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quarta-feira, março 23, 2016

Sob a pele
- um passo no sentido da impossibilidade


No post abaixo falei do atentado terrorista de Bruxelas e de como me parecem fátuos os fogos de indignação que se elevam pedindo que seja olho por olho, dente por dente. Quando escrevo sobre estes temas dói-me a impotência que sinto por me sentir fechada num mundo manietado por gente estúpida.

Por isso, se me permitem, mudo de registo, parto para outra. Sinto necessidade de respirar ar puro. Ou de me alienar - como queiram.




Milhões de horas já foram certamente despendidas a definir arte e nenhuma foi a definitiva nem alguma vez será. Identicamente nunca será definida de forma última a escala de valor para a arte. Estamos no domínio da subjectividade e cada um fala por si. Pode o ‘mercado’, como um deus cego, desprezar uns ou idolatrar outros, podem os homens, alguns, tentar impor algum nivelamento ou ditar modas, podem os tempos estabilizar numa relativa uniformidade de apreço e tudo isso, de alguma forma, estabelecer uma base valorimétrica -- mas uma coisa será sempre certa: nada disso será alguma vez passível de definição ou explicação inequívoca.

A olhos leigos tudo é relativo. No outro dia, na Casa da Cerca, em cima dos bancos de pedra, junto à janela, estavam uns rolos de pano ou umas coisas com cordas (já não me lembro bem e, pelas fotografias, não consigo perceber). Percebi que era uma instalação da Ana Vidigal.


Não percebo se tem valor comercial ou se tem algum sentido ou valor estético. Podia não ter mas eu gostar. Contudo, a mim nada me diz. E, no entanto, Ana Vidigal é um nome sólido nas artes nacionais. Também há umas duas semanas, ao vermos uma exposição  de peças atípicas ou vídeos do além, deparámo-nos, junto a uma das paredes, com um balde e uma esfregona. A minha filha, na brincadeira, perguntou se seria também uma obra de arte e os miúdos olharam para saber a resposta, talvez admitindo que pudesse ser. E não sei se era. Também na Casa da Cerca vi descrita como escultura uma ‘cena’ que era um grande livro com pedras entre as folhas.



Olho esse género de coisas com estranheza. No entanto, várias pessoas acharam normal ou gostaram e por isso as expõem. Não sou fundamentalista, não me choca, não generalizo: apenas passo à frente.

Mas já me aconteceu muitas vezes ficar caída de amores por uma peça de arte e ver, com espanto, que os outros a olham com indiferença ou desprezo. Tantas vezes isso.
Nessas alturas tenho que refrear os pensamentos que, indignados, ladram no meu ouvido: ‘há com cada uma… quem diria que me ia sair um burro encartado desta maneira…?’. Depois censuro-me, penso que gostos não se discutem, que não tem nada a ver e penso, uma vez mais, que tenho pensamentos que me deveriam envergonhar.
Um dos artistas que encaixa neste género é Rui Chafes. Gosto dele. Mas conheço pessoas que o acham desinteressante, pouco artista. Contudo, as suas obras têm, a meus olhos, uma beleza intangível que não sei situar em categorias ou descrever por palavras.


Para já, têm aquilo que me atrai: não se parecem com nada. E é disso que eu gosto: aprender formas, corpos, sombras, desequilíbrios.

Explico-me. Se virmos a estátua de Catarina de Bragança na Expo, cuja fotografia há tempos aqui coloquei, perceberemos o que quero dizer: é perfeita, uma mulher bonita esplendidamente passada para um material que a perpetuará.


Acho interessante que se queira eternizar a imagem de algumas pessoas em pedra ou metal. Contudo, estátuas como esta deixam-me indiferente. É quase como ver uma fotografia a três dimensões. Nada de extraordinário, apenas a mestria de quem fez o exercício.

No entanto, vejo um volume pesado, metálico, suspenso, sem forma reconhecível, sem propósito, e logo eu fico parada, agradada, com vontade de assimilar a estranheza.

Desde que tive contacto com a obra de Rui Chafes logo me senti intrigada, e do pasmo logo nasceu a vontade de ver mais, para me admirar, para  não reconhecer o que de indefinido cobre aquelas peças. E logo senti que as suas palavras seriam também assim, estranhamente vindas de dentro da terra, do fogo dos elementos, fascinantes como se incompreensivelmente familiares.

Portanto, sempre que vejo as suas palavras escritas logo me abeiro, e logo vou como se entrasse num lugar desconhecido, esperando ser surpreendida: talvez uma gruta com figuras suspensas, jogos de luzes místicas, água correndo em silêncio, caminhos levando ao centro do mundo ou procurando a luz, reflexos de origem obscura.


Este livrinho parece um missal. Pequeno, escuro, uns tons de azul que encerram o mistério das palavras de Rui Chafes, compacto como retratando a personalidade e a obra do escultor onde nada parece supérfluo, onde parece haver uma coerência intrínseca. Sou muito sensível ao grafismo, ao toque dos livros. Falo de ‘Sob a Pele’, Rui Chafes, conversas com Sara Antónia Matos, uma edição Documenta, Cadernos do Atelier-Museu Júlio Pomar.


O primeiro prazer começa logo na dimensão, o sabê-lo transportável dentro da carteira. Anda comigo. Assim que posso, abro-o, leio umas palavras ao acaso -- como agora.

