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segunda-feira, junho 27, 2022

Portugal, Portugal

 


Gosto muito do meu país. Gosto dos lugares, das paisagens. Acho que o meu país tem sítios lindíssimos. Gosto dos portugueses. Claro que, como em todo o lado, há gente de toda a espécie. Há os miseráveis e os ignorantes. Há os corruptos e os arrogantes. Os palermas e os parvos. Mas há muito boa gente, gente tolerante, gente generosa, gente talentosa, interessante. E há a língua portuguesa, tão bonita, tão rica. 

Em muitos lugares do país há agora muita gente de fora. Se, por exemplo, estivermos na linha de praia, há uma multidão de jovens que falam outras línguas, muitos surfistas, muita gente descontraída que fica à beira mar a conversar até a noite chegar. Se estivermos na linha de restaurantes e esplanadas, estão cheias. Ouvem-se todas as línguas, as pessoas estão já um pouco bronzeadas e geralmente sorriem, de bem com a vida. E por todo o lado se ouve a língua portuguesa nas suas múltiplas variantes, dos brasis, das áfricas. Uma riqueza extraordinária. O país agora é aberto, alegre, inclusivo, luminoso.

Já lá vai o tempo em que os portugueses eram gente ensimesmada, gente que vivia fechada em casa espreitando atrás do cortinado, gente sempre pronta para a censura castradora, sempre pronta para a maledicência, pronta para rejeitar a diferença.

Ainda há alguns assim. Os que são dessa raça podem correr mundo e assentar arraiais noutras paragens que continuarão a ser assim, soturnos, fatalistas, maledicentes, sempre prontos para cortar na casaca dos outros. Gente maldosa, cinzenta.

Mas são uma minoria. Agora, por onde se passa, já se vê gente aberta à vida, aos dias que passam, à música e à claridade, já se vê gente que aparenta alguma confiança nos dias futuros.

Há ainda gente com rendimentos muito baixos, é verdade, e que, com certeza, não pode ter acesso ao que de bom a vida tem para oferecer. Mas onde não há? Em lado nenhum. Imaginar que há é querer viver dentro de uma utopia. Para além disso, em Portugal há apoios sociais e há a educação e há uma atenção crescente à necessidade de não deixar ninguém para trás. Haveremos de ser ainda melhores. E não é com palavras de ordem e parangonas que as coisas se mudam. É com acções concretas e uma forte consciência social.

Pode dizer-se mal de tudo, claro. Há quem o faça. Os populistas são assim. Ouça-se o líder do Chega e comprove-se: segundo ele, Portugal é uma desgraça, os portugueses uns desgraçados. E eu olho para ele e acho que desgraça é haver portugueses assim, como ele.

Há ainda muito a fazer, muito. Alguém diz que não? Alguém de bom senso acredita que Portugal é perfeito? Claro que não. O que é preciso é que ninguém baixe os braços, que ninguém de bem vire as costas aos que ficam. A partirem, que partam apenas os que não sabem honrar a história, a língua e a garra dos portugueses de gema.

O que temos pela frente é um percurso. Ainda não há cinquenta anos que vivemos em democracia. Durante décadas o país viveu tolhido, amarrado à força à pobreza, à ignorância. Éramos um país fechado sobre si próprio. E isso deixas marcas profundas.

Leva tempo a construir mentalidades novas, a abrir as mentes de forma colectiva, a abrir-se ao mundo. 

Eu estudei em Portugal, perto de casa. Não me ocorreu ir para longe quando podia estar perto. Mas uma prima mais nova já foi estudar para uma universidade a centenas de quilómetros de casa. E a filha de uma outra prima já foi estudar para um outro país, um país longínquo. Os meus pais nunca me deixaram fazer o interrail porque eu queria ir com um namorado e eles acharam que nem pensar ir por aí, à aventura, com um namorado. E casei-me aos vinte porque não me passou pela cabeça ir viver com ele sem me casar. Com os meus filhos foi tudo diferente. Viveram juntos sem se casarem, passearam, fizeram o que quiseram. Não sei como será com os meus netos. Da minha parte, quero que sejam felizes, que realizem os seus sonhos -- mas que amem sempre, de paixão, o nosso país, que sejam sempre solidários com os seus concidadãos, que sintam sempre orgulho em serem portugueses.

Não é um sentimento abstracto. É bem concreto, bem real. É um amor verdadeiro, completo que, em cada pequeno acto, deve ser materializado. É daqueles amores que se quer físico, demonstrado. Quem ama o seu país sente-se também amado. É como com as pessoas. Amor verdadeiro é amor partilhado, é amor tolerante, é amor que se quer construir e para o qual se quer que depois de um dia venha o outro dia. Quando assim não é, então não é amor. 

Há pouco apareceu-me um vídeo que mostra o meu País pelo olhar de um não-português, muitas vezes em imagens aéreas que, obviamente, não são alcançadas por quem anda com os pés no chão. Conheço aqueles lugares mas sob uma outra perspectiva. Gostei de ver. Que país tão bonito.

A seguir, com alguma edição, vi como um casal também não-português vê o nosso país. Vi muitos lugares que conheço e percebo o encantamento de quem os vê pela primeira vez. País mais lindo, o meu querido Portugal.

Partilho-os convosco. Mostram o país visual. Claro que há depois o país vivido, o país do dia a dia, tantas vezes tão difícil. Mas esse não é agora o tema. Só espero é que gostem tanto do nosso país como eu. 

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Os melhores locais para visitar em Portugal segundo Ryan Shirley

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Portugal - The Europe We Didn’t Know Existed!

Portugal has been on every "top travel destination" blog for years. Over a 2-week road trip we explored the beautiful castles, incredible history, and rugged coastline, from Lisbon to Sintra down to the world-renowned Algarve beaches and caves, and then all the way up to the rolling vineyards of the Douro Valley wine region in this fascinating slice of Europe. 

