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domingo, agosto 27, 2017

Lições de vida
[Se é que, sobre a vida, é possível extrair 'lições']





Do que está ao lado do meu pai diz a minha mãe que parece um miúdo. Não me parece. Talvez seja pessoa para ter a mesma idade que eu. (Talvez, então, por isso. Por vezes, a  minha mãe fala comigo como se eu fosse ainda uma miúda). Magro, muito branco, cabelo grisalho. Não tem rugas. Está num cadeirão e tem uns tubos pendurados. Está quase sempre de olhos fechados. No outro dia, estava lá um rapaz muito alto. Ouvi-o dizer: 'Então, pai?' mas ele não disse nada, nem sei se abriu os olhos. A mulher ciranda por lá, sai para ir ao café, olha em volta, faz por entabular conversa connosco. Percebe-se: o marido não diz nada, ela tem que se entreter de alguma forma. A minha mãe contou-me que no outro dia lhe perguntou se tinha sido um AVC e que ela disse que não, que é demência. Nem sempre tem visitas e também se percebe, são de uma vila a uns quilómetros. Nem sempre se tem disponibilidade para visitas destas. De resto, para ele as visitas parecem ser completamente indiferentes.

Mas no outro dia aconteceu uma coisa. Dos quatro, o meu pai era o único com visitas. Os outros três dormiam. Tal como o meu pai, mais dois estavam num cadeirão. Só o meu pai protestava: que a televisão estava muito alto, que queria que se desse um jeito no lençol que o prendia, que queria que se despachassem, que 'isto está mau'. Percebe-se mal o que diz mas o tom é de arrelia. Não está bem quando está sentado. O quarto doente estava deitado e tento não olhar muito para ele porque me faz impressão. A minha mãe diz: 'Parece um aranhiço'. A mim não, parece-me um esqueleto. Descarnado, o rosto é uma caveira, o corpo um esqueleto. Tem sempre os olhos fechados e a boca completamente aberta. Parece ter saído do mundo dos vivos. Mas mexe-se de vez em quando.

Como sempre, eu e a minha mãe vamos conversando. Temos avental, luvas e a médica e os enfermeiros dizem que não precisamos de máscara. E conversamos. Então, reparo que o senhor da cama ao lado está de olhos abertos, olhando-nos. O olhar parece vazio, todo ele inexpressivo. Mas não tira os olhos de nós.

Quando chegam as assistentes para tratarem da higiene deles e nos mandam sair, nós aproveitamos para dar a visita por concluída. Despedimo-nos do meu pai e despedimo-nos delas que estão a começar a ocupar-se do vizinho demente: 'Boa tarde'. E, então, com perfeita dicção e a voz bem colocada, o senhor despede-se também: 'Boa tarde'. Elas quase dão um salto. Surpreendidas. E nós também. Dizem-lhe: 'Esta agora foi boa, ó Sr. Luís. Boa tarde. Sim, senhor. Muito bem. Olha quem havia de dizer...?'

Mas, com ou sem manifestações destas ou de outro tipo, não tenho dúvidas: aqui é o fim da linha. Nenhum dos quatro doentes desta sala vai alguma vez voltar a ser um homem independente, saudável. Quando ali estamos a minha mãe volta e meia emociona-se, as lágrimas nos olhos: 'Se ele se visse assim. Tão orgulhoso que era, sempre tão capaz de tudo, e agora assim'. Penso o mesmo mas não o digo. Na recta final, a vida tem estado a ser ingrata para o meu pai. Até há nove anos ele achava que era saudável, que, pela vida saudável que levava, haveria de viver até tarde, sempre escorreito, independente. Nunca tinha tido qualquer doença, fazia uma alimentação cuidada, fazia exercício,  sempre ocupado, parecia bem mais novo.

Vendo em retrospectiva a vida dele e da minha mãe, o que reconheço é que, enquanto a minha mãe sempre viveu num registo de boa onda, o meu pai sempre foi stressado. Se tinha que sair de casa às dez, às nove e tal já ele queria estar despachado, já ele andava a pressionar a minha mãe para se despachar. Se ele ia passar uns dias à outra casa, com antecedência já ele queria ter tudo planeado ao pormenor, já ele queria começar a ter tudo pronto. Mesmo quando eu era miúda, ele era o primeiro pai a ir-me buscar às festas de anos e, se eu lhe pedia que me deixasse ficar mais um bocado, condescendia em não mais de um quarto de hora porque não tinha paciência para ficar à espera. Tendo todas as condições para ter uma vida boa e sem preocupações, eu via-o sempre em estado de alerta nem se sabe bem para quê. E irritava-se com a minha mãe porque a via sem pressa, sem stress. Se eu lá estava em casa de visita, sempre na conversa e na risota com a aminha mãe, a partir de certa altura já ele dava mostras de impaciência, achando que o meu marido já devia estar farto de estar à minha espera. Tantas vezes que eu lhe dizia que não tinha que se preocupar com o meu marido, que isso não era problema com que tivesse que se preocupar. Mudava, então, de registo e a preocupação passava a ser com não gostar que eu conduzisse de noite. Na verdade, a questão é que tudo era motivo para stressar. E como eu e a minha mãe, mais que vacinadas e com outra maneira de ser, não ligávamos, ainda mais se stressava. A minha mãe conta que, no supermercado, ele ficava a meter as coisas nos sacos, com grande eficiência e, quando chegava a vez de pagar, se ela não estava com o cartão logo a postos, já ele lhe deitava olhares reprovadores porque achava que iriam fazer esperar as pessoas que se seguiam. Nem que a espera fosse de apenas dois segundos. Pormenores assim que bastavam para ele ficar irritado. 