O artista é um predador?
     
      Pode dizer-se que o artista tem um olhar de rapina. Dou, muitas vezes, por mim a olhar obcecadamente para um pormenor de uma pessoa, de uma planta, de uma parede, de um edifício, do que for. Fico parado a estudar a forma como a sombra de uma coluna se projecta no chão, fico preso nas qualidades de um determinado material, pode até ser o puxador de uma porta, por exemplo. A atenção pode deslocar-se, simplesmente, para um gesto da pessoa, uma ruga, um traço de expressão, um dente, uma mão, para a forma como o cabelo de uma rapariga cai sobre o pescoço, etc. Deixo de ouvir, momentaneamente, o que a pessoa está a dizer, o olhar torna-se mais importante. 
     Sempre defendi a ideia do artista-ladrão (talvez predador, como dizes). O que um bom artista faz é roubar imagens ao mundo e esconder as provas. É o roubo perfeito, no caso dos melhores artistas .... [sorriso]

Ainda dentro da temática do corpo, o que separa desejo e pornografia?

    Distância. Tenho de falar de distâncias, é isso que está em causa.
     O erótico envolve poesia e esta nasce, ou advém, da distância (...). A poesia é sempre um passo no sentido da impossibilidade e, portanto, se não houver esse espaço de inacessibilidade, que separa o sujeito do objecto pretendido, não há poesia nem erotismo. Há um colapso entre sujeito e objecto, que resulta da anulação da distância, e que corresponde ao 'já', ao 'aqui e agora', e à consumação imediata do acto ou do pensamento pornográfico.


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Viagem aos confins de um sítio onde nunca estive 

Filme de João Mário Grilo sobre a exposição 'O Peso do Paraíso' de Rui Chafes
CAM -- Centro de Arte Moderna, Lisboa 2014

 

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Lá em cima Renée Fleming, com a Prague Symphony Orchestra, interpreta 'Morgen' de Richard Strauss
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E permitam que me repita: para temas tristemente actuais queiram, por favor, descer até ao post seguinte onde afloro o que penso sobre a forma como acho que deveríamos olhar para isto do terrorismo na Europa (e só falo da Europa porque, se disto porque entendo, imagine-se a minha ignorância relativamente a outras geografias)

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domingo, fevereiro 28, 2016

Terirem





De vertigens, de sobressaltos, de inquietações. Do que existe para não ser falado, do que existe desde antes do princípio, desde antes de haver compreensão. De um tempo antes do tempo, sem explicação, pura perdição. De sombras que não são sombras, desvãos imensos, lugares nenhuns. De espaços indefinidos, sem luz, sem ar, sem contornos. Ondas que vão e vêm, voos infinitos, acordes longínquos, sonhos perdidos que pertencem a ninguém. Do nada. Do tudo. Do antes do antes, do que não tem depois, nem nunca.

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Muito tempo depois, alguém, algures, escreve, alguém, algures, lê. Alguém, algures, diz, alguém, algures, escuta. Sem rosto, sem voz. Tacteando no vazio, alheios à sua cegueira. Palavras feitas de silêncio e impossibilidade, sons intangíveis, mãos que se estendem no vazio e que nunca se tocam. Uma solidão desmedida perdida por entre palavras transparentes. Vogando ao acaso, segredos que se escondem por entre a inquietude. E todos estranhos, todos tão estranhos. Estranhos perdidos no vazio. Lançando palavras ao vento, esperando que alguém as colha - palavras, flores, pássaros, reflexos de luz, segredos. Pontes infinitas, sem princípio nem fim, sobrevoando o imenso espaço. De um lado alguém, do outro lado alguém. Estranhos, sem rosto. Estrangeiros. Pó perdido no espaço. Pó levado pelo tempo.

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Quem, do mundo, se acha julgador, quem, do mundo, se julga sabedor, nada sabe. Não há julgamento possível quando os mares se evadem e os astros se escondem e os risos se ocultam e a imensidão é infinita e a incompreensão absoluta. Pobres dos que julgam que muito sabem. 

Mas deixa.

Dorme, meu menino, dorme, dorme que a lua é uma ilusão.
           Dorme, meu menino, dorme que o sol e a chuva e o vento pouca coisa são.
                      Dorme, meu menino, dorme porque a vida é breve e o tempo não espera, não. 

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Mas, se quiseres que eu pense que ainda estamos vivos, então conta-me de vigílias em templos de pedra onde a noite se esconde, conta-me de liturgias com que eu nem sonho, conta-me de ressurreições inventadas, conta-me de lendas bizantinas onde os espíritos do mal e do bem se enlaçam, conta-me de histórias de dragões de fogo e de subtis princesas, de leões dos oceanos e de bordados eternos, de ilhas douradas onde velhos navios naufragaram e esguias palmeiras se esgueiram para os céus, conta-me de ninfas loucas e de monstros perdidos em inexistentes labirintos, conta-me de estátuas feitas de carne e sangue, de deusas caçadoras e zeladoras da virgindade, conta-me de guerras sangrentas, de longos abraços festejados com banhos de mel. Fala-me de longos beijos. Fala-me de amores inventados. Fala-me de ti.

