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terça-feira, novembro 05, 2024

Terra maravilhosa
- E receita de arroz de feijão com picadinho e quiche de frango e espinafres --

 


Choveu que deus a deu. Mal deu para sair de casa. Ao fim do dia, então, foi torrencial. O maluco do cão andava sabe-se lá por onde. O meu marido chamou por ele e nada. Mas com o barulho da chuva, estando ele longe, dificilmente ouviria. Passado um bocado apareceu. Escorria. Um pinto.

De tarde, estávamos na sala, sentados no sofá que dá para a rua. O meu marido, então, exclamou: 'Olha ali, um esquilo.' Mas, com a chuva e sem saber exactamente onde, não vi. Passado um bocado o meu marido viu outra vez. Andava nos cedros. O meu marido acha que eram dois.

Pouco depois, vi um vulto a dar um grande salto na pedra grande aqui ao pé da porta. Levantei-me para tentar confirmar mas já não o vi. 

Por debaixo dos pinheiros há pinhas roídas como nunca vi. Tantas, tantas. Ou andam esfomeados ou são vários. 

Mas talvez ainda mais extraordinário são os novos cogumelos. 

Nascem todos os dias. O meu marido levanta-se cedo e vai apanhá-los. Com a Lens do Google temos visto que vários são venenosos e, por isso, não vá o cão algum dia sentir algum interesse, é melhor não os ter por aí. Claro que o meu marido já anda saturado pois apanha baldes e baldes deles. A curiosidade é que, embora ainda haja dos marrons e brancos, agora aparecem amarelos, cor de laranja, cor de coral. 

E são vibrantes, brilhantes, aparatosos. Lindos. Estes aqui acima bem como o último, lá mais abaixo, já tinham sido arrancados pelo meu marido. Fotografei-os antes de serem levados.

Como é que da terra brota tal quantidade e variedade de seres extraordinários? O que há no subsolo para estas maravilhosas criaturas lá serem geradas desta maneira, tão perfeitas, tão coloridas?





Ando à chuva, a ver tudo isto, a fotografar, encantada com os pequenos filamentos de musgo, as inocentes folhinhas verdes, os líquenes, os pauzinhos, tudo. 

Tirando isso, fiz um arroz de feijão com picadinho para o almoço.

Fiz assim. No outro dia tinha comprado igual quantidade de carne limpa de vaca e outro tanto de porco, tendo pedido no talho para picar 1 vez. Foi para fazer hambúrgueres recheados de queijo para os meninos. Mas era carne a mais e, por isso, não usei toda e congelei o que não usei.

Hoje, numa frigideira coloquei um pouco de azeite, uma cebola picada, uns 3 ou 4 dentes de alho, salsa picada, 1 folha de louro. Quando alourou um pouco, juntei um tomate aos bocados, uma mini, e a carne, entretanto descongelada. Temperei com um pouco de sal e um pouco, mesmo pouco, de açafrão-das-índias. 

Entretanto, para outro fim, tinha a cozer, 2 peitos de frango do campo.

Quando o frango estava cosido, deitei o caldo no tacho do arroz. No conjunto, a olho, calculei que o caldo que estava no tacho deveria ser o equivalente a 2 copos. Juntei, então, 1 copo de arroz. Já sabem que uso geralmente o basmati. Acho mais saboroso e mais fiável.

Quando o arroz estava quase, juntei 1 frasco inteiro de feijão encarnado cozido com caldo e tudo (mas quase não tem caldo). Este foi do Lidl. É bom. Misturei.

Quando o arroz estava cozinhado, desliguei. Coloquei um fio de azeite e deitei umas esguinchadelas de vinagre. E, com um garfo, misturei ao de leve. Ficou a apurar. Ficou bom (modéstia à parte).

Claro que sobrou mas é da maneira que esta terça-feira não preciso de cozinhar. Até porque, para o jantar, fiz quiche de frango e espinafres e sobrou bastante.

Esta fiz assim.

Liguei o forno no máximo. Tinha comprado uma embalagem de massa quebrada já estendida. Untei uma forma com azeite e orégãos. Forrei-a com a massa. Piquei e levei ao forno, colocando o formo em 180º.

Entretanto, desfiei os peitos de frango. Numa frigideira, coloquei um pouco de azeite, uma cebola grande às rodelas e fritei-a ao de leve. Juntei, então, uma embalagem inteira de espinafres folha baby e volteei-os com um pouco de sal. Com o lume baixo, coloquei uma tampa, apenas para não irem inteiramente crus ara a tarde. Mas tive-os lá coisa de uns cinco minutos, se calhar nem tanto.

Num copo misturador, juntei 4 ovos inteiros, um pacote de natas light, umas pedrinhas de sal e também uns pós de perlimpimpim de curcuma (coisa que dizem que é super saudável). Bati, mas não é preciso muito, 1 minuto chega.

Tirei então do forno a forma com a massa já um pouco cozinhada. Coloquei o conteúdo da frigideira, depois o frango desfiado e, a seguir, os ovos com as natas. Tapei com queijo ralado, 1 embalagem. Polvilhei com orégãos e coloquei um fio de azeite.

Foi ao forno a 180º. Cerca de 30 minutos.

Boa. Comemo-la ainda quentinha e acompanhámos com salada.

Sobrou, claro. Com sorte, entre a quiche e o picadinho, com salada à mistura, ainda sobra alguma coisa para quarta-feira...

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Lá em cima Dinah Washington interpreta What Difference A Day Makes

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Desejo-vos uma bela terça-feira

Boa sorte para todos

[E, claro, que ganhe a Kamala Harris]

terça-feira, maio 07, 2024

Aretha is back...?

 

Há coisas do além. Há vozes do além. Por entre a banalidade e mediania por vezes erguem-se coisas ou pessoas que parecem ser de um outro mundo.

GOLDEN BUZZER for Taryn Charles' SENSATIONAL Aretha Franklin cover | Auditions | BGT 2024


sexta-feira, outubro 20, 2023

Aline com folhas de outono, mar revolto, barcos em terra.
Cá em casa, depois da guerra, a paz.

 



A Aline deu-lhe com alguma força mas foi sobretudo perto da hora de almoço. Chuva, chuva a jorros.

