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quarta-feira, dezembro 09, 2020

Ela, a mais bela, talvez não tenha companhia pelo Natal

 




Talvez haja quem pense que se escolhe. Não, não se escolhe. Os grandes, grandes amores não se escolhem. Os grandes amores não aparecem quando se procura. Nem aparecem quando se precisa. Não. Os grandes, grandes amores aparecem quando não se espera, sem aviso prévio. Aparecem muitos vezes quando e como não devem. Não obedecem a um cahier des charges

Se eu pudesse ter escolhido, nem pensar em escolhê-lo a ele. Não vale a pena atirarem-me pedras porque sou a primeira a achar que não devia, sobretudo porque, nisto, sou quem mais perde, quem mais sofre.

Depois de ter passado pelo que já passei, tantos sonhos frustrados, tanta indiferença sentida na pele, tanto abandono quando mais sentia necessidade de um abraço, tudo o que não precisava era dele.

Nos últimos anos, tantas ilusões caídas por terra, tantas noites de solidão e intranquilidade. Eu e a gata, duas tristes, ela rondando pela casa ou dormindo horas a fio no cadeirão aqui em frente, eu rondando pelo mundo em busca de uma possibilidade. Tantas horas, tantos dias, tantos meses. Tanto tempo que parece uma eternidade

Amigos e amigos. Centenas. Visto-me e arranjo-me e estico o braço e fotografo-me e, de volta, recebo sorrisos, corações, likes, elogios. Que estou linda, que as cores são lindas, que o cabelo está óptimo, que a gata é uma fofa, que não sabem qual a felina mais misteriosa, se eu, se ela, brincadeiras, trocadilhos e fúteis agrados. E quantas noites passadas nos chats desta vida, tantas vezes em que parece haver um caminho, almas gémeas, tantos gostos coincidentes, tantas vezes em que exclamamos que o mundo é pequeno, promissoras afinidades -- tantas ilusões que se alimentam de palavras, de equívocos, de meias verdades. E tantos blind dates, tantos jantares com homens aborrecidos, vazios, cheios de si próprios, inúteis. Tantas situações desagradáveis. Tantas vezes em que tentei, em que me esforcei por acreditar, em que me forcei a iludir-me, forjando um entusiasmo que, por dentro, não sentia. Tantas frustrações. 

Sempre a correr para o ginásio, sempre a correr para arranjar cabelo, mãos e unhas, sempre à procura do vestido mais elegante, dos sapatos que melhor definem a silhueta, sempre a ver ao espelho qual o melhor ângulo, a melhor pose, e sempre a combinar jantares, bares, copos, tretas. E tantas noites em casa, em silêncio, a ver o tempo a passar. 

A gata vem, percebe-me os humores, olha-me com aqueles olhos que sentem antes de verem e eu desvio o olhar para que ela não testemunhe o que quero esconder.

Está a chegar o natal, esse dia horrível. Pode ser bom para quem tem famílias grandes, crianças. Mas é um horror para quem quase não tem família e, pior, para quem não se dá com os poucos que sobraram. Enquanto isso, ele lá vai estar numa casa cheia de enfeites de natal, bacalhau com todos, a trinchar um peru fumegante, e todos em volta da mesa, mulher, filhos, pais. Tinha-me dito que, por causa disto, não iam estar os irmãos, só eles e os pais. Um dos irmãos e família ficariam com a véspera e o outro com a noite do dia. Mas tinha-me garantido que na véspera à tarde viria cá a casa. Isto já há mais de um mês. Parece impossível mas há já mais de um mês que não o vejo. Estúpido. Mil vezes estúpido. Todos os dias a aguardar que haja tempo para uma visita, um telefonema, um gesto. 

Não se escolhe, é o que tantas vezes digo. 

Se, naquele dia, a minha mãe não tivesse tido que ir às urgências, se uma semana depois também não, se não tivesse sido ele das duas vezes, se não o tivesse visto uns dias depois na livraria, se... se... se aquele blusão de cabedal não lhe ficasse a matar, se aquela barba não o tornasse ainda mais irresistível, se o livro que tinha na mão não fosse tão inesperado que me tivesse impelido a dirigir-lhe a palavra... se... se... o café que logo ali tomámos, ele porque estava mesmo a precisar e eu porque parecia tomada por um absurdo coup de foudre, se... E se eu, tão louca, não tivesse dado o meu número e se ele não me tivesse ligado logo a seguir e se eu, sempre tão carente, não tivesse caído de quatro, caída, caída, feita parva, apaixonada, cheia de esperança... e se... e se.... 