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Fotografias feitas este sábado na exposição de Hein Semke no CAM da Gulbenkian. 
Lá em cima Nektaria Karantzi interpreta Terirem

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E queiram -- se vos apetecer, claro -- descer até aos três posts abaixo e  percorrer o que os meus passos percorreram este sábado: venham passear comigo entre jardins, museus, lugares abandonados.

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Arte no museu
[Post 1 de 3]


Visita às exposições do Centro de Ate Moderna da Gulbenkian, lugar a que sempre volto. O tempo passa mas passa em mim, não neste lugar de intemporalidade. É um espaço de luz e cor, de descoberta, por vezes de subversão, por vezes de ternura, onde apetece estar sempre. As crianças adoram os filmes incompreensíveis, gostam de ficar a ouvir o que não percebem. Sentam-se e ficam de gosto. Por mais estranho que seja o que vêem, não estranham. Assim vão aprendendo a habituar-se à diversidade do mundo. Se chove lá fora, cá dentro o espaço fica ainda mais bonito. Os verdes que entram pela janela trazem luz e vontade de ficar a olhar as figuras, os desenhos, as cores. E de voltar. Sempre.
















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quinta-feira, abril 03, 2014

Carolina de Mónaco vai ao Baile da Rosa de ténis debaixo do vestido de noite. E de bengala. Se fosse a mana Stéphanie a aparecer assim, a gente não estranhava. Agora a Carolina...? //// E, fazendo a agulha para um outro mundo, ofereço-vos um 'amuse-bouche': Rui Chafes no CAM (Gulbenkian)


No post abaixo já mostrei o vídeo que está nas bocas do mundo: o que foi projectado no tempo de antena do PS para o Dia das Mentiras, demostrando factualmente o patranheiro que tem vindo a revelar-se o barítono frustrado Passos-Láparo.

Ou seja, para constatarem as mentiras e outros embustes do gang que nos desgoverna, queiram, por favor, descer até ao post seguinte.

Mas aqui, agora, a conversa é outra. Façam o favor de se aperaltarem que vamos entrar na Sala das Estrelas. A preceito, se faz favor.





Todos os anos se repete o glamour. A família real monegasca recebe os convidados para o Baile da Rosa, um baile de caridade. Pagam 800 euros pelo ingresso, verba destinada à Princess Grace Foundation.

No entanto, a bem dizer, ninguém pensa muito no assunto da caridade. O baile é o momento por execelência para se ver em que param as modas - a todos os níveis. Os olhos convergem sobre as princesas, as câmaras estão a postos, os editores das revistas do coração aguardam o grande momento.. Estarão elas sorridentes ou, sabidos os choques de personalidades, revelarão mal estar, frieza ? O que vão vestir? Stéphanie vai ou zangou-se de vez com a mana? Vai algum dos namorados? A bela (e sonsa) Charlene vai arrastar-se com ar distante ou vai dar um ar de sua graça?

Pois bem. No passado dia 29 de Março decorreu mais uma edição do badalado Baile da Rosa e é disso que eu hoje, qual Pipoca mais Doce, aqui vou falar.

A elegância foi a de sempre. No entanto, Stéphanie desta vez não compareceu. O afastamento é cada vez mais um dado oficial. Andrea também não foi.

Charlotte, a bela, estava linda embora o vestido não mostrasse a sua elegância.

Talvez não seja como a Carolina Patrocínio que, ao fim de seis dias, já não tem rasto de gravidez e se apresenta com cintura estreita e barriga lisa. 

Talvez a bela Charlotte ainda tenha um pouco de barriguinha e tenha tentado disfarçar com o vestido solto.


Mas a beleza é muita, exuberante: herdou os traços perfeitos da mãe e também do pai.

O vestido, em cinza-gelo, era Chanel Couture.

Beatrice e Pierre
Esteve divertida e fartou-se de dançar ao som de Mika.

Quem surpreendeu foi Charlene. Depois de ter sido fotografada há pouco tempo toda dengosa com um outro, eis que no Baile se apresentou sorridente, vestida com um requintado Akris azul-escuro com detalhes pretos, encostada ao mulherengo Alberto, e, num dado momento, até lhe passou o braço à volta do pescoço.

Pierre lá estava com a sua bela Beatrice Borromeo, elegante, suave como um pêssego reluzente, vestida com Armani Privé, uma verdadeira princesa.


De resto, a surpresa da noite foi mesmo  Carolina de Mónaco. Debaixo do vestido Chanel estava de ténis. Claro que os ténis não eram uns ténis quaisquer: eram Karl (Lagerfeld) mas, valham-me todos os santinhos, eram uns ténis! E avançava lentamente e de bengala!


Se fosse a Lady Gaga isto podia fazer parte do modelo. Mas não.

A questão era afinal mais comezinha. Carolina é humana, apenas isso. Tinha sido operada a um joelho e, portanto, não podia usar sapatos apertados ou altos. 


Sei bem o que isso é. Durante um mês ou dois andei de havaianas ou outras chinelinhas, sandálias, sabrinas e por aí. Toda a gente olhava para mim com um sorriso indulgente. Eu, sempre de saltos, naqueles preparos. Calhou no verão, menos mal. Ainda agora, ao fim de semana, uso maioritariamente ténis ou outros sapatos confortáveis. Foi um hábito bom que veio com a operação.

É, pois, de louvar a descontração e o estoicismo de Carolina. Provavelmente estava com o joelho inchado, provavelmente estava a custar-lhe imenso estar de pé e, ainda assim, ali esteve, a sorrir e a deixar-se fotografar.

