Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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terça-feira, outubro 31, 2017

Ana Leal e o "cartel do fogo" na TVI.
[Nunca é bonito o espectáculo da necrofagia]


E quando anda o pessoal todo a curtir as altas epifanias, 
  • uns porque foram fazer uma manif e já acham que vão salvar o mundo e, de caminho, limpar a floresta e pôr o Siresp a funcionar que nem um brinquinho,
  • outros porque organizaram uma expedição para ir oferecer uma mobília de quarto, uma de sala, brinquedos e abraços porque abraços é coisa que faz muita falta neste processo,
  • o Presidente Marcelo a distribuir beijinhos e, of course, também abraços e a ameaçar que não vai deixar passar (não se sabe bem o quê), mais parecendo que está a instigar a malta à rebelião passiva (como o outro totó da Catalunha dizia antes de fugir para a Bélgica; ou era resistência passiva? -- olha, agora não me lembro; mas também não interessa) 
  • e até o nosso tão bem conhecido Hugalex a andar pelas terras ardidas, todo prosa, também a resolver o problema distribuindo abraços e palavras benzidas,
eis que nos entra casa adentro um grupo de pessoas a falar da máfia dos incêndios, do cartel do fogo, e kamoves e milhões e mais milhões para aqui e para ali. Uma conversa que, de tão impudica, quase soa a obscena. 

E uma pessoa fica de boca aberta: numa altura de seca extrema, de ventos diabólicos, de terras abandonadas, em que qualquer faísca seria fatal, pode mesmo acontecer que tenha havido uma máfia a atiçar os fogos e, em cima, uma cáfila a esfregar as mãos face aos milhões ganhos? Pode mesmo ter acontecido que os pirocumulonimbos que fazem parecer que o mundo está a acabar tenham tido, na sua génese, a torpe avidez de uma imperdoável súcia? Ou isto será um delírio da Ana Leal?


Ainda não consegui bem perceber de que falam, pois cada um diz coisas para o seu lado e todos negam qualquer coisa. Mas o que me parece é que este assunto é uma fogueira de interesses e ganâncias ateada por longa incompetência acumulada ao longo de anos e, na volta, regada à força de corrupção. Eu, se fosse à mana Vidal, ia rebobinar isto e ver as pontas que por aqui andam pois dá ideia que coisa há, não se sabe é se é exactamente o que estão para aqui a dizer, tanta a raiva de que parecem possuídos. Mas é mesmo capaz de ter mesmo caroço neste angu.

Passo a relatar:


Está um senhor que penso que se chama Ricardo Dias -- e que é o responsável da Everjets -- e que faz lembrar o Macron. Tem um ar normal mas, quando fala, fica com um ar temível. Trouxe fotografias para incriminar (penso que de má gestão) o rival que está em frente. Aviões reparados com paus e atilhos, mostra ele. O outro diz que não tem nada a ver com aquilo.



Quando ele fala do número das horas de voo, ao lado dele, uma Ana Leal de faca na liga e que, tal o fácies, mais parece que está com o diabo no corpo, confronta-o com o número de mortes, desafiando-o quanto à veracidade do que ele diz. Ele não se torce nem se amolga -- mais morto menos morto, mais horas menos horas, mais milhão menos milhão -- e prossegue o seu raciocínio. No entanto, depois diz que também é operacional e que não gosta de ver mortos (e eu penso: bolas, até já estou mais descansada... vai que ele tinha dito que entra em êxtase quando vê mortos...)

E continuam. Neste momento o dito Ricardo fala do negócio dos milhões e diz mesmo assim: 'negócio de milhões' e diz que não são apenas as empresas dos meios aéreos que são os bandidos desta história. E atira com mais uns milhões valentes para cima da mesa.

Agora falam dos projécteis que caíram do céu, aparentemente com explosivos, e o senhor diz que não é do interesse dele atear fogos pois não ganha mais por voar horas a mais.

Já antes, na reportagem, mostraram aquelas coisas estranhas que a GNR vai recolher para analisar.


E na parte que, antes, vi da reportagem o que ouvi é de loucos: aparentemente maus negócios uns atrás de outros e lá aparecem os sempiternos Kamov. Pedro Silveira, um senhor de uma empresa de helicópteros (Heliportugal), dizia que quem assim negoceia ou é incompetente ou corrupto mas que não queria alargar-se porque já está com dois processos às costas, um movido pelo ex-ministro Miguel Macedo e outro pelo Marques Mendes (Terei ouvido bem...? A que propósito o tangerina aparece neste filme...?). O senhor afirma que há muitos anos que diz que há mão criminosa nos fogos mas diz que para ele não é negócio voar. Melhor é não voar e receber. 

E eu, claro, concordo. Já o outro, o Ricardo, dizia o mesmo: receber e não voar é que é bom. Ou seja, receber o dinheiro e não ter que gastar dinheiro com combustível e outras cenas. Também eu preferia receber o ordenado e não ter que trabalhar. Quase coisa de La Palice.

E continuam a falar de milhões para aqui, milhões para acolá. Os senhores da Força Aérea, na reportagem, criticavam toda esta felga, dinheiros mal gastos, um regabofe, que com eles ia ser muito mais barato.

