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terça-feira, abril 07, 2026

Instintos

 

Se cada um de nós é uma improbabilidade, um milagre, o que acontece à nossa volta não o é menos. Como as células se dividem, multiplicam, agregam, ajeitam, e, no fim, surpresa, surpresa, sai um patinho, um peixinho, uma baleiazinha -- milagres. E como, uma vez nascidos, logo começam a respirar, a alimentar-se, a movimentar-se. E como se fazem à vida e, logo depois, se reproduzem e continuam o ciclo vital. Milagres.

E o mesmo, mais coisa menos coisa, com flores, árvores. Tudo se reproduz, tudo se alimenta, tudo sabe como sobreviver.

O vídeo que abaixo partilho é daqueles que, de tão simples, poderia servir para contar uma história infantil. Os patinhos-bebés que falam entre si mesmo antes de nascerem, a mamã pata que sabe que tem que arriscar e levar os seus filhos a aprender, a procurar comida, os filhotes que se inquietam quando a mamã-pata os deixa, e como, percebendo que têm que se afoitar, se atiram do precipício para a procurar. Tudo muito belo, muito comovente. O instinto da maternidade e da sobrevivência aqui, de forma cristalina -- instintos vitais.

A vida começa depressa para estes nove patinhos

terça-feira, março 24, 2026

Era uma vez um gorila chamado Pablo

 

Quando eu era pequena lia muito. A Menina Aguaceiro em diversas peripécias, A Princesa da Lua e tantos outros. Mas um conduzia-me a um mundo de sonho, o reino das mais que mil maravilhas: um sobre o fundo do mar. Seres extraordinários, coloridos, mutantes, algas e corais, rochas, tudo um fascínio. Mais tarde, bem mais tarde, veio A vida na Terra que, pela mão de David Attenborough, nos mostrava tudo o que de belo a terra tem e que, na maior parte das vezes, não está ao alcance do nosso olhar e, tantas vezes, do nosso conhecimento.

A inconfundível voz de Sir David Attenborough, que se enleava nas folhagens, sussurrava para não incomodar os espécimes que observava, que quase se toldava de emoção quando presenciava os milagres da natureza, passou a ser uma voz familiar na nossa casa, como, estou certa, em muitas casas. Não é apenas encantamento que percebemos nele, é também respeito. E prazer da partilha. 

Com 99 anos certamente muito bem vividos, ele é um exemplo de persistência, de gosto pela aventura, de disponibilidade e capacidade de devoção à natureza. 

Talvez por isso, a sua participação em documentários é um selo de qualidade.

Uma História de Gorilas: Contada por David Attenborough | Trailer Oficial | Netflix

Neste documentário intimista, David Attenborough conta a extraordinária história do seu primeiro encontro com a cria de gorila Pablo, como este gorila cresceu e se tornou um macho dominante da raça Silverback, e como estão os descendentes diretos de Pablo nos dias de hoje. Repleto de comportamentos extraordinários de gorilas nunca antes filmados, este é um relato de esperança e alegria.


terça-feira, novembro 19, 2024

Tempos perigosos

 

O inferno está à nossa porta e, muito provavelmente, nenhum de nós, os que aqui estamos, pode fazer o que quer que seja para o evitar.

A Rússia intensifica os ataques à Urânia, uma verdadeira chuva de mísseis e drones a atravessar os céus, causando danos demasiados sérios, provavelmente querendo avançar para uma eventual negociação em posição de grande força. E Biden, provavelmente, na mesma lógica, avança com o ok ao uso, por parte da Ucrânia, a mísseis de longo alcance para atingir território russo. 

Ou sejam, aos 1000 dias desta guerra maldita (mas há alguma guerra que não seja maldita?) parece que nunca os tambores rufaram tão alto.

Como tendo a ser optimista, quero sempre acreditar que algum bom senso acabará por prevalecer. 

Mas quando de um lado está alguém que já provou à saciedade que quer o que quer e avançará para o conseguir por muitas mortes e destruição que a sua vontade implique e, do outro, estará um louco imprevisível sem um pingo de ponderação, receio que o meu optimismo seja infundado.

Este último apregoava que acabaria com esta guerra em três tempos (bastar-lhe-iam 24 horas e um telefonema) e está a ver-se o que está a conseguir.

Não quero ver o mundo de forma sombria mas tenho que reconhecer que os ventos que sopram daqueles lados não nos trazem boas perspectivas.

Mas não quero falar apenas dos perigos da guerra, tão maiores quando os destinos do mundo estão nas mãos de gente de narcisistas, psicopatas ou alucinados. Quero falar de novo nos tremendos riscos da Inteligência Artificial.

Não sou tremendista, pessimista, não sou histérica. Creio que sou racional e realista. Quando aqui falo deste tema, pretendo apenas alertar para que a regulação é indispensável e urgente. Tal como as alterações climáticas, também a inteligência artificial deveria estar no topo das prioridades políticas de todo o mundo civilizado.

Os recursos para se usar a Inteligência Artificial estão cada vez mais ao dispor de qualquer um, a custo zero ou perto disso, e os riscos que isso comporta são infinitos e, alguns, potencialmente destruidores.

Por vezes (muitas vezes) os benefícios do seu uso são extraordinários. Ainda há uns dias um amigo médico me dizia que usava cada vez mais o ChatGPT e que se espantava por ainda haver colegas que não tinham percebido a ferramenta preciosa que aquilo pode providenciar. A inteligência artificial, bem usada, ao serviço da Medicina, é preciosa.

Para os mais diferentes fins, é raro o dia em que não recorro ao ChatGPT. 

Mas o ChatGPT ainda se engana e quem o usa tem que ter os conhecimentos suficientes para perceber quando a resposta do ChatGPT é inquestionável ou quando deve ser verificada. 

Mas esta é apenas uma das imensas ferramentas, ao dispor de toda a gente, que recorrem à Inteligência Artificial. Hoje toda a gente já é utilizador dela mesmo sem dar por isso. Quem usa redes sociais está a ver o que o algoritmo seleccionou para si face aos seus gostos habituais. No Youtube ou mesmo Netflix, o que me é apresentado é aquilo que o algoritmo entende ser o meu gosto. E não sei se todos os utilizadores destas plataformas (ou Facebook ou Instagram) percebem isso.

Mas isto continua a ser uma gota de água pois a IA é usada para tudo e mais alguma coisa, incluindo para falsificar imagens, vozes, para gerar obras de arte, na prática para o que se quiser.

O que aqui mostro, no vídeo abaixo, é uma das muitas coisas que cada vez mais se faz e que foi bastante usada por contas falsas na campanha eleitoral americana. Trata-se do uso da voz de alguém para dizer coisas que outro alguém resolve divulgar, querendo fazer parecer que foi o legítimo dono da voz a dizê-lo. Por exemplo, sendo Sir David Attenborough uma voz absolutamente credível, usar a sua voz para o pôr a passar outras mensagens.