Não é nada de mais, é certo. Pelo mundo fora, milhões de mulheres têm dores e fome e mantêm-se de pé para tentarem manter-se vivas. Mas não é isso.

A questão é que Carolina foi 'vendida' desde que nasceu como o bebé perfeito, a menina perfeita, a noiva perfeita, a mulher perfeita, a mãe perfeita, a filha perfeita, a órfã perfeita, a viúva perfeita, e, com esta imagem, mostra bem que, mais do que perfeita, ela é humana. 

É certo que desde há uns anos a imagem das princesas tem sido dessacralizada, já não é possível manter aquela etérea imagem sempre tão deificada pela imprensa cor de rosa. Mas, ainda assim, pelo inesperado da imagem, pode dizer-se que, apesar de não ser pelos melhores motivos, Carolina continuou a congregar as maiores atenções.


***

A música é Grace Kelly interpretada por Mika a quem coube animar a noite no Baile da Rosa 2014.


*

Pernas suspensas com botas
Rui Chafes no CAM
Pois é. 

Era hoje que eu ia falar de Rui Chafes, João Tabarra, Pieter Hugo na Gulbenkian.


Até um Leitor me enviou fotografias da exposição do escultor no CAM e uma entrevista de Rui Chafes ao Público na qual ele diz que não sabe o que faz (- mas as fotografias que aqui tenho são minhas). 

Mas, uma vez mais, ponho-me a escrever sobre faits divers e o tempo passa e eu começo a bocejar e ando cansada e como não curo as constipações e está frio ou os miúdos pegam-me ou é de trabalhar num sítio sem janelas ou sei lá o que é, estou um bocado mal da garganta, a modos que a sentir-me, outra vez, meio constipada, e tenho mil reuniões, pegam-se umas às outras, e saio tarde, chego a casa às horas a que meio mundo já acabou de jantar e está na sala a descansar, e não consigo tempo para responder a mails ou comentários, não sei para que lado me virar, e esta semana até já tive uma festa de anos, e já fui fazer parte do turno da tarde a fazer baby sitting a um dos miúdos que estava doente, e nada disso é coisa demais mas o certo é que tudo junto faz com que chegue a esta hora e já não consiga dar uma para a caixa. Se calhar, se o tempo estivesse bom, talvez eu conseguisse escrever aqui até às duas da manhã fresca e inspirada mas, assim, o facto é que não consigo.

Uma bola sentada ao lado da minha filha
A bola é da autoria de Rui Chafes
A minha filha é de minha co-autoria
Eu queria dizer-vos hoje que as peças de Rui Chafes não são nada em concreto mas que eu gosto delas e os miúdos adoraram, andavam de volta, riam, chamavam a atenção uns aos outros e eu também gostei, deve ser o meu lado infantil. Gosto de coisas que não são nada ou que aparecem em lugares inesperados porque, se reproduzirem coisas a sério e em situações previsíveis, mais vale ver os originais e, por isso, gosto de ver coisas que não existem em mais lado nenhum, só na cabeça doida dos artistas.

Mas talvez fale disso amanhã. Se conseguir. Se não me puser a falar de outras coisas antes.

Agora tenho que me ir deitar. Estou cheia de sono e amanhã tenho a agenda preenchida de manhã até ao fim do dia, entre reuniões e conference calls, vai seu uma estopada das valentes; e nem sei se vou conseguir almoçar.



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Recordo: o vídeo do PS passado na televisão no Dia das Mentiras e onde se pode ver o mais trapaceiro dos trapaceiros, o mais perigoso dos perigosos, é já a seguir.


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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela quinta feira.


quarta-feira, abril 02, 2014

Ainda os desenhadores de letras - agora em português. "Lx Type. Eléctricos de Lisboa dão origem a novo tipo de letra" (os céus de Lisboa podem agora ser vistos numa folha de papel ou num ecrã de computador) e "O estilo de letra agora adoptado pelo Banco da Noruega é da autoria de um designer português", Rui Abreu. Este é o mundo inesperado e maravilhoso das letras.


No post abaixo falei-vos de um encantador de leões. Melhor: mostrei as imagens impressionantes de um homem que os leões respeitam como se de um seu igual se tratasse. Foi um Leitor, a quem muito agradeço, que mo enviou. 

Agora, aqui, falo de uma coisa muito diferente mas que me foi dada a conhecer também por uma Leitora.

[Sou uma felizarda. Abro a caixa de correio e tenho sempre presentes imprevistos e que muito me agradam.]

A todos agradeço e só lamento não ter tempo para a todos responder atempadamente e com o vagar que merecem.

*

No outro dia já aqui falei de uma profissão de que não nos lembramos quando usamos letras e com elas formamos palavras, profissão que, mais que uma profissão, deve ser uma paixão: a dos desenhadores de letras.


Pois bem. Agora, pela mão da Leitora a quem muito agradeço, trago-vos desenhadores de letras que falam português. 

Sobre a letra criada para Lisboa, a Lx Typetranscrevo: a cidade já ganhou um tipo de letra, feito a partir da malha criada pelos cabos dos eléctricos.