Até ao dia em que me disse que queria ser sincero e eu já a tremer de medo, a adivinhar o que ele ia dizer, e depois a querer desistir de tudo, um homem casado não, tudo menos isso. E os dois abraçados, abraçados, com medo do que estava a passar-se, sem saber bem como lidar com isso. E depois a vir cá para termos onde estar, sempre escondidos, ele sempre com pressa, um amor que não podia existir. E a minha família ofendida, a cortar relações, a rejeitar-me como se fosse uma perdida, uma destruidora de lares, alguém que ainda irá meter-se em trabalhos, tu vais ver as vergonhas por que vais passar, deixa a mulher dele descobrir... 

Mas ele sempre tão carinhoso: quando eu lhe dizia que eu era a outra, a sem nome, a ela, a dizer-me que não, que eu não era a ela, era, sim, a mais bela. Era assim que me tratava, a mais bela. Fotografava-me e eu gostava que ele me fotografasse. Entregava-me à sua lente, ao seu olhar, ao seu corpo.

Até que isto começou, porcaria do corona, raios partam o corona, e aí tudo começou a complicar-se. Não tinha tempo, sempre ocupado, sempre a trabalhar, sempre a receber e a fazer chamadas, sempre em stress, sempre a fugir. Agora já nem sei o que existe, se é que ainda existe. Tento compreender, claro que sim, não sou estúpida. Mas, bolas, nunca como agora fui tanto a outra, a descartável, a que se sente um estorvo.

Ah... não se escolhe. 

E agora, se ele está doente, em casa, como falar com ele...? Impossível. Nem para saber se está bem. Sei lá se a mulher está ao pé, sei lá. 

Vai chegar o natal e vai ser o mais triste de todos. Não tenho dúvidas. Nem dúvidas, nem presentes, nem companhia, nem nada, nada. Nem ninguém para ver como a mais bela está elegante, bem penteada, cheirosa. Ah, se se pudesse escolher...


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Marion Cotillard foi fotografada por Mikael Jansson e vem ao som de If you love me por Melody Gardot

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Um dia feliz.
Saúde.

domingo, dezembro 06, 2020

A gorda do call center também vai receber um presente pelo Natal

 

De cada vez que se vê ao espelho descobre que está mais gorda, mais velha, mais feia. Acorda cedo demais. Tenta voltar a adormecer mas não consegue. Levanta-se, veste um roupão que já lhe fica justo, enfia uns chinelos que já estão gastos. Na cozinha prepara torradas e café com leite. A seguir liga a televisão. Pensa: só porcaria. Acaba onde sempre acaba, no correio da manhã tv. Percebe que gosta de ver desgraças para sentir que há quem esteja pior que ela. E sente-se patética por isso.

Liga o computador, começa a atender chamadas. Está em teletrabalho. A meio da manhã abre um pacote de bolachas. Leva-as para o pé do computador. Atende as chamadas da mesma maneira, dezenas de vezes por dia. Chega a um ponto em que já nem sabe o que diz.

Vai à casa de banho. Pensa que deveria pintar o cabelo mas falta-lhe a vontade. Pintar o cabelo para quê? Se nem banho lhe apetece tomar.

De passagem pela cozinha, espreita o frigorífico. Tira uma piza congelada. Dá para o almoço e para o jantar. Volta a atender chamadas. Pensa muitas vezes que há pessoas muito estúpidas. Ameaçam-na ou insultam-na como se ela fosse a responsável pela política comercial da empresa. Tem que ter uma paciência... Muitas vezes exigem que passe ao supervisor. Claro que não passa. É avaliada em função do número de chamadas e descontam as vezes em que não consegue resolver e passa a chamada ao chefe. Portanto, atura até mais não poder. Quantas vezes, quando acaba o dia, não se senta a chorar? Quando não chora, está como que anestesiada. Diz o seu nome incontáveis vezes por dia. Nunca gostou do nome e agora ainda menos gosta. 

Sujeita-se. Precisa do que ganha. Ficou desempregada, esteve no desemprego, não arranjou nada. Até que apareceu isto. Tanto se lhe dá. 

Vive sozinha. A mãe diz que podiam viver juntas, que poupava a renda, que faziam companhia uma à outra. Não quer, sente que perderia a única coisa que tem, liberdade. A mãe no outro dia perguntou-lhe com desprezo na voz: liberdade para quê? Para ficares fechada em casa, cada vez mais gorda, cada vez mais desleixada? Nessa noite não conseguiu dormir. 

Esta noite está aborrecida, mais do que é costume. Continua de pijama, de robe, mal penteada. Na televisão falam de natal. Não quer ouvir. É um dia triste, o de natal, sempre o foi. A solidão muito palpável, ela e a mãe, as duas à mesa a verem televisão. Costuma dar à mãe uma camisola ou, então, collants de malha e uma embalagem de broas, a mãe gosta de broas, e a mãe costuma dar-lhe pijamas ou toalhas para a casa de banho ou panos de cozinha, coisas que já não sabe onde guardar. Depois de almoço e de lavarem a louça, vão para o sofá, a televisão da sala ligada, a mãe a fazer pegas de cozinha, a falar-lhe das vizinhas ou a contar histórias antigas, e ela sem nada que dizer. Nem as vizinhas da mãe lhe interessam nem tem paciência para histórias que conhece de cor e salteado. Nesses dias só deseja que seja hora de ir para casa. Agora, com isto da pandemia, só pede a deus que seja proibido festejar o natal. 

