Tenho para mim que Bercow foi a personalidade que, no Reino Unido, mais se destacou neste inglório período. Tem sido um fiel guardião da Democracia. Tem sido corajoso. Tem sabido manter o sentido de humor. Mostrou qual o significado da palavra liderança.
Não sei se vai ou não haver Brexit mas, em minha opinião, o que merece respeito no meio do triste carnaval que as terras de Sua Majestade têm exibido ao mundo são as intervenções de John Bercow. Dificilmente haverá outro como ele.
Foi com pena mas, na realidade, sem grande surpresa que soube que Bercow anunciou a sua retirada para breve. Personagem muito cá de casa, não podia hoje deixar de aqui o ter.
No meio da barafunda que os conservadores e populistas lançaram sobre o Reino Unido, era em Bercow que eu via coerência e sentido de Estado, mantendo uma linha de rumo sempre alinhada com o respeito que, na opinião dele, é devido ao Parlamento e, antes do Parlamento, aos representados pelos Deputados, ou seja, ao Povo.
Acresce que tem verbo fácil, raciocínio escorreito, tem bases culturais e elegância na fraseologia, tem agilidade mental, coragem e independência e transmite, a quem assiste de fora, um sentido de liderança, de mestre de cena sábio e experiente. Com um Parlamento desorientado, era Bercow que repunha a linha que não devia ser pisada em alturas em que, por vezes, parecia que já não existia linha nenhuma. Acresce ainda que tem sentido de humor, esse plus com que as pessoas verdadeiramente inteligentes costumam brindar as pessoas com quem lidam. E eu gosto muito de pessoas com sentido de humor, que -- ao contrário de gente ensimesmada e auto-convencida -- são geralmente boa gente.
Não é à toa que Bercow escolheu as datas, não é à toa que disse o que disse nas vésperas da suspensão do Parlamento. Num Reino onde a Majestade a sério manda tanto como a rainha de cera, num Parlamento em que à frente dos Conservadores está um pseudo-avatar do Trump e à frente dos Trabalhistas está um auto-atado e em que os demais partidos não riscam, o processo em que os britânicos se enfiaram, um verdadeiro beco do qual não se vê qual a saída, o futuro é cada vez mais nebuloso e a saída de Bercow uma notícia triste.
Uma palavra ainda para a emoção que revelou ao fazer o anúncio. Mostrou que respeita o lugar onde trabalha, que tem um vínculo relevante com os que lá trabalham e que ama a sua família. E mostrou outra coisa: mostrou que não apenas age racionalmente como é, também, uma pessoa que saudavelmente dá larga às suas emoções.
John Bercow: o anúncio da despedida para breve -- e as lágrimas
Os louvores a Bercow por parte das bancadas
Alguns momentos memoráveis de Bercow
Order!
E a suspensão do Parlamento entre 'Shame! Shame!'
Não é em lágrimas que acabo este post mas acredito que haja muitas lágrimas na despedida de Bercow
E digo 'por lá' sabendo que, num desastre como o que pode estar na forja, não há 'lá' nem 'cá'. Votar por votar ou não votar porque 'são todos iguais' ou ficar em casa porque 'não vale a pena' dá nisto. Quando se dá por ela, está um palhaço no poleiro. E, de novo, esclareço: nada contra palhaços. Só que os palhaços estão fadados para fazerem palhaçadas e para fazerem rir. Ora como um Governo de um País não é um circo, as palaçadas lã são deslocadas. Para além disso, como se dizia no cartoon que aqui partilhei no outro dia, o que se vê é que não há ninguém a rir com as palhaçadas destes imbecis.
Os últimos dias têm sido férteis em produção de estrume por parte destes animais: desde o Trump ao Bolsonaro, passando agora por este quadrúpede de nome Boris, é só porcaria. Mas poderia ser porcaria em escala limitada, apenas o suficiente para os próprios se atulharem nela. Mas não, é tal a quantidade de esterco produzido que desestabilizam o mundo, estragam o equilíbrio planetário, causam danos porventura irreversíveis em todo este frágil edifício que é este mundo que os humanos tão desajeitadamente vêm (des)construindo.
Claro que há gente que fica passada com o que está a passar-se mas, do que se tem visto, não há ninguém com poder suficiente para dar um valente murro na mesa, para virar a mesa, para se pôr ao alto, obrigando a matilha de canzoada a bater em retirada.