No estúdio, agora, os dois inimigos dos meios aéreos não concordam, e nisto parecem estar de acordo, e dizem que vai sair mais caro e que ninguém vai saber quanto é que custa. Quem os ouça dirá que aquilo lá nas Forças Armadas é o que se quiser e tudo na maior opacidade.

Tudo isto, visto aqui da minha tranquila sala, parece, pois, uma nebulosa de fumo.

E, no meio disto, a Ana Leal, toda destravada, a confrontar agora o Pedro Silveira que está a passar-se com ela, dizendo que ela tem que o deixar falar, e que o estudo dela também tem erros. Ela está capaz de o estraçalhar. Tem uma cara de má que impõe respeito e atira-lhe com desprezo, chispas, palavras e números à cara.

No meio deste braseiro, não consigo tomar partido. De resto, também não conheço a Bíblia; se conhecesse, talvez conseguisse desarrincar alguma tirada que servisse para aqui absolver o dito Pedro, o dito Ricardo ou a mesmo a dita Ana. Assim, limito-me a olhar, perplexa.


Agora que isto já está mais para o fim apareceu o senhor dos Bombeiros todo desnorteado com o Governo porque o Governo parece que anda a querer poupar tostões e agora ele ali ouve falar em milhões. Antes os outros tinham falado em mil milhões para os Bombeiros mas este senhor de que não fixei o nome diz que não é nada disso. Mas não fiquei a saber ao certo de que é que ele se queixa. Fiquei com a ideia que queria que o Costa lhe tivesse dado um abraço e dois beijinhos (e que, lá está, como diria o padroeiro-novo dos desacamisados, vulgo São Marcelo: foi mais uma oportunidade perdida para o Costa).

E agora acabou o debate e o que eu retive é que alguém devia investigar bem tudo isto porque no meio de tanto milhão, mesmo que não haja corrupção, há certamente muito dinheiro mal gasto e, pior, alguma má gestão de meios, aéreos ou outros.


Já agora a ver se o Senhor Presidente, o nosso Marcevito, veste nova camisola e ergue nova bandeira: contra a máfia do fogo marchar, marchar! E, se possível, em português (que há pouco, no carro, bem o ouvi todo franciú, a fazer biquinho para o Juncker).

Apreciaríamos.


segunda-feira, outubro 30, 2017

Jaime Marta Soares, chefe da big corporação dos Bombeiros, PSD e amigo do Bruno de Carvalho
é a nova Ana Rita Cavaco da política portuguesa?
[E, já agora, uma palavrinha a Marcelo para ver se pára de se portar como o líder dos descamisados pois não é de uma Evita que precisamos nos dias de hoje]


Ao virmos no carro, ouvimos aquele senhor a quem chamam dinossauro e que se entrega à defesa dos interesses dos Bombeiros (e digo-o agora em sentido literal e não pejorativo), Marta Soares de seu nome, a ameaçar fazer guerra ao Governo. 


Parece que ficou arreliado com as recomendações da Comissão Técnica que estudou os últimos incêndios e mais ainda por António Costa querer mexer no sector, querer dar formação certificada aos Bombeiros, querer pôr a mão num feudo de que há tempos se fala (e nem vou agora alongar-me até porque, pelo meio, há algumas acusações graves e eu não gosto de me fazer eco daquilo que não está provado). E então, vá lá saber porquê, em plena cerimónia, partiu logo para o desconchavo e desatou a ameaçar o Governo -- mas a ameaçar de um forma feia.


Quem ouvisse Marta Soares diria que estava a falar na qualidade de dirigente desportivo, invectivando o clube adversário e esculhambando, sem decoro, as iniciativas do Governo. O meu marido, sportinguista indefectível, disse: 'É apoiante do Bruno de Carvalho. Está tudo dito'. 


´Depois acrescentou: 'E é do PSD. Daqueles ditos autarcas dinossauros'. Lembrei-me, então. Na altura, quem lhe sucedeu acusou-o do estado de endivadamento limite em que tinha deixado a Câmara. E lembrei-me também de o saber ligado às Comissões Políticas concelhias e distritais e Conselho Nacional do PSD. Portanto, se calhar aqueles inusitados chaimites na voz do chefe dos soldados da paz estão mesmo explicados.


Mas fiquei a pensar: tomara que esta gente não se sinta estimulada com o gás que Marcelo anda a dar nem se sabe bem a quê e que pode ser facilmente aproveitado por quem quem queira entrar numa de bota abaixo. 

É fácil a Marcelo falar como se tivesse sido ungido pelos santinhos para pairar sobre a terra queimada, lares de terceira idade, ruas e ruelas, salões de cabeleireira, e, numa de porta-voz dos descamisados, andar a dirigir bocas a incertos, quase parecendo que os incertos não são senão os membros do Governo. A malta gosta de ter um inimigo e Marcelo, com o que anda a fazer, talvez até apenas porque lhe está na massa do sangue, anda a forjar um, quase como se o Governo tivesse sido o culpado dos incêndios e como se agora, num estalar de dedos, fosse possível reerguer casas, empresas, florestas, e devolver a vida ao que ardeu -- e, não o fazendo de súbito, por artes mágicas, mais inimigo ainda se torne.


