Mostrar mensagens com a etiqueta Rachmaninoff. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Rachmaninoff. Mostrar todas as mensagens

domingo, janeiro 08, 2023

Quando a realidade supera a ficção.
E, para variar, quando os anjos sorriem.

 



Ainda estou perplexa com o conteúdo do livro que a minha filha está a ler. Supostamente é um livro em que a história e os personagens são ficcionados. Acredito que quase toda a gente que o lê, cá e nos países em que está publicado, não faz a mínima ideia de que todo o enredo é rigorosamente verdadeiro.

A questão é que grande parte do que ali se lê não é propriamente muito abonatório para as pessoas em causa. E a questão é também que pelo menos uma pessoa ali retratada é uma figura pública, altamente conceituada e tida como bastante respeitável e prestigiada.

Muitas vezes a vida das pessoas é plurifacetada e poucas pessoas a conhecem em toda a sua latitude. Por isso, quem leia o livro e não conheça os pormenores reais da vida das pessoas, ao lê-los, não lhe passa pela cabeça que são rigorosamente verdadeiros nem que respeitam àquela pessoa que conhecem da vida pública. E depois há ainda os outros personagens do livro. E os outros personagens são também pessoas da vida real. E as infidelidades, espionagem, denúncias, discussões, vaidades, etc, que ali aparecem são todas literais bem como são fiéis reproduções da realidade todos os episódios, mesmo os marginais, que ali aparecem descritos.

E eu conheço, por tê-los sabido na primeira ou na segunda pessoa, o que ali é descrito. A doença do irmão, a actual mulher, as molduras sobre a secretária, os almoços com os filhos, a infidelidade do genro, a infidelidade da filha. Enfim, tudo. 

Perante isto fico naturalmente perplexa: será que os próprios sabem que a sua vida está ali exposta? Passar-lhes-á pela cabeça que alguém passou a sua vida a livro? Ou sabiam que uma da pessoas, por sinal malquista na família, é amiga de um escritor e que este risco existia? E, sabendo-o, como reagirão? Vão processar o autor, assumindo, dessa forma, que tudo o que ali está, do mais ridículo ao mais grotesco, é verdade? Ou ficam, simplesmente, transidos de medo que a notícia de que aquele livro é a sua história e que é tudo verdade se espalhe? 

Não sei. Sei apenas que fico perplexa com isto.

___________________________________

Mas, enfim, adiante. Não serei eu a revelar. No entanto, acho que não vou resistir a dar uma ligadela a um amigo que sabe tanto de todas as histórias quanto eu. O meu marido sugeriu que eu lhe pergunte se foi ele a garganta funda do autor...

_________________________________


E, para mudar de assunto, uma coisa completamente diferente. Tem legendas em português (activar nas definições, clicando na roda dentada)

There are angels

What if you knew that the way to access the very best in yourself - the light side of your humanity - was by facing your darkness? 

One of the most powerful turning points in life comes when we begin to understand the shadow as a great teacher.  In darkness, it waits for the light of our own awareness - to be seen, heard, understood, and embraced.  And as we learn to accept and care for all parts of ourselves, we grow and evolve into our best selves.  

Gradually coming to love the shadow gives us access to the wisdom that it holds for us at its core - the secret gems we find when we dare to open the hidden door of the shadow.

Filmed at Nieu Bethesda, South Africa. Featuring Daleen Kruger


_________________________________________________________

Pinturas de Teerawat Kanama acompanhadas por Maria Ioudenitch & Kenny Broberg que, de Rachmaninof, interpretam: "Don't sing, my beauty, for me" (from 6 Romances)

__________________________________________________

Desejo-vos um bom dia de domingo
Saúde. Alegria. Paz.

segunda-feira, dezembro 31, 2018

As minhas diletantes oliveiras




Ontem ao fim da tarde, acabei o trabalho que fiz no olival do meu melhor amigo. As oliveiras podadas (arreadas ou arriadas como aqui se diz) deu um outro aspecto à terra. De cuidado, de zelo. Ficámos ali um pouco a olhar aquilo, o perfil da serra ao fundo, o cheiro de ervas aromáticas trazido no vento, e dá gosto ver as coisas cuidadas.
[Soliplass dixit em comentário lá mais para baixo]  

