Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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domingo, junho 30, 2019

Crónica de uma noite e de um dia em grande





Passa bem da uma da manhã e só agora começo a escrever. Cheguei com uma tal camada de sono em cima de mim que nem vos digo nem vos conto.

A semana de trabalho foi o que foi e na sexta ao fim da tarde, por felizes circunstâncias, calhou que parte da família teve que ir a um sítio perto da minha casa. Portanto, naturalmente, perguntei se queriam lá ir jantar. E sim. E, assim sendo, naturalmente, perguntei à outra parte se também. E sim. O meu marido, nestas coisas, assim, em dia de semana, sem nada preparado, acha preferível irmos a um restaurante. Eu não. Um restaurante é impessoal. E depois os miúdos são ruidosos e é aborrecido não os deixarmos mexerem-se à vontade. É uma coisa limitada. Não aprecio. Prefiro em casa, para convivermos como deve ser. Encomendámos daquelas pizas gigantes em forno de lenha que têm salmão, queijo de búfala, alcachofras, nozes e outras coisinhas boas e o meu marido foi buscar frangos assados e arroz e eu fiz salada e lavei fruta e pus a mesa. E logo a seguir a casa encheu-se de conversas e crianças a correr e a rir e logo o bebé foi buscar um banco para ver as pizas e depois já um dos mais crescidinhos me avisava que o bebé estava a comer azeitonas e ele, ouvindo, riu e abriu a boca para me mostrar a boca cheia de azeitonas pretas. Como estavam descaroçadas, não me importei. E todos de prato na mão a servirem-se, um apetite de dar gosto, e todos a repetirem uma e outra vez. E conversa e animação. No fim, já sabem que há gelados mas só para quem comer fruta. E, portanto, ao contrário da sequência certa, na minha casa é primeiro a fruta e depois a sobremesa. Depois, claro, quem quiser pode voltar à fruta.

A seguir foram para a sala e, quando estão juntos, é corrida, luta -- uns andam no judo, outros no jujitzu e o mais maluco de todos, ou seja, o meu filho, em tempos andou no judo e no karaté -- e, portanto, inevitavelmente, aquilo descamba sempre em artes marciais. Apesar da barriga a deitar por fora. E isto com o bebé a circular pelo meio, mexendo em tudo. A menina, sem outras meninas para brincar, arranja outras brincadeiras como, por exemplo, com a mãe ou com a tia, a fazer aqueles jogos com um fio preso entre os dedos, muitas vezes com lenga-lenga associada. E então, para ver se acalmavam e sempre com medo que um dia ainda se magoem, pedi que os quatro se sentassem no chão e eu ia dizendo a cada um que respondesse a uma pergunta minha. Um país começado por P sem ser Portugal, um insecto começado por P, uma flor começada por D, uma capital começada por O, um frto começado por N, um rio começado por S, uma serra começada por A. Cada um vibrava a tentar recordar-se o mais depressa possível. Se não soubesse passava a outro mas, lutadores como são, não passavam e desatavam a inventar palavras. Uma risota. Mas adoraram. Não tarda, o quinto pimentinha já ali estará também a fazer o jogo das palavras.

Até que um deles, o mano do meio, resolveu vestir um blusão escuro do primo mais velho, com o capuz todo enfiado na cabeça, e depois foi buscar umas canadianas que estão lá de outros tempos e começou a circular naqueles preparos, os braços enfiados nas canadianas, por vezes empunhando-as como espadas ou lá o que era aquilo. E eu disse: 'Não gosto nada de te ver assim, credo'. Ficava com um aspecto sinistro. E ele disse 'Sou o Darth Vader'. E, de facto, dava ares. Pensei que o pai já o deve ter contagiado: gostava imenso de ver a Guerra das Estrelas e, na volta, ainda gosta.

E depois lá se foram mas já era tarde e ainda houve que dar uma arrumadela ao que ficou. E o meu marido disse: 'Isto tudo é muito bonito mas um gajo não descansa' e eu disse que dizer aquilo é até heresia face à alegria que é estarmos todos juntos. E ele não comentou o que eu disse mas, depois, começou a contar coisas deles. Por exemplo que deu com a menina a comer o gelado, na sala, sozinha. E que lhe perguntou se ela gostava de estar sozinha e que ela respondeu com aquela segurança muito dela, 'Gosto'. E eu pensei que a percebo pois, quando a barafunda é muita, às vezes também me dá vontade de ir durante dois minutos para um lugar mais sossegado. 

Este sábado de manhã resolvemos ir passear para a praia. Estava-se bem. Caminhámos à beirinha da água.

E depois fui ao supermercado e mandei escalar uns robalos e etc. E o meu marido, quando cheguei, disse: 'Fica a casa a cheirar a peixe' e eu disse que se era peixe assado não poderia cheirar a flores. Mas abri as janelas e não ficou a cheirar a nada e estava bem bom. Mas, moída e não sei se com o alentejano branco e fresquinho a cair-me na fraqueza, resolvi deitar-me no sofá a seguir.

Mas é escusado. Logo a seguir chegou uma sms a pedir para anteciparmos o encontro para as quatro. Portanto, deu para fechar os olhos e, logo a seguir, já estava o meu marido chamar-me, que estava na hora. 

E lá fui. E lá voltámos a encontrar-nos com parte do bando.

Fomos para a Decathlon para o menino mais crescido, como teve boas notas, provar bicicletas para ver qual o tamanho e eu aproveitei para lhes escolher uns calções e uns polos e depois foram escolher uma bola para, a seguir, irem jogar à bola no parque e andaram pelos corredores a jogar à bola e é impossível tentar mantê-los sossegados porque não conseguem. Depois foram escolher caneleiras e um escolheu o tamanho M e o outro o L e eu queria que experimentassem e eles que não, que estavam boas, e eu ainda assim, perguntei a uma empregada e ela disse que, para eles seria o S ou, no máximo, o M. E o mais velho veio ter comigo e disse-me: 'Levo o L porque aquilo é tudo negócio'. E eu sem perceber: 'Negócio..?' e ele 'Sim, quer que eu leve o M para daqui por algum tempo já não me estarem boas e ter que vir comprar outras.' A vontade de rir que me deu, quase da minha altura e já a dar-me conselhos destes. Mas lá o fiz mudar de tamanho, também para M, apesar de o ter deixado contrariado por achar que eu tinha ido na conversa da empregada.

Quem conhece as grandes Decathlons sabe que tem sítio para se experimentarem bolas, com balizas e tudo, para se experimentarem bicicletas e triciclos, aparelhos de ginástica e luvas de box, etc. Passado um bocado vi-os virem perdidos de riso, sem conseguirem falar de tanto rirem, dobrados de riso. Só no carro é que consegui, e a muito custo, que explicassem. Riam e eu ouvi 'capacete' e logo os dois se partiam a rir e depois 'menina' e logo se partiam a rir. E depois 'bolada' e riam. E eu: 'Não estou a perceber. Deram uma bolada numa menina? Ou num capacete?'. Nova risota. Olhavam um para o outro e desatavam a rir à gargalhada. Finalmente, quase sem se perceber o que diziam: 'As duas coisas'. Risota. Por fim: 'Uma menina com um capacete' e risota, risota, risota redobrada. Mais: 'A menina nem percebeu o que aconteceu' e quase choravam a rir. E o meu marido 'Ah, então deve ter sido por isso que vi um gajo todo furioso. Devia ser o pai.'. Acabei também eu a rir. Fazer o quê: zangar-me a posteriori...? Já não surtiria qualquer efeito. O meu marido abana a cabeça, encolhe os ombros.