Diz Marcelo que vai fazer e acontecer, exigir sem parar e, aparentemente, dirigir. Esquece-se que os portugueses, em maioria, reconhecem que prevenir e reconstruir coisas dessa natureza é competência do Governo. Deste Governo. E que a maioria acredita que Costa vai consegui-lo. 

Os portugueses gostam, quando a emoção aperta, de ter o seu momento mariquinhas mas, uma vez recompostos, apreciam aqueles que arregaçam as mangas e deitam mãos à obra, não os que aparentemente mais não fazem do que bater perna, mandar bocas e fazer selfies transbordantes de smiles.

Não é com beijinhos a velhinhas e abraços a torto e a direito, quase feito Evita Péron, que as zonas queimadas se vão reerguer, nem a desertificação do interior ou o abandono da floresta se vão resolver, nem os incendiários postos a descoberto e tratados, nem... nem...

Naquele seu insano frenesim, se Marcelo não cai na real e não perceber que vai estatelar-se caso continue por este caminho, ainda se torna num factor de instabilidade em vez de ser aquilo que se espera dele. Veremos os Marta Soares desta vida a surfar a onda da demagogia -- e isso é a última coisa que o País precisa numa altura destas. 


Portanto, Caríssimo Senhor Presidente, durma um pouco mais, pare para pensar, modere a franga que existe dentro de si e que está sempre pronta a soltar-se, deixe o Governo trabalhar, transmita aos Portugueses que, nesta árdua tarefa, estamos do mesmo lado. Apreciaremos isso, pode crer.


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Para os que se queixam que ando a falar muito de política e a entregar-me pouco à rêverie, sugiro que deslizem por aí abaixo e vão de visita aos poetas que habitam o meu heaven.

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É verdade, L., in heaven os poetas acompanham os meus passos




Nem sempre possa dar largas à minha imaginação ou à minha vontade. Nem eu nem ninguém, acho eu. A vida vai criando mecanismos para nos cercear, sejam eles económicos, sociológicos, de índole interior ou outros. Acontece-me tantas vezes ter vontade de fazer coisas e ter que me auto-moderar. Contudo, verdade seja dita, sempre que posso dar largas à minha vontade, não alimento receios ou restrições.


In heaven estou, a todos os níveis, em minha casa. Esta é a minha terra, o meu pedaço de chão, o lugar do mundo onde posso ser quase tudo. Aqui inventei caminhos, escadas de pedra, plantei árvores e bancos à sua sombra (que, na altura, era apenas uma ilusão já que as árvores pouco mais tinham que um palmo), sonhei muros onde o vento se detivesse e pudesse ter espaços de conforto e puro desfrute, desenhei uma lareira que seria feita com pedra da montanha, enfiei estantes dentro das paredes e criei um risco de que hoje ainda não me restabeleci, inventei um jardin zen, criei uma capela, enchi telas de pinturas, fiz tapetes de arraiolos, decorei uma casa de banho com parede azul escura, louças pintadas à mão e espelhos dourados... e nem sei que mais. E desenhei paredes onde pudesse ter pinturas e poemas.


Já muitas vezes aqui os mostrei mas o número de leitores vai aumentando e, não me conhecendo de outros posts, acontece que alguns estranhem algumas coisas que digo. Por exemplo, no outro dia contei que um rapaz que lá tinha estado a fazer uns arranjos nos disse que tinha levado a mulher para ela ver e que ela tinha gostado muito dos poemas.


Recebi então mail de uma leitora que me perguntava se eu tinha escrito poemas nas paredes. Respondo aqui: por acaso, sim, L.. Em algumas pintei à mão poemas de Nuno Júdice, Maria Teresa Horta, Herberto Helder. Mas o tempo tem desbotado as cores e as fotografias já não os mostram bem. Um dia vou ter que repintar essas paredes e reescrever alguns poemas, provavelmente outros.


Mas a maior parte da poesia está em painéis de azulejos. Numa oficina de azulejaria mandei fazer painéis uns com poemas manuscritos e outros com reproduções de pinturas. O que mostro é uma parte. O prazer em conceber cada espaço, em escolher os poemas, em dispô-los... isso é das boas, maravilhosas memórias que vivem em mim.


E agora que o tempo já deixou impressas as suas marcas, é com deleite que ando por estes caminhos -- aspirando o perfume das árvores e dos arbustos que rebentam desta terra tão pedregosa e, afinal, tão fértil -- e vou lendo os poemas. É como se os poetas de quem eles nasceram também vivessem aqui e por aqui andem acompanhando os meus passos, guiando-me nas descobertas que sempre faço -- os pássaros, as flores, o desenho que a luz desenha, as sombras nas pedras, o musgo, a caruma, os cheiros, as nuvens, a lua branca, a dourada folhagem, um sino tocando ao longe.