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Mário Cesariny :: Queria de ti um país 

Música de Rodrigo Leão & Gabriel Gomes / Vídeo Cine Povero


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Pinturas respectivamente de Vieira da Silva, Paulo Ossião, Guilherme Parente, 2x Graça Morais, Noronha da Costa, Paula Rego, Cargaleiro.

Carlos Paredes com Luísa Amaro interpreta Canto do Amanhecer

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Desejo-vos uma boa semana a começar já por esta segunda-feira

Saúde. Boa sorte. Compreensão. Paz. 

terça-feira, janeiro 28, 2020

Um sonho que me fez acordar a rir





A minha profissional é tão longa que daria para dividi-la por disnastias. Um dia que escreva as minhas memórias falarei de muita gente conhecida e direi de minha justiça: qual a dinastia mais simpática, qual a mais competente, e qual o maior escroque ever and ever, quais os mais inteligentes, quais os mais burros, quais os provavelmente mais permeáveis, etc. Mas estabelecerei também uma divisão em períodos divertidos, épicos, gloriosos, decadentes, sem graça.

Mas isso é coisa para depois, para quando for livre. Agora tenho que estar caladinha como um rato. E só espero que, no au revoir, não me façam assinar nenhum NDA -- senão bye bye mémoires

Mas, enquanto tenho que estar caladinha, posso relembrar outra vez o período épico, o meu preferido, em que tudo parecia possível. Os directores eram quase todos da mesma idade, todos homens, excepto eu que não apenas era a única mulher como era um bom par de anos mais nova. Sem problema. Éramos todos amigos e divertíamo-nos como se não houvesse amanhã. Não me lembro de outro período em que a qualidade da gestão fosse superior. Mas isto para dizer que todos gozavam uns com os outros, a ironia era praticada em larga escala, a paródia era permanente, e não havia nada que se dissesse que não fosse virada do avesso e transformada numa anedota. E as decisões de gestão eram tomadas de forma desdramatizada, sem peso, sem conversa fiada à mistura. Ninguém queria parecer um executivo. Queríamos, simplesmente, estar na boa e fazer o melhor que soubéssemos. Andávamos motivados e todas as nossas equipas também.

Os tempos mudaram, o ambiente também. 

Agora os tempos estão para gente muito focada, muito politicamente correcta. Ninguém parte um prato. Civilizados desde o berço, todos foram amamentados a chá. Pode mudar-se completamente de look que toda a gente faz que não repara. Ou não repara mesmo. Pode alguém ter comportamentos estranhos que ninguém está nem aí. Eu também já estou assim. Por fora deixei-me contagiar mas por uma simples razão: não tenho parceiros para a maluquice. Por vezes tenho vontade de fazer ou dizer uma coisa completamente disparatada a ver se alguém reage. Volta e meia já praticamente o faço mas parece-me ver algum susto no semblante dos outros; então, apiedo-me e resolvo poupá-los. Provavelmente pensam que me passei e querem disfarçar para eu não reparar que o pensam. Somos assim, gente que sabe controlar as suas emoções e refrear os pensamentos -- comme il fault.



E este é um dos substractos para o que vou contar a seguir.

O outro substracto é aquela que já aqui contei, de um ex-colega se ter reformado antecipadamente, levando uma talhada das valentes na pensão de reforma mas isto porque a seguir foi trabalhar para outro lado.

Tudo isto fermentou na minha cabeça e a noite passada, pela madrugada avançada, a coisa aconteceu.

Mas tenho ainda que contar que, no domingo, tendo dormido uma sesta durante a tarde, ao ir para a cama à noite fui sem sono. Ora isso, para mim, é o fim da picada. Espertina. Mas das feias. Pus-me de lado, fiz a conchinha em convexo, depois em côncavo, deitei-me de costas, de bruços -- nada. Pensei nisto, naquilo e no outro. Até que, no meio desta insónia, me deu para contar o tempo que falta para poder reformar-me ainda que com penalização. Tipo contar carneirinhos. Depois multiplicava por uma percentagem mas, como não sabia qual era, fazia vários cenários. Perto das cinco, furiosa com a porcaria da espertina, levantei-me e vim para a sala. O meu marido espantado. Mas vim. Pus-me a ler. Nada de sono. Até que finalmente bocejei. Achei que era um sinal e desliguei a luz. Entretanto, ouvi o despertador do meu marido. E penso que aí, finalmente, adormeci. Quando o meu despertador tocou, estava ferrada no sono e a sonhar. Raramente me lembro dos sonhos mas este ainda estava quentinho e eu no primeiro sono; por isso, lembrei-me de tudo. E estava a rir. 

Conto o sonho.

Tinha chegado junto do meu chefe e tinha-lhe dito: 'Estou grávida'. 

     Ele a olhar para mim, ar estupefacto. 

E eu: 'Como sabe, acima dos 35 é gravidez de risco'. 

     Ele sem reacção, calado a olhar para mim. 

E eu: 'Agora imagine o risco acima dos 40'. 

      Ele quase a levantar as sobrancelhas, de espanto, mas a controlar-se. 

E eu: 'Portanto, o médico quer que eu fique em casa. Para a gravidez vingar, está a ver...? Acresce que a baixa de parto agora é de 1 ano'. 

      Ele a dar mostras de preocupação. 

E eu: 'Medidas para estimular a natalidade. Acho bem.'. 
    
       Ele parvo com a conversa. 

E eu: 'Com os meus mais velhos, a baixa era de 3 meses mais 1 de férias, só estive 4 meses em casa. Agora vai ser diferente. A seguir ao 1 ano, tenciono ficar mais 1 com redução de ordenado. Quero ser uma mãe mais presente'.  

     Ele visivelmente estarrecido mas, como sempre, controlado. 