O nosso vizinho da ponta da estrada tem cavalos, burros, vacas, ovelhas. Se calhar também galinhas. E tem oliveiras. E talvez tenha outros cultivos. Ali a seguir ao verão, creio, quando calha ter algum assunto para trocar connosco, inevitavelmente vemo-lo com pressa e diz que vai para a azeitona. Nessas alturas essa é a sua prioridade. Este ano o filho veio ajudá-lo. No outro dia o meu marido perguntou-lhe se o ano tinha sido bom, se tinha dado muita azeitona e, para meu espanto, ele converteu a colheita em litros de azeite. Pensávamos que ele venderia as azeitonas à cooperativa mas, afinal, contou que não, que deixa lá a azeitona e que depois vai buscar o azeite. Contou que não há produtos químicos, que é tudo puro. O meu marido perguntou se tinha para vender. Eu estava receosa, receei que saísse dali um azeite escuro, ácido, mal saboroso. Ele descansou-me, que era bom, pouco ácido mas que podíamos levar um garrafão para vermos se gostávamos. Trouxémos. Bom. Claro, parece ouro líquido, bom, macio. Já lhe pagámos. demos uma garrafa à minha filha, outra ao meu filho e o que ficou para nós quase se acabou. Fiquei mesmo impressionada. Quem diria? aquele vizinho é cheio de surpresas.


Do nosso terreno avistamos um belo olival na parte descendente do vale. Olho-o com gosto. Tão bonito. Se calhar é o dele. Também na estrada a caminho de lá passamos por vários outros olivais. As oliveiras muito bem cuidadas, em corredores muito alinhados, todas bem tosquiadas, a terra limpinha por baixo. Olho-as com admiração: há ali uma amostra de um mundo organizado e limpo.


Aqui in heaven nada é assim, aqui tudo cresce onde lhe apetece. Temos oliveiras. Têm nascido. Desengonçadas umas, desempoeiradas outras. Vamos podando, mas tal como podamos as outras árvores, sem técnica, sem conhecimento de preceitos, apenas para que fiquem mais arejadas. São bravias, se calhar vieram de outras paragens. As copas misturam-se com aroeiras, com azinheiras. Namoram umas com as outras em plena liberdade.

Para nossa surpresa algumas já dão azeitonas. São azeitonas pequenas, com caroços grandes. Não as apanhamos porque não saberíamos o que fazer-lhes. Já nos explicaram mas não sei, não levo muita fé, não sei se azeitonas nascidas de árvores selvagens serão boas. De certa forma, parece-me até quase um sacrilégio, não sei se elas dão frutos apenas para seu próprio prazer, não sei se faria sentido apanharmo-los sem os sabermos tratar com dignidade.


Gosto muito delas, das oliveiras. São árvores de folhinha bem definida, clarinhas, brilham ao sol, as ramagens tèm uma densidade que deixa passar a luz, ficam prateadas.

Não olho para elas como uma fonte de rendimento mas como umas árvores bonitas. Existem pela gosto e graça de existirem. São umas diletantes. Como eu. Não sei se uma mão profissional poderia fazer alguma coisa delas. Nem sei se umas dez oliveiras dariam alguma coisa que se veja. Ou se deveriam ser enxertadas. Não faço ideia. Por enquanto existem apenas, leves, sedutoras, úteis apenas por serem belas.


Hoje, enquanto andava à procura delas para as fotografar descobri mais uns três ou quatro pés, ainda frágeis, troncos finos, todas vergadas, a quererem evidenciar-se no meio do alecrim, talvez a quererem ombrear com os cedros. Não sei se vingarão, se calhar sim, como todas as outras. Também não sei se um dia se tornarão úteis ou se se manterão assim, turistas acidentais, diletantes. Não sei. As árvores aqui têm vontade própria, elas saberão qual o seu melhor destino.