O meu pai já não está em condição de fazer um balanço da sua vida. Nós é que fazemos por ele. Achamos que poderia ter sido mais feliz se tivesse sido capaz de encarar  a vida de forma mais serena. Não sabemos se esse seu stress que frequentemente implicava também insónias teve responsabilidade no AVC mas admitimos que sim.

A minha mãe, que parece mais nova, jovial, alegre, a quem os miúdos adoram, lá vai aguentando o peso que é esta situação e encarando a vida com o realismo de sempre, não se indo abaixo. Pode, em momentos mais críticos, ficar frágil. Nessas alturas, emociona-se, tem pena; mas encara as coisas como elas são. Dizemos ambas muitas vezes: 'não se escolhe'. E saímos do hospital e vimos na conversa. Pode ela, a propósito de qualquer coisa, lembrar-se de ditos dos alunos ou parvoíces ditas por pais de alunos, e rimo-nos, ou fala das vizinhas com quem vai à ginástica ou de uma, bem mais nova, que tem uma mãe completamente passada e que ficciona que tem inúmeros namorados, relatando casamentos na praia, falando de uma casa que tem com jardins e pomares -- e, neste caso, fala com tal realismo que a filha chega a duvidar se a mãe terá mesmo uma casa de que nunca lhe falou. E, relatando-me estas peripécias, eu e a minha mãe rimo-nos. Não é troça. É mesmo esta capacidade que temos de reconhecer o sentido de humor que há nas mais diversas situações.

Rir é bom. Ver o lado divertido das coisas é bom. Sentir o suporte daqueles de quem gostamos também é importante. Ter boas recordações e gostar de trazê-las ao pensamento presente também é bom.

E eu saio destas visitas que têm tudo para serem pesadas -- e nestes últimos tempos são dois os familiares hospitalizados (um saíu, entretanto) -- e ingresso na vertente feliz e buliçosa da minha vida.

Falamos dos doentes e preocupamo-no -- e há dias as coisas estiveram mesmo críticas e todos acorremos preparando-nos para o pior -- mas a vida continua. E, acto contínuo, estou com as crianças à minha volta, a fazer comida para um batalhão, todos a rirem e a conversarem. O quarto pimentinha, um artista, cinco anos recém feitos, agora imita o bisavô a chamar pela avó. Tal e qual. E todos pasmamos com a facilidade que tem para apanhar o tom de tudo. E rimo-nos com ele.

Nem todas as pessoas serão iguais nem sou capaz de dizer o que é mais ou menos louvável porque acho que não há louvores a dar em tais situações. As pessoas são como são, umas mais dadas a alimentar climas de tragédia, outras a passar pela vida com alguma ligeireza. Não há melhores nem piores nem ninguém espera uma medalha pelo que quer que seja quando passa por estas situações. Somos diferentes uns dos outros e nessas diferença se integra o maior ou menor grau de felicidade com que atravessamos a vida.

Pela parte que me toca, aquilo em que sempre penso é que a vida é um dom precioso que temos que acarinhar e festejar. Do início ao fim.

Já aqui contei: no casamento da minha filha, que, por gosto do marido, foi na igreja, no fim, houve comunhão e eu, para meu espanto, vi a minha mãe a avançar para se pôr na fila. Perguntei-lhe: 'Vai comungar...? Mas confessou-se?!' Ela riu-se: 'Não preciso. Não tenho pecados'. E lá foi.

Não sou de comungar mas penso o mesmo. Não tenho pecados. E essa sensação traz-me leveza. E a leveza torna-nos a vida pouco pesada (La Palice não diria melhor). E uma vida pouco pesada é uma vida boa de ser vivida, por muito longa que seja. E isso é, afinal, o que importa.


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Vem isto a propósito de mais um vídeo que o YouTube seleccionou para mim. Talvez por ter andado a fazer pesquisas relacionadas com questões que se prendem com a condição do meu pai, o algoritmo deve ter detectado que lido com temas como aqueles de que vos falei e propôs-me o interessante vídeo que aqui partilho convosco. Comovente e muito interessante. Gostava que lhe dedicasem alguma atenção.

Lições de Vida de pessoas com mais de 100 anos


We asked three centenarians what their most valuable life lessons were, and also their regrets.



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As imagens que usei ao longo do texto são fotografias de Steve McCurry e mostram pessoas que, independentemente da dura vida que têm, conseguem encontrar alegria em viver.