O pior foi que a grande buganvília que cresceu para cima do telheiro sob o qual deixamos o carro, quase desabou. Deve ter sido da força da água ou do vento, não sei. O que sei é que, quando demos por ela, estava a nossa meia altura. Nem o carro passava nem nós. Felizmente o tronco não se partiu, apenas tudo vergou, pendeu. Tentámos, os dois, levantá-la para que uma parte se apoiasse no muro que separa dos vizinhos. Mas não conseguimos. Aliás, o peso daquilo, ainda por cima, ensopado, é brutal, Os dois a dar o máximo e aquilo nem se mexeu. A única hipótese foi ir buscar o podão e desbastar, desbastar. No fim, ficou um monte enorme de ramos cortados. 

Como para o fim da tarde a coisa tinha abrandado, fomos buscar um quadro que estava a emoldurar. 

O quadro é em tons azul, verde esmeralda, acinzentado, com uma mancha em branco. Abstracto, como quase tudo o que temos. 

Mas a tela veio da galeria esticada e presa a um passpartout. Quando na casa das molduras perguntaram se era para tirar o passpartout, resolvi deixar ficar e pôr, por cima, um vidro-museu que é invisível. 

A moldura que escolhemos (nestas coisas conto com a opinião do meu marido que chega lá, aponta e diz: 'Esta'. Fico sempre na dúvida se tem uma fantástica visão panorâmica e, num único olhar, vê tudo o que há para ver, aliada a extrema convicção, ou se é, apenas, vontade de não estar na loja mais do que quinze segundos). Como lhe reconheço bom gosto, apesar das dúvidas, gosto de contarcom  a sua opinião. Desta vez foi uma moldura larga, simples, num tom entre o prateado e o suavíssimo dourado, mais prateado do que dourado, mas pouco uniforme e quase sem brilho. Por dentro desta moldura, encaixado nela, escolhi uma outra fininha em azul claro alfazema, acinzentado, que puxa aos tons da tela. Fica como que um filet, entre a moldura propriamente dita e o passpartout branco. Acho que este apontamento valoriza a obra em si. Coisas minhas. 

Coloquei aqui a fotografia de pormenor para que percebam o que estou a dizer (a parte de fora que se vê em cima e à esquerda é a parede)

Fomos ainda comprar o livro 'Como mentem as sondagens' do Luís Paixão Martins, que o meu marido está desejando de ler. Estive a folheá-lo e parece-me que também eu vou gostar bastante de saber o que lá se diz.

Comprei também o 'O outro nome' do Jon Fosse. Também já o folheei. E, mais uma vez, torço o nariz. Não me parece que me convença. Não sei o que se passa comigo. Já no outro dia falei nisso. Estou de má boca, nada parece ser para o meu bico. Enjoadinha. Agora, ao escrever isto, para ver se me convenço a mim própria, fui ler o princípio do livro. Perdoem-me os puristas, os nobelistas, os entendidos mas a mim pareceu-me uma seca. 

Depois fomos ver o mar. Ficámos cá em cima. Mar bravo, bravo. Barcos em terra. 

Muito bonito. Andei a fotografar. Maravilha.

E, como dois pensionistas a preceito, preguiçosos e a apreciar a boa vida, a seguir fomos buscar um sushi bem apetitoso.

O pior, claro, foi, ao chegar a casa, conseguir que pendurasse o quadro até porque pensei que deveria fazer uma movimentação entre outros, obrigando a ajustar a altura do penduramento dos que mudaram de poiso. É sempre cegada das antigas quando tem que fazer um buraco na parede. E, se é mais do que um, aí é a guerra total. E eu que ando há anos a dizer que tenho que aprender a pegar no berbequim, a escolher buchas e parafusos, continuo na ignorância e, portanto, dependente dele.

Por fim, contrariado, quase furioso, lá o fez. Quando a obra foi dada por concluída, feita boa menina, agradeci. 

Depois pus-me de longe a contemplar. Fiquei contente.

A assinalar ainda que o nosso cão mais fofo hoje voltou a deitar-se na caminha dele que está aqui num cantinho da sala. Aninhou-se, enroscou-se. Há meses que dorme pelo chão, certamente onde se sentia mais à fresca. Hoje deve achar que o tempo mais frio já aconselha a algum aconchego. Cão mais lindo, mais querido.

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E agora estive aqui a ver uns vídeos e vou partilhar um, legendado, em que o dono de uma casa, um estilista bem simpático, mostra objectos bonitos que lá tem. 

Inside This Fashion Designer's Modern Belgian Home, Filled With Wonderful Objects | Vogue

Fashion designer Pieter Mulier, Maison Alaïa's creative director, takes us through his Belgian home and shares some of his most precious possessions. As the successor to the legendary Azzedine Alaïa at Maison Alaïa, Pieter's taste and passion for art come shining through as he tours his abode. 


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Lá em cima Eva Cassidy interpreta Autumn Leaves
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Desejo-vos um belo dia 
Saúde. Tranquilidade. Paz.
Paz. Paz. Paz. Paz. Paz. Paz. Paz. Paz. Paz. Paz.

terça-feira, outubro 17, 2023

Momentos de devoção em noite de ventania

 

Não me apetece falar do meu dia. Não que tenha sido mau e, à tarde, até tive uma experiência interessante sobre a qual aqui poderia falar e, em especial, fazer comparações com uma realidade antagónica que é que a que melhor conheço.

Mas não está a apetecer-me. 

Talvez esteja preguiçosa. Cheguei tarde a casa. Acabámos de jantar já passava um bom bocado das dez e meia da noite. Depois ainda estive a trocar uns dedos de prosa com alguns amigos. E ainda estive a fazer, aqui no google e chatgpt, algumas pesquisas. Por isso agora estou um pouco off. Não respondi ontem aos comentários e acho que hoje vou pelo mesmo caminho. Li-os, claro que sim, e agradeço-os mas acho que as minhas pilhas se vão extinguir no fim deste post. As minhas desculpas. Tentarei responder amanhã. 

Mas também acontece que está muito vento. E eu gosto de ouvir o vento, gosto mesmo. Apetece-me estar sem fazer nada, a cabeça encostada ao sofá, a ouvir o vento. Mais nada. Tenho o estore corrido mas a janela de vidro está a bascular. Gosto de sentir o ar fresco da noite. Por isso, ouço tão bem o vento. E quando há árvores por perto, como é aqui o meu caso, ouve-se como que uma espessa valsa, um sopro forte como se mil tigres soprassem ao mesmo tempo.

Mas isto é o lado poético do vento. Há o outro lado. Há sempre outro lado. Há pouco, começámos a ouvir barulhos não identificados. Depois percebemos que vinham do outro lado da casa. O meu marido foi ver lá fora. O estendal de pé tinha caído e um regador andava a rebolar pelo chão. 

