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quinta-feira, março 17, 2022

Alô, alô, Papa Francisco!
Não seria uma boa ideia que, durante uns dias, V. circulasse entre Mariupol, Odessa, Kyiv e todos os outros locais que estão a ser martirizados às mãos de Putin?

Здравствуй, здравствуй, Папа Франциск!
Не было бы хорошей идеей для вас поездить на несколько дней между Мариуполем, Одессой, Киевом и всеми другими местами, которые терпят мученическую смерть от рук Путина?

 



A Nato não pode entrar em território não-Nato para o defender. Percebo. Com um maluco do outro lado, é melhor não correr o risco desta chacina se estender a todo o mundo.

Os capacetes azuis existem para defender a paz, não para entrarem em palcos de guerra -- bem mo recordam aqui em casa quando me insurjo por não avançarem tropas independentes para tentar salvar aquele país.

Além do mais, há decisões internacionais que, por meritórias que sejam, basta um membro integrante procrastiná-la ou vetá-la para a coisa não ir adiante. Parece-me, pois, ajuizado expulsar agora a Rússia de todos os Conselhos em que possa exercer direito de veto (apesar de todos os danos colaterais que isso tenha). Sabe-se que isso é provisório, durará apenas até que o criminoso seja apeado e que a Rússia volte a ser governada por gente de bem mas nada disto é imediato e, enquanto produz e não produz efeito, o cão raivoso vai continuando a destruir hospitais, escolas, igrejas, teatros, vai continuando a dizimar a população e o património ucranianos.

Por isso, até que o bandido seja neutralizado, há que tentar, por todos os meios, evitar a devastação e o extermínio.

Da mesma forma que os corajosos primeiros-ministro da República Checa, da Polónia e da Eslovénia foram até Kyiv (certamente fazendo o criminoso em série parar os bombardeamentos nos locais por onde passaram), penso que seria relevante e certamente ainda mais impactante que Francisco circulasse entre os locais mais afectados e mais sacrificados.

A minha voz, bem o sei, é débil, não chega onde eu gostava que chegasse. Mas não me interessa. Faço o que posso: é como se gritasse a plenos pulmões a ver se alguém me ouve. Nos últimos 7 dias, aqui no Um Jeito Manso, houve centenas de visualizações a partir da Rússia. E vários milhares dos Estados Unidos e de França. E centenas da Alemanha, do Canadá. 

Por isso, na esperança de que alguns dos meus Leitores consigam passar a palavra para que ela chegue ao Papa Francisco, aqui fica o meu apelo: 

Para que, pelo menos durante uns dias, com a sua presença, 

  • parem os ataques e se consiga alimentar, abastecer, tratar e/ou retirar as populações em risco bem como enterrar os seus mortos, 
  • para que se desgaste a moral e desmobilize ainda mais a força de guerra russa 
  • e, não menos importante, para ver se a população russa acorda para os hediondos crimes de guerra que Putin, o cobarde e mitómano ditador que os governa, está a levar a cabo, 

apelo a que Francisco vá à Ucrânia, ande pelos locais mais críticos, tente salvar este sacrificado País, tente salvar os que ainda tentam resistir, honre todos os que deram a sua vida pelo direito a serem um País livre.


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-- Lá em cima, a fotografia  mostra "A firefighter works at a site of a fire in Kharkiv, as Russia's invasion of Ukraine continues -- Photograph: Reuters e provém do Guardian

--  O vídeo lá em cima mostra: Iryna Manyukina, an Ukrainian Pianist Plays A Final Rendition Of Chopin In The Ruins Of Her House

A Ukrainian pianist has been filmed playing a final rendition of Chopin in the ruins of her house after it was badly damaged by Russian shelling. In a video recorded by her daughter, Iryna Manyukina is seen playing the piano in their home in Bila Tserkva, some 80 kilometers from Kyiv.

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E também para memória futura:

Dancers Fled Russia - March 2022 - Olga Smirnova, Xander Parish, Tissi, Soares, Caixeta, etc.