Partilho um vídeo onde se podem ouvir algumas vozes revoltadas e, ouvindo-os, resta, ao menos, o consolo de pensar que ainda há alguns sobreviventes desse velho e antiquado regime que dá pelo nome de democracia.
Não vou contar onde estive hoje porque ninguém acreditaria. Se eu não tivesse fotografias nem eu própria acreditaria. Mas não é por não acreditarem que não conto porque se não acreditam, não acreditam, paciência. Não conto porque se, por absurdo, aqui o contasse, o meu marido rifava-me e isso eu também não quero -- a ser rifada que seja por um motivo mais espectacular. Se bem que mais espectacular do que o lugar onde estive não deve ser fácil.
Comigo acontecem-me coisas assim. Até há dois dias jamais me passaria pela cabeça a possibilidade de ali pôr os pés. Mas é que nem por sombras. E, no entanto, por um insignificante imprevisto, apareceu a possibilidade. Talvez um dia, daqui por tempo razoável, eu o refira, coisa en passant. E tenho a certeza que alguém aparecerá a dizer que é mais uma das minhas fantasias. Mas não: as minhas fantasias não são tão delirantes.
O que sei é que com tal programa de festas consegui vir mais cedo para casa e a coisa foi de tal forma fora de qualquer contexto que, quando cheguei, me apeteceu ir passear. Sentia-me como se estivesse de férias, recém-chegada de um outro planeta. Vim a casa buscar a máquina fotográfica e fui laurear e, de caminho, comer um gelado. Andava com o desejo do gelado atravessado desde domingo e, para a criança não nascer aguada, fui dar-lhe um ice cream a lamber.
E agora, aqui refastelada, cheia de indolência e uma certa vontadezinha de estar a milhas, por exemplo em Amesterdão ou a passear de comboio pelas margens do Reno, pus-me para aqui a assistir em directo à palhaçada do brexit -- a malta a votar não e não e não e não, oito vezes não, e uns a rirem-se, outros a não acreditarem, outros passados e outros nem aí.
Eu ainda hei-de, um dia, dar-me ao trabalho de perceber para que é que a Rainha serve, para que é que a agremiação dos Lordes serve e o que é que os conservadores e os trabalhistas andam a fazer para se terem ensarilhado mais do que o enredo de linhas dentro da minha caixa da costura. Será que o espírito das comédias britânicas baixou neles todos e a única coisa que já sabem fazer é imitar os Monty Python ou outros que tais?
Tirando isso, estive a ver o livro que comprei para dar à minha mãe. E, depois de lho dar, logo vos conto. Agora não porque seria deselegante para o livro -- porque, se vai ser presente, deve estar é embrulhado e não aqui exposto. O que posso dizer é que acho que ela é capaz de lhe achar graça porque eu também acho.
Mas o facto de eu achar graça a um livro destes também é um daqueles fenómenos do além para o qual não encontro explicação. E a coisa é ainda tão mais bizarra quanto estou cheia de vontade de começar a pôr em prática parte do que ali se ensina. Mas sem fundamentalismos. Há coisas em que sou fundamentalista (mas não posso dizer quais -- e não posso porque agora não me lembro e não me apetece puxar pela cabeça). Mas nisto de que trata o livro não sou. Se fosse, se levasse à risca, isso violentaria a minha natureza e a minha natureza é sagrada. Sou obra dos meus pais e do acaso e das circunstâncias e este mix é um cocktail que merece respeito.
Resumindo (nb: a palavra 'resumindo' aqui está mal aplicada): há um tema sobre o qual gostava de falar, tema da actualidade portuguesa. Mas é tema pesado e eu, sinceramente, não estou para aí virada. Tema pesado não é coisa que se traga para aqui a uma hora destas e, ainda por cima, depois de um dia como o que tive hoje. Tema pesado deve vir envolto em negrume, pegado com pinças, transportado em carreta. Não é, pois, o momento.
Vou mas é curtir uns bailados. E, calma, curtir mas na base da inocência, nada de curtir na base das mocas. E isto a propósito da JV e do P. Rufino que, por eu nunca me ter pedrado, quase me fizeram sentir uma bota-de-elástico do mais cinzento e maçador que há. Mas é verdade: sou. Botinha, mesmo, das cinzentinhas e tudo. Nem erva nem piela. Nunca. Continuo virgem e, cá para mim, assim continuarei. Aliás, sou muito dada a virgindades. Por exemplo, também nunca me corrompi nem corrompi ninguém. Não que sejam coisas comparáveis. Mas pronto. Foi agora o que me ocorreu a propósito de virgindades. Há também um palavrão, um em particular, que nunca disse. Virgem também disso.