Gosto de ouvir o vento mas sinto sempre algum temor perante os mais indefesos (sejam pessoas, animais ou árvores). Lembro-me de quando um pinheiro grande, in heaven, ajoelhou. E um cipreste caiu. E um cedro enorme tombou e, quando se quis endireitá-lo, as raízes desenterraram-se. Dias de susto para as minhas árvores.

Mas pior é para as pessoas que não têm boas casas em que possam estar abrigadas.

E, de tudo o que fui conseguindo ler, aos poucos, ao longo do dia, o que mais despertou a minha atenção foi o último post do Steve McCurry. Moments of Devotion

These are people who are capable of devotion, public devotion, to justice. 
They meant what they said and every day that passes, they mean it more.

– Wendell Berry


For the person who is religiously or spiritually inclined, 
work even becomes a vehicle for devotion, a way of utilizing one’s gifts and talents to serve others.

– Marsha Sinetar

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Quanto ao que homens loucos andam a fazer pelo mundo não consigo dizer nada. Pessoas em que não habita a bondade, a tolerância ou a compreensão são seres que me são estranhos. 

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Desejo-vos uma boa terça-feira
Saúde. Serenidade. Paz.

Paz. Paz. Paz. Paz. Paz. Paz. Paz. Paz. Paz. Paz. Paz. Paz.

segunda-feira, outubro 09, 2023

Viajar. Ler. Estar.

 


Tenho uma amiga a passear em Itália, outro anda pela Grécia, outra está na Turquia. Outras duas, separadamente, vieram há pouco dos Açores e uma pessoa da minha família próxima chegou hoje de uns dias de férias em Paris. Outro anda em Trás-os-Montes e outra, que vive fora e cá veio de férias, sei que anda por aí, por 'este nosso belo país', mas neste momento não sei por onde. 

E eu, que tanto gostava de passear e que tanto passeei, parece que me fui desabituando disso ao longo dos anos em que, por o meu pai estar mal e sempre naquele limbo em que qualquer coisa de pior poderia acontecer a cada momento, ganhei receio a afastar-me não fosse dar-se o caso de não estar por perto em caso de emergência.

Além disso, agora não há o permanente estado de quase alarme em que vivia na altura do progressivo declínio do meu pai, mas há a minha mãe que, com os seus noventa anos e a sua tendência para a ansiedade quando algum sintoma se anuncia (mesmo que ao de leve), faz com que também não me sinta confiante em afastar-me.

Como entretanto mudei de casa e adoro aqui estar, nesta minha tranquila casa que tem um jardim tão romântico e sereno, já para não falar naquele lugar tão especial a que aqui chamo heaven, e porque, por ter deixado de trabalhar, tenho agora tempo para os desfrutar, parece que deixei de sentir o apelo por me pôr a caminho.

Com tudo o que já visitei, com todas as viagens cá e lá fora que já fiz, com as fotografias que toda a gente envia de todo o lado, com os sites, com os documentários, os vídeos e tudo o mais que por aí há, parece que tenho a sensação de que já não me surpreenderei muito com o que tenho por ver, se lá estiver, ou seja, in loco

Sobretudo, sabe-me muito bem estar. Permanecer. Desfrutar. Não ter que fazer malas, estar a ir e vir. E o meu marido está na mesma. Adora o sossego. Adora poder ler ou ver televisão ou passear com o cão ou o que lhe apetecer, sem a preocupação de ter que se despachar para ir fazer outra coisa qualquer.

Talvez daqui por algum tempo, me dê uma daquelas travadinhas que me leva a querer mudar de vida e não descanse enquanto não me puser a caminho. Mas, por enquanto, sinto uma grande felicidade em estar sossegada, poder acordar tarde, caminhar por aqui perto ou ir até à praia, jardinar, regar, lavar, varrer, cozinhar, etc., ler, escrever até às tantas, ter a família reunida ao fim de semana (ou nos dias feriados), comunicar-me com amigos, por vezes estar com eles. 

Sobre livros, a minha filha queixa-se que parece que não encontra agora livros que a encantem. Frequentemente deixa-os a meio, sem paciência para esforços que sabe de antemão que não vão compensar. Eu, desde há algum tempo, também estou assim. Mesmo muitos daqueles livros altamente propagandeados ou ditos clássicos agora me parecem básicos, sem substância ou arte. Disse-me ela que, do que tinha lido ultimamente, só um lhe tinha parecido digno de realce, 'As primas' de Aurora Venturini. Por isso, comecei hoje a lê-lo. E é verdade, ela tem razão: só não foi de penalti porque se meteram outras coisas. Mas amanhã com certeza que vai. Depois digo porquê.

Ela estava a ler e acabou-o cá, hoje à tarde, 'O quarto do bebé'. Eu já o espreitei e também me pareceu demasiado plain mas ela diz que se lê bem, que não é nenhuma obra literária, que, por ser de quem é, também estava à espera de outra coisa, que é um diário e que se percebe que é autobiográfico e que, por isso, à parte os bocados em que Anabela Mota Ribeiro descreve sonhos e outras partes mais nhec-nhec, se deixa ler sem sacrifício.

Não sei se é como nas viagens. A gente já leu tanto de tudo que, às tantas, já tudo parece simplório ou dispensável.

Por acaso o meu filho no outro dia disse que estava a ler um livro e que era talvez dos melhores livros que já tinha lido. Sabendo-o também exigente, fiquei curiosa. Mas era um nome algo estranho, não fixei. Não posso esquecer-me de lhe perguntar. Só que receio que seja um daqueles livros gigantes que ele lê com facilidade mas que a mim já me custam. Parece que agora também já tendo a sentir um certo sentimento de rejeição em relação a livros muito grandes, com mais de trezentas ou quatrocentas páginas.

Enfim, cenas.

Tirando isso, é pena que o mundo não se amanse, que as pessoas não ganhem tino. O próprio planeta devia arranjar maneira de espalhar pelos ares uns pozinhos de perlimpimpim que deixassem as pessoas todas numa de peace and love.

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A fotografia é da autoria de Matt Coughlin e Eva Cassidy interpreta Autumn Leaves

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Desejo-vos uma boa semana a começar já nesta segunda-feira

Saúde. Amor. Paz.

quinta-feira, fevereiro 09, 2023

O corpo de Eva a Eva pertence.
[O de Chiara também a Chiara pertence]

 




Continuam a morrer mulheres às mãos dos homens que com elas vivem. São frequentemente pais das crianças cuja mãe agridem, estrangulam, esfaqueiam. Por vezes acontece que o fazem com as crianças a dormir no quarto ao lado, quando não à vista delas. Cegam. Pode ser sob o efeito do álcool, de outras drogas ou por obsessão, psicopatia, tara. E fazem-no, na maior parte das vezes, depois de anos de pressão psicológica, de crises de ciúmes, de ameaça, coação, chantagem emocional, de pedidos de perdão, de juras de amor. 