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domingo, outubro 29, 2017

Livros e coisinhas na minha linda estante às ondinhas





Há algum tempo que não arrumo os livros em estantes. Os que lá estão são de outras eras. De entre as estantes, tenho algumas que são mais antigas. De entre elas, a minha preferida. Um móvel envidraçado, curvo. Em baixo é fechado com portas de madeira curvas. Em cima as portas de vidro são também curvas. Quando há cerca de vinte anos mudámos de casa, tive pavor que as portas se partissem. Afinal não foi na mudança mas num dia em que a porta estava presa, talvez um pouco empenada, que um dos vidros rachou. Não descobri quem fizesse cá um igual. Teria que vir de Itália e teria que enviar desenhos com medições precisas. E ficava tão caro que desisti. Um dia tive lá um moldavo a fazer uns arranjos que me disse que havia uma cola que disfarçava. Deixei-o fazer e ficou bem melhor.


Nas prateleiras dessa estante, aproveito a parte curva para colocar as minhas preciosidades. Coisas com algum valor, muitas vezes valor estimativo, ou simples bugigangas a que acho graça. Foi referindo-se a estes móveis que o mais crescido disse ao irmão e ao primo: cuidado, não mexam, não partam nada do museu da Tá. Meu menino querido. Deixou-me pensativa e comovida. O meu marido, volta e meia, diz: coitados dos putos, um dia que tenham que se ver livres disto, não vão dar conta de tanta tralha. 


Nem quero pensar nisso. Quando penso, ocorre-me que, para ninguém passar por esse tormento, o melhor era transformar a casa em 'Casa-Museu da Tá', abri-la ao público, biblioteca mantida por voluntários, residência de artistas, sei lá, qualquer coisa que se mantivesse por si. Não queria que coisas que a mim me dão prazer possam, um dia, transformar-se num pesadelo para os que as herdarem.


Mas reconheço: esta de que hoje vos mostro algumas imagens e outras das minhas estantes são um mundo. Há caixas e caixinhas de toda a espécie e feitio -- caixinhas de porcelana, de madeira, de madrepérola, de vidro, caixinhas de música -- e saleiros, ampulhetas onde o tempo é areia e outras onde é líquido e uma que é apenas metade mas que, apesar disso, conservo, e máscaras, bonecas, gaivotas, flores delicadas, jarrinhas, vidrinhos de murano, estatuetas, relógios, lupas, anjinhos de algodão, cunhos e preciosidades que só eu sei. Há de tudo.


Ainda não resolvi o grande dilema sobre o que fazer aos livros que ainda não li. Se os arrumo, parece que lhes perco o rumo. Mesmo tendo as estantes por 'literatura portuguesa', 'literatura brasileira', etc, etc, etc, ou 'poesia', 'biografias', etc, etc, e, em cada uma, por ordem alfabética, parece que o que lá caia, logo se dissolve.

Portanto, comecei por ter uma estante grande para os não lidos. Como se encheu, arranjei mais outra. Agora estão também sobre um sofá, sobre as estantes baixas, sobre a mesa redonda, sobre duas cadeiras, num cesto largo ao lado do sofá. Não sei como gerir esta questão. Aqui in heaven a situação está mais controlada já que não trago para cá os novos. Nas estantes embutidas na parede do corredor estão os russos e as obras completas dos grandes americanos. Nuns móveis muito bonitos que o meu pai fez (depois de se reformar descobriu o jeito para fazer pequenos móveis de madeira, jeito que, naturalmente, aproveitei), tenho livros de fotografia e de pintura. Nas estantes desta sala estão alguns livros de arquitectura e algumas obras soltas que por cá foram ficando.


Quando andei a fotografar a estante às ondas, fotografei uma outra, mas aí os bonecos que lá tenho são de outra natureza. Não coloco aqui porque destoariam, acho eu. Farei com eles um outro post.

De qualquer modo, também já é bastante tarde. Fico-me, pois, por aqui.

Já mudou a hora. De vez em quando, ousamos fazer isto ao tempo: encurtamo-lo, estendemo-lo. Agora recuámo-lo. Menos mal, o dia é maior.

Como se fizesse sentir manipular o relógio da vida... como se o tempo fosse algo que pudéssemos aprisionar numa ampola de vidro... Não podemos.
Podemos apenas fazer de conta que sim. Mas não faz mal. Nesta nossa vida frágil e passageira todas as ilusões nos devem ser permitidas desde que inocentes e bondosas.

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Cherchez la lune




Recebo um mail. Fala de eu saber viver com ilusão e de como isso é importante para se gostar de viver. Recebo outro que vem de detrás dos montes e que fala do meu modo intenso de falar. E um outro que me oferece palavras lindas, das mais lindas que já recebi. E outro que me agradece e me deseja um bom fim de semana. Sorrio, agradecida eu, feliz pela simpatia que me chega de quem me lê. Um mail tem o título 'abençoada' e é assim que eu me sinto, abençoada pelo que recebo.

E leio outras palavras. Poemas, desabafos, queixumes, sinais, sorrisos, meias palavras, agrados. Gosto do que leio. Se me parece que não vou gostar, não me forço. Mas há casos em que as palavras que leio entram sempre, intactas e luminosas, no meu coração. 

Hoje, enquanto andei entre as árvores, aspirando o perfume do alecrim e dos pinheiros, encantada como sempre por aqui ando, ainda mais encantada fiquei ao perceber, no céu tão azul, uma meia lua branca. Rendilhada, delicada, feita para que nela convirjam os olhares dos apaixonados.