E eu, morta de riso por dentro mas poker face por fora: 'Portanto, acho que tem que se arranjar alguém para me substituir porque até pode acontecer que possa ficar ainda mais um ano'. 
Ou seja, a arranjar pretextos para parar de trabalhar mas sem me tramar com um corte dos valentes na pensão. E cheia de vontade de rir com aquela minha conversa e com a reacção dele.
Quando o meu marido chegou da sua caminhada matinal contei-lhe. Disse-me: 'Estás maluca'. Respondi-lhe: 'Ai é? Estou maluca? Queres ver que fiz a criança sozinha..?.'. Foi a vez dele fazer uma cara preocupada: 'Eh pá, não durmas não...'

E foi isto. Talvez por ter sido um sonho que me deu vontade de rir, a verdade é que não tive sono nenhum durante o dia. Só quando há bocado me reclinei no sofá é que dei por mim a querer pegar no sono. Mas, sobre isso, a ver se conto a seguir.

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Samantha Kaplan é a autora das duas primeiras pinturas que retratam sonhos e Gagik Parvanyan e Noelle Rollins os autores das duas últimas sobre a gravidez. Rodrigo faz La Fête.


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Volto aqui apenas para dizer que não tenho feito outra coisa senão adormecer. Tinha dois posts para fazer, um sobre o Chicão a ser entrevistado pelo Miguel Sousa Tavares, outro sobre o Rui Pinto o todo-poderoso hacker. Mas não consigo mesmo.

Beijinhos, abraços e carapaus para o gato.

sábado, janeiro 11, 2020

Instinto maternal




No lugar onde trabalho uma percentagem razoável de mulheres não tem filhos. Provavelmente, umas ainda não têm mas talvez venham a ter, outras não levam qualquer jeito de que tal venha a acontecer, outras não me parece que tenham qualquer apetência por tal e outras não tiveram porque não calhou ou não conseguiram. Nunca lhes falo nisso. Há que respeitar. Não sabemos o que está por trás: se é incapacidade, se é falta de vontade, se é falta de oportunidade. São assuntos muito pessoais.

Sei que uma tentou durante anos e não conseguiu. Entretanto, já se habituou e já várias vezes, ao falar da vida livre que leva, viajando, fazendo o que quer, quando quer, com quem quer, diz que é o lado positivo de não ter tido filhos. E há outra, que o tempo veio a revelar ser uma mente perturbada, que durante muito tempo disse que andava a fazer tratamentos que sempre corriam mal, e contava histórias pungentes, e que agora toda a gente acredita que aquilo era inventado de ponta a ponta. Nunca faltava, nunca chegava atrasada, nunca saía mais cedo e, no entanto, contava que tinha andado a fazer tratamentos exigentes que exigiam repouso. Era sempre tudo tão estranho e pouco credível que ninguém tinha coragem de lhe dizer que tudo o que ela dizia parecia manifestamente impossível. Contudo, contava isso com voz martirizada, como se fosse verdade. Quando alguém leva lá os filhos, ela desdobra-se em gentilezas, tem lápis de cores, imprime folhas com bonecos, tem coisas nas gavetas. Mas aquele excesso de simpatia quase parece forçado e doentio. Se a conversa vai no sentido dos filhos, toda a gente desvia a conversa, como se não houvesse já muitas dúvidas de que há ali pancada da grossa.


Mas há outras que têm filhos e duas das jovens até já vão no terceiro. A uma que agora está de baixa de parto surpreendi eu um dia quando lhe perguntei se estava grávida, tendo ela, num sobressalto, dado uma resposta curiosa: 'Ainda não...'. Depois questionou-me: 'Mas porque pergunta?'. Expliquei-lhe que tinha olhado para ela e me tinha parecido. Estava então de poucas semanas e apenas uns dois meses depois, ou mais, divulgou o seu estado. Contou-me, então, que naquela altura, tinha acabado de saber e que não tinha percebido como tinha eu adivinhado. Pois bem. Hoje, uma das jovens, outra, ia à minha frente e, ao sentir os meus passos, voltou-se para trás, sorriu para me cumprimentar e depois continuou. Nesse relance em que a cumprimentei, pensei: 'Está grávida'. Depois pensei: 'Se calhar ainda não sabe'. E, no entanto, não vejo nela qualquer jeito maternal. Mas nunca se sabe. Há instintos que nascem quando se tem a cria nos braços. 

Outras vezes nunca acontece. Já contei aqui daquela minha amiga que de instinto maternal tinha zero. Nem sabia pegar na criança ao colo. Uma vez salvei a bebé de quase morrer asfixiada. Tinha dias. Era verão. Tinham ido para a casa de praia dos pais dela. Estava a dar banho à bebé no lavatório da casa de banho. Tinha a bebé sobre o braço, de bruços, e segura pelo pescoço. Quando entrei na casa de banho, estava a criança já meio roxa. Tirei-lhe a menina do braço e mostrei-lhe como era. Mesmo para dar de mamar, fazia-o sem contacto físico com a filha: em vez de a aconchegar junto ao peito, não, deitava-a sobre as suas pernas, em sentido oposto, tendo a criança que torcer a cabeça para alcançar um mamilo. Quando a menina começou a falar, chamava-me mãe e fazia birras quando se iam embora de minha casa ou eu de casa dela, tendo a mãe que a arrancar à força do meu colo. Muito estranho. Impressionava-me mesmo, imaginava como ela deveria ficar entristecida (embora nunca percebesse se ficava, mais me parecia que não, que não ligava). Por mais que eu tentasse ensiná-la a lidar com a filha, ela fazia tudo ao contrário. Quando se separou do marido, a filha ficou com o pai. Mais tarde, sei que teve outra filha mas, nessa altura, já nos tínhamos afastado. 

São assuntos complexos e não devem ser feitos juízos de valor por quem está de fora pois, nestes casos, cá para mim, a realidade geralmente é oculta ou inexplicável.