Bem. Vou mas é ficar-me por aqui que isto hoje está ainda pior do que é normal. Que entrem mas é os bailarinos do Nederlands Dans Theater que nunca na vida me vou cansar deles.
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Isabel, hoje deu-me para ir buscar as pinturas de Tawaraya Sotatsu e, como é bom de ver, não têm nada de nada a ver com o que desescrevi. Mas são muito bonitas, não são?
Estamos a viver tempos incríveis. Tudo tão inesperadamente caótico, tão imprevisível e fora de controlo que, quando a coisa parece que vai num determinado rumo, alguém lança uma cartada e vira o jogo tornando os prognósticos ainda mais impossíveis.
A Ana, Lady of Vaz con Cellos, dizia que até é difícil não ter pena de Theresa May, a patareca-mor, e eu concordo. Tudo lhe corre mal, todo o mundo dá patadas, não especificamente nela mas muitas acabam por acertar-lhe -- e sempre tudo à vista do mundo, a malta a rebolar de riso com tanta falta de jeito. E o P. Rufino tem razão, aquilo é uma democracia, aquilo ali é um lugar de gente com muita história e pedigree. Mas mais parecem daqueles aristocratas já com os genes muito ensarilhados, sem noção da realidade, ainda a viverem num comprimento de onda que já acabou no século anterior.
O tempo está em contagem decrescente, a guilhotina a baixar devagarinho e todos incapazes de saberem onde está a saída do labirinto em que se enfiaram.
A pobrezita ali anda a bater a todas as portas e toda a gente a bater-lhe com a porta no nariz. Uma das fotografias do dia é deliciosa: ela e o outro tão patarata como ela. Ela com um corte de cabelo que não correu bem. Ele naquela sua postura sempre tem-te-não-caias. Ela a olhar para ele com ar de galinha desconfiada. Ele com ar de peru velho recosido em vinha de alhos.
O que é que pode sair de bom de um tal par de jarras?
E, no meio desta cegada, desta gente descomandada, continua a sobressair o Speaker. Despudoradamente despenteado, com gravadas criativas, John Bercow dá lições de democracia, de bom comportamento, de graça, de fluência vocabular e gramatical e de etiqueta. Acresce que tem um pulso naquela maltosa que dá gosto. Veja-se este vídeo aqui abaixo para se perceber porque é que gosto deste fantástico mariola (e, calma, mariola no bem sentido).
Bercow defends Parliament after Brexit delay: 'None of you is a traitor'
John Bercow has defended MPs against Theresa May’s accusation that they are frustrating the will of the people over Brexit. Addressing the House of Commons, the Speaker stood up for the right of parliamentarians to vote according to their principles, after the prime minister suggested their failure to back her agreement was responsible for delaying the UK’s departure from the EU.
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Já agora, para quem precisa de relaxar, distender ou meditar:
Aula de Yoga versão Brexit pelo Mestre Sammy J
Sammy J helps us flex our foreign muscles with a brand new flow straight out of Europe.
Biting, bite-sized comedy as Sammy J tackles the big issues of the day, wrestles them to the ground, then submits them to a variety of yoga poses, sporting analogies, and craft activities.
Muito cá de casa, ou não fosse daqueles malucos de quem eu tanto gosto -- malucos com graça, que sabem manejar uma bela frase, que usam a palavra com elegância, provocação, sedução, que sabem que a palavra é arma e muito mais que arma --, John Bercow surpreendeu toda a gente com uma decisão. Disse com palavras completamente british aquilo que eu digo com palavras bem cá das minhas: se a patareca da Theresa May lhe aparecer pela terceira vez com mais do mesmo vai receber ordem de ir é dar banho ao cão. Que já chega. Nem precisa de ser a mesma coisa: basta que seja quase igual. Com ar amofinado, anunciou que já deu demais para esse peditório. Chega. Basta. Xô. Bem que a plateia se levantou em protesto que ele nem aí. Justificou, confirmou, reconfirmou. Se é para lhe aparecerem com mais qualquer coisa para votar pois que seja material fresco, peixe do dia, couve apanhada no dia. Senão, meia volta e andor.
Agora uma coisa é certa: este processo do Brexit vai dar muito filme, muita série. Tem tudo: comédia, drama, traição, suspense, lágrima, gargalhada, soluço, pateada. Ingrediente do melhor. Pitéu assegurado.