Senta-se na cama e pensa naquela voz que, ao fim da tarde, lhe pareceu tão simpática. Tem a impressão que na véspera aquela voz já lhe tinha aparecido. Ela disse o nome e perguntou o que sempre pergunta, em que poderia ser útil. A voz disse o seu nome, coisa rara, nunca ninguém fixa o seu nome. No fim, voltou a dizer o seu nome a desejou-lhe um bom resto de dia. Foi ao espelho ver-se. Está mais acabada do que a mãe. Flácida, descorada, cabelo comprido demais, já sem jeito, as raízes já meio brancas, mal arranjada. A mãe tem razão, tem um ar cada vez mais desleixado.

Deitou-se tarde. Pôs-se a ver telenovelas, big brother, porcarias. De vez em quando muda de canal e é isso que diz a toda a hora: porcarias. Tomou um comprimido para dormir. Dormiu mal.

No dia seguinte, acordou a sentir-se infeliz. Acorda muitas vezes assim. Olhou-se ao espelho e teve pena do que viu. 

Foi ao roupeiro buscar umas calças mas não lhe serviram. Tentou outras e também não serviram. Foi à procura do fato de treino. Cheirava a roupa guardada há muito tempo. Coube mas ficou justo, ridículo. Vestiu uma parka para disfarçar. Foi ao supermercado logo à abertura, fez as compras do costume e, quando estava a ir para a caixa, voltou atrás. Tinta para o cabelo. Em vez da cor do costume resolveu trazer louro. Quando estava na caixa, hesitou: louro? Voltou à prateleira, trocou pela cor do costume. Quando ia a chegar à caixa, num repente voltou atrás e resolveu trazer mesmo o louro. Pensou que, fechada em casa sem ninguém a ver, mesmo que ridícula, o mais que poderia acontecer seria passadas duas ou três semanas voltar ao supermercado e trazer a cor habitual.

Quando chegou a casa, pegou numa tesoura e cortou o cabelo. Não cortou muito, só as pontas, só para ficar com algum jeito. Depois aplicou a tinta. Quando estava na hora, meteu-se na banheira e tirou a tinta, lavou-se.

Até estava com medo de se ver ao espelho. Olhou a medo à medida que retirava a toalha. Espantou-se. 

Pensou que tinha que comprar roupa que lhe servisse. Depois pensou que devia era fazer dieta. Descobriu uma camisola que lhe cabia embora justa demais e, por cima, vestiu uma túnica larga de verão, sempre disfarçava.

Quando ligou o computador e começou a atender chamadas sentiu-se mais animada. Quando à tarde, de novo, lhe apareceu aquela voz, sorriu. Quando perguntou em que podia ser útil, ele disse: liguei apenas para lhe dizer que gostava de lhe oferecer um presente de natal. Com o coração em sobressalto, ela respondeu: peço desculpa mas este número não deve ser usado para brincadeiras. E ele: não é brincadeira, gostava de retribuir a sua simpatia. Ela sentiu-se a tremer. Não foi capaz de dizer nada. Ele continuou: se quiser dizer-me para onde posso enviar, agradecia. Desconhecendo-se, sem pensar no que estava a fazer, ela perguntou: não quer antes encontrar-se comigo? Foi a vez dele ficar em silêncio. O coração dela descompassado, já arrependida pela ousadia. Ao fim de uns instantes que lhe pareceram uma eternidade, ela ouviu-o a dizer: Sim, eu gostava, não tive coragem de lhe fazer a proposta com medo que levasse a mal. Mas sim, vou gostar de conhecer a mulher que tem uma voz tão doce. 

Ao fim do dia, vestiu uma camisa larga aos quadrados, saíu a correr, foi à primark comprar roupa, voltou ao supermercado para comprar chá para perder peso, um baton e uma sombra para os olhos. Voltou para casa a correr para ir ver na internet o que é que se oferece a um homem, para experimentar a roupa nova, para experimentar a maquilhagem. E não conseguia parar de sorrir. 

Nessa noite não viu televisão. Esqueceu-se de tomar o comprimido. E dormiu como uma santa.

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Nota: Não sei quem é a senhora da fotografia. Encontrei-a aqui e achei que poderia ser assim a minha heroína.