Mas, quando existe o instinto maternal, ele é bom, compensador, e, de certa forma, completa a mulher. Ou melhor: a fêmea. E não é nada que se aprenda: o que há vem de dentro, é espontâneo, é visceral, é incontornável.


Estava aqui a ver as notícias do dia e o que me atraíu foi, justamente, a prova provada da relação orgânica, animal, que há entre uma mãe e a sua cria (tenha a cria a idade que tiver e sejam quais forem as circunstâncias).

E se há lugares do mundo sobrelotados, outros há que estão num caminho oposto, em que a população está em decréscimo, a envelhecer. País com fraca natalidade é país velho, tendente para o empobrecimento. Num país como Portugal, nada há de mais relevante a nível político do que conseguir inverter a queda demográfica. Creches gratuitas com horário alargado, redução de horário para pais com filhos pequenos, flexibilidade de horário para pais com filhos em idade escolar, escolas com espaços de tempos livres também gratuitos e também em horário alargado. Coisas assim. Coisas que ajudem as mães a ser mães, a terem vontade e gosto em serem mães.

(E esta derivação para a demografia apareceu aqui a modos que fora do contexto, especialmente se atentarmos às duas fotografias; mas pronto, a minha cabeça é mesmo assim, dada a caminhos diferenciais)

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A primeira imagem é uma ilustração da autoria de Delphine Desane para a Vogue italiana, integrada num trabalho que intitulou como Madre Natura para a Dior. A segunda é uma fotografia feita na síria da autoria de Esra Hacioglu. Mostra Anud Suleiman, 25, com os filhos num campo de refugiados. A fotografia da mãe leoa e da sua cria foi feita em West Midlands Safari Park por Jacob King. Vi as duas no The Guardian.

Lá em cima, A Bailarina de Rodrigo Leão conta com a participação da filha, Sofia, e faz parte de um novo álbum que lançará em Fevereiro.

E o vídeo, no final, mostra imagens de uma tocante ternura. São animais como nós e o carinho e a graça como aquele bebé é cuidado, são uma maravilha.

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E talvez até já.

domingo, julho 14, 2019

Mulheres nuas a ler.
Ou em topless.
E em grupo.





Há coisas que não percebo. Não estou com isto a dizer que não concordo, digo apenas que não percebo. Talvez porque tantos anos de falta de democracia e fechamento deixam marcas na sociedade, talvez ainda não tenha conseguido libertar-me de ideias que, na volta, só demonstram que sou antiguinha: é que associo o corpo não apenas a um invóluco assexuado dentro do qual se arrumam os órgãos e se esconde a alma mas a isso tudo e mais a um objecto de sedução e desejo, ou seja, tudo menos um objecto assexuado. E isto seja o corpo de uma mulher ou de um homem. Sendo hetero, se estiver ao pé de um belo corpo de homem, não posso deixar de olhar de gosto. E se, por acaso, calhasse estar sentada numa praia ou num parque e, junto a mim, estivesse um grupo de homens nus a ler, eu haveria de me ver grega para não me pôr a olhar à descarada. E mais: haveria de ter que me esforçar muito para não tirar todas as medidas, para não apreciar as posições, os gestos, a graça, a capacidade de malandrice.

Da mesma forma, se, numa tarde, no relvado de um parque ou à beira de um lago, visse um grupo de mulheres nuas, muito me espantaria que nenhum homem prestasse atenção, como se elas não passassem de um normal um bando de patos. 


Mas, lá está, na volta sou eu que sou antiquada. Se calhar por essas e por outras é que não consigo identificar-me com os movimentos feministas. Eu defendo a igualdade de oportunidades, a igualdade de direitos e deveres, entendo que uma mulher não é menos nem mais que um homem. Mas não consigo defender que o corpo de uma mulher seja um objecto assexuado tal como não acho que se um homem olhar com interesse para o corpo de mulher isso é sinónimo de machismo. Não aceitarei se for incorrecto, invasivo, estúpido, abusador. Mas olhar, mostrar interesse, ser simpático e não o esconder caso sinta que há reciprocidade, isso parece-me até saudável da parte de um homem.

E agora poderia dizer que há uma outra coisa que não percebo mas aí já hesito. Creio que já ouviram falar de clubes de leitura exclusivos para mulheres, sendo que elas se põem nuas ou em tronco nu para ler. E hesito porque percebo que se associe a nudez à leitura: um bom livro, quando verdadeiramente nos toca, é como se quisesse fundir-se connosco, como se a nossa disponibilidade para o receber fosse total. Mas isso é a única coisa que consigo perceber porque, de resto, também não percebo nada. Não percebo qual a graça de clubes só para mulheres ou só para homens. Nem percebo a lógica de um grupo de mulheres se juntar, em tronco nu ou todas nuas, para ler. 


Mas também admito que talvez pense isto porque nunca experimentei.
Quem sabe um dia não resolvo fundar o Clube das Leitoras Jeitosas? Traço um roteiro: Parque Eduardo VII, Jardins da Gulbenkian, Jardim Botânico, Jardim da Estrela, Jardim do Palácio de S. Bento, Jardim do Palácio de Belém, etc. Quiçá depois para outras cidades. Castelo Branco. Lousã. Faro. Vila Viçosa. Vila do Conde. Mértola. Sines. Coimbra. Porto. Etc. 
Uma vez por semana num dos Jardins, as Jeitosas todas nuas a lerem. Querendo poderiam ficar apenas em topless e querendo, para além dos livros, poderiam levar também farnel para um lanchinho. 
Mas adiante.

Como nunca me integrei em nenhum clube de leitura, não sei como se processa a escolha dos livros. Sei que há o livro sugerido mas não sei se o processo é rotativo, se uma semana escolhe uma, noutra semana escolhe outra.