E, no centro do palco -- naquele parlamento onde a malta se acotovela, braço com braço, perna na perna, sem poderem estar a ver os posts do face ou a mandar mensagens de uns para outros -- estará Bercow, o despenteado, o das gravatas mais inesperadas, o que grita a plenos pulmões Order! Order!
In a surprise statement to MPs, John Bercow says government cannot bring meaningful vote back to parliament again unless substantial changes have been made to the prime minister's Brexit deal. The Speaker said there had been much speculation about another meaningful vote after MPs expressed concerns about being asked to vote on May's deal more than once
Speaker says May cannot have vote on same Brexit deal
Vou falar do Carlos Costa para quê? Assunto tão velho e relho quanto a incompetência dele. Macaco de rabo pelado, pode ser que saiba governar a sua vidinha mas bancos não é coisa que lhe assista. Não vê, não fala, não ouve. Pelos vistos também não cheira. Pode haver esturro por todo o lado que não lhe cheira. Não sei quem é que alguma vez acreditou que o Banco de Portugal, com ele à frente, estava bem entregue. Eu não. Desde que lhe pus os olhos em cima que vi logo que é daqueles cornos mansos: é o último a saber e, mesmo quando sabe, prefere fazer de conta que não sabe para não ter que se chatear.
Por isso, não vou falar do dito faz-de-conta. Um daqueles faz-de-conta que não desgruda. Vai ter que ser corrido a pontapé porque pelo pé dele já se viu que não sai. Podia ser apenas um macaco de rabo pelado, cego, surdo e mudo mas nem isso, é mesmo daqueles emplastros. Há-de estar em decomposição e ainda a arrastar-se para o Banco. Não tenho paciência.
Volto a dizer: se fizerem a troca do macaco banqueiro pelo artístico homónimo, o Banco fica melhor servido. Há quanto tempo o ando a dizer? Ninguém me dá ouvidos. É uma pena.
Também vou falar do Mário Nogueira para quê? Ouvi esse outro macaco de rabo pelado a gabar-se de ter ajudado a deitar abaixo o Governo de Sócrates. Lembrava ele que é melhor não aborrecerem os professores porque quem se mete com eles dá-se mal. Esqueceu-se de dizer, esse outro emplastro da velha guarda do sindicalismo jurássico, que ajudou a trazer Passos Coelho, Paulo Portas, Relvas, a Marilú e tantas outras sinistras figuras para a ribalta. Esqueceu-se de dizer que, durante o governo do Láparo, o tal que se gabava de ir para além da troika, andou caladinho, bem comportadinho. Não me esqueço disso, ó Mário das Laranjas azedas!
Há classes profissionais que se afastam da estima dos seus concidadãos graças às criaturas que se enfiaram nos sindicatos e de lá não saem. É o caso deste Mário Nogueira, da Cavaca (a chefe dos sindicatos dos enfermeiros) e doutras avestruzes que melhor fariam se fossem aí para o campo enfiar a cabeça na areia.
Mas, juro, para mim, quer o Nogueira quer o Carlos Costa são tão já figuras do passado que já não me apetece falar deles.
Salto, então, para mais uma valente derrota da despassarada da Theresa May que nem sequer estava lá para ouvir a contagem dos votos e assumir mais um abada. O dia do Brexit aproxima-se e aquela gente continua à nora, sem conseguir chegar a um acordo entre eles e/ou com a União Europeia. No meio da mais absoluta desagregação, é, como sempre, Bercow que segura as pontas, que distribui o seu grito de Order! Order!, que manda calar um e falar outro. O vídeo abaixo é mais um momento memorável. Ele, a sua voz e as suas gravatas são de antologia.
Theresa May has once again been humiliated over Brexit after Tory MPs pulled their support for her plans.
The PM’s strategy was left in tatters on Valentine's Day after Brexiteers abstained on her motion, leaving it to be defeated by 303 votes to 258.
E, em mais uma noite de estafa, tendo chegado a casa, outra vez, às quinhentas (e, de novo, incapaz de responder aos comentários nem mesmo para agradecer ao P. Rufino que, romântico como só ele, lembrou belíssimas palavras de Pessoa ou para dizer à JV que aquilo ontem, no fim, assim ao descair, do 'desculpem lá qualquer coisinha' foi mesmo para me armar em passarinha patetinha depois de ter escrito um post nulozinho, coitadinho.)