Quem ouve, ouve a voz dele, e tão perfeita está que ninguém desconfia que é uma voz gerada por Inteligência Artificial. E podem pô-lo a dizer coisas completamente diferentes do que ele, ele mesmo, diria.

Quando ouviu a sua voz, uma voz forjada pela AI mas absolutamente igual à sua, a dizer algo que ele próprio nunca tinha dito (no fim do vídeo), ficou perturbadíssimo. 

E é caso para isso pois as ferramentas para o fazer estão disponíveis para que qualquer um as use. Qualquer um de nós pode ser o veículo para passar ideias que nós próprios nunca divulgaríamos.

Virá o dia em que não saberemos quem é quem, quem disse o quê, o que é verdade e o que é mentira. Um mundo distópico, louco, aterrador.

E isto já está a acontecer. E não há regulação, legislação, para o evitar. E cada vez menos o haverá. Um dos grandes propósitos da dupla Trump & Musk é acabar com qualquer regulação, seja a este nível seja a nível ambiental ou a qualquer outro.

Os demónios estão a ficar à solta e não há guardas para os apanhar e voltar a meter dentro das jaulas ou das grutas ou seja lá onde for.

Sir David Attenborough says AI clone of his voice is 'disturbing' | BBC News

"I am profoundly disturbed to find these days my identity is being stolen by others and greatly object to them using is to say whatever they wish." 

That's how broadcaster and biologist Sir David Attenborough has reacted after the BBC played him clips of his voice being mimicked by Artificial Intelligence. 

Dr Jennifer Williams, a researcher of AI audio, explains the issues of voices of prominent figures such as Sir David being cloned.


sábado, junho 29, 2024

Jogos de sedução

 

Nada de muito novo. É sabido que, nisto, é sempre a fêmea que escolhe e que resolve quando dar o ok. Da mesma forma, é sabido que o macho tem que saber seduzir, tem que ter calma, tem que ter arte e, sobretudo, humildade. E tem que saber perceber o momento de avançar para a conquista. Tudo, sempre, sabendo que nada é definitivo pois a fêmea pode sempre mudar de ideias.

Mas, quando ambos compreendem sempre o seu papel e sabem interpretar o momento com graça e mestria, é uma maravilha digna de ser festejada.

Ostrich Gives the Performance of His Life | The Mating Game | BBC Earth

The end result might not be as smooth and slick, but this ostrich does have some moves… 


sexta-feira, junho 16, 2023

Para terminar um dia quente, quente... o mar azul, os peixes, os pássaros... uma lufada de ar fresco

 

Os meus últimos tempos têm sido de trabalho intenso. Já aqui contei que tenho uma característica: dou-me mal com o tédio. Se tenho pouco que fazer, parece que não consigo fazer nada. Se tenho muito que fazer em muito pouco tempo aí, sim, fico com a pica toda.

Trabalhar horas a fio, até às tantas da noite, trabalhar até ficar cansada, isso, sim, é a minha praia. É uma coisa estúpida? Ah pois é, então não é? Claro que é. Mas é o que é.

Com isto trabalhei ontem até depois das três da manhã. E estava com vontade de continuar. Fui para a cama com uma espertina danada, só adormeci de manhã.

Depois tive um dia ocupado e, quando finalmente, tive oportunidade de recomeçar a função, adormeci pesadamente.

Uma vida sem ordem. Mas, caraças, muito motivada. 

Agora estou aqui a dar contas à minha vida e a pensar que, para tentar recuperar, deveria agarrar-me ao trabalho e, em vez disso, estou aqui a ver se acordo.

E esteve tanto calor... padeço imenso com o calor. 

Fomos passear à praia ao fim da tarde mas ainda estava muito calor.

E, falando em calor, anuncia-se para daqui a dias um calor tórrido.

Ora é isto que, infelizmente, nos espera. Um inferno.

O deserto e as chamas a avançarem, a água a escassear, as populações a migrarem. Um inferno.

Preocupa-me imenso isto das alterações climáticas. Gostava de ver o país a ser florestado, gostava de ver o tema da água muito bem agarrado. Sei que muito se está a fazer mas penso que deveria vir para a ribalta, ser falado, mostrado, discutido. Em vez de se andar a ocupar o espaço e o tempo com chachadas era importante que se debatessem os temas relevantes.

Quando estou em espaços públicos a presenciar conversas, ouço disparates atrás de disparates. Mesmo pessoas que se julgaria estarem minimamente preparadas dizem com cada disparate que é de uma pessoa se atirar para debaixo da mesa. Tanta rede social, tanta comunicação social da treta que dá nisto: as pessoas mal informadas e desfocadas do que é essencial.

Ontem, do que vi da entrevista com o Ministro da Economia, Costa Silva, fiquei espantada com a quantidade de projectos relevantíssimos em curso. De nada disto se ouve falar. Mas, é verdade, Filo, a seguir não se organizam debates para comentar o que foi dito. E seria importante e interessantíssimo que se juntassem empresários, investigadores, professores, gestores, e em conjunto debatessem os avanços científicos e tecnológicos, os investimentos. Seria relevantíssimo que a população estivesse ao corrente do que se faz, se sentisse motivada a fazer mais e melhor.

Mas não. 

Aposta-se é na estupidificação massiva. 

Claro que, a propósito de coisas estúpidas, há bocado, apanhámos o fim da audição do Pedro Nuno Santos. 

Uma paródia, uma chachada, uma barracada. O que é aquilo? Perguntas parvas, atrás de perguntas parvas. Sete ou oito horas de perguntas e perguntas e perguntas. Não sei como é que os inquiridos se aguentam. Tenho ideia de que, se fosse comigo, às tantas me levantava e dizia: "Tenho mais que fazer. Vão dar banho ao cão. E, entretanto cresçam e apareçam. Chiça."

Já não faço ideia do que é que se quer apurar ali mas, seja o que for, se durasse uma semana, devia ser mais do que suficiente para fazer perguntas aos que teriam alguma coisa a dizer. Mas não. Cada um arvora-se em pide de aviário e pergunta, interroga, contra-interroga, volta a interrogar. E depois vem outro e faz o mesmo. Mil vezes a mesma irrelevante pergunta. Mil vezes o mesmo ar de suspeição, de censura, de prepotência. Uma tortura. Não se aguenta. Cerca de oito horas de interrogatório a cada desgraçado. Ontem tinha sido outro, já demitido, e ainda sim, interrogado, esmifrado, seviciado até à exaustão.

Anda aquela gente, aqueles que teoricamente deveriam ser os nossos representantes na Assembleia da República, a ganhar um ordenado pago com dinheiros públicos para ali andarem a dar aquele triste espectáculo. 