O alfabeto  Lx Type

Lisboa está na moda, ninguém duvida disso, e já há quem diga que se tornou a nova Berlim. Até a CNN avançou no início desta semana com sete razões para Lisboa ser considerada "a cidade mais cool da Europa", a saber: a vida nocturna (que põe Madrid a um canto em horários tardios), a cozinha experimental (com destaque para José Avillez), a ironia ("um mecanismo de defesa", dizem eles), praias e castelos, um "design fabuloso", a arte (da Gulbenkian ao Museu do Oriente) e, a acabar, as "ruas fascinantes". Esqueceram-se de outra razão, mas estamos aqui para a lembrar: Lisboa tem o seu próprio tipo de letra. Ainda por cima, desenhado a partir da malha dos cabos dos eléctricos que circulam pela cidade. How cool is that?

A letra G

A ideia de criar uma tipografia para Lisboa partiu de uma equipa da agência de publicidade Leo Burnett, que espera que a fonte "se espalhe pela mão de designers e artistas", explica o copywriter Jaime Nascimento, de 31 anos.

(...)

A letra M

Para pôr a ideia em prática tiraram fotografias aos cabos dos eléctricos da cidade e, com a ajuda do Photoshop, começaram a descobrir o alfabeto na malha - apostamos que, depois de ler isto, também vai começar a olhar com outros olhos para os cabos.

O resultado pode ser visto aqui onde a fonte Lx Type está disponível para download gratuito, para ser utilizada por toda a gente. 

No site, se passar ao de leve o cursor sobre cada uma das fotografias, verá a letra que dela nasceu.

E depois há as histórias. Lisboa. Os céus de Lisboa. A luz de Lisboa. O amor por Lisboa.


Lx Type - Histórias # 01 Para Sempre

Leonor Fonseca, a Fotógrafa




Lx Type - Histórias  # Rafael

O Condutor de Eléctricos




Este é o maravilhoso mundo dos criativos que tão bem registam e interpretam o que os rodeiam.

E abençoados os que amam Lisboa e os que a habitam.

Lx forever.


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Mas não fica por aqui a criatividade dos desenhadores de letras portugueses. Volto a transcrever:

Pelo nome 'Azo Sans', a tipografia eleita pelo Norges Bank é "inspirada nos alfabetos geométricos do fim dos anos 20". A aquisição dos direitos para uso da fonte de Rui Abreu aconteceu há poucos meses, depois de o banco norueguês entrar em contacto com um dos revendedores do designer. 


"A Azo foi desenhada com uma abordagem mais humanista, que a torna 'simpática' e calorosa, apesar do desenho marcadamente racional e depurado', conta ao Boas Notícias. "A geometria tem algo de apelativo ao nosso olhar e os tipos de letra geométricos mantiveram-se sempre intemporais, quer em termos 'branding' quer em editorial. E é precisamente nesta tradição que a Azo Sans se baseia, embora com um tratamento moderno". 

O interesse pela tipografia surgiu ainda na faculdade, mas longe de fazer prever que, atualmente, Rui dependesse exclusivamente da mesma. 

"Quando comecei a perceber o que era o design gráfico, dei conta que as fontes são desenhadas por alguém e que cada uma tem a sua 'voz' e comportamento consoante a aplicação a que se destina", revela o tipógrafo, natural do Porto. 

Desde então que a tipografia "passou a ser, naturalmente, a resposta para muita coisa". Aliando a sua "tendência natural para o desenho e uma certa inclinação artística", decidiu arriscar e criar, sozinho, as suas próprias fontes. Enquanto trabalhava para diferentes agências de design e publicidade, aproveitava os tempos livres para aprender a trabalhar com o software dedicado.

Hoje em dia a viver em Lisboa, Rui Abreu é 'pai' de doze famílias de fontes. (...) e as suas criações podem ser vistas aqui.


O que eu gosto de ouvir falar sobre isto. Dizer que um´tipo de letra é simpático e caloroso parece-me uma conversa misteriosa, cheia de enigmas. 

Será qualquer coisa de emocional que nos leva a identificar com um determinado tipo de letra? 

Quando mudo o visual do blogue tento sempre mudar também o lettering do título mas, por mais que experimente, parece que nenhum outro se identifica mais com o espírito do que por aqui se passa. Chama-se Permanent Marker, o que escolhi. Mas viajo sempre pelos tipos de letra, experimento, acho piada ao nome que lhes dão.

O que não me tinha lembrado (até há dias, quando recebi o filme que depois deu origem ao post acima referido), é que há pessoas por trás destas letras, pessoas que as pensam, as trabalham, as sentem, que ficam ligados a elas mais como pais do que como assépticos autores.



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Este é o maravilhoso mundo dos desenhadores de letras e quem muito ame as palavras deverá pensar nestes laboriosos artistas que as amam ainda mais, a ponto de inventarem novas formas para as letras que as compõem.


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de João Tabarra no Centro de Arte Moderna da Gulbenkian

Tinha estado a escolher fotografias para vos falar da exposição de Rui Chafes e de João Tabarra no CAM e outras (Gulbenkian) mas temo que seja coisa para um post longo e não é agora, à 1h, da manhã que o vou começar, iria dar para muito tarde. Além do mais, isto já vai longo e não quero maçar-vos para além da conta.




Por isso, fica para amanhã (a menos que o bando de pinóquios e piratas que nos desgoverna faça mais uma das suas e eu seja desviada das minhas boas intenções).


