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sábado, dezembro 14, 2013

Numa certa casa, se é que me entendem. E, depois disso, compras. E depois arrumações. E mails. E mais não sei o quê. (E continuo sem ter tempo para ler a LER de Dezembro e tentar perceber se o Magris é mesmo sujeito para se pôr a pintar o cabelo]




*

Esta minha semana passou sem que eu quase não tivesse dado por ela. Detesto semanas assim, em que quase não há uma pausa, são umas atrás de outras, de um lado para o outro, uma canseira.

Esta sexta feira, por exemplo, levantei-me bem cedo. Quando tenho compromissos, sou pontual como um relógio suíço. Se sou eu a conduzir as reuniões, chego à hora e começo-as, sem minutos de tolerância. Não tenho paciência para estar à espera nem tenho paciência para pessoas que não sabem gerir o seu tempo, impondo atrasos aos outros. Por isso, se tenho alguma reunião à primeira hora do dia, saio de casa com uma segurança de quase o dobro do tempo. Hoje, no entanto, era daqueles dias em que nem um minuto era admissível pelo que saí com cerca de uma hora de antecedência em relação ao tempo que o gps do carro me indicava. Não era eu a conduzir a reunião mas era alguém ainda mais rígido nos horários que eu.

Por isso, saí de casa com uma antecedência correspondente ao triplo do tempo suposto. Para não correr o risco de me atrasar, já tinha na véspera à noite escolhido a toilette. Vesti-me e despi-me nem sei quantas vezes. Parece que não atinava. Vestia-me, ia ter com o meu marido que tem uma falta de paciência para isto que nem vos digo nada, pedia-lhe para se pronunciar e ele, quase sem olhar, dizia, 'Não'. Claro que isso não me serve. 'Não? Não porquê?'. e ele 'Pára. Não tenho paciência para essas perguntas. Despacha-te. Vamos jantar'. Fico indisposta com esta má vontade. Então insisto: 'Preciso de saber o que não está bem para perceber o que hei-de vestir'. Resposta: 'Deixa-me em paz com essas parvoíces e vem jantar'.

Então lá ia eu de volta para o roupeiro, lá escolhia outra toilette e lá se repetia a cena. Até que finalmente me disse 'Pronto, está bem'. Claro que quis confirmar, 'Mas é para eu não te chatear mais ou porque assim estou mesmo bem?'. Resposta: 'Estás bem. Agora vem'.

E pronto, lá organizei as roupas para, no dia seguinte, ser só enfiar, sem hesitações. Preto em predominância mas, na blusa, um estampado largo em encarnado profundo, por cima um blusão de seda forrado e quentinho em xadrez encarnado e preto, dois colares bem compridos, um preto, outro encarnado, brincos encarnados. Assim fui eu. O dress code referia casual.

Mas, estando eu a sair de casa, toda preparada e perfumada (com Chance - Chanel, claro), tive logo o meu primeiro sobressalto: estava nevoeiro e as manhãs de nevoeiro são jeitosas para quando se está com pressa. Confirmou-se. Foi um stress, o tempo a passar e eu quase sem sair do mesmo sítio. Um acidente com quatro carros lá mais à frente entupiu o trânsito todo. Acho que isto é o que, nesta vida, verdadeiramente me enerva: ver o tempo a escoar-se e eu sem poder deixar o carro no meio da barafunda e seguir a pé, a correr, para tentar chegar a tempo e horas.

Bom. Depois de passar os carros acidentados, lá fui, enervada, a abrir tanto quanto possível e, vá lá, cheguei a tempo: uns dois minutos antes da hora (claro que já estavam os outros vinte e tal à minha espera).

Uma reunião complexa, tensa, mas, enfim, há coisas piores.

Até porque, a seguir, já eram quase 2 da  tarde, passámos para os salões onde uma grande árvore de natal brilhava num canto, um pequeno presépio dava uma graça inocente àquele espaço tão acolhedor, e velas acesas e pequenos arranjos natalícios e muitas tapeçarias, sofás enormes e confortáveis, uma grande lareira, grandes peças de louça e vidro, grandes e belas carpetes a que o tempo retirou alguma cor e alguma espessura - e tudo contribui para aquele ambiente tão aconchegante, tão caloroso.

Por ali estivemos, conversando suavemente, trincando amêndoas torradas e salgadas, coisinhas assim.

Depois passámos para a sala de jantar, enorme pé direito, paredes forradas a azulejo, grande candelabro de tecto Murano sobre a grande mesa.



O almoço foi a delícia de sempre. A cozinheira é exímia, uma simpatia, e nós não nos cansamos de a elogiar e de lhe agradecer.

Sobre a mesa com toalha de linho, serviço vista alegre, vários castiçais com as velas acesas.



Do meu lugar, e eu estava à direita do anfitrião, via a hera que cobre as paredes do pátio interior, via a vegetação verde, fresca, frondosa.

Dali não conseguia ver as largas escadaria de pedra nem os vasos com grandes fetos.