Temo que, ver estas minhas oliveiras assim, neste aparente (e real?) caos, deve ser um desconsolo para si, Soliplass. Mas não me recrimine: não é falta de cuidado, acredite. É apenas a minha peculliar forma de gostar delas. Talvez um dia eu saiba tornar-me aquilo que gostava de ser, uma verdadeira camponesa mas, por agora, não passo disto, uma diletante meio maluca...

terça-feira, maio 30, 2017

Todos os livros que não lemos






Há mais livros neste mundo do que as horas de que dispomos para deles tomar conhecimento. Nem se trata mesmo de ler todos os livros que foram produzidos, mas simplesmente dos mais representativos de uma cultura em particular. Assim, somos profundamente influenciados por livros que não lemos, que não tivemos tempo de ler. 

Quem leu realmente Finnegans Wake -- quero dizer, da primeira à última palavra? Quem leu verdadeiramente a Bíblia, do Génesis ao Apocalipse? Somando todos os extractos que li, posso vangloriar-me de ter lido uma terça parte. Mas não mais que isso. Contudo, tenho uma ideia bastante precisa daquilo que não li.

Confesso ter lido Guerra e Paz apenas aos quarenta anos. Mas conhecia o essencial antes o ler. Quem leu As Mil e Uma Noites da primeira à última página? Quem leu verdadeiramente o Kama Sutra

Contudo, todos podem falar dele e alguns pô-lo em prática. Assim, o mundo está cheio de livros que não lemos, mas de que sabemos praticamente tudo. 

A questão é, pois, saber como conhecemos esses livros. 

Bayard diz que nunca leu o Ulisses de Joyce, mas que está em posição de falar dele aos seus alunos. Ele pode dizer que o livro narra uma história que se situa em Dublin, que o protagonista é um judeu, que a técnica empregue é o monólogo interior, etc. E todos esses elementos, ainda que não o tenha lido, são rigorosamente verdadeiros.

À pessoa que entra na nossa casa pela primeira vez, descobre a nossa imponente biblioteca e não encontra melhor do que perguntar-nos: 'Leu-os todos?', sei de várias maneiras de responder. Um dos meus amigos responderia: 'Mais, senhor, muitos mais'.

Quanto a mim, tenho duas respostas. A primeira é: 'Não. Estes livros são simplesmente os que terei de ler na próxima semana. Os que já li estão na universidade'. A segunda resposta é: 'Não li nenhum destes livros. Senão, porque os guardaria?' 

Há, evidentemente, outras respostas mais polémicas, que humilham ainda mais e frustram mesmo o interlocutor. 

A verdade é que todos possuímos dezenas ou centenas ou mesmo milhares (se a nossa biblioteca for imponente) de livros que nunca lemos. No entanto, num ou outro dia, acabamos por pegar nesses livros para perceber que já os conhecemos. 

Então? 

Primeira explicação ocultista, que não retenho: há ondas que circulam do livro até nós. Segunda explicação: no decorrer dos anos, não é verdade que não tenhamos aberto esse livro: pegámos-lhe repetidas vezes, talvez o tenhamos mesmo folheado, mas não o recordamos. Terceira resposta: durante esses anos, lemos uma quantidade de livros que citavam aquele livro, o qual acaba por se nos tornar familiar. 

Há, pois, diversas formas de saber alguma coisa sobre os livros que não lemos. 

Felizmente! De outro modo, onde arranjar tempo para reler quatro vezes o mesmo livro?


__________________________________________________________________

______________________________________________________


O texto é o excerto de uma resposta de Umberto Eco a Jean-Philip de Tonnac in 'Não contem com o fim dos livros' e incluído no capítulo cujo título trouxe para encabeçar este post.

_________________


As pinturas foram escolhidas por serem predominantemente em azul 

________________________________________



____________



..........................................

Um dia feliz a todos quantos por aqui passam.