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Relembro: se descerem um pouco mais poderão ir ao encontro de um extraordinário encantador de leões.

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E, assim sendo, desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa quarta-feira e vamos esperar que o mau tempo comece a ir-se embora.
Estou farta de tanta chuva, de tanto frio, de tanto trânsito.
Para quando o sol, o calorzinho, os belos passeios à beira rio, as blusinhas leves, as pernas sem meias?


terça-feira, outubro 01, 2013

'Os Idiotas' de Rui Ângelo Araújo juntam-se a 'O Anão' de Pär Lagerkvist - 'Solte os Cachorros', diz Adélia Prado e eu peço a Claudia Galhós para trazer Pina Bausch porque me apetece ter aqui a vida em forma de dança. Mas, primeiro, vamos até 'Sob o Signo de Amadeo' no CAM não sem antes assistirmos a uma sessão fotográfica de um casamento extraordinário nos Jardins da Gulbenkian. O curto comentário sobre o PS de António José Seguro é, aqui, apenas um breve aparte.


No post a seguir a este transcrevo dois textos enviados por Leitores de Um Jeito Manso. O primeiro refere-se a um muito esclarecedor artigo de José Vítor Malheiros e o outro é um conjunto de citações de Natália Correia nas quais ela antevia algumas das desgraças que estavam para se abater sobre este mal estimado País.

Mas isso é mais abaixo. Agora, aqui, a conversa é outra.

*

De um verão tardio, quente e doce, das folhas que mal chegaram a amadurecer, que não chegámos a ver cheias do sangue suave que vem do lugar mais secreto da terra, eis que passamos directamente para a macieza da neblina, da chuva branca, constante, branda. 

A terra que estava quente deixa agora sair os seus odores mais íntimos. A natureza recolhe-se, envolta em seda húmida e nós recolhemo-nos com ela. A nossa casa é, assim, o ninho, o ventre, o aconchego.

Desde ontem que uma chuvinha quase imperceptível cai sem parar.  Lisboa hoje esteve britânica. Não sei se é nevoeiro, se somos nós no meio das nuvens. Também não sei se os vendedores de castanhas já chegaram ao Chiado. Dias assim combinam bem com um leve perfume a coisas queimadas, a braseiros, a lareiras.

Adiante.

Hoje deveria fazer o rescaldo das eleições, agora que os resultados são conhecidos e que já houve tempo para meditar sobre o sucedido. Mas eu sou pessoa de primeiras impressões. Já disse ontem, a quente, o que me parecia e agora já não me apetece chover no molhado.

De qualquer maneira um comentário deixado no texto sobre as eleições deixou-me a pensar. Foi esse comentário (do Leitor jar) e foi a crónica diária de Fernando Alves. Talvez eu esteja a ser injusta para com o António José Seguro. A resiliência de que tem dado mostras abona a seu favor. No entanto, acho-o excessivamente cauteloso, talvez calculista, e sem rasgo, sem aquela determinação quase predadora, aliada à intuição, a que vulgarmente se dá o nome de killing instinct e que me parece imprescindível para abrir caminho neste mar pejado de alforrecas. Mas talvez seja porque não o conheço bem, talvez seja porque pendo mais para quem tem ar de ser capaz de ser mal comportado (e ele tem ar de não partir um prato). É também certo que António Costa tem vacilado quando toda a gente esperaria que avançasse e não é menos verdade que, apesar de tudo, sempre tem tido o respaldo das lideranças do partido. Seja. Vou tentar ser mais open-minded e aguardar com alguma paciência que o Tozé me surpreenda. Tomara.

Mas agora vou falar de outra coisa, uma de que muito gosto de falar: livros.

No entanto, vamos por partes.


Este domingo, entre visitas familiares, eleições, caminhadas, culinárias e outros afazeres e prazeres, fui ver a exposição alusiva a Amadeo Souza-Cardoso que está no Centro de Arte Moderna da Gulbenkian, Sob o Signo de Amadeo, Um Século de Arte



Almoçámos lá, é claro, o self do CAM é um clássico nos meus domingos. E não escaparam os célebres peixinhos da horta, a bola panada de esparregado e outros acepipes, bem como o inevitável cup de fruta e as maravilhosas sobremesas. Claro que, com os pimentinhas a armarem confusão, o almoço nunca é tranquilo mas, enfim, os benefícios da tranquilidade são relativos quando se pode optar pelos risos, pelas brincadeiras, pelas conversas descontraídas.

Naturalmente que tivemos também o habitual número dos patos e as corridas pelos caminhos no meio dos bosques, à beira dos lagos ou entre as pedras, esconderijos, canaviais e todos esses atractivos que fazem a delícia de pessoas de todas as gerações. Entre a chuva miudinha lá andámos como se estivesse um dia de sol.

Este domingo, contudo, os jardins da Gulbenkian tinham um atractivo suplementar.

Um casamento em peso deslocou-se até lá, presumo que para a realização da sessão fotográfica.

A particularidade era que se tratava de um casamento negro com umas toilettes do mais vistoso e colorido que se pode imaginar.

Os sapatos delas, então, eram qualquer coisa de extraordinário.

Alguns pejados de brilhantes, todos com saltos de meio metro de altura.