Many famous ballet dancers left Russia in March 2022, including Olga Smirnova, Xander Parish, Jacopo Tissi, David Motta Soares, Victor Caixeta & Bruna Gaglianone

Andrew Forest on Investing in Russia: "Get Out Now. It is Blood Money." | Amanpour and Company

Putin’s war has already produced multiple unintended consequences. It has reframed the conversation on climate change, showing it to be a matter of equal urgency for global security as for the health of the environment. Australian mining titan Andrew Forrest says the time to stop buying Russian oil and gas is now. He’s also pulled back from his renewable energy interests in the country, saying any profits to be made there would be blood money. 


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Paz

domingo, fevereiro 25, 2018

Coisas simples



Esta pequena mesa aqui ao meu lado está uma bagunça. DVDs: House of Cards que o meu filho nos ofereceu,  o Scoop dado pela minha filha e o documentário sobre a Paula Rego feito pelo filho dela. O meu telemóvel. O comando da televisão. O meu molho de chaves. O livro que acabei e ler e que adorei, 'Quem me dera ser onda' e outro que comecei no outro dia, depois esqueci-me dele cá pelo que ficou interrompido, 'Alguns preferem urtigas', uma folha branca com desenhos e carimbos, obra dos meninos, um dedal de plástico.

Temos andado lá por fora e a arrumação cá dentro acaba por ficar descurada. Só quando saímos é que varro, limpo e arrumo para, quando regressarmos, não darmos com uma casa desarrumada.

Durante a tarde trabalhámos tão intensamente que o meu compagnon the route, que ainda por cima se levanta quase de madrugada, já dorme a sono solto. E eu própria, há pouco, dei por mim a acordar. Durante quanto tempo estive a dormir nem faço ideia. 


Quando as nossas árvores eram mínimas, tínhamos que comprar lenha. Íamos a uns lugares por vezes estranhos. Estou a lembrar-me de um, no fim de uma aldeia aqui perto. Num sítio alto, havia uma espécie de barracão, e era um barracão muito grande e alto, cheio de lenha. Havia lenha também cá fora, coberta por oleados. E, em volta, uma espécie de jaulas onde uns cães ferozes pareciam querer atirar-se a nós. Quando lá chegávamos não víamos ninguém. Era um lugar um bocado assustador. Depois, vindo de trás das jaulas dos cães, aparecia um homem muito mal encarado. Não me tomem por preconceituosa mas a sensação que eu tinha era que esse homem encarnava a figura do mostrengo. Uma corcunda acentuada, todo ele torto, meio coxo, muito feio, de poucas falas. Por cima das roupas velhas, usava um avental grande e mal feito do mesmo oleado preto. As mãos eram rudes e nunca esboçava o mais leve sorriso. Havia uma balança antiga, uma espécie de plataforma. Ele ia buscar lenha num carrinho de mão, depois passava-a para essa balança. Não dizia nada. No princípio é que nos perguntava se era azinho ou sobro. Pedíamos tanto de uma como de outra. Depois, enchia-nos o porta-bagagens e dizia quanto era. Mais tarde passámos a comprar ao vizinho lá da ponta da rua. Esse vinha na sua camioneta e descarregava um monte de lenha. O meu marido perguntava quanto era e pagava. Era a olho, não havia pesagens. Mas era mais lenha e mais barata do que a daquele lugar sinistro.

Agora acontece-nos o contrário: deveríamos era vender lenha.


Tanto desramamos as árvores que não sabemos o que fazer a tanta lenha. E como o meu marido, ao fim de horas de desbastes, acaba por já nem ter braços para cortar mais lenha, pomos para a fogueira ramos inteiros, alguns cujos troncos dariam bons bocados para a salamandra e para a lareira.

Tirando isso.

Este inverno está outra vez sem vergonha nenhuma, todo ensolarado. Dizem que vem aí alguma mudança de tempo mas, para já, o que vi foi sol, temperatura amena e flores arrebitadas como se já fosse primavera.


Agora estou a ver um filme português, The Kiss. Aqui as alternativas não são muitas. Acabo por ver coisas que, de outra forma, não veria. 

Aliás, passo o tempo todo a ver coisas que, por pouco, não via.