Depois de almoço voltámos ao grande salão para o café, um ou outro (cada vez menos) fumando, e deixámo-nos estar todos à conversa até que nos despedimos. Saí de lá um pouco depois de meio da tarde, bem mais cedo do que costumo sair do trabalho mas tarde demais que justificasse ainda deslocar-me até ao escritório.

Vai daí resolvi ir para um centro comercial fazer o resto das compras de natal, livros especialmente. Um calor lá dentro horrível, um carrego... Mas, enfim, já estou despachada tirando duas ou três coisitas. 

Ou seja, cheguei a casa mais estafada do que se tivesse vindo directamente do trabalho. E depois fui fazer a minha caminhada e, na volta, fomos ao supermercado buscar mantimentos para o fim de semana e comprar já bacalhau para o natal (tenho sempre medo que acabe e que eu fique pendurada, a casa cheia de gente, e eu sem bacalhau para lhes servir).

Ora, quando de tarde, regressando mais cedo do que o costume, vinha a pensar que, dada a mini-folga que me tinha auto-concedido, me iria estender a ler a LER, em especial a entrevista do Magris. Qual quê...?


Agora, há pouco, ainda tentei mas não consegui: entre telefonemas, arrumações, responder a vários mails,  etc, fez-se tarde demais para isso. 

Mas estou curiosa.

E eu bem digo que, quando gosto de ler o que uma pessoa escreve, prefiro não saber como ela é fisicamente porque, às tantas, ainda posso ficar mal impressionada.

Aqui, no caso do Claudio, nem é bem a cara, é mais o cabelo.

Um homem daquela idade não pode ter o cabelo daquela cor, praticamente sem cabelos brancos. Cá para mim o homem pinta o cabelo. Já o vi de cabelo quase preto, castanho claro, de franja, sem franja, agora está arruivado.

Senhores. Que incómodo que isto me causa. É capaz de ser pancada minha mas faz-me impressão os homens que usam capachinho, ou três cabelos a atravessar a careca, ou que pintam o cabelo. Sou preconceituosa, eu sei. Mas, caraças, como é que um homem que escreve coisas que eu gosto tanto de ler, depois tem esta mania com o cabelo?

Por isso, quero perceber como é a conversa dele, se é um palerma qualquer com a psicose do cabelo ou se é um homem simpático, interessante como a sua escrita parece deixar perceber.

De qualquer forma, passa das duas da manhã, estou cheia, cheia de sono, já devia estar a dormir há séculos para ver se ponho o sono em dia, que com semanas destas é um disparate eu persistir nestas noitadas. Não consigo sequer responder aos comentários e tanto que eu hoje queria fazê-lo, em especial à querida O.M. que esteve a ler a história da Leonor, do Afonso e do Duarte e que foi deixando as suas impressões à medida que a história ia evoluindo. A ver se amanhã consigo organizar-me para fazer o que tenho que fazer, e ler o Expresso, e ler a LER e descansar e ainda conseguir ter tempo para conversar convosco.


*

Lá em cima a canção é 'Eu Seguro', interpretada por Márcia e Samuel Úrias.



No Ginjal e Lisboa  hoje temos João Cabral de Melo Neto na voz sedutora do sedutor Chico Buarque.

*

E, por hoje, por aqui me fico. Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo sábado!

domingo, maio 12, 2013

A pobreza disfarçada mesmo ao meu lado enquanto eu comprava o peixe. E o cavaquismo que, segundo Clara Ferreira Alves na Revista do Expresso, foi onde Portugal se perdeu; e os países ricos que, segundo Miguel Sousa Tavares, impõem austeridade aos países em aflição, cavando um fosso cada vez maior; e o Governo de Passos Coelho que, segundo Nicolau Santos também no Expresso, usa de terrorismo de Estado contra os cidadãos, a quem declarou guerra sem tréguas. [E Márcia canta 'Deixa-me ir' - mas eu espero que ela fique porque canta e compõe que dá gosto.]


Hoje de manhã, fui ao supermercado comprar comida para o fim de semana e alguma coisa para a semana.

Enquando estava no balcão do peixe, tinha ao meu lado uma mãe de uns setenta e tal anos e uma filha, cerca de cinquenta, cinquenta e poucos. Fisicamente parecidas. Enquanto eu esperava a minha vez, ia-as ouvindo: tentavam avaliar o que lhes sairia mais barato.

Depois eu pedi duas pescadas, daquelas pequenas de anzol, marmotas. Custaram 4,5€ e eu ouvia-as, em voz baixa, dizerem que, para elas, chegava uma e que, sendo uma, ficava por dois euros e picos. Mas a filha estava de olho nas douradas. Eu, que ia levar douradas, quase me inibi de o pedir. Mas pedi duas e pedi que fossem grandinhas mas tentei que elas não ouvissem eu a pedir que fossem grandinhas.

