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segunda-feira, dezembro 02, 2024

Alô, alô Ricardo Araújo Pereira! Só o Ministro da Educação, o Montenegro e o Lentão é que fizeram figuras de urso?
Então e o devoto Marques Mendes na homilia semanal na SIC... não?
E o reincidente João Vieira Pereira do Expresso... não?
E todos os outros papagaios que enxameiam o comentariado nacional que não tiveram o discernimento de perceber que aquela tanga dos 90% era impossível... também não?

 

A propósito da confirmação de que os números anunciados pelo Fernando Alexandre sobre o número de alunos sem professores eram aquilo que qualquer pessoa com dois dedos de testa percebia de imediato -- uma patranha, um logro, uma estupidez --, assisti a um belo momento no 'Isto é gozar com quem trabalha', com o RAP a mangar que nem o perdido com:

-- a cagança do ministrozito da Educação a dizer que veio do meio académico e que era melhor que não soubesse perceber os números, que redução assim, de 90%, do número de alunos sem professores sem professores, nunca se tinha visto, só com ele, 

-- com o Montenegro que, com o seu intragável sorrisinho pimpão, andou a dizer que claro que os números estavam certos e que eles, ao contrário de outros, prometem e fazem, 

-- e com o Lentão Amaro, como sempre um totó de todo o tamanho a dizer as lerdices do costume, a gabar-se nem ele sabe exactamente de quê, só sabe que são feitos históricos.

Mas foi pena que não tivesse incluído nos que andaram a fazer figuras de urso, o Marques Mendes e o João Vieira Pereira que, infelizmente, continuam a papar toda a porcaria que o Governo lhes põe à frente.

Marques Mendes, que quer ser presidente, devia ter mais discernimento e rigor. Faz figura de urso, e não é pouco, a tentar enfiar-nos pela goela abaixo toda a porcaria que o Governo diz e faz.

E o João Voeira Pereira já se espalhou tanto ao comprido ao fazer fé nas patranhas do Governo Mentenegro que já deveria ter aprendido a não lhe dar ouvidos e a não fazer o Expresso passar por mais vergonhas. Francamente... é ingenuidade, tontice ou é obrigado a fazer fretes? Não percebo.

sexta-feira, novembro 29, 2024

Afinal, aquela tanga da redução de 90% dos alunos sem profs era confirmadamente isso mesmo: uma valente tanga. E é o próprio Ministro da Educação que o assume.
E o que é que isso nos diz sobre todos os que defenderam essa tanga como sendo verdadeira?
Tudo.

 

Era óbvio, mais do que óbvio, que os números apresentados pelo stand up comedy, Fernando Alexandre, eram falsos. Não havia maneira de serem reais. Só por magia. Mas a magia está reservada a outro tipo de matérias, não a assuntos objectivos, concretos, mensuráveis.

Claro que qualquer pessoa com dois dedos de testa perceberia que não era possível que tivesse sido operado tamanho milagre. O PS veio logo desmontar a farsa e, pela explicação, logo ficou claro que a barracada que estava ali armada era inequívoca.

Pois, por muito óbvio que fosse que tudo aquilo era não apenas uma aldrabice como também bacorada da grossa, logo a carneirada cor-de-laranja veio jurar a pés juntos que os números do Governo estavam certos. Em coro, baliram loas ao Governo e, com os seus hábitos trauliteiros, atiraram à bruta sobre quem os desmentia. 

Ainda me lembro quando aqui em casa o meu marido fez zapping a toda a força quando a Maria João Avillez, naquele seu insólito papel de arauto do Governo, veio dizer que tínhamos que acreditar nos 'números oficiais' do Governo. E disse aquilo como se fosse uma virgem inocente e não alguém com idade para ter o rabo mais do que pelado, como se não soubesse que os números não mentem... excepto se andarem às cambalhotas com eles e se quem os analisa for ignorante a ponto de não perceber que as estatísticas e os rácios foram martelados ou estão de pernas para o ar.

E no meio disto, aponto também o dedo ao Expresso. O Expresso já devia estar mais do que escaldado. O João Vieira Pereira não disse que o Governo não voltava a enganá-lo? Pois... é todos os dias... Se não me engano foi justamente o Expresso que anunciou o falso milagre em altas parangonas... A credibilidade do Expresso vai-se esfumando de cada vez que os seus jornalistas são apanhados de calças na mão, a fazerem fretes ao Governo AD.

No meio disto, menos mal que o ministro veio assumir que não atina com os números e já não faz ideia de nada. Ah pois é bebé... Mas, pelo menos, veio a público assumir. Mas o facto de ter acreditado naquele milagre e de ter vindo a público anunciá-lo faz-me duvidar muito da sua inteligência, da sua perspicácia, da sua agilidade mental. 

Volto a dizer: não deve ser ministro ou secretário de estado quem quer mas quem tem competência para o ser. E, neste Governo, ainda não sou capaz de dizer se há algum competente no que anda a fazer. Em, contrapartida, incompetentes são à mão cheia, uma concentração de incompetência como não há memória.

domingo, abril 14, 2024

Para sempre estampada na pedra, a fraude da AD ao anunciar como sua uma descida de impostos já em curso e posta em prática pelo PS

 


Já aqui falámos, eu e o meu marido, sobre a pantomina fiscal de Montenegro -- A inventona governamental da descida do IRS, na expressão de Vital Moreira -- que fez do choque fiscal a sua bandeira levando muitos eleitores ao engano, muito provavelmente, conseguindo ganhar as eleições (apesar de ser por uma unha negra) à custa desse embuste.

Veio agora, mais uma vez feito chico-esperto, dizer que todos os portugueses, incluindo os jornalistas, perceberam mal, inventaram e ficcionaram. Fez mal outra vez. 

Ao dizer que os jornalistas ficcionaram, desacreditando-os profissionalmente, abre um fosso de descredibilização para onde atira todos não percebendo que, ao agir assim, é ele que, com isto, se enterra.

Mas mais grave do que o caso em si é a atitude, o carácter de quem age assim, usando conversa enganadora, não se importando de navegar em águas dúbias em que todos os logros são possíveis.

Diz que no documento está escrito que a verba anunciada comparava com o ano anterior. Não digo que não. Não li o documento. Mas a comunicação, em especial quando a matéria é sensível como é o caso de matéria fiscal, deve ser clara e inequívoca. Ora, a ser como Montenegro diz, então a comunicação foi traiçoeira, enganadora, fosca e pantanosa. 