Esta minha semana tem sido do caneco, não propriamente má mas demasiado preenchida, a passar a correr e eu a correr atrás do tempo, e esta sexta-feira vai ser a mesma coisa. Não posso deitar-me tarde demais porque tenho que me levantar cedo demais.
Por isso, com vossa licença, ficar-me-ei por aqui mas não sem antes me rir com ternura a ver o meu amigo Charlot.
Gosto de comédias inglesas. Gosto do sentido de humor inglês. Gosto quando o humor é servido com aquele british accent que transporta a saudade do verbo e da verve de Shakespeare, gosto de humor imprevisto, improvável, com aquele toque de absurdo, elegância e despropósito que nos predispõe para a diversão.
Tive um colega inglês que era um verdadeiro biltre mas que, não obstante, era um verdadeiro comediante. Aquela ironia desconcertante, aquela irreverência subjacente ao cavalheirismo britânico, tudo nele puxava ao humor. Claro que em público, e quando em modo 'oficial,' era irrepreensível. E essa dualidade ainda era mais divertida.
Nisto do Brexit -- um dos grandes passos em falso da história -- há que reconhecer que há intervenientes dignos de uma boa soap opera. Dois deles estão aqui abaixo: a fabulosa Nigel e Boris.
Um dia que se faça a história deste conturbado período, o filme que daí resulte pode ser visto sob diversas perspectivas e todas elas curiosas. Muito do que é complexo na natureza humana existe em doses elevadas nestas pequenas histórias que habitam este período da história.
Para além dos dois artistas acima, outros dois marcam o ar do tempo nestes dias pré Brexit, um Brexit que talvez nunca venha a existir: a desasada Theresa May que, há que reconhecer, tem a resiliência de uma verdadeira anta, e o indómito e preponderante John Bercow. Este recentíssimo vídeo, de há poucas horas, mostra bem a fibra de que ambos são feitos:
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Mas eu, neste vídeo, para além do meu (sobejamente conhecido) apreço por Bercow, sou forçada a reparar e invejar o colar de Theresa May. Que espectáculo. O que eu gostava de ter um colar assim. Mal empregado colar ali nela. Alguém saberá dizer-me onde se pode arranjar? Capaz de ser um belo presente para o meu próximo aniversário.
O dia, como ontem avisei, foi mais repleto que um ovo. Mas não foi ovinho de codorniz ou ovito da franganita. Não senhor. Foi um big ovo. Ovo de avestruz. Talvez até de dinossauro. De dinossaura new age. E mais que ser big, foi intenso. O chamado ovo intenso.
No fim, alguém me veio perguntar como tinham corrido as coisas. Não quis dar conversa. Encolhi os ombros e disse que achava que sim. Disse-me ele: Está nas suas mãos.
Não lhe disse mas pensei que nunca tanto na minha vida como hoje tinha sentido que, de facto, está nas minhas mãos. Totalmente nas minhas mãos. Uma sensação um bocado estranha. Não posso contar com mais ninguém do que comigo nas decisões, nas orientações. No fim haverá decisão colegial mas sobre o caminho que eu, de minha lavra, tiver traçado. Mas sei lá eu qual o melhor caminho? Posso até saber qual o melhor caminho em geral, mas sei lá qual o melhor caminho para mim? Não sei pensar quando faço parte da equação. Só sei ir em frente, desbravando, fazendo o caminho, sem saber se tenho pernas e braços para a empreitada.
Seja como for, a verdade é que acho que o carro foi posto em marcha e agora para a frente é que é caminho.
Mas como parece que na minha vida nada é em pequena dose, ao mesmo tempo aparece-me mais um caminho, um segundo, num outro contexto, num outro lugar, e pedem-me que o desbrave. E dizem-me: damos-lhe os melhores para a ajudarem na caminhada. E eu sinto-me pequena face à dimensão do que me pedem por um lado e do que, por outro, eu quero fazer.
E talvez porque seja muita intensidade e muito ovo, uma verdadeira omeleta de cenas, a verdade é que hoje, pouco depois de aqui estar, adormeci.
Esta sexta-feira é outro dia especial mas por outras razões e vai começar cedo e, palpita-me, vai ser outro dia dos bem preenchidos. Aqui no meio das sonecas, vou tentando organizar a logística do dia mas porque, enquanto acordo e adormeço, tenho a Clara Ferreira Alves, catastrofista e superior, a falar alto demais -- o que perturba o meu fim do dia -- não estou a conseguir concluir se devo ir ao supermercado à abertura e depois vir a casa depositar os víveres ou se devo tentar vir mais cedo à tarde. E agora que escrevo isto reparo que o Eixo do Mal fez um step in e ocupou o espaço da Quadratura do Círculo que se desbaldou para a TVI e que vai ter o ubíquo Marcelo a abrilhantar a vernissage. Na próxima, para equilibrar, tê-lo-emos ao colo dos paineleiros do Mal. Baralhar e dar de novo.