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No outro dia, falando da situação acima mencionada e referindo algumas das circunstâncias em que o meu pai se encontra, a pessoa com quem eu falava, começou a ficar com os olhos cheios de lágrimas. Eu que falava, segundo me ouvi, num tom factual, como que desprendido, disse-lhe: 'Está a fazer-lhe impressão. Desculpe. Não digo mais nada'. Ela limpou os olhos e disse: 'Não, continue, gosto de ouvir'. Pensei, então, que ela deveria estar a pensar no seu próprio pai que morreu de repente, há alguns anos, não tendo passado pela agonia de ir decaindo aos poucos. Mas 'não se escolhe'.

De qualquer forma, meus Caros Leitores, caso o que escrevi vos incomode e se sintam precisados de alguma fantasia, então aceitem o convite e desçam até ao post seguinte. Aí tudo é o oposto. Uma alegria.

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quarta-feira, outubro 03, 2012

Lídia, a mulher triste, sente que o seu corpo reconhece o corpo de Paulo (e, em segredo, recorda que Yvette Centeno um dia escreveu que amor é quando dois corpos se reconhecem)


Algum afecto para Lídia


Radu Marian, um soprano masculino interpreta a área de Bononcini Affettusoso-Rittornello



Na noite desse dia em que se foi encontrar com Paulo, Lídia afundou-se em desânimo, em arrependimento, em tristeza. Quando Nita chegou já ela se tinha deitado. Nem conseguiria falar-lhe no que tinha acontecido, Nita iria rir-se e concluir que não tinha acontecido nada. Mas tinha, tinha acontecido tanta coisa. Os sentimentos estavam exacerbados e contraditórios. A cabeça não retinha o mesmo pensamento por mais que escassos segundos, tudo se atropelava. Sem sequência, sem lógica, sem sossego, Lídia lastimava-se, acusava-se, e ora era por ter feito tão pouco, ora era por ter feito demais, ora sorrindo, ora chorando, ora querendo, ora temendo. Uma mulher solitária perdida dentro de um interior em remoinho. Tanto ouvia as vozes das colegas, os homens não prestam, é tudo farinha do mesmo saco, como as vozes que sonhavam com noites de amor, com gestos de carinho. E depois vinha o lado prático. Tudo impossível com uma mãe assim. Qual o homem que quereria meter-se ali em casa com uma mãe que grita, que insulta, que mente, que chora, que não sabe quem é, com quem está a falar, que usa fraldas, que tem que ser lavada, deitada, levantada? Ela, numa situação inversa, não o quereria, nem pensar.

A meio da noite acordou sobressaltada, uma vez mais não tinha pago o dinheiro que devia a Paulo. Tinham-se despedido à pressa, como se estivessem ambos a fugir de qualquer coisa. Mas, acto contínuo, agarrou-se a isso, podia ser o pretexto para voltar a vê-lo. Mas, nessa altura, reprimiu-se, um homem divorciado com uma filha, um mulherengo, amigo da pouca-vergonha, horários esquisitos. Para mais problemas, estava melhor assim, sozinha, sem chatices.

Mas a expressão séria de Paulo, quase dobrado na sua direcção, conversando em voz baixa, os braços fortes de Paulo tão perto dos seus, tudo aquilo não lhe saía da cabeça, e a atenção dele, o cuidado persistente que mostrava, tudo a enternecia. E excitava. De repente, o seu corpo parecia despertar de uma longa letargia. 

No dia seguinte foi ao médico, a consulta estava marcada. A baixa estava prestes a acabar e Lídia queria voltar ao trabalho mas, ao mesmo tempo, estava receosa.

Quando se estava a preparar para sair, reparou no papel com o número de contacto daquelas voluntárias de que Paulo tinha falado. Sem pensar, quase se sentindo afoita, ligou. Atendeu-a uma voz feminina que lhe fez umas perguntas. No fim, combinaram que Lídia passaria por lá para conversarem melhor. 

Antes de entrar no consultório hesitou, não sabia se estava em condições de ter alta. Não sabia, tinha medo.




O médico insistiu em mais duas semanas de baixa, que ela não se recriminasse porque não era descanso, era tratamento, que ela tinha que repor as reservas emocionais, tinha que organizar a logística da sua vida, só queria que fosse trabalhar quando a sua vida decorresse em velocidade cruzeiro, sem permanentes excessos de trabalho e de preocupação, quando as crises de choro já fossem apenas esporádicas, quando a vida tivesse um propósito para além do de cuidar da mãe. Queria também começar a preparar a redução e substituição da medicação.

Quando saíu de lá, Lídia dirigiu-se à Junta de Freguesia cujas instalações serviam de ‘poiso’ às voluntárias. A conversa correu muito bem e a senhora com quem falou combinou passar por casa dela no início da semana seguinte para poder avaliar melhor a situação. Lídia saíu de lá mais animada e, com o sol que estava, o ar de outono suave no ar, apeteceu-lhe estar vestida de cores claras, apeteceu-lhe ter um vestido de renda ou de flores, uma saia que esvoaçasse com a aragem, um decote alegre, apeteceu-lhe sorrir. Mas já mal sabia sorrir.




Durante todo o tempo, as palavras do médico não lhe saíam da cabeça, deixe de ter pena de si, deixe de se pôr para trás, esforce-se por ser dona da sua vida, perceba que tem que viver a sua vida e não apenas a da sua mãe, perceba que o tempo não anda para trás, se não se apressa quando perceber isso já pode ser tarde demais. 