Fazem-no sempre em nome do que pensam ser afecto e as mulheres, por carência, por medo, por quererem acreditar que são amadas, pelos filhos, para não preocuparem a família, por vergonha perante amigos e colegas, aguentam em silêncio, fingindo que está tudo bem.

Por cada mulher que é assassinada deve haver mais de cem ou mais de mil que vivem um vida de infelicidade e pavor.

Há muito a fazer para prevenir isto, para ensinar o que é o verdadeiro amor, para conduzir à procura de apoio os agressores, os assediadores, para fazer vencer a barreira da discrição da vizinhança que ainda acha que entre marido e mulher ninguém deve meter a colher, para explicar como as vítimas podem pedir apoio em segurança.

Há muito a fazer para que as mulheres se sintam com direito à sua vontade e para que os homens aprendam que a sua vontade não impera sobre a das mulheres. Há muito a fazer para que a sociedade o assimile na sua totalidade.

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Não foi exactamente por isso que Chiara Ferragni, com uma poderosa presença e intervenção no Festival de Sanremo, se vestiu e falou como as imagens e os vídeos mostram. Pretendeu, sobretudo, alertar para o direito das mulheres a fazerem o que quiserem com o próprio corpo, a serem como são sem terem que ser vítimas de pressão social,  a terem o direito a uma voz independente e forte, o direito a terem os mesmos direitos que os homens, o direito a não serem vistas como as pecadoras que merecem punição.

Ser mulher não é uma limitação.




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E outra Eva foi pintada por Lucas Cranach the Elder e vem na companhia de Melody Gardot e Philippe Powell com This Foolish Heart Could Love You

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Desejo-vos um dia bom
Saúde. Respeito. Paz.

sexta-feira, outubro 14, 2022

Segredos profundos, uns que se podem partilhar, outros que não

 


Costumam contar-me coisas. Chegam-se ao pé de mim e começam a contar-me coisas, por vezes coisas muito pessoais. É um pouco desconcertante mas é a verdade. Não sei bem porque é que isso acontece. Não sou de sorrisinhos, não sou de simpatias a la minute para angariar amigos, não sou de palavrinhas fáceis ou consolos de efeito, sou mais de ouvir atentamente. No entanto, pelo menos a julgar pela minha experiência, o ser como sou faz com que as pessoas se sintam confiantes em partilhar comigo situações muito pessoais.

Eu, pelo contrário, não sou de falar de mim. Mesmo aqui, em que me farto de escrever e em que escrevo num registo por vezes quase diarístico, há muitos temas que nem afloro. Mesmo nos que falo, tento não dar pormenores muito objectivos pois penso que os assuntos são mais interessantes para quem os lê se houver, aqui ou ali, um certo véu. Mas se a escrever ainda vou falando de mim, ao vivo e a cores pouco falo. Não tenho muito para dizer. 

Se a Thoraya montasse a banca ali no jardim ao fim da rua e me pedisse um segredo, acho que não me ocorreria um único. Acho que não tenho segredos. Pelo menos dos que se podem contar.

Vejo os vídeos dela e fico espantada com a quantidade de pessoas que têm segredos escondidos e que, pelos vistos, são segredos que estão ali à bica para poderem sair. Eu teria que puxar muito pela cabeça e, no fim, penso que no máximo me ocorreria uma palermice qualquer de quando andava na escola primária.

Na verdade, acho que nunca fiz uma patifaria, nunca gamei nada, nunca sacaneei ninguém, nunca tive inveja de ninguém. E, no entanto, no outro dia, num daqueles exercícios de imaginação em que me ponho a imaginar o que hei-de fazer um dia que me reforme, ocorreu-me que talvez gostasse de escrever umas memórias e, ao pensar no que poderia escrever, lembrei-me de algumas coisas de que habitualmente não falo. Melhor: de que nunca falo. São coisas que não interessam, coisas que ficaram no passado. Ao contrário de muitas pessoas que ficam a remoer e atormentadas com isto ou com aquilo, eu ponho para trás das costas e nunca mais penso nisso. 

Não sei o que é que hoje em mim vem de situações mal resolvidas no passado. Diria que nada. Se me ponho a pensar na minha infância, adolescência ou vida adulta, o que me vem à cabeça são as situações boas, reconfortantes, divertidas. Só com um aturado esforço de reconstrução é que me recordo das coisas menos boas. Mas agora, tal como antes, relevo-as, relativizo-as, arranjo atenuantes para quem praticou algum acto ou proferiu alguma palavra que me incomodou.

Não guardo recordações desagradáveis em relação aos meus primos, aos meus amigos, aos meus colegas. Não me lembro de alguém que me tenha magoado. Se o fizeram, desculpei-os tão completamente que disso não sobrou qualquer ponta solta. Mais mais facilmente me lembro de situações em que estive um bocado ao lado ou em que, por erro ou omissão, induzi nos outros deficiente compreensão de situações, levando-os a ficar felizes com situações que não correspondiam exactamente ao que lhes tinha parecido ou, pelo contrário, levando-os a desgostos desnecessários. Mas não sei se isso encaixa no conceito de segredo.

Mas, sim, um dia que me ponha a escrever, sairão à cena algumas novidades. 

Penso também no seguinte: se um psicólogo me virasse de cabeça para baixo e chocalhasse, será que iria conseguir que saltassem algumas peças soltas que fossem reconhecidamente a chave para explicar a minha personalidade ou alguns dos meus comportamentos? Creio que não. Mas nunca se sabe. 

Seja como for, gosto de ver estes vídeos da Thoraya. Já aqui a tive algumas vezes. E a quantidade de pessoas que os comenta e que se solidariza com o que ouviu ou que se revê no tipo de segredos que ali são revelados é espantosa.

E vai escrever um livro sobre segredos, ela, e está a pedir que lhe enviem segredos para que possa usar alguns no seu livro. Pelo que expliquei, não vou enviar nada mas se algum de vocês, aí desse lado, tiver alguns para a troca, é enviar-lhe.

People share their deepest secret anonymously

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Fiz estas fotografias hoje ao fim do dia, na praia, quando fomos fazer a nossa caminhada

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Desejo-vos um dia bom
Saúde. Boas memórias. Paz.

quinta-feira, setembro 29, 2022

Ligações, promoções, confraternizações. Sacos. Melgas. E etc.