_____

segunda-feira, março 21, 2016

As musas inspiradoras


Ora bem, vamos lá para o terceiro post da noite. Quando começo, estou sempre imbuída dos mais nobres propósitos de contenção -- que vou escrever apenas meia dúzia de linhas, que não me vou deixar desviar do foco da questão, que não vos vou maçar e etc. Afinal distraio-me, ponho-me aqui como se estivesse na conversa, deixo-me levar para caminhos laterais. Vocês aí tão caladinhos e eu aqui feita tagarela, que coisa feia.

Mas, portanto, a ver se agora isto vai certinho, direitinho. Se no post abaixo já vos mostrei um pouco dos jardins e da vista da Casa da Cerca, agora vou mostrar-vos um pouco da exposição que está no edifício principal: Musas Inspiradoras.




O que significa ter inspiração? De onde vem? Como a conseguir? Como a manter?


É um tema que me interessa muito. Gosto de perceber o que inspira os criativos ou quais os mecanismos que levam a que uma pessoa ou uma coisa toquem as cordas que fazem nascer, em alguém, palavras, músicas, pinturas, cores, movimentos, sonhos.
Eu própria gosto de perceber o que, em mim, que sou nada como criadora, me leva a querer aqui falar disto ou daquilo ou, quando pinto ou fotografo, o que me leva a escolher este ou aquele motivo. Gosto de perceber mas a verdade é que nunca cheguei a nenhuma conclusão. 
Sei apenas que o que, geralmente, me interessa é o que é diferente ou insolente ou belo.
Também vos digo -- e que não pensem que estou vaidosa por isso, porque não estou -- que sei o que é ser fonte de inspiração para alguém. Contudo, mais do que musa, sinto que o mais correcto será considerar-me allumeuse, porque inacessível.
Quem se deixa inspirar por alguém, frequentemente quer ter, para si, a sua musa, quer senti-la sua, tomá-la entre os braços. Por isso, digamos que sempre fui mais de 'iluminar' à distância do que ser uma musa presente na vida de quem, por mim, escreveu palavras ou músicas. Para mim, sempre foi um peso que não quis suportar, o de ser quase a razão de ser da vida de outra pessoa. Sempre preferi ser como um pássaro que voa, livre. E quem quiser que o olhe, pinte, invente músicas. 
Que eu ou o pássaro, logo que nos apetecer, vamos voar talvez para nunca mais voltarmos. Ou talvez voltemos. Nenhum de nós o sabe. 
-- E isto é o que sempre gostei de pensar.

Mas a inspiração de um criador não é forçosamente uma outra pessoa: pode ser uma luz, uma sombra, uma música, uma paisagem, uma palavra, um sentimento, uma dúvida, uma provocação, um desejo, uma aragem na saia de uma mulher, um sorriso inconfessável no rosto de um homem, um susto exclamativo, um medo silencioso, um jardim secreto, um labirinto inventado, um gato azul, uma rosa transparente, uma casa abandonada, um sussurro, um poema dito, umas mãos que se querem tocar, uma escultura inesperada, uma luz branca tombada sobre um rio, um desafio que se sente latente, o respirar de alguém aí desse lado.


Sou ávida consumidora de literatura, de pintura, de música. De tudo me aproximo como amadora, como leiga, como criança inocente. Não quero conhecer a obra, a técnica. Apenas quero extasiar-me como alguém que vê ou ouve pela primeira vez. Sou também ávida consumidora de palavras de quem sabe transformar a inspiração em obra e aprecio sobretudo que a surpresa do que dizem me apanhe desprevenida.

A blogosfera é meio fértil: circulando por aqui deparo-me com textos perfeitos, com fotografias inesperadas, com alusão a filmes que ignorava. E conheço músicas que de outra forma não conheceria. É um meio muito rico, de onde se sai mais sabedor, mais atento.

Contudo, é óbvio que há também muita, muita coisa, que não interessa. Há que mondar. Afasto-me do que é vulgar, fútil, eco do eco do eco, mediania emproada. Mas atraem-me as frases elegantes, as ideias insólitas, as confissões emocionadas, atrai-me a húbris descarada quando tem a marca do talento, sinto-me devedora de agradecimento perante textos depurados, sentimentos expressos na sua forma essencial, sentimentos puros como gotas raras de óleos perfumados.