Enfim.

De lá fomos para o parque e foi mais uma futebolada. Jogam bem. 

Depois fomos comer caracóis e eles também pregos. Às oito fomos levá-los a casa. O meu marido disse: 'Os gajos não se cansam'. Depois ele ainda foi à empresa e só depois é que viemos para cá. Noite avançada. O que sei é que, depois de me instalar, adormeci. Ainda tentei que não mas não resisti.

Fiz várias fotografias, algumas delas na praia, e até estou curiosa para ver como ficaram aqueles caranguejos que estavam na areia mas, muito sinceramente, agora não tenho pingo de energia para ir buscar a máquina. Nem energia, outra vez, para responder a comentários. Pingo.

A ver se este domingo recarrego baterias. E se consigo escrever sem ser como nestes últimos dias, às milhentas da noite. 


E agora, com vossa licença, vou pregar para outra freguesia, esperando ter sonhos espirituosos, virtuosos e jubilosos. Mas, para que o vosso tempo por aqui não seja dado por completamente perdido, deixo-vos um vídeo que não tem pitada a ver com nada.

E as imagens com que tentei alindar o texto mostram pinturas de Antônio Henrique Amaral e o que é as bananas ou o que seja têm a ver com o que estive a descrever também é coisa que não estou preparada para explicar. E a música (as bem dispostas Salut Salon com "Wettstreit zu viert") também é muito bem capaz de estar aqui deslocada. Mas tudo bem alinhadinho também é coisa que, neste contexto, me pareceria abusivo. Portanto adiante e passemos ao vídeo: numa escala de 1 a 10, quão sexy você é?

[Antes de ver o vídeo responda por si. Se não souber bem, ponha-se o espelho, olhe-se de través e avalie o seu nível de quentura]

100 People Tell Us How Hot They Are



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E a todos um bom dia de domingo

sábado, junho 29, 2019

O que eles levam com eles





Há temas que, quando aparece uma criança morta à beira de água, se tornam virais e, como tal, toda a gente se sente contagiada. Depois, coisa tão triste acaba por cansar e a gente já nem quer ver tal coisa. já dizemos que é exploração de desgraça alheia, que é falta de gosto tanta fixação na dor dos outros.

E, dias depois, já nem vale a pena falar porque a coisa já passou de moda. E quando a gente vê barcaças transbordantes de gente até parece que já chegou a época dos saldos de refugiados, tal a banalidade daquilo tudo.

E não queremos saber de como as forças políticas de extrema direita -- devidamente adubadas com apoios financeiros e outros tipos de apoio por parte dos Steve Bannons desta vida, hienas solitárias, ou por parte de regimes que preferem uma Europa enfraquecida -- se organizam de uma forma cada vez mais estruturada.

A extrema direita usa sempre a mesma arma: o medo. O truque é instilar no seio da população, numa parte da população, a parte mais inculta, mais vulnerável, mais facilmente influenciável, o medo. Medo seja do que for. Pode ser o medo de ver as ruas invadidas por gente desempregada, faminta, mal vestida, falando línguas incompreensíveis, pode ser o medo de ver os impostos aumentados para pagar a integração de refugiados, medo que, entre os refugiados, venham meliantes, terroristas. Medo. E eles, os salvadores da pátria, as mamãs (como a Le Pen), os papàs´s (como o Salvini), aparecem como os que afastarão os medos, protegerão os 'puros', os nacionais, contra os intrusos, contra os bandidos que querem entrar no país para roubar o que pertence a quem já lá está.

Com maldade suprema, Trump separa pais de filhos, trata seres humanas como se fossem animais,  seres humanos cansados, esfomeados, gente que apenas procura uma vida melhor para si e para a sua família. Mas não são apenas as fronteiras americanas que são palco de verdadeiros atentados humanitários nem é apenas Trump que é algoz. Cada um à sua dimensão mas a verdade é que culpados somos todos os que fazemos de conta que não existe.

Existe. E a indiferença com que aceitamos campos e campos de refugiados a perder de vista, uma coisa que nos deveria envergonhar, ou que aceitamos que milhares de pessoas façam quilómetros e quilómetros a pé para alcançar sabe-se lá o quê ou que aceitamos que o tráfego de armas e outros interesses geo-económicos prevaleçam sobre o respeito pelas populações, torna-nos também culpados.

A abstenção brutal nas eleições europeias é outra que nos deveria envergonhar. Como culpar a União Europeia de assistir impávida e serena a que tanta gente morra afogada no Mediterrâneo quando nem para votar nos demos ao trabalho? Como podemos censurar os que lá estão quando não nos demos ao trabalho de lá pôr quem defenda uma Europa mais humanitária, mais aberta, mais moderna?


Há quem tenha coragem e dê algum do seu tempo para ir ajudar os que estão em situações difíceis. Mas são poucos os que têm essa coragem. Eu nunca tive. De forma racional, penso que problemas desta dimensão não se resolvem com iniciativas individuais, apenas com políticas transversais, integradas, transnacionais. Mas isso sou eu a proteger-me porque sei que, mesmo não resolvendo o verdadeiro problema, se puder levar ensino, carinho e alguma atenção a quem nada tem já será muito. Portanto, é falta de coragem, sim. Mas, se a coragem não está connosco, ao menos que saibamos fazer tudo o que esteja ao nosso alcance para que o assunto do bom acolhimento de refugiados esteja na ordem do dia.

E, se os bons intuitos não vos assistirem, o que também é legítimo, ao menos não esqueçam os motivos egoístas: tal como no outro dia já aqui o referi, quando a natalidade não ajuda a demografia pois que se recorra à imigração. E nada melhor para um país do que a miscigenação: abertura total a todas as nacionalidades, a todas as raças e etnias, a todas as religiões, a tudo. Que se unam, se cruzem, se misturem, se reproduzam, que façam um mundo melhor. 


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As imagens que escolhi mostram pinturas de Carlos Jacanamijoy e é assim colorido que deveria ser o mundo de toda a gente.

sexta-feira, junho 28, 2019

José Alberto Carvalho e Marta Bateira, digo Beatriz Gosta -- perna na perna e muitos sorrisos


Já no outro dia, em contraponto com a falta de graça e de respeito de Ricardo Araújo Pereira, falei na divertida Beatriz Gosta. Fiquei agora a saber que o seu verdadeiro nome é Marta Bateira, tem 36 anos, é designer de moda de formação, rapper e youtuber. Seja o que for, o que sei é que a personagem Beatriz Gosta tem mesmo uma graça muito irreverente e eu, que tenho fraquinho por gente doida, reconheço nela uma ganda maluca. E simpatizo.

