetas. Também vou levar para ter no carro e no gabinete, gosto de ter o cheiro limpo do campo junto a mim.



As portadas da cozinha fechadas para tentar manter a casa fresca


O calor intenso, estava seguramente mais de 40º, faz com que os odores fiquem fortes. Aqui, debaixo da grande figueira (os figos ainda não estão bons...), a somba é quase fresca e muito perfumada, o perfume doce que se tem quando se está debaixo de uma figueira é uma maravilha.

E a maravilha que são as sombras dos seus troncos projectadas sobre a parede branca? Hoje fiz uma série de fotografias com essas sombras. Em algumas aparece também o tronco em si mas eu não sei o que é mais verdadeiro: se o tronco redondo e dourado de uma madeira macia, se a sombra sinuosa e plana impressa na parede rugosa e branca. Dúvidas cá minhas. (Com dúvidas deste tipo, como haverei eu de perceber as pantominices da dupla Paulo&Pedro, não é? Aquilo é areia a mais para a minha camioneta, reconheço.)



A regar ao fim do dia, a água dourada contra a luz do entardecer


A luz por aqui, ao fim do dia, é sempre dourada, a paisagem fica linda. O pior é mesmo o calor. Parece que aqui as temperaturas são sempre extremadas. Escuso de vos confidenciar que me coloquei várias vezes debaixo do jacto de água da mangueira. Tão bom. Mas fico quase instantaneamente seca, tanto o calor.


*

E não vos maço mais. Tenham, meus Caros Leitores, um belo domingo. 
Apesar deste verão tão duplamente quente, a vida é (ou melhor, pode ser) uma maravilha.