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Desejo-vos um belo dia de domingo

sábado, dezembro 05, 2020

Um milagre de Natal avant la lettre

 

Chega a casa sensivelmente à mesma hora de sempre. Descalça-se na entrada, onde os chinelos de chambre o aguardam. Depois pousa a chave, despe o casaco e vai para a casa de banho onde lava escrupulosamente as mãos. Só então retira a máscara.

A seguir, vai guardar as compras que trouxe mas apenas depois de as ter lavado, mudado de embalagem, lavado as mãos.

Vai, então, verificar o correio no computador. Essa etapa do seu dia é precedida do ritual de sempre. Faz um chá, leva o chá, coloca um pano da louça dobrado em quatro debaixo da chávena, ajeita a almofada na cadeira, endireita o livro do lado direito, a pilha de três livros do lado esquerdo, endireita o pequeno candeeiro de mesa que acenderá quando a luz exterior se for. Depois tira o telemóvel do bolso, desinfecta-o,  e coloca-o à frente do computador. 

O seu mundo é um mundo sem surpresas. Em tempos teve uma gata. Noutra vida. Agora não tem. 

Trabalha ao computador. É perfeccionista mas de uma forma burocrática. 

Raramente alguém lhe telefona e ele também pouco telefona. Todos os dias liga à mãe, conversa monótona, breve e desinteressada, quase como se fosse uma tarefa que é obrigado a cumprir. A mãe pergunta-lhe se está bom, ele diz que sim, depois pergunta à mãe se estão bons, ela diz que vão andando, ele pergunta se está frio, ela diz que sim, frio e chuva, ele diz que ela se agasalhe, ela diz que sim e pergunta se ele precisa de alguma coisa e ele diz que não, mãe, está tudo bem. E despedem-se, adeus filho, diz ela, um beijinho, mãe, diz ele, a voz já a desligar-se. Acaba o telefonema com a sensação de que já cumpriu uma das tarefas diárias. Vê as horas. Pensa que daqui a nada são horas de ir pôr a comida ao lume. Vai à casa de banho e aproveita para lavar cuidadosamente as mãos. Quem o observe, pensará que vai entrar para o bloco operatório. 

Vai fazer ervilhas com ovos. Lembra-se de que era prato que muito apreciava quando era pequeno. Agora usa bacon. A mãe fazia com chouriço de carne. O que ele gostava quando algumas rodelas de chouriço ficavam presas na clara do ovo escalfado... Mas, agora que é ele a cozinhar, escolhe um espaço entre as ervilhas e coloca o ovo com cuidado, para ficar perfeito. 

Põe, então, a mesa. Liga a televisão, não gosta e não presta grande atenção mas, afinal, sempre é uma companhia. Além disso faz parte do ritual e ele não é capaz de beliscar os seus rituais. É quase uma superstição. Acha que a vida lhe corre bem sem sobressaltos cumprindo todos os rituais, não quer arriscar, incumprindo-os. Depois, ajeita um individual, enche o copo de água, põe uma fatia de pão sobre o guardanapo, serve-se e senta-se à mesa. Come rapidamente. Depois apaga a televisão, lava a louça, lava os dentes, lava as mãos. Senta-se, então, num outro cadeirão, pega num livro e num lápis, vê as horas, e entrega-se à leitura, fazendo algumas anotações nas margens.

Meia hora depois, arruma o livro e o lápis e volta para o computador.  Um mail deixa-o transtornado. Para qualquer outra pessoa um mail daqueles seria irrelevante. Mas ele parece precisar de alguma emoção e, portanto, arranja aquele mail como pretexto para se enervar. Diz um palavrão em voz alta. Levanta-se, vai à janela como se precisasse de descomprimir. Pensa que, se ainda fumasse, agora puxaria de um cigarro. 

Vai até à cozinha, vai preparar outro chá. De manhã é um, de tarde outro, à noite um de tília ou camomila.

Volta para o computador. Pensa na resposta que há-de dar ao mail. Abre o calendário para avaliar prazos. Escreve um mail que relê cuidadosamente.

Começa a escurecer. Pensa: mais outro dia. Vê as horas. Diz em voz baixa: cada vez mais pequenos, os dias. De vez em quando, ao falar assim, sozinho, fica admirado ao ouvir a sua própria voz. Sem perceber porquê, relembra os dias em que vinha da escola, a mala às costas, trabalhos de casa para fazer, e já era quase de noite. Comia pão com marmelada quando chegava, vinha sempre cheio de fome. A mãe dizia: daqui a nada são horas de jantar, não te enchas de pão com marmelada.

Olha para o relógio. Parece que quer que o tempo passe depresse mas, se pensar na razão por que o quer, acha que não faz sentido. Volta a trabalhar. Passado um bocado, olha para a janela. As recordações voltam. Levanta-se. Põe as mãos nos bolsos do casaco polar e fica a pensar. Repara que anoiteceu. A rua vazia.