Princesa da Lua. Assim me chamava, às vezes, o meu pai, sabendo que eu gostava tanto da menina da história com esse nome. Sempre gostei da lua. Talvez toda a gente goste da lua. Mas eu gosto de uma maneira muito especial. Conto-vos. Quando estava grávida, à noite, costumava ir para a varanda e, aí, levantava a roupa e deixava que o luar pousasse no meu ventre repleto de vida. Não sei porque o fazia. Nunca me deito a perceber o que faço pois sinto que a percepção dilui a magia e, em algumas situações, a magia é melhor influência que a percepção. Sei que sentia que a luz branca que me chegava da lua era seda e carícia e traria felicidade aos bebés que cresciam dentro de mim -- e, sem o questionar, era isso que eu fazia.

Ambos nasceram no verão. Lembro-me muito bem dessas noites de luar. De noite, bem tarde, calor, muito calor, eu na varanda, tão jovem, um ventre tão bojudo. E eu, tão cheia de esperanças, ali, entregue à luz da lua, quase despida, com as mãos recebendo o reflexo prateado e com ele acariciando a pele morna e esticada para que a suavidade daquela luz branca levasse uma doce serenidade aos filhos pequeninos que, nessa altura, eu ainda não conhecia.


A lua. Eu, uma pequena princesa da lua no meu passado ainda tão presente, eu, ainda e sempre, clair de lune. Eu, aquela cujas palavras deslizam pelo imenso espaço até o vosso olhar as tocar.

Por entre as árvores, escondida, à vista, presente, insinuada, a lua branca e rendilhada. 

Cherchez la lune. Cherchez la femme. 
Je suis ici. Avec vous.

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Andam pessoas a voar no céu



Um calor quase opressivo de tão seco. Aos bombeiros já voltou o helicóptero. Tem bandeira espanhola e deve sair caro mas transmite confiança a quem o vê ali pousado. 

Continua a não ser possível usar a máquina roçadora. O mato devia ser cortado mas, assim, limitamo-nos a cortar pernadas de árvores. Dantes, por esta altura, já o tempo estava mais frio e mais húmido, numa zona limpa, fazíamos uma queimada. Agora não fazemos. Já nem sabemos onde pôr tanto ramo e ramagem. Era bom se houvesse carros que recolhessem isto; mas não há.


O campo está bonito, as cores douram a vegetação. O céu azul, limpo, a visibilidade absoluta até às maiores lonjuras.

Ao fim da tarde, aumenta o número de pequenos riscos brancos no céu. Há um pontinho brilhante à frente que vai deixando atrás um rasto branco. Hoje, em dada altura, contámos cinco risquinhos em simultâneo, três para um lado, dois para outro. Infelizmente nessa altura não tinha a máquina comigo. Mas acreditem que sim: ao mesmo tempo cinco risquinhos voando no céu e eu, aqui, in heaven.


Depois os risquinhos vão deslizando para longe, cada vez mais pequeninos até que desaparecem. Podia ser uma estrelinha com cauda, podia ser um enfeite com que os anjos brincassem no céu. Mas penso que são pessoas que lá vão, pessoas tão pequeninas que de baixo não podem ser vistas. Irão sentadinhas ao lado umas das outras, metidas numa caixinha metálica, e nem devem lembrar-se que, assim, cá de baixo, são coisinhas nenhumas. Só a caixinha onde vão brilha e deita um fuminho branco; delas não vemos nem vestígios, quase menos que longínquos passarinhos.

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sábado, outubro 28, 2017

Palavras de inocência e experiência *





É verdade: volta e meia qualquer coisa em mim parece querer voar de mim. Não sei que parte nem sei situar a razão que o motiva. Nem sei se isso é visível por quem me vê. E, sim, de vez em quando sinto como se uma luz imensa nascesse de dentro de mim e, confesso, revejo-me nela e sinto que nela me reinvento, como que levada nas asas de uma vontade quase desmesurada que nem saberia exprimir em palavras.

Posso, num momento, estar decidida, enfrentando ventos e marés, capaz de derrubar quem me faça frente ou capaz de arrastar quem não consegue mexer-se e, instantes depois, nem sei porquê, sentir um frémito, um secreto impulso, uma vontade de sair por aí a procurar sonhos, a deixar-me cativar por vislumbres de mundos novos, a desligar-me do que não me acende para me aventurar pelo atraente desconhecido. Nem sempre vou para onde a luz me atrai mas só o facto de viver estas sensações me faz sentir renascida.

Não sei explicar de outra forma mas também penso que não vale a pena explicar pois as coisas são como são e as pessoas também. E não nos conhecemos melhor quando nos conhecemos pois todo o conhecimento de si é ilusório e é preferível o desconhecimento assumido a um conhecimento mal percebido. Prefiro, pois, desconhecer-me para, de vez em quando, me surpreender ou, sempre, me assombrar com a vastidão do que gostava de conhecer.