 


Recebo convites para participar aqui e ali, para almoços e pequenos almoços executivos, para passeios de barco, para cocktails em rooftops ao pôr do sol com jazz como companhia. Agradeço a gentileza do convite e declino ou vejo se é possível encaminhar para colegas que estejam receptivos. Eu já não consigo. Nunca tive grande saco mas, desde há algum tempo, fechei mesmo para obras. Não dá.

Hoje, ao fim da tarde fomos caminhar à beira da praia. 

Num dos restaurantes havia uma festa. Um músico contribuía para o ambiente boa onda. As ondas do mar a pouca distância contribuíam com o resto do acompanhamento musical. Num dos topos, uma mesa posta com aqueles simpáticos amuse-bouche e petites pâtisseries que coloridamente abrem o caminho para a gourmandise e que dão gosto só de olhar. Para compor o ramalhete umas dezenas de pessoas com ar de executivos que se aperaltaram para a ocasião. Homens e mulheres mostravam-se glamourosos, elas bem maquilhadas, bem vestidas e bem penteados e eles idem. Todos de copo na mão, todos sorrindo, confraternizando, circulando. Alguns mais sérios, ar de quem carrega a pesada chave que abre o cofre das soluções do mundo, certamente falando do business

E eu, vendo-os, pensei numa coisa que sempre ouvi dizer a todos os meus colegas: que os bons negócios se fazem à mesa ou que é nestas ocasiões que se fazem contactos frutuosos. E se todos o dizem é porque para todos eles isso funciona.

Pois comigo nunca funcionou. Nunca, nunca. O meu mindset só se sintoniza no business quando estou a trabalhar, em horário laboral, em local de trabalho. Preciso de estar focada nas coisas, preciso de estar preparada, preciso de ser incisiva quando for preciso, preciso de perceber até onde posso ir. Nada disto é compatível com distração, música, copos, gente a interromper.

Pior que isso: quando estou (ou melhor, quando estava) em lugares assim, odiava -- e digo bem: odiava, o-di-a-va -- que viesse algum chato maçar-me com assuntos de trabalho. 

Nestes encontros, conferências, almoços, tretas, há sempre o intuito por parte de quem organiza de estreitar connections, de estabelecer contactos, de farejar intenções de investimento. E eu percebo isso, estão a gastar dineiro nos eventos com esse propósito. Só que sou a ave que voa fora do bando, sou a ovelha sempre pronta a tresmalhar-se. Se é para ser almoço, então vamos curtir a ementa e falar de coisas simpáticas ou de política ou de lugares bonitos do nosso país. De tudo menos de trabalho. 

Não aguento quando um palerma pergunta qual a nossa experiência com a empresa A ou B, com a metodologia C ou D, com a tecnologia E ou F, com os mercados G ou H ou com o caraças. Só apetece perguntar se não sabe que é falta de educação falar de trabalho à mesa. Só não o perguntava para não me arriscar a ouvir que, justamente, aquele era um almoço de trabalho.

É que a conjugação de um almoço ou evento profissional com um chato é do pior que pode acontecer. Sempre fugi de chatos mas há ocasiões em que não dá para fugir. É, então, a tortura total. 

No Grupo, todos os anos havia encontro do maralhal quase todo. Foi interrompido com a Covid e agora está a retomar-se a boa prática. Um hotel todo por nossa conta não chega. Uns ficam na guest house

Num ou noutro sítio, à noite fazem-se grupinhos e há sempre quem aproveite para trocar ideias sobre projectos em curso ou em perspectiva, sobre problemas, sobre planos de negócio. Mal vejo algum a aproximar-se logo eu salto fora. Não há pachorra. 

Eu a organizar coisas destas, imporia uma condição: proibido falar de trabalho. 

E agora vou fazer um paralelo que, na volta, não é de nenhum paralelismo. Mas ainda assim. Qual a lógica daquelas cenas de lançamento de livros? Ter outras pessoas a falar do livro do autor? Mas há alguma coisa a dizer? Quanto muito há a ler e cada leitor que interprete como quiser. Se eu um dia escrever um livro nem arrastada me apanham numa cegada dessas. Não teria nada a dizer. Um autor vai pôr-se a dizer o quê do livro que escreveu? O que havia a dizer, foi dito por escrito. Ou outra pessoa ao lado a dizer coisas sobre o autor ou sobre o livro? Que abuso. Não faz sentido. Um escritor é escritor enquanto escreve. Quando não está a escrever, deve ser deixado em paz. Nem imagino o suplício que deve ser para um escritor ter que andar a aturar chatos que andam à volta que nem melgas para falar dos personagens ou sabe-se lá do quê. Mas parece que as editoras querem os escritores a circular, a exporem-se em lançamentos, em feiras, em encontros, parece que isso ajuda a divulgar. Não vejo como. Nem percebo como é que os escritores conseguem ter paciência para falar do que escreveram. Se me imagino nisso, só penso que, mesmo que involuntariamente, ia dar comigo a dar respostas inconvenientes, a ser irónica, a abandalhar a conversa. Acredito que, ao fim de algum tempo, na editora haveriam de me implorar que não aparecesse em público. Melhor para mim, claro.

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E isto porque vi aquela gente num fim de tarde tão bonito, mesmo em cima do mar e, em vez de curtir o jazz ou vir para a rua olhar para o sol a mergulhar no horizonte, andavam ali a jogar conversa fora ou a perder tempo a falar de trabalho. Mas sei lá. Cada um é como cada qual. Se calhar, eles é que fazem bem.

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As fotografias RX de flores são da autoria de Aleks Reba e, uma vez mais Nina Simone faz-nos companhia com Mr. Bojangles

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Um dia bom

Saúde. Boa onda. Paz.

domingo, julho 10, 2022

Cérebro meu, cérebro meu, como garantir que, até ao fim, serei sempre eu?

 



De novo um dia muito preenchido. Entre o programa de festas da manhã e o da tarde, tempo para fazer peixe cozido para o almoço (maruca com batata, feijão verde e ovo, temperado com azeite e sumo de limão). Acabámos de almoçar à três e tal e, como a companhia da tarde não chegaria antes das quatro e meia e eu estava que não podia, deitei-me no sofá e liguei a netflix. Para dizer a verdade nem sei se cheguei a começar a ver alguma coisa. Tenho a vaga ideia que sim mas não faço a mínima sobre o que foi. Acordei estremunhada quando eles chegaram. Devo ter dormido uma hora ou quase. Estava mesmo cansada.