Mal chegou a casa, foi ver a mãe, então mãe, como está? e a mãe, esteve aí uma senhora, acho que era a minha mãe, deu-me o lanche e disse que não queria mais gatos cá em casa, por isso você, se faz favor, feche aí a janela. Lídia encolheu os ombros, deu-lhe o lanche, ajeitou-lhe a manta sobre os joelhos.

A seguir descalçou-se, abriu a janela de par em par e ficou a olhar a rua, a respirar o ar da rua.




Depois virou as costas ao ar de liberdade que vinha de fora, triste, que vida a minha. Fechava os olhos e inspirava profundamente.

E as palavras do médico a martelarem,  tem que viver a sua vida e não apenas a da sua mãe, perceba que o tempo não anda para trás, se não se apressa quando perceber isso já pode ser tarde demais.

Então, sem pensar, ligou a Paulo, o coração logo em sobressalto. Ele não atendeu. Suspirou, felizmente…! Mas era decepção que sentia quando foi beber um copo de leite, comer uma bolacha, estava com fome. E sempre aquela vaga ansiedade como se alguma coisa de mal estivesse para acontecer.

Ainda estava com a roupa da rua, foi mudar-se.

Quando chegou ao quarto, abriu a porta do roupeiro, viu-se ao espelho. Magra, com olheiras, sem graça, triste, cada vez mais cabelos brancos.

Despiu a blusa. Descarnada, os ossos à vista, a pele muito branca. Depois despiu o soutien. Os pequenos peitinhos quase de menina pareciam-lhe infelizes, inúteis. Deu-lhe pena, lamentou em pensamento, nunca foram tomados por uma mão de homem. Pensou, como será que os homens mexem no peito de uma mulher? E com as suas mãos agarrou os seios, sentiu-os, leves, frios. Olhava-se ao espelho enquanto as mãos acariciavam os seios, tentava olhar os próprios olhos querendo perceber se denotariam alguma excitação. Mas os seus olhos fugiam de si.

Depois despiu as calças e ficou assim em frente do espelho. Imóvel, silenciosa, corpo de adolescente, um corpo cheio de inocência. Depois reparou que, em cima, junto às virilhas, as pernas tinham já alguma flacidez. Lídia sentiu pena. Não seria capaz de se despir em frente de um homem, sentiria vergonha, um corpo já sem brilho, as ancas sem viço. Então, reparou que os mamilos estavam erectos, rosados, cheios de vida. Fechou as mãos em volta de cada seio e sentiu os mamilos impacientes na palma das mãos.

Retirou as mãos, que parvoíce, e sentiu vergonha.

Afastou o cabelo da testa como se quisesse afastar da ideia o que tinha estado a fazer mas pensou que era bom se tivesse sido um homem a fazer isso, um pequeno gesto de carinho, um suave toque no cabelo. Ou na pele. Ou nos seios. Ou nos mamilos, agora rosados como rebentos de rosa, como pequenos botões atrevidos.

Vestiu-se. Sentia-se ainda vagamente envergonhada, ainda vagamente excitada. E ali se deixou ficar sentada, sem conseguir fixar-se num pensamento, perdida.




Passado um bocado, o telemóvel e Lídia de novo com as pulsações a mil. Ligou-me, não foi? perguntou ele, a sua bela voz forte. E Lídia, já hesitante, pois foi, é que ontem esqueci-me outra vez de lhe pagar, até já tenho vergonha. Paulo riu, ah sim, é caso mesmo para isso. Até já tinha pensado em vestir um fraque e aparecer-lhe aí à porta. Lídia teve vontade de sorrir. Mas o medo, sempre o medo, tolheu-lhe os movimentos. E ouviu-se a dizer, se quiser dizer o número da sua conta, eu vou ao banco e deposito. Paulo riu, acho muito bem, vai ao banco e faz um depósito de quarenta euros. Sim senhora. E veja se diz lá no banco que é uma coisa urgente. Mas já agora a ver se se engana e escreve uns zeros a mais, dava-me mesmo jeito. Lídia quase sorriu.

E então ouviu, como num sonho longínquo, a voz de Paulo que dizia, amanhã é sábado, dia em que costumo ir a casa dos meus pais, como lhe disse não é longe daqui, vou lá tratar da horta, regar, apanhar uvas, desbastar o mato. O que diz a ir comigo, dar-me uma ajuda? e lá logo acertamos contas. Lídia sentiu o coração quase a saltar-lhe do peito, a cabeça a latejar, um medo frio a percorrer-lhe o corpo. Não foi capaz de dizer o que quer que fosse. 

Paulo continuou, ia distrair-se, aquilo é ar puro, é saudável, ia fazer-lhe bem. Lídia pensou que nem pensar, não podia aceitar o convite, o que iam dizer na rua? e a mãe? quem é que ficava com ela? que ideia mais disparatada, o homem é mesmo descarado. Nem pensar,  nem pensar. Mas não tinha força para dizer que não e já as lágrimas lhe assomavam aos olhos pelo não que ia acabar por conseguir dizer.