Na realidade, pela cabeça de quem é que passa anunciar como sua grande medida eleitoral uma coisa que, na sua essência e na sua quase totalidade, já está em vigor (ainda por cima, sendo resultante de um orçamento que vetou e posta em prática pelo seu principal opositor)? Penso que só pela cabeça de uma criatura sem vergonha nenhuma, uma pessoa com carácter muito duvidoso. 

Quem age assim é capaz de fazer mais o quê? Quem desrespeita assim a inteligência e a confiança da população e a honorabilidade de uma classe profissional (a dos jornalistas) merece o quê? 

Respondo: merece desprezo.

_____________________________

Escrevo enquanto, em directo, se tenta perceber o alcance da ofensiva do Irão a Israel. Vamos ver no que isto vai dar mas pode não ser boa coisa (to say the least). Mesmo neste capítulo, grave, temo pela capacidade do nosso Governo estar à altura de crises sérias. Pela cabeça de quem passou a ideia de pôr o Rangel em MNE? Pelo amor da santa.

sábado, abril 13, 2024

Chico-espertos? Aldrabões? Reincidentes patológicos? Simplesmente parvos...?

 

É só o que pergunto, e, na minha perplexidade, repito: 

São chico-espertos? Aldrabões? Reincidentes patológicos? Simplesmente parvos...?

Ou quê...?



Redução de IRS deverá rondar apenas os 200 milhões de euros. Os 1,5 mil milhões de euros anunciados por Luis Montenegro já abrangem a redução de IRS em vigor, aprovada pela anterior maioria socialista... [No Expresso]







[Vídeo no link]


[Vídeo no link]


Mas que estupidez vem a ser esta?

Julgam que estão a lidar com mentecaptos ou quê?

Montenegro julga que vale tudo?

Que pouca vergonha vem a ser esta?????

E Marcelo? O que tem a dizer disto? Acha bem ter deitado abaixo um governo de maioria absoluta para lá ter agora um governo que, ao que parece, actua na base da charlatanice?

Montenegro está a entrar com pé esquerdo, está a começar mal. Em menos de uma semana perdeu totalmente a credibilidade. 


Reacção do Expresso da sequência de notícia anterior, não desmentida


Inédita a reacção do Expresso, ("Nota do diretor: É mais do que um embuste. É mentir aos portugueses") com João Vieira Pereira revelando, por uma vez, que os tem no sítio  -- o que revela bem a gravidade do que está a passar-se.


Mas não é apenas a Comunicação Social a manifestar espanto e desagrado:


[Ouço jornalistas e comentadores nos diversos canais e a reacção é unânime: isto é de enorme gravidade, deveras embaraçoso, é um embuste, é uma fraude, uma pantomina, um logro, uma trampolinice, uma desonestidade para com os portugueses, a montanha a parir um rato, amadorismo, ridículo, apropriação de uma medida anterior, manipulação grosseira, é gato por lebre, e não vale a pena dizer que o país todo percebeu mal. Por exemplo, enquanto escrevo, ouço agora o Pedro Sousa Carvalho na RTP 3 a dizer que parece que a AD fez campanha eleitoral com base numa mentira, prometendo um choque fiscal que, agora, pelo que se vê, não passa da redução fiscal que o governo PS já tinha posto em prática]


Não me lembro de uma habilidade (ou melhor, desonestidade) desta monta levada a cabo por um Governo. 

Montenegro não vai longe assim. Não vai, não. 

[E não vou aqui falar no tom trauliteiro, arruaceiro e descabido usado pelo Rangel ou pelo Hugo Soares. Não vou falar apenas porque não quero desviar-me do tema principal deste post.)

quarta-feira, maio 15, 2019

O Expresso de sábado passado: belos textos
de Pedro Mexia [As bruxas de Allen],
de Tolentino de Mendonça [A mais antiga flor do mundo],
de Ricardo Costa [Um dia a casa vem abaixo]
e até, imagine-se, um bom editorial de João Vieira Pereira [E sobre a educação nada?]


Já no outro dia abordei o tema; agora vou falar dele.

Desde que me conheço, sempre que ia de férias e parávamos na estação de serviço para atestar o depósito, eu comprava uma revista. Comprava a Vogue ou a Art et Décoration, cheguei até a comprar a Hola. Era o que, no escaparate, mais chamasse a minha atenção. Apesar de ir sempre carregada de livros, as férias tinham sempre que começar com uma coisa atípica e ligeira.

Agora, para quatro dias em Lagos, foi a mesma coisa -- só que desta vez a coisa atípica e ligeira foi o Expresso.

Depois de ter sido fiel leitora durante mais anos do que aqui seria decente confessar, fartei-me: o Expresso tornou-se pasquim, coisa sectária e nada rigorosa, instrumento ao serviço de uma agenda que a mim me desagradava demais.

O meu marido desistiu antes de mim. Passei a ser eu, sozinha, a dar a volta àquilo, e cada vez mais contrariada; por fim um exercicio que já mais parecia puro masoquismo. Até ao dia em que decidi: nunca mais. E mandei o Expresso catar-se. Depois disso abri umas duas ou três excepções. E este sábado foi uma delas. Não só, como sempre, me apetecia algo como fiquei curiosa com a capa da Revista: aquilo do Bannon interessou-me. Esta sinistra criatura intriga-me (e assusta-me).

O meu marido é mais firme e radical que eu, recusa-se a tocar no Expresso. Eu sou mais moderada nas minhas antipatias.

Ainda não li tudo e creio que não lerei pois, ao espreitar algumas colunas, vi que continua a ser mais do mesmo, conversa vazia, conversa mascarada de coisa de jeito, treta, manipulação, ainda a mesma desagradável manipulação. Encolhi os ombros e passei à frente.

Mas, verdade seja dita, eu que sou céptica, e ponham céptica nisso, sobre o João Vieira Pereira -- jornalista que se especializou em avisar que vem aí o lobo e cujos ódios de estimação frequentemente toldam a sua capacidade de isenção -- até gostei de ler o seu editorial sobre a crise dos professores ('E sobre a educação nada?'). Fui até ao fim a ver quando é que apareciam aqueles seus velhos tiques de sectarismo mas cheguei ao fim a pensar que alguma coisa nele mudou. Na volta, está mais homenzinho, já vê as coisas de uma maneira mais esclarecida, aprendeu a sobrevoar a espuma e a olhar melhor para a raiz das coisas. Não sei. Não é por um editorial que posso tirar conclusões mas lá que me espantei, espantei. 