Por ali cirandavam, decotadas, engalanadas, e encavalitadas em cima daquelas obras de arte, com os pés ora se enterrando na terra húmida ora tendo que ter mil cuidados para não ficarem com os saltos presos nas pedras da calçada.

Andavam sorridentes, fotografando-se umas às outras, uma animação que dava gosto.

Nem reparavam nos turistas nem nos habituais frequentadores da Gulbenkian, era como se aquele fosse apenas um jardim quase privado onde se tinham reunido para fazer uma magnífica sessão fotográfica.

Tive vontade de lhes pedir que me autorizassem a fazer a minha própria reportagem fotográfica, tão espantada e deliciada eu estava com tudo aquilo.

Mas, como sempre, não me permitiram, fui arrastada para longe do cenário.


Mas, voltando ao Amadeu. O Centro está como que em festa. Um prazer andar por lá.

Por todo o lado há ‘cenas’.

Logo no grande átrio de entrada há cadeiras em cima de uma carpete, estantes, coisas assim. Olhámos à volta não fosse aquilo ser uma instalação. Temos esta coisa com a arte contemporânea: o nosso olho ainda não está suficientemente educado. Mas não nos pareceu.

Mal os pimentinhas se puseram em campo, a primeira coisa que fizeram foi dirigir-se cada um a sua cadeira, como se prontos para assistir a um qualquer espectáculo.

Ainda mal eles estavam a trepar, já uma funcionária vinha a correr, que não, que não, que aquilo era uma instalação. Olhámos em volta tentando perceber. Depois lá descobri uma descrição numa parede.

Podem ver aqui já com público e talvez sejam mais espertos que eu e percebam exactamente de que se trata.

Não vou aqui falar de tudo, apenas dizer que o espaço de exposições do Centro é luminoso, amplo, parece ligado aos jardins,  e qualquer obra parece valorizar-se ainda mais quando ali exposta.

Quem o conheça, concorda certamente comigo. Quem o não conheça e tenha oportunidade, não deixe de o vir conhecer. É magnífico.

Enquanto eu fiquei logo presa aos bonecos do José de Guimarães que estavam na entrada, os pimentinhas partiram à descoberta, parando num outro conjunto de cadeiras mais à frente (se tiverem clicado no link mais acima, poderão ver de que estou a falar).

Quando cheguei perto deles, ali andavam de roda, podemos? Não podemos? E já de perna alçada, prontos para se irem aboletar - e todos a travá-los, que não, que não, é uma obra de arte, então não ouviram o que a senhora disse? 

Mas eis que um outro funcionário se nos dirigiu, que sim, que se quisessem podiam sentar-se.

Vá lá a gente perceber estes artistas contemporâneos.

Mas é bom que as crianças, desde pequenas, tomem contacto com coisas bizarras, isso abre-lhes a cabeça para aceitarem a diferença.


Mas não era exactamente sobre isto que eu hoje ia escrever.

Hoje era sobre o regresso ao aconchego da casa, ao ninho. Para o ninho para o qual eu transporto laboriosamente aquilo com que me vou abrigar, aquilo de que preciso para me aconchegar e proteger das inclemências. Hoje falo, portanto, de livros.


Para vos mostrar, fiz a minha própria instalação. Sobre uma écharpe em tons saison, antracite, terra e ouro, dispus Os Idiotas de Rui Ângelo Araújo e fi-los acompanhar de outros que lhe fizessem boa companhia.





Ainda não tive tempo de ler Os Idiotas. Folheei apenas. A mancha de escrita na página começou logo por gerar em mim alguns anti-corpos. Gosto de páginas cuja escrita não seja invasiva, que deixe algum espaço para respirarmos. Talvez para poupar no número de folhas, e esse será certamente um argumento muito válido, a escrita invade a página em mancha demasiado compacta e até muito abaixo. Será uma barreira que vou ter que ultrapassar. Ainda por cima, a sinalefa da editora ao lado de cada número de página não acrescenta e, pelo contrário, introduz ruído na página. (Pormenores, claro: sou muito cheia de comichosices, eu sei)


Mas, do que li, em diagonal e salteado (é sempre assim a minha primeira abordagem), pareceu-me apelativo e deixou-me com vontade de ler com vagar.

Transcrevo um excerto (pag.32) apenas para dar o tom:

Devo dizer que o mito de Édipo não é para aqui chamado. Eu não estava a confundir a cidadezinha com o velho e a última coisa que me teria ocorrido seria casar com a minha própria mãe. O rapaz que eu fui queria partir sabendo que deixava para trás também a velha. Era um pack que na época me entusiasmava, três em um. A ela tinha-lhe amor filial, mas era demasiada feia e gorda para despertar em mim outro género de paixões. Não vou ser hipócrita ao ponto de dizer que o amor é cego. Pelo menos o amor carnal não o é, não me lixem. Aliás, não é alheio a essa constatação o visual que fui descuidando com esmero. Houve uma altura em que pretendia foder amiúde; como depois o que queria era que não me fodessem, decidi escolher um estilo adequado e deixá-lo arruinar-se por si mesmo. (Talvez não tenha sido bem uma decisão, mas estão a perceber.)