A minha vida desdobra-se e eu desdobro-me dentro de cada vida. Não estou a ficcionar, acreditem ou não. Dentro de cada meu dia cabem-me vários mundos. Curiosamente são mundos disjuntos. Não por minha deliberada vontade mas porque assim acontece e porque talvez eu não o contrarie ou nem saiba como contrariar. Habituo-me bem a cada nova circunstância. A novidade para mim não é estranheza, é confortável abrigo e tentador trampolim. 

Ouvi no outro dia que este é um tempo de excesso e cansaço, que não deixamos tempo a sermos apenas nós. E é verdade. Mas eu sou eu em cada momento mesmo se no instante contíguo me entrego a uma actividade antagónica em relação à anterior. Completo-me com as minhas diferenças. Vou somando vidas. E, no entanto, não consigo falar do passado e dizer 'no meu tempo' porque, genuinamente, sinto que este é o meu tempo e porque, de facto, a minha apetência vai para o tempo que ainda está por vir.

Não olho para trás e não penso que queria ter feito o que não fiz porque sempre fiz o que queria e sempre deixei espaço para fazer ainda mais, o que aparecia à espreita, sem aviso.


E não me sinto mais conhecedora do que os que ainda pouco viveram. E não estou a dizê-lo por dizer. Não. Aprendo com os mais novos, ouço-os atentamente e deixo influenciar-me por eles (quando têm qualquer coisa na cabeça, claro) e, por mais espantoso que possa parecer, sinto-me tão receptiva a tudo quanto os que têm a vida inteira pela frente e isso porque, na verdade, sinto que tenho a vida inteira pela frente. Dure o que durar, a vida que tenho para viver é a que conta e dela farei sempre o meu melhor, como se todos os dias estivesse a iniciar um percurso novo -- porque o que está por viver é mesmo um caminho ainda não percorrido, um caminho novo, uma vida nova.


E isto deveria vir a propósito de qualquer coisa que tinha em mente mas, pelo meio, uma qualquer driving force retirou-me da rota e deixou-me para aqui a falar sozinha. Não faz mal. Também é bom a gente deixar-se ficar assim, a modos que lost in translation, flanando sem destino.

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* O título deste post foi inspirado no título do livro 'Canções de Inocência e Experiência' de William Blake

Fotografias publicadas no The Guardian

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[Sobre o cabelinho pintarolas do ilustre Puidgmont e sobre o pataludo shopinha de masha Rajoy-troloró falo no post abaixo]

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Sobre Puigdemont o que tenho a dizer é que tenho muitas dúvidas de que eu alguma vez votasse num sujeito com aquele cabelinho


Gosto muito da Catalunha. Adoro Barcelona. Para mim aquilo é Espanha. É a Espanha solar, alegre, vibrante. Contudo, eu não sou espanhola e a minha opinião sobre assunto tão obnóxio não é para aqui chamada.

Quanto a Rajoy, à laia de disclaimer, o que tenho a dizer é que não gosto. Não faz o meu género.
E, calma, não é por, a falar, ser xopinha de macha -- que isso até poderia ter graça. 
Não, não gosto porque o acho inábil, babaca e porque aquilo que ele defende não é propriamente a minha praia. 

Nesta coisa, Catalunha versus Espanha, a sensação que tive desde o início foi que quis armar-se em bom, em mauzão, e que conduziu o assunto da autonomia e da independência com os pés. Ou melhor, com as patas porque, de facto, se portou como um autêntico burro.

Mas também não me parece que tenha ponta por onde se pegue que, nesta altura do campeonato, um bocado de um país se meta a besta, numa maluqueira destas, declarando-se independente.

Parece-me uma macacada. Um filme cómico em que o elenco passou a agir na vida real como se estivesse em pleno plateau.

No entanto, o ponto que aqui me traz nem tem a ver apenas com uma magna questão estratégica ou de geo-política: é mesmo a criatura em pessoa. Ou seja, o meu ponto tem a ver com o artista ele-mesmo. Carles Puigdemont i Casamajó. O verdadeiro macaquinho do rabinho pelado e cabecinha despendeadinha mental.


Com aquele cabelinho, aquele arzinho de totó, aquelas declarações redondas que revelam que, a nível de coiso, nem é carne nem é peixe -- a mim não me convencia ele. Mesmo que me vendassem. Acho que o ouvia e, mesmo às cegas, conseguia logo adivinhavar o cromo que ali está.

E mais: não percebo como é que ainda ninguém fez a caridade de lhe dar uma rapada, nem que fosse para a sua conversa soar mais credível.

Assim, bem pode proclamar que é o reizinho da República da Catalunha que, cá para mim, grande parte da malta está a pensar: 'Está bem, está. Deves mas é ter fugido de Rilhafoles, por supuesto. E, caracoles, que lluny vieste parar....'.

E, à falta de melhor, acho que devem é ir buscar o rei-velho aos braços das so called amigas para ver se ele põe alguma ordem na mesa. Apesar das wild caçadas e das surtidas nocturnas e diurnas, se fosse ele a reinar talvez tivesse arranjado tempo para enquadrar Rajoy como devia ser, não tendo deixado levar Espanha para este estado de big enchavilhadela, no qual parece não haver rei nem roque que a salve. Digo eu. Mas, lá está, nem sou espanhola nem prevista.