Paulo continuava, eu é que costumo levar as coisas para o almoço, antes de ir passo no mercado, amanhã compro peixe a contar consigo, vou ver se arranjo peixe para assar lá no fogareiro. Gosta de peixe assado? E já a Lídia as lágrimas escorriam pela face, há quanto tempo não comia peixe assado no fogareiro, assim em família? Mas nem pensar, ia lá meter-se num carro com um desconhecido, um homem divorciado com uma filha, um maluco mulherengo, um sabido, nem pensar, nem pensar.

Paulo continuava, olhe até vou dizer à minha mãe para fazer arroz doce que ela faz um que é do melhor que há. Gosta de arroz doce? E Lídia sorriu por entre as lágrimas, a mãe, antes, fazia um arroz doce tão bom, com corações desenhados a canela. Mas não disse nada.

Paulo continuou, leve é um casaco que aquilo lá às vezes esfria. Mas olhe, veja lá aí com as suas ajudantas se podem tomar conta da sua mãe.

Lídia pensava, não preciso de ver coisa nenhuma porque não vou, é um convencido, julga que me tem na mão, julga que me dá a volta; nem pensar, nem pensar.

Depois Paulo disse, pronto, agora não diz nada... mas, olhe, quem cala consente. Sendo assim, passo por aí para a apanhar às dez da manhã.  E esperou. Lídia tinha um nó na garganta, um nó no coração, as mãos geladas e trémulas, não foi capaz de falar. Paulo concluiu, está certo: calou, consentiu. Está combinado, então. Esperou um pouco. Lídia muda, coração acelerado, aflita, tenho que dizer que não, tenho que dizer antes que desligue. Mas não conseguiu dizer.

Paulo desligou.

Lídia deixou-se cair pesadamente numa cadeira. E agora? E tapou a cara com as mãos, cheia, cheia de vergonha; e muito assustada.

Depois, foi de novo até ao quarto e, enervada, trémula, começou a escolher a roupa que levaria.  Mas hesitava, já tinha a cama cheia de calças, blusas, casacos: não sabia; desistia, perguntaria a Nita.

Antes de sair do quarto, puxou o cabelo para trás, olhou-se ao espelho e, então, com surpresa viu que sorria.

Pela primeira vez desde há muitos anos, Lídia sorria.

Era apenas um esboço de sorriso mas, sem saber bem porquê, sentia que tinha razões para sorrir.




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Relembro que se quiserem ler esta história (que já vai longa) desde o início, podem procurar aí do lado direito, lá mais para baixo, a etiqueta que diz 'Lidia - a mulher triste'.

Permito-me, ainda, convidar-vos a deslocarem-se até ao meu outro blogue, o Ginjal e Lisboa, a love affair. Hoje inicio a semana dedicada a Corelli e as minhas palavras vestem-se de noite e nem me perguntem porquê, em volta de um poema de Manuel Alegre.

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E nada mais. Apenas desejar-vos um dia muito feliz.

quinta-feira, setembro 27, 2012

Lídia, a mulher triste, vai encontrar-se com Paulo e o encontro não começa nada bem


Dove sei, dove t'ascondi



[Bononcini (Polifemo), Martina Bovet]

*


Lídia estava muito em baixo. Tinha chorado, os olhos estavam inchados, vermelhos, tinha olheiras. Uma sombra, como sempre.




O que é agora isso?, perguntou Nita quando chegou; e enquanto perguntava, mudava a fralda à idosa, limpava-a, punha-lhe cremes, ajeitava o resguardo, tirava as luvas, uma rapidez de movimentos que só visto, dir-se-ia que toda a vida fizera aquilo. Depois deu-lhe uma papa, limpou-lhe a boca, deu-lhe os medicamentos, ajeitou-a na cama, puxou o cobertor para cima, entalou-o dos lados. No fim fez uma festa na cabeça da senhora. Lídia, como se ganhasse força, levantou-se e deu um beijo na mãe, durma bem, mãe. A mãe perguntou-lhe, sabe a que horas é que a minha filha chega? Lídia fez-lhe uma festa ao de leve na cara e respondeu, está quase a chegar.

Nita olhava para ela, mas então foi-se outra vez abaixo ou quê?

Lídia encolheu os ombros, fechou os olhos. Depois disse, combinei ir amanhã pagar o dinheiro àquele polícia que me ajudou.

Nita ficou à espera, E...? Como Lídia não respondesse, insistiu, Sim, e então, que é que isso tem?

Lídia não queria falar nisso mas como Nita continuasse à espera, de mãos nas ancas, explicou, e toda ela uma hesitação na voz, Eu não quis que ele viesse aqui a casa... combinou irmos a um café...

A outra continuava sem perceber, E então? que é que isso tem?

Há anos que não vou a um café, sentar-me numa esplanada, e ainda por cima à hora de trabalho.

A outra pensou que ela estava com medo de ser apanhada numa fiscalização, Não tem problema! Então, a sua baixa é psiquiátrica, a senhora pode sair, só lhe faz é bem, devia era sair mais.