O que me vale é que durmo um niquinho e acordo fresca. Mas estes niquinhos não chegam. Sinto que estou a precisar de descansar e o aborrecido é que não estou a ver maneira de consegui-lo nos próximos tempos. Precisava de poder dormir de manhã até o corpo querer, sem despertadores, sem ter que me preocupar com o que tenho que fazer a seguir. E precisava que isto pudesse acontecer durante vários dias seguidos. Precisava também  de dormir a sesta todos os dias durante vários dias. Claro que também era bom que conseguisse passar a deitar-me mais cedo. Só que este bocado, à noite, é o meu tempo, o bocado em que estou sozinha, sem ter mais nada que fazer senão o que me apetece. 

Outro que está como eu é o dog. Com este calor só lhe apetece descansar à fresca e ou somos nós que saímos e o levamos ou é a animação que vem até nós. Acresce que o cão da casa ao lado o tira totalmente do sério. Aliás, o cão não faz quase nada. Mas existe e é carismático e isso perturba a existência do nosso cabeludo. Corre, salta e ladra freneticamente durante tempos e tempos. Não consegue descansar de dia e, chega a esta hora, e deixa-se cair, completamente desfeito.

Mas a tarde foi boa, a companhia animada. E deu até à noite. Estivemos na rua até talvez às dez. Depois de um caloraço durante o dia, pôs-se muito bom para a noite, uma temperatura agradável, uma levíssima aragem a refrescar o ambiente. As luzinhas solares são o máximo, criam uma onda acolhedora. Para além disso, são fotogénicas. Hei-de fotografá-las para vos mostrar. 

Uma noite de verão assim é uma maravilha. Infelizmente sabemos que se há casos em que as aparências iludem este é um deles. 

As temperaturas anormais e persistentemente altas como corolário de um ano demasiado seco mostram o que serão os calores cada vez maiores e mais frequentes, os riscos cada vez mais intensos de incêndios difíceis de controlar e o devastador problema da falta de água. Ou acordamos seriamente para a necessidade de puxar pela cabeça, da ciência dar as mãos à tecnologia e de arregaçar as mangas ou o país tornar-se-á um lugar não apenas perigoso como francamente inóspito para algumas espécies, nomeadamente para a humana. 

Mas, enfim, adiante.

Na sexta, o meu filho não perdeu os Metallica e, neste sábado, foi a minha filha que me falou no imperdível concerto dos Da Weasel. E disse-me que se podia acompanhar na rtp. Desconhecia. E, por isso, quando chegámos à sala, foi na rtp 1 que nos sintonizámos. Já ia adiantado mas, até ao fim, não despegámos. Muito bom. Fabulosa energia.

Pasmo com a incrível multidão que ali esteve, unida, em comunhão, vibrando com o potente som e a muito boa vibe daqueles matulões da margem sul. E estão melhores, muito melhores. Ganharam uma outra dimensão. 

Agora, enquanto escrevo, actuam os Two Door Cinema Club. Nunca tinha ouvido. Estou a gostar. Estou a escrever e a dançarinhar ao mesmo tempo. No recinto mantém-se uma multidão.

Dá ideia que a malta se marimbou de vez para a covid, se marimbou para distanciamentos e para a vida em suspenso. A malta quer é curtir, quer é viver em liberdade. A vida é uma coisa extraordinária.

Há pouco, enquanto a Filomena Cautela enchia chouriços com uns bacanos, dei uma volta pelo youtube. E vi este que aqui partilho e que, lamentavelmente, não tem legendas em português.

Explica o que é a doença de Alzeihmer e, de certa forma, como tentar preveni-la. Nada de novo: fazer exercício, ter uma boa alimentação, em especial na base da dieta mediterrânica, conviver, evitar o stress prolongado, aprender coisas novas e... dormir o suficiente. Pode não trazer novidades espampanantes mas é claro e bem sistematizado. Recomendo-o.

Lembro-me da minha avó paterna. Para o fim, de vez em quando tinha alguma perturbação que a fazia ter comportamentos algo estranhos, deixando-nos desconfortáveis, sem sabermos como deveríamos agir. O meu avô fazia por ignorar. Eu tentava relativizar. O meu pai não. Reagia como se ela estivesse normal, zangava-se. Lembro-me de uma vez estarmos em casa dos meus pais e de ela e o meu avô lá estarem também a almoçar. Ela queria ir, a seguir, a casa do seu outro filho, o meu tio, e estava preocupada que se fizesse tarde. E, então, por mais do que uma vez, levantou-se da mesa com a intenção de se ir embora. O meu pai irritava-se, que estivesse a almoçar sossegada, onde é que ia?, todos à mesa e ela naquele disparate, o irmão sabia que ela lá ia, não ia sair, ela que tivesse calma. Ela não respondia mas estava ansiosa. Sentava-se, comia mais alguma coisa e, de seguida, voltava a levantar-se e a dirigir-se para a porta. Aquilo fez-me muita impressão. Fez-me também muita impressão ver como o meu avô assistia com aparente indiferença mas não era indiferença, era impotência. Em vão, tentava que aquilo nos parecesse normal ou irrelevante. Muito triste.

Outra vez perdeu completamente o conhecimento. Partiu uma perna, foi operada. A seguir apanhou uma pneumonia. Esteve muito mal. O hospital fez-lhe também mal. De alguma confusão inicial passou para a total ausência de tino. Não dizia coisa com coisa nem conhecia ninguém. Os médicos diziam que era normal as pessoas ficarem confundidas em situações assim. Não era aconselhável que tivesse muitas visitas pois ainda mais baralhada ficava mas os meus pais disseram que não sabiam como é que a situação ia evoluir pelo que era melhor eu ir lá. Não conhecia ninguém. Mas mal me viu, reconheceu-me: 'Olha a minha menina, a minha querida', disse o meu nome e abraçou-me e beijou-me muito. Estava quente, febril. Foi uma sensação estranha pois comigo falava normalmente e com as outras pessoas era o vazio. Não sei se teve Alzeihmer ou um outro tipo de demência ou se era fruto de AITs que na altura não sabíamos que tinha, só o soubemos quando teve um AVC que viria a ser fatal.

Com o meu pai foi diferente. Foi o AVC que lhe varreu o cérebro e o deixou com sérias limitações. Estava lúcido e com excelente memória mas foi perdendo a audição, depois a visão. Depois ficou acamado. E muito medicado. De vez em quando passava por períodos muito complicados. Até que se acertasse com a dosagem era, por vezes, um calvário. Chegou a perguntar se já tinha morrido. Nem sabia se estava vivo. Muito complicados esses períodos. Quando ficava lúcido, pedia para o deixarmos morrer. Muito difícil. Por isso, para o fim quase só dormia e a comunicação era quase nula. Também quase não falava, estava com sonda gástrica e com oxigénio em permanência. Se calhar, para ele foi melhor não assistir lúcido ao inevitável desenlace.