A exposição Musas Inspiradoras tem obras que pouco me dizem e tem outras bastante interessantes. Mas é assim mesmo e é dos contrastes que nascem as nossas opções. Mas, para além das obras expostas, há também o edifício em si que é notável. É um lugar de serenidade e contemplação. 

Como quase todos os belos lugares onde a arte é posta à disposição dos portugueses, eles não querem saber. Não paguei nada, não sei se por ser domingo ou se é sempre assim. O que sei é que, enquanto aqui estivemos, nós dois éramos as únicas pessoas que aqui andavam. Custa a perceber isto. No entanto, a sensação de visitar um espaço destes em silêncio e sossego não tem preço. Se pensar de forma egoísta, reconheço que prefiro assim. Mas, se me deixar de egocentrismos, tenho pena. Lugares destes deveriam ser usufruídos com assiduidade e devoção.


E depois, para além, do edifício em si, há ainda a vista que dele se tem. Magnífica. Dali se vêem os jardins, o Tejo, as pontes, Lisboa, o azul, a luz. É um lugar, só por si, inspirador.


E eu estou a escrever isto, tentando manter-me fiel à minha determinação de me conter, de não desatar a escrever mais um lençol mas, ao mesmo tempo, desejando partir para a evocação de artistas e suas musas ou de provocadores que gostam de causar espasmos de aflição nos críticos de arte que tentam encontrar explicação para o que é inexplicável. Mas vou deixar isso para outro dia.

Hoje fico-me mesmo por aqui, sugerindo aos que puderem que vão visitar a Casa da Cerca e o seu grande e belo jardim. E digo-vos, ainda, que as laranjeiras do pátio de entrada estão floridas. O perfume das suas flores é intenso, maravilhoso. E os bolinhos que se podem comer na esplanada enquanto se vê a bela paisagem também têm que se lhes diga.

E é tudo, por agora.
___

A música é daquelas que a mim me inspira: "Blessed is the Man" que é parte de: Vespers Op. 37 de Sergei Rachmaninov, numa interpretação a cargo de Mikhail Ivanovich Glinka Choir.

___

E deixem que vos recorde que, no post abaixo, falo do referido jardim e da paisagem que dele se avista e, no outro a seguir, mostro parte da vista da minha janela e enuncio as receitas do que fiz para o jantar.

____

sexta-feira, dezembro 18, 2015

Tudo começa com uma viagem




1. 
No leito da morte, Gertrude Stein ergueu a cabeça e perguntou: "Qual é a resposta?". Como ninguém falou, ela sorriu e disse: "Nesse caso, qual é a pergunta?"

2. 
Temos em mãos vários fios, e o mais provável é que um ou outro nos conduzam à verdade. Podemos perder tempo a seguir o fio errado, mas mais tarde ou mais cedo encontraremos o certo.

3.
Ulisses: Conhecei o mundo inteiro.

4.
Formular uma pergunta é resolvê-la.

5.
Deu ao Homem a linguagem, e a linguagem criou o pensamento, que é a medida do universo.

6.
"Para onde vais?", perguntou o leitor ao cavaleiro, "Aquele vale é fatal quando as fornalhas ardem, acolá fica o monturo cujos odores enlouquecem, aquela fenda é o túmulo onde os altos regressam."

7.
"O mundo é como a impressão que fica depois de uma história ser contada."

8.
Sob o luar, a sombra de um gordo precede-me na estrada que vou a descer; e se me virar e fugir, ele persegue-me: é este o homem que devo conhecer.

9.
Vladimir: Que fazemos aqui, eis a questão.

10.
Nunca perguntes o caminho a alguém que o conhece, porque assim não poderás perder-te.

11.
Os homens receiam que as mulheres se riam deles. As mulheres receiam que os homens as matem.

12.
O cão, que, com todo o seu ímpeto e ferocidade, quando vem para morder, se se deitam no chão, não faz mal; isto por piedade.