A vida pode ser simples. 

E eu encanto-me com coisas simples. Flores perfeitas, cores primárias, os cheiros da natureza, o canto dos pássaros, um gato que se esgueira, um fumo branco ao longe, a tranquilidade de uma consciência limpa.


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Abri o YouTube e, como sempre, é com curiosidade que vou à espreita do que ele tem para me sugerir e, como sempre, há sentido de oportunidade nas escolhas do meu amigo : um bailado com Polunin e logo com uma coreografia fantástica. 

Não sei se é coisa que deva dedicar a todos os meus Leitores ou a um em particular. Enfim, cada um de vós que o tome como seu.

Narcisse


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sexta-feira, dezembro 22, 2017

Conversa vadia em noite pré-natalícia





Depois de jantar e depois de ter cosido uma meia do meu marido, atirei-me à empreitada das fotografias. Não se imagina. Um susto. Tantas, tantas. Um disparate (não digo em voz alta, digo apenas baixinho, aqui que ninguém nos ouve). Para agravar, o meu marido, deitado no sofá, a observar. Eu sentada no chão a fazer montinhos. Antes, quando eu me preparava para me queixar, já me tinha lido a cartilha : 'Tu faz-me um favor: não digas nada sobre as fotografias' (tendo-lhe eu afiançado que, para o ano, é tarefa dele e ele ter dito que sim, em menos de meia hora escolhe e que, não duvidasse eu, não vão passar de uma dúzia). Contudo, às tantas começou a pedir que eu lhe mostrasse algumas. Não quis para não perder tempo. Aí fez-se de vítima: que quando é para eu lhe pedir qualquer coisa não me faço rogada, quando é ele que pede, está quieto. Então mostrei-lhe uma em que o bebé está ao colo dele a rir. Gostou. Depois mostrei-lhe uma da menina mais linda e pediu para continuar a mostrar. Felizmente, aquilo funcionou como um sedativo, coisa na base do 'boa noite, cinderela', e, portanto, a partir daí voltei a distribuir as fotos mais a abrir. Horas, ainda assim.

Acontece que, no fim, sobraram algumas e fiquei sem saber em quais dos montes é que elas faltaram. Não sei se vou ter que ver todos os montes ou se esqueça e fique com elas para mim.

Depois, já devia estar com a cabeça confundida de tanta fotografia me passar pelas mãos, meti o envelope com o nome da minha filha no saco da minha mãe e agora estou na dúvida se troquei os envelopes ou simplesmente o coloquei ali indevidamente. Como são mais ou menos o mesmo número também não chego lá pelo volume. Vou ter que inspeccionar o imenso conteúdo dos dois envelopes para me certificar qual é de qual delas.

Também já emoldurei umas quantas, também para oferecer. Falta agora colocá-las dentro das respectivas embalagens e colocar nos saquinhos. Fica para amanhã que hoje já não dá.


Era para ter ido à fisioterapia. São duas dias por semana, quando posso. Antes fazia umas ondas, laser e stents, mais mobilização e, no fim, gelo. Como contei, no último dia, em vez de gelo, calor. Acho que fiquei melhor. Hoje, toda lampeira, ia pedir mais quentinhos na nuca e ombros. Mas isto a gente nunca deve antecipar prazeres. Não arranjei lugar para estacionar. Dei três voltas ao quarteirão e isto com um trânsito absurdo em cada volta. Já perto da hora em que era suposto estar a terminar, percebi que não valia a pena continuar a tentar e liguei à fisioterapeuta. Contei-lhe que não conseguia largar a porcaria do carro em lado nenhum e que, pronto, bom natal. E dei-lhe a notícia do calor parecer ser melhor que o gelo ao que ela respondeu que era pena que estivesse a faltar ao tratamento de hoje mas que, paciência, boa natal.

Aproveitei para ir ao supermercado mas não comprei ainda tudo. O meu marido diz que depois vai ficar um caos ou que pode não haver o que é necessário. Por vontade dele, até tinha trazido já as cenouras e a couve para o bacalhau do dia de natal. Recusei-me. Era o que faltava ir fazer couves velhas. 