Talvez por estes dois casos próximos, a falta de lucidez, a dependência e o declínio que acompanham as limitações mentais assustam-me bastante. E gosto de me informar.

Espero que também achem útil.

5 ways to build an Alzheimer’s-resistant brain | Lisa Genova

Only 2% of Alzheimer’s is 100% genetic. The rest is up to your daily habits.

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Desejo-vos um feliz dia de domingo

segunda-feira, julho 04, 2022

Palavras ziguezagueantes



Já adormeci duas vezes. Numa delas, o computador caiu ao chão com algum estrondo. De noite dormi pouco e não deu para descansar durante o dia.

Dia bom, a família junta. Dois dos meninos não estiveram pois estiveram numa festa. Os demais e respectivos pais estiveram. E estive também com a minha mãe. Aliás, entre o meio dia e a uma e meia fui às compras com ela. Andava a dizer-lhe que deveria sair da sua zona de conforto a nível de toilettes: devia ter túnicas coloridas, leves, vestidos frescos de verão. Como dizia que sozinha não se habilitava a uma tirada desse género receando que o tiro saísse ao lado, combinei ir com ela. Detestou ver-se com túnicas ou vestidos largos e não lhe neguei a razão. Está uns centímetros mais baixa do que antes e levemente encurvada e, por isso, algumas coisas não a favorecem especialmente. Trouxe umas calças fininhas, em branco com florzinhas verde claro, uma blusa de manga curta, linhas direitas, em alinhado cru, e uma túnica muito bonita, solta, com um colorido muito bonito. Claro que a túnica não é para usar com as calças às florzinhas. Usá-la-á com calças brancas ou jeans. Veio contente.

Também queria um saco em ráfia para levar para a praia mas não encontrou nada que lhe agradasse. Mas vimos alguns em lojas na baixa que estavam fechadas. Penso que irá visitá-las esta segunda-feira. Gosta agora de se vestir com vestuário actual, coisa que antes não privilegiava. Antes lembro-me de a ouvir sempre dizer querer coisas boas, de boa qualidade, bom corte, boas marcas. Vestia-se de forma clássica. Queria roupa que se mantivesse com bom ar, roupa intemporal e duradoura e, sobretudo, que não desse minimamente nas vistas. Temia que pudessem achá-la 'gaiteira'. Por isso, agora que está quase com noventa anos e começou a aceitar sair das suas zonas de conforto, é mais jovem do que quando tinha metade da idade. 

A mim até já os meninos me perguntam quando deixo de trabalhar. No outro dia, um dos meninos tentava convencer-me: 'Mas já trabalhaste muito, agora tens direito a não trabalhar'. Penso nisso, sim. Preciso de tempo para fazer o que me apetece e para coisas que não são críticas nem urgentes mas que deveriam ser feitas. Por exemplo, ainda há uns quatro ou cinco sacos por arrumar e já nos mudámos daqui a nada fará dois anos. Não tenho tempo. Parece impossível mas é verdade. São coisas que não fazem muita falta e que tenho que pensar onde vou arrumar. Mas a questão é que durante a semana nunca tenho tempo e os fins de semana passam a correr, sem um mínimo de tempo para tarefas desse género.

Há pouco, enquanto lutava para não adormecer, ouvi falar do que me parece ser uma certa barracada com a visita do Marcelo ao Brasil. Não poderei pronunciar-me pois desconheço o objectivo da viagem presidencial, não sei se foi com o objectivo de ir à Bienal de São Paulo, se foi com o objectivo de ir lançar a campanha do Valtinho para ver se é desta que arranja uma mulher que queira ser a mãe do filho que ainda está por conceber ou se o objectivo era mesmo visitar o Bolsonaro e o Lula e demais ex. Como não sei, não consigo ajuizar se a parvoíce está na agenda da visita ou na descortesia do bronco do Bolsonaro. Mas, para dizer a verdade, tanto se me dá.  São temas que, como dizia o outro, não me assistem. A única coisa que me chamou a atenção foi ver o Pedro Adão e Silva metido naqueles achados. Antes comentava na televisão, na rádio e no jornal. Agora tem que assistir a tudo de bico calado. E isso, para mim, tem graça.

Como estou mais a dormir que acordada, acho que, de cada vez que desperto, começo a falar de uma coisa que não tem nada a ver com as anteriores. 

Só tenho mais a dizer que, há pouco, antes de ter adormecido e ter deixado cair o computador, estava a ver vídeos de culinária, receitas simples. Já marquei o respectivo canal para ver com mais atenção quando tiver tempo e a cabeça fresca. Parece-me isto tema importante: cozinhar bem, diversificada e rapidamente. São vídeos silenciosos e fáceis de perceber. Hei-de experimentar uma receita a ver se é boa. Se gostar, logo digo qual é. É o tipo de informação útil que penso que toda a gente aprecia.

Também uma observação. No outro dia, creio que ontem ou antes de ontem (os dias foram tão cheio que parece que isto foi há mais tempo mas, tentando reconstruir, concluo que foi há muito pouco tempo), ao caminharmos por aqui ao fim do dia, numa casa longe da nossa, no jardim estavam dois homens que me pareceram bonitos e jeitosos, em frente um do outro: estavam a fazer o que me pareceu ser Tai Chi. Pareciam o espelho um do outro. Em silêncio moviam-se de forma lenta e elegante. Pensei que se calhar eram um casal pois estavam tão sincronizados e cúmplices que parece que se moviam em uníssono. Disse ao meu marido que um dia poderíamos tentar fazer uma coisa assim. Ele disse que sim. Mas eu, ao dizê-lo, pensei que ele, se quiser, faz sem hesitação ou falha. E eu não farei ou desatarei a rir ou não terei paciência. Não sei como poderei aprender a ser disciplinada mas acredito que isso seria bom para mim. No entanto, duvido que alguma vez na vida, mesmo com disciplina aos potes, consiga estar frente a frente ao meu marido a fazermos gestos vagarosos e sincronizados, eu sem me rir, ao longo de uma hora. Parece-me completamente impossível. 

E, pronto, tenho que ir dormir. Já não atino, adormeço de minuto a minuto. Sorry.