O vídeo que mostraram no fim do Eixo a ilustrar a cavalice dos juízes que julgam os casos de violação suspeitando da conduta das vítimas é que vi com atenção e foi bom. De resto, tenho para mim que não perdi grande coisa. Para ser bom, tinham que dar banho à Clara a ver se ela larga aquela peneirice aguda que a torna intragável. E isto ela, porque os outros não me assistem.
Antes de começar a escrever isto, e nos intervalos de cair morta de sono, tinha estado a ver mais uma exorbitante e extraordinária intervenção de Bercow, o meu Speaker preferido. Fala bem, ele. No meio do histrionismo e da graça, ele fala bem, frases inteligentes e boas de ouvir. Aqueles ingleses estão marados, perdidos da cabeça, autênticos bifes a andarem à volta do rabo. Aquele parlamento é um carnaval gerido por um Bercow que dá um baile de dar gosto.
Quando aqui me sentei, pus a box para trás para ver aquela maluqueira da Rede no final do noticiário das oito na SIC, aquela cena doida de uma varrida que se desmultiplicou em perfis falsos, enredando meio mundo em histórias inventadas. No fim, viu-se o vulto da criatura a falar com a Conceição Lino: quarenta e tal anos, divorciada, com filhos, professora do ensino básico. Era, então, a tal que se fazia de Sofia (e de irmã e mãe de Sofia e de amiga e de sei lá quem mais) -- Sofia essa que, afinal, era Cláudia que não sabia de nada do que se passava. A dita criatura gastava centenas de euros em telefonemas para simular que era várias, telefones distintos, fingindo vozes diferentes. Coisa assustadora. Gente doida dá com os outros em doidos. Nem sei o que pensar de uma coisa destas. O que move gente assim? O prazer de enganar os outros? São doentes a precisar de internamento?
Pelos vistos o juíz resolveu a coisa condenando-a a indemnizar os queixosos numas centenas de euros.
E agora vou dar três pontos no arraiolos antes de cair de vez para ver se consigo ir para a cama a pé.
E, na despedida, duas adivinhas que a minha menininha mais linda me contou no outro dia:
1. O que é que um pato diz a outro pato?
2. Como é que se faz uma omeleta de chocolate?
E, antes de ir, mais um cheirinho de Bercow, o actor principal da comédia que dá pelo nome de Brexit
[Respostas: 1 - Estamos empatados 2 - Com ovos da Páscoa]
Sempre achei interessante a figura do Speakerof the House of Commons mas, muito mais interessante, desde que é John Bercow que lhe dá corpo. Gosto imenso dele. Tem graça, energia, sentido de humor.
As Europeans on the continent have watched the UK’s Brexit car crash, one figure offered some light relief to those new to the peculiarities of British politics.
The often thunderous pronouncements of John Bercow, the verbose Speaker of the House of Commons, have become the subject of numerous profiles in newspapers, and a fair few highlights videos, shared heavily on social media.
The Dutch newspaper De Volkskrant headlined its profile of the Speaker: “No one on the British island can call ‘order, order’ more beautifully than John Bercow.”
The article went on to suggest “the only order in British politics comes from John Bercow’s mouth in these turbulent days”.
“Louder, boisterous and, yes, more animal than ever, he shouts ‘order, order’, with which the 55-year-old House of Commons Speaker tries to calm down the members of the famous parliament.” (...)
O 'speaker' mais engraçado, mais mal-educado, menos tradicional, mais imparcial. Toda a gente tem uma opinião sobre John Bercow, presidente do Câmara dos Comuns britânica, que recentemente tem feito as maravilhas da imprensa internacional com os seus berros de "Ordem!" e a sua voz rouca e possante no meio das intermináveis negociações para o Brexit
Pode ser que, presentemente, o cargo de Primeiro-Ministro esteja ocupado por uma criatura sem jeito, sem tarimba, sem caco, sem tino, sem calo, sem golpe de rins, sem golpe de asa. Ou seja, uma criatura destituída.