Queria ir buscar a minha mãe para almoçar connosco no dia de natal e pedíamos à senhora que trata do meu pai que ficasse lá com ele durante esse bocado mas a minha mãe recusa-se a deixar o meu pai. Sugeri então a consoada, que a essa hora já ele está a dormir. Ainda mais se recusa. Pronto. Percebo. Custa-me mas percebo. Vamos lá todos num dos dias seguintes, menos mal, sempre festejamos o pós-natal todos juntos mas custa-me que viva como uma prisioneira. Diz que não insista. Foi ao almoço com a turma da ginástica porque é rápido e a senhora pôde lá ficar com o meu pai. E diz que está bem assim.


No meio disto, durante o dia, com reuniões e telefonemas e tretas, só me apetece dizer que me deslarguem que não estou com cabeça para maçadas, que já só tenho cabeça para organizar as cenas natalícias. Mas pronto, mantenho-me no meu papel de responsável à prova de bala.

Ando meia esquerda com uma pessoa que queria fazer uma reunião comigo e com outros e eu disse que não estou disponível para fazer reuniões com os outros porque acho que não vale a pena já que considero que eles deveriam era ir borda fora (diz-se 'borda fora' ou 'porta fora'? agora estou baralhada) e, com esta minha posição irredutível, acho que criei um problema a essa pessoa. Não quero saber. Também já lhe fiz saber que também posso saltar eu da equação. Fretes é que não faço. 

E estou a escrever isto e a pensar que há não sei quanto tempo que dá para perceber, a partir daquilo que escrevo, que ando sem ver televisão, ouvir notícias (mesmo no carro, tenho consumido o tempo em telefonemas de trabalho ou outros) e praticamente não tenho tido tempo para trocar uns leros com quem quer que seja. Por isso, não consigo falar nem da actualidade nem de temas que possam interessar a alguém. Ando, basicamente, a milhas.

Os mails dos meus Leitores acumulam-se. Revejo nomes antigos, Leitores de há anos e sorrio de alegria e saudades. Mas, se me ponho a responder não consigo escrever nada no blog. Por isso, a ver se no fim de semana tenho tempo para agradecer e enviar um abraço a cada um. Não gosto de enviar respostas de circunstância só para despachar. Gosto de estar com cada um o tempo que me apetece.


Sei que foram as eleições na Catalunha e pelo que espreitei nos blogs da galeria lateral, os resultados são desafiantes. Mas é tema que não me mobiliza. O Rajoy pode ser um pamonha armado em carapau de corrida e estar mesmo a pedir festa mas o outro totó do cabelinho à palerma não me desperta o mínimo interesse. Parece-me um saco de vento. A deriva independentista a mim não me diz nada. Portanto, tudo o que se passa na Catalunha parece-me um carnaval sem ponta por onde se pegue. Ou seja, é tema no qual obviamente hoje não vou pegar tanto mais que estou perdida de sono. 

Gostava de poder dormir até ao meio-dia. Gostava de poder ficar em casa a tirar os presentes dos sacos, separá-los pelos destinatários, levar tudo para o pé da lareira da sala, organizar minimamente as coisas, arrumar esta sala onde agora estou. Gostava de ter tempo. Gostava de conseguir tempo para ir à janela durante o dia, olhar o rio. Mas qual quê. Parece eu que quero o impossível. Credo. Vida mais parva esta, nestes dias de azáfama e trabalheiras.

Custa-me um bocado isto, de chegar a esta hora sem cabeça para mais do que esta conversa mole. Penso que devo maçar quem aqui vem. Fui agora espreitar. É uma e tal da manhã e neste espaço de tempo (ou seja, desde as doze badaladas) já 132 pessoas me visitaram. E sinto até vergonha. É como a gente receber visitas e não ter a casa em condições nem nada para oferecer.

A ver se volto a entrar num regime mais tranquilo para tentar escrever coisa que se veja; mas isto até ao natal não deve abrandar.