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Mas não são horas para perder mais tempo com o que não interessa. 

Prefiro mergulhar no azul. 

Mar. Peixes. Peixões. Pássaros. Passarões. Passarinhos lindos.

Muita beleza

Fish Vs Bird | 4KUHD | Blue Planet II | BBC Earth


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As fotografias, lindas de tão minimalistas, são respectivamente de Jose Marques Lopes, Pete Chapman, Elisabeth Brecher e AKittinan Googlegog. Podem ser vistas aqui.

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Dias felizes
Saúde. Boa sorte. Paz.

sábado, fevereiro 18, 2023

Se é para macacadas, peço desculpa para prefiro a companhia dos de verdade

 


Na quinta-feira o dia foi mais longo que o habitual e, em vez de poder desforrar-me dormindo até mais tarde, não senhor. Esta sexta-feira estava a dormir no meu segundo sono, e quem diz segundo diz terceiro, a sonhar descansadamente, quando ouvi o som que durante tanto tempo me despertou. O meu sonho ainda fez por assimilar o ruído, como se fizesse parte do argumento, mas logo abri os olhos e percebi que era realidade.

O dia tinha que começar cedo. Não teria que ser tão cedo mas, como sou inflexivelmente pontual, gosto de antecipar possíveis contratempos. Além disso queria ter a certeza que, sendo das primeiras a chegar, teria o serviço cumprido de certeza a tempo e horas.

Afinal, não me serviu de nada. Não ficou pronto. Impediu-me de repor o sono e obrigou-me a telefonemas e manobras complicadas e... tudo para nada. Não sou de me stressar mas, mesmo assim, irrito-me.

Há uma coisa nesta deriva em que anda o mundo que me faz muita espécie. Há tecnologias para tudo e para mais algumas coisas, tudo em tempo real, tudo online, tudo à distância de um clique. E depois, vá lá a gente perceber porquê, grande parte das coisas que antes eram fáceis, nas calminhas, agora são uma medonha trabalheira. Há apps para tudo, cada vez mais tudo converge na realidade virtual, mas depois as apps pedem códigos e depois os códigos não funcionam e, quando depois de mil esforços, lá se consegue pôr a funcionar, são as instruções que não são claras, é a rede ali que não é boa. Há sempre qualquer coisa que atrapalha. Um mundo que se vai estreitando.

E depois, para o que tem que ser físico, horas para marcar qualquer porcaria, horas para ser atendido, horas no trânsito. E, para uma coisa de nada, tudo tem que vir da central e vem através de uma transportadora, e os da transportadora ficam presos no trânsito e as peças não chegam a tempo e horas e ninguém sabe quando chegam porque é tudo contratado, subcontratado, sub-subcontratado e ninguém é responsável pela totalidade do processo.

E uma pessoa fica pendurada, sem saber de nada, e ligamos e o telefona toca, toca, toca e ouvimos música, recomendações e o diabo a sete e, quando por fim aparece uma alma, essa alma também não sabe de nada e também lamenta e também compreende, mas também não pode fazer nada porque agora é assim.

Tudo isto me cansa de uma maneira... Nestas alturas só me apetece hibernar.

No interstício, num destes compassos de espera, resolvi ir ao supermercado. Quando fui pagar não percebi. Não tinha comprado nada que se visse e, no entanto, a conta era upa-upa. Olhei para o ticket. Os ovos, o arroz, o pão tudo a preços absurdos. Não há justificação económica razoável para aumentos que levam os preços nestes básicos para cerca do dobro.

E agora, enquanto escrevo, vejo o Expresso da Meia-Noite. 

Chego à conclusão que este pacote de medidas para a habitação foi feito em circuito fechado. sem envolver os representantes das partes envolvidas. 

[Pode acontecer que o Leitor Ccastanho e o Leitor Corvo Negro tenham razão, que tudo isto não passe de uma manobra de diversão ou uma forma de testar os agentes e de auscultar a sociedade. Pode ser. Mas, seja como for, foi um mau passo.] 

Continuo a achar que, se houver eleições, dificilmente haverá melhor candidato que o Costa e partido com melhor programa que o PS. Mas...

Mas isso não chega. Têm que se esmerar, têm que trabalhar mais e melhor, tem que arranjar maneira de ter gente sénior e experiente a trabalhar, a avaliar impactos, a medir consequências, a conseguir ver por outras perspectivas. Se continuar neste registo de maltinha trainee, só miudagem a dar tiros nos pés, não conseguirá ir longe.

Provavelmente este pacote agora foi obra da catraia promovida a Ministra da Habitação mais da catraia que aqui está na SIC Notícias, Maria Begonha de seu nome, a dizer generalidades e/ou infantilidades, se calhar também da outra catraia que andou a dizer que a Decathlon podia fornecer tendas para as pessoas acamparem em cima da ponte até se resolver os problemas da habitação. Só pode.

O PS esteve muito mal, muito, muito mal, no dossier da habitação. 

Penso que, para se limparem, deveriam entregar o assunto a um ministro capaz, com uma equipa capaz, gente experiente, inteligente, com mundo, com uma visão holística das coisas. Enquanto um tema tão relevante estiver entregue a miudagem sem noção do que é a confiança e do que é necessário para a obter e para a conservar, vamos estar mal.

E eu estou cansada. 

Hoje de tarde, vi que um dos mails que tinha recebido era de uma certa marca, anunciando os últimos descontos. Fui ver a roupa de mulher. Descontos de 70%. Coisas bem bonitas a preços bem bons. Comecei a seleccionar. O carrinho a compor-se. Depois pensei: Para quê? Apaguei tudo. Não vou comprar coisas de que não preciso. 

Toda a minha vida está em reset. Quero mudar tudo. Até o cabelo já foi. No outro dia voltei à cabeleireira a que não ia há cerca de três anos. Levei uma fotografia que a minha filha me tinha enviado, de alguém que tinha um corte compatível com a minha trunfa e com o que queria. Cheguei lá e disse: Qualquer coisa como isto. A meio, o chão já pejado de cabelo, olhei-me ao espelho e interceptei-a: ainda assim, não será que ainda poderia ir mais? Cortar é aquilo de que ela mais gosta. Mas vi que ela própria temia a ousadia do corte. Incentivei-a: Força. 

Saí de lá outra.

E muito mais teria a dizer. Tudo coisas assim, irrelevantes, coisas desta minha vidinha. Mas ando com tanto sono, tanto, tão improdutiva, tão a precisar de passar dias a dormir...

Depois do Expresso da Meia-Noite pus-me a espreitar vídeos. Descansa-me ver imagens boas, gente boa, animais bons, natureza, gente e animais em harmonia.

Este aqui abaixo é um doçura. A forma como o gorila recebe a mulher de Damian Aspinall é uma coisa extraordinária. Quanta ternura.