Tocam, então, à campainha. Sobressalta-se apesar de estar à espera. Põe álcool gel nas mãos, coloca a máscara, abre a porta.

Vêm entregar a encomenda. Abre a porta e recebe a caixa. Deve ser o único presente que recebe, o dele próprio. Foi escolhido após demorada selecção. Viu todos os sites, fez quadros comparativos, pensou, deixou pousar os pensamentos, reviu, leu comentários. Até que se decidiu. Seria aquela. O seu presente de natal. Especial. 

Tirou-o da embalagem, pôs a caixa do lado de fora da porta. Depois desinfectou as mãos com álcool gel, tirou a máscara, voltou a desinfectar as mãos. Com mil cuidados, com emoção, retirou o seu presente da embalagem de plástico. Há quanto tempo não recebia um presente. Isto de alguém vir entregar em casa até disfarçava o facto de ter sido encomenda sua. 

Pensou: finalmente vou ter companhia pelo natal. Pegou nas instruções, sentou-se a ler, concentrado. Antecipou a hora em que ia sentá-la a seu lado, ele com o braço sobe os seus ombros, ela com a cabeça encostada ao seu peito. Disse, como se contasse um segredo: vou ler-te poemas. Imaginou-se, à noite, o Je t'aime... moi non plus em fundo: Sissi, vais gostar deste, escuta. Depois sorriria. O que é? Porque te ris? Não gostas que te chame Sissi? E antecipava as noites loucas que estavam por vir.

E a sua vida, de repente, qual milagre do Menino Jesus, parecia ser outra.

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E, esperando que tenham gostado de mais este conto de Natal, desejo-vos um belo sábado.

sexta-feira, dezembro 04, 2020

Conto de Natal: o lobo e a gatinha

 


A gatinha anda por aí. Branquinha e cor de mel. Silenciosa. Apanha sol, desliza por entre as flores, disfarça-se por entre as sombras, oculta-se em plena luz. Existe e isso chega-lhe. Quando se espreguiça sabe que é feliz e essa é a felicidade maior, a que não precisa de ser procurada. Por vezes brinca. Brinca às escondidas, a gatinha. Foge, espreita, vigia, tem vontade de se aproximar mas também tem vontade de fugir, e hesita. Hesita, hesita. Esconde-se. Brinca. Não diz nada. À gatinha nunca ninguém ouve uma queixa, não é disso. É mais de virar as costas e dar um bye. Mas fica de longe, a espreitar. A esperar. A querer aproximar-se. 

Escuta, confunde-se com o silêncio. E espreita. Observa. Talvez pense. Ou talvez não. Não é de pensar, é mais de sentir.

Mas, na sua inocência de gatinha feliz, ela sabe que o mundo não é bem assim, não é só o muro em que se deita ao sol, os carreiros por onde se esgueira entre as árvores, os pássaros que por ali andam. Não, não. Ela sabe que há perigos.


Muitas vezes pensa que, se fosse de pensar, pensaria no que faria se o perigo acontecesse. Ocorre-lhe que não sabe. Não sabe pensar nem sabe o que pensaria se pensasse. Por isso não se defende. Nem se atormenta. Se fosse outra a sua natureza talvez se amedrontasse com pensamentos envoltos em medo: Ai... Se surgir um lobo... o que farei? Assustar-me-ei? Morrerei de aflição? Esconder-me-ei? Desafiarei o lobo? Ou esperarei que ele se decida e só então verei? 

E o lobo? O que faria o lobo? Assustar-se-ia com a doçura da gatinha? Teria coragem de atacar quem parece nada temer?

Talvez o lobo tivesse vontade de chamar a gatinha. Mas não sabe o seu nome. Se quiser chamá-la, talvez se limite a fazer bschhh, bschhhh, bschhh. De que outra forme a chamaria? Apenas com o bater do seu coração? Talvez o lobo pense que, se tivesse dois corações, assim a gatinha o ouvisse. Assim, não ouve. Então, entre respirações, talvez ensaie o tal chamamento: bschhhh, bschhh. 

A gatinha fará de conta que não ouve. Gosta de fazer que não percebe, gosta de se fingir desinteressada. 

Talvez o lobo se deite, silencioso, disfarçando o tremor que lhe nasce da ansiedade, talvez em surdina balbucie bchhh, bschhh, bschhh. Os olhos luzindo na noite, a respiração ofegante, o lobo quer mas não quer, quer mas não quer. 

Que faria ele se estivesse perto da gatinha? Não sabe. Não sabe lidar com gatinhas despreocupadas, felizes. Receia que a gatinha quebre o seu coração em dois. Ficaria, então, com dois corações mas incompletos, despedaçados.