Hoje tive um dia um bocado de cão, daqueles dias em que balanço entre também falar alto, se o tom da conversa se eleva sem que o teor seja elevado, ou dizer bye bye, por aqui me desbaldo que para este peditório já dei foi demais. E esta sexta-feira vai começar muito cedo e eu odeio reuniões logo à primeiríssima da manhã e, ainda por cima, o tema não é dos mais apelativos e, portanto, estou aqui também no balanço entre ir já dormir, que é o que devia, ou estar para aqui nisto, a queimar tempo.

E tinha aqui um poema lido por várias pessoas e tudo especial demais mas, desconcentrada como estou, achei que nem devia arriscar pôr o pé em ramo verde. Fica para outro dia.

Portanto, cansada, moída e já a antecipar o caldinho de daqui por umas horas, vou desculpar-me perante quem ontem aqui comentou por não dar responder e agradecer e vou despedir-me com mais um vídeo de Beatriz Gosta, um vídeo cheio de momentos francamente divertidos. 

Não sei se é por viver a ter que resolver assuntos maçadores, entre gente que, de modo geral, se leva muito a sério betinhos bem comportadinhos, ou se é coisa mesmo minha, coisa de ADN, a verdade é que acho que a gente que faz a diferença é a que sabe cruzar os espaços com flashadas de irreverência e ousadia.

Aqui temos a fantástica Beatriz Gosta a pintar a macaca com a Rita Pereira, a Pipoca mais Doce, o Cláudio Ramos, a Leonor Poeira, o Cifrão, a Fátima Lopes e outras pessoas e, sobretudo, o José Alberto Carvalho. Vejam, por favor, até ao fim porque a atrapalhação dele, a timidez e a surpresa dele são hilariantes.




E queiram continuar a descer porque há coisas boas para ver

Esta aqui é que, por mais que treine, nunca serei capaz de imitar


Assim a todos os níveis: magrinha, com dez anos ou, especialmente, cantar como ela. É quase irreal, a Emanne Beasha. Uma menina pequenina, amorosa, uma queridinha -- e, no entanto, quando começa a cantar, percebe-se que um anjo pousou naquele palco.

Ouve-se e não se consegue acreditar. Parece não ser possível que de um corpinho assim, com aquele rostinho inocente de menina bonita, saia uma voz assim.

Como será quando cresecer? 

Se no vídeo do post abaixo assistimos a um momento inesperado e de alto risco, neste aqui, igualmente inesperado, o risco é outro: o de nos emocionarmos.

Emanne Beasha

Ora aqui está uma coisa que tenho mesmo que começar a treinar


Duvido que arranje cobaias para o período de aprendizagem. Na volta, vou ter que arranjar um boneco. Mas não faz mal. Serve na mesma. O que é preciso é aprender, treinar, treinar, treinar.

Agora uma coisa vos digo: quando estiver uma pro, passo, sem medo, ao ser humano. 

Numa reunião, quando a coisa não estiver a soar-me bem, saco das naifas, deito-me no chão ou, mesmo, em cima da mesa, tiro um dos sapatos, alço a perna, enfio uma naifa entre o dedo grande do pé e o seguinte, faço pontaria ao parvo... e pimbas, disparo a naifa para lhe passar a milímetros. E disparo uma e outra e outra vez até o parvalhão ficar petrificadinho de medo, sossegadinho, sem mexer um pelo, sem um pio, sem sequer conseguir engolir em seco. Neutralizadinho da silva.

Qualquer coisa na base do que aqui se vê no vídeo abaixo. Mas vejam até ao fim.

E, no fim do vídeo, imaginem que quem ali está não é aquela jovem e fogosa mulher mas a vossa Sta UJM.  E digam se tinham a a coragem que o Simon teve. Tinham, tinham... 


quinta-feira, junho 27, 2019

Oscar e Valeria e todos os outros que tentam atravessar montanhas, desertos, rios e mares na esperança de alcançar um mundo melhor


É fácil a gente comover-se. Daí, é fácil a gente evoluir para a revolta. E ,se muita gente se comove e revolta, mais fácil é sentirmos que fazemos parte de um movimento colectivo que se comove e revolta com a situação, sentimo-nos confortáveis com a causa comum. E a causa comum esgota-se nisso, em comovermo-nos e em revoltarmo-nos. Ou seja, na realidade é uma causa inútil.

Difícil é sermos racionais, consequentes. Difícil é percebermos que escolhas devemos fazer para poiarmos quem saiba evitar que situações como as que nos comovem e revoltam voltem a acontecer.

Falo, neste caso, em defendermos, no nosso país, políticas de acolhimento de refugiados, falo em termos programas de acolhimento para crianças sem família, falo em termos políticas articuladas e sérias de imigração. Falo em não cedermos a populismos, em não ficarmos revoltados se o Correio da Manhã fizer reportagens a dizer que os nossos impostos servem para pagar casas para estrangeiros, sem cuidarmos de saber que os estrangeiros em questão são, afinal, corajosas pessoas que fugiram da guerra, da fome, da violência. Falo em escolhermos quem nos represente na União Europeia para defender a mesma coisa em todos os países da UE. Falo em apoiarmos quem, na UE, quer fazer frente aos Salvinis deste mundo. Falo em transformar a nossa comoção e revolta em coerência.



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Volto aqui para dizer que, depois deste, comecei a escrever outro post dedicado aos livros mas, à medida que ia escrevendo, ia pensando que não deveria publicá-lo senão este iria já lá mais para baixo. Há alturas em que temos que pôr de lado o nosso egoísmo. Apetecia-me escrever mas, na realidade, estaria a relativizar a importância do tema deste post. Não a importância do post que os meus posts valem zero. Mas o tema, esse, sim, é importante. Sem a nossa atenção, cuidado e alguma abnegação tudo continuará igual, imensas correntes de gente a enfrentar o perigo, tantas vezes soçobrando pelo caminho, tantas vezes devolvida como mercadoria indesejável, tantas vezes agredidos, tantas vezes separados dos seus. Por isso, é com este post que termino a minha jornada: desejando que o mundo rico acorde para a necessidade de acolher os que fogem da guerra, do medo e da pobreza.


quarta-feira, junho 26, 2019

Apesar das tormentas,
para sempre voamos
século após século no ressalto dos ventos





Há um aspecto nas cidades portuguesas que é muito diferente do que se pode encontrar noutras cidades europeias. Não precisamos de ir muito longe, basta ir aqui ao lado, a Espanha. Se estivermos depois das cinco da tarde na Plaza Colón ouviremos como que um muito sonoro chilreio: são crianças. Montes de crianças. Correm, brincam, chamam umas pelas outras, riem. Grande parte está com as empregadas, grande parte delas da América do Sul. Mas o que verdadeiramente impressiona é a quantidade de crianças. Numa outra cidade espanhola, aquela que prefiro, em minha opinião uma das mais belas cidades euopeias, San Sebastian, a Donostia do País Basco, também, a partir de meio da tarde, as ruas e os jardins estão cheios de crianças, aqui já muitas com os pais e não tanto com as babás como no centro do Madrid. Em Amesterdão, tenho ideia que é ao longo de todo o dia que se vêem jovens mães ou pais com crianças nas bicicletas. Tantas crianças.