Eu não tinha dado por isso: estavam em promoção e, por isso, não chegaram a 5€. Ouvi a filha, entusiasmada, que estavam num bom preço. Mas a mãe dizia-lhe que uma dourada não chegava para as duas, e a filha ainda teimava, que talvez desse e a mãe que não, porque a dourada é um peixe mais pesado que a pescada

Depois, já era a filha que dizia que não sabia se uma pescadinha daquelas daria para as duas. Entretanto, a empregada estava a arranjar as minhas douradas e eu, que olhava em frente, fingindo não ouvir a conversa,  já só me apetecia mandar pesar mais duas douradas e oferecer-lhes mas pensei que isso seria constrangedor, ali, no meio daquela gente toda e elas até tinham bom aspecto, quero eu dizer, não tinham aspecto de gente que passa dificuldades. 

Então a senhora mais velha pediu se eu a deixava ver no meu saco o tamanho das pescadas, explicou que era só para perceber se uma pescada dava ou não para duas pessoas. A filha, um pouco envergonhada, lá avaliou também e depois, com uma certa pena por ter que abdicar da dourada, lá concluiu, pois, se calhar vamos melhor servidas com uma pescada.

Não sei se tenho que vos dizer como me senti. É isto, então, a pobreza envergonhada? Uma coisa assim, uma humildade absoluta, uma rendição, uma vergonha miudinha, uma necessidade de avaliar a melhor forma de gastar dois euros em peixe para dar para duas pessoas? Uma coisa que não se vê, que parece que não existe, mas que toca pessoas tão perto de nós? 

É a estas pessoas que o Governo quer cortar ainda mais o rendimento? Mãe e filha a ampararem-se na pobreza.

Que pena que eu tenho por ver como o meu País está tão desgraçadamente entregue a quem, sem misericórdia, por ignorância, incompetência ou vã ambição, despedaça famílias, empresas, almas.

Que pena que eu tenho e que preocupação - porque sei que estes dois anos de destruição vão levar vinte a reconstruir. E muitas das pessoas que mais afectadas são com esta destruição não vão ter vida suficiente para voltarem a viver bem.



Escondo-me em mim para tentar preservar a inocência e a alegria de que a minha natureza é feita,
para melhor resistir  à tristeza que tudo isto me provoca

In heaven, a natureza faz de tudo para me ver sorrir;
a nespereira está carregada e há uma nova nespereira que nasceu sozinha
que este ano também já está a dar frutos dourados, penugentos

*

Muito do cavaquismo, com os seus adjuntos de adjuntos, com os seus adesivos e pensos rápidos, com os seus bandidos e alcoviteiras (cuja identidade só mais tarde seria conhecida), trabalhava sem suavidade e com 'profunda convicção patriótica' na destruição do país, impondo-lhe um modelo de desenvolvimento e políticos subdesenvolvidos.

O cavaquismo, com os almoços, jantaradas, cavaqueiras, encomendas, tertúlias, estendendo a 'longa manus' na banca e nos conselhos de administração, providenciando a ocupação do sistema pela matilha, foi o período em que Portugal se perdeu.

Um dia, alguém fará a história deste templo, com os seus fariseus e saduceus luzindo nos óleos da unção. Um dia, alguém fará a crítica da pura irracionalidade, e não precisa ser um Kant.


[excerto de 'O adjuntivo Marques Mendes' de Clara Ferreira Alves in 'Pluma Caprichosa', Revista do Expresso, 2013.05.11]



A minha ave do paraíso está mais exuberante, arrojada, desafiadora.
Dir-se-ia que me quer dizer que há mais marés que marinheiros,
que há coisas que não há medíocres que as estraguem,
que o que é preciso é levantar a cabeça, não ter medo, enfrentar os desafios, manter a coluna direita, estar de pé

*

O que neste momento mais agrava as dificuldades dos países que enfrentam a crise das dívidas soberanas é a desigualdade de acesso ao dinheiro em condições razoáveis: internamente, a austeridade levou-lhes toda a riqueza sobejante; externamente, os mercados trucidam-nos precisamente por eles estarem em dificuldades. Os países envolvidos no nosso resgate financiam-se a 1% e emprestam-nos dinheiro a 3.2%: chamam a isso ajuda a um Estado-membro. 

Esta semana, tivemos outro 'grande sucesso': experimentámos a alternativa e fomos ao mercado pedir dinheiro a 10 anos e conseguimos um juro de 5,6%. No mesmo dia, a Alemanha pediu dinheiro a dez (sim, a Alemanha também pede dinheiro emprestado!) e obteve uma taxa de juro negativa de 0,4%.

Ou seja: os 'investidores' não se importam de perder dinheiro desde que ele esteja seguro na Alemanha, e a Alemanha consegue a proeza de ganhar dinheiro quando o a Alemanha o pede emprestado. Eis a União em todo o seu esplendor Assim é fácil pregar a austeridade aos outros! Emprestem-nos dinheiro à taxa de juro de -0,4% durante dez anos e nós teremos todos os problemas resolvidos...


[excerto de 'É isto a Europa?' de Miguel Sousa Tavares, Expresso, 2013.05.11]



Plantámos há algum tempo uma planta, eu gostava de ter esta planta.
Que não se dava, que o terreno é só pedra, que se ia perder no meio do matagal.
E, durante algum tempo, parecia mesmo que ia soçobrar.
Mas aqui, como por milagre, até as pedras florescem.
Agora está grande, belo, coberto de flores belíssimas, um luxo colorido.