Recuará, certamente, o lobo. Hesitará. Os lobos são seres literários, uivam em silêncio na calada da noite, são seres solitários, preferem viver nos sonhos, nas páginas dos livros, preferem a companhia das palavras. São seres dúplices. Atravessam os caminhos frios e sombrios em que não há vivalma, escondem-se onde ninguém os pode ver, vivem em grutas, são vultos, confundem-se com vultos, desdobram-se em vultos. São obscuras emanações da noite. Desconhecem a voluptuosidade do sol sobre a pele, desconhecem a alegria de pouco mais saber do que viver sem pensar.

Mas o lobo é também um ser atento e cultivado, sabe que é natal. E, então, armado em bonzinho, anda um pouco mais, rasteja por entre as ervas húmidas da noite, o bafo morno transformado em fumo, quase deslizando por entre as silenciosas sombras da madrugada, põe o peito a descoberto para que melhor ela lhe arranque o coração, mostra as patas cheias de cicatrizes, quer que a gatinha saiba que já foi ao fim da noite. Depois aproxima-se ainda mais e sussurra: rom-rom... rom-rom... rom-rom...

Quanto à gatinha não vou nem dizer qual a reacção. O conto é de natal mas convém que tenha algum suspense, pelo menos para poder ter continuação.


Miaaaauuuuuuuuuuuuuu.....................................

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E um dia feliz para todos, sejam vocês gatas, gatos, lobos ou lobas.

domingo, junho 10, 2012

Sobre o ciúme, sobre a traição - episódios de um casamento atribulado. A Bailarina Fantasista, segundo 'O Vampiro de Curitiba', isto é, Dalton Trevisan, Prémio Camões 2012


Música, por favor
Uma canção desnaturada - Chico Buarco e Elba Ramalho




- É amante da Helena. Confesse.
     - Confesso coisa nenhuma.
- Meu amor, por que nega? Eu perdoo.
     - Está louca, Elza.
- Faço nada. Só quero saber.


Ângelo deitado de pijama quando ela, tesoura na mão, chegou à porta.
- Sei quem é tua amante.
     - Então diga.
- É uma loira.
     - Quem te contou?
- A sortista.
     - Está brincando, Elza.
- Ela nunca se enganou. Disse que você sustenta essa loira. Por isso chega tarde em casa.
     - Mas eu não chego tarde. Sempre juntos à noite.
- O encontro de dia, não é? Mentir não adianta, meu bem.




Investiu contra ele, tesoura em punho. Elza era grande e forte, com dificuldade a desarmou.
- Sei que tem amante. Agora tenho certeza.
     - Outra sortista, não é?
- Não me faz carinho. Sem amante não seria tão indiferente.
     - Acha que posso te agradar, depois de tudo que me fez? Toda vez que entro em casa é uma cena. Se você me beija, reajo como homem. Mas ir atrás, tenha paciência, isso eu não posso.
- Nunca vi maior mentiroso.


Não o deixava atender o telefone, cheirava-lhe a roupa, revirava o paletó atrás de cabelo loiro. Em sobressalto, Ângelo despertado de sonho pavoroso. A luz acesa a, ao lado da cama, Elza afundava-lhe docemente a barriga com a ponta da tesoura.
- Não vai doer, querido. Nem vai sentir.
Soluçando, atirou-se ao seu peito, faminta de beijos.


Separados de comum acordo. Ela exigiu os filhos, a casa, o carro, uma mesada. Concordou e mudou-se para um hotel. Elza frequentava clube nocturno, procurava-o no escritório para contar do moço muito carinhoso - os outros não eram frios como ele. Ângelo ouvia quieto e calado.




Uma noite em que se dirigia, encolhido à sombra das árvores, do escritório ao hotel, um carro derrapou a seu lado, reconheceu os dois toques da buzina. Era ela, que o convidou a subir. Embriagada, saíu em corrida furiosa.
- Medo de morrer, meu bem?
     - Pode me matar, é favor.Mas um de nós tem de cuidar das crianças.
Os faróis acendiam um, dois, três olhos de bicho nocturno.
- Peça perdão do mal que me fez, seu miserável.
     - Tudo que quiser. Agora dirija como pessoa sensata.
- Você me dá pena, querido.
Com a violenta freada o carro quase capotou, ela o mandou descer. Obedeceu e, erguendo a gola do paletó, perdeu-se na estrada deserta. Os faróis assassinos a persegui-lo, mas não se afastou, disposto a morrer com dignidade.
- Suba, seu porco.




Sem discutir, subiu. Aquela noite dormiram juntos. Dia seguinte, escondido dos vizinhos, saíu bem cedo.

Para não pensar esqueceu-se no vício. Jogava noite inteira, bocejava no escritório. Caso discreto com uma viúva, a única mulher desde a separação.

Nos braços do amiguinho, Elza encontrou-o na boate. Aos gritos, rasgou o vestido da viúva, sacudiu-a pelo cabelo. Sem piedade os atormentava, jurando arrancar com as unhas o olho azul da outra. 




