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segunda-feira, abril 29, 2019

Este corpo





Isto para dizer que, tendo eu decidido firmemente fazer dieta, no outro dia, quando fomos lanchar, toda a gente a pedir tostas, sandes, torradas, e vou eu, sentindo-me tão doente, achei que deveria ser compensada com uma doce excepção e, vai daí, para mim pedi uma tarte de limão merengada e, para curar a doença e para fazer pendant com o boloum carioca de limão. O meu filho admirou-se: 'Mas não estavas a fazer dieta?'. Claro que estava.


Entretanto, depois de uns dias em cura de sono e a viver como que numa twilight zone, à vinda, o meu marido foi simpático e percebeu que eu estava carente de algo. Ou seja, perguntou: 'Queres ir comer um gelado?'. Respondi que, estando eu em rigorosa dieta, só ia abrir excepção por ele estar a insistir tanto. Ele ainda me tentou: 'Vê lá, se preferires, não vamos' mas eu não mordi o isco. Claro que fomos. Ou melhor, fui eu que ele não quis. Quando ia a entrar na gelataria pensei que ia ser só uma bola mas, quando pedi, o que me saíu foi: 'Cone de duas bolas'. Mas logo caí em mim. E, portanto, acrescentei: 'Cone sem açúcar' e, por caridade, abstive-me de me achar ridícula. 


Mas depois, enquanto me lambia com ele, ia pensando que, a partir de agora, é que ia ser. E vai. Macacos me mordam se não vai. Saladinhas, hidratos de carbono = bola, açúcar nem vê-lo, nem pintado, nem disfarçado de frutose.
Claro que isto do peso é uma quimera. Tenho colegas que fazem de tudo para engordar: comem papas, iogurtes gordos e açucarados, pão com marmelada e, para inveja global de todas as outras, mantêm-se elegantes de dar gosto. Mas elas não gostam: gostavam de ter chichinha, um pneuzinho que lhes enfeitasse o abdómen, umas maminhas mais salientes. A minha mãe, por exemplo, também pode comer de tudo que não muda de peso. Eu, desde que entrei na menopausa, é o contrário. Só de me apetecer um belo risotto já o meu cérebro interpreta que vêm aí calorias a mais e, por avanço, já começa a processá-las e a alojar gordurinhas a mais um pouco por todo o lado. E não que esteja muito gorda. Há quem ache que estou bem. Mas isto cada um compara-se com quem quer e eu comparo-me com o que era antes. Pode ser um disparate, pode ser que não se consiga nem faça sentido. Mas não quero saber. Tenho para mim que é uma questão de disciplina, de aritmética: não ingerir mais calorias do que as que consumo. E até atingir o ponto de equilíbrio, ingerir menos do que as que consumo. 

E estou a escrever isto e a pensar que não devo é estar boa da cabeça para, em noite de eleições em Espanha e com o galã do Vox, um cavaleiro vindo dos tempos de antanho, a marcar pontos, estar aqui nesta conversa da treta em vez de me dedicar a temas a sério. Por exemplo, talvez pudesse dizer que se calhar era oportuno perceber se há alguma consanguinidade entre o dito Abascal e o calinas do Melo (que parece que nunca fez ponta de coiso enquanto anda a fazer de conta que é deputado europeu e que agora quer ir a cavalinho na onda de populismo do outro) ou se aquilo é mesmo apenas afinidade ideológica. E também podia dizer que os senhores jornalistas deveriam perguntar à Madame Cristas da Coxa Grossa se perfilha a opinião do seu colaborador.


No entanto, agora que estou a sair da toca constipal em que, graças à ceterizina, estive hibernada, dormindo dias a fio, estou ainda desligada da realidade.
(Nem sei como consegui aparentar trabalhar durante a semana que passou. A sério: é um mistério.)
Ou seja, não consigo estar à altura dos temas pertinentes do mundo real nem sequer responder a mails nem a comentários -- e só de pensar que se avizinham mais uns dias normais de trabalho já me apetece voltar a hibernar. 


Portanto, voltando ao tema que aqui me traz: o das curvas.