E também não sei como se faz se o livro da semana for uma pepineira. Podem os membros exercer a objecção de consciência? Não ficará um clima de má onda entre os membros do clube se alguém, esforçadamente, seleccionar um livro e umas quantas flausinas se puserem a olhar de lado, a torcer o nariz?
[E imagine-se a cena com as flausinas de nariz torcido e com os mamilos em riste. Lindo. Ai, eu, o Valter Hugo Mãe não, pleeeaase, não é a minha praia, amigas -- e os mamilos espevitados, sem conseguirem disfarçar a irritação]
Bem.

Mas há outros tipos de clube: coisa mais discreta, menos (des)sexualizada, tudo mais na base da voz, gente que contribui com a sua leitura. E, de novo, não sei que diga pois estou habituada a ler em silêncio e não sei se esse prazer é substituível pelo da audição. Apenas de vez em quando, geralmente quando vamos de viagem, leio em voz alta para o meu marido. Não é frequente mas já aconteceu. Ele gosta. Fazemos quilómetros naquilo, eu a ler e ele atento a ouvir. Mas gravar? Cada uma ler um capítulo? Depois haverá pachorra para ouvir ler os capítulos que as outras leram? E se umas se armam em declamadoras do D. Maria? E outras, a despropósito, em hot women, dando cabo do lirismo que o autor queria imprimir ao texto?

Ou seja, não percebo.

[No entanto, agora que escrevo isto, há uma situação que percebo: para quem tem dificuldade de visão, ouvir ler é a alternativa possível e aí até será uma iniciativa generosa, a de ler para os outros]

© Mikael Jansson pour Vogue Paris

Mas isto a propósito do artigo Pourquoi les clubs de lecture sont-ils à la mode ? na Vogue francesa.
Portés par des célébrités influentes, des podcasts littéraires et une philosophie militante, ces groupes de discussion vieux du 19ème siècle connaissent une nouvelle vague de popularité. Bienvenue dans les clubs de lecture 2.0. [...]

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Com excepção da última fotografia que é da Vogue, acho que todas as outras se referem a um clube que aparece referido no dito artigo, The Outdoor Co-ed Topless Pulp Fiction Appreciation Society clube que, segundo percebo, defende o direito das mulheres a usar o seu corpo onde quiserem, mesmo que nu e mesmo que em público, como um corpo assexuado -- e isto para lerem onde muito bem lhes apetecer.

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Já agora:
Shakespeare a nu num dia de Tempestade

Members of Outdoor Co-ed Topless Pulp Fiction Appreciation Society put on a production of Shakespeare’s “The Tempest” — and the actors were all female and all nude


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E, já agora, reconheço: há alturas em que sabe mesmo bem ouvir ler.
E eu sinto-me agradecida pela amabilidade de quem me traz belas palavras lidas:

"No sorriso louco das mães" de e por Herberto Helder sobre música de Rodrigo Leão



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E a todos desejo um belo dia de domingo

terça-feira, março 28, 2017

Sophia por Agustina
[E reparem num dos motivos pelos quais gosto tanto de Agustina:
dizia ela que
"não há nada pior do que o fastio de se ser sensato"
e isso, claro está, é música para os meus ouvidos]






Aquilo que me ligou à Sophia de Mello Breyner não foi a amizade, que resulta dum contexto de ideias ou duma compatibilidade histórica; quer dizer, do facto de sermos contemporâneos, sujeitos a uma mesma disciplina moral e cultural. Não era isso. Nós tínhamos a capacidade de nos impressionarmos; como as crianças têm. 

Thomas Mann, a dado momento da sua vida, ao ver uma criança a repetir sempre a mesma brincadeira, pôs-se a reflectir sobre isso que lhe parecia extraordinário. Era assim connosco. Tomávamos a sério coisas que no fundo nos divertiam. A Sophia e eu não sabíamos o que era a solidão. O concreto era a aventura, e a poesia era a sua forma de ser concreta.

Falando-lhe eu um dia do Marquês de Pombal e da atitude pessoal que teve no processo dos Távoras, simplesmente não me quis ouvir. Não gostava de discutir as coisas que não eram da sua linhagem intelectual.

Ela dizia que há sempre um pouco de vingança na boa conduta de alguém. 

Debatíamos isto, ela a tomar chá e a fumar. 

Eu replicava que não há nada pior do que o fastio de se ser sensato. Era assim que nos entendíamos. Mas raramente conversávamos. Às vezes pedia-me conselhos e dizia-me: "Não quero bons conselhos, desses estou até aos olhos. Antes aqueles conselhos que se esquecem depressa como o vento que nos desarruma o cabelo.". Era assim que nos entendíamos. Mas raramente conversávamos. Dava muito trabalho defendermo-nos do ciúme de quem disputava a amizade dela. A outra amizade.

Uma coisa era certa. Acabávamos sempre por estar de acordo sobe o Marquês: "Um chato."

Era assim connosco. Era bom.



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Tal como no post abaixo, no qual Agustina fala de Callas, também aqui a selecção das músicas e as fotografias é coisa minha.

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quarta-feira, setembro 14, 2016

Vá lá, UJM, só mais um post com título parvinho, está bem...?
Mostra lá se és capaz de parecer um drone ou de nos pôr à procura do Wally... Vá lá...


Garantido. Hoje estou com o freio nos dentes (o que, em estando eu a escrever, quer dizer que estou de rédea curta nos dedos). Ontem alarguei-me mas em minha defesa vos digo que, estando eu sur la mer, natural é que me atire para fora de pé. Mas hoje tenho que me conter a ver se me sobra tempo e disposição para trocar convosco uns leros sobre o cherne Barroso. Aquilo ali é peixe de olho encarnado e guelra já castanha, já fedendo das entranhas, muito fénico, e eu estou mais para peixe fresco, fresquinho da lota. Mas noblesse oblige e não posso deixar os meus créditos por mãos alheias. 

Portanto, a ver se não gosto as pilhas com passeatas e maresias. Mas, a bem da minha vocação de blogger voyageuse, viagens geralmente também de rédea curta, deixem que vos mostre algumas das imagens do dia. 