E pode ser que antes disso o que lá esteve também não fosse grande espingarda. E pode ser mil coisas.
Mas, independentemente de tudo isso, acho que aquele parlamento é uma coisa deliciosa de se ver e que aquele Mr Speaker é um bacano -- e isso já todos os que por aqui me acompanham estão fartinhos de saber.
E pode aquele lugar não ter um mínimo de condições -- todos encavalitados em cima uns dos outros, todos perna com perna, todos muito à vista uns dos outros, sem poderem estar a ver a net ou as fofocas no computador, sem sequer poderem pintar unhas -- mas não há lugar melhor para aquelas cenas shakespeareanas, para aquelas rábulas onde a democracia é praticada ou encenada em cada sessão.
Desta vez estavam todos encanitados porque o Speaker, o fantástico John Bercow, não deu uma rabecada num tal por causa daquilo da mouthing stupid woman. Ver as acusações e ver o que ele contrapõe é um prazer.
Para que não digam que sou uma aluada (isto os mais brandos, claro, que os outros apodar-me-ão simplesmente de mentecapta -- e estarão todos certos), hoje vou dar uma de comentatriz.
(Reparem no valentão que dizem ser da Juve Leo
à pancada com um inimigo imaginário. É mesmo mau, ele)
Aqui da parvalheira não tenho muito a dizer.
Parece que prenderam mais oito juve-leos, alegadamente implicados na saudosa sessão de trolha na Academia de Alcochete. Mas sobre o tema falarei quando chegar o dia.
O primeiro milho é para os pardais. Sou mais pela caça grossa. Sei esperar.
Tirando isso, não me ocorre mais nada que hoje tenha merecido simultaneamente a atenção da comunicação social tuga e a minha.
Claro que o tema do dia é aquele que, desde há dias, polariza as atenções mediáticas de todo o mundo. Mas, como sempre que alguma coisa me assusta, só falo quando o susto passou. Entretanto, deixo o palco para a bateria de psicólogos, mergulhadores, técnicos da protecção civil et al. que são altamente especializados em resgates de grutas, mormente os que metem mergulho e crianças e que todos os canais de televisão portugueses contratam à mão cheia. Tal como, nos concursos de talentos, sempre pasmo com a quantidade de gente que canta bem, agora pasmo com a quantidade de gente que em Portugal já resgatou crianças e treinadores de futebol de grutas alagadas.
Mas, dizia eu, não vou falar disso. Não percebo nada do assunto e só quero que tudo acabe em bem. Portanto, nada mais a dizer.
Agora notícia mesmo foi a debandada dos malucos do Brexit do governo da espantadiça e esparvoada Theresa May.
Nada daquilo me assiste e fazem bem os eurocratas em assistirem de galeria à pangalhada que é tudo aquilo.
Aquela tropa fandanga manipulou os eleitores (com a santa ajuda da defunta Cambridge Analytica), levando os bifes a votar a favor do Brexit e, quando se foi a ver, ninguém fazia ideia daquilo em que se tinham metido. Lembremo-nos que, no dia seguinte, o Google quase foi abaixo com a malta toda a perguntar o que era o Brexit.
Depois, foi o que se sabe. Para começo de festa, parte da comandita que mais entusiasmada com a campanha andou mal se viu com a obrigação de pôr a cena em prática, deu de frosques. E no governo, então, tem sido uma festa: uns puxam para um lado, outros para outro, outros para nowhere e outros não fazem a mínima.
Hoje meio mundo comenta o simbolismo da debandada do maluco do Boris, aquele Johnson do cabelinho à fornique-se. Eu, por mim, acho que é irrelevante. Não se lhe conhece trabalho que se veja ou ideia que se aproveite. Mas foi ele e mais dois mangas. Acham que a May é muito tiazinha e muito abécula e que os da União Europeia fazem dela gato sapato. Tretas. Sabem todos que a maioria da população não quer sair. Portanto, aquilo já não é um teatro forçado: é, na verdade, uma ópera-bufa.
A única coisa digna de registo a este propósito foi a gargalhada geral do Parlamento quando a tia May resolveu fazer o elogio póstumo dos debantantes, nomeadamente do Boris. Ela a elogiar-lhe a paixão e os outros na maior das galhofas. Uma cena. E das boas.
Mas bom, bom mesmo, foi aquela intervenção do Speaker, moço que já aqui esteve e de quem nunca me canso. O que eu gostava que um dia ainda tivessemos um bacano destes na nossa Assembleia tão bonita mas tão desinteressante.