Apresento-vos o meu extraordinário Callistemon
(vulgarmente chamado 'limpa-garrafas')

*

(...) O terrorismo do Estado está a ser impiedosamente praticado por este Governo contra reformados e trabalhadores da função pública, mas também contra os contribuintes e os cidadãos em geral. O objectivo é claro: reduzir o Estado a uma função meramente assistencialista e Portugal a um país com salários do Terceiro Mundo, sem nenhuns centros de decisão em mãos nacionais e que agradecerá humildemente às grandes multinacionais que se instalem cá para aproveitar os baixos custos da mão de obra nacional. 

O Governo declarou guerra sem tréguas aos portugueses. 

Há-de chegar a altura de os portugueses o varrerem para o caixote do lixo da História.


[excerto de 'O terrorismo do Estado em todo o seu esplendor' de Nicolau Santos in 'Cem por Cem', Expresso Economia, 2013.05.11]

***


Esta é - aqui já muitas vezes mostrada - a minha fénix renascida, a minha grevílea-robusta
Dada como morta, tronco cerrado depois de ter sucumbido ao vento, renasceu.
Regada com cuidado pelo meu marido, ela cresce de novo, cresce a olhos vistos.
Está aqui à porta da sala onde agora vos escrevo.

Quando o sol se põe e fica dourado, ela, que é rendilhada e delicada, fica brilhante, luminosa,
confiante na vida que tem pela frente. 


A natureza mostra-nos que não devemos desistir. Há sempre um ressurgimento. Esperemos por ele. Lutemos por ele.


***



Deixa-me ir, de Márcia

***

E, com isto, me despeço por agora.

Tenham, meus Caros Leitores, um belo domingo! E, haja o que houver, não deixem de sorrir e de ter esperança, está bem?

quinta-feira, maio 02, 2013

Penela, Espinhal, Praia da Louçainha, Rabaçal, Miranda do Corvo, Gondramaz, Ansião - as Terras de Sicó, as Aldeias de Xisto, a boa comida, a simpatia, o verde, e as nascentes, os rios, os riozinhos, as igrejas e igrejinhas. Fazer turismo é bom em Portugal.


No post abaixo falo de dois seres nos antípodas um do outro, Passos Coelho e o Papa Francisco (e até me sinto mal por estar a referir o primeiro-ministro que nos calhou em (má) sorte junto a um homem que, a cada dia que passa, melhor me impressiona): refiro-me às intervenções públicas que, neste 1º de Maio, se eu quiser usar uma linguagem que até não costuma ser a minha, revelam bem o que é um representante do Mal e que, felizmente, ainda há quem represente o Bem.

Mas isso é no post a seguir. Aqui, agora, a conversa é outra.

Tal como tinha referido há dois dias atrás, eu e o meu namorado de longa data fomos comemorar o facto de há uns quantos anos atrás termos dado o nó e, sobretudo, o facto de, tanto tempo depois, estarmos ainda juntos, cada vez mais juntos, cada vez mais unidos e românticos (nesta do romântico é melhor explicitar que falo por mim, que ele não é lá muito dado a piroseiras destas). Como já anteriormente o disse, cada vez mais gostamos de passear no nosso país. Sempre o fizemos, de norte a sul, mas parece que cada vez sentimos mais carinho por esta terra tão díspar e tão genuína.


Música, por favor: eu seguro

(faz de conta que vamos de passeio, ouvindo o rádio e esta canção, interpretada pela Márcia e pelo Samuel Úrias, é muito bonita)





Desta vez fomos passar uns diazitos às Terras de Sicó, uma terra de serras e água, muito verde, gente muito simpática, comida fantástica.

Penela, Rabaçal, Espinhal, Louçainha, Miranda do Corvo, Ansião, aldeias serranas: tudo lindo!




A religião sempre muito presente (o que ainda é mais evidente nas terras pequenas), as árvores floridas, as paisagens a perder de vista - assim é esta região. 

Quase não se vê ninguém nas aldeias e nas vilas mas, de vez em quando, alguém que passa a rua olha-nos com curiosidade. Quando isso acontece, penso sempre que não deve ser fácil viver numa terra pequena onde todos se conhecem e vigiam.

Uma outra coisa que vi muito nestas terras e que nunca tinha visto noutro local desta forma tão pública são as folhas de papel, coladas nas paredes, nas portas, até nas árvores, sobre o falecimento de pessoas ou sobre a realização de missa de 7º dia, folhas com uma cruz preta. Talvez isto signifique que as pessoas são todas muito próximas umas das outras.




Nas estradas, nos recantos, de vez em quando há pequenos oratórios. Não sei se terão um nome próprio mas, se têm, desconheço. São uns nichos, umas capelinhas pequeninas, figurinhas religiosas, velinhas acesas, flores, tudo sempre limpo e arranjado. Eu, que não sou dada a idas à missa ou manifestações públicas de religiosidade, fico tocada, gosto de parar, olhar - como se o carinho e cuidado de quem os arranja passasse para mim.