De qualquer maneira, concentrei-me na Revista que é aí que habitam aqueles de que mais gosto, e, tenho que confessar, gostei do que li. Sobretudo o Mexia, o Tolentino, e, surpresa das surpresas, o Ricardo Costa. É que, se não me admirei de gostar do Mexia ou do Tolentino, a verdade é que pasmei com a qualidade do artigo do Ricardo Costa.  

E, embora ainda mantendo severas reservas mentais, tenho a dizer que gostei de matar saudades dos bons velhos tempos.

Se um dia me der para isso ainda aqui hei-de transcrever um pouco do texto do Pedro Mexia sobre a perseguição a Woody Allen, 'As bruxas de Allen', texto no qual me revi, e também sobre o belo texto escrito pelo Pde. Tolentino de Mendonça e dedicado a Maria Teresa Horta, 'A mais antiga flor do mundo'

E gostava de ter coragem e tempo para aqui fazer um resumo do bom artigo de Ricardo Costa , 'Um dia a casa vem abaixo' mas temo que isso nunca aconteça pois é um texto longo e todo ele suculento. 

E para atestar a sua qualidade conto-vos que no outro dia à tarde, à beira da piscina, estive a ler o artigo em voz alta e o meu marido, interessado do princípio ao fim, a ouvir. E, volta e meia, interrompíamos para comentar. No fim, ele disse: 'Ora aqui está uma boa coisa: tu lês em voz alta e eu ouço'. E eu disse: 'Ser a tua diseuse, querias...'Mas a verdade é que gostei da experiência. 

Não sei qual a prática do Expresso, se ao fim de algum tempo, os conteúdos exclusivos a quem tem assinatura ou compra em papel ficam abertos. Se ficarem, sugiro a sua leitura. 

Os riscos do populismo, as manobras dessa criatura tenebrosa que dá pelo nome de Steve Bannon, agora apostada em destruir o edifício europeu, as emergentes figuras de ultra-direita em ascensão no panorama político e que ameaçam dinamitar o frágil equilíbrio existente entre os partidos com assento parlamentar, tudo ali aparece fundamentadamente descrito. 

Tinha-me esquecido que Ricardo Costa era jornalista. Afinal é e, se se mantiver como se mostrou neste artigo, arriscarei dizer que é dos bons.

quinta-feira, maio 07, 2015

O sms de António Costa a João Vieira Pereira é um ato de bullying, decretou Paulo Rangel. Ferreira Fernandes ofende-se e responde-lhe que não lhe admite que ele insinue pequenez e cobardia por parte dos que exercem a profissão dele, como se os jornalistas fossem uns mariquinhas que se borram com o sms dum político


Já no outro dia aqui falei do magno assunto do SMS que António Costa enviou a João Vieira Pereira do Expresso - e, sobre isso, nada mais tenho a acrescentar.




Mas há um jornalista, e um jornalista a sério (não desses de aviário ou pseudo), o Ferreira Fernandes - por quem nutro profunda admiração - que escreveu no DN uma divertida crónica que aqui faço questão de elogiar e para a qual chamo a vossa atenção. 

O meu sms de jornalista ao político Rangel


Resumindo os episódios dum não-assunto. Um diretor do Expresso, João Vieira Pereira, escreveu um artigo de opinião sobre a política do PS e qualificou-a, assim: "Cheia de falta de coragem e reveladora da ausência de pensamento político consistente." Tem direito a dizê-lo. O responsável pela política do PS, António Costa, mandou um sms ao jornalista: "Envio-lhe este sms para que não tenha a ilusão de que lhe admito julgamentos de carácter." Outro a exercer o direito que tem. Foi isto. Um jornalista a dizer mal da política dum político e este a responder dizendo que não lhe admite o tom. No fundo, dois cidadãos exercendo o seu direito à fala - banalidade. Ora, depois de o jornalista ter publicado o sms no seu jornal, o bocejo tornou--se um caso nacional. 

Ontem, um político e num jornal, Paulo Rangel no Público, cunhou o caso, assim: "O sms de António Costa é um ato de bullying contra a liberdade de expressão, contra João Vieira Pereira e contra o Expresso. E o bullying intimida, condiciona e apouca." Saltamos, assim, do caso nacional para o meu caso. O que Paulo Rangel diz sobre a pequenez e a cobardia dos que exercem a minha profissão - os jornalistas seriam, para ele, mariquinhas que se borram com o sms dum político - não lhe admito. Não lhe mando um sms, porque prefiro dizer-lho na cara da próxima vez que o vir. Com palavras, exercendo o meu direito de dizer coisas. E, para dizer a verdade, só lho direi se entretanto não me esquecer.

Acho este texto de uma ironia deliciosa. O final então, em que revela a grande importância que dá ao assunto e ao próprio Paulo Rangel, deixou-me com vontade de rir ao longo de todo o dia. 

Salve Ferreira Fernandes! Grande jornalista.

..

sábado, maio 02, 2015

João Vieira Pereira do Expresso e o sms de António Costa. Estamos a falar de liberdade ou de um 'vale tudo' que parece ter tomado de assalto a comunicação social?


Ando um bocado afastada do dia a dia noticioso e acho que pouco tenho perdido. Grande parte da comunicação social portuguesa está tomada por gente cuja actuação me desagrada. Não se percebe se são jornalistas (supostamente isentos, factuais) ou se são comentadores e opinadores (e, portanto, parciais). Acontece que, como comentadores, muitas vezes não lhes reconheço qualificações ou aptidões para ali estarem a emitir opiniões sobre tudo o que calha. Tenho-lhes ouvido barbaridades, imprecisões, juízos de valor ridículos sobre questões técnicas. E, como jornalistas, pouco os vejo: tomam partido, atiram-se por vezes àqueles sobre quem escrevem como se de adversários ou inimigos se tratassem e, por outro lado, estendem tapetes a outros, promovendo a sua imagem, abrindo-lhes caminho.

Penso que grande parte da intoxicação da opinião pública - que, face a tal incontinência opinativa, desiste de os ouvir, desinteressa-se disto tudo, deixa-os a brincarem uns com os outros ou sozinhos, como a eles lhes souber melhor - se deve a esta gente, papagaios a soldo, avençados, gente desqualificada.