Por cá, durante a semana, pouco se vêem. Não apenas não há muitas crianças como as poucas que há têm que ficar nas escolas até tarde já que os pobres pais têm que trabalhar até tarde e, depois, enfrentar longos e demorados percursos, presos no trânsito.


Se há aspecto francamente descurado por todos os governos, incluindo pelo da geringonça, é o demografia. É certo que tem havido uma ou outra medida mas, reconheçamos, nada que seja efectivo, tudo muito em ponto pequeno, medidas desgarradas, timoratas. E, por isso, não espanta que os resultados sejam tão desoladoramente incipientes.

Uma das filhas da senhora que vai ajudar a minha mãe a tratar do meu pai vive na Alemanha e tem duas filhas pequenas. As licenças de maternidade são extensas, os horários são reduzidos enquanto as crianças são pequenas, o ensino é completamente gratuito, incluindo todo o material escolar, e nem sei que outros apoios tem, pois, volta e meia, quando me contam, fico tão admirada que acabo por não fixar, quase como se fosse uma quimera em que nem vale a pena pensar. Apesar de não ter um emprego por aí além e de ser emigrante, ela não teve qualquer problema em ter uma criança e, pouco tempo depois, uma outra. E quando fala com a mãe, via Skype, está fresca e bem disposta, nunca se queixando de nada.


Um país com muitas crianças é um país com futuro, em que a população pode viver tranquilamente, encarando o futuro com tranquilidade, sem o peso do receio de uma possível falência de sistemas de segurança social. Em países como Portugal, em que há cada vez menos pessoas a entrar como novos contribuintes para um sistema repleto de idosos que vivem cada vez até mais tarde, paira sempre sobre o pescoço, em especial dos que caminham para a madura idade, o receio de que o cutelo do corte das pensões empobreça a sua velhice.

Por isso, é vital que se reforcem todos os apoios ao incremento da natalidade, e que se seja criativo, arrojado, que se tenha uma visão abrangente -- que haja subsídios de apoio ou redução fiscal (o que for mais eficaz) para famílias com crianças, que haja infantários e escolas públicas, obviamente gratuitas, com actividades e horários alargados e funcionando todos os meses do ano, que haja amplo apoio pediátrico, que se reduzam os horários para pais com filhos até aos doze anos, que se fomente o teletrabalho, que haja uns quantos dias para ausências para que os pais possam acompanhar os filhos, que haja também alguns dias para avós que tenham que prestar apoio aos netos.

E estou a escrever ao correr da pena. Mas que se abra um debate público, que se faça um inquérito junto de jovens pais para saber quais as suas dificuldades e outro junto dos que não têm filhos para saber o que receiam.

Dir-me-ão que receiam os ordenados baixos o desemprego. Claro. Mas isso combate-se com uma economia pujante -- e é outro lado da equação. 

E não é apenas para a sustentabilidade dos sistemas contributivos que é indispensável ter um equilíbrio demográfico: é também porque cidades sem crianças pequenas e sem jovens irreverentes são cidades soturnas, tristes. E, quem diz cidades, diz vilas ou aldeias.

E, enquanto não estejam no terreno todas essas medidas e que comecem a produzir efeito, pois que se incentive a imigração.

E aceitem-se miúdos de países em risco, famílias de refugiados com filhos pequenos. E 'importem-se', por exemplo, médicos e enfermeiros.
Não os há que cheguem nos hospitais porque cada vez há mais clínicas e hospitais mas as Faculdades de Medicina são basicamente as mesmas. Como é que os médicos e enfermeiros hão-de ser suficientes? Não são, claro. Mas não é drama: incentive-se a vinda de médicos de outros países. 
Ou engenheiros informáticos, que estão também em falta. Ou engenheiros de ambiente, engenheiros sanitários, engenheiros de materiais, ou físicos ou bioquímicos, ou gente que venha investigar seja o que for. Muita falta nos fazem.  Todos os que cá tivermos serão sempre poucos.

E, já agora: uma vez que começam a rarear muitas profissões, criem-se muito mais escolas técnico-profissionais onde se ensine a ser electricista, canalizador, mecânico, instrumentista, torneiro, etc, para ter oferta diversificada a nível de ensino, incluindo para jovens que não querem fazer cursos superiores.

E outra coisa. Uma muito importante.

Estou a falar de algo que, em meu entender, é vital nas cidades para lhes dar vida, uma vida jubilosa, uma vida com irrequietude de espírito, alegria e criatividade: a arte.

Uma vez escrevi uma carta ao presidente da autarquia com um conjunto de sugestões: que enchesse as ruas de arte, que oferecesse prémios e bolsas para artistas que fizessem trabalhos para a cidade, que tivesse residências e ateliers para artistas vindos de onde quisessem vir, que tivesse galerias públicas.

A arte atrai bons espíritos, atrai mais gente, e mais gente atrai mais trabalho e prosperidade, maior qualidade de vida e maior qualidade de vida é segurança, e segurança e qualidade de vida dá mais vontade de criar família, de ter crianças, de renovar o mundo.

Terras sem artistas, sem arte pública, sem comunidades de artistas vibrantes, criativos, diferentes, são terras tristes, ensimesmadas, com tendência ao esvaziamento, terras com triste futuro.

É outro aspecto fundamental nas políticas públicas: muita arte, arte ao dispor de todos, arte a inspirar todos.

Forte apoio à natalidade, forte apoio à imigração, forte apoio às artes -- são três medidas que espero que estejam bem presentes no programa do próximo governo. Isso a par da defesa do planeta que, espero bem, há-de ser uma das principais causas dos anos que aí vêm.

Claro que muito mais que isto. Bibliotecas públicas abertas de manhã à noite e ao fim de semana, também, por exemplo. E mais, claro. Mas a estas políticas a que aqui dei destaque eu dou total importância. E defendê-las enche-me de entusiasmo, como se tivesse uma suave brisa a tocar-me o rosto, como se tivesse os braços cheios de braçadas de flores, como se tivesse outra vez dez anos e largasse a correr por um sinuoso caminho descendente, a saia voando, os cabelos compridos pelos ares, eu com a vida pela frente, eu ainda nunca desiludida, eu ainda inocente e crente na força da minha vontade.


