Domingo não é o melhor dia para falar de coisas sérias mas o facto é que, se me ponho a escolher dias, tantos são os assuntos que convocam o meu interesse que alguns acabarão por ficar para trás.
Austeridade. Vou voltar ao tema da austeridade, esse muro que levanta uma barreira entre os liberais e os humanistas. (Sei que esta dicotomia não é lá muito canónica mas escrevo antes de pensar e tenho tanto que fazer aqui hoje que não me posso deter em taxonomias. Adiante).
De vez em quando, se algum indignado levanta a voz, aparece o usual coro de ofendidos clamando contra a violência da linguagem. Sendo Portugal o país por excelência dos brandos costumes e da suprema mansidão, se alguém chama os bois pelos nomes, aqui d'el rei que não havia necessidade, que nisto, até ao fim, há que manter os punhos de renda.
Pois bem, que os usem até que a guilhotina caia sobre o seu próprio pescoço quem gostar de se deixar matar por delicadeza. (Disse Rimbaud: Par délicatesse j' ai perdu ma vie - mas ele foi um afortunado: perdeu a vida e voltou para o contar; não se fiem em igual milagre os delicados desta vida).
A questão é que toda a política que está a ser seguida em especial em Portugal - onde nos coube, por pouca sorte, um governo da mais infeliz indigência mental - é não apenas errada como perigosa. E o drama maior é que não estamos a falar de uma teoria académica que está grosseiramente errada mas de uma burrice passada à prática, de um brutal sacrifício que está a ser infligido à grande maioria da população e que continuará a causar danos por muitos e muitos anos.
O empobrecimento e o retrocesso civilizacional que está a ser imposto a Portugal não resolvem nenhum problema, nenhum - pelo contrário só os agravam.
Muito gostaria que dispusessem de uns minutos do vosso tempo para ouvirem Mark Blyth, professor de Economia Política na Brown University que esteve a semana passada em Portugal para uma conferência na qual se discutiu se a austeridade cura ou mata.
Muito interessante também a entrevista que passou na TSF e que pode ser ouvida dobrada em português. Seria bom que os que, tendo um número normal de neurónios, deixaram que eles se afogassem aquando das lavagens à cabeça a que se deixaram submeter, tentassem ver as coisas segundo esta perspectiva e percebessem que a dívida aumentou 40 pontos percentuais desde que Passos Coelho tomou conta do Governo (passou de cerca de 90% do PIB para 130%), o défice continua bem longe das metas, o desemprego está umas centenas de milhares acima do que era suposto, os jovens qualificados saem do País aos milhares e milhares, toda a gente está mais pobre (excepto Américo Amorim e mais uns happy few) e por aí fora.
Que ninguém se deixe iludir, pois, que ninguém se deixe tomar por parvo.
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Este texto está a ser escrito no dia 1 de Dezembro, Dia da Restauração.