Lídia viu que ela não tinha percebido, mas nem sei estar num café, não me dá jeito

Ora, D. Lídia, mas o que é isso de dar jeito? Não é para estar sentada a uma mesa...? Que jeito é que é preciso para estar sentada a uma mesa...? e riu-se.

Lídia ganhou coragem, Mas ele é casado.

Nita deu uma gargalhada, Ora essa! E então ser casado é ter peçonha? 

Lídia, envergonhada, já com medo, Se me vêem sentada num café com um homem casado...

A outra ria-se, Oh D. Lídia mas está a pensar ir arrancar-lhe algum pedaço...?

Lídia sorriu. E nem sei o que hei-de vestir... e estou tão magra.

Nita pegou nela pela mão, Bora lá, vamos lá então escolher a toilette e levou-a até ao quarto.

Depois de vasculhar, confessou, rindo, Pois é, D. Lídia, este guarda roupa bem merecia uma boa reforma, que roupas mais tristes, senhora...

Mas lá escolheram. 

Nessa noite Lídia mal dormiu. Levantou-se cedo, tomou banho, vestiu-se logo, aprontou-se, guardou o livro de cheques e a meio da manhã estava pronta. Mal conseguiu comer tal era a ansiedade. Depois uma outra questão começou a atormentá-la: queria lembrar-se da cara de Paulo e não conseguia. Começou, então, a temer chegar lá e não o reconhecer.



A mãe chamava-a, chamava pela mãe, pela prima, pelo marido, estava levada da breca, uma agressividade difícil de aturar, que as janelas estavam escancaradas, que os ladrões entravam, que entrava o frio, que entrava o vento, que entravam os gatos, que os gatos davam conta de tudo, e Lídia, não estão nada, mãe, estão fechadas e a mãe, sua mentirosa, estás a gozar comigo, então eu não vejo tudo aberto, a chuva a entrar, o chão todo molhado, os tapetes encharcados, sua estúpida, sua malvada, queres é que eu morra, não é?

Lídia, enervada, impaciente, Que ideia, mãe, está tudo fechado. Quando se ia chegar à mãe para lhe ajeitar a mantinha sobre as pernas, a mãe quase a agredia, julgas que eu estou velha, que já me podes enganar? dou-te um par de estalos para veres quem manda aqui.

Sentiu o cheiro, aquele horrível cheiro. A mãe estava suja, devia mudar-lhe a fralda. Mas queria era ir-se embora, estava ansiosa, impaciente.

Infeliz, a sentir-se culpada, saíu da sala. Foi ver-se de novo ao espelho. Desengraçada, ultrapassada, mosca morta, solteirona, menina velha, desmereceu-se em pensamento. Mudou de casaco, vestiu um mais claro. Depois saíu de casa, enervada, culpada, culpada por deixar a mãe assim, culpada por se ir encontrar com um homem casado. Viu as horas, a D. Fátima deveria estar quase a chegar, limparia a mãe, da-lhe-ria o almoço.

Chegou ao Cais do Sodré antes da hora e o coração batia, batia, pancadas incertas e audíveis. As pernas tremiam-lhe, a boca seca, as mão molhadas. Podia colapsar a qualquer momento. 




Não sabia o que fazer, se devia entrar, se devia ficar por ali a fazer horas. Era uma estranha naquele ambiente. Havia gente descontraída nas almofadas cá fora, gente junto ao rio, pareciam todos felizes, bem vestidos, descontraídos. Lídia não sabia se haveria de ir para ali, tinha vergonha, tinha medo, não costumava andar em sítios assim, medo que a assaltassem, medo também que algum homem se metesse com ela, medo que Paulo não aparecesse, medo, medo, sempre aquele insidioso medo, sempre, um medo surdo a tolher-lhe a vida..




Mas, mal se aproximou, viu Paulo. Estava perto da entrada, mãos nos bolsos. Era alto, forte, uns cinquenta anos, talvez mais, parecia quase um homem do campo e também ele parecia ali ligeiramente deslocado.

Quando a viu, riu e avançou para ela. Parecia ir aproximar-se para a beijar mas Lídia estendeu-lhe uma mão gelada, húmida. E mal o fez logo se arrependeu, que vergonha, porcaria de mãos, vai ver que estou neste estado, mas ele deu-lhe um vigoroso aperto de mão, Então como está?

Lídia, atrapalhada, estou bem, obrigada. E só pensava em entrar e esconder-se num canto, sentar-se de costas numa mesa escondida.

Paulo, disse, Não quer vir aqui até à beira do rio? e Lídia já numa aflição, a voz a tremer, Não, não quero ser vista consigo aqui a passear.

Paulo parou espantado, Hom'essa, mas então porquê? Eu sou dos bons. Eu prendo os maus. Eu não sou nenhum bandido. Tem vergonha de ser vista comigo porquê?

Lídia sentiu-se corar, a voz sumida, Porque é casado...

Paulo deu um passo atrás, espantado. Casado, eu? Mas onde é que foi arranjar essa ideia? E se fosse? Essa agora é boa...