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E, já agora, queiram dar uma espreitadela a este lugar onde fervilha a arte: Dubai



E outro: Leipzig


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E para o Leitor que hoje chegou aqui depois de ter escrito num motor de busca 'o que é a beleza de uma mulher', aqui deixo uma possível receita:


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Usei pinturas de Georgia O'Keeffe e o Smile pela Madeleine Peyroux para dar alguma graça a este post. O título é um excerto do poema Eternidade de Maria Teresa Horta

E desejo-vos uma feliz quarta-feira

terça-feira, junho 25, 2019

As inteligentes perguntas do PSD a Sócrates.
As úteis e inteligentes Comissões Parlamentares de Inquérito


Ouvi na televisão que os deputados da Comissão de Inquérito à CGD querem lá o Sócrates e, não querendo ele oferecer-lhes o pratinho e optando por responder por escrito, vão enviar (ou já enviaram) perguntas.

Uma coisa meio maluca. Tudo isto é maluco, desprovido de senso. Ao fim de não sei quantos anos, os deputados resolvem acordar para a vida e, virgens de primeira viagem, ficam numa excitação, coisa adolescente, pueril, parvoíce de juventude retardada e bobinha.

Nos tempos áureos da alavancagem financeira, em que as universidades (e polvilhem tudo de um bom catolicismo) ensinavam que bom, mas bom mesmo, era as empresas endividarem-se, endividarem-se até ao tutano, com ou sem garantias palpáveis, em que a publicidade invadia todos os espaços com empréstimos para toda a gente, empréstimos a perder de vista, até para quem não tinha dinheiro nem para mandar cantar um cego  -- nessas alturas, os senhores deputados não viram nada, não juntaram dois e dois. Olhinhos wide closed, como é seu costume. Nem o fizeram os comentadores económico/financeiros que sabem tudo mas só depois de toda a gente o saber. Nessa altura, os senhores deputados haveriam de andar entretidos com outras questões póstumas porque só reagem muitos anos depois, quando do morto já nada resta, só memórias esfumadas.

Nesta altura há questões presentes, profundas, que se não agarradas a tempo impactarão intensamente os tempos futuros mas que é lá isso...? Não são temas mediáticos, não são a espuma dos dias. E os senhores deputados só se interessam pelo que já lá vai. 

Agora que os bancos até já estão razoavaelmente sanados, em que os tempos dos créditos à tripa-forra já lá vão e em que os bancos até se uniram para tentaram, pelas vias normais, ressarcir-se dos buracos causados pelos grandes caloteiros do regime, é que os deputados acordaram e querem saber, ao pormenor, quem é que fez ou desfez nos idos de já nem sei quando. 

Não digo que não haja coisas a saber agora. Há. Por exemplo, seria interessante como foi possível dissolver um grande banco da forma como foi, com ministros de férias e a assinarem de cruz. Ou como foi aquela divisão entre o bom e o mau, em que o bom ficou cheio de coisas más que parece que não cabam e que, agora que o banco foi vendido nem sei bem a quem, é preciso continuar a meter lá dinheiro. Isso seria interessante saber. E não foi assim há tanto tempo. Agora é que seria de questionar a Marilú e o Láparo, ou até a Cristas, amiga, assina lá, enquanto a memória deles ainda estiver fresca. Ou a nulidade do Carlos Costa, esse que passou por todo o lado em que houve buraco sem nunca se ter dado conta de nada e indo acabar no Banco de Portugal onde elevou a sonsice até a um nível de manhosice insuportável.

Mas não. Os senhores deputados armam-se em investigadores, em juízes fora de água e, para ali estão, horas a fio, entretidos com um exercício de auto-exibicionismo e onde também oferecem palco a exibicionistas falhados, a gente que já não se lembra de nada (* e já vos explico porque é que acredito que não se lembrem mesmo), um exercício que volta e meia é de pura prepotência, maldade gratuita e humilhação dos inquiridos, um exercício que dá canal, que garante partilhas nas redes sociais, que alimenta a indústria do comentário político, que alimenta a rábula, a graça fácil -- e que, em termos práticos, não passa disso.

E tudo isto culmina na parvoíce mais completa ao quererem que Sócrates, que deixou de ser primeiro-ministro há oito anos e que, desde então, tem sido escrutinado, virado do avesso, inquirido, inspeccionado, trespassado por raios x e ressonâncias magnéticas, scanneado, espiolhado, bisbilhotado, trespassado, passado a ferro, posto atrás de grades, vigiado à distância e à lupa, agora responda a puerilidades como esta:
Sr. Eng. recebeu quantias monetárias ou outros bens por parte do Grupo BES, Grupo Lena ou Vale do Lobo?
Agora, meus Caros, digam-me: isto não é de gargalhada? Estarão à espera de que resposta? 

Olhem, só me ocorre isto: LOL 😂😂😂😂😂 (a ponto de ir às lágrimas)


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* Por razões que agora não vêm ao caso, não devo conseguir escapar de ser testemunha de um caso que se passou há uns quatro anos. Quando chegou a notificação, chutei para canto. Quando me perguntaram o que sabia eu do caso, a minha primeira reacção foi que pouco ou nada sabia, que tinha acompanhado a coisa já no rescaldo. Foram-me fazendo perguntas e eu fui puxando pela cabeça e, aos poucos, fui-me lembrando de alguns episódios. No outro dia, numa reunião com advogados, tentaram que me lembrasse de mais coisas. Às tantas eu disse que só tinha tido algum envolvimento já o caso estava consumado, para aí a partir do verão de há uns três anos. Uma das advogadas olhou-me como se não acreditasse, dizendo-me que não lhe parecia provável que no prazo de um ano não tivesse havido nada e que eu não soubesse de nada. Um hiato de um ano? Fiquei a pensar que, de facto, era estranho. Mas não me ocorreu nada em que eu tivesse participado nesse período. Fiquei de procurar mails antigos. Pois bem. Resmas, paletes. Tive conhecimento, participei durante o dito ano em que juraria ser-me totalmente alheio. Estive a reler os mails e fiquei perplexa. Não me lembrava de nada de nada de tudo aquilo. Ao reler, claro que as memórias se foram reconstruindo mas, antes, juro: zero. Como explicar isto? Penso que é simples. Para mim, aquilo era marginal. Sendo caso grave, muito grave mesmo, para os lesados e para os directamente envolvidos, para mim aquilo era coisa em que participava sobretudo como expectadora. E, de lá para cá, todos os dias acontecem coisas. Quantas outras crises, quantos outros problemas? Mal de nós se mantivéssemos vivos todos os registos de tudo o que fazemos em todos os dias da nossa vida. Acho que até tenho boa memória e, no entanto, apesar de todo o meu envolvimento naquele caso durante um ano, só me recordava, e sem grande pormenor, do que se passou de há três anos para cá e apenas porque passei a ter intervenção na primeira pessoa. Portanto, acredito e mais do que acredito que aquela gente que vai à Comissão e que não se lembra do que se passou há oito ou dez anos, em reuniões iguais às que se têm todos os dias de todos os meses e de todos os anos, está a falar verdade.

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As duas últimas imagens provêm do mui saudoso We have kaos in the garden

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Não vejo nem ouço o Ricardo Araújo Pereira -- incomoda-me.
Mas acho um piadão à Beatriz Gosta


Em tempos que já lá vão, por alturas dos Gato Fedorento, eu achava piada ao Ricardo Araújo Pereira.