Entro em todas as capelas, igrejinhas. Ninguém, nunca. E eu sinto-me bem assim, sozinha, nestes locais tão frescos, tão recatados. Depois gosto de reparar no lado humano: os panos, as rendas nos altares estão sempre muito brancos, muito arranjados, e há sempre flores frescas e velas acesas. Que mãos cuidadosas se ocupam destes espaços. Muito bonito mesmo. Se eu fosse organizada poderia, um dia, juntar todas as fotografias que tenho feito pelo país fora (pelo país e por outros países) e fazer um roteiro de capelinhas, igrejas, catedrais, simples oratórios. 




Algumas são de grande simplicidade, outras têm aspectos peculiares e eu imagino o que as pessoas gostam das suas igrejas, provavelmente estabelecendo comparações, tendo preferências, quem sabe até rivalidades. Em Ansião, duas igrejas uma frente à outra. Na mais pequena vi algo que nunca tinha visto: o tecto pintado de um azul vibrante, imprevisto. Gostei.




São lindos os locais de culto e recolhimento. Quando há missa não gosto de entrar, aquele ambiente é-me estranho, aqueles rituais, aquele levanta e senta, ajoelha e levanta, não sei as falas, não gosto nada daquela parte em que toda a gente beija o vizinho do lado, nada daquilo me diz nada. 

Mas os momentos em que entro numa igreja vazia e olho à volta e sinto aquele silêncio fresco e sereno são muito bons.

Julgava que podia visitar o imponente Mosteiro de Santa Maria de Semide, rodeado de espaço, as montanhas azuis muito ao longe.

(Quando vi o cedro todo inclinado, não pude deixar de pensar que, num próximo vendaval, corre alguns riscos de tombar. Mas, se calhar, está bem implantado na terra e eu é que ainda estou traumatizada pelas minhas árvores que sucumbiram num dia de ventania)




Mas as portas do mosteiro estavam fechadas. Lá dentro funciona o CEARTE, escola de formação profissional, e um lar de jovens da Cáritas.

E chovia, e fazia muito vento e estava muito frio e o meu companheiro de passeio chamava-me pelo que não ousei tocar à campainha e perguntar se podia visitar.




A própria imagem religiosa parecia dizer-me adeus. Obedeci, molhada e enregelada.

Por isso, lá nos fomos embora. Dali seguimos, então, para uma das aldeias serranas que visitámos, Gondramaz, uma aldeia de xisto. É no alto, junto à estrada, que está a placa com o poema de Miguel Torga que mostrei no outro dia.

O frio que ali estava... nem vos digo nada. Continuava a chover e, se não estou em erro, estavam 4º e um vento... pelo que ainda mais enregelada fiquei. Devia estar-se bem dentro de uma daquelas belas casas, aconchegada junto a uma lareira. Não foi o caso.

Nem vivalma... com excepção para uns pedreiros que trabalhavam no restauro de uma casa.




A aldeia fica numa encosta, de frente para outras encostas, a típica aldeia de montanha, tudo em xisto. Ruas estreitinhas, íngremes, casas pequenas, todas restauradas ou em vias disso, tudo muito, muito bonito.

Não percebi se há também por ali muito sentido de humor ou se é mesmo assim, genuíno e inocente. Seja como for, uma ternura.




Claro que a loijinha do bezitante estava fechada, estava tudo fechado - como disse, só uns dois ou três pedreiros.

(Aliás, aqui como por todo o lado, não há aproveitamento turístico de nada e isso, numa perspectiva económica, é desolador. Claro que, do ponto de vista de quem aprecia a genuinidade, é do melhor que há. Mas seria desejável um compromisso - e não há porque, de todo, não existe qualquer aproveitamento turístico de tanta beleza)




Não sei se a farrusca era uma leoa pois também não vi nem ouvi qualquer cão. Muitas vezes, nas aldeias por onde andamos, não se vê ninguém mas sempre há um ou outro cão que se espanta connosco e começa a ladrar no quintal. Aqui nada, apenas silêncio e pássaros.




Gostava de ter conhecido o Manuel Escultor que, em 2010, avisou 'AO ENTRAR QUIDADO COM A CABEÇA'. Mas também não dei conta que lá estivesse.

Apesar da chuva e do vento gelado por ali andei, entre as casas, descendo pelos campos. O meu namorado é mais racional que eu, diz que já está tudo visto, que vamos embora, que já estamos molhados demais.

Eu teimo, gosto de aqui estar, não quero ir-me já embora, e continuo a deliciar-me com o que vejo. Mas, quando ele, lá em cima, me chama de novo, viro-me, olho para trás e... dou um grito, 'Ai!!! Caraças!'.

Parecia-me alguém ali, no meio do campo, a olhar especado para mim, a rir.




Um espantalho! Há quanto tempo não via eu um espantalho a sério...! Concluo que, por terras de Gondramaz, o pessoal (quando aparece), se diverte mesmo.

E ainda vi mais dois, uma graça.