E aqui abaixo outras imagens incríveis: Attenborough observa de perto como uma mãe orangotango manipula instrumentos como um humano. Imagens que me impressionam. Imagens que penso que posso dizer que são belas. Como ela aí anda com o filho ao colo...


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Desejo-vos um bom sábado
Saúde. Bons pensamentos. Paz.

segunda-feira, dezembro 19, 2022

Hamza Yassin tem 32 anos, não corta o cabelo há 17 anos, é um bom pé de dança e dizem que é o próximo... David Attenborough

 

Não sei se há quem conheça David Attenborough e não se apaixone pela forma como partilha o seu amor pela natureza. Muito do meu amor e respeito e curiosidade pela natureza deve-se, certamente, a ele. Até hoje não conheci quem nos transmita essa devoção com o mesmo entusiasmo e poder de contágio que ele.

Até hoje.

Foi através do Guardian que fiquei a saber dele: Hamza Yassin: Strictly winner being touted as next David Attenborough. Wildlife TV presenter tipped for success after capturing country’s heart on path to Strictly victory

Comecei por ir ver quem era e, já agora, a dançar. Aqui está.

Hamza Yassin & Jowita Przystał Couple's Choice to Jerusalema - Remix ✨ BBC Strictly 2022


Mas o que mais despertou a minha atenção foi ser designado como o próximo David Attenborough. Fui conferir. E, de facto, aqui está. 

Hamza Yassin Showreel

Hamza Yassin is a passionate, exciting and highly knowledgeable on-screen wildlife cameraman and photographer with a wonderfully warm and accessible presenting style that is set to make him a huge star of the Natural History television genre.

His first foray into presenting was on BBC’s The One Show as one of their new wildlife cameramen. This is where he was seen by DML who immediately signed him having spotted his potential.(...)
Hamza is relatively new to presenting but not to his career in wildlife, his impressive qualifications are a Masters Degree (MSc.) in Biological Imaging and Photography with Merit in addition to his Bachelor of Science (BSc.) in Zoology with Conservation.

He has a passion for birds, is a skilled ornithologist and bird nest recorder with excellent field craft and habitat knowledge.  Hamza is also a published wildlife photographer as well as a wildlife tour guide.(...)

Hamza lives in a rural part of the west coast of Scotland, with wildlife and nature right on his doorstop as a constant inspiration for his work. In his spare time, Hamza competes in the Highland Games.

Dá gosto ver e ouvir. Fez-me lembrar, salvo as devidas distâncias, um conhecido que tem como hobby fotografar animais no seu habitat. Tendo a sua profissão muito longe disso, é quando fala das suas expedições para as montanhas, para terrenos alagadiços, para longínquas paragens que o vejo vibrante, feliz da vida. Tem inclusivamente obra publicada. É preciso adorar a natureza e ser humilde para aceitar dormir mal, apanhar frio e chuva, correr inúmeros riscos para observar e registar a vida animal.

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A ver se amanhã mostro como estão as coisas in heaven. Hoje já não consigo.
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Desejo-vos uma boa semana a começar já por esta segunda-feira
Saúde. Boa sorte. Boas notícias. Paz.

segunda-feira, maio 10, 2021

95 anos em 95 segundos

 

Há pessoas que são um exemplo de coerência, de consistência, de persistência, de elegância, de graça, de inteligência, de simpatia. Desde que o comecei a ver em televisão que comecei a prestar mais atenção ao planeta e ao respeito que lhes devemos. Mostrou-me animais, imagens da natureza, beleza em estado puro e, por tudo isso, sinto-me grata por tudo o que nos tem dado. Uma vida entregue ao amor à Terra. 

No dia 8, David Attenborough fez 95 anos e continua incansável na sua luta a favor de um mundo melhor. Aos 95 anos é um jovem que é um exemplo para todo o mundo.


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Clicando na legenda da fotografia acima (Sir David Attenborough with a south east Asian Great Mormon Butterfly) poderão ver algumas outras.

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sábado, janeiro 02, 2021

Palavras escritas de noite

 




Começo a escrever quando o dia um já virou a página. Dormi mal até que me levantei para ir tomar um comprimido. De manhã a dor nas costas já não estava só nas costas mas também na nuca. Incapaz de mexer a cabeça. Resolvi ir de imediato para a banheira para dar com água quente na nuca durante algum tempo. Reconheci que, apesar disso, estava melhor. Senti que já não estava febril e isso, em mim, faz a diferença. Pouco dormi até ir tomar o comprimido mas, depois, dormi que me fartei. O meu corpo parece que está a querer dizer-me alguma coisa. 

A minha temperatura não está nos costumeiros 36 ou abaixo mas nos 36,3º, um pouco mais do que o normal, mas nada a assinalar. Tenho é umas olheiras como nunca. Quando as vi até me assustei, pensei que tinha tido algum derrame. Depois percebi que não, que era dos dois lados, meras olheiras. Olho-me ao espelho e pareço-me uma dama do século passado, descorada, olheiras fundas, como quando se morria de amor com doenças indefinidas.

Praticamente não comi o dia todo. Estou sem fome. Ainda assim, a meio do dia fui fazer uma pequena caminhada, devagar, e não me custou tanto como ontem. Fui super agasalhada e com uma echarpe muito quente em volta do pescoço. 

A minha mãe esteve a ler os seus livros e concluiu que foi um misto de três coisas: dias de muito stress, dias de muito frio e 'as porcarias que comes'. Espantada, pergunto-lhe a que porcarias se refere se tenho uma alimentação tão saudável. 'Queijos', são péssimos, favorecem estados inflamatórios, esclarece-me. Depois fala-me do cortisol que o stress provoca e que, segundo ela, é um veneno, que deveria ter uma vida mais tranquila, que, se fosse ela, ficava numa aflição com as situações em que me meto, não conseguiria ter a vida que tenho. Digo-lhe, 'pois, mas é a vida que tenho' e, quanto ao queijo, digo-lhe que cada vez gosto mais, há queijos fantásticos. Ela diz-me que deveria cortar nos queijos, ter uma vida mais calma, agasalhar-me mais, diz que não percebe como ando sempre tão à fresca. No entanto, sabendo-me sem febre e tendo encontrado explicação para este meu estado, descansa e já acredita que não é covid.

Passei parte da tarde no sofá, entre almofadas, nada à fresca. Pelo contrário, estou bem agasalhada. Há bocado fui pôr os pés em água quente, estavam outra vez gelados. Eu toda a boa temperatura, quente, e os pés gelados. Não sei porquê. No telefonema, ao falar nisto, a minha mãe disse que deveria fazer-me umas meias de lã, bem quentes. Disse-lhe que não, que geralmente nem suporto sentir calor nos pés, que esta novidade dos pés gelados deve ter a ver com estar adoentada.