Depois perdi-o de vista e apanhava-o, de vez em quando, na rádio, tenho ideia que era às sextas-feiras na TSF por volta das sete, quando regressava a casa, ele no Governo Sombra. Até que vi que aquilo era sempre mais do mesmo, parvoíce em cima de parvoíce. Salvava-se o Mexia mas, ainda assim, era muito relativo pois no meio de muita parvoíce até o mais atilado se afoga.

Quando passou a dar na televisão a horas razoáveis ainda tentei ver. Impossível. O João Miguel Tavares atentava contra a minha sensibilidade: sempre no registo do popularucho bacoco, tentando graçolas e trocadilhos mas sempre básicos e parvos demais e, pior, obsessivamente agarrado ao Sócrates. Uma fixação doentia que, digo eu, mereceria uma ida ao psiquiatra. Pelo contrário Marcelo aprecia o estilo e guindou-o a comissário do Dia de Portugal, arruinando a reputação do Dia de Portugal. Mas, enfim, adiante que esse não é o tema de hoje. Voltando ao Governo Sombra: outro que também me causava brotoeja era o Ricardo Araújo Pereira numa acelerada deriva no sentido da alarvidade primária, do disparate, do populismo mais rasteiro. Portanto, também não consegui acompanhar.

Agora está creio que na TVI e, sem querer, apanhei-o de raspão um domingo destes. Uma vergonha. Não apenas o achei cobarde, coisa que se vem acentuando, gostando de achincalhar pessoas detidas e fragilizadas, como não consegui suportar a falta do mais elementar bom gosto. A boçalidade dos que gostam de saltar a pés juntos sobre os que estão caídos por terra sempre me incomodou muito. 

Naquela contabilidade que há dias por aí vi e que confirmava o óbvio, que a gente de direita avençada pelas televisões supera a de esquerda, não sei onde encaixaram o RAP. Mas se não o puseram na direita espero que o tenham posto na secção dos tóxicos, dos que fazem mal à higiene mental, dos que não sabem o que é a elegância. Ou seja, dos que não sabem estar. 

Em contrapartida, acho um piadão à Beatriz Gosta. A moça tem pinta. Tem graça. É espontânea. É irreverente. É truculenta. É divertida. É inteligente. É do povo, do povão. Desbocada.

Dir-me-ão: o registo é outro. Claro que é outro -- e ainda bem.


E, do que até hoje lhe vi, não ofende, nem as suas 'vítimas' nem a inteligência de quem assiste. Por acaso, do que tenho visto, aqueles contra quem ela investe até são os primeiros a desatar a rir.

Alguns exemplos das suas gostosas intervenções no 5 para a Meia-Noite.







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E já cá volto que, já que o JMT me fez pensar no Sócrates, tenho uma coisinha a dizer.

Até já.

segunda-feira, junho 24, 2019

Velhos não são os que têm muitos anos mas os que não entraram a tempo no comboio dos seus filhos


[daqui]


Ao ler a crónica de Gabriel Garcia Márquez em que fala dos Beatles, 'Sim, a nostalgia continua a ser como dantes', fiquei a pensar que sou uma desnaturada. Por muito que goste de um escritor, de um compositor, de um pintor, de um escultor -- e há tantos de que tanto gosto -- se quiser referir o meu preferido não consigo. Não há nenhum de que consiga dizer de que gosto muito mais do que de muitos outros. Pior: se quiser provar que gosto muito de muitos, começo por bloquear. Parece que não consigo enunciá-los com receio de me esquecer dos mais importantes. Parece que precisaria de um mês inteiro para me ir lembrando, para ir fazendo selecções. E isto parece-me grave: como não ter preferências? Como não ter nomes na ponta da língua?

Claro que gosto dos Beatles. Mas, se quiser escolher qual a música deles que prefiro, assim de repente, nem me lembro. Por facilidade, mero facilitismo, talvez dissesse o Imagine. Mas sei lá se é a que prefiro. Não me lembro é, agora, de uma dúzia delas para as pôr por ordem. E nem sei se a que preferisse seria preferível a algumas de Simon & Garfunkel. Por exemplo, adorava o Bridge over troubled water. E de tantas outras. Ou da Janis Joplin. Adorava. Adorava dançar ao som da Janis, uma loucura. Ou do Bob Dylan. Ou sei lá de quantos mais, tantos.

[daqui]

E porque estou a falar daqueles que me acompanharam quando era menina e moça e não dos que ainda me acompanham, dos que descubro e tanto gosto? Não sei. Se não sou dada a nostalgias, mas é que nem pó, porque é que agora fui atrás da dica e me pus a enunciar gente de quando eu era novinha? Devia era pôr-me para aqui a falar dos de agora, dos que nem ouço na rádio tão desconhecidos ainda devem ser. Mas, lá está, vou dizer um ou dois quando são tantos?

Refere o Gabo aquilo de os melhores músicos serem aqueles cujo nome começa por B. Bach, claro. Beethoven, Brahams, Bartók. Claro. Mas não tenho sequer cabeça para discutir se sim, se não, se os Bs são melhores que os Ms, por exemplo. Li divertida sobre os outros que devem ser arregimentados para o inspirado clube dos Bs. Mas só me lembrei deles depois de ler os seus nomes. Mas, de resto, nem sei se faz sentido ter pódios. Para quê?

E quem diz músicos, diz escritores, diz todos os artistas. E tantas vezes me acontece numa dada fase da minha vida não apreciar um autor e anos decorridos ficar estupefacta com a minha insensibilidade de então.

[daqui]

Por exemplo: uma vez, adolescente, ouvi uma música de um tal Bob Dylan e fiquei surpreendida, referindo-o ao meu namorado da altura. Vai ele, no meu aniversário, ofereceu-me o último LP dele. E disse: 'Eu gosto e resolvi oferecer-te porque percebi que ficaste surpreendida mas não sei se vais gostar'. E pôs a tocar. E, de facto, eu voltei a ficar surpreendida, mas fiquei, outra vez, sem perceber se gostava ou não. Alguns anos depois, fiquei surpreendida foi por, na altura, não conseguir perceber se gostava ou não. E isto tem-me acontecido com tudo, escritores, pintores, escultores, bailarinos.

Agora uma coisa é certa: se por vezes sinto nostalgia de algumas coisas como, por exemplo, de dançar apaixonadamente ao som da Janis, de cantarmos todos em coro o Dia de Domingo com a Gal e o Tim Maia, vários amigos a cantarem a plenos pulmões, ao domingo, em casa do Luís que foi o primeiro a ter esse LP, se recordo com alguma saudade a descoberta de Abelaira, de Rodrigues Miguéis, se tudo isso e muito mais, a verdade é que o meu pensamento está sempre mais desperto é para descobrir gente nova, coisas novas. Mesmo que a 'coisa' nova seja um livro velho de um autor que já não está entre nós, como é o caso deste livro que tenho andado a ler e do qual extraí a expressão que usei para dar o título a este post.