Estão por todo o lado: nas televisões, nas rádios, nos jornais e revistas. Claro que nem todos são maus. Há alguns com quem se aprende, que pensam bem, que introduzem diversidade de análise e, portanto, não sou radical na minha apreciação. Não. Mas os que se aproveitam são uma minoria. Os restantes, com a sua cacafonia insalubre, estão a minar a credibilidade da comunicação social. Pelo menos, é o que eu penso.

Vem isto a propósito da atitude de João Vieira Pereira, do Expresso. Recebeu o seguinte SMS de António Costa:


"Senhor João Vieira Pereira. Saberá que, em tempos, o jornalismo foi uma profissão de gente séria, informada, que informava, culta, que comentava. Hoje, a coberto da confusão entre liberdade de opinar e a imunidade de insultar, essa profissão respeitável é degradada por desqualificados, incapazes de terem uma opinião e discutirem as dos outros, que têm de recorrer ao insulto reles e cobarde para preencher as colunas que lhes estão reservadas. Quem se julga para se arrogar a legitimidade de julgar o carácter de quem nem conhece? Como não vale a pena processá-lo, envio-lhe este SMS para que não tenha a ilusão que lhe admito julgamentos de carácter, nem tenha dúvidas sobre o que penso a seu respeito.
António Costa"

Diz João Vieira Pereira, no jornal, depois de ter transcrito o dito sms: Confesso que a primeira reação foi a de pensar que era um engano e dá ao artigo o título É a liberdade, António Costa.


Pois bem.

Há uns meses, na sequência de um texto que aqui escrevi, recebi de um membro da Direcção do Expresso um mail em que corrigia o meu texto, invocando a sua própria actuação a propósito do tema sobre o qual eu escrevia. No final, pedia que eu mantivesse sigilo sobre o seu mail.

Não precisava de o fazer já que eu, pela ética pela qual me rejo, não revelaria um mail recebido a título pessoal mesmo que o dito profissional assinasse subscrevendo-se com o cargo profissional  e mesmo que versasse temas relativos à sua actividade profissional.

Não revelei na altura, não revelo agora e não revelarei no futuro.

Talvez por isso, me desagradasse tanto a forma quase prepotente, deselegante mesmo, como João Vieira Pereira divulga no jornal o sms que recebeu de António Costa e a invocação da liberdade, talvez a liberdade de imprensa, que usa para se desculpabilizar (quer deste acto quer das palavras que antes tinha proferido). Desagrada-me, é mais uma manifestação do vale-tudo em que a comunicação social portuguesa parece estar transformada. Podem alguns comentadores ou bloggers entrar em delírio com isto mas a minha sensação é que assim se vai exaurindo a apetência da população pelo consumo de jornais ou de programas de comentário político e, portanto, a prazo isto reduzirá a rentabilidade dos ditos órgãos de comunicação social - e, assim também, se enfraquece o verdadeiro exercício da democracia em liberdade.


sábado, agosto 16, 2014

Alô! Alô! Senhores do Expresso que fizeram o "Especial BES"! Não se terão esquecido de nenhuma geografia no mapa BES? Não quererão dar uma vista de olhos ao 'Nine to Five'? Dou uma ajuda: "A crise bancária portuguesa: um ricaço leva mil milhões para as Ilhas Cayman e sobrecarrega a Europa com um grupo Espírito Santo sem qualquer valor".


Sendo o Um Jeito Manso um blogue, presta-se à diarística e, assim sendo, volta e meia gosto de aqui registar as minhas andanças. Sou moça simples, eu. Poderia até dizer que sou um verdadeiro caso de alterne. De facto, ora sou executiva ora sou sopeira, ora sou dada à política ora à decoração. Este sábado fui sopeira, femme à menage e com muito orgulho e, pelo meio, ainda fiz uma reportagem fotográfica de modo a satisfazer os meus Caros Leitores que gostam de decoração.

Mas isso é a seguir, no post a seguir a este.

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Aqui agora, alterno de novo e de sopeira passo a alfinetadeira. Ora, então, aqui vai mais uma alfinetadela. Coisa simples.

Depois das limpezas, do banho reparador e do jantar, foi tempo de Expresso.

E que vi eu?

Depois do BES, a PT como não podia deixar de ser. A seguir, outras virão. Quando uma borboleta bate as asas no cu de Judas, alguém aqui espirra. Imagine-se agora se, em vez de uma borboleta, for um colosso e se, em vez de ser no cu de Judas, for aqui mesmo ao pé de nós...? Numa economia frágil, em que o capitalismo é de brincadeirinha e que, em vez de fortunas, há dívidas, cai um Grupo Espírito Santo e um banco como o BES e toda a economia abana. Riscos sistémicos. 

Por enquanto, a coisa fica-se pela guerra aberta na PT e é informação e contra-informação com o Expresso no olho do furacão. 


Se o trabalho dos jornalistas económicos do Expresso tem sido determinante (Pedro Santos Guerreiro a fazer um trabalho que ficará na história do jornalismo português; João Vieira Pereira a sair da casca e, entre umas tacadas de golf que eu bem o vi lá no Expresso/BPI, lá consegue assinar crónicas cada vez mais veementes), há agora o risco de serem instrumentalizados. Começamos a ver mails e comunicados de um e outro lado, Ricardo Salgado e advogados, brasileiros da Oi, há para todos os gostos. A guerra aqui não é a brincar: é daquelas guerras sujas em que vale tudo. Tomara que 'os homens do Expresso' (nos quais incluo as jornalistas mulheres envolvidas neste trabalho) consigam preservar o distanciamento necessário para verem com alguma clareza no meio das nuvens que vão sendo forjadas e das que existem e são espessas.

O que eu espero é que a justiça aja rapidamente porque fazerem o que fizeram a uma grande empresa como a PT - que não tarda é nada, esfumando-se entre guerras em que ninguém ganha e que deixam o caminho totalmente livre para os accionistas brasileiros que já mandam e desmandam à boca cheia nesta mera subsidiária da Oi - deve merecer punição e da grossa.