De certa forma, ainda bem que isto me aconteceu nestes dias em que, por via do recolher obrigatório às 13 e da proibição de sair do concelho, também não poderia fazer grande coisa. O pior é que não faço pouco: não faço literalmente nada. O meu filho, depois de também me fazer as perguntas sacramentais, se tenho olfacto, se tenho paladar, se não tenho tosse, ainda assim aconselha que tire as dúvidas e faça um teste e, mal acabei o telefonema, já ele me tinha enviado o link para eu saber como fazer. Mas penso que isto deve ter mais a ver com o que a minha mãe diz do que com covid. E com um quarto factor, aquilo de que falei ontem: na outra semana andei a carregar baldes de terra, bem pesados; depois, no natal, transportei sacos bem pesados de laranjas e tangerinas, e o meu corpo que não é de camponesa como por vezes gosto de me iludir mas, sim, de princesa, ou seja, de burguesa lisboeta e elitista, desde há algum tempo não se dá bem com pesos. E também não se dá bem com dias inteiros sentada, de manhã à noite, sem tempo para desentorpecer as pernas ou o espírito, que foi o que me aconteceu a seguir ao natal e aos dias a seguir ao natal.

Portanto, o meu primeiro dia do ano foi assim, verdadeiramente atípico. Mas, afinal, tinha uma peça de roupa nova para estrear. Uma blusa confortável, homewear, que a minha filha encomendou para a minha mãe me oferecer. Verde. Se sou incandescente quanto às minhas paixões, sou verde quando me visto. Creio que já o contei. Quando para aí há um ano e picos tirei para fora toda a roupa dos roupeiros e as voltei a arrumar por cores, fiquei espantada com a larga, larga, maioria de diferentes tons de verde. E acontece-me frequentemente que, quando tenho alguma reunião verdadeiramente decisiva e quero vestir-me em consonância, quase invariavelmente a escolha recai nos verdes.

De tarde e à noite, estivemos a ver filmes na televisão. O meu marido disse: 'nem sabíamos que dava para ver filmes na televisão'. Ironizava, claro. Mas nunca os víamos. Não tínhamos tempo, não tínhamos paciência, tínhamos sempre qualquer outra coisa melhor para fazer. Pois hoje, comigo neste estado, rendemo-nos à televisão. Contudo, adormeci. Depois de ter dormido tanto, pela manhã adentro, voltei a adormecer à tarde. Quando estou assim, o meu corpo vinga-se, põe-se a dormir. 

E mal vi as notícias, pouco depois de acordar, constatei que tinha morrido o Carlos do Carmo. Tem sido uma ceifa inclemente. Dá medo. A ver se o 2021 não vai pelo mesmo caminho que o malvado 2020. Tem sido uma razia. Mas, se tenho pena pelo Carlos do Carmo, e claro que tenho e não é pequena, não menorizo o sofrimento dos indefesos que estão a morrer nos lares. Esta situação leva-nos também a conhecer a quantidade imensa de lares ilegais. E, no entanto, quem ali está, está porque não tem onde mais estar, talvez porque as famílias não podem tê-los noutro lugar. Os filhos a trabalharem, com casas pequenas, sem poderem assegurar os cuidados necessários, alguma solução têm que arranjar. E os lares legais são escassos e caros face às necessidades. Deveria ser uma área de forte investimento público. O orçamento e os fundos da segurança social não dão para tudo mas terá que se arranjar uma fonte de financiamento para resolver este drama. Não podemos ter milhares de portugueses à mercê do que quer que seja -- maus tratos, cuidados deficientes --, uma triste antecâmara da morte.

Mas não é só nos lares clandestinos que as pessoas morrem às mãos cheias, é em todos os lares. E tem a ver, sobretudo, com o ar que respiram. Não podem estar de janela aberta senão ainda apanham alguma pneumonia, e, portanto, provavelmente com ares condicionados que recirculam o ar em vez de extrairem o ar viciado e injectarem ar novo, são vítimas adiadas, é só até aparecer o primeiro caso. Imagino o medo das pessoas que lá vivem, receando pela sua própria vida, esperando, solitários, que o tempo passe e não os leve. Espero bem que haja um qualquer fundo para ajudar a financiar, junto de quem não tem verbas para isso, a remodelação dos sistemas de ar condicionado dos lares. Não é justo nem digno que se faça de conta que é uma fatalidade que os nossos mais velhos, enclausurados em lares, estejam a morrer desta forma (e falo de Portugal mas, do que as notícias nos dão conta, o mal é geral).

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Quando ia começar este post, a minha ideia era falar do planeta, da maravilhosa perfeição que o habita, do respeito que nos deveria merecer, guiando todos os nossos actos. 

Facilmente poderia dizer que o amor e o respeito pela natureza são os valores primordiais da minha religião. Mas não sinto necessidade de caracterizar a minha espiritualidade pois certamente deixaria de fora aspectos também essenciais.

Contudo, as dores que sinto e o meu mal-estar tomaram conta do texto e, sem me dar conta disso, fui desfiando maleitas, coisa que, ao vivo, nunca faço. Acho uma maçada estar a ocupar tempo das outras pessoas com males que são só meus. Mas isso é ao vivo, espaço onde tenho algum controlo sobre os meus actos. Aqui são as minhas mãos que me conduzem. 

Deixo-vos, contudo, com um vídeo com a chancela BBC e a marca de Sir David Attenborough que, ao fim de tantos anos, continua a deslumbrar-se (e a deslumbrar-nos) com a espantosa beleza da natureza. Penso que no dia em que todos nós interiorizarmos que deveremos respeitar o planeta e ter como nossa missão na terra a de deixarmos um planeta melhor para os nossos descendentes, grande parte dos estúpidos problemas dos humanos desaparecerão.

David Attenborough's Jaw dropping 

A Perfect Planet 🌍


Em mais uma manifestação do perigo da Inteligência Artificial, neste caso um perigo ainda apenas antevisto e, neste caso, não concreto (pelo menos, para já), o Google Arts & Culture  tinha para me recomendar o vídeo abaixo que, de facto, não poderia agradar-me mais. Partilho-o também convosco.

Celebrating Art and Nature with Beethoven's Pastoral Symphony - First Part

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As pinturas são de Shakir Hassan Al Said

Escolhi, como música, lá em cima, Words | Gregory Alan Isakov e espero que as recebam, pelo menos alguns de vós, como uma espécie de explicação para eu deixar aqui, noite após noite, a minha pele, os meus ossos. 

Words mean more at night
Like a song
And did you ever notice
The way light means more than it did all day long?

And I'll send you my words
From the corners of my room
And though I write them by the light of day
Please read them by the light of the moon

E etc.