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E, pronto, é isto.

Ou hoje ou amanhã de manhã estarei de volta. Estou aqui só a acabar uma cena.
Até já.

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sexta-feira, outubro 27, 2017

Marcelo e aquela historinha do escorpião e do sapo.
[Pode alguém ser quem não é?]
E bola para a frente que o tempo não é de tricas mas de construção


Pessoa que conheço bem, comunista dos quatro costados, com liaisons e contactos, sempre disse que o Marcelo não é flor que se cheire e que, mais cedo ou mais tarde, o que ele é haveria de vir à superfície. E lá vinha o facto dele ser afilhado do outro, o Caetano, ou uma carta em tempos escrita. Quando eu rebatia e lhe dizia que não, que, o que o homem tinha sido, já ficara lá para trás, no passado, que as pessoas mudam, que ele até tem tido um papel positivo e construtivo, ele dizia: 'vai ver, espere para o ver depois das autárquicas...'. E eu pensava :'Poças, que má vontade contra o homem... O Marcelo até tem sido um porreirão...'. E ficava a matutar: porque haveria o Marcelo de mudar de registo depois das autárquicas?


Pois bem, eis que, de facto, num inusitado volte-face, Marcelo -- que, repito, sempre tinha tido uma relação de complementaridade com o Governo, parecendo que a Presidência e o Executivo caminhavam a par para puxar pelo prestígio do País e pelo ânimo dos Portugueses -- num momento de tragédia e em que a emoção estava à flor da pele aconselhando a uma atitude de contenção, e em que o Governo estava prestes a anunciar medidas, faz um discurso que parece um violento puxão de tapete a Costa e aos seus ministros.


Mas ainda mais incomodada fico agora, quando leio que, afinal, Costa tinha antes informado Marcelo que a ministra ia sair e que uma série de medidas iam ser anunciadas no fim de semana.

Leio isto e fico perplexa: que deslealdade a de Marcelo... Na ânsia de cavalgar qualquer onda, Marcelo nem olhou a meios. Sabendo do impacto que as suas palavras iam ter e sabendo que, saindo a ministra e depois das medidas de sábado, poderia colher os louros, não hesitou em espetar uma venenosa farpa no dorso do Governo. 

Acho feio, custa-me, parece que é falho de ética. Nada que não seja condicente com o que se conhecia do Marcelo de antanho mas feio, ainda assim.

Pode parecer que ganha mas é daquelas vitórias feias, que, a prazo, ficarão como nódoas na lapela. Daqui em diante, lembrar-nos-emos não apenas da desagradável história da Vichyssoise mas também do seu ataque traiçoeiro a uma ministra fragilizada e de saída e a um governo debaixo de fogo e prestes a apresentar medidas para reconstrução e prevenção.

É como receber Santana Lopes na véspera de ele anunciar a candidatura... Não fica bem a Marcelo. Para quê aquilo? Acredita ele que Santana Lopes tem estatura para poder vir um dia a ser um primeiro-ministro capaz...? E quer mostrar que o apadrinha...? Não faz sentido. Diminui-se com coisas destas.


Há em Marcelo qualquer coisa de frenético e de ânsia de agradar, de estar em todas, de dar as tácticas a todos, de opinar sobre cada coisa que acontece à superfície da terra, de estar todos os dias na televisão, em inaugurações, em festividades, a entrar em casas, a dar abraços e beijinhos a toda a gente, a dizer segredos a uns e piadas a outros. Acredito que seja até genuíno nisto mas é quase uma adicção. Parece que não pode passar sem a adrenalina que daí lhe vem. E esquece-se que na ânsia de agradar pode, pelo excesso, vir a gerar o efeito contrário. O povo diz: 'tudo o que é demais enjoa' e o povo costuma ter razão.

Mas, enfim, convém não dramatizarmos. Provavelmente um dia destes Marcelo, que é um intuitivo, vai perceber que está a carregar na nota e que começa a suscitar censura junto de quem antes o admirava. E, inteligente como também é, irá dosear os beijinhos e as selfies e vê-lo-emos mais resguardado.

E não vou dizer mais nada porque acho que não há muito mais a dizer. Francamente, acho que nem Marcelo tem, na realidade, vontade de arranjar conflitos com o Governo, nem creio que haja grandes dissidências de pontos de vista entre ele e António Costa. Tenho para mim que mais do que ter uma agenda oculta e ter vontade de dar cabo da geringonça para reabilitar o centrão, o que se passou (e presumo que há-de passar-se de novo quando a ocasião se lhe proporcionar) foi um daqueles seus  irreprimíveis ímpetos de se atirar para cima da onda mediática.


Claro que me lembrei da história parabólica do escorpião e da rã mas, benevolamente, acho que a picadela não pretendeu ser letal. Aquilo, cá para mim, foi mesmo só uma coisa naquela base. Portanto, acho que mais vale ficarmos por aqui. E bola para a frente.


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Para quem não conheça a história, aqui fica


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As imagens que usei provêm, de novo, da inesgotável arca do tesouro do We Have Kaos in teh Garden.