Uma vez que os votantes, um pouco por todo o mundo, andam a dar mostras de estar fartos de políticos de faz de conta e, de carrinho, enfiam tudo no mesmo saco, e fartam-se também dos políticos de verdade, começam a vingar os palhaços, os comediantes, os apresentadores de reality shows, os parvalhões encartados. E eu, pensando nisso, e já que em Portugal somos mais comedidos, acho que poderíamos inovar e ter candidatos temáticos: os candidatos que são a favor da comida vegan, os candidatos que defendem o direito das mulheres a quererem casar com um agricultor, os candidatos que defendem o direito das pessoas a tatuarem-se de alto a baixo e... os que defendem o direito das mulheres a terem à sua disposição espelhos que emagreçam (ou que engordem -- conforme o caso).


E esta conversa toda porque.

Em França, o movimento The All Sizes Catwalk já aí está. E para provarem que não têm medo de nada e que vieram para ficar, desfilaram este domingo em Paris, no Trocadéro, bem em frentezinha da Torre Eiffel. Em lingerie. O que é bom é para se ver.

E quem não acreditar que faça o favor de conferir, que eu não estou aqui para enganar ninguém.

E desfilaram novas, velhas, magras, gordas, com celulite, sem celulite, mamalhudas ou nem por isso. Do 34 ao 52. Uma alegria de diversidade que assim é que é bonito.

[E fiquei a saber que, para que se saiba, o número mais comum em França é o 42. Boa.]

E, para terminar, un petit cadeau. 

Ou melhor, qual presente qual carapuça: um statement -- This Body


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E uma boa semana para todos a começar já por esta segunda-feira.

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terça-feira, abril 16, 2019

Notre-Dame, minha nossa Senhora...!





Devo dizer que nunca entrei na catedral de Notre-Dame. Não tenho ideia das vezes que já visitei Paris mas sei que foram algumas e, no entanto, nunca tive disposição para ver alguns dos must see

Duas das vezes fomos com os meus filhos, uma quando eram pequenos e outra já adolescentes e, para além dessas vezes, só nós, várias em serviço da minha parte ou, sobretudo, a acompanhar o meu marido ou, ainda, em turismo. E, no entanto, nunca subi à Torre Eiffel nem nunca entrei em Notre-Dame nem sequer visitei por dentro o Arco do Triunfo. O meu marido acho que sim, com os miúdos, provavelmente numa altura em que eu devia estar ocupada em trabalho. 


As longas filas à volta de monumentos carregados de turistas funcionam, para mim, como repelentes. Fujo a sete pés. Se estivessem com pouca gente eu ainda me sentiria atraída. Agora assim, perder um dia -- ou meio que seja -- a andar a passo de caracol no meio de uma fila de macaquinhos entusiasmados, a fotografarem tudo o que mexe incluindo a si próprios, e depois chegar lá dentro para ficar submersa por uma horda de gente com auscultadores e máquinas fotográficas ou em bando compacto em torno de guias, vai para além do que consigo suportar.

Mas por fora, à volta, ou fotografando de perto ou de longe, conheço bem Notre-Dame. Aliás, fica bem na confluência dos bairros por onde mais gosto de andar. 


Vejo, pois, com angústia as imagens do incêndio.

Apesar de saber que, por dentro, muito daquilo deve ser combustível puro, custa-me perceber que não possam despejar água ou, não podendo ser água, qualquer outro produto que não destrua ainda mais mas que impeça a combustão de prosseguir. Mas acredito que haja alguma razão para os aviões ou os helicópteros não terem debelado o fogo em três tempos. Provavelmente a grande pressão dos jactos de água poderia comprometer a estrutura dos edifícios e presumo que estejam a querer salvá-la. Não acredito que a calamidade seja total, hão-de salvar a estrutura.


Há pouco ouvi o Miguel Sousa Tavares dizer na TVI que é como se os Jerónimos estivessem a arder. 

E é. Parte da memória colectiva de um país desaparece quando um desastre assim destrói, total ou parcialmente, um monumento que marca a história colectiva de um povo e define a geografia do local. E estou a ser contida pois não é apenas para os franceses e, em especial para os parisienses, que Notre-Dame é marcante. 

Li o 'abraço sentido' que Marcelo enviou a Macron e, como d'habitude, inspirado como sempre não soube ser contido:
"Caro Presidente Macron, meu Amigo: Uma dor que nos trespassa o olhar e logo nos marca a alma, Paris sempre Paris ferida na sua Catedral em chamas, um símbolo maior do imaginário coletivo a arder, uma tragédia francesa, europeia e mundial"

Mas, enfim, cada um é como cada qual. Eu não uso palavras que transmitam emoções superlativas para dizer o que sinto ao ver estas imagens. Fico-me pela tristeza.