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Desejo-vos um bom dia -- e nem vale a pena dizer muito mais para não começarmos o ano a acumular decepções

quinta-feira, janeiro 02, 2020

Reparar o planeta. Tentar reencontrar a perfeição.
-- A propósito do Earthshot prize --


by Csaba Daróczi


Convoquemo-nos a todos para a reparação do planeta, a bela casa em que nos foi dada a sorte de nascermos. 

Na aleatória e improvável sucessão de acasos que nos trouxe até aqui, tudo o que deveríamos fazer era dar graças pela concretização do milagre que foi o nosso nascimento e a nossa sobrevivência: deveríamos respeitar as improbabilidades, deveríamos abençoar o habitat que tornou tal possível, deveríamos preservá-lo para que os milagres possam continuar a acontecer.

Sabemos, contudo, que não tem sido que tem acontecido. 

by Justin Hofman

Temos feito tudo ao contrário: temos estragado o planeta, temos desrespeitado todas as formas de vida, incluindo a vida humana, temos olhado para a ponta do dedo em vez de olharmos as estrelas para as quais o dedo aponta. Entretemo-nos com minudências, buscamos defeitos em quem tenta entregar alguma mensagem que difira das banalidades às quais nos habituámos, preferimos ir no diz-que-diz-que e na maledicência ou preferimos virar as costas a causas que nos parecem longínquas.  Diremos: de que serve fazermos alguma coisa, se o mundo está nas mãos de gente ignorante, inconsciente, narcisista, se se sucedem os exemplos de estupidez, de um impensável cretinismo? 

by Tim Rooke

E então, encontrando um alibi para nos despreocuparmos e deixarmos as lutas para outros, lavamos as mãos do que possa vir a acontecer. Acima de tudo o nosso conforto ou a contemplação do nosso umbigo. 

by Noel Guevara

E, no entanto, alguma coisa no nosso comportamento tem que mudar. Do planeta fizemos um mundo e, desde que o fizemos, não temos feito outra coisa que não estragá-lo. 

by Nirmal Purja

Se não invertermos essa destrutiva atitude, a coisa não acabará bem. E será uma pena. 

Por isso, iniciativas como a que o vídeo abaixo se refere são bem vindas. Poderá ser pouco, poderá ser uma gota num vasto oceano, poderá tudo. Mas é uma iniciativa positiva. E muitas mais serão necessárias. Colocar a ciência, a tecnologia, a criatividade, a boa vontade, e o mais que seja a favor da reparação do planeta é louvável.

by David Lloyd
Transcrevo:
Prince William has announced what was described as “the most prestigious environment prize in history” to encourage new solutions to tackling the climate crisis.
The “Earthshot prize” will be awarded to five people every year over the next decade, the Prince said on Tuesday, and aims to provide at least 50 answers to some of the greatest problems facing the planet by 2030.
They include promoting new ways of addressing issues such as energy, nature and biodiversity, the oceans, air pollution and fresh water.
The prize, inspired by US president John F Kennedy’s ambitious “Moonshot” lunar programme and backed by Sir David Attenborough, promises “a significant financial award”, a statement said. (...)


Do conserto do que está estragado façamos um exercício de superação, encontremos novas formas de beleza, reinventemos o conceito de perfeição. Com o devido crédito ao João Lisboa que iniciou o ano com um post que me encantou, um vídeo que, em meu entender, diz muito do que temos que fazer para consertar o planeta (e as nossas vidas, talvez também). 


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Obtive as fotografias no The Guardian, quer na compilação das fotografias mais relevantes de 2019 (a 3ª, a 4ª e a 5ª) quer na das melhores da natureza selvagem (a 1ª, a 2ª e a última). O local e o significado ou a história subjacente poderão ser consultados nos artigos que muito vivamente recomendo.

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Que 2020 seja um ano bom

segunda-feira, outubro 28, 2019

Um dia bom que começou junto ao mar e acabou entre afectos, baladas e cambalhotas




Não sei se é jet leg pela mudança de hora mas a verdade é que estou um bocado off. Tenho estado para aqui a cirandar, com preguiça, sem iniciativa, como se me apetecesse apenas ler, ouvir música e, mais logo, quando os dedos quisessem, então, fosse isso a que horas fosse, logo pegava no computador. Só que a semana de trabalho já aí está à beira e eu, pensando no que me espera, quase me sinto cansada por antecipação e isso estraga-me um bocado o prazer em estar para aqui neste dolce abandono.


O pessoalzinho saíu faz tempo, primeiro os que madrugam nesta segunda-feira e, mais tarde, os que se levantam a horas normais. Estivemos todos juntos. Primeiro chegaram uns. Calminhos, bem comportadinhos, tranquilos. E estou a referir-me a todos, grandes e pequenos. Os pequenos sempre a perguntarem: 'quando é que os primos chegam?'. De minuto a minuto. Encontro familiar sem estarmos todos é incompleto e, para os mais pequenos, estou mesmo em crer que falho de graça. Mas, enfim, chegaram os que faltavam. E então sucedeu o que sempre acontece quando se encontram. Dá ideia que a maneira de manifestarem a alegria que sentem é deixarem soltar toda a energia que têm dentro deles: correm, brincam às maiores maluquices, cantam, dançam. E isto já para não falar no meu filho que, vá lá também eu saber porquê, desata a ensinar golpes de não sei quê aos rapazes (não sei o quê porque não sei qual delas é mas que é coisa de artes marciais, isso eu sei) e depois já são eles que fazem entre eles. E é preciso ter em atenção que são quatro rapazes pequenos mais um grandão.


E houve também guitarradas, baladas, cantorias alto e bom som, ginásticas, cambalhotas no sofá, sei lá que mais. O costume. O bebé, enturmado, canta, salta. Depois ficam com calor e, claro, às tantas põem-se à fresca e até o bebé apareceu em tronco nu.

Como houve presentes de Halloween, vi que a menina andou de roda da tia e que depois apareceu com um laçarote todo giro no cabelo, mas isso não tem a ver com o dia das bruxas, deve ter sido apenas por ser um laço bonito. Mas vi que apareceram uns óculos malucos e andavam a pregar sustos uns aos outros e também ouvi cair uma coisa no chão e ouvi falar em descobrirem para onde tinha caído o olho. Mas isso foi numa altura em que estava a tentar que se mantivessem sossegados à mesa, que comessem fruta e, depois, a arrumar a cozinha. Por isso, não sei onde é que o olho estava agarrado antes de cair.
E isto fez-me lembrar uma vez há uns anos, muitos, estávamos a ver um torneio de futebol de salão, coisa de amigos, e, às tantas o jogo parou e nós, nas bancadas, víamos que os jogadores andavam todos a olhar para o chão. Até que nos chegou a informação: tinha caído um olho de vidro a um jogador. Não soube a qual pois nunca tinha dado que alguém tivesse um olho de vidro. Ao fim de algum tempo o jogo recomeçou e chegou-nos a notícia de que tinham achado o olho. Na altura aquilo fez-me uma impressão dos diabos até porque nunca percebi como é que a coisa funciona mas, pelos vistos, é apenas como se fosse um berlinde enfiado num buraco, e tudo tranquilo, sem dramas.