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quinta-feira, outubro 26, 2017

De gelo e fogo à filial memória





Tu, que legaste uma mitologia
De gelo e fogo à filial memória,
Tu, que fixaste a tão violenta glória
De tua estirpe pirática e bravia,
Sentiste, com assombro numa tarde
De espadas, tua humana carne a fremir
Triste. Naquela tarde sem porvir
Te foi dado saber que eras covarde.
Na noite da Islândia, a amarga e salobre
Borrasca move o mar. Está cercada
Tua casa. Até as fezes engolida
A inesquecível desonra. Por sobre
Tua pálida cabeça cai a espada,
Tantas vezes no livro teu caída.


[de Jorge Luis Borges dedicado a Snorri Sturluson
Fotografia de David Lachapelle]

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Peregrina paloma imaginaria





Peregrina paloma imaginária
Que enalteces os últimos amores
Alma de luz, de música e de flores
Peregrina pomba imaginária


[Excerto de poema de Ricardo Jaimes Freyre
Madonna fotografada por David Lachapelle]

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Botão




Pardal Festo Festo
Entre as folhas verdes
Botão satisfeito
Vê que és seta lesto
Para o estreito cesto
Junto ao meu Peito

Pisco Giro Giro
Entre as folhas verdes
Botão satisfeito
Ouve o meu suspiro
Pisco Giro Giro
Junto ao meu Peito


[Tal como o poema do post seguinte: in Canções de Inocência e Experiência, William Blake. 
Tradução revista por Jorge Vaz de Carvalho, numa edição belíssima da Assírio & Alvim]

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Gozo infantil





'Não tenho nome
Eu tenho só dois dias'.
Que chamo eu a ti?
'Eu sou feliz,
Gozo é o meu nome'.
Bom gozo haja em ti!

Lindo gozo!
Bom gozo de só dois dias,
Bom gozo eu chamo a ti:
Sorris tanto.
Assim eu canto,
Bom gozo haja em ti!


[in Canções de Inocência e Experiência, William Blake. 
Tradução revista por Jorge Vaz de carvalho, numa edição belíssima da Assírio & Alvim]

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quarta-feira, outubro 25, 2017

Voar sem rede


E não me perguntes porquê. 
    E não queiras que te conte de mim. 
       E não tentes encontrar a ponta do fio. 
Não há fio. Acredita. 
Não há ninguém por detrás de mim. A sério. 
E não há razões. Não há. Sobretudo isso, não há razões.

Sonha. 
Sonha que me sonhas. 
Sonha que sou um sonho. 
Sonha que desço do teu sonho para me deitar ao teu lado. 
Sonha. E eu vou sonhar também.




Desvenda os segredos que trago sobre mim. São véus invisíveis. Um a um, retira-os.

Procura com as tuas mãos a pele que me cobre, sente a carne macia e sumarenta que espera por debaixo.

Adivinha que caminhos em mim percorre o fio de luz que me chega vindo não sei de onde, talvez do nada, talvez de um outro tempo.

Adivinha onde se vai ele acolher. Adivinha. Adivinha com os teus dedos, deixa que eles sigam o seu caminho. Ou deixa que o insolente fio de luz os guie.


Olha-me nos olhos. Vem. Não te desarmes. 

Olha lá bem no fundo. Não te percas no abismo que talvez adivinhes no intangível ponto onde a luz se faz nada. 

Olha os meus olhos. No fundo deles há um lago imenso que me transporta até ao mais fundo do mundo. O lugar da perdição. O meu olhar.

Não mergulhes. Não percas o pé. Não te percas. Olha-me apenas. Pressente-me. Não te percas de mim. Nunca te percas de mim.


Ouve como respiro.
Ouves? Ouves?

Voam dentro de mim mil pássaros, mil anjos, mil sonhos. 
Ouves?

Estende as tuas mãos e toca-me. 
Sentes-me?

Sente como as ondas de cor e de luz me envolvem. 
Sente como as tuas palavras me beijam. 
Sentes?

Sente como do teu olhar se desprendem abraços, sorrisos, laços, laços tão suaves, laços tão leves, tão infindos que chegam até mim. Inconfessáveis. Imaculados. Tentadores.

E agora vai. 
Esquece. Esquece-me.
Guarda dentro de ti todos os mistérios, os meus, os teus, todos os secretos desejos, os nossos. Não existem. Nunca existiram.
Mas guarda-os. Guarda-os para sempre. Guarda para ti, para mim. Memórias, histórias, sonhos, rastos de luz, vislumbres, jardins suspensos que talvez nunca tenham existido, o cheiro do meu corpo apenas sugerido, o cheiro do teu apenas adivinhado, os nossos olhares para sempre enleados. Guarda-me dentro de ti. 

Mas não me perguntes. Não sei de nada. Acredita: não sei de nada.

Existo? Existes?

Não sei.
O que achas, tu?

Eu acho que talvez não. Acho que te inventei e que, depois, enquanto sonhava, me inventei a mim.

A sério.

Não.
A sério, não: a brincar.

Estou a brincar. Até tenho vontade de sorrir.


Vou sorrir para ti. Escorrem-me dos dedos sorrisos, provocações, inocências.

Vês-me? Sentes-me?




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