E pronto. Uma vez mais a escrever quase de olhos fechados e incapaz de reler o que para aqui tenho estado a balbuciar. Relevem, pois, por caridade, as calinadas e os despenteamentos da pontuação.

E agora, finalmente, calo-me já para não continuar por aqui como chuva que cai e não molha que é como quem diz a fazer o mesmo que aqueles que não dançam nem saem na pista. E mais analogias não arranjo.


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Fotografias da autoria de Sasha Gusov que mostram imagens relativas ao Bolshoi Ballet em London

De Ennio Morricone, The Ecstasy of Gold para teremim e voz

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domingo, outubro 05, 2014

'Branca e radiosa vai a noiva' com o seu noivo, junto a um lago com cisnes



De tarde, no parque, rodeados de verde, sob a copa frondosa das árvores, junto ao lago onde deslizavam patos e cisnes, uma noiva deslizava também, majestosa em branco imaculado, rendas e infinitos folhos. Feliz, radiosa, toda ela transbordante de ternura pelo seu noivo, que a seguia e lhe arranjava os caracóis, lhe ajeitava as alças que se queriam descaídas, as flores do cabelo, a maquilhagem nos sorridentes olhos.

De vez em quando, perante uma visão assim, parece que aterro num outro tempo, num outro país. Tanta inocência e candura.

Imagino a feliz expectativa ao escolher o vestido, ela, o fato, ele. E o bouquet, e as flores do cabelo. E tinham uma pequena sombrinha de rendas brancas. O noivo transportava a sombrinha mas depois foi ela que mais fotografias tirou com esse adereço, inclinando a cabeça, dama de uma corte imaginada, e ele o pajem devoto. Ou a princesa e o príncipe encantado, enlevados debaixo da pequena sombrinha que podia ter vindo do castelo dos sonhos da menina que ela ainda é. Podia ser um filme de época. Não parecia uma cena deste inclemente século XXI, parecia um filme, ou um livro cheio de sonhos, a menina que se viu uma deslumbrante pretty woman no dia do seu casamento.

E eu, perante uma cena assim, sinto que às vezes me esqueço das coisas mais essenciais da vida.

Com eles apenas uma fotógrafa. Nenhum convidado, apenas eles e a fotógrafa. E eles posaram, abraçados, a beijarem-se, sob a pequena sombrinha, ou a esconderem-se atrás do tronco de uma árvore, olhar sedutor, ela, olhar quase embaraçado, ele, felizes neste dia tão especial das suas vidas.

O futuro espera-os e acho que eles não exigirão demais um ao outro, amar-se-ão com inocência, ver-se-ão bonitos nos olhos do outro, e saberão ser amigos, companheiros.






Estarão a esta hora festejando a sua noite de núpcias e, de qualquer forma, não me pareceram pessoas que gastem o seu tempo com o Um Jeito Manso. Contudo, gostaria de lhes oferecer alguma coisa e, por isso, não sabendo se tiveram música no momento em que celebraram o seu casamento, arrisco a deixar-lhes aqui o Ave Maria interpretado por Amira Willighagen (a menina holandesa que, há um ou dois anos, deixou todos boquiabertos com o seu talento).











E, como quiseram registar os seus momentos de felicidade junto a um lago onde deslizavam alguns cisnes, deixo-lhes também o Lago dos Cisnes (em que apenas o cisne branco pontua, sem sombras no horizonte).





Svetlana Zakharova, Andrei Uvarov. Swan Lake White Adagio. Bolshoi theater


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Aos noivos desejo que sejam felizes para sempre.


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terça-feira, fevereiro 05, 2013

Choque na nebulosa Orion, choque no Bolshoi. Os deuses erraram, diz Vasco Graça Moura. E o apelo a Nossa Senhora para que nos proteja (a quem mais haveremos de pedir em momentos assim...?)


NASA, ESA and the Hubble Heritage Team


Na nebulosa Orion,  uma nebulosa difusa que se encontra entre 1500 e 1800 anos-luz do Sistema Solar, uma região onde nascem estrelas, o vento estelar provoca o choque entre nuvens de poeira e gás cósmico. A Orion tem 25 anos-luz de diâmetro, uma temperatura média de 203 graus negativos e é uma maternidade de estrelas. A estrela LL Orionis (à esquerda na foto) produz um vento mais energético do que o nosso vento solar e provoca um choque espectacular de nuvens de gás na nebulosa de Orion (ver Expresso).