O que eu leio, não apenas é uma subserviência cega perante o accionista BES como é, sobretudo, um desrespeito pelas mais elementares regras de gestão e, melhor, uma gestão de faz de conta. Estou mesmo a ver: um senhor faz os taleaux de bord com os dados relativos à gestão. Deve ter umas ferramentas de business intelligence  ou até uma simples folha de cálculo com tabelas dinâmicas, toda formatada, cheia de links,  em que há uma linha para os depósitos do BES. Quando lhe aparece papel comercial do GES deve ficar sem saber o que fazer. Reprogramar aquilo tudo para inserir mais uma linha? Se se mete a fazer isso, ainda acaba por não conseguir entregar a tempo e horas o quadro com os KPIs (KPI=Key Performance Indicator). Portanto, que se lixe, assim como assim, para quem é, bacalhau basta. E, portanto, soma-se o BES com o GES e fica na linha do BES e está muito bem.

Para quem lê os mapas, se é que os lê, é tinto. O que interessa é o glamour da gestão, os contactos, o bom da coisa. Mapas...? Bahhh...

Põe-se a outra questão: mas quem é que autorizou?

Pois, cá para mim, ninguém. Deviam ser renovação de outros que se venceram e, nestes vazios de permissões que existem nestas empresas cuja gestão de topo é essencialmente um faz de conta, ninguém se deve ter lembrado de pensar: 'Espera aí. Mesmo que seja renovação e em condições idênticas, deve ser analisado e autorizado na mesma, porque as circunstâncias podem ter-se alterado'. Pois. Mas, do que se vê, isso já era esperar de mais. Era preciso que houvesse naquela administração alguém que fosse capaz de pensar. E depois, aquilo eram produtos dos Espíritos e toda a gente sabia que os Espíritos é que mandavam na PT e que, se Granadeiro pudesse escolher, até escolhia Ricardo Salgado como irmão.

Quanto à auditoria do Sr. Mello Franco que veio dizer que a auditoria viu tudo o que era suposto ver: claro! Está a falar verdade. Mas o que prova é que, na PT como no BES e em tantas outras empresas, haver ou não haver auditorias é tudo a mesma coisa. Uma treta. O que o Sr. Mello Franco veio constatar é que não está lá a fazer nada.


É como aquelas cenas das certificações de Qualidade, Segurança, Ambiente, Gestão de Recursos Humanos, etc. Tretas. Aquilo até poderia ser uma boa coisa se fosse conduzido por gente inteligente e por gestores a sério. Assim é uma treta. A Administração sponsoriza, claro, porque todos os consultores dizem que é importante que a Administração se envolva. Depois o Administrador arranja um responsável pela Qualidade (idem para a Sustentabilidade, idem para a Segurança, idem para tudo). O responsável* depois vai falar com os responsáveis pelos outros processos. Os responsáveis têm mais que fazer e delegam noutro. O outro não tem tempo para essas merdas e delega noutro. Às tantas quem está a descrever os procedimentos é o funcionário que faz o que faz porque sempre fez e, portanto, relata o business as usual. E passa a letra de forma. Claro que depois a cadeia hierárquica em peso vai receber a descrição do procedimento para a validar. Mas, caraças, quem é que tem pachorra para andar a ler folhas e folhas a dizer como é que se faz uma encomenda ou se faz um depósito a prazo? E vai de cruz. 
(* Digo o Responsável apenas por facilidade, já que o mais frequente, nestas empresas, é serem putos contratados por empresas de consultoria.) 

a fina flor do entulho da gestão em portugal
A partir daí, todas as auditorias vão verificar se as coisas estão a ser feitas conforme estão descritas no procedimento. E, se estão, concluem que está tudo bem. Claro que o procedimento pode ser um disparate ou estar omisso em relação a uma série de aspectos - mas isso não interessa para nada.

Isto é assim em todas as empresas? Não. Felizmente. Sempre que há gestores a sério, gente que sabe o que anda a fazer e que, em vez de querer receber prémios de centenas de milhares de euros a troco de uma gestão de faz de conta, gere mesmo, questiona, quer saber, quer ver, sabe perguntar, isso não acontece. Mas, estou em crer, são excepções nas grandes e mediáticas empresas.

Portanto, a PT foi ao ar sem ninguém dar por isso e agora anda tudo às turras e aos murros na mesa a ver quem é que foi e ninguém faz a mínima. E no GES/BES foi a mesma coisa. 


Soube há pouco que o Montepio também está a ser investigado e tomara que não venha por aí mais outra bronca, mais um Novíssimo Banco - e isto é tudo uma grande vergonha, uma verdadeira bandalheira.

Mas, enfim, volto à cold cow, ao GES/BES.

No Expresso de hoje, aparece uma imagem do mundo em que se sinalizam os locais por onde os Espíritos andaram a circular ou, em particular, por onde o dinheiro andou a viajar.

Contudo, noto que não aparecem as Ilhas Caimão.

Ora as Ilhas Caimão aparecem referidas no site holandês 925.nl como sendo o destino dos milhões de Ricardo Salgado. 


Já lá foram publicados alguns artigos relativos ao escândalo Espírito Santo, artigos que falam da OnGoing e de Nuno Vasconcellos e Maria Alexandra Mascarenhas, falam das empresas no Luxemburgo e na Suiça, falam nas contas furadas, mostram números, desmontam esquemas e afirmam que nas Ilhas Caimão terá Ricardo Salgado qualquer coisa como mil milhões de euros. Coisa pouca. Trocos. 


Cá para mim, parece-me um exagero mas já não digo nada.

Segundo me dizem e quem o diz sabe o que diz o  principal do 527 é advogado, foi redactor-chefe de uma prestigiada revista, é assustadoramente bem informado, amigo de há uma vida de Marc Rutte, o actual PM da Holanda, mas sujeito independente a sério e capaz a sério. Fora isso, comentador da TV, figura do Jet Set, dandy também a sério.

Os textos são naturalmente escritos em holandês mas, a quem não compreenda a língua, dou a dica que me deram a mim: a tradução do google para português é imprópria para consumo mas a tradução para inglês dá para perceber alguma coisa, o suficiente para se perceber que, quem escreve aquilo, documentou-se e não fala de cor.


Do fim para o princípio: aqui, aqui (o tal onde se fala das Ilhas Cayman) e aqui. Acho que falta ainda um mas agora não consegui encontrar.

Conviria que alguém, com tempo, desse uma vista de olhos ao Nine to Five pois pode ser que debaixo daquele angu haja caroço.

O que me dá mais pena, para além da desgraça para tanta gente que não tem responsabilidade nenhuma nestes verdadeiros crimes e se vê vítima*, é a imagem desgraçada que damos de nós próprios lá fora. Parece que isto é um país de terceiro mundo, em que o poder fátuo do dinheiro (que nem sequer existe, já que o que há são monstruosos buracos) a todos corrompe e, além disso, uma cambada de totós que é roubada por um bando de artistas de alto gabarito e que não dá por nada.