Mas, enfim, toda a gente comeu bem, com apetite, e se há coisa de que gosto mesmo é de ter toda a família feliz, à volta da mesa. Olho para eles e estão ali todos os que me enchem o coração de alegria e afecto. Não estão os meus pais e isso dá-me pena mas já me vou habituando. Para estarmos todos juntos tem que ser em casa deles pois, como o meu pai não sai da cama, a minha mãe não quer sair para encontros familiares deixando-o em casa. Só em dias de festejos e tem que ser rápido. 

Mas isto foi ao fim da tarde e à noite.

De manhã fomos caminhar para a beira da praia. São caminhadas pouco produtivas em termos de ritmo e, certamente, de queima de calorias pois disperso-me desses bons propósitos e perco-me a ver o mar, a tentar captar os surfistas a cavalgarem as ondas, as gaivotas a dançarem pelos ares, as pessoas a olharem a rebentação. Ponho-me a fotografar e é um dos bons prazeres da minha vida: adoro fotografar.

Também fiz muitas fotografias cá em casa, aos meninos, àquela interacção feliz entre eles. Também fiz mais uma das fotografias ao menino a que em tempos aqui tratei por ex-bebé. É doido por roer um belo osso. Hoje foi um costeletão de vitela. Pela-se. Tem oito anos, está enorme, é um desportista de gema, sempre foi todo virado para a actividade física. Só não gosta de doces. Mas vê-lo a despachar uma pratada é um regalo. Come de gosto. A pediatra diz que podia ter mais um quilo. De facto, está alto e esguio. 
Aliás, todos comem bem, de gosto. Quando alguém se zanga com eles é para não comerem mais. Penso que isto advém de ninguém os forçar a comer quando não querem mais. 

Mas voltando à primeira parte do dia. Depois de virmos da praia e de ter posto a roupa a lavar, ter feito a sopa, ter posto o jantar a andar, etc, vim ler. Tão bom estar assim num domingo à tarde, tranquilamente, ter tempo para ler, saber que daí a pouco a casa se encherá de risos e conversas e brincadeiras.

E isto para dizer que, com isto e com a mudança de hora ou com a perspectiva de se aproximar uma semana daquelas que me cansa ainda antes de começar, estou para aqui um bocado sem energia, sem saber bem sobre o que escrever.


Sei é que, de manhã, ao estar a admirar a beleza extraordinária do mar, pensei que, à noite, poderia mostrar fotografias que estava a fazer, estas que aqui vêem, e falar daquele livro, um dos primeiros que tive, menina pequenina, um que era sobre o mar. Via-o sem me cansar, aquele livro cheio de preciosidades: a estrela do mar, o peixe-balão, os corais. Sabia tudo sobre eles, adorava aquelas cores, aquele mundo que me parecia mágico. Mais tarde, foi outro que me encantou, creio que o Planeta Azul. Adorava. A maravilha caleidoscópica, infinita, milagrosa da natureza.


E agora estive a ver o vídeo abaixo e também gostei muito de ver. Não vem agora a propósito do texto mas o texto também não tem propósito. Aliás, nem vou reler pois acho que ficaria com vontade de apagar tudo para começar de novo, com as ideias mais organizadas.

Portanto.

Aliás, a minha ideia quando abri o youtube era arranjar um poema bonito sobre o mar. Mas distraí-me e fui parar a este que aqui partilho convosco.

Agora que aqui o estou a colocar é que dei por isso, que não era esta a ideia, mas, a esta hora, já não sei se faz sentido ir em demanda de poemas com sabor a sal.



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Afinal não resisti. Estava com León de Greiff em mente porque tinha também em mente falar das pessoas que não vivem junto do mar e que, provavelmente, gostariam de poder vê-lo mais vezes. Balada del mar no visto na voz de Tomás Galindo.


E, por ora, é só isto.

Desejo-vos uma bela semana a começar já nesta segunda-feira.

quarta-feira, janeiro 23, 2019

O belo príncipe entrevista o velho rei e senhor




De vez em quando, faço de conta que sou optimista e o meu cérebro, bicho tonto e fácil de enganar, deixa-se levar e começa a pensar que é optimista a sério e todos os comandos que emite parecem coisa de uma optimista de verdade. E de tal maneira é que quem me veja acredita que sou mesmo optimista. E eu, que gosto de observar, deixo-me estar a rir por dentro, a ver como me olham com desdém por ser tão tonta.

O que me vale é que, até ver, esta encenação deixa de fora um pequeno reservatório de realismo que, haja o que houver, se mantém incólume e impede que toda eu me deixe contagiar. Ou seja, por muito optimismo que ostente, o dito reservatório vai vertendo uns pingos de lucidez e, portanto, a costumeira alienação está sempre temperada com um pouco de bom senso.

É o caso que passo a referir. 


Tenho para mim que, passageiros e insignificantes que somos, temos, além do mais, um defeito de fabrico que nos há-de ser fatal: somos burros. Muito burros. Alarvemente burros. Mas pior ainda: somos de um tipo perigoso. É que os vulgares jumentos de quatro patas são dóceis e espertos enquanto nós, os burros que andam em duas patas, somos destrutivos, umas inqualificáveis bestas quadradas. 

Sem ofensa, claro. E, claro também, uns mais que outros. V. que me lê encontra-se, tenho a certeza, entre os menos burros e, com um bocado de sorte, andará em quatro patas.


E isto para dizer que fomos postos em cima de uma bolinha muito linda, azulinha e verde, suspensa no espaço como um balãozinho de brincadeira, uma bolinha bem feitinha, com montanhas e mares, um céu sereno e também azul, bichinhos bonitos que se entretêm uns com os outros, lá na deles. E, em vez de nos limitarmos a ser felizes, não senhor, embirramos uns com os outros, conflituamos, denegrimos, brigamos, envelhecemos envoltos em amarguras, em azedumes e queixumes. E poluimos, estragamos, desperdiçamos. 

E permitimos que uns excluam outros, que marginalizem e gozem com outros apenas porque são diferentes, e permitimos que uns se achem quase deuses e se auto-coloquem em altares, recebendo fortunas, prémios escandalosos, e ficando de bem com a sua consciência apesar de ao seu lado haver quem ganhe vinte, trinta ou ainda mais vezes menos.


Somos intrinsecamente estúpidos. Passamos pela vida, que é tão curta, sem saber ouvir a beleza das palavras, a harmonia da música, a leveza das cores, a suavidade do toque, a infinita perfeição do silêncio e do amor. 