Mas, se estiverem de acordo, vamos com o Mar Estranho do Rodrigo Leão.



Na praia





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A ver as vistas





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Caminhando rente ao infinito azul

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E o mar, imenso, de cores belíssimas, com uma força avassaladora





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As fotografias foram feitas na Zambujeira, no Cabo Sardão e em Milfontes.

Diziam que ia estar uma tempestade do cacete, chuva, frio e trovoada. 
Qual quê...? Um dia azul, lindo.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma quarta-feira muito feliz.


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domingo, outubro 25, 2015

Casa minha


No post abaixo falei das araras, papagaios, galinhas e outras aves que infestam os balcões de televisão onde têm assento permanente toda a espécie de paineleiros e comentadores, gente a metro, todos da mesma cor, todos amestrados para falarem a uma só voz, paf-paf, paf-paf.

Não sendo dados a bucolismos (que é o que se vai seguir) podem, daqui, saltar já para lá.

Aqui, agora, gostava que viessem comigo pela terra molhada e perfumada, pelos campos coloridos com as cores do outono. Aceitem passear comigo in heaven.






O campo está coberto por uma neblina. Penso que estou dentro de uma nuvem. As árvores gotejam, os musgos crescem, a terra está um veludo macio. As pedras escorrem, os arbustos adensam-se. Há aquele cheiro de que tanto gosto, um cheiro a terra molhada, um cheiro íntimo e feminino, e, à medida que ando, o perfume ganha novos aromas, uma mistura de flores, depois junta-se o cheiro forte e limpo do eucalipto, mais à frente o das folhas em decomposição das figueiras, logo o dos pinheiros, aquele cheiro doce de que tanto gosto, depois já mais intenso, o da caruma misturada com o alecrim, com o rosmaninho, com o da madressilva.

E sente-se ao de leve o cheiro a lenha queimada, e esse cheiro que vem não se sabe de onde, mistura-se com a leveza húmida e branca da névoa e eu poderia deixar-me ficar assim, abrigada, apenas aspirando este ar fresco e molhado, olhando as cores, debruçando-me sobre as pequenas flores, sobre as pedras que despontam por entre os musgos, as gotas de água que se formam sobre redes quase invisíveis.


Para mim este é um ambiente de beleza em estado puro. Aqui sinto-me livre de preocupações, como se, estando aqui, estivesse livre de tudo o que, na cidade, me pesa e cansa. 

Não sei definir beleza tal como não sei definir o que é arte ou felicidade. Mas sei que, passeando-me em silêncio neste mundo em que a natureza vive em liberdade, sinto um bem estar indefinível, como se estivesse imersa em arte, em beleza, como se vivesse um sonho.

Por esta altura, acontece um milagre -- mas nem faz sentido eu falar apenas num único pois, na realidade, tudo isto é um milagre. Mas vou falar num em particular: o do aparecimento súbito de inúmeros cogumelos. Fascina-me este fenómeno. Tantos. Por todo o lado, ou isolados ou em grupos. Cor de mel ou brancos. Carnudos, de aspecto macio.
Para quem tenha o coração fechado à magia, talvez estas minhas manifestações de deslumbramento pareçam exageradas. Mas a verdade é que passar por aqui e ver como, do nada, irrompem da terra estes surpreendentes corpos, me deixa encantada. Não lhes toco, apenas os admiro. E fotografo, claro. 






Este enorme, da última fotografa, parece uma taça, cheio de água. Mas são efémeros estes bichinhos lindos. Dá pena. Para a semana talvez já os veja reduzidos a quase nada, talvez já nem existam. Definham rapidamente, desaparecem. 

Enquanto aqui andei quase nada se ouvia. Não há a alegria ruidosa das cigarras no verão ou o canto, em coro, da passarada ao fim da tarde. Nem senti os coelhos a fugirem. Nada. Um silêncio total. Eu, em silêncio, sem sombras, sem pesos, leve e feliz dentro de uma nuvem.

Mais acima, a árvore das folhas que se põem da cor do fogo tinha os dois últimos frutos. Escaparam, nem sei como, à gula dos pássaros. Cor de carne, macios, pesados e húmidos, a rebentarem de doçura. Fotografei-os. Inocentes deixaram-se fotografar na sua beleza sumarenta. Depois tomei-os nas minhas mãos. E comi-os, a sua carne macia escorregando na minha boca. Doces, doces dióspiros.


Ontem, quando a tarde arrefeceu, recolhi a casa. Tão bom estar assim, a chuva a cair de mansinho, as cores do outono a entrarem pela porta de vidro. Pedi: acende a salamandra, por favor. Apetecia-me o calor crepitante das pinhas, o cheiro bom do azinho. 

E, passado uns minutos, já se ouvia o som do fogo subindo da lenha, o perfume bom que se solta do que, até há pouco tempo, eram ramos e pinhas das nossas árvores, já se sentia aquele quentinho aconchegante que me faz sentir ainda mais em casa. Um ninho in heaven.


Depois, quando olhei lá para fora, vi no vidro o reflexo do fogo. Parecia que as chamas nasciam do chão, na rua. Como se tudo se tivesse unido: o interior da casa - a cortina, o fogo dentro da salamandra - o muro e o banco de pedra, a grevílea e o musgo que começa a cobrir a terra em volta do tronco, os pés de pyracantha, as folhas caídas da azinheira, a grande rocha que tenho ao pé da porta e que nos serve de banco. A minha casa no paraíso, o lugar de todas as magias, de todos os sonhos, de todas as alegrias, de todos os os amores. 

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A música é de Rodrigo Leão: Alma mater

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Recordo que sobre a chusma de comentadores a metro e, em particular, sobre umas curiosas estrelas da Quinta dos Comentadores da TVI (que dão pelo nome de Sofia Vala Rocha e João Miguel Tavares) falo no post já aqui a seguir.