* Uma vez mais Henrique Monteiro assina no Expresso uma crónica do mais infeliz que há. Dá-lhe o nome 'Calma, ó vítimas do BES'. Mostrando que, como sempre, não vê um palmo à frente do nariz, põe-se agora a criticar os que criticam a decisão do BdP porque, diz ele, investidores não podem ser comparados com aforradores e quem anda à chuva molha-se. 


Mas, digo-lhe eu, muitos pequenos investidores são como pequenos aforradores, acreditam no que lhes diz a pessoa da agência, acreditaram que o dinheiro aplicado em acções do BES estava seguro e que rendia mais. Mas se é um crime rapar o dinheiro dessas pessoas que não tinham voto na gestão (e estou a referir-me aos pequenos investidores) também é um tiro no capitalismo e, por infame que o capitalismo frequentemente se mostre, é o regime em que vivemos. Tirando os especuladores, a malta do short selling e dos CDSs, quem é que, em consciência, vai voltar a investir no mercado de acções em Portugal? E não pensarão que, se isto é assim agora na Europa, mais vale é estarem quietos? Poderia tentar aqui explicar ao Henrique Monteiro muitos outros aspectos espúrios desta decisão, da forma como ela se revestiu, mas estaria a gastar o meu latim. O Henrique Monteiro gosta de falar de cor, diz o que lhe vem à cabeça, gosta de tiradas de efeito e pouco mais. Não é para ser levado a sério. A chatice é que passa a vida nas televisões a dizer o que diz e, com isso, é capaz de influenciar muita gente.

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Bem, é tardíssimo, fico-me por aqui. Não vou rever porque já não me aguento acordada.
Relembro: sobre decoração de casa de banho e limpezas e mais não sei o quê, desçam, por favor, até ao post já a seguir.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo sábado.


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segunda-feira, julho 28, 2014

Os homens do Expresso e Ricardo Salgado, o BES, o Grupo Espírito Santo: Nicolau Santos, Pedro Santos Guerreiro, João Vieira Pereira. E Miguel Sousa Tavares. E João Duque. E outros de outra comunicação social como Marcelo Rebelo de Sousa. E o Correio da Manhã (mas isso não sei se é bem jornalismo). E os Partidos. E não só.


Volto a um assunto de que já tantas vezes aqui falei: a decadência de um poderoso Grupo económico português que se tem vindo a precipitar a velocidade acelerada, mostrando como entre a glória e a ruína vai um curto passo. Uma família Espírito Santo, até há pouco tão rica, rica demais para poder tombar, é hoje, certamente, um grupo de pessoas em aflição, consumida pela desconfiança e pelo ódio.





E volto ao assunto porque a imprensa, antes tão servil, é agora um cão esfaimado pronto a saltar ao pescoço daqueles a quem, antes, tanto venerava. E, ao lançar confusão e areia, a imprensa tablóide corre o risco de desviar a atenção daquilo que importa.

Por isso, vou começar no Correio da Manhã mas não por muito tempo pois penso que presta um mau serviço ao país e vou antes centrar-me no Expresso, no qual há, apesar de tudo, alguns jornalistas de qualidade. E digo alguns porque outros, jornalistas ou colaboradores, uns por uma razão, outros por outra, nem tanto (e agora estou a cingir-me, em particular, ao mediático caso Espírito Santo).


O Correio da Manhã, que parece estar umbilicalmente ligado ao Ministério Público, revela que o BES emprestou alguns milhões aos Partidos, com o CDS à frente (5.5 milhões?). 


Não sei como é feita a gestão económica e financeira dos partidos. Presumo que tenham como fonte de receitas o que os militantes pagam, que não deve ser muito, e algum apoio vindo do Orçamento de Estado. Como despesas, devem ter rendas e outras despesas de funcionamento da sede, incluindo pagamento de ordenados a funcionários, publicações e publicidade, etc. Não sendo empresas com fins lucrativos, diria eu que deveriam ser capazes de viver com o que têm já que não poderão fazer, como as empresas, diversificação de actividades, 'penetração' em novos mercados. Por isso, causa alguma estranheza que precisem de se financiar em milhões. Por exemplo, o CDS, um partido tão pequeno, precisa daqueles milhões para quê? Não sei. Mas, enfim, parece ser mais um caso de gestão do que outra coisa. Uma organização ou uma pessoa pedir empréstimos à banca não tem nada de mal, sobretudo se os conseguir pagar. Por isso, a capa do Correio da Manhã a mim não me diz nada: parece-me, isso sim, puro populismo jornalístico.

A questão é mais outra: quase toda a gente que exerce uma actividade em Portugal parece que não sabe gerir sem ser com recurso a capitais alheios. Ou seja, tal como digo aqui desde sempre e como fica cada vez mais claro, não foram as pessoas individualmente que viveram acima das suas possibilidades mas sim alguns, poucos, os muito privilegiados de sempre, e as organizações, especialmente as de gestão privada (provavelmente, partidos incluídos). 
Portugal vive em cima de dívida e isso, sim, é um grande problema. Há tempos li na entrevista que Anabela Mota Ribeira fez a António Nogueira Leite uma coisa com a qual estou absolutamente de acordo. Referia-se ele ao contacto que tinha tido com o patrono do Grupo Mello:
O Sr. José Manuel de Mello via sempre à frente de todos os outros. Há uma série de coisas que estão a acontecer que, ditas na linguagem encriptada que ele usava, e que quem trabalhava com ele percebia, anunciou. Refere, candidamente mas de uma forma frontal, que em Portugal as pessoas não gerem activos, gerem dívida – que até aí ninguém tinha dito.

É verdade. E, quando se vive em cima de dívida, vive-se no arame - dependente de tudo, vulnerável, as fracas economias que a actividade vá gerando a serem devoradas pelo serviço da dívida. E vive-se sob o jugo de quem tem o poder para ir dispensando mais uma pinguinha, mais um pózinho. 

Porque se chegou a este ponto? Ter-se-ia que recuar muito na História de Portugal para encontrar as causas e nem seria eu a pessoa mais habilitada para falar nisso.