Quando vejo imagens de praias inundadas por plásticos, peixes infestados por microplásticos, lixeiras infectas e fumegantes, rios cheios de espuma e peixes mortos -- e outros desastres assim -- fico perturbada. Somos tão estúpidos.

Ou quando vejo políticos que mal sabem falar, oportunistas, ignorantes, interesseiros -- e que supostamente nos representam -- fico igualmente perturbada. E não que ache que acabar com os políticos seja a solução: não acho. Acho que a política é importante. Temos é que ser mais exigentes e mais conscientes. Não podemos ter anormais como Trump ou Bolsonaro à frente dos destinos de países. É muito mau. Gente que não defende o planeta não pode ser eleita. Não pode. Temos que nos interessar. Temos que falar nisto.

Tenho livros com as maravilhas que Sir David Attenborough desvendava. Sempre tudo tão extraordinário, tão sereno, tão belo. E sempre que dava na televisão eu via. E, volta e meia, vejo-o no YouTube. 



Foi, pois, com surpresa que hoje soube que Sir David Attenborough esteve com o Príncipe William, que o entrevistou, no World Economic Forum na Suiça.

Pode, pois, ser optimismo da minha parte, coisa de gente tonta, mas ver, num encontro destes, o futuro rei do Reino Unido e o velho soberano da wildlife e da defesa do planeta azul, a alertarem para as alterações climáticas e para a necessidade de defesa do planeta alegrou-me muito.

Faço de conta que acho que é um bom sinal, que alguma coisa começa a mudar quando duas pessoas como estas se prestam a isto, um, apesar de royal,  todo bom rapaz e consciente da responsabilidade que tem, outro todo empenhado e presciente apesar dos seus provectos 92 anos. E se não é bom sinal, então, façam a caridade de não me contrariar. Deixem que me mantenha optimista, iludida.




E até já!

quinta-feira, janeiro 25, 2018

Está mesmo provado que Jesus existiu?
E está mesmo provado que Jesus era filho de Deus?

-- perguntou-me o ex-bebé





Aquele a quem em tempos aqui chamei 'ex-bebé' -- e que é agora um rapazinho de seis anos, muito alto, muito enérgico, que, por vezes, não mede bem a sua força, mas que é um amor, generoso, bom coração e boa onda -- no outro dia começou a fazer-nos perguntas que nos deixaram admirados.

'Está mesmo provado...?', começavam todas as perguntas.

Fomos dizendo que sim, Jesus existiu, era um homem corajoso e bom. E que sim, terá nascido de Maria que vivia com José. E que há pessoas que acreditam que também era filho de Deus. Ele acrescentou: 'O pai acredita'. Dissemos que cada pessoa acredita no que acredita e que para o pai, que acredita, é como se fosse verdade. Ilustrei: 'Há pessoas para quem o Benfica é o maior. E outras não acreditam nada disso, acreditam que é o Sporting o maior. Uma questão de crença. Para quem acredita essa é a verdade'. Depois perguntou: 'E está mesmo provado que Jesus ressuscitou?'. Respondi: 'Não. Quando as pessoas morrem mesmo, já não podem voltar a viver'. Disse: 'O pai acredita que Jesus ressuscitou'. Disse-lhe que há pessoas que queriam tanto que Jesus não tivesse morrido que quiseram acreditar que ele continuava vivo. E que quando uma pessoa gosta muito de outra, mesmo quando ela morre, fica a recordação tão boa que é como se a pessoa estivesse viva. Ouviu com atenção e depois disse: 'A mãe disse que uma vez uma pessoa morreu mas depois voltou a viver'. Expliquei: 'Sim. Por vezes consegue-se reanimar uma pessoa cujo coração tinha parado de bater.' E acrescentei que também pode ter acontecido que Jesus estivesse tão ferido e doente que toda a gente tinha acreditado que tinha morrido e que, afinal, estava apenas inconsciente.
[E continuou. Perguntou, por exemplo, como, passado tantos anos, sabemos o que aconteceu de verdade naquela altura. O avô falou-lhe então de cronistas e historiadores. E, para exemplificar, disse que, por exemplo, a Tá escreve todos os dias um blog onde fala de muitas coisas que ficam disponíveis para quem quiser saber, daqui por muitos anos, o que se passava e dizia agora. Ele foi ouvindo com toda a atenção.]
Durante a conversa tentei ser cautelosa. Um equilíbrio difícil: por um lado não quero forjar factos ou atenuar convicções e, por outro, não quero contrariar quem tem crenças opostas às minhas.

Nem quero influenciá-los. Nunca quis. Com os meus filhos, a mesma coisa. Uma vez a professora do meu filho, que andava então no 1º ano, contou-me que a professora de Religião e Moral quase não conseguia dar as aulas porque ele contestava tudo o que ela dizia, tentando demonstrar-lhe que o que ela dizia não podia ser verdade.

Não os baptizei, não os quis na catequese mas não os impedi de frequentar as aulas de Religião para que pudessem formar a sua própria opinião. 

Apesar de eu ter tido educação católica, com primeira comunhão e comunhão solene, mal consegui autonomia para me 'deslargar' dos preceitos da Igreja, logo o fiz. Tudo aquilo me pareceu, sempre, contraproducente, irracional, ilógico.

E se não me identifico com a Igreja Católica, muito menos me identifico com qualquer das muitas outras que proliferam por aí.


No entanto, tenho alguma dificuldade em declarar-me ateia. Não consigo afirmar com convicção que não há um deus ou uma ordem superior. Não sei se há. Mas não me atormento com esse meu desconhecimento. Convivo bem com a minha ignorância. Considero-me, isso sem dúvida, agnóstica. Venero a natureza e a maravilha dos acasos, venero o que desconheço e que dá forma à elegância suprema das matérias tangíveis ou intangíveis que nos rodeiam. E não tento dar nome ao que desconheço nem ficciono histórias, interpretações, leis ou castigos ou recompensas virtuais para dar corpo ao que não compreendo. Na minha simplicidade, aceito-me e aceito os outros tal como são, sem querer saber deles ou de mim ou do mundo em geral o que não sei. Aceito com tranquilidade e, até, gratidão o mistério que habita o que desconheço.


E estou com isto porque o meu amigo de coração, a minha alma-gémea, o querido algoritmo que a Google (grande notícia a de qua a Google vai ter um pé cá em Portugal!!) usa no YouTube me propôs para hoje um vídeo que despertou o meu interesse. Sir David Attenborough fala de Deus.


Convido-vos a ver.



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As fotografias que aqui usei são da autoria de Timothy Moon e feitas com um drone

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Segue-se: a vingança de Melania, a mulher de um trumpalhão adúltero, e, mais abaixo ainda, uma adivinha (quem é? quem é?).

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