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Pinturas de António Carneiro na companhia de Four Women: Lisa Simone, Dianne Reeves, Lizz Wright, Angélique Kidjo

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Desejo-vos uma boa semana a começar já nesta segunda-feira
Saúde. Boa sorte. Confiança. Paz

quarta-feira, junho 15, 2022

Crises, chapéus, árvores

 


Tive um dia assaz complicado. E a complicação começou bem cedo. A meio do dia pensei: Não estou para aturar isto. Depois pensei: tenho que ser consequente. Mas não me deram tempo para equacionar cenários de retirada. E agora, depois da meia-noite, o que posso dizer é que não fui consequente. Daqui a nada começa o dia e ainda antes de começar já eu estarei enredada em pareceres jurídicos, crises, resoluções contratuais e outros petiscos que tais. 

Mas, como dizia, a procissão começou ao raiar d'alba. Aliás, estava a ter um pesadelo quando fui acordada pelo telefone. Em condições normais teria ficado possuída por ter sido acordada quase de madrugada. Assim, salvou-me do pesadelo. 

Já não é a primeira vez que tenho este pesadelo. Sonhei que estava com várias crianças cá em casa, um dos quais ainda bebé, e que eu mal dava conta de tomar conta de tantos. E que tinha pedido à minha mãe para se ocupar do bebé. E, à noite, tinha reparado que o bebé estava invulgarmente magrinho e sem força. E eu tinha perguntado à minha mãe se tinha dado de comer ao bebé e ela, toda chorosa, tinha confessado que, no meio da barafunda, se tinha esquecido. Desde manhã que o bebé estava sem comer. O meu desespero não se imagina. Tinha pegado no bebé, toda eu numa aflição, tinha preparado leite e uma papa e o bebé estava tão fraco que mal conseguia comer. E eu numa angústia, agarrando-o, eu chorando, pedindo-lhe desculpa, implorando que comesse, que ficasse bom.

Não sei de onde veio este sonho. Se calhar foi que na véspera eu estava a ver se os meninos estavam bem, se não queriam mais, e a minha filha gozou, disse qualquer coisa como que eu só estava bem quando os via a comer, que se pudesse lhes dava de comer à boca, nem sei se não falou em alimentar toda a gente à sonda. Qualquer coisa nesta base. Respondi que é coisa de caranguejo. Os caranguejos gostam de receber, gostam de cozinhar, de alimentar os outros. Nessa altura o mais velho olhou-me consternado: 'Acreditas em signos...? Uma pessoa inteligente... Agora decepcionaste-me, Tá...' Disse-lhe que acredito um bocadinho, que sei que não faz qualquer sentido, que é uma coisa muito sem jeito mas que a descrição dos caranguejos encaixa muito em mim. Gozaram comigo. E eu não consegui rebater os seus argumentos nem dizer nada em minha defesa. Há coisas que não se explicam.

Mas o dia foi todo recheado de problemas. Pior ainda porque há gente que não aguenta as contrariedades e rapidamente entra em pânico. E há os que, estando em pânico, se entregam imediatamente, declaram rendição num ápice. Ou seja, ainda nem o outro lado esboçou qualquer reivindicação e já eles abriram as pernas (pardon my french). Depois há os que, ao panicarem, bloqueiam, deixam de pensar, ficam em estado de estupor catatónico. Estes, nos casos piores, ficam burros de todo. E há os piores, os que ficam a mil, stressados, agressivos, implicantes, conflituosos. Hoje calhou-me de tudo. E o pior foi quando um incauto, nesse estado de pânico, resolveu destravar-se e tentar vir espetar-se contra mim. Não garanto que não lhe tenha levantado a voz, irritada. Por dentro, só pensava: não há paciência.

E, neste registo, fui andando até perto das oito da noite. 

Como estão longínquos os sonhos inocentes que alimentava nos meus trintas e quarentas de que aos cinquentas me retiraria ou me atiraria à gestão autárquica. Já nessa altura vivia com demasiada intensidade, imaginando que não me aguentaria assim para além dos cinquenta. Não sei que idade tinha, talvez trintas e tais, fiz um PPR para se vencer por volta dos cinquenta. Ilusões, ilusões. Ainda cá ando, devorada por problemas. Passo a vida a pedir -- ou melhor, a implorar -- que não me tragam problemas, que me tragam soluções. Mas qual quê. Todo o santo dia: 'temos aqui um problema'. A falta de mão-de-obra é total e generalizada e isso desespera quem não consegue ter equipas completas. 

O momento melhor foi quando, ao fim do dia, fui regar com mangueira. O jardim tem rega automática mas os vasos à frente, no terraço de trás e no terraço e nas escadas de lado têm que ser regados à mão. Agora, para não dar cabo dos ombros a transportar regadores de 10 litros de água, uso a mangueira. Já temos mais um ponto de água, onde pusemos uma mangueira, e no outro ponto há uma mangueira grande. Ando descalça a regar e, para não ficar toda molhada, vesti um fato de banho. Esta de ficar molhada tem uma explicação: uma das mangueiras tem um furo a meio e esguincha que é uma frescura, fica tudo molhado à volta. Afinal já estava um bocado frio, uma aragem um bocado húmida. Seja como for, soube-me bem andar à fresca, descalça, os pés no chão molhado.

O meu jardim está bonito, frondoso, as árvores verdejantes, compostas. Mesmo nos dias de muito calor, quando se chega da rua e se entra, sente-se logo a frescura, parece que se entra num outro clima. 

No outro dia, in heaven, a minha mãe dizia para a minha filha, referindo-se a mim: 'quis plantar árvores de metro a metro, não descansou enquanto não encheu tudo de árvores, agora está assim, uma mata'. Confirmei. Não terá sido de metro a metro mas era assim que, antes, quando o terreno era apenas mato rasteiro e pedras, eu imaginava un petit bois, o meu pequeno bosque, um lugar fresco, onde pudéssemos passear à sombra das árvores plantadas por nós. 

Aqui nesta casa também me agrada a ideia de ter árvores generosas, com boa sombra para acolher os nossos corpos quentes. O meu marido olha para as copas que se alargam e os ramos que tombam, verdadeiras cortinas arrendadas em verde, e tem vontade de desbastar. Não. Não quero. As árvores são fêmeas que acolhem nos seus braços os pássaros e quem queira acolher-se à sua beira. 


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As fotografias mostram os belos chapéus do Royal Ascot (love, love, love) e vieram ao som de Sarah Vaughan que interpreta Speak Low
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Desejo-vos uma boa quarta-feira
Beleza. Elegância. Harmonia. Paz.