Um Estado em geral ocupado por fracas elites, por gente que se deixa manipular, incapaz de regular o que quer que seja, o poder na mão de uns quantos, poucos, e muita corrupção, grande e pequena mas disseminada, dinheiro circulando por muitos corredores - esta tem sido, de facto, mais coisa menos coisa e salvo em alguns curtos períodos de excepção, a história da vida deste pobre país.

As empresas francesas, quando orçamentavam grandes projectos para venderem em Portugal, incluíam sempre uma rubrica designada por frais latin. Luvas. Soa humilhante para nós mas era (e até há pouco tempo era assim; agora não sei) indispensável para que se conseguissem ganhar grandes concursos.
Não havia grande negócio que se fizesse que não tivesse que contemplar dinheiros para este, para aquele e para aqueloutro. Por vezes, as benesses percorriam a hierarquia de cima a baixo, tudo agilizado (oleado) de forma generosa. Repito: escrevo no passado porque desconheço o que se passa nos dias de hoje.

E, portanto, uns porque pagaram, outros porque receberam, outros porque trabalham em empresas que são fornecedoras e que não querem perder negócio, outros porque são colaboradores e devem fidelidade à empresa, outros porque são amigos ou familiares, ou por mil outras razões - não puderam falar e, mesmo hoje que tudo se escancara em escândalo e revolta, há pessoas de quem se esperaria que denunciassem ou criticassem factos e o não fazem. 

Numa altura em que o assunto que grita no País é o escândalo e o drama da queda do império Espírito Santo, Miguel Sousa Tavares sempre tão atento à actualidade, não toca no assunto GES/BES. Compreende-se: a sua filha é casada com um Espírito Santo. Eu também teria dificuldade em arrasar publicamente um compadre meu. 



Marcelo Rebelo de Sousa já o disse publicamente várias vezes: é amigo pessoal de Ricardo Salgado, já passaram muitas férias juntos, e é sabido que a sua namorada de longa data, Rita Amaral Cabral, é administradora do Grupo. Como poderia ele falar abertamente? Como poderia ele lançar alertas públicos? Fala apenas em geral, em termos globais e fala agora. Ouvi-o há pouco dizendo que já em 98 afrontou Ricardo Salgado mas não tenho ideia. Desconheço se teceu críticas privadas ou quase privadas mas em privado tudo é possível porque, supostamente, as paredes não têm ouvidos. Sobretudo, é inconsequente. O que importava, perante as dramáticas consequências para tanta gente, era que, atempadamente, se tivesse tentado impedir que tanto mal acontecesse.


[Nota: Falar agora é fácil e meio mundo o faz como se já soubesse deste brutal escândalo há mil anos. Mas a coisa é ainda mais desagradável quando o falatório assume contornos de conversa de vizinha. É o que achei da recente conversa de Paes do Amaral. Paes do Amaral foi casado com uma irmã de Rita Amaral Cabral e, portanto, quase cunhado de Marcelo Rebelo de Sousa. A forma deselegante como, na entrevista que concedeu ao jornal Dinheiro Vivo a propósito da privatização da TAP, envolveu Marcelo Rebelo de Sousa na teia de Ricardo Salgado soou-me a vingança, a mau feitio, a coisa feia, a coisa muito pouco nobre - mas, enfim, por estes dias a nobreza parece andar pelas ruas da amargura]

Continuo. Falo agora não de jornalistas ou comentadores mas, sim, de gestores tidos por excelentes, verdadeiros opinion makers junto de quem se interessa pela boa governance de sociedades. Henrique Granadeiro ou Zeinal Bava eram presença frequente em seminários ou debates, casos exemplares. Contudo, estão nas administrações de empresas que têm como accionista os Espírito Santo - como podem falar, se estão onde estão pela confiança que merecem junto do ex-dono disto tudo? Não podem. Aliás, de forma incompreensível, atiraram para a lama a sua própria reputação, a reputação da PT e estoiraram com as economias dos que acreditavam neles. Um caso difícil de entender e que ainda irá dar que falar.



São exemplos, simples exemplos, porque as ligações são poderosas e inúmeras.



Nicolau Santos recordou na sua crónica do suplemento de Economia do Expresso de sábado: em tempos falou das suspeitas e indícios envolvendo Ricardo Salgado e, por causa dessa ousadia, o Expresso sofreu uma quebra de receitas publicitárias no valor de 3 milhões. O BES é um grande anunciante, uma fonte de receitas relevante para toda a gente que precisa das receitas publicitárias. Não é fácil a uma empresa como aquela que gere o Expresso encaixar uma perda de receitas de 3 milhões. Por isso, antes que alguém falasse, que pensasse bem. Assim funcionam estas coisas.


Por isso, foram poucos os que, em momentos difíceis, tiveram a coragem de romper o cerco. Nicolau Santos, como já antes o disse, tem sido exemplar na forma como rompe os cercos do medo. Esta semana não apenas recorda os que valorosamente têm posto o dever de informar acima de medos ou interesses, como tem a coragem de enunciar as actuações tíbias de Carlos Costa que tem sido tão elogiado por meio mundo e cuja actuação, na prática, tem sido tardia, pouco eficaz, e, sejamos claros, pouco credível.

Nicolau Santos fala também em Pedro Santos Guerreiro, um jornalista de primeiríssima água. Claro na expressão, directo, honesto, pela sua mão têm sido escritos dos mais claros artigos sobre a ruína da família Espírito Santo.


Esta semana, Pedro Santos Guerreiro, faz uma antevisão do que vai acontecer às empresas do Grupo (falências, depreciações, venda, prejuízos para os fornecedores e demais credores, muito desemprego), ao BES (perda de valor, perda de dimensão, provável aquisição por parte de outro banco, anulação da marca BES) e para a família (perda de tudo, ser processada, desagregar-se). Ler Pedro santos Guerreiro é ler a realidade sem photoshop.


Nicolau Santos fala ainda de João Vieira Pereira que acompanhou algumas investigações.

Confesso que, em geral, não me revejo na escrita e nas opiniões de João Vieira Pereira. Parece-me frequentemente errático nas suas apreciações, injustificavelmente crédulo (o que parece acontecer sempre que as promessas vêm do lado da actual coligação), só reagindo perante evidências, aparentando pouca consistência nos seus juízos de valor. Mas, de vez em quando, tem assomos de clarividência e escreve de forma directa, sem brandura. É o caso do que escreve esta semana no seu Bloco de Notas. Não sei exactamente a que se refere quando fala de links mas presumo que ele saiba e, por isso, transcrevo:

O Grupo Espírito Santo era claramente extractivo. Extraía para alguns. Para os seus. Família ou amigos. Não havia bem comum. Havia o bem de um.