13.
Einstein: Mas, seja como for, não podemos fugir às nossas responsabilidades. Estamos a fornecer à humanidade fontes colossais de poder. Isso dá-nos o direito de impor condições. Se somos físicos, temos de nos tornar políticos do poder.

14.
E o apetite, esse lobo universal, tão duplamente secundado pela vontade e o poder, tem de forçosamente fazer uma presa universal, e por último devorar-se a si mesmo.

15.
A terra não discute, não é patética, não faz arranjos, não grita, não apressa, não persuade, não ameaça, não promete, não discrimina, não concede fracassos, nada fecha, nada recusa, nada exclui, de todos os poderes, objectos, estados, todos notifica, nenhum exclui.

16.
Não existe... a morte... Só existo... eu... eu... que morro...

17.
Acredito que estou no Inferno, logo estou lá.

18.
"O que é a verdade?", perguntou Pilatos, jocoso, sem ficar para ouvir a resposta.

....




.....


 .....


........

1. Donald Sutherland, Gertrude Stein: A biography of her work
2. Sir Arthur Conan Doyle, O cão dos Baskervilles
3. Shakespeare, Troilo e Créssida, acto 2, cena 3
4. Karl Marx, Zur Judenfrage
5. Percy Bysse Shelley, Prometeu Libertado
6. W.H. Auden, Cinco Canções, V
7. Valmiki, Yoga Vasistha, 2, 3, II
8. James Reeves, "Coisas Vindouras"
9. Samuel Beckett, À Espera de Godot, acto 2
10. Rabino Nachman de Breslau, Contos
11. Margaret Atwood
12. Fernando de Rojas, A Celestina, canto 4
13. Friedrich Dürrenmatt, Os Físicos, acto 2
14. Shakespeare, Troilo e Créssida, acto I, cena 3
15. Walt Whitman, Folhas de Erva
16. André Malraux, A Estrada Real
17. Arthur Rimbaud, Noite do Inferno
18. Francis Bacon, "Da Verdade"
....

  • Todas as citações do início do post, de 1 a 18, cujos autores se encontram acima, abrem alguns dos capítulos de 'Uma História da Curiosidade' de Alberto Manguel que tenho estado a folhear, surpreendida e agradada, e que mal posso esperar para degustar pausadamente, deleitadamente.
(O título do post é o início do capítulo I, cujo título é 'O que é a curiosidade?')
  • As imagens referem-se à Divina Comédia de Dante Alighieri

  • A música é "Blessed is the Man" que pertence a Vespers Op. 37 de Sergei Rachmaninov (Russian Orthodox Vespers Service) numa interpretação a cargo de Mikhail Ivanovich Glinka Choir.
  • A animação é de Blanca Li  - "Le Jardin des Délices"
  • 14 and Shakespeare the Numbers Man: a Matemática e a Poesia, pelo professor Professor Roger Bowley
  • A dança é Silhouette, uma coreografia da mesma Blanca Li sobre música de Tao Gutierrez
...

 E, por hoje, pouco mais.

Não vou falar da actualidade já que não me interessa, nem um bocadinho, se o Mourinho foi despedido. 

Vendo-o, sempre enjoado, tantas vezes pensei que não percebia aquela pose. Se não gostava, pois que não comesse. Portanto, se tudo lhe estava a correr mal e se ele já não estava com pachorra para maçadas, pois que fosse para casa. Ora se, ainda por cima, vai para casa com uns milhões valentes na mão, pois melhor para todos.

Também não vou comentar o caso do Banif pois era mais que esperado. 

Quando a bulha rebentou entre herdeiras, deu para perceber que, o que viria a seguir, não seria bom de se ver. Mas os depositantes não terão problemas pelo que não há razão para alarme social.

Também não vou comentar aquilo da Manuela Ferreira Leite dizer que não é a altura certa para se reflectir sobre o Banco de Portugal.

Lá está ela. Parece tão atinadinha mas, quando a coisa toca aos ex-colegas e amigos do BdP (nomeadamente, às matrafonas adormecidas Carlos Costa e Aníbal Cavaco), logo ela sai em sua defesa. Bolas para ela. 