Lídia assustou-se, pensa, já estou arrependida, bem diziam que devia ser um meliante, é um mentiroso, bem me avisaram contra gente desta, agora pensa que me vai enganar, julga que se pode aproveitar, vou-me mas é já embora. Pago e vou-me embora, nem me sento à mesa. Tem ar de sabido, credo..., nem tinha ideia que fosse assim, julga que me pode enganar, ah que pouca sorte a minha, olha como sorri a ver se me leva na conversa.

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Caso vos apeteça passear comigo pelo Ginjal, teria todo o gosto em vos ter por lá. Boccherini continua a ser uma presença envolvente e hoje as minhas palavras pintam rios e pontes para me unirem a vocês, meus Caros Leitores, junto a um belo poema de Pedro Tamen.

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Desejo-vos, meus caros leitores, um belo dia. Está um fresquinho e uma chuvinha de Outono, é bom.

quarta-feira, setembro 26, 2012

Lídia, a mulher triste, tem uma estranha reacção enquanto telefona a Paulo


Uma sonata para Lídia, por favor



Giovanni Bononcini  - Sonata para dois violoncelos


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O telefone chamou, chamou, e Lídia quase desligava, boca seca, sentindo que mal conseguiria articular palavra, mãos húmidas de nervoso, coração descontrolado, sem conseguir pensar no que diria depois de tanto que tinha tentado ensaiar. Percebia o ridículo da situação, tanta coisa por causa de um simples telefonema, tanta coisa apenas para combinar pagar um dinheiro que devia. 

E então o clique, a chamada que se atende, Estou? E Lídia nada, toda ela um sobressalto, o coração disparado, uma amnésia, um vazio negro, e do outro lado, Está lá? E Lídia em pânico, quase a desligar, e agora o que é digo? E uma voz que já se irrita, Mau! Está lá? E ela amedrontada, Estou…, e era apenas um trémulo fio de voz.

Quem fala?, perguntou Paulo, impaciente, julgando tratar-se de uma brincadeira. Engoliu em seco, limpou a mão na saia, sou eu, a Lídia. Silêncio do outro lado. Lídia aflita a escutar a respiração densa de Paulo. Pensou, esqueceu-se. E então explicou, sou aquela que tem uma mãe doente e eu também adoeci e veio ajudar-me aqui a casa… Esperou e ele nada. Lídia, envergonhada, já arrependida de ter pensado que ele se lembrava, já não se lembra... E então ele disse, lembro-me, lembro-me muito bem. Pôs-me fora de casa sem uma explicação…, e Lídia percebeu que havia um tom de ironia, talvez de condescendência, talvez de caridade. E eu fiquei muito preocupado porque achei que você não estava em condições de ficar sozinha. Fui aí algumas vezes, toquei à porta lá em baixo e ou não me atenderam ou, nas duas vezes que fui à hora de almoço, atendeu-me uma mulher, que deve ser a sua empregada, que me disse que já estava tudo bem consigo e que não valia a pena eu voltar. Desisti. Ficou calado e Lídia calada ficou. Não se lembra de ter ouvido nenhuma campainha. Às vezes é para abrir a porta da rua para pôr publicidade ou o carteiro, qualquer coisa, se calhar não ligou, ou, então, o mais certo, estava a dormir, nos primeiros tempos dormia sem parar. Mas aquela conversa era coisa da D. Fátima, já se estava mesmo a ver, e não lhe tinha dito nada. Ele percebeu que ela não ia explicar nada, Mas tenho pensado em vocês. Como é que estão?




Lídia voltou a sentir uma vergonha muito grande, as lágrimas começaram a correr-lhe, sempre esta tristeza, sempre esta angústia no peito, uma garra silenciosa, o medo de rejeição, o medo de tudo deitar a perder. E afinal ele tinha-se preocupado. Lídia comovida, agradecida: não estava habituada a estas atenções. E a voz de Paulo, Estou? 

E Lídia, num esforço muito grande, estou. E a sua voz era uma voz de menina pequena, de menina assustada, de passarinho. Paulo tentava perceber, mas é afinal o que se passa, que não a ouço? 

E Lídia, a garganta num colapso, estou um bocadinho nervosa, desculpe e quase lhe saía um soluço. Paulo não disse nada durante um bocado mas depois falou e havia cuidado na sua voz, Então calma, respire, não fale agora, respire. Lídia sentiu-se ridícula, que figuras, credo… pensou, numa aflição. Paulo não via as lágrimas, apenas ouvia a voz tão trémula, mas diga-me uma coisa, aconteceu alguma coisa? Sinto-a tão nervosa… Lídia, não, não, não aconteceu nada. Paulo tentava acalmá-la, vá, respire, vá, já se sente melhor?... Então diga lá.