E antecipo já a vontade dos franceses avançarem para a reconstrução e restauro, embora sabendo todos que há feridas que permanecerão abertas.

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Foi também Miguel Sousa Tavares que evocou Edith Piaf com a sua Notre-Dame de Paris

domingo, dezembro 09, 2018

Eu não uso colete amarelo



Meio afastada que, pela força das circunstâncias, tenho andado da actualidade, apenas sei do que se passa pelo que apanho aqui e ali e do que vou cruzando nos escassos momentos em que consigo pensar. Dos coletes amarelos em França sei dos impostos, sei da fúria, sei das rajadas de água sobre os que se juntam nas ruas e tentam atingir as chamadas forças da ordem. Atiram objectos e, de telemóvel em riste, filmam o que fazem, falam para as câmaras enquanto se auto filmam. As redes sociais como motivo e destino central das manifestações.

Os coletes amarelos falam em baixos níveis de vida, falam em casas caras, em reformas baixas, falam em impostos altos, falam em ricos cada vez mais ricos, falam que o governo rouba aos pobres para dar aos ricos. Nada de novo e tudo verdade. 
As sociedades ditas desenvolvidas geraram desigualdades acentuadas, a austeridade pela austeridade exclui franjas significativas das populações, os grandes especuladores tomaram de assalto o sistema finaneiro e, quando se deu o grande estouro, deixaram que fossem os indefesos a pagar a crise. As guerras, apoiadas pela indústria do armamento e alimentadas por interesses transcontinentais, deixam países arrasados e os povos em estado de desespero a ponto de fugirem, de deixarem tudo para trás em busca de paz e de uma vida possível. Ora, isto é pasto fértil para o populismo que rejeita os imigrantes, que incentiva ao ódio, que estimula o radicalismo.
Em Paris há lojas destruídas e saqueadas, automóveis queimados, carrinhas de venda ambulante esventradas e o seu conteúdo vandalizado. O arco do Triunfo foi grafitado. As ruas cortadas ao trânsito, espectáculos cancelados, museus encerrados, os grandes armazéns barricados. Postos de combustíveis fechados porque não foram reabastecidos. Paris virada do avesso. Manifestações agora espalhadas por todo o país.

Não sei pormenores da governação de Macron nem sei se há competência, estratégia bem definida ou coerência nas medidas que tomam. Parece ser gente relativamente inexperiente e sem hábitos de liderança em grande escala e isso, num país como França, pode ser um lacuna grave. Tenho ideia que Macron ainda não apareceu publicamente a tomar uma posição, preferindo fazer avançar figuras que parecem apanhadas em verde. É certo que um deles é o primeiro-ministro mas olha-se para ele e dá ideia que é daqueles que se apanha à mão. Os franceses devem estar a olhar estupefactos para a evolução dos acontecimentos e, com ou sem razão, devem achar que Macron está a pôr-se a jeito, dando razão aos que o acusam de fragilidade e cobardia.


Entretanto, Trump, essa lesma porca e nojenta, já veio apoiar os coletes amarelos e, de caminho, pôs-se a cavalgar a onda do descontentamento para defender as suas políticas estúpidas e retrógradas.

Vejo nos blogs ou em artigos nos jornais portugueses que, por cá, também há quem apoie estas manifestações. Por exemplo, gentes que sei afectas ao BE também acham bem e encontram razões válidas para apoiar estes manifestantes. 


Contudo, apesar da violência que as televisões nos mostram, os números mostram uma realidade diferente. Ao todo, em França, terá havido cerca de 125.000 manifestantes. Nada. Em Paris não passarão dos poucos mil. De facto, falam em pouco mais de mil. Nada. 

Pode haver desconforto contra as políticas de Macron mas, num país com mais de 67 milhões de habitantes, se os números dos manifestantes revelarem a quantidade de pessoas que pretendem mostar-se descontentes, então Macron poderia estar descansado. 0.18% de gente descontente é nada.

Mas não pode estar descansado.

E não pode porque o que se passa é que quem anda pelas ruas com colete amarelo já é maioritariamente gente violenta, marginais, gatunos. Fala-se que grupos de extrema esquerda e extrema direita tomaram conta das ruas. Vandalizar lojas ou monumentos, incendiar carros ou atacar polícias nada tem a ver com manifestar descontentamento por razões válidas. A violência extrema e destrutiva, potenciada pela divulgação nas redes sociais e pela comunicação social, é um perigo --  e é um perigo porque é tendencialmente contagiante. Tal como a visão do aparato gerado pelos incêndios é um forte apelo para os incendiários, também toda esta baderna é um incentivo para que tudo o que é extremista, delinquente ou trauliteiro venha a terreno fazer com que as ruas peguem fogo (e esperemos que, com esta gravidade, apenas em França).