Mas, depois do susto que apanhei, resolvi mesmo regressar.

No outro dia, haveria mais passeio. E houve. Mais uma bela caminhada por um caminho de montanha, um cheiro forte e bom a terra, a primavera, a liberdade.




Junto ao rio Dueça que salta juvenil e livre sobre as pedras, e perto do hotel onde ficámos, um hotel muito simpático e recente e que tomara que se aguente pois bem o merece, há animais que farão parte da quinta que estão a organizar. 




Tudo muito bonito. 

Mas não vos maço mais que isto já está longo demais, não é? E, além disso, daqui a nada são 3 da manhã. Para além do tempo de escrever, escolher fotografias entre as muitas que fiz, reduzir a sua resolução para que o blogue não fique muito pesado, não leve muito tempo a abrir, toma-me muito tempo... e, agora, já estou mesmo cheia de sono.

Só mais uma coisa: ouvi que decorre este fim de semana uma feira dedicada à promoção das Terras de Sicó, creio que, justamente, em Ansião, a terra onde o Nabão se veste de verde e se enfeita de delicadas florzinhas brancas.

Esta zona está muito bem servida de estradas, está no centro do país, e vão por mim: vale a visita. É uma região linda. Se puderem não deixem de a visitar, agora ou quando vos der jeito.

*

Recordo que, sobre a conversa 'marada' do Passos Coelho sobre os cortes e sobre a dívida e, em contraponto, a conversa humana e lúcida de Jorge Bergoglio, Papa Francisco, é descer um pouco mais, até ao post seguinte.

Convido-vos ainda a virem comigo até ao meu Ginjal onde temos um Operário em Construção ao som da Trova do vento que passa.

*

Não vou rever o que acabei de escrever, já não consigo. Se derem com letras trocadas, vírgulas a mais ou menos ou outros defeitos, relevem, está bem?

Desejo-vos uma boa quinta feira. Saúde e boa disposição é o que vos desejo!


domingo, março 24, 2013

Miguel Veiga fala destes tempos desalmados entregues a políticos de aviário; João Silvestre explica como uma austeridade para além do acordado com a troika fez desparecer 17,2 mil milhões de euros da economia; Daniel Bessa preocupa-se com a dívida pública que não pára de crescer, sem que os responsáveis políticos se preocupem com isso; e João Duque ironiza: que 'siga o enterro' com tudo a derrapar tão perigosamente... E, para a coisa não acabar mal, 'a pele que há em mim', cantada pela Márcia; e Rui Pires Cabral desfia um nocturno com aviões.



Miguel Veiga


Qual o motivo para rejeitar o candidato do seu partido?

Por ser um candidato do aparelho que só pode vingar, num partido como o PSD, que é livre e aberto, porque o aparelho o impôs, tal como impôs Passos Coelho. Quem fez Passos Coelho, primeiro-ministro?

Quem foi?

Uns tipos do piorio, que existem em Portugal. Um é Miguel Relvas, o outro é Marco António. Andaram durante um ano e meio a bater as distritais para angariar votos, a realidade é esta.

Quem está no poder, o PSD ou o aparelho?

O aparelho, quanto a isso não há dúvida. Encontram algum social-democrata no Governo? Nem um. Estes tipos não têm convicções. Simplesmente não têm uma ideia de convicções e, portanto, não têm uma ética da responsabilidade. Querem o poder pelo poder. Estão centralizados, incrustados e vivem num regime de sucessão eterna, quase dinástico, que se torna opressivo e do mais fechado que há. O regime é autofágico. Vão-se reproduzindo e é como um panzer. Levam tudo à frente. Este é um tempo crepuscular.


(Excerto da entrevista de Ana Soromenho e Valdemar Cruz a Miguel Veiga, advogado portuense, que ajudou a fundar o PPD e que, aos 77 anos, não desiste de uma rebeldia que o leva a ver o actual PSD como um partido de 'políticos de aviário' - Na Revista do Expresso deste sábado)


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Impacto das medidas de austeridade na economia dez 'desaparecer' 17,2 mil milhões de euros.

Governo aplica medidas de 23,8 mil milhões de euros entre 2011 e 2013 mas só consegue baixar o défice em 6,6 mil milhões de euros.

Governo foi além da troika mas nem assim impediu que metas tivessem de ser revistas duas vezes


(Tópicos do interessante artigo de João Silvestre no Expresso - Economia)


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Daniel Bessa


Alguns líderes políticos valorizam o défice público - para o que formulam diferentes trajectórias desejáveis. Outros valorizam a taxa de juro paga pela dívida pública, tanto na emissão como em mercado secundário.

Em minha opinião, sem querer desmerecer a importância destes objectivos, há, neste momento, um outro mais importante: o peso da dívida pública no PIB, que se aproxima dos 130%, para um limite aceitável da ordem dos 60%.

Pode o défice público estar a descer (menos que o desejável, em minha opinião). Pode até a taxa de juro da dívida pública estar momentaneamente controlada (muito por força da acção do BCE, em minha opinião).