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E escolhi a Eleanor e a Lucy apenas porque Garcia Márquez as refere na crónica acima referida.

Mas poda ter escolhido qualquer outra coisa como, por exemplo, do Devendra Banhart o desconcertante: Für Hildegard von Bingen



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E queiram descer um pouco mais caso queiram saber o que penso da Libra, do CaLibra e todas essas gracinhas do senhor Zuckerberg


Libra, a moeda que o império Facebook está prestes a cunhar


Vou vendo notícias aqui e ali mas, para minha admiração, não de primeira página, não de forma urgente, não como tomadas de posição firmes, concertadas, consequentes e ao mais alto nível. E, no entanto, não preciso de invocar a minha intuição para prever o perigo que se está a perspectivar.

Estou a referir-me a mais um passo no caminho 'imperialista' do Facebook. E coloquei aspas por prudência, para que pensem que estou a metaforizar e para que não fechem já isto. 

E, contudo, a palavra império deveria surgir às claras, sem aspas. Zuckerberg e as suas empresas, que já são preocupantemente hegemónicas e que controlam a informação pessoal e as emoções de milhões e milhões de pessoas em todo o mundo, portam-se de facto como se de verdadeiros construtores de impérios se tratassem. Acresce que são também uns piratas com todos os riscos que isso comporta. E, pior, são gente que tem mostrado à saciedade que desconhece o que é a ética. Pior ainda: agem à solta, num mundo que ainda não acordou para a necessidade de regular monstros destes.

Number of monthly active Facebook users worldwide as of 1st quarter 2019 (in millions)


O crescimento da utilização mostra bem a dimensão do Estado Facebook 


A estes valores relativos aos 10 países com mais utilizadores de Facebook haverá que juntar os outros milhóes que não usam Facebook mas usam o WhatsApp e o Instagram

Acresce que todo o crescimento destas empresas (Facebook mais o Instagram e mais o WhatsApp, empresas também suas), a sua política de engolir empresas para que o Facebook seja cada vez mais indestrutível ou para as destruir caso não se deixem engolir, deu agora um passo ainda mais preocupante. Vai ter a sua própria moeda. 

Daqui
E arregimentaram uma série de parceiros, tecnológicos e não só, para parecer que isto não é bem aquilo que parece: uma tremenda ameaça.  E eu vou sabendo disto e pasmo: mas quem tem poder para cunhar moeda não são os países? 

Nem que de propósito, acabo de ouvir o Paulo Portas no noticiário da TVI a falar nisto. E a falar bem. Mas um tema que mereceria destaque foi encurtado pela Judite que quis que ele despachasse o assunto. A falta de tino destes jornalistas é assustadora.

Sinceramente não percebo a passividade dos países perante isto. Quando o sistema financeiro estiver às aranhas perante crises que inevitavelmente haverão de surgir e que, forçosamente, serão de grandes dimensões e com efeitos imprevisíveis (por exemplo, entre muitos outros riscos, tem tudo para poder vir a ser um esquema de pirâmide de colossais dimensões), meio mundo virá dissertar sobre o que se deveria ter feito e não fez, dirão que era óbvio que iria acontecer e surgirão reportagens mostrando as evidências dos riscos que estavam a ser forjados à vista de toda a gente, dizendo que só não viu quem não quis ver. A posteriori são sempre muito inteligentes, os comentadores e os jornalistas de eleição, os especialistas em obituários. 

É certo que já o ministro daqui e dali disseram alguma coisa, quiçá até com alguma veemência, que o organismo de supervisão dos bancos centrais se pronunciou, que o co-fundador veio, de novo, alertar para o perigo do Facebook... mas uma coisa destas não se compadece com luvas de pelica, com reacções avulsas, com afirmações esporádicas, timoratas ou inconsequentes.

Parece que não há estadistas com visão que saibam detectar os perigos e saibam como travá-los a tempo. Mas travá-los a sério: pé na porta, espadeirada a preceito, saltos em cima a pés juntos, e, claro, estratégia e táctica inteligentes, estruturadas, concertadas.

E, note-se, isto não é conservadorismo, reacção dos instalados face aos new comers. Nada disso. É a percepção do risco ao ver o poder de uma organização que interage directamente com 2.800.000 de pessoas (dados de Março deste ano) dispersas por praticamente todos os países do mundo, sem regulamentação efectiva, sem controlo efectivo sobre as suas operações (como o demonstram todos os escândalos que volta e meia vêm a lume)



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Para quem esteja interessado, deixo dois links para artigos no The Guardian:

Libra cryptocurrency: dare you trust Facebook with your money?

John Naughton


The social media giant’s foray into bitcoin territory – with some financial big hitters on board – should prompt suspicion
We’ve known for ages that somewhere in the bowels of Facebook people were beavering away designing a cryptocurrency. Various names were bandied about, including GlobalCoin and Facebook Coin. The latter led some people to conclude that it must be a joke. I mean to say, who would trust Facebook, of Cambridge Analytica fame, with their money?
Now it turns out that the rumours were true. Last week, Facebook unveiled its crypto plans in a white paper. It’s called Libra and it is a cryptocurrency, that is to say, “a digital asset designed to work as a medium of exchange that uses strong cryptography to secure financial transactions, control the creation of additional units and verify the transfer of assets”. (...)
At one level, this looks like the standard reaction of established powers to an unruly disrupter. But before we dismiss it as the predictable huffing and puffing of worthies, it’s worth asking a couple of questions. One: are we comfortable with the idea of a new global currency controlled by a consortium of corporate bosses? After all, central bankers are at least appointed by democratic administrations. But nobody elected Zuckerberg & Co. And two, the biggest question of all: what does Facebook get out of it? At the moment, nobody knows. Stay tuned: this is going to get interesting.
E também:

Facebook's Libra cryptocurrency 'poses risks to global banking'

Phillip Inman and Angela Monaghan


Move could affect competition and data privacy, warns Bank for International Settlements
Facebook’s plan to operate its own digital currency poses risks to the international banking system that should trigger a speedy response from global policymakers, according to the organisation that represents the world’s central banks. (...)

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domingo, junho 23, 2019

Um dia invadido por mistérios -- e um quase desmaio


Árvore queimada em Monchique



Só para dizer que nem sempre uma grande ideia é, de facto, uma grande ideia. Pessoa cuja opinião prezo falou-me na qualidade, na arquitectura e decoração arte nova. Sugeri em casa. Pois que sim, podia ser. Pois bem, para todo o lado desses para que ligássemos, estava cheio. Na net pareceu-me que, por aqui, onde estamos, não, que haveria lugar. O meu marido: não será melhor ligares já? Deixa isso para mim e eu prefiro porque assim informo-me sobre a vista, tiro dúvidas. Ele não, quando liga é a despachar e depois não sabe responder a uma única das minhas questões. Então, como é manhoso, diz que ligo eu pois só assim fico totalmente esclarecida. Mas no dia feriado estive preguiçosa. Só liguei a confirmar na própria sexta. Hélàs, o último quarto fora-se. Incompreensível. Claro que o meu marido teve que se controlar muito para não dizer: 'bem te disse'. E então foi de cernelha: 'eu poderia dizer que bem te avisei que era melhor ligares... mas não vale a pena' ao que esclareci que, vendo-me sem vontade, poderia ele ter facilmente resolvido a questão. Se não quis, não se queixe.