Sobre ele girava um império. Os links estão todos feitos. A Durão Barroso, a Paulo Portas, a José Sócrates, à EDP, à PT, e até ao Benfica. Os casos sucederam-se durante anos. Sempre com o memsmo denominador. No palco ou nos bastidores.


Mas a culpa é tanto dele como de quem lá o deixou ficar. Durante anos houve um pacto que ninguém ousou quebrar, ninguém.Por mais que agora venham dizer que sempre avisaram, é mentira! Ninguém teve coragem para o fazer. Ninguém com o poder de acabar com a vergonha.

A vergonha de haver um poder económico que não trouxe prosperidade. E que ajuda a explicar por que razão continuamos na cauda da Europa. O valor criado era apropriado por alguns, os eleitos. E foram muitos os que ganharam no jogo.


Não posso estar mais de acordo. Só lamento que, com a presciência que agora revela, João Vieira Pereira não tenha tido a mesma lucidez nas vezes em que o vi defender, com unhas e dentes, as medidas estúpidas com que Passos Coelho tem vindo a destruir a economia, a aumentar a dívida e a atacar trabalhadores, como se tivessem sido estes últimos os responsáveis pelo estado do País. Mas, enfim, se finalmente, caíram os véus que, por vezes, pareciam toldar-lhe a vista, só posso ficar contente. O país precisa de um jornalismo isento e lúcido.


Exemplo de um cata-vento que diz o que calha consoante sopram os ventos é, em minha opinião, João Duque, justamente o da 'confusion de confusiones'. Chega a ser patético. Esta semana escreve uma crónica, naquele seu estilo que tenta ser humorístico, mostrando que, com a estrutura accionista e a estrutura organizativa (e fiscal), as empresas do Grupo Espírito Santo formam uma teia impossível de rastrear. Pois. Têm razão Nicolau Santos e João Vieira Pereira quando dizem que agora é fácil pisar quem já está no chão. Pois não foi João Duque que, à frente do ISEG, concedeu mais uma distinção a Ricardo Salgado? Em 2013, Ricardo Salgado  não foi prestigiado com o doutoramento "honoris causa" por serviços prestados à economia, cultura, ciência e à universidade?


Transcrevo uma parte de uma notícia de Julho de 2013, assinada por Maria Teixeira Alves,sobre o discurso de agradecimento de Ricardo Salgado ao ser agraciado :
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"Hoje em dia não se pode falar de emprego e crescimento sem ter conta uma visão estratégica sobre o que se passa no mundo", disse [Ricardo Salgado] defendendo a internacionalização. Elogiou o papel do BESI na internacionalização do banco.
"Agrada-nos muito ter contribuído para o aumento das exportações portuguesas", disse.
Ricardo Salgado reforçou o papel do Estado no equilíbrio das finanças públicas para poder reduzir a austeridade ao mínimo e promover o crescimento económico". O banqueiro realçou ainda a importância da União Bancária.
Finalmente elogiou o papel do ISEG, presidido por João Duque, no conhecimento.

Por isso, quanto a João Duque, estamos entendidos.



Mas volto ao muito esclarecedor artigo de Nicolau Santos e, para abreviar razões, limito-me a transcrever:

O BES foi seguramente, nos últimos anos, o banco que mais investiu em publicidade na comunicação social. Essa estratégia nunca foi inocente. Na sua mão tinha sempre a espada de Dâmocles, que levava o director de cada rádio, jornal ou televisão a pensar duas vezes antes de publicar algo desagradável para o banco verde.

A esta actuação aliava uma outra: o convite a jornalistas para irem a conferências de uma semana em estâncias de férias de neve na Suiça ou em França, onde de manhã se ministravam cursos de esqui na neve e à tarde se ouviam especialistas na área económica e financeira. E no verão repetia-se a dose: uma semana num barco algures no Mediterrâneo, acompanhando a Regata do Rei, até que num dos dias se subia a bordo do veleiro (ou será iate?) onde estava Ricardo Salgado para uma conversa descontraída sobre o banco.



Poderia eu acrescentar: Meu Caro Nicolau Santos, acha que esta prática era exclusivamente dedicada a jornalistas ou a estâncias de neve ou náuticas? Quantos directores ou administradores de empresas foram assistir a jogos de futebol aqui, ali e acolá, com viagem de avião, deslocações, almoços e jantares tudo incluído por convite do BES? Poderia juntar alguns exemplos para além do futebol como, por exemplo, torneios de golfe aqui e além mar, ou outros, mais mas isto está longo para além da conta e eu sei que a vossa paciência tem limites.


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Seria bom que se pudesse fazer uma limpeza nos bastidores da política, da economia e das finanças de Portugal, especialmente acabando de vez com a teia que perigosamente, ao longo de muitos anos, se foi entretecendo entre os seus vários agentes. Mas seria bom que isso não implicasse o sacrifício de muitos inocentes. E é disso que tenho receio, é isso que me preocupa. Mas tudo se há-de resolver e, com sorte, os efeitos colaterais não serão dramáticos e a justiça correrá célere para punir os culpados de tanto atraso de vida.

E até lá, até que a justiça faça o que tem a fazer, que haja decência e respeito (inclusivamente por parte da Justiça e dos seus agentes).





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As músicas são, respectivamente, as bandas sonoras dos filmes 'O Padrinho' e 'O silêncio dos inocentes'.

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Nota escrita na manhã de quinta feira, dia 7


Este post, à data a que escrevo isto, já foi lido mais de 22.000 vezes o que me surpreende imenso. Aos que aqui vierem agora permito-me sugerir a leitura do que, sobre o tema, escrevi entretanto, depois de ter escrito o que acabaram de ler:

Aqui

Aqui

Aqui

Aqui

e, já sobre o NOVO BANCO, aqui, e depois disso já outras dúvidas, perplexidades e catatonias de que seria fastidioso continuar a pôr a aqui os links pelo que o melhor, caso queiram, é irem direitos ao blogue em geral, sem destino definido (mas vão com cuidado pois - vou já avisando -, por vezes, perco-me por maus caminhos).


[Já agora: desde o início que venho escrevendo sobre o tema BES mas para não estar aqui a pôr todas as ligações, caso esteja interessado, sugiro que nas 'etiquetas' do lado direito, lá mais para baixo, clique em BES]. 


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