Mão arranhada no bolso, Ângelo voltou a ficar só.

*
Música, uma vez mais, por favor
A vizinha do lado - Roberta de Sá


Um inferninho anunciou com estardalhaço a próxima atracção:

TÂNIA
BAILARINA FANTASISTA

No cartaz a fotografia colorida de Elza, quase nua: Estrela do bailado afro-brasileiro! 




Ao batuque do tambor, entre as piadinhas cruéis da canalha, saracoteava pobre imitação de hula-hula.

Desonrado, em desespero, Ângelo decidiu matá-la. Só o pensamento dos filhos o afligia. Foi à procura do sogro:
- O senhor não pode fazer nada? Ela me arruinou, ainda não está satisfeita. Se oferece aos meus amigos e ainda vem me contar.
     - Muita dó de você, Ângelo.
- Pedir à sua filha que me deixe em paz? Não viu no jornal o retrato nudista? Assim que recebe os amiguinhos.
     - Eu não tenho filha. Para mim é morta.
Abriu a gaveta da escrivaninha:
     - Tome este revólver e seja homem!
Ângelo apanhou a arma, foi até à morta.
     - Meu filho.
Virou-se em silêncio.
     - Se não matar aquela perdida... Quem te mata sou eu!
O revólver pesava-lhe no bolso, nunca dera um tiro. E gemia: Meu Deus, que será de mim? Rondou os clubes suspeitos, escondido atrás dos carros. 




Quando a viu, nos braços de um gordo, agarrou o cabo de madrepérola. Queria matar e queria morrer, mas não tinha coragem. Cabeça baixa, voltou lentamente ao hotel: era um manso.




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Este conto chama-se 'Bailarina Fantasista' e é da autoria de Dalton Trevisan.
Pertence ao livro 'Cemitério de Elefantes'. 

Como é sabido, Dalton Trevisan, 86 anos, é o Prémio Camões 2012 e este livro é, até agora, segundo creio, o único publicado em Portugal.

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Otto Lara Resende diz que 'ninguém sabe quem é Dalton Trevisan. Deus mesmo não sabe e nem por isso se impacienta'. Ele faz vida de 'severo anacoreta' na Rua Emiliano Perneta, em Curitiba, de onde regularmente envia ao seu editor algum novo original. 

Foi para escrever como escreve, 'cada vez mais embutido, no plano ínfimo, do seu território' (Otto Lara Resende), tratando o 'forte veio do erotismo' (Thomas Lask), intensificando 'o clima de humor negro e o grotesco da realidade' (Barbara A. Bannon), ávido de 'laconismo' narrativo e usando como mais ninguém o 'andamento em stacatto' (José Paulo Paes), 'meticuloso, um tanto obsessivo' (Emir Rodriguez Monegal), que Dalton Trevisan se refugiou no fundo da casa, portas fechadas à curiosidade dos caçadores do privado, sentado à secretária pelo menos cinco horas nos sete dias da semana. Entrevistas, deu duas ou três em toda a sua vida literária. Numa delas explicou que prosseguia um objectivo invulgar, o de fazer prosa como os japoneses faziam haikais.

Dalton Trevisan foi-se à eloquência e cravou-lhe a faca. Ironia, elipse, nenhuma cedência ao romantismo nem ao realismo mágico, aí estão outras armas brancas do escritor, afiadas à secretária-mesa-de-cela-monacal. Uma busca pela vivissecção?

Deus, na sua infinita misericórdia, desvia os olhos.


(Excertos do prefácio, intitulado 'Onde Deus volta a cara', da autoria de Fernando Assis Pacheco)

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Tenham, meus Caros leitores, um belíssimo domingo!

quarta-feira, março 21, 2012

Uma mulher perigosa (que usa Chanel, ouve Erik Satie, declama baixinho Maria Teresa Horta e tem um quadro de Bela Silva no quarto)


Música, por favor
Erik Satie -Trois Gymnopédies


Ouve-se uma música suave, quase intangível de tão suave.

O quarto é amplo, a janela vai até ao chão, abre para uma varanda de onde se vê o mar ao longe; mais perto, grandes árvores de um verde escuro, talvez cedros. 

Dos lados da grande janela, dois pesados cortinados num estampado abstracto e harmonioso que varia entre o cinza, o azul. Numa das paredes, na que está pintada num antracite brilhante,  um grande espelho ao alto em talha dourada, vai quase até ao chão, enorme, belíssimo. Na outra parede, pintada de um cinzento quase branco tal como as outras, uma grande consola, um busto negro, um grande espelho (mais um). E a luz entra naquele quarto magnífico e reflecte-se nos grandes espelhos e o ar fresco das árvores e do mar ao longe entra, também, e mistura-se com os cheiros florais que vêm dos roupeiros, da roupa de cama.