A prazo um pouco mais longo, a solvabilidade do Estado português dependerá sempre do peso da sua dívida no PIB. E esta não pára de crescer, por várias razões, que se acumulam (défice público, inflação reduzida, decréscimo do PIB).

Preocupa-me sobremaneira que uma boa parte dos responsáveis políticos do meu país não se preocupem com esta questão - mostrando-se satisfeitos, por exemplo, sempre que alguém lhes autoriza um aumento do défice público.


(Excertos do artigo de Daniel Bessa no Expresso - Economia [e permito-me eu resmungar: é pena é que esteja a acordar para a realidade tão tarde; não viu que ia dar nisto enquanto andou a apoiar estes incompetentes?])


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João Duque


Vejamos um resumo de objectivos e resultados para a política orçamental e para o produto.

Para o défice orçamental previa-se 5,9% para 2011 e obteve-se um défice de 6,2%; Previa-se um défice de 4,5% para 2012 e observou 6,6%; (...)

Para o PIB, o memorando tinha implícita uma queda de -0,4% para 2012, observou-se uma queda de -3,2%; em 2011 previa-se um crescimento de 2,5% para 2013, agora estima-se uma quebra de -2,3% (...)

Sucesso?


(Excerto do artigo semanal de João Duque no Expresso - Economia [e resmungo eu de novo: e, sendo tão douto, presidente de uma das mais conceituadas Faculdades de Economia do País, porque é que só deu por isto tão tarde? Tão apoiante que era de Passos Coelho há uns tempos atrás...])


*

Temas desconsoladores? De desânimo? De desesperança? Pois são. As coisas estão mesmo muito preocupantes. A devastação está a atingir proporções das quais dificilmente escaparemos incólumes. Se isto não é travado o quanto antes, não sei o que vai ser deste País. O que vai ser de nós? Dos nossos filhos? Dos filhos dos nossos filhos?

Temos que impedir que isto continue. Não sei bem como mas o caminho que isto leva é de acelerada destruição em múltiplos quadrantes e razias desta monta têm que ser travadas, seja como for.

*

Para isto não acabar assim, neste tom desmoralizado, vou deixar-vos com uma canção de que gosto bastante, A pele que há em mim de Márcia






                                                                        para o Miguel Martins


Não estejas só. Tu também és
o que já foste e o que esperaste
vir a ser. A manhã que se aproxima

há-de passar, não importa. Para já,
os diligentes aviões de madrugada
sobrevoam o desenho das colinas

de Lisboa - e cá dentro, muito fundo,
numa redoma de música, os amigos
ainda bebem para esquecer

o futuro, que outro remédio
não têm, se a hora não se repete
e a vida é só esta espuma.


['Nocturno com aviões' de Rui Pires Cabral in Resumo, a poesia em 2011]

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Este post saíu-me enorme (coisa que já não vos deve admirar, sabido que sou de muitas palavras) mas, ainda assim, muito gostaria que me visitassem também no meu Ginjal e Lisboa. Hoje há uma novidade muito especial, Adília Lopes. Sendo ela como é, desestabilizou-me por completo e, por isso, não se admirem com o que lá vão encontrar. Na música, temos a despedida de um grande intérprete, Nelson Freire interpretando Granados.
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E quero ainda desejar-vos um belo domingo. Domingo é dia de passear. Mesmo que chova, vamos para a rua ver o que há de belo à nossa volta, está bem?

domingo, janeiro 20, 2013

No Ginjal, as árvores que tombaram à fúria de um leão embravecido em noite de vendaval. E uma solitária mulher pássaro que enfrenta um Tejo revoltado. E a pele.





Toda a noite de sexta para sábado o vento rugiu, inclemente, senti-lhe as patas batendo com violência nas minhas janelas. De manhã a janela do meu quarto estava estragada, deve ter sido ele a tentar entrar, o vento desembestado. Eu, na minha cama quente, aconchegada e indefesa, e o bruto ali, respiração ofegante, impaciente, impetuoso.

De manhã, quando me levantei, fui espreitar a rua. Chovia muito, pouca gente na rua, e o vento ainda a rondar.

Mas só ao fim da tarde consegui ir até à beira do rio. Que não, que não, que não estava tempo para estar ali, tantas pedras que podiam rolar lá de cima, tanto frio, tanto vento. Mas lá fomos.

Podia lá eu deixar de ali estar num fim de dia assim? É que é em dias assim que eu tenho este lugar mais para mim e eu tenho esta forma de gostar, tenho o prazer da posse mesmo sabendo que não se consegue possuir o que não se consegue domar.

Percorri, pois, este lugar e éramos só nós dois, mais ninguém. Ninguém. Frio, frio. Passei a écharpe que levava à volta do pescoço pela cabeça. 

As casas abandonadas, destelhadas, desoladas. No entanto, numa delas parecia ver-se uma luz. Talvez fosse a luz do restaurante. Ou talvez no meio do abandono, uma luz sobreviva ainda, acesa, esperando que alguém volte a viver entre aquelas paredes.




