Pouco a dizer. Manhã muito atarefada. Tarde atípica, fora de casa, com algumas decepções pelo meio e alguma improdutividade indesejada. Chegámos a casa lá para as dez e meia da noite.
Banho. Para jantar o que apanhámos pelo caminho.
Depois pus-me a ver televisão, nomeadamente o House. Sempre aquela máquina de desconcerto, sarcasmo e inteligência.
Agora, abri o computador à espera de uma informação que, afinal, não está cá. E não tenho novidades para partilhar ou notícias para comentar. Para além da grande Lisboa continuar a marcar passo, Lisboa propriamente dita retrocedeu.
Não sei se isto é por tanta gente já se portar como se não houvesse covid ou se por o teletrabalho ter abrandado e muita gente estar de volta aos escritórios, ou seja, a espaços fechados. Espaços não ventilados são ratoeiras. E, se muita gente volta a espaços fechados, mais gente anda de transportes e mais gente vai a restaurantes (espaços também mais ou menos fechados com pessoas sem máscara). Não sei. O que sei é que esta não estava no programa. Sempre imaginei que com tanta gente já a ter estado infectada e tanta gente vacinada, com a vida a poder ser feita ao ar livro ou de janelas abertas, esta droga tivesse esmorecido. Afinal não.
Continuamos sem estatísticas sobre como e onde as pessoas estão a ser infectadas e acho que, sem essa informação, não se conseguem ter medidas dirigidas e eficazes.
Também ouvi, no carro, alguma polémica em torno do entusiasmo futebolístico do Ferro Rodrigues e da suposta divergência entre o Marcelo e o Costa sobre a gravidade da situação. Nada disso me interessa muito. Poeira. Mais chato é que este vírus seja diabólico, se transmute, troque as voltas a toda a gente, deixe sequelas, dê cabo da vida a muita gente. Isso, sim, é trágico e incontrolável. Quem abriu a caixa de pandora talvez não tenha percebido o que ia acontecer. E até acredito que a não tenha aberto de propósito. Coisas assim acontecem. Deus gosta de brincar aos dados, não é?
Chato também que, fruto desta tragédia, toda a gente seja forçada a aceitar coisas que, em situações normais, não aceitaria. Só prova que somos vulneráveis e que valemos zero.
No outro dia, está a fazer três semanas, pude viver na primeira pessoa a prova provada de que a nossa vontade vale zero, o nosso suposto controlo sobre as situações que nos envolvem e sobre o nosso corpo vale zero. Não temos voz activa para coisa alguma quando as circunstâncias nos tiram o tapete.
Bem podem mil filósofos desde a antiguidade até aos dias de hoje ou uma legião de gregos antigos ter inventado a pólvora e todas as tragédias do mundo muito antes de alguém ter sonhado na nossa existência que nada disso contribui para a nossa segurança ou felicidade.
Quando chega a hora, só nos acontece uma coisa -- olhar para dentro de nós e para o que nos rodeia e pensarmos: mas que raio nos está a acontecer?
Li que as últimas palavras da Princesa Diana, pouco antes de morrer, quando estava no carro, aparentemente sem ferimentos de maior mas, efectivamente, prestes a entrar em paragem cardíaca, terão sido Oh my God, what's happened? Também ela, perante o acidente e perante quem, perto dela, já se tinha ido, mostrou a estupefacção de quem não percebe o que lhe está a acontecer.
Mas, enfim, nada de novo. Tudo é um acaso. E a única coisa ajuizada é festejar a vida enquanto ela parece estar à nossa disposição. Tudo o resto, maldizer os outros ou a vida, acusar este ou aquele, arranjar tricas sobre futilidades ou desperdiçar um minuto que seja da nossa vida é uma estupidez sem explicação.