A House dos ex-manos bifes pode ser acanhada e sem condições que se apresentem (lembra ao diabo estarem ali todos apertadinhos, uns contra os outros, perna com perna, com os papéis ao colo?) mas é uma festa, um teatro shakespereano.
Mas, enfim, acredito que os britânicos não estiveram nem aí para as macacadas da Théthé e de sua trupe, e quiseram foi ver como se aperaltou a realeza e seus mais chegados súbditos para se apresentarem no baptizado do pequeno Prince Louis, um bebé fofo e querido.
Aqui a comentatriz conta:
Camilla, aquela a quem se imaginam altos dotes em artes não confessáveis -- para tão liminarmente ter passado a perna à Lady Di -- apresentou-se como sempre, com o seu habitual ar meio bardajão-chic e sempre na boa, embora o chapéu quase se lhe enfiasse todo pela cabeça abaixo, uma coisa quase na base do chapéu do D'Artacão.
O eterno putativo candidato a Rei Charles apareceu na boa, como sempre e, também como sempre, a parecer quase da idade da mãe (que, para se preservar para o programa do resto da semana, não deu as caras). E tem a mania de assertoar o casaco e mais valia que não.
A Duquesa de Cambridge, mamãe do três principezinhos, apresentou-se muito bem, muito elegante, muito sorridente -- e desta vez não reciclou nenhuma prévia toilette, deixando as triquitriquiteiras do costume sem fofocas sobre o tema. Dá-me ideia foi que repetiu o toucado mas, como ninguém fala disso, é porque não faz mal. E é bem bonito e um dia que me case a sério, troca de votos com missa cantada e tudo, não me importava nada de me apresentar de virginal e alvo vestido com uma coisa assim na cabeça, com flores de laranjeira e tudo.
O seu marido, o simpático William, cada vez com menos cabelo, apresentou-se de pai amoroso com os dois mais velhos pela mão, a bela e danadinha Charlotte toda coquetezinha, cada vez mais menininha bonita, e o little George sempre com aquele seu delicioso arzinho britanicamente enfadado.
Pippa, a mana do rabo bem desenhado, a tal, se bem se lembram, que quase roubou o protagonismo à mana-noiva-real Kate aquando do casamento dos herdeiros, apresentou-se elegante e pudicamente grávida, a barriguinha discreta sob um vestidinho haut couture. O marido é que se apresentou um pouco esgalgado e com ar precocemente ralado.
O mano de ambas apresentou-se como sempre se apresenta, dandy e bem humorado. A seu lado uma bem humorada amiga com um vestidinho muito Zara, vagamente compensado por um chapelito algo fashion.
Carole Elizabeth, a avó materna de Louis, apresentou-se elegante e decidida as ever, ao lado do seu marido pacholas que mostra muito ter sofrido com aquela mulher e filhas (o filho não lhe deve ter dado trabalho de monta)
A duquesa de Sussex, Meghan de seu nome, apresentou-se elegante, num verde seco discreto e com um chapéu sóbrio e vaporoso que só me dá vontade ter um igual. Dizem que tem as pernas finas demais mas eu acho que lhe ficam bem -- e whatever. Se fosse a peneirenta da Letizia, não faltaria nada para a vermos aparecer com belo pernão, depois de enchertar umas barrigas nas pernas. Mas parece que a duquesa não é dada a isso. Pelo menos so far. O ex-dirty Harry apresentou-se vagamente enfastiado, domesticado comme il fault.
Agora uma coisa é certa: para os batizados os homens da fina flor usam fatos azuis.
Nos anos mais recentes só fui a dois mas não me lembro de ter visto os homens todos de uniforme azulão -- mas uma coisa deve ser a nobreza britânica e outra a portuga. Ou whatever.
E termino trazendo aqui, uma vez mais, John Bercow.
Love, love, love.
Primeiro dando uma valente desanda no dito Boris Troloró
E a seguir dando um valente chega para lá no azeiteiro-pimpão Trump
.......
Até já. Tenho aqui um outro tema para tratar: O sexo entre lésbicas é melhor do que o sexo heterossexual?
Consta que sim.
Mas isso tem tanto que se lhe diga que tenho que arregaçar as mangas.
Ora, com o calor, obviamente já me despi de preconceitos.
Portanto, sem ter como arregaçar as mangas, tenho que ver como deito mãos à obra.
Portanto, se não adormecer antes, já cá apareço para vos contar como é que é.
Senão, paciência.