Numa das paredes não há nada a não ser um quadro, inesperado ali.

Bela Silva - A Terra dos Beijos

Os tons e os motivos da pintura introduzem ali uma alegria e uma modernidade inesperadas. Quem habita este espaço?

O vestido é de tecido pesado e brilha em verde e azul, escamas esmeralda, nuances de um tom de mar profundo e o vestido tomba ao longo do corpo, cai junto ao chão. Os brincos têm uma esmeralda e realçam a profundidade da cor dos olhos. O vestido não tem costas nem mangas e, no pulso, descai uma pulseira pesada, ouro e esmeraldas. Mais nenhuma jóia, seria demais. 

O espelho mostra uma mulher que se olha de lado, de frente, de costas. Ajeita o cabelo que desce quase até aos ombros, apanha-o ao de leve, avalia a melhor forma de o reter, e vigia, no espelho a imagem da mulher que a olha. Depois, não contente, solta-o de novo, despenteia-se, melhor assim, enfia os dedos no cabelo, agita-o, alisa-o ao de leve. 

Calça os sapatos. Altos, bem altos, verdes, escuros, um veludo subtil e umas leves pedras azuis em volta. Com um ligeiro movimento da perna afasta ligeiramente o vestido, quer que o sapato apenas espreite, está bem, dá uns passos, olha-se de lado, de costas, ajeita o cabelo, ensaia o andar. Voluptuosa. Talvez demais. 

Anda de novo, mais discreta, olha agora de lado, um olhar discreto. Avança para o espelho, meneia as ancas mas, apenas, ao de leve. O olhar basta, não é necessário que as ancas introduzam distracção. Mas depois pensa melhor e decide que sim, o andar será lento, as ancas marcarão o ritmo, uma gata andando com cuidada precisão.

Chega-se ao espelho. Passa uma sombra escura nas pálpebras, depois uma sombra clara junto à sobrancelha, depois o eye liner, depois as pestanas tornam-se mais espessas, e o olhar ganha mistério, mais mistério. A seguir olha a boca. Pega num baton, hesita na cor, talvez um rosa quente, talvez uma cor de morango brilhante, olha o baton, olha, no espelho, a boca, avalia, hesita, opta pelo morango doce e vermelho, mais quente. Fecha e reabre os lábios, sorri, olha-se e sorri, e é malícia que assoma ao rosto, gosta, ensaia de novo, sorri do sorriso.

Afasta-se do espelho, vê-se de longe, está bem, gosta.

Depois, um sobressalto. Como podia esquecer-se de uma coisa tão importante? Imperdoável. Era como se fosse nua, que horror, que esquecimento. Pega, então, no frasco Chanel e um leve sopro húmido chega-lhe ao pescoço, afasta o cabelo, agora é a nuca, um pouco, basta pouco. Depois atrás das orelhas, um leve segredo molhado, nada mais que isso.

Debruça-se um pouco e umas gotas tocam o colo, lá bem em baixo, na nervura dos seios. Uma intuição apenas, nada de definido, uma subtil alusão, Chanel em doses fatais, breves, apenas para entendedores.

Afasta-se. Agora sim. Agora está pronta.

Veste então um pequeno casaco de pedras escuras. Depois o despirá mas agora, para entrar, será assim, um  casaquinho sobre o belo e pesado vestido. A sedução apenas adivinhada.

Ensaia o olhar. Depois tem uma ideia. Fotografa-se a si própria. Olha a fotografia. Gosta. 

Cate Blanchett para a Harper's Bazaar por Alexi Lubomirski


Ensaia a imagem enquanto fala e diz em voz baixa, um sussurro apenas,


                                                                                                           Quando menos
                                                                                                            se aguarda
                                 
                                                                                                            Vence-se da flor
                                                                                                             o vício

                                                                                                             O fogo da palavra

                                                                                                             E desobedecendo
                                                                                                             tudo torna ao início



Sorri, ah o fogo das palavras... e o olhar é quente como as palavras que desobedecem desde o início. Sorri, pois, ao espelho e o sorriso começa no olhar e pousa, malicioso, nos lábios.

Antes de sair, olha para trás, de novo, olha-se ao espelho, de frente, de lado, do outro lado, de costas e espreita sobre o ombro, roda, de frente outra vez, de alto a baixo, depois apenas o olhar, ah o olhar que confirma a perigosidade. Ajeita o vestido. 

Sorri. Avança para a porta, avança para ganhar. 


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[O poema chama-se Início e é de Maria Teresa Horta.

E, por poesia, não deixem de ir de passeio até ao meu Ginjal, que hoje temos uma valsa de Ravel para iluminar um torpor especial]

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E, meus Caros, tenham uma bela quarta feira!