E o vento tão gelado, o rio de longe quase parece cinzento, baço, batido, agitado, envolto numa neblina gelada. A mesma impaciência do vento, agora nas águas.

Lá em baixo, a desolação. Algumas árvores arrancadas, quebradas, por terra. O vento quando avança assim, se apanha as presas indefesas, faz-lhes isto, derruba-as, deixa-as sangrando por terra. Gozou, o malvado, e depois deixou-as, esventradas. Uma chacina.




Poderiam ser gazelas mortas, vítimas de uma noite de loucura, leões à solta, feras sem compaixão. As pessoas fogem de lugares assim, não gostam de testemunhar a fúria animalesca da natureza, temem-na.

Mas eu gosto, se calhar não sou uma pessoa muito normal.




Algumas das árvores estavam arrancadas de forma violenta, via-se que tinham dado luta; mas outras, como esta aqui acima, tombou, rendeu-se. Imagino-a a esvair-se, assustada, a desmaiar, donzela serena na rendição. Lisboa, do outro lado, é também uma donzela sereníssima, tombada rente ao rio, rendida também, bela no seu sossego.

Percorro os caminhos, sinto o cheiro frio da maresia, vejo se as árvores ainda de pé estão bem seguras.




A terra ensopada, os caminhos espelhados, tanta a humidade, um frio cortante, e o vento ainda soprando, já cansado dos destemperos da noite e da manhã mas ainda ali presente. O rugido, ah se ouvissem o rugido, ainda ele ali escondido atrás das árvores ou no fundo do mar, que o rugido parecia vir também do rio, um rugido, um rugido cavo, rouco. E que bem que eu me sinto em lugares assim, sem ninguém, a natureza à solta e eu, parte dela, pronta a sair voando.

Mas sempre, vamo-nos embora, não está tempo para estarmos aqui, não se consegue estar aqui, e, porque será que não há ninguém, já pensaste nisso?

Mas não estávamos sozinhos. No meio da erva molhada alguém me olhava, surpreso. Eu andava, falava com ele e ele de olhos fixos em mim.




Há muito tempo que não o via, o pequeno pássaro preto de bico amarelo. Ali estava ele, indiferente ao vento, ao frio, ao rugido do leão furioso. Tranquilo mas surpreso. Eu e ele, pequenos, olhando-nos nos olhos.

Depois viu que eu vinha em paz, reconheceu-me, somos ambos bichos destas paragens, e, então, levantou voo, partiu para a beira do rio. A vida continua, pensou ele e pensei eu. Novas árvores serão plantadas, a vida renasce porque nenhuma perda é definitiva. A vida continua.

E eu continuei, agora a caminho de me ir embora. 

Mas ia pensando: sentirão dor as árvores quando são agredidas assim? Uma perna decepada, o sangue ainda escorrendo, os ossos à vista, os nervos, as raízes cortadas, inúteis.




Mas então reparei. Ao fundo, lá ao fundo, na ponta do cais, confundindo-se com a árvore, um pequeno vulto. Mais ninguém, nem gatos, nem gaivotas, apenas nós, o pequeno pássaro preto de bico amarelo e agora aquele pequeno vulto.

Aproximei-me.




Um muito improvável vulto feminino, elegante, calças justas, botas altas, de tacão alto, uma capa amarela esvoaçando. Uma mulher pássaro, talvez. Uma mulher pescadora desafiando a impaciência do rio, desafiando o vento, o rugido do leão.

Olho-a. 

Lisboa começa a acender as suas luzes, o frio está irrespirável, a noite começa a aproximar-se. Durante todo o tempo que a olhei não puxou a linha, não lançou de novo, nada. Esperaria um peixe, esperaria que, do fundo do rio, saísse o monstro que rugia impiedoso?




Mesmo na ponta do cais, o rio impaciente, um vento que parecia quase levá-la, e ela ali, sozinha, capuz na cabeça, parecia ter um casaco de pelo com capuz por baixo da capa amarela, elegante e solitária.

Em dias assim, em que a pele pede excessos, em que os sentidos aceitam desmandos, loucuras, são as mulheres e os pequenos pássaros que saem à rua, que voam sobre as águas que correm, desafiando a sorte, os medos, os rugidos assustadores e invisíveis, que enfrentam a improbabilidade dos tempos.

*

Na superfície baça dos dias
à superfície esquiva do tempo
coalha-se a luz estranha, doce e agreste
de todos os poemas.
Ao vento, à chuva,

onde as memórias se apagam,
onde a areia cobre de tédio os olhares
ouve-se uma voz longínqua
do fundo raso do silêncio.
Aí encontramos a fonte,
o espaço primeiro
dos mármores interiores do vento,
capaz de escolher as palavras exactas
o caminho
que talvez,
quem sabe,
sempre tivéssemos procurado.


['Um poema para o misterioso vulto feminino de capa amarela' de Joaquim Castilho num comentário aqui abaixo]




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A música é 'A pele' e é interpretada por Márcia e JP Simões. 

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E agora que a invernia acalmou, desejo-vos que tenham, meus Caros Leitores, um belo domingo.