E, por isso, custa-me a perceber como podem algumas pessoas apoiar o que está a passar-se. Uma situação desta merece condenação. E reflexão. Uma séria, muito séria, ponderada e abrangente reflexão. A democracia e a liberdade devem ser protegidas, devem ser a primeira e a última das prioridades. E situações como estas a que assistimos são portas abertas para movimentos que ponham em causa a liberdade e a democracia.

Mas, lá está, posso não estar a perceber nada do que, por lá, está a passar-se. Se calhar é só aquilo de os franceses, de vez em quando, serem dados a uma boa revolução. Vamos ver.

quinta-feira, agosto 16, 2018

Os uritrottoirs que estão a fazer estalar a polémica em Paris.
E Avital e Nimrod, o gay e a queer que não se entenderam com as suas comunicações exuberantes e exageradas


Pois muito bem, sim senhores. Agora que já jantei um caldinho de se lhe tirar o chapéu e que já relatei a minha ida à praia, relato esse devidamente ornamentado com os cromos possíveis, passo para as notícias que se destacam na actualidade estivalense. Claro está que vou fazer descer o oblívio sobre temas mais sérios ou pungentes. Por exemplo, recuso-me a falar sobre a queda da ponte de Génova. Não apenas não percebo patavina de engenharia civil como presumo que possa lá ter passado não há muito tempo e, sobretudo, é das cidades que mais me impressionou quando a conheci.

Estamos a meio de Agosto, estou a precisar de férias e a minha vida agitou-se numa altura em que seria suposto navegar em águas paradas. Portanto, cansada, encalorada e levemente saturada, a minha capacidade para abarcar temas mais complexos anda na vizinhança da linha de água.

Deve, pois, ser por isso que, de entre tudo o que se passa pelo mundo, Portugal incluído, só duas notícias chamaram a minha atenção.

1ª - Uritrottoirs


Primeiro, a cena que inventaram para ver se as ruas de Paris deixam de ser um mictório a céu aberto. Talvez a moda pegue e venha a ser adoptada também por cá. Se até há algum tempo era raro ver-se algum homem a urinar em público e apenas víamos homens que, aflitos, procuravam um canto -- admitindo nós (eu, pelo menos, admitia) que fosse alguém com algum problema na próstata -- agora, volta e meia, vejo um qualquer descarado, na maior descontracção, a urinar num lugar que não lembra ao diabo, indiferente a quem passa. 

Mas volto à cidade luz. Não sei se por haver poucas casas de banho públicas ou porque grande parte de quem anda em Paris é gente a passeio e, portanto, que passa parte do dia na rua, a verdade é que Paris enfrenta o problema da falta de higiene, de falta de decoro, de falta de civismo. Pois bem. A ideia é daquelas em que, notoriamente, se não os vences, junta-te a eles. Inventaram urinóis no meio da rua. Têm um desenho moderno, têm flores em cima e, no interior, têm palha que, pelos vistos, absorve o pivete. A palha ensopada é misturada na terra que, assim enriquecida, fica adubada. Só ecologia. Mas também tecnologia: os urinóis estão sensorizados de modo a que, quando estão cheios, é enviado um alerta para que venham esvaziá-los.

Aparentemente uma ideia razoável. No entanto, a polémica estalou e, vendo bem, com montes de razão. Em primeiro lugar: só os homens é que são mijões? Então e solução para as mulheres? Em segundo: e quem garante que isto não é chamariz para exibicionistas?

Defendem-se os autores da ideia: o problema que sempre existiu era com homens, não é costume verem-se mulheres, acocoradas pelos cantos, a fazerem xixi. Sabido é que as mulheres são mais reservadas, preferem aliviar a consciência, a bexiga e tudo o mais com alguma privacidade. Dizem ainda que pode não ser uma ideia à prova de defeito mas que mais vale assim do que paredes e passeios sujos e mal cheirosos.