Porque me parece que seria uma boa companhia para Os Idiotas fui buscar O Anão de Pär Lagerkvist. Eis, pois, um excerto deste livrinho imperdível (pag.19):


O confessor da princesa vem aos sábados de manhã, a uma hora fixa. Há muito tempo que ela está lavada e vestida, tendo passado um bom pedaço em oração diante do crucifixo. Está bem preparada para a confissão.
Não encontra nada para confessar. E não é por hipocrisia nem por ardil; pelo contrário, fala com o coração nas mãos. Mas não faz a menor ideia do que seja pecado. Crê não ter feito nada de mal. Quando muito, acusa-se por se ter impacientado contra a camarista, por esta ter sido desajeitada ao penteá-la. É uma página branca sobre a qual se inclina, sorrindo, o confessor, como sobre uma virgem imaculada.


E, para enquadrar devidamente aqueles dois, chamei a Adélia Prado com o seu ímpar Solte os Cachorros (já aqui a trouxe antes mas, porque me agrada muito, tem direito a encore). Um bocadinho apenas (pag 46):


Um minuto de estrondo à idade reencontrada. As taças para um brinde, porque hoje sou de novo uma mulher de sutiã grená, polindo os dentes sem pressa e desenhando a boca em coração. Basta, nem só eu respondo pela fome do mundo, e vou certificar-me: se ainda me olham duas vezes, se ainda intimido, se pelo que amo ainda faço a face dos homens abrandada e ansiosa. Enquanto dura a trégua, vou guerrear.


E, porque never mind the gap,  não podia faltar Pina Bausch. Vem pela mão de Claudia Galhós (pag 206) e vem dançar para quem goste da vida inteira.


Tão vivas as emoções que se permitiam surgir ardentes em cena, viscerais, violentas, sedutoras, esmagadoras. E tudo isso pareceu ruidoso num mundo amordaçado, silenciado pelo assassínio em massa, pela devastação da vida humana, pelo medo de se exprimir.
As emoções escondiam-se, por entre os lençóis, à noite, para não acordar o vizinho e não denunciar a existência de um coração pulsante. A vida escondia-se muito lá no fundo e, quando a dança acontecia, as pessoas queriam esquecer. Esquecer tudo. Principalmente a vida lá fora. Com Pina Bausch isso não foi mais possível.


Não esqueçamos, pois




Apetecia-me ainda juntar a estima de Valdemar Cruz pelo Poeta Cansado, António Ramos Rosa, mas já não consigo, são duas da manhã e daqui a nada tenho que estar a pé. Por este motivo não vou conseguir reler este texto que me saíu outra vez longo demais pelo que vos peço que relevem trapalhadas, vírgulas voadoras, letras trocadas, coisas do género. Ainda por cima isto hoje está de uma lentidão horrorosa, ou é o computador ou é a internet, não faço ideia, eu escrevo uma coisa e o cursor ainda está lá para trás, depois reescrevo e aparecem-me as coisas escritas duas vezes, depois volto atrás para apagar e nunca mais lá chego. Um desespero.

*

Relembro que, se descerem um pouco mais, poderão ler um artigo imprescindível de José Vítor Malheiros e excertos premonitórios de Natália Correia.

*

Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela terça feira!

segunda-feira, março 25, 2013

Passear em Lisboa, na Expo, junto às Tágides do Tejo e a Catarina de Bragança. Depois os Desastres da Guerra, Sombras do Medo de Graça Morais (na Fundação Arpad Szenes Vieira da Silva). Depois do almoço no CAM, Exposição 360º - Ciência Descoberta na Gulbenkian


Hoje o passeio foi por outras bandas. Com a Ponte 25 de Abril cortada ao trânsito devido à Meia-Maratona, hoje de manhã fomos caminhar à beira-rio (claro, sempre à beira-rio), na zona da Expo, Parque das Nações.

Entre sol e chuva, nuvens e abertas, o passeio rente ao rio estava cheio de gente. A pé, a passo ou a correr,  com crianças, gente de idade, uns de bicicleta, uns com cães, outros sem cães, uns a fazer ginástica, outros a fotografar, ali é, sem dúvida, um lugar muito agradável para respirar ar limpo e sentir uma natureza  em parte desenhada, diria cosmopolita.




Nestas alturas sinto que sou transparente. Parece que ninguém me vê. Eu vou por ali, silenciosa, olhando, fotografando. Quem passa conversando, não reduz o tom de voz quando passa por mim e eu vou ouvindo o que dizem.

Ela diz que quer ter um filho, já viste?

É normal. 

Normal? Pá, não pensei ter outro filho. Já viste?

Pois. Os outros já crescidos. Mas é normal que ela queira.

E agora, já viste? faço o quê?

E lá se afastam, e passam outros, Pá, isto não tem saída.

E depois passa uma correndo, arfando. E depois passa outra com phones e vai cantando. E nós, que não ouvimos o que ela ouve, só a ouvimos a ela, cana rachada, cantando alto, na maior das naturalidades...

E depois outros fazem ginástica, deitam-se no chão. A Ponte Vasco da Gama quase ali ao lado.



Desporto sobre o Tejo


E há várias pontes assim, e não serão bem pontes, mais uns passadiços sobre o rio e vistos de longe parecem-me palafitas.



Ao fundo a ex-Torre Vasco da Gama, agora o hotel  Sana Myriad, um luxo de localização


Depois de ter estado uns dias nas cidades e vilas junto à Serra da Estrela em que dá ideia que as pessoas se conhecem todas ou, mesmo que não se conheçam, reparam umas nas outras, aqui ninguém olha para ