Não imagino sequer o que se sente quando se deixa o corpo ir e se vai como se em voo, quando se atira o corpo para as alturas, quando se deixa cair o corpo e se rodopia sobre ele. Não imagino.
Quando era miúda, aprendi a andar em patins sobre rodas e gostava de andar, gostava de fazer as curvas, gostava de ganhar velocidade. Mas o gosto era temperado pelo receio de perder o controlo. Sempre tive a necessidade de controlar o corpo. Nunca me embriaguei, nunca me droguei, nunca fui hipnotizada. Gosto de saber que posso fazer o que quero. Fazer coisas impensadas, involuntárias, isso nem pensar.
Ainda não há muito uma amiga recordou quando ia a minha casa e andávamos de patins lá na rua. Ríamo-nos que nem umas perdidas com as quedas que ela e outra davam, mal conseguiam levantar-se de tanto que nos ríamos.
Mas não é a mesma coisa, claro que não, nem pouco mais ou menos. Não tem sequer comparação. Aqui, no que abaixo se vê, há ginástica, há anos de treino exaustivo, há uma experiência que, à medida que foi sendo adquirido, trouxe confiança. E há um domínio absoluto pelo corpo -- embora pareça que o corpo tem vontade própria. E há perfeição.
Mas, para além da técnica e da arte, há a alegria. A alegria muda tudo. Uma pessoa alegre traz alegria à vida dos outros. A perfeição parece espontânea, quase parece uma brincadeira. Uma folia.
Alysa Liu, ouro. Consideraram que é a maior, a melhor. E eu acrescento: a mais alegre.
20 anos. 1,58m. Um condensado de músculos, de força, de equilíbrio, de coragem, de leveza, de alegria.
A INCRÍVEL interpretação de Alysa Liu garante o ouro para os EUA! 🥇 | Jogos Olímpicos de Inverno de 2026
Quando eu era mais nova tinha para mim que quem tinha mais de sessenta estava a caminho de ser velho, terceira idade pura e dura.
Ainda me lembro de um amigo, uns anos mais velho que eu, ao fazer 60, me dizer 'sou daqueles de quem, se tiverem o azar de tropeçar e cair na rua, vão dizer que foi um idoso, um sexagenário caído no passeio'. E era.
Ainda me lembro bem da minha avó paterna que, antes dos 60, já me parecia uma velhinha. Ao contrário da minha avó materna que pintava o cabelo, se vestia de forma mais arejada, passava temporadas em Lisboa ou na Figueira da Foz ou em Faro em casa de primas ou primas de primas e tinha um aspecto mais 'conservado', a minha avó paterna, com o seu cabelo grisalho, o vestuário que seguia os seus critérios de adequação' à idade e os seus reumatismos que condicionavam a sua agilidade, sempre pareceu mais velha do que era (e creio que ela própria se sentia velha).
Agora que sou eu que já cá estou, vejo as coisas de outra maneira. Não sei bem como é que as vejo mas sei que os 60 vêm com uma boa dose de ingredientes diversos, grande parte deles bastante bons (tolerância, ignorância [sim, quanto mais velhos, felizmente mais ignorantes], etc). Claro que os há menos bons mas a gente desvaloriza.
Se os mais jovens assistissem às brincadeiras, às irreverências e ao gosto pela aventura dos meus amigos sexagenários ficariam muito admirados.
O algoritmo do Youtube, que me topa à légua, hoje tinha este vídeo que aqui partilho para me mostrar. E, na realidade, gostei de os ouvir. Conversa leve, solta, alegre, descomplexada. E o Bial é uma graça, um belo pedaço de homem.
Astrid Fontenelle fala como o ENVELHECIMENTO não abalou sua FORMA DE VIVER! | Conversa Com Bial
Nunca fui de sonhos irrealizáveis ou de desejos transcendentes. Balizo as minhas aspirações ao quadro daquilo que é alcançável.
Nem alimento grandes expectativas sobre as coisas.
Quando namorava nunca divaguei a imaginar o dia do casamento. Pelo contrário, sempre o quis simples. Nunca imaginei grandes coisas a nível do que seria o meu viver a dois. O que vier, se for bom, é bom. Não tem que ser óptimo. Dificilmente fico descontente ou defraudada porque nunca me ponho a fazer planos sobre o que poderia ser.
Que me lembre nunca tive desgostos de amor nem nunca me senti traída. Se fui, não dei por isso e também nunca me interessei por aprofundar o tema.
No trabalho nunca me pus a imaginar vir a ocupar este ou aquele cargo. Ao contrário de vários colegas que viviam em campanha e que passavam por períodos de fossa por acharem que não reconheciam o seu valor. Comigo isso nunca aconteceu. Nunca desejei ser o que não era. E quando vinham dar-me parabéns por ir fazer coisas novas nunca me senti orgulhosa ou vaidosa pois para mim eram, isso sim, novos desafios e trabalhos redobrados.
Nas férias, nunca ambicionei ir a destinos longínquos ou onde quer que seja que obrigue a grandes planos, a grandes despesas. Jamais me passaria pela cabeça pedir dinheiro emprestado e ficar a pagar juros e andar, durante o ano, a fazer tangentes para ir duas semanas para o cu de Judas. Por isso, nunca me senti com pena de não conhecer ou não ter ido visitar isto ou aquilo. Onde der para ir, vou.
A nível do que agora pretendo fazer, escrever e publicar livros, não me ponho a sonhar, a pensar que vou publicar trinta e que vou vender um milhão de livros nem que vou ser traduzida em quarenta países. Se publicar dois ou três e vender uns quantos já está bem. E se tudo correr bem, melhor. Mas porque sou focada e decidida, humildemente darei os passos que tiver que dar. E dá-los-ei por mim, batendo a uma porta, batendo a outra, preparada para ouvir muitos nãos.
De resto curto e agradeço as pequenas alegrias. Se calhar, por isso, me sinto geralmente feliz. É que não preciso de muito para me sentir bem.
Por exemplo, para mim isto é bom:
Estar a ler e a sentir a aragem do ventinho suave e ameno
Estar na sala a ver, lá fora, um esquilo a brincar
Nadar, nadar, estar dentro de água
Comer queijo, por exemplo o de cabra, fresco ou curado, ao mesmo tempo que como fruta
Escrever
Cozinhar, apurar o tempero, estar na rua e sentir o cheirinho que sai pelas chaminés
Comer fruta de manhã e kefir com muesli e, depois, beber um café perfumado, espumoso e quente
Apanhar orégãos
Varrer
Caminhar e conversar e caminhar
Abraçar o cão
Escolher livros, arrumar livros
Olhar uma bela pintura ou uma bela escultura ou uma bela dança ou ouvir uma bela música
Passear de carro, se possível com a janela aberta
Dormir quando tenho sono e acordar naturalmente
e
Mil outras coisas mais
e
obviamente
Estar com os meus
Não sei se posso ser exemplo para alguém. Falo de mim pois é a realidade que tenho mais à mão. E falo do meu caso pois, sendo como sou, não sou dada a angústias. Sinto-me geralmente muito agradecida pelo que tenho e, como esse agradecimento, vem uma tranquilidade que é boa companhia.
Cada um é como é, e muitas vezes isso nasce com a pessoa. Mas, no que podemos controlar, talvez não almejar uma felicidade transcendente ajude a ser feliz.
Neste episódio, conheça Yinka Ilori, um artista visionário que combina a sua herança anglo-nigeriana com designs vibrantes e ousados que celebram a unidade e a acessibilidade. Unindo forças com a música Kelsey Lu, conhecida pelos seus sons eletroclássicos etéreos, os nossos convidados compartilham como a alegria alimenta os seus empreendimentos artísticos e exploram a influência da natureza em suas práticas criativas. Deixe esta discussão transportá-lo para um mundo de cor, som e imaginação desenfreada.
À meia noite fui para a rua bater tampas e fazer barulho mas não saí do jardim. De uma das casas do lado saíram dezenas de pessoas e viu-se que a festa foi rija. De outras casas também saíram pessoas para o jardim, outras para a rua. Atiraram-se foguetes. Hoje, quando fizemos uma rápida e breve caminhada, vimos as ruas com muitos confetis e serpentinas coloridas.
A tradição cá em casa não é tanto a festa da virada do ano mas, sim, no dia de Ano Novo.
Antes havia também festa em grupo e era à vez, cada ano em casa de cada um. Mas isso foi noutro tempo. Quando um casal se separou e ele voltou a ter uma outra companheira, vacilámos. Um excluía o outro e isso era uma decisão difícil. Quebrou-se esse hábito. Desde essa altura, começámos a entrar o ano apenas os dois, geralmente na rua.
Por acaso, prefiro assim. Como gosto de ter cá em casa a família para o primeiro almoço do ano, era sempre apertado conseguir dar conta do recado.
Neste primeiro de Janeiro de 2022, como esteve bom tempo, almoçámos no terraço.
Depois de almoço, os meninos e dois adultos foram jogar a um jogo na playstation que os deixou ao rubro. A seguir estivemos de novo e jardim e até fizemos uma foto de família, pequena fera incluída. Milagrosamente ficaram todos bem excepto eu que, pouco habituada a fazer parte da imagem, fiquei a olhar para outro lado. Tenho que imprimir e emoldurar. Gosto imenso de fotografias com todos.
Como estava um solzinho bom, a seguir fomos para a praia. Imensa gente. Gosto nuito de ver as pessoas a desfrutarem a natureza. Antes ficava-se fechado em casa. Agora os parques e as praias estão cheios de gente. Em meu entender isso contribui, e de que maneira, para uma outra abertura de espírito e para uma melhor disposição.
Vimos pessoas a tomar banho. Contudo, a minha filha descalçou-se e foi molhar os pés e queixou-se de que estava fria.
Claro que os homens da família fizeram o seu primeiro jogo de futebol. E até a menininha quis participar. Ficou à baliza e, enquanto os sarrafeiros faziam faltas e rasteiras uns aos outros, ela dançava. No fim, os rapazes transpiravam que só visto.
Saímos de lá já ao lusco fusco, já passava um pouco das seis da tarde. Mas os dias já estão maiores e só isso é suficiente para me sentir ainda mais animada.
Quando chegámos, estivemos a arrumar a casa e eu vim ver as fotos que fiz durante o dia, entre as quais estas que aqui se incluem. Enviei algumas aos meus filhos. Quando enviei uma mensagem no grupo de família a informar que tinha enviado as fotos por mail, a minha menininha linda respondeu que não tinha recebido. Também já tem a sua conta de mail. Encaminhei as fotos também para ela, então.
Para mim, isto é um dia feliz. Não preciso de mais. Aliás, preciso, sim. Preferia que, à hora da refeição, estivéssemos todos em volta da mesma mesa, mesmo que fosse uma mesa acrescentada como era ultimamente que a malta é muita e os mais pequenos estão cada vez mais crescidos. Mas, assim, em mesas separadas por agregado é um bocado chato. Mas as mesas estavam próximas e o tempo estava tão bom que até esteve bastante agradável. E toda a gente bem disposta, que é o que é preciso. Estar com eles e vê-los bem enche-me de felicidade.
Quanto à refeição, desta vez fui eu que cozinhei tudo.
Vou contar como fiz.
Camarões grandes cozidos
Não tem que saber. Numa panela com bastante água, coloca-se sal até ficar a saber a água do mar. Junto cascas de cebola (devidamente lavadas). Quando ferve em cachão, junto os camarões ainda congelados. Quando volta a ferver em cachão, conto uns três ou quatro minutos. A seguir desligo, escorro a água salgada e passo-os rapidamente por água fria. A seguir disponho-os numa travessa.
Molhinhos
Trata-se de dobrada enrolada em pequenos rolinhos, atados com fio. Compro-os já preparados desta forma.
Lavo-os e coloco-os de molho em água com bastante vinagre de vinho. Ficaram assim desde a véspera à noite, dentro do frigorífico. Faço isto para evitar que subsista com algum sabor estranho. De manhã, escorri a água com vinagre, lavei-os. Num tachinho coloquei água, um pouco de sal, uma cebola, uma folha de louro, um pouco de salsa. Os molhinhos ficam totalmente submersos. Deixei cozer durante umas duas horas e meia. Depois de ver que os molhinhos estavam bem macios, desliguei. Retirei-os, escorri-os. Tirei o fio de cada um, cortei às tirinhas, miguei dois dentes de alho grandes, temperei com azeite e com vinagre balsâmico. Envolvi bem. Quando servi ainda estava morninho. Tanto se pode comer quente, morno ou frio. É sempre bom.
Outras entradas
Servimos também tostinhas barradas com queijo e com salmão fumado. Tinha também paté de perdiz. E carnes frias. E salada de tomatinhos cherry com mozarella em bolinhas pequenas que temperei com azeite e orégãos.
Pratos principais
Para prato principal, fiz dois. A minha ideia era fazer bochechas de porco mas, nos dois talhos a que fui, estavam esgotadas. Por isso comprei cabrito e, como algumas pessoas não apreciam grandemente e porque já só havia uma mão e três cachaços, trouxe também pernil, três rodelas largas de pernil.
Cabrito
Lá no talho pedi para cortar aos bocados. Em casa, comecei por tirar parte da gordura. Depois lavei. Num tacho coloquei duas grandes cebolas cortadas aos bocados, duas folhas de louro, uns quantos dentes de alho, salsa. Depois coloquei os bocados de cabrito. Temperei com um pouco sal. A seguir quase cobri com um bom vinho tinto, depois azeite, alecrim, depois voltei a cobrir com mais duas cebolas cortadas. Tapei. E coloquei no frigorífico, onde pernoitou enfiado neste banho.
De manhã, coloquei o tacho ao lume. Depois de levantar fervura, baixei. Ficou a cozinhar durante umas duas horas. Depois do cabrito cozinhado, retirei os pedaços para um tabuleiro.
Arroz para acompanhar o cabrito
Do tacho onde tinha cozinhado o cabrito, retirei a parte mais gorda do caldo. Frigi bocadinhos de bacon e juntei o equivalente à quarta parte do líquido necessário ao arroz (basmati), juntamente com a cebola meio desfeita que lá estava. Deixei cozinhar o bacon e reduzir um pouco o caldo. Depois juntei água. O líquido total deve ser o dobro da quantidade de arroz. Quando ferveu, juntei o arroz. Juntei um pouco de sal. Antes de estar completamente cozinhado, desliguei e passei para um outro tabuleiro.
Pernil
Como o pernil vem com a pele do porco e receio sempre que tenha algum cheiro ou sabor indevido, apliquei-lhe o mesmo tratamento que aos molhinhos. Água com vinagre de vinho e o pernil lá mergulhado, num tacho, durante toda a noite.
De manhã, num tacho coloquei duas cebolas grandes aos bocados, alhos, louro, bastante salsa, dois tomates grandes maduros, duas maçãs grandes (com casca) cortadas aos bocados (sem as sementes). Depois as grandes rodelas de pernil devidamente lavadas. Depois sal. A seguir cobri-os generosamente com massa de pimentão (que comprei, num boiãozinho), depois também um pouco de vinho e azeite e, de novo, mais cebola. De novo, depois de ferver, baixei o lume e ficou, tal como o restante em lume brando.
Depois de bem macio, desliguei e passei os bocados de carne para um tabuleiro, encostados a um dos lados.
Retirei a parte sólida do caldo (cebola, tomate, maçã) e moí bem moído. Coloquei este molho espesso e macio numa tacinha, para acompanhar a carne.
Batatas e abóbora para acompanhar o pernil
Descasquei batata normal, batata doce cor-de-laranja e abóbora que, depois de cortadas aos bocados, cozi no caldo sobejante no tacho onde tinha cozinhado o pernil. Depois de quase pronto, escorri e juntei na parte vazia do tabuleiro. Polvilhei com orégãos e cobri a parte das batatas e da abóbora com fatias muito finas de bacon.
Quando os comensais estavam a chegar, coloquei os três tabuleiros no forno com temperatura intermédia e ali ficou tudo a apurar, primeiro na função grill e depois no aquecimento geral. Ao todo, deve ter ficado para aí vinte minutos, mais coisa menos coisa. Depois do forno desligado, ficou tudo lá dentro para não arrefecer.
Sobremesas
Já se sabe que não me dá para doces. Tinha comprado tronco de ano novo e um bolo rei das beiras. A minha filha trouxe tarte de natas. E havia bombons e fruta. Mas acho que ninguém tocou na fruta. Habitualmente, costumo dizer aos meninos que não há sobremesa se não comerem fruta. Inverto a ordem dos factores para os conseguir pôr a comer fruta. Mas em dias de festa, não me prendo a deveres, só a prazeres.
Claro que é disto que gosto: de cozinhar, do stress de ter tanto que fazer e de ver o tempo a passar, o pessoal quase a chegar e eu ainda a ter coisas para acabar, a querer ainda tomar banho, vestir-me (predominantemente de branco, claro), pentear-me, pôr uns brinquinhos (brancos, claro), calçar-me [uns ténis novos (brancos, claro)]. E depois do stress e de embirrar com o meu marido -- que não põe a toalha que eu quero, que não coloca pão em quantidade suficiente, etc, -- tudo se compõe, tudo fica pronto a tempo e horas.
E, quando chegaram, estava fresca e feliz da vida, e o tempo estava bom e ainda ficámos um bocado no jardim, a conversar, a apanhar sol. Para mim um punch com sumo de tangerina, sumo de lima e rum. Boníssimo. E a minha menina linda preparou um bongo tónico com gelo para ela, para os irmãos e para os primos e ali estiveram, importantes, crescidos, também a beberem o seu copo.
E começo o ano com mais um vídeo da Green Renaissance
Joy in life
Joy is what makes life beautiful. It's what gets us through challenges and allows light in to illuminate the shadows. Joy heals our wounds and fills our souls with goodness.
By reminding yourself of the things you have to be happy about, by creating more time to do the things you love and by spending time with the people you care about, you can create a life that is more joyful and fulfilling. And you will see and experience life through different eyes.
In this new year, why not resolve to find more joy in your everyday life!
Dia que pareceu suspenso no ar. Foi daqueles dias que é e não é. Precisava de fazer uma compra mas não sabia se podia circular, se o comércio estava aberto. Desatenta, certamente. Uns lugares saíram de muito elevado, não sabia bem quais. Fomos à hora de almoço, meia compra feita. De qualquer modo, dia de trabalho.
Mas frio, muita humidade, escuro a meio da tarde. Esta terça-feira, dia feriado. Ainda há menos de um ano, dia de folga era dia de passeio ou de encontro. Agora é dia de recolhimento e ainda não aprendemos a viver assim. Sobra tempo mas não sabemos bem o que fazer com ele porque não podemos usá-lo como quereríamos.
De tarde, lareira acesa. A trabalhar na mesa redonda junto ao calor. Acabou a faena já estava muito escuro e frio para ir passear no jardim. Fui buscar um livro e estive a ler ali mesmo. Uma estreia. Gosto de ler reclinada, não sentada numa cadeira. Mas, à lareira, estava-se bem. Podia ter ido para o lado de lá, sentar-me num cadeirão. Mas achei que não valia a pena. Fiz chá de erva-príncipe e gengibre, fui lendo e bebendo. Uma novidade, isto. Bem me soube.
Depois fui ver as notícias. Mas ando enjoada, niquenta: nada me interessa por aí além. Aquilo que sei que deveria dizer é de tal forma incómodo (sobretudo para mim própria) que ando a evitá-lo há meses. Tem a ver com a morte de Ihor Homenyuk no aeroporto de Lisboa. Não gosto de falar do que não sei. Mas fosse o que fosse que tivesse provocado tal sanha por parte dos inspectores e fosse o que fosse que os levou a todos a encobrir o caso, pelo menos com os contornos que parece ter tido, uma coisa parece inegável: é indesculpável que agentes da autoridade agridam alguém até à morte, deixando-o a agonizar, sem tratamento ou suporte de vida. Acho tudo o que se vai conhecendo de uma tal barbaridade que não compreendo como não houve uma investigação célere e exaustiva para que já houvesse acusados e para que já tivessem sido retiradas conclusões políticas. Seria bom que fosse público o que ali se passou naquele dia trágico para um homem que, ao que parece, vinha em busca de uma vida melhor; e seria bom que também se conhecesse quais os procedimentos habituais para averiguações do SEF no aeroporto e quais os mecanismos de controlo para que nunca mais haja lugar a situações de violência e encobrimento como as que envolveram o espancamento até à morte de Ihor. Também me parece que seria bom que tivéssemos todos conhecimento dos exames psicológicos a que os agentes de autoridade são geralmente sujeitos bem como qual o controlo de despiste de consumo de álcool ou drogas que lhes é feito.
A bem da transparência e da confiança da população nas autoridades, tudo isto deveria ser claramente exposto.
Mas, enfim, tema de tal gravidade não pode ser falado en passant e, por isso, prefiro nada dizer.
Continuo, então, onde estava: no meu livro. Um livrinho pequenino. Manuscritos de Felipa. No outro dia, quando o folheei estava com aquela alta expectativa que sempre sinto em relação a Adélia Prado e, não tendo sido atingida por um raio de luz ao abri-lo, logo me assustei perante a perspectiva de que, desta vez, talvez fosse decepcionar-me.
Mas não: há na escrita de Adélia Prado uma irreverência, uma subversão, uma brincadeira, uma graça e, ao mesmo tempo, uma tal ida ao miolo que não consigo nunca ficar-lhe indiferente. Pelo contrário, espanto-me. Mas é um espanto agradado, uma vontade de perceber como se consegue cerzir de forma tão criativa palavras normalmente dadas a outras companhias.
Não é fácil transcrever excertos pois perde a graça se descontextualizado. Há ali uma dança em que cada passo faz parte da coreografia. Não dá para amputar o pas-de-deux, não dá para retirar o voo, a graciosidade do movimento, a amplitude do salto. Mas, ainda assim, arrisco. Um petit amuse-bouche.
Teodoro atende o telefone e pelo jeito a Angelina acabou de morrer. Me dá a notícia no tom em que toda a notícia assim deveria ser dada: olha, a Angelina terminou o serviço dela, tomou banho e voltou para casa dos pais, foi de primeira classe. (...)
Acordei ótima, sem estranhar o mundo, nos eixos. Eixo é uma palavra perfeita, não propriamente bonita, mas como palavra é sentido, esta tem apenas o que chamaríamos beleza interior, consolo dado a mulheres feias e bondosas, ideia e consolo enganosos, porque beleza radia e o que radia radia para fora, ou estou delirando? Vou acabar descobrindo que eixo é uma palavra bonita por dentro e por fora? Azeite. Vou pensar muito não, pra não gerar confusão.
Estou no eixo, isto é, funcionando sem estranhezas para alegria ou tristeza, rima e solução; mais ou menos no 'tanto faz' daqueles santos meio estranhos, esquisitos e inteiros como o macaco da historinha que acharam felicíssimo em seu galho:
-- Macaco, sua mãe morreu.
-- Ah, é? Mió.
-- É mentira, macaco.
-- Mió ainda.
Se minha mãe morrer vou ter escrúpulos de falar: melhor, ou melhor ainda, porque não sou perfeita, não sei conversar sem adjectivos, ainda não sou essencial. (...)
E é isto. Um prazer. A vida pode ser uma coisa simples. Basta não complicar. Mas não é fácil. Descomplicar é como desajectivar. A gente quer, quer, mas, mal se distrai, já está a acrescentar adjectivo ou complicação. Ou as duas coisas ao mesmo tempo que é ainda pior.
Talvez por isso, quando passei para o YouTube, o meu amigo algoritmo, adivinhando que ando a complicar o que é simples, avançou com uns vídeos que me prenderam do princípio ao fim. Cada um com uns vinte e poucos minutos. Ou seja, ao todo, para mais de uma hora de coisa boa. Ainda por cima, uma hora falada em francês -- que é língua que me agrada por demais, civilizada, elegante, cheia de convite para viver bem -- e com música suave em fundo. Caso não saibam francês, não faz mal. São vídeos bonitos de ver. Três casos de saber viver bem. E se vocês já têm uma vida assim, simples e boa, mió ainda.
Sylvie Ramu, sculptrice et femme de cœur dans son petit paradis
La folle vie d’un aventurier philosophe de 95 ans - Paul Du Marchie
Les merveilles d'une créatrice de papier, Viviane Fontaine
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Pinturas de Oscar Howe ao som de Farewll, Angelina segundo Joan Baez
Até aqui, no post, não entrou a palavra Natal mas não faz mal: entrou agora e está bem assim. Se gostaram destes vídeos façam de conta que são três presentes que aqui vos ofereço
Um britânico, Kevin Freshwater, que deve ser um bacano, começou um programa em vídeo que se chama «Finish the lyrics» que o mostra, na rua, a interpelar abruptamente os passantes e pedindo-lhes que completem a canção que ele, de raspão, entoa. As reacções são díspares e todas engraçadas. Mas curioso foi o que aconteceu quando uma elegante loura desatou a cantar como gente grande. Um vozeirão envolto em charme.
Entretanto, já se sabe que é Charlotte Awbery e que gosta de cantar, colocando vídeos seus na sua conta de Instagram que, até à data, era pouco vista e que, num ápice, com isto, disparou de 7000 para cima de 264.000 subscritores, tendo o vídeo sido visto mais de 17 milhões de vezes no Facebook.
E com este golpe de sorte não apenas Charlotte se tornou internacionalmente conhecida como o jovem Kevin Freshwater foi catapultado para provavelmente nunca tinha imaginado.
Mas partilho a notícia [que pode ser vista aqui] não apenas pela qualidade da voz da Charlotte mas para celebrar os acasos e o que eles podem ter de bom. E também para celebrar a alegria, a boa disposição, a capacidade que algumas pessoas têm de instaneamente aderirem a desafios, com sorriso na cara, com piada. Mesmo os que não alinham têm, na maior parte das vezes, muita graça.
E, por falar em acasos, abaixo um outro, um daqueles que, imagino eu, acontece uma vez na vida a alguém que mostra a sua habilidade (leia-se: arte) na rua.
David Gilmour convida um tocador de copos que actua nas ruas de Veneza a participar num concerto na Praça de São Marcos. A surpresa do homem é divertida e, imagino, nunca na vida se esquecerá não apenas desse inesperado convite como da maravilha que deve ter sido tocar naquele palco, naquele dia de chuva, junto aos acordes mágicos de David Gilmour.
Outro momento único. Um homem cantava, e bem, imitando Bob Marley. Eis senão quando uma mulher na assistência começa a cantar. Junto a ela estava um outro que aparentemente seria um músico amigo do que cantava e que, reparando na forma animada como ela cantava, falou nela ao Bob Marley. O que acontece a seguir mostra como ela ousa actuar, de corpo e alma, entregue à alegria de viver. É contagiante.
Não me canso de ver esta miúda. Nunca vi coisa assim. Esta é outra das que aparece uma vez em cada cem anos. Temos visto, ao longo dos tempos, muita miúda ultra ginasticada, mecanizada, miúdas que saltam, que se equilibram, que surpreendem pela elasticidade. Mas como esta nunca vi. É que esta é isso e muito mais. Esta é alegria em estado puro, é a alegria personificada. É dança, é salto, triplo salto, salto para a frente, salto para trás, é espargata, é roda, é riso, é equilíbrio, é força, é leveza, é felicidade.
Vejam, por favor, este último vídeo. Depois de encantar e alegrar toda a gente e arrancar mais um dez -- um 10 perfeito, redondo, absoluto, total --ela agradece, ela dança e, por fim, até conduz uma banda. Nunca vi coisa assim. E tinha estado doente na semana anterior. É de loucos.
Katelyn Ohashi (UCLA) Perfect Ten Floor vs Utah State 2019
Estava aqui a contar da minha vida a uma pessoa, para exemplificar que podem chover facas e canivetes que eu, sei lá como, consigo arranjar maneira de preservar na minha vida um espaço de normalidade e alegria. Mesmo quando o espaço é exíguo, mesmo quando o tempo para isso é limitado.
E, ao escrever sobre isto, estava a pensar que podia contar ainda mais. Porque não sou só eu que consigo sobrevoar a infelicidade sem que esta me puxe para o fosso de agruras que, por vezes, parece querer abrir-se sob os meus pés. A minha mãe, por exemplo, é como eu. E a senhora que a ajuda com o meu pai, ainda mais.
Estava com vontade de contar. Mas depois hesitei. Se o meu marido, ele que está tão habituado, volta e meia fica espantado com a minha capacidade de alienação... fará quem não me conhece de perto. A minha e a da minha mãe. Volta e meia, deparando-se com momentos complicados, ele fica quase chocado como, num instante, eu e a minha mãe fazemos a agulha e, se for preciso, nos desatamos a rir com uma parvoíce qualquer.
Vou dar um exemplo. Vou arriscar. Não fiquem chocados porque somos malucas mas somos pacíficas.
Aqui há pouco tempo, vendo-me lá chegar no meio de uma sucessão de crises cruzadas, diz-me a senhora que ajuda a minha mãe e que será talvez uma meia dúzia de anos mais velha que eu: 'Então isso é que estão a ser umas férias, hein...? A velhada até faz fila para ver quem é que vai à frente...' A minha mãe, a rir, e a bater três vezes na cama do meu pai: 'Ai, credo, não diga isso, vire essa boca para lá...' E rimo-nos as três. Mas ela não estava a ser incluída pois, apesar de oitenta e picos, não parece nada uma velha. Acontece que o marido da dita cuidadora também estava doente, tinha sido operado, andava debilitado. Então ela acrescentou com a maior das naturalidades: 'E o meu também não sei se dura muito. Um dia destes dá o peido mestre e vai desta para melhor'. Desatei-me a rir com a expressão. E ela e a minha mãe, vendo-me a rir, desataram também a rir. E ali estávamos as três, na galhofa, como se a situação fosse para rir.
Acontece que um dia destes, vinha ele de um tratamento, na ambulância, sentiu-se mal e, coitado, foi mesmo desta para melhor. Contava-me a minha mãe: 'Um caso sério. Como morreu na ambulância, meteu tribunal, uma chatice'. E eu admirada: 'Mas, então, tribunal porquê?''. A minha mãe não sabe explicar: 'Não sei. Coitado do homem da ambulância' E continuando a falar das circunstâncias da morte do marido da sua ajudante: 'Ele sentiu-se mal, caíu para cima de uma mulher que vinha também lá dentro, também de um tratamento. E a mulher desmaiou'. E eu: 'Credo. Mas desmaiou porquê? Quase morria de medo, com um morto a cair-lhe em cima, não?'. E a minha mãe já se ria: 'Sabes lá, ainda nos rimos aqui todas com ela a contar isto, o pobre do homem da ambulância todo enervado com aquele par de jarras ali, tombados, ele sem saber se tinham morrido os dois'.
E eu a rir e a ouvir a minha mãe a rir, a contar como ela, as vizinhas e a viúva também se tinham rido... e a pensar: mas será que não batemos bem da cabeça ou será que é normal encontrar motivo de risota mesmo no meio da maior desgraceira?
O que sei é que o meu marido, a quem ainda não contei esta, de certeza que vai encolher os ombros, descoroçoado, talvez mesmo agastado. 'Malucas. O homem morto e elas a rirem como se a coisa tivesse alguma graça. Malucas.'. Penso que não é capaz de visualizar a cena, coisa de filme cómico, senão também se ria. Penso que ele acharia normal que se falasse nisto com consternação. Ou melhor, que nem se falasse nisto.
E esta minha conversa, agora, a que propósito?
Bem. Quando sei que alguém está um bocado em baixo ou se sente triste ou desmotivado, eu tenho vontade de dizer que não vale a pena, que é um desperdício, que bom, bom mesmo, é termos vontade de rir, é não ligar muito às coisas más, bom, bom mesmo, é vermos o lado bom da vida. Há sempre um lado bom. Ou um lado maluco que dá vontade de rir.
E, para quem não seja dado a estas conversas, pois então que faça o favor de descer caso queira saber o que acho dos resultados mais estrondosos do PCP -- estrondosos no bom (Setúbal) e no mau sentido (Almada).
Porque não é a primeira vez que recebo comentários como o que alguém deixou na mensagem abaixo e porque é tema que gosto de deixar claro, tomo a liberdade de o puxar para aqui para, de seguida, dizer de minha justiça.
O comentário é este:
Não é sensato exibir uma vida fácil e grandes alegrias. Há nisso algum despudor. E é ingenuidade acreditar que alguém pode encontrar o que não tem na leitura do que outra pessoa tem. Mas é apenas uma opinião, claro. Se lhe dá prazer manter este registo, mantenha-o.
Tenho alguma dificuldade em ajuizar sobre a sensatez de pessoas que desconheço mas admito que quem o disse, por ler o que aqui escrevo, ache que já me conhece o suficiente. Portanto, passo por cima do argumento do (des)conhecimento e refiro um outro aspecto que esse, sim, me parece mais relevante: o da subjectividade.
Quem assim decreta a minha insensatez acha que detém a bitola da sensatez. Ora, duvido que a tenha. Mais: duvido que alguém a tenha. É que estamos no domínio da pura subjectividade.
Exemplifico. Eu acho que alegria e o prazer de viver são matéria pública enquanto acho que a dor e o sofrimentos são matéria reservada. Portanto, fico até admirada com a falta de reserva ou pudor com que algumas pessoas publicam dores tão íntimas. Não que vá ao ponto de as achar insensatas. Longe disso. Fico é a pensar que a dor deve ser tão grande que o pudor, para elas, deixa de ser relevante. Mas, salvo casos extremos, nunca me ocorre achá-las insensatas.
Como qualquer pessoa, tenho os meus momentos complicados, tenho cansaços, preocupações, tristezas. Contudo, quando as causas são coisas cá minhas, geralmente apenas falo a posteriori, com algum distanciamento, e sem grandes pormenores. Muitas outras vezes, tantas vezes, nem toco no assunto. Como já o contei, escrevi aqui -- na maior animação -- na véspera de ser internada, escrevi aqui sobre política e fait-divers de toda a espécie durante o doloroso pós-operatório, escrevi sobre ninharias quando me morreram pessoas muito próximas, escrevi histórias e maluqueiras debaixo de grandes preocupações. E quem diz isso, diz em tantas outras situações, em que acho que nem vem ao caso falar, em que ninguém deu por nada. Geralmente, guardo para mim os assuntos que me pesam. Em situações difíceis prefiro espantar as dificuldades em vez de me debruçar sobre elas. Por natureza, facilmente ponho para trás das costas o que me desagrada nem que apenas por uns instantes, para 'desopilar'. Mas há uma outra razão: de facto, sinto um certo pudor em exibir assuntos íntimos, dores, mágoas.
Mais: penso que falar sobre alegrias não faz mal a ninguém, enquanto falar sobre dores e angústias pode tornar-se contagioso, pode dar más ideias, pode fazer baixar ainda mais o ânimo de quem esteja a sofrer.
Eu sei que os portugueses, em geral, tendem a cultivar a baixa auto-estima e a sentir-se solidários com os que se mostram em baixo e a rejeitar os que se mostram afirmativos ou 'felizes da vida' ou, seja, os que gostam de rir e curtir os prazeres desta vida.
Mas eu não posso fazer nada contra isso. Sou sincera e não vou fingir que sou infeliz para agradar a quem tem uma vida difícil. Tenho sido afortunada e por isso me sinto agradecida. São factos de que não tenho que me envergonhar: não tenho dificuldades financeiras, nunca fui abandonada, tenho trabalho, adoro a minha família e sinto-me retribuída. Por isso, sendo esta a minha realidade, é sobre ela que falo. Não sinto pudor ao reconhecê-lo, sinto apenas alegria e, sobretudo, um grande agradecimento.
Quanto a ser ingenuidade acreditar que alguém pode encontrar o que não tem na leitura de outra pessoa que tem, permita que diga que talvez não seja bem assim. Não têm conta os mails que recebo de pessoas que me contam os seus problemas, as suas dificuldades, as suas doenças e ansiedades dizendo-me que lhes faz bem ler o que escrevo. Por alguma curiosa razão, muitos Leitores preferem dirigir-se-me num tom pessoal, de confidência, através de mails. Penitencio-me por cada mail a que não consigo dar a devida atenção mas o meu tempo livre é muito curto, não chega para manter a proximidade que eu gostava de ter com quem assim me procura e, ao mesmo tempo, manter o ritmo a que me habituei aqui no blog. Tantas vezes aqui tenho apresentado desculpas por não conseguir responder a mails (ou a comentários).
Portanto, para finalizar: vou manter este registo, sim, e não é apenas por me dar prazer: é porque este é o meu registo. Sou como sou e não é aqui que me vou pôr com fingimentos ou dissimulações.
E é no mesmo registo, o de sinceridade, que digo a quem escreveu aquele comentário -- que agradeço -- que espero que a vida lhe sorria para que sinta também vontade de sorrir e para que fique feliz quando vir o sorriso no rosto ou nas palavras dos outros.
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Lá em cima Rui Veloso canta 'As regras da sensatez', canção de que muito gosto, até pela letra (que é de Carlos Tê).
As fotografias foram feitas no Ginjal, lugar onde uns apenas vêem decadência e onde eu, impudicamente, vejo uma beleza quase mágica.
Tenho que dizer que hoje sinto-me sem palavras. Pode ser que, daqui a nada, já tenha conseguido superar este bloqueio que agora sinto.
O dia começou-me feliz, uma grande notícia: as TACs já tinham revelado que os órgãos circundantes não estavam metastizados mas depois ficámos a saber que a coisa podia não ser assim tão simples. Só a análise aos gânglios que estão em volta da metade do órgão que foi extraída poderia revelar se estavam ou não afectados, o que indicaria o grau de desenvolvimento do carcinoma. Ora a análise veio negativa. Felizmente (mil vezes felizmente!) o mal estava mesmo confinado e tudo veio cá para fora. Nem quimioterapia vai ser precisa, mesmo na forma minimalista que estaria vagamente em hipótese (comprimidos tomados em casa). A alegria com a notícia foi mais que muita e quem há cerca de 15 dias estava numa cirurgia complexa hoje de tarde riu e bailou de alegria (e isto de bailar não é eufemismo - é mesmo verdade). Eu ainda disse: a ver se as partes que foram coladas não se descolam para aí... Mas que não, que também não estava aos saltos... Sendo assim, vá de bailar, pois então. Uma alegria e um alívio sem tamanho.
Por isso, susto para trás das costas.
Só que depois, de tarde, vi uma fotografia que me deixou de rastos. De rastos.
Há pouco recebi por mail fotografias de dois dos meus pimentinhas, felizes, de passeio pelo Minho, a tomarem banho de rio, a andarem de pónei, às cavalitas do pai. Riem, despreocupados, inocentes. E assim deve ser. E assim deve ser para todas as crianças do mundo.
Por isso, estou sem palavras, triste, triste, esmagada pela infelicidade maior para a humanidade que é termos o mundo a gerar situações destas. Um mundo assim é um mundo que não está a saber cuidar de si nem dos seus. Somos todos culpados de uma desgraça destas.
Por isso, a menos que daqui a nada consiga afastar de mim esta angústia que me esmaga as palavras, agora fico-me por algumas fotografias feitas hoje.
Num mundo normal, imagens destas, de um cão de água, radiante, a banhar-se na praia, não teria nada de mais. O mundo fez-se para acolher todos, pessoas, animais. Pena que este não seja um mundo normal e que, ao mesmo tempo que um cão brinca na praia, noutros lugares, crianças estejam a dar à costa.
Este ano temos visto vários árabes ou russos, nacionalidades que não eram comuns por estas bandas. Por cá, a paisagem é tranquila, bonita, acolhedora. Presumo que estes novos turistas estejam a fugir das cidades do sul que antes eram de veraneio e que agora são de imigrantes esfomeados pelas ruas e pessoas mortas nos areais.
Os veleiros sempre me atraíram. No entanto, nunca entrei em nenhum e duvido que alguma vez entre. Penso que deve ser uma canseira e provavelmente, volta e meia, quase morreria de medo, com medo de cair à água e levar com o barco em cima. Mas, vistos de fora, os seus movimentos parecem-me um bailado feliz. Por aqui os vejo a cruzarem o horizonte ou a deslizarem pelos seus limites, vogando entre azuis. E penso nos outros, nos pobres, pobres, infelizes, que se metem em barcos sem condições e, no mar, perdem a vida ou vêem morrer os que lhes são queridos.
Ontem desejei felicidades à noiva e que tivesse muitos gaivotinhos. Acho que os meus votos já produziram efeito. Hoje lá andavam 3 gaivotinhos pelo areal. Estava vento ao fim da tarde e eles viraram costas ao mar, tentavam abrigar-se. Um pouco mais longe a mãe observava-os.
Até as gaivotas, por aqui, conseguem proteger os seus filhos. Coitadas das infelizes pessoas que, tentando proteger os seus filhos da guerra e da miséria os entregam ao sepulcro do mar.
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[De Arvo Pärt: Berliner Messe VII Agnus Dei - Elora Festival Orchestra & Singers]
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Volto aqui uma hora depois de ter escrito o que acabaram de ler para dizer que hoje me fico mesmo por aqui.
Tinha alguma vontade de falar na carta de Francisco, o Papa, ao querer o perdão para todos os pecados.
Eu, que sou tão avessa a isto da culpa e do pecado e que sou tão dada a perdoar, a esquecer, fiquei contente com mais esta imprevisibilidade deste homem tão generoso, tão tolerante, tão inclusivo. Mas eu sou dada a perdoar tudo excepto aquilo que é feito por uns poucos contra muitos, por governantes a soldo contra um país inteiro, por exemplo.
Mas nem é que queira mal às pessoas, quero é que sejam afastadas de lugares ou cargos onde possam prejudicar os outros. Por isso, não sou defensora de qualquer tipo de violência contra políticos estúpidos, gananciosos, relapsos ou simplesmente ignorantes ou incompetentes: sou defensora, sim, é que levem uma banhada nas eleições, que sejam varridos da história.
Mas penso em quem criou ou fomentou situações como as que assolam países como a Síria, a Líbia ou outros de onde fogem estas gentes todas, penso nos assassinos que, com o caminho livre, se arvoram em estadistas e destroem pessoas, monumentos, história, penso em todos os políticos de meia tigela, burocratas insensíveis e bem pagos, bruxelistas da treta, gentinha desqualificada que por aí anda emproada enquanto se assiste a estas centenas ou milhares de pessoas que morrem afogadas, asfixiadas, cansadas na beira da estrada, penso no menino morto na praia e nos outros meninos e em todos, em todos, e fico angustiada -- perdoar-lhes, Papa?
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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela quinta-feira.
Aos poucos talvez as coisas voltem ao normal - se é que antes eram normais.
Quando fui vê-lo ao hospital, logo no sábado a seguir ao ano novo, ainda antes de ser operado, naqueles dias em que lhe retiraram o anticoagulante para o sangue espessar e diminuir o risco de hemorragia durante a cirurgia, estava choroso. Dizia 'estou em xeque com isto...'. A minha mãe questionou, 'Em xeque? Mas estás em xeque porquê?'. Ele olhou para nós com aquele seu olhar desfocado, 'Pois, não é em xeque'. E esforçou-se por encontrar a palavra, balbuciou, depois calou-se, não a achava. A minha mãe perguntou, 'Chateado?' Ele confirmou, 'Pois, estou chateado com isto' e nós dissemos que era natural que estivesse chateado. Depois virou-se para mim e disse 'Tinha a minha vida lá em casa, fazíamos as nossas coisas e agora isto'. E eu disse que ia voltar a ser o que era, que era só o tempo de ser operado e que haveria de voltar. Mas ele, choroso, que não queria ser operado. E virou-se para a minha mãe, 'morrem todos'. A minha mãe repreendeu-o, 'mas morrem todos, quem?'. Ele disse o nome de um e disse que tinha sido operado e que, passado algum tempo, tinha morrido e, depois calou-se, pensou, e quando se lembrou, disse 'O Salvador também'. A minha mãe corrigiu. Que o primeiro ainda viveu muito tempo e morreu de outra coisa e que o Salvador morreu logo, caíu no jardim e bateu com a cabeça. Ele não disse nada, talvez tenha ficado mais animado.
Depois foi operado. Na manhã em que ia ser operado, às sete e picos da manhã tocou o telemóvel do meu marido. Fiquei petrificada. Àquela hora, alguém a ligar, não podiam ser boas notícias. O meu marido não chegou a tempo e o número era daqueles que não atendem quando se liga na volta, geralmente são cartões de centrais telefónicas. Fiquei com o coração a bater descompassado, pavor de que algo tivesse acontecido. Mas não voltaram a ligar.
Depois a operação correu bem, uma placa, uns parafusos, o colo do fémur aparafusado. Um grande alívio. o risco não era a cirurgia em si mas o estado debilitado dele.
Nessa noite, às dez e tal, novamente o telemóvel. Mais um sobressalto. Mais uma vez não se foi a tempo, mais umas vez o coração disparado.
Na manhã seguinte, à mesma hora, a mesma coisa. O meu marido foi veloz. Era da Central de Alarmes. O meu filho pôs um alarme em casa e das duas vezes de manhã não se tinha lembrado de o desligar e à noite ligou-o e depois foi lá abaixo sem o desligar e aquilo disparou e accionou um alerta na central. Como a seguir eles não atenderam o telemóvel, ligaram para o terceiro número, o do meu marido. Menos mal. O meu único medo era que fosse do hospital.
Depois as complicações, várias. Cada dia uma coisa. Uma pessoa já tinha medo de saber como é que o ia encontrar. A seguir à operação, e outros dias, quando estava pior das várias complicações, a minha mãe não tinha coragem de ligar, ligava eu. Assim, quando lá se chegasse, já não havia surpresas. Por vezes não atendiam logo do hospital e logo a minha mãe me ligava, assustada, 'Não dizias nada, já estava preocupada, aconteceu alguma coisa?'
Outras vezes, estava todo baralhado. Onde é que estou? Trouxeste os sapatos para eu me poder ir embora? Mas as operações agora não são coisa de um dia?Vá, dá-me lá o casaco para nos irmos embora. Como é que me descobriram aqui?
Talvez fosse da anestesia, talvez do estado geral. Depois passava-lhe, voltava ao normal. Ao normal depois do AVC, quero eu dizer.
Um dia que eu não estava lá, perguntou à minha mãe, Tu tens uma filha? A minha mãe disse, Nós temos uma filha, nós. Ele ficou a olhar, Ah, e como é que se chama a tua filha? A minha mãe corrigiu outra vez, Minha filha não, a nossa filha. Diz lá tu como se chama a nossa filha. Pensou e disse o nome da minha mãe. A minha mãe disse, Então esse não é o meu nome? E depois disse-lhe o meu nome e perguntou Então não é? E ele disse, Ah pois é.
No domingo estava no cadeirão, ainda a soro (pois os níveis de potássio tinham baixado), e cheio de almofadas pois mal se aguentava direito, olhos muito abertos, desfocados, meio despenteado, olheiras enormes, agitado. Que já não se aguentava sentado, que não havia direito, que mais valia acabar com aquilo tudo. Estava numa impaciência, que nos fossemos embora, e já se zangava comigo e com a minha mãe, que queria ir para a cama, que os enfermeiros ainda se esqueciam dele ali. Eu e a minha mãe comentámos uma com a outra que ainda teria hospital para mais uma semana, tal o estado em que ainda estava.
Estávamos enganadas. Esta segunda, estive numa reunião toda a manhã. Perto da hora de almoço, enviei um sms à minha mãe a dizer que ainda não tinha ligado porque estava numa reunião. Respondeu-me por sms que o meu pai tinha tido alta. Respondi, Não acredito! mas, de seguida, saí logo da sala e fui ligar-lhe. Estava enervada, que lhe tinham ligado do hospital, que o iam mandar para casa, que estava a arranjar a cama, a preparar as coisas. Fiquei estupefacta. Disse-lhe que ia ver o que se passava. telefonei para lá. As enfermeiras estavam também admiradas, que o médico tinha lá chegado e dado alta a vários doentes e que ela também não estava à espera, que costumam preparar a alta e falar com a família mas que não tinha dado tempo. Disse-lhe que não aceitava que estivessem a tratar o meu pai dessa forma. Ela respondeu que o mundo ideal é um e o mundo real é outro e que cada vez mais é assim. Com muita dificuldade lá consegui falar com o médico.
Explicou a situação, que ele estava estável, que podia ir para casa, que se não fossem todas as complicações já teria tido alta há mais tempo, e lá me disse quais os tratamentos e consultas seguintes. Respondi-lhe que o meu pai não ia sair nesse dia porque queria que as enfermeiras falassem com a minha mãe para lhe explicarem tudo como deve ser, porque queria que as coisas não fossem precipitadas daquela forma. O médico disse que compreendia.
Depois a enfermeira ligou-me a pedir desculpa e a dizer que, com a pressa nem tinha reparado mas que, para além de tudo, não estando o meu pai referenciado como carente do ponto de vista económico, teria que ser a família a fretar a ambulância para ele sair de lá.
Assim se fez.
Já está em casa. Esta quarta-feira vai lá a enfermeira do centro de Saúde para lhe dar uma injecção, para fazer o penso. Deve ir também uma fisioterapeuta (particular) para ver qual o programa recomendável, a ver se em casa consegue fazer alguns exercícios. Era bom que conseguisse voltar a dar uns passinhos dentro de casa. Tenho esperança. Já não é a primeira vez que está acamado, quase sem se conseguir mexer e depois, com muita fisioterapia, lá consegue dar os seus passinhos. Mas agora, para além das dificuldades todas, deve ter medo pois foi assim, a ir da sala para o quarto, que lhe escorregou a mão em que se apoiava e caíu, partindo a perna.
Supostamente deverá ir, dentro de pouco tempo, quando houver vaga, para uma clínica de reabilitação, para fazer recuperação como deve ser. O recomendável são 3 meses de internamento mas ele não deve querer ir e a minha mãe diz que, se ele não quiser, não o vai forçar. E eu também não forçarei.
Como de costume a minha mãe, depois da angústia natural de quando as coisas acontecem, volta à sua boa onda habitual. Já nem teme muito o que por aí vem pois há seis anos que está habituada a ser cuidadora a tempo inteiro.
Pelo meio, depois de uma das visitas ao hospital, já a trouxemos a ver a casa do meu filho, já andei a passear com ela à beira mar, já lá teve os netos a lanchar e continua a fazer a manta de crochet para a cama de um dos bisnetos, nem sei bem para qual. Tentámos que não lhe custasse tanto o internamento do meu pai e que, ao menos, aproveitasse para passear um bocadinho, coisa que, com o meu pai em casa, nunca pode fazer.
Por tudo isto, pela preocupação, por algum cansaço, pela alteração na rotina, por ter tido menos tempo para estar com os mais pequeninos, por tudo, tenho andado menos inspirada.
E agora não é que esteja muito mais descansada. Não estou. Por exemplo, não sei como vai ser esta noite e isso preocupa-me. No hospital, se ele chamava, se estava inquieto, estavam lá os enfermeiros. Lá em casa, se necessário, só terá a minha mãe. Queria que ela arranjasse apoio a tempo inteiro mas não quer, diz que já lhe basta esta situação quanto mais ainda andar a tropeçar numa outra mulher a viver lá dentro de casa, que era o que lhe faltava. Percebo-a e não posso nem quero forçar o que quer que seja. Mas, enfim, tudo se há-de ir resolvendo.
O mais fácil de satirizar em nós é sempre o que nos torna surdos à realidade, prisioneiros da ficção de nós mesmos; é a nossa comédia de enganos, com os seus tiques e trejeitos, as suas atoardas que se pretendem o idioma da verdade; é o nosso caminho ostentado sem qualquer preocupação de contacto com os outros, que rapidamente se pontilha de automatismo e preconceito. Reconhecer o ridículo é a forma mais nobre e ágil de sair dele, mas essa não é uma decisão nem espontânea, nem indolor. O riso não é uma consolação, nem uma terapia fácil de seguir para ninguém. Exige uma grandeza interior que se conquista milímetro a milímetro, à maneira do alpinista que galga uma encosta árdua.
Um dos textos mais belos sobre isto mesmo é uma nota autobiográfica assinada pelo escritor Dinis Machado em 'Reduto quase Final'. Evoco-a com a devida vénia. 'Uma das primeiras grandes revelações da minha infância, ao surpreender as coisas, foi verificar que me interrogava, invariavelmente, assim: qual é o lado mais cómico disto? Os desfiles militares, as cerimónias religiosas, os cumprimentos obsequiosos e constrangedores, os adereços excessivos da autoridade, as exigências rígidas da hierarquia, os compromissos artificiosos. E eu: qual é o lado mais cómico disto? Daí a fazer esta pergunta interior em qualquer situação dramática, foi um passo. A doença, a brutalidade, a estupidez, a intolerância, a maldade pura, a alucinação despótica - até o leito do sofrimento, o leito da morte. E eu: qual o lado mais cómico disto? (...) Quando uma vez caí, a patinar no passeio com botas cardadas, e parti o dente da frente, fiz a pergunta calada e sacramental, enquanto as pessoal olhavam para mim: - Qual é o lado mais cómico disto?
(...) Creio que os cómicos (...) me compreendiam melhor que ninguém. Habitavam o coração do desastre com a desenvoltura e a paciência evangélica dos grandes missionários da naturalidade.
Extracto de 'O humor é a liberdade' de José Tolentino Mendonça em 'Que coisa são as nuvens' no Expresso
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As primeiras fotografias são da autoria de Jeffrey Vanhoutte, foram feitas no âmbito de uma campanha publicitária dinamarquesa e a bailarina é Noi Pakon. Escolhi-as porque mostram aquilo que sinto nestas situações, vontade de soltar de cima de mim o peso da angústia, vontade de deixar de sentir o peso do medo, vontade de ser capaz de encarar tudo com maior leveza.
A fotografia das crianças é da autoria da mãe, a fotógrafa russa Elena Shumilova
O segundo grupo de fotografias faz parte de uma série intitulada People Reading Poorly-Chosen Books In Public que pode ser vista aquie coloquei-as no meio deste post porque nada como o humor para enfrentar os momentos menos animados da nossa vida. Rir para mim é um poderoso antídoto para as agruras da vida, sempre foi e tomara que sempre assim seja.
O Smile é de Charlie Chaplin na interpretação de Nat King Cole (e, foi-me lembrado pela Leitora Rosa Pinto que, em boa hora, me deixou a tradução da letra da canção num comentário mais abaixo).
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Hoje vinha com ideia de falar dos muito pobres cada vez mais pobres e dos muito ricos cada vez mais ricos e do Paulo Portas a gabar-se do estado da economia depois de as notícias divulgarem que a já de si anémica economia continua a abrandar. Mas comecei a escrever sobre o meu pai, alonguei-me e, aqui chegada, já não me apetece pôr-me agora a falar de tão desagradáveis coisas. Por isso, hoje fico-me por aqui.
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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa quarta-feira.