Nikolai Tsiskaridze, 
primeira figura masculina do Bolshoi Theatre of Russia (uma maternidade de estrelas), 
dança La Bayadere. 



Retiro da wikipedia: Nikolay Tsiskaridze PAR (Russian: Николай Цискаридзе), also spelled Ziskaridze, is a premier dancer of the Bolshoi Ballet. Ethnically Georgian, he was born in Tbilisi on 31 December 1973. He joined the Moscow Ballet School in 1987 and was admitted into the Bolshoi Ballet in 1991. After winning applause of true ballet legends Galina Ulanova, Marina Semenova and Yuri Grigorovich, he became the youngest person to be named a People's Artist of Russia (2001). He received the State Prize of the Russian Federation in 2001 and 2003 and the Prix Benois de la Danse in 1999.



Nikolai, cristo ou ave tenebrosa?

Nikolai está a ser ouvido pelas autoridades na sequência do ataque com ácido sulfúrico ao director do Bolshoi, Sergei Filin, ataque que o deixou desfigurado e em risco de cegar. Nikolai é um dos principais suspeitos. Em 2011 tinha sido candidato a director do teatro mas foi preterido em favor de Sergei, antes bailarino.



Sergei Filin quando ainda voava


Segundo leio, há uns dias atrás, um vulto mascarado aproximou-se de Sergei e atirou-lhe ácido à cara. Desde há algum tempo que Sergei recebia ameaças, mensagens estranhas, telefonemas. Não as levou muito a sério até isto ter acontecido.

*

Será a força dos ventos cósmicos, ou o choque de estrelas, ou a rivalidade sem limites, ou o desespero sobre si próprio, ou simplesmente a maldade humana ou, até, o fim dos tempos - não sei.


o real será
a tradução da sombra,
a intranquilidade
de existirmos?


Sergei  desfigurado, queimado, agredido


ciência de uma esperança
desordenada?
e as privações, seu gume,
de minhas mágoas

cumprido imaginário? nunca
o nó duma vida se desata,
nunca altera a matéria mísera,
frágil, da existência.

mas os deuses erraram.
é a sua condição de humanos arbitrários.



Nikolai, sedutor, ambicioso, perigoso


não perguntes se estas
são as vias
da perfeição da alma,
as concordâncias

duma arte de viver;
o tempo é excessivo nos vestígios: as
antiguidades de roma, as histórias
da morte no ocidente.

certezas ferozes, a sombra
resguardando a luz.


*

Onde - por todo o lado - a inocência, a doçura inicial da crença, a vida sem mácula, as orações simples? 

Mães que agridem e matam filhos, filhos que violam mães, estrelas voadoras que desfiguram outras estrelas, violências incompreensíveis, políticos corruptos, banqueiros insensíveis, desrespeito generalizado, tanta falta de esperança, tanta falta de perspectivas, tanto medo, tanto humilhante retrocesso, tantos vestígios de barbárie.

Eu, que não costumo rezar, nem sei orações de cor, em dias como estes em que ideias assim assomam à minha cabeça, apetece-me pedir: Minha nossa senhora olhai por nós.



Madonna della melagrana de Sandro Botticelli

*

Os poemas acima são, de facto, excertos de poemas de Vasco Graça Moura (nó cego, o regresso) e podem ser vistos na antologia 'poesia reunida'.

*

Caso vos apeteça continuar um pouco mais na minha companhia, convido-vos a virem até ao meu Ginjal e Lisboa. Hoje as minhas palavras perdem-se em longos e incertos caminhos em volta de um poema de José Alexandre Caldas Ribeiro. A música é de Chopin e está a cargo do grande intérprete desta semana, Sviatoslav Richter.

*

Só me resta agora desejar-vos uma bela terça feira.
Que a saúde não vos falte e a alegria também não.