E eu, sobre isto, o que tenho a dizer é que me parece um despropósito. Ao menos que tivesse umas palas de lado porque ninguém tem que dar de caras com uma cena destas, um mijão em pleno acto. Mas, se isto ajuda os homens que não conseguem conter-se, então, olhem, paciência, que seja.

2ª Avital Ronell e Nimrod Reitman numa versão estapafúrdia do #MeToo


Aqui a coisa é toda ela amalucada ou, pelo menos, assim me parece. Transcrevo excertos do DN.

Avital Ronell é uma conhecida professora universitária, filósofa e feminista. Ensina Literatura Alemã Comparada e foi numa pós-graduação que teve como aluno Nimrod Reitman, o estudante que a acusou de assédio sexual. A Universidade de Nova Iorque (UNI) investigou e, ao fim de 11 meses, concluiu que ele tinha razão e suspendeu a docente.

Reitman, que tem agora 34 anos e é professor visitante em Harvard, diz que Ronell o assediou durante três anos, facto que o levou a apresentar queixa dois anos depois de se doutorar. Acrescenta que a docente o beijou e tocou repetidamente, dormiu na cama dele, exigiu que ele se deitasse na cama dela, mandou-lhe mensagens, e-mails e que lhe ligava insistentemente recusando-se a trabalhar com ele se as suas atenções não fossem retribuídas.

Ronell, de 66 anos, nega qualquer tipo de assédio. "As nossas comunicações, que Reitman agora diz terem sido assédio sexual, foram entre dois adultos, um homem gay e uma mulher queer, que partilham a origem israelita, assim como a inclinação para comunicações exuberantes e exageradas decorrentes de experiências e sensibilidades académicas comuns", respondeu ao NYT. Sublinha que as comunicações "foram correspondidas e incentivadas por ele ao longo de três anos". Etc, etc, etc (...)

Ou aqui, no Expresso:

É a hora do nosso beijo do meio-dia. 
A minha imagem durante a meditação: estamos no sofá, a tua cabeça no meu colo, a acariciar a tua testa, brincando suavemente como teu cabelo, acalmando-te, dor de cabeça acaba. Sim?". Se esta mensagem fosse enviada por um professor universitário a uma sua estudante 30 anos mais nova, muita gente não hesitaria em dizer que era um comportamento impróprio. Para mais se o professor tratasse a aluna com termos equivalentes aos que uma distinta professora na NYU, em Nova Iorque, dirigiu a um seu estudante: "Bebé fofinho", "meu adorado", "anjo bebé amor", um arriscado "gostava de te poder raptar" e um atrevido "cock-er spaniel" (um trocadilho que mistura uma alusão ao pénis, 'cock', com uma raça de cão"). (...)

A polémica desencadeada pelas feministas em defesa da bizarra Avistal não se fez esperar, com Nemrod a perguntar se o assédio só é para levar a sério se for ao contrário.

E eu, face a isto, o que me ocorre é que este caso deve dar um filme e dos cómicos. Só de imaginar as cenas em que a a Avital perseguiu o Nimrod, o beijou, se enfiou na cama dele e exigiu que ele se enfiasse na cama dela, tudo no maior forrobodó, tudo em exuberante... já me dá vontade de rir. Deve ter sido de gritos. E o facto de ela se vir justificar, dizendo que o que se passou foi o normal entre um gay e uma queer, parece-me ainda mais delicioso. Podia ter-lhes dado para pior, é o que eu tenho a dizer. E isto para não ficar calada.

sexta-feira, agosto 26, 2016

Paris, mon amour



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Digo que não gosto de Paris no verão mas estou aqui e só me dá para me lembrar dos seus lugares. Não dos lugares turísticos mas dos jardins, ruas e pracinhas, das esplanadas, das pessoas diferentes com que nos cruzamos, da vista da belíssima cidade a partir de alguns telhados, dos passeios pelos boulevards, das bancas de livros e estampas na beira do rio, das livrarias.

E agora estou a lembrar-me de uma coisa que não sei se já aqui contei. Éramos dois casais e andávamos quase sempre juntos mas um dia fomos cada casal para seu lado, acho que eles iam visitar algum amigo num arredor qualquer. Encontrámo-nos à noite e ele vinha com um blusão de pele novo, giríssimo. Nós admirados, não eram o género de pessoas que fossem às compras de roupa, muito menos ele. Mas estavam pouco convencidos. Então o que tinha sido? Não me lembro já bem de todos os pormenores, tenho ideia que, no comboio, tinha entrado um fulano com um malão. Então o fulano, que tenho ideia que era italiano, tinha dito que tinha estado a expor artigos de pele numa passagem de modelos ou exposição, não me lembro bem, e que tinham sobrado umas peças e que não lhe dava jeito ter que expedir aquilo por avião e que se conseguisse vender tudo, melhor. E que, então, tinha proposto vender um blusão por tuta e meia, não me lembro se uns 20 ou 25 euros. E que eles acharam aquilo muito suspeito e que o fulano ainda tinha feito um desconto. E, a modos que contrariados e desconfiados, ficaram com o blusão.