Também não quero saber se o filho da prima da mulher do Rajoy, que lhe deu um murro na cara, é maluco, desequilibrado ou aventureiro. 

Gostava era que o Rajoy fosse corrido do mapa eleitoral. Era bom que estes trastes todos levassem uma corrida em osso. 

Muito menos vou falar do Passos Coelho, esse brincalhão, a dizer que acalmou os correlegionários do PPE.

Às tantas, se não fosse ele, os outros vinham por aí, de lanças na mão, a ver se libertavam o país do jugo marxista-leninista, não? Não se enxerga, aquele láparo mitómano. Porque será que não vai para casa fazer farófias para fora, que talvez fosse útil a alguém?

E, obviamente, não vou falar do dó que até mete o papel de décima-sétima categoria a que o vice-Portas está votado, nada lhe restando senão por aí andar, pelos cantos, a remorder a propósito do que o António Costa diz.

É que já ninguém quer saber dele para nada e ele, pateticamente, ainda não percebeu. Tornou-se irrelevante. Nada do que ele diz interessa a quem quer que seja. O jantar já acabou e ele ainda não percebeu que já deveria ter-se levantado da mesa há que tempos. 
...

Portanto, meus Caros, não levem a mal, mas hoje prefiro ficar-me pela história da curiosidade e vou ler um pouco do belo livro que tenho aqui ao meu lado (bem, belo, belo... Tenho que dizer que não acho muita graça ao design encardido da capa mas, enfim, relevo face à qualidade do interior)

...

Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela sexta-feira.
..

terça-feira, setembro 29, 2015

Eleições Legislativas 2015 - "Ensaio sobre a Cegueira" remixed? [Ou as sondagens estão todas maradas...?]






A consciência moral, que tantos insensatos têm ofendido e muitos mais renegado, é coisa que existe e existiu sempre, não foi uma invenção dos filósofos do Quaternário, quando a alma mal passava ainda de um projecto confuso. Com o andar dos tempos, mais as actividades da convivência e as trocas genéticas, acabámos por meter a consciência na cor do sangue e no sal das lágrimas, e, como se tanto fosse pouco, fizemos dos olhos uma espécie de espelhos virados para dentro, com o resultado, muitas vezes, de mostrarem eles sem reserva o que estávamos tratando de negar com a boca. Acresce a isto, que é geral, a circunstância particular de que, em espíritos simples, o remorso causado por um mal feito se confunde frequentemente com medos ancestrais de todo o tipo, donde resulta que o castigo do prevaricador acaba por ser, sem pau nem pedra, duas vezes o merecido.




Má para toda a gente, a situação, para os cegos, era catastrófica, uma vez que, segundo a expressão corrente, não podiam ver aonde iam nem onde punham os pés. Dava lástima vê-los a esbarrar nos carros abandonados, um após outro, esfolando as canelas, alguns caíam e choravam, Está aí alguém que me ajude a levantar, mas também os havia, brutos de desespero ou por natureza, que praguejavam e repeliam a mão benemérita que acudira a auxiliá-los, Deixe lá que a sua vez também lhe há-de chegar, então a compassiva pessoa assustava-se, fugia, perdia-se na espessura do nevoeiro branco, subitamente consciente do risco em que a sua bondade a tinha feito incorrer, quem sabe se para ir cegar uns metros adiante.





Diz-se a um cego, Estás livre, abre-se-lhe a porta que o separava do mundo, Vai, estás livre, tornamos a dizer-lhe, e ele não vai, ficou ali parado no meio da rua, ele e os outros, estão assustados, não sabem para onde ir, é que não há comparação entre viver num labirinto racional, como é, por definição, um manicómio, e aventurar-se, sem mão de guia nem trela de cão, no labirinto dementado da cidade, onde a memória para nada servirá, pois apenas será capaz de mostrar a imagem dos lugares e não os caminhos para lá chegar. Postados diante do edifício que já arde de uma ponta à outra, os cegos sentem na cara as ondas vivas do calor do incêndio, recebem-nas como algo de certo modo os resguarda, tal como as paredes tinham sido antes, ao mesmo tempo, prisão e segurança. 