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quarta-feira, março 25, 2015

Herberto Helder, um homem que corre pelo orvalho dentro.



Cheguei a casa e deu-me para juntar algumas pequenas peças de que gosto (um leque com mais de cem anos cheio de poemas e florzinhas pintadas, uma ampulheta, uma caixinha de música, caixinhas que acho bonitas) e colocá-las junto aos poemas de Herberto Helder. Já não é a primeira vez que o faço. Vendo a fotografia, parecem-me oferendas infantis. E, in heaven, a poesia de Herberto Helder está em azulejos que revestem canteiros mais altos que eu onde crescem vigorosos cedros ou escrita à mão em muros junto a bancos de pedra. Não sei bem explicar isto pelo que não me vou pôr com explicações mas é como se fosse a minha forma de mostrar como, desde sempre, a poesia de Herberto Helder é importante para mim.
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A meio do dia recebi um mail com o poema que abaixo transcrevo, enviado por um Leitor que assim quis partilhar comigo talvez já a saudade de Herberto Helder. Não me lembrava ou não conhecia o poema e li-o com comoção, pois tinha acabado de saber da morte do Poeta que me acompanha de perto como se fosse a respiração da terra.


Não sei como dizer-te que minha voz te procura
e a atenção começa a florir, quando sucede a noite
esplêndida e vasta.
Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos
se enchem de um brilho precioso
e estremeces como um pensamento chegado. Quando,
iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado
pelo pressentir de um tempo distante,
e na terra crescida os homens entoam a vindima
— eu não sei como dizer-te que cem ideias,
dentro de mim, te procuram.

Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros
ao lado do espaço
e o coração é uma semente inventada
em seu escuro fundo e em seu turbilhão de um dia,
tu arrebatas os caminhos da minha solidão
como se toda a casa ardesse pousada na noite.
— E então não sei o que dizer
junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.
Quando as crianças acordam nas luas espantadas
que às vezes se despenham no meio do tempo
— não sei como dizer-te que a pureza,
dentro de mim, te procura.

Durante a primavera inteira aprendo
os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto
correr do espaço —
e penso que vou dizer algo cheio de razão,
mas quando a sombra cai da curva sôfrega
dos meus lábios, sinto que me faltam
um girassol, uma pedra, uma ave — qualquer
coisa extraordinária.
Porque não sei como dizer-te sem milagres
que dentro de mim é o sol, o fruto,
a criança, a água, o deus, o leite, a mãe,
o amor,

que te procuram.


(excerto do poema «Tríptico», publicado em A Colher na Boca, 1961

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  • Os vídeos são da autoria de Cine Povero que tão bem divulga a poesia portuguesa.  
  • O primeiro vídeo é Herberto Helder :: Minha cabeça estremece / Música de Rodrigo Leão & Gabriel Gomes
  • O segundo vídeo é Herberto Helder :: Havia um homem que corria pelo orvalho dentro

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terça-feira, março 24, 2015

O PS de António Costa está a ir no bom caminho?


No post abaixo falo de quatro artistas portugueses que estão entre os melhores do mundo na sua área. Chame-se graffiti, street art ou o que for, eles trazem a arte para a rua e eu gosto deles. E, para aqui lhes fazer boa companhia, mostro um vídeo com obras de Banksy.

Mais abaixo falo e mostro um povoador (para não dizer cobridor) como não há igual: 43 mulheres e 152 filhos. Parece mentira mas é verdade e tudo na maior leveza, na desportiva, na boazinha, tudo na maior alegria.

Mas isso é a seguir. Aqui, agora, a conversa é outra. Hesitei, mas lá vai disto. Com flores e música da boa - para custar menos.






Um estimado Leitor chamou-me a atenção para uma entrevista concedida por Porfírio Silva, do PS, ao Público. Não a tinha lido, fui ler.


Há ali uma limpeza argumentativa que se lê de gosto. Sendo influente no PS, sendo (entre outras coisas) filósofo e poeta, e, já agora, também blogger, uma pessoa sente algum alívio por saber António Costa bem acompanhado.

Contudo.

Contudo, e sendo eu geralmente votante no PS (pelo menos a nível das Legislativas), e tendo eu andado esperançada de que António Costa trouxesse ao País um suplemento de ânimo de que tanto se estava necessitando, tenho que admitir que é com um certo desalento que tenho visto o desempenho deste novo PS. Tenho evitado falar nisso pois acho que esta maralha que se aboletou no governo e arredores é tão, mas tão, má que é até disparate desperdiçar energias a criticar o PS.

Mas o mail desse Leitor deu-me vontade de aqui dizer qualquer coisa. E, assim sendo, vamos lá.

Se bem interpreto o sentimento geral das pessoas (ou, talvez seja mais humilde da minha parte dizer: ‘falando por mim’) o sentimento que há no ar é que a classe política, por incompetência, estupidez ou oportunismo tem vindo a trair aqueles que deveriam representar e que isso gera nas pessoas um sentimento de se ter sido enganado por aqueles que nos deveriam ser leais.

Aprendemos em crianças que somos um país, uma nação, aprendemos que devemos fazer o bem, olhar pelos outros, que não deveremos mentir, e todos esses preceitos e mandamentos e, afinal, quando olhamos o comportamento dos governantes e de muitos deputados o que vemos é que agem de forma contrária a isto.

O que eu quero, enquanto eleitora ou enquanto cidadã, é que nas estruturas de poder do meu país ou de instâncias internacionais em representação do meu país, estejam pessoas que honrem o bom nome de Portugal e que tudo façam por ele - e, note-se, quando falo de Portugal não falo como falam as vãs criaturas que acham que Portugal é uma entidade abstracta que nada tem a ver com os Portugueses. Não quero nesses lugares cobardolas, aldrabões, moscas-mortas, fala-baratos, vendidos, avençados, papagaios, relapsos a representarem-me nem a mim nem ao meu Pais, em geral.