Então tentei outro lugar, fora do complexo termal, moderno, recente, e ainda por cima bem mais caro. Tinha uma suite. Ficou esse, pronto.

Longe de mar, de rios, sem praia senão ao longe -- e, para vê-la, só com o zoom bem puxadinho. Serra. Serra pura. Serra recém-ardida, ainda ar de luto, aqui e ali em recuperação. 

E nós, a toda a hora, muito admirados: tão grande... como é possível estar cheio, ainda por cima numa sexta, dia útil?


Mas é possível: está cheio. E é enorme. Um exemplo de boa arquitectura. Apesar de tão grande, ajustado à orografia. E actividades de campo, caminhada, trilhos na serra, ioga, coisas assim. A garagem é enorme, tem dois pisos, e está sempre cheia. Tem lugares de estacionamento na rua mas também estranhamente cheios. Mas mais estranho ainda: jovens. Essencialmente jovens. Alemães, franceses, espanhóis. Alguns casais jovens com crianças, alguns casais com ar ecológico, outros com ar de artistas, mas a predominância são simplesmente jovens, jovenzinhos ou em casalinhos ou em grupos. O meu marido diz: crianças. Volta e meia, quando nos cruzamos com alguns, segreda-me: mas que idade terão? Uns dezasseis? Olho de soslaio. Talvez não quinze ou dezasseis mas muito pouco mais. Hoje, na esplanada onde jantámos, um casalinho que nos pareceu ser alemão, ao nosso lado, não teria mais que uns dezoito anos. E o hotel, sendo de cinco estrelas, não é nenhuma barateza. Mas cheio. Um mistério. Ao regressarmos agora ao quarto para virmos dormir, no corredor, três jovens, elas de vestido de alças, sem costas e até aos pés, perfumadas, ele um verdadeiro dandy. Riam, no maior divertimento, abraçavam-se. Uma cena digna de filme. Nestas ocasiões tenho pena de não poder fotografar.

E reparem: isto no meio da serra, de uma serra quase toda ardida.


De tarde, fomos passear até ao complexo termal, o tal em que nem um quarto. Muito bonito, muito bem arranjado.

No pátio, sob as árvores, uma boa música, jazz ou por aí. Fotografei antes da música e antes dos veraneantes se instalarem. Inúmeros jovens. Um casal que andaria pelas nossas idades quase destoava ali. Árvores gigantes, majestosas. Tão bonito, tão de sonho.

Pátio entre os hotéis na Estância Termal de Monchique

Andamos perplexos. Vêm lá das Europas para se virem enfiar aqui no meio da serra, ainda só agora o verão começou. Ocorreu-me: será isto do planeta?

O meu marido disse que só se for. O amor ao planeta, a vontade de viver de forma saudável, na natureza, um turismo diferente.

Seja o que for, penso que deve ter muito a ver com esta interculturalidade, esta liberdade de movimentos, esta via verde para os jovens estudarem em qualquer país da UE, para se deslocarem a baixo custo. Um mundo aberto, alegre, talvez mais consciente da finitude dos recursos à nossa disposição.

Rua em Monchique

E para nós é muito bom: o turismo cria postos de trabalho onde os não haveria não fossem estes hotéis bonitos e bons. E não apenas nas grandes cidades ou nas praias: também aqui, quase no meio do nada.

E para a economia também é bom: uma verdadeira alavanca de liquidez. E culturalmente é dos melhores antídotos contra o chauvinismo.


E eu, de manhã, estreei-me no ioga. Ao princípio, tudo bem, Claro que quando cruzo as pernas, os joelhos não tocam o chão, claro que, ao sentar-me de pernas bem esticadas e abertas, se me dobrar sobre elas, fico longe de conseguir chegar com as mãos aos pés. Claro que, ao fim de estar a fazer respirações, já não me lembro se a barriga enche na inspiração e esvazia na expiração ou se é o contrário, porque no ioga se respira com a barriga e não com o peito. E depois aquele ritmo. Lento. Lento. À socapa, abria os olhos à espera que houvesse algum movimento e, para meu desânimo, tudo muito compenetrado, de olhos fechados, ainda naquela disciplina da respiração. Muito em slow motion para o meu gosto. Sinto que preciso de desacelerar mas isto é tão, tão, tão paradinho. E então senti que estava a acontecer-me uma coisa.

Quando faço respiração funda baixa-se-me a tensão arterial. E foi isso que comecei a sentir ali na sala de ioga: aquela coisa de começar a ver tudo branco, a consciència a querer sumir, como que a começar a sentir aquele nem frio, nem quente, aquela quase transpiração na testa. E desidratada. É certo que antes de irmos para o ioga tínhamos andado a fazer caminhada e estava sol e calor e aquele sobe e desce puxa pelo corpo. Mas tinha bebido água. 
Levantei-me discretamente, fui ao fundo buscar a minha garafa, bebi, levei para o pé de mim como aliás, os outros, mais experientes, tinham feito. Mas, mal voltei a sentar-me, senti que estava quase a desmaiar. Segredei ao meu marido que ia sair mas que ele ficasse. E saí. E ele veio logo atrás. Bebi água mas tive que me deitar num sofá que, em boa hora, ali estava. Já não voltei à aula: regressei ao quarto, muito zonza. Portanto, também não fui ao ioga e aos alongamentos da tarde. Queria que o meu marido fosse mas não quis ir e deixar-me sozinha. 

Igreja em Monchique

Fomos passear à vila, vi a bonita igreja (e estava na hora da missa), andámos a ver artesanato, trouxémos um licor regional, mel da serra, biscoitinhos da fruta daqui. E, bem entendido, andei nas fotografias.

De volta, fui ler. Nas espreguiçadeiras da varanda, a ouvir passarinhos, a ouvir as crianças a brincarem lá em baixo e o livro a andar devagar, num lento exercício de degustação.

Convento em Monchique

De manhã, como eu temia, fui despertada bem cedo. Desculpou-se que eu é que tinha deixado os cortinados da sala abertos e que o sol, mal nasceu, entrou no quarto e o tinha acordado. E como, quando acorda, não é capaz de parar sossegado, acordou-me a mim. Ainda tentei adormecer mas, do duche, vinham cantigas (estava numa de José Afonso). E de dia, não deu para recuperar. Por isso, agora para aqui estou mais a dormir que acordada.

Ainda não é hoje que vou poder conversar com os Leitores a quem devo no mínimo um agradecimento ou uma rresposta. Estou mais off do que quando trabalho de sol a sol.


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As fotografias são deste sábado e o Devendra Banhart está aqui porque sim, porque gosto.

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E um belo dia de domingo para todos