.....
  • O texto é composto por três excertos não sequenciais de Ensaio sobre a Cegueira de José Saramago
  • As três primeiras imagens pertencem à Parábola dos Cegos ou Cegos conduzindo os cegos, obra datada de 1568 de  Pieter Bruegel the Elder
  • A última imagem é da autoria de Roberta Coni
  • Dame Kiri Te Kanawa interpreta "Vocalise" de Rachmaninoff
...

Sobre a minha excentricidade, queiram, por favor, descer até ao post seguinte onde o meu irmão gémeo Raul mostra que é tal e qualzinho eu.

....

Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela terça-feira.
E desejo outra coisa: que não se encontrem entre os cegos que não sabem para onde ir, que quase preferem ficar aprisionados - e desejo isso para que, no próximo dia 4, consigam escolher o vosso próprio caminho, um caminho alternativo.

..

segunda-feira, junho 08, 2015

Volvo Ocean Race: bye bye Lisbon-la-belle


Almoço em família ao ar livre, um déjeuner sur l'herbe, tal e qual excepto no que se refere ao dress code. Estendemos toalhas na relva, sob a copa das árvores: toalhas lilases onde se dispõe a comida, colchas e toalhas de pano florido para nos sentarmos ou deitarmos todos em volta. É muito bom isto: a simplicidade da partilha dos alimentos, dos sorrisos, conversas tranquilas, os cheiros bons e o verde da natureza. Depois os meninos brincaram e nós ficámos a descansar. Ela trazia uma caixa de maquilhagem que uns amigos do pai ontem lhe ofereceram e maquilhou-me a mim, à mãe, à tia. Depois escreveu palavras num livro que eu lhe levei. Já conhece o alfabeto todo, já escreve palavras letra a letra que lhe ditam e já sabe, por si, algumas palavras. Gosta muito de escrever. Os rapazes jogaram à bola, treparam a uma árvore, correram. E o bebé, que tem uma dicção perfeita e um vocabulário incrivelmente vasto, fazendo jus à sua fama de macaquinho de gibraltar, entreteve-se a assaltar carteiras: sacou óculos, caixas de pastilhas, porta-moedas, telemóveis, etc. 

Mas depois, a meio da tarde, veio aquele momento especial. A Volvo Ocean Race despedia-se de Lisboa e despedia-se em beleza. Uma regata frente à baixa da cidade e depois, num imponente deslizar, os belos e enormes veleiros escoltados por muitos outros de dimensão normal, todos deixando um rasgo de espuma nas águas ou o reflexo das suas cores, afastaram-se em direcção ao horizonte. Depois destes dias em Lisboa, a bela, eis que os impressionantes veleiros partiam para se fazerem ao mar.

Não vou escrever mais e vou pedir-vos desculpa por aqui colocar tantas fotografias, ainda por cima sabendo que as fotografias não conseguem transmitir a beleza assombrosa que o olhar, ali, teve a possibilidade de testemunhar.

Poderão reparar pela sequência das fotografias que o tempo, entretanto, começou a virar. Aos poucos o céu toldou-se, o ar começou a ficar abafado - e, de facto, um pouco depois dos veleiros se afastarem, levantou-se uma ventania, começou por haver uma chuva de folhas douradas e, pouco depois, começou a pingar - e regressámos a casa.







Esta fotografia panorâmica não é de minha autoria:
é da G. a quem agradeço que ma tenha enviado e permitido que a aqui a partilhe convosco










































.....

Acabado de receber de Leitor a quem muito agradeço, um vídeo sobre o Volvo Ocean Race em Lisboa:



Live recording: Leg 8 start - Lisbon - Lorient (gravado no dia 7 de Junho de 2015)


(... para quem tenha tempo...)


....

Lá em cima a música é Mischa Maisky interpretando Rachmaninoff - Vocalise

...