E o que, de modo geral, temos vindo a assistir é que, por todo o lado, o que tem vindo a pulular e a ocupar cargos aqui e ali é gente que geralmente encaixa nessas categorias. E não é só cá.

Parece que a Europa, depois de umas décadas em que se assistiu a um sopro de modernidade e dignidade, esmoreceu, os bons ficaram bons de mais para fazer concessões e os medíocres, quais larvas, ganharam terreno e desataram a reproduzir-se.

Face a este estertor da democracia tal como se idealizava, pura e justa, face ao desencanto perante o desajuste entre os ideais do modelo europeu e a confusão organizativa que o emprenhou, o tecido partidário esboroa-se. 

Os partidos tradicionais, presas de ideais antiquados, de jogos de interesse, sofrendo de cansaço ou desmotivação, não se tendo conseguido renovar convenientemente, parecem não ser capazes de perceber o devir dos tempos.

E nascem novos movimentos ou partidos, muitos germinando no caldo do descontentamento orgânico, do ressabiamento, do infortúnio, da revolta.

O que começou por ser um fenómeno de franjas, alarga-se e é já um fenómeno central que engloba descontentes e revoltados de todas as classes sociais, de todas as idades, de todos os credos e ideologias.

Li a entrevista concedida por Marine Le Pen ao Expresso. Percebo porque é que há tanta gente a apoiá-la. Mais depressa o comum dos mortais se revê naquela linguagem directa, sem meias palavras, em que se percebe uma defesa da soberania e dos interesses franceses, do que na conversa oca da maior parte dos políticos de hoje (políticos de hoje que mais parecem de antanho).

Claro que, por crescerem de forma orgânica e congregando inúmeras motivações controversas ou mesmo contraditórias, estes partidos albergam toda a espécie de correlegionários, muitos dos quais de susto, perigosos.

Mas não vale a pena combater os ultras ou radicas, sem que haja uma alternativa de facto. A solução, em meu entender, passa por os partidos mais estruturados e com princípios de base mais sólidos serem capazes de verdadeiramente se renovar. Mas renovar mesmo. Renovar não é ir buscar pessoas de tendências antes desaproveitadas mas, ainda assim, presas a lógicas do passado.

Penso que o actual PS não está a ver isto. Está a rodear-se de pessoas do tempo pré-Seguro. Serão pessoas honorabilíssimas mas, ainda assim, pessoas que me parecem estar demasiado presas às décadas anteriores, querendo projectar num futuro que se antevê caótico uma lógica estruturada em moldes antigos.  Não dá.

Lamento dizer mas não é com Ferro Rodrigues, pessoa decente e honrada mas carregando um pesado lastro - ainda por cima, com aquele seu ar permanentemente cansado - que o PS deveria aparecer numa primeira linha na bancada parlamentar. Nem deveria ter António Vitorino, símbolo da livre circulação entre administrações e escritórios de advogados, no grupo de reflexão ou de apoio ao desenho do programa do futuro governo ou lá o que é.


António Costa está, maioritariamente, rodeado de rostos que o país associa demasiado ao passado. A alguns eu vejo grandes mais valias na sua presença pois são áreas em que a experiência é vital e que, além do mais, têm mostrado ser pessoas de cabeça aberta e refiro, por exemplo, Seixas da Costa. Mas, na maioria, o que eu vejo em volta de António Costa são rostos com anos e anos de lastro, que congregam sobre si, como pára-raios, as culpas por todas as ineficiências de anteriores governações socialistas.

Não conheço o suficiente dos meandros socialistas para me pôr para aqui a dar palpites de nomes mas acho que o PS terá que fazer um esforço sério para se revitalizar, para incorporar gente que veja com outros olhos os novos tempos, gente de verbo fluido, de cabeça erguida, gente capaz de rupturas, gente que avance destemidamente contra interesses e ideias feitas, que quebre tabus e teias.

Não vão buscar novos que falem com as cautelas dos velhos, não vão buscar gente com a preocupação do politicamente correcto, gente que mais parece nascida nos corredores dos aparelhos partidários do que no meio do país real. Têm que aparecer mais mulheres, têm que aparecer mais pessoas fora da caixa, gente disruptiva, gente que não tenha medo de dar o corpo às balas. Realizem eventos criativos, organizem iniciativas de rua, façam o que quiserem mas mostrem que estão vivos e atentos ao mundo.

E não pode ser um ou dois senão imediatamente serão sacrificados pelo sempiterno coro de virgens e beatas: terão que ser muitos, uma carga de cavalaria a fazer um fogo cerrado de modernidade e ruptura. 

O que interessa é mobilizar o país, é devolver a cidadania aos cidadãos, dar-lhes esperança, dar vontade de construir um país melhor, com futuro, um país que respeite todos, que integre as diferenças, um país que seja um pólo de modernidade e que atraia a modernidade de outros países, para captar investimento especialmente na área da indústria, para fazer renascer a cultura que, em si, também atrai turismo de qualidade. É necessário que o PS apareça com energia, com alegria, capaz de integrar o destempero, um PS que levante o País da indignidade e do marasmo em que se encontra mergulhado, um PS que transporte um desejo de mudança, de futuro e, porque não dizê-lo?, de felicidade.



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A música é A Máquina Triste de Rodrigo Leão (e, uma vez mais, os meus agradecimentos ao Leitor que ma deu a conhecer).

As flores foram fotografadas por Phoney Traveller

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Muito gostaria que me visitassem também no meu Ginjal e Lisboa onde hoje tenho Fernando Guimarães e uma bachiana brasileira para envolverem segredos escondidos numa mão que se fecha dentro de outra. Rêveries, portanto.
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Relembro que já a seguir há mais dois posts, um com arte de rua e da boa e, outro, com um rival do Futre.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela terça-feira.