E Lídia disse, a voz muito cansada, muito lenta, muito gasta, uma leve lamúria atravessando o espaço, toda a vida com medo da opinião dos outros, não sair com os amigos, não chegar tarde, não ir de férias com os amigos, não usar saia muito curta, não usar calças muito justas, não usar blusas muito decotadas, não dar confiança aos rapazes, e o tempo a passar. As outras arranjando namorado, casando-se e eu sem sorte, sempre com cuidado, sempre com medo, sempre obediente. Fui ficando em casa com os meus pais. E então quem é que te ligou? Tu vê lá se não é para se aproveitar de ti… Tu não dês ouvidos, há muita malandragem, tu tem cuidado… e o tempo a passar. Depois morreu o meu pai e foi aquele desgosto e a minha mãe muito em baixo, anos de desgosto e eu a ter que a acalentar, um luto no corpo e na alma, e sempre tu não vistas isso que até parece mal agora que o teu pai morreu, tu não andes a rir na rua, o que é que hão-de dizer, ainda de luto e a para aí a rir, e os anos a passarem, e depois já todos os amigos e colegas se tinham casado e sempre aquele medo do que dissessem, não falar com homens casados para não ficar falada, e sempre aquele medo da censura, e ia de férias sempre com ela e ia ao cinema com ela, mas ela também pouco queria sair não fossem pensar que era viúva alegre, e fui ficando uma solteirona e ninguém já olhava para mim e já me sentia diminuída, uma imprestável que nunca ninguém quis, e depois ela adoeceu, esquecimentos, confusões, e eu pensava que eram mentiras que dizia mas depois percebi que a cabeça já não estava a funcionar e agora é isto que vê, uma desolação, falta de meios, falta de tudo, uma solidão tão grande, um cansaço, um sofrimento que nunca mais acaba e eu acho que já não consigo aguentar e olho para mim e vejo que não tenho vida própria, e olho para trás e vejo que nunca tive e olho para a frente e vejo que não há nada.

Parou, cansada, quase sem voz, os soluços enredados na garganta. Do lado de lá, silêncio. Paulo não sabia o que dizer perante tão inesperada confissão. Só lhe ocorreu dizer, estou a ver, mas tenha calma. Mas pensou, coitada, coitada.

Lídia nem conseguia acreditar no que estava a fazer, nunca tinha falado assim com ninguém, uma vida inteira de silêncios e agora esta vergonha, que conversa mais parva e logo com um desconhecido, que vergonha, que vergonha, o que iria ele pensar dela? Uma solteirona tonta, com certeza. Que vergonha, as lágrimas corriam sem parar.

Desculpe, nem sei o que foi isto, desculpe, não era isto que eu queria dizer, eu só queria pagar-lhe, fiquei a dever dinheiro, desculpe.

Paulo só sentia pena, não tem mal, não se enerve, pode falar, falar faz bem, desabafe se quiser.

Não, não, não sou nada disto, não sei o que foi isto que me deu, deve ser dos comprimidos, nem sei, desculpe, desculpe, que vergonha.

Paulo, olhe o dinheiro não é pressa mas, se quiser, eu passo aí.

Lídia não disse nada, atrapalhada, envergonhada. Depois assustou-se, não, aqui não.

Paulo percebeu, pois, desculpe, esqueci-me, diga então onde quer.

Mas Lídia estava bloqueada. Não sei, não conheço nada, não sei.

Paulo acalmou-a, ora essa, com certeza que conhece. Olhe o que acha do café que há no Cais do Sodré, uma casa de madeira que tem uma esplanada mesmo em cima do rio?

Lídia não sabia, nunca tinha visto, mas ele explicou-lhe tudo. Amanhã às 2 da tarde, pode ser? É boa hora para si?

Lídia não conseguiu raciocinar mas disse que sim, a cabeça esvaída.

Quando desligou o telefone toda ela era um tremor, um nervoso descontrolado. 




Depois, aflita, e o que é que hei-de vestir? e a que horas tenho que sair de casa? e se ele ainda não estiver lá, o que faço? e o melhor é não ir, se não ainda vou para lá fazer vergonhas, desatar a chorar, que vergonha, e já só queria que Nita chegasse para lhe pedir ajuda.

A mãe chamava, Então mas então onde é que se meteram todas? tenho aqui o chá e os bolos e foram todas falar para outro lado? estávamos aqui a ver as fotografias, a minha irmã, a minha prima, a minha mãe, e as pequenas, todas aí numa chinfrineira e agora desapareceram todas. Onde é que andam? daqui a na parto o bolo e como-o eu  sozinha. Falta de consideração. E já falava aos gritos, muito zangada. Estão a gozar comigo?! Estão a gozar comigo?!

E Lídia ouviu uma coisa que caía e os gritos Vão ver o que lhes faço! Vão ver! Sempre a gozarem comigo! 

Lídia passou por ela, já vêm, mãe, estão quase aí. A mãe respondeu com indiferença, como se o assunto tivesse deixado de lhe interessar, Ah, está bem.

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As imagens são partes de pinturas de Lucian Freud e são ainda as mesmas mulheres silenciosamente tristes .

Recordo que, para ler esta história desde o início, poderão procurar nas etiquetas aí do lado esquerdo, lá mais para baixo, 'Lídia - uma mulher muito  triste'

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Caso vos apeteça ainda dar um passeio pelo meu Ginjal, terão a bela música de Boccherini e hoje as minhas palavras são as palavras de uma mãe que ri como se risse deslumbrada quando afinal só sente uma cega dor, junto à explicação do sorriso de Daniel Faria.

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E já chega não é? Calo-me já - mas não sem antes vos desejar saúde (tão importante que é a saúde) e felicidade.