Ora o blusão era um espanto, bom mesmo, uma boa pele, um bom forro, um bom design. Chegaram ao hotel, reviraram o blusão, apalparam, sacudiram, pensando que tinha droga escondida, qualquer treta. Nada. Nem sabiam se o ele o havia de vestir, pois mais do que certo era material roubado e ainda eram apanhados

Mas então ele lá se afoitou e lá o vestiu. Um espectáculo de blusão. Ainda me zanguei por ele não ter trazido também para nós. Eu, que acho que desencanto pechinchas por onde passo, nunca consegui coisa assim.

Mas, pronto, isto foi uma derivação.

Estou aqui na sala, a escrever deitada no sofá, e a olhar para a estante baixa, funda e comprida, onde tenho livros e tralha e, por cima, a televisão e mil molduras.

Uma vez, o mais pequeno abriu a estante e começou de lá a tirar as figurinhas do presépio, os anjinhos, as caixinhas de porcelana, a caixinha com a bússula, a caixinha de música e outras coisas do género. E então, apressadamente, o mais crescido puxou-o por um braço e disse: 'Não mexas no museu da Tá!' e eu achei um piadão porque vi que eles olham essas minhas pequenas preciosidades como objectos de museu. Mas uma das peças trouxe-a eu de lá, há muitos anos, eram os meus filhos muito pequenos, ainda me lembro do meu marido andar com o meu filho às cavalitas: é um bule muito bonito, estou a olhar para ele, tem umas cores suavíssimas, e tem forma de elefante (se não estivesse cheia de preguiça, ia fotografá-lo para o mostrar). Nessa vez trouxe também uns copinhos pequeninos de vidro pintado à mão, com flores douradas e cor-de-rosa velho. Tinha muito medo que se partisse aquilo no avião, tive mil cuidados, e o meu marido sem querer saber, achava absurdo que eu trouxesse aquilo, se se partisse acho que ele até acharia que era bem feito para eu não ter ideias daquelas. Mas chegou tudo intacto. E não sei como, com mudança de casa pelo meio, com tanta miudagem sempre cá em casa, ainda resiste tudo. Nunca os usei, sempre os mantive a bom recato, porque são umas peças mesmo bonitas. Olho para elas e lembro-me de Paris.


E nessa vez, em Montmartre, os miúdos posaram para serem retratados a carvão. Mesmo bonitos. Quando lá voltámos, já mais crescidinhos, no mesmo sítio, posaram para uma caricatura. As mesmas feições, engraçados. Mas cansavam-se, muito museu, muita caminhada. No entanto, divertiam-se. 

Também acho que já contei. Uma vez fomos jantar para a zona Des Halles, íamos à procura de um certo restaurante. Mas os miúdos estavam estafados e o meu marido impaciente, quando chega a uma rua com restaurantes, por vontade dele entra no primeiro - e, então, vimos um com uma decoração muito bonita, em tons de violeta e preto, com uns castiçais entre o design e o romântico, com umas flores altas muito bonitas. Pronto, ficamos é já aqui.


Pedimos - sempre aquela festa, os miúdos a quererem experimentar tudo - e nem reparámos em nada. Até que, instalados, os amouse-bouche já a sossegar a impaciência, começámos a ver o que se passava à nossa volta. Só homens, alguns muito in love, de mão dada ou aos beijos na boca, outros a darem palmadas no rabo dos empregados, um a beijar na boca um empregado. Nós ali os quatro completamente deslocados. Os miúdos parvos com aquilo, nunca tinham visto por cá nada assim. Depois chegou um todo maquilhado, grandes pestanas, umas calças completamente justas e todo provocante e os outros todos a meterem-se com ele. Os miúdos faziam sinais um para o outro. O meu marido furioso connosco, a não querer que olhássemos ou ríssemos, a dizer que ainda arranjavamos chatice. 

Quando cheguei ao hotel, ao ver os folhetos turísticos, vi que aquele restaurante era um dos mais carismáticos do roteiro gay. Estava explicado.

E a bailarina enorme, completamente gorda, toda Toulouse-Lautrec? De tutu, tules cor de rosa, em pontas, a circular dançando nos Champs Elysées? Ainda hoje a minha filha fala nela.

E quando fomos os dois, romanticamente, em Wagon-Lit? Que viagem tão linda. Gostei tanto.

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E não vos maço mais com estas recordações, ainda por cima em modo repetex. Isto é falta de férias. Tenho é que lá ir um dia destes.

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E, para quem não conheça, um vídeo divulgado esta quinta-feira, muito bonito, com Paris num pas de deux com Victoria Dauberville, uma bailarina dos Dot Move.

Transcrevo parte da apresentação:

C’est l’histoire d’une danseuse seule face à son destin, en proie au doute mais déterminée à réaliser son rêve coûte que coûte : danser à l’Opéra de Paris. 

Pour illustrer ce conte moderne, DOT MOVE a relevé le pari de rendre Paris complètement désert pour en faire un terrain de jeu idéal d'une danseuse classique.

Le film est illustré par « Rêve d'Opéra », extrait du conte musical les « Souliers Rouges » écrit par Fabrice Aboulker et Marc Lavoine

RÊVE D'OPÉRA




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Lá em cima era Jacques Brel interpretando Les prénoms de Paris

As imagens mostram pinturas no museu de que mais gosto e que visito de cada vez que estou em Paris: o Musée d'Orsay.

Os autores são, respectivamente: Jean-Auguste Dominique Ingres, Paul Gauguin, Claude Monet, Auguste Renoir, Toulouse-Lautrec, Gustave Courbet e, finalmente, os jovens gregos são de Jean-Léon Gérôme, 
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quarta-feira, julho 06, 2016

Surpreende-me também



Tocam nas ruas, nos indiferentes corredores sem nome pelos quais passa gente apressada que não lhes presta atenção e que nem sequer os vê, como se o que se ouve fosse mera música de fundo que de alguma coluna de som se evolasse. Deve ser difícil sobreviver assim, anonimamente, entre gente desatenta que apenas de vez em quando se detém e, talvez por comiseração, deixa uma moeda no pequeno prato que, tantas vezes, pousam envergonhadamente à sua frente.

Pois bem. Há quem tenha ideias que enternecem de tão generosas e suspreendentes que são. É o caso desta de que aqui hoje dou conta.

Os bailarinos Dot Move lembraram-se de surpreender os tocadores de música do metro de Paris (e se são intermináveis os tentaculares corredores de Paris), começando a dançar de improviso à sua frente e surpreendendo também as apressadas pessoas que por lá passavam. O resultado é comovente.


 
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Foram também bailarinos Dot Move que, em pleno inverno parisiense, homenagearam a cidade do amor, dançando de lábios colados, e, nalguns casos, com que empatia e química entre eles. Pretendiam, desta forma, homenagear a liberdade e o afecto numa cidade que, pouco tempo antes, tinha sido sangrentamente manchada pelo medo.

Paris is kissing




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No vídeo da dança junto aos músicos do metro de Paris, os bailarinos são: Victoria Dauberville, Alexandre Fournier e Melle Lee Za. E os músicos são: Oley Yugan, La’hcene e Vanupié 

No vídeo da dança dos beijos, Tiwayo interpreta « Dans Tes Yeux » que originalmente era de Anis. Os pares de bailarinos são:

Manon Dubourdeaux – Jesse Lyon
Cécile Magdeleine – Roman Bonaton
Anna Guillermin – Souren Nazarian
Melle Lee Za – Alexandre Fournier
Clio Arvaniti – Regi Hybride
Justine Christin – Knuckles
Alex - Dédé

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A ver se amanhã arranjo estômago para falar da chungaria que grassa na Comissão Europeia e nas filiais instaladas por todo o lado, nomeadamente no PSD do intelectualmente indigente Láparo e da descarada Pinókia


A ver se consigo, também, falar dos ratos ingleses, esses pequenos patifes, biltres copofónicos, que conduziram o Reino Unido para a situação de vexame em que agora se encontra tendo, acto contínuo, abandonado o navio. Agora, sem ninguém ao comando e sem saberem o que querem fazer, para aí andam sujeitos à chacota geral. 

E é com governantes desta linhagem que a Europa vai andando.

Mas não é hoje, que hoje não me apetece maçar-me.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela quarta-feira. 

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terça-feira, abril 05, 2016

Dançar nas ruas de Paris


A primeira vez que estive em Paris em turismo foi como se tivesse entrado dentro de um filme. A Torre Eiffel, o Louvre, o Arco do Triunfo, essas coisas, isso já não era novidade, mas andar com calma nas ruas, estar numa esplanada, andar a ver museus com tempo ou andar a cirandar pelas lojas, isso, era uma experiência toda nova.

E era uma festa, verdadeiramente uma festa.

Nos Champs-Élysées, numa esplanada, aproximou-se uma mulher gorda, alta, toda ela volumosa, com cabelo curto aos caracóis muito abertos, cara pintada, muito rímel, lábios de rosa choque e, o que era extraordinário, estava vestida de bailarina, mas bailarina de ballet clássico, tutu de tule cor de rosa, sapatilhas atadas em cor-de-rosa. Mas o mais extraordinário, de facto, nem era a vestimenta, era a naturalidade com que se movimentava e a indiferença dos circundantes, como se fosse a coisa mais usual do mundo.

Na zona des Halles fiquei também boquiaberta ao ver como casais masculinos se abraçavam e beijavam, de beijo na boca, em plena rua. E também perante isso ninguém mostrava estranheza.

Numa outra rua, prostitutas à porta chamavam os passeantes, riam, provocavam, e também ninguém ficava espantado. 

E as pessoas entravam com os cães nas lojas e levavam-nos no metro e tudo natural. A primeira vez que entrei numa Fnac foi em Paris, um delírio, livros, livros, livros e lembro-me que fiquei estupefacta por andar ao meu lado, também a ver as novidades, uma mulher com um enorme cão pela trela. Eu nem queria acreditar.

E, não me lembro se nessa vez, se numa das várias visitas que se seguiram, umas em trabalho, outras como acompanhante de quem trabalhava (ie, do meu marido - calma aí), outras em turismo, vi, como se fosse uma coisa do outro mundo, um homem que, no carro, ia a falar ao telefone. Cheguei a Portugal e relatei isso do telefone e ninguém sabia do que é que eu estava a falar. Os telemóveis ainda não tinham aparecido em Portugal. Algum tempo depois apareceram, uns tijolos enormes que se acoplavam junto das mudanças, nos carros.

Lembro-me de falar também numa coisa que estava anunciada por todo o lado e que se chamava Minitel e que, se não me engano, era o início da internet e que nem eu sabia explicar bem para que servia nem ninguém adivinhava o que pudesse ser. 
Todo um mundo novo que eu via nas ruas de Paris.

E muitos árabes e africanos e asiáticos e também muitos portugueses e toda essa gente andava pelas ruas, nos armazéns, nos transportes. E uns andavam de bicicleta e outros de carro e tudo parecia meio caótico, parece que andavam depressa de mais mas também ninguém se chocava com isso.

Gosto muito de ambientes assim, onde não se conhece ninguém, onde a familiaridade advém de toda a gente parecer estrangeira ou diferente e tudo ser aceite como igual.

Já não vou a Paris há algum tempo. A última vez que lá estive foi por alturas do natal, tudo iluminado, muito bonito, um frio antárctico, talvez há uns quatro anos, não me lembro bem, foi uma visita curta, creio que pouco mais que um fim-de-semana. Mas lembro-me bem deste ambiente, de que tudo é admissível, tudo é encarado com naturalidade por todos quantos passam.

Lembrei-me disto ao ver o vídeo que aqui vos mostro, tão alegre, tão bonito, em Paris, mon amour.

Transcrevo o texto que acompanha o vídeo:

CUBANS DANCING SALSA, RUMBA & REGGAETON IN ROMANTIC PARIS


Ever wondered what happens when a bunch of Cuban dancers arrive in the city of light? They paint the town red to the rhythm of Cuban music! 
« Cubanos In Paris » sees a few friends of DOT MOVE from La Havana turning lovely Paris into their very own dancefloor. Believe us, it was madness ! 
At a time when Cuba is opening up to the world, what better occasion to blend the cuban culture to the french one and have fun with their respective heritage?
This video is a celebration of art, love, life and most of all, freedom! 


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As fotografias foram obtidas via google, não são minhas -- bien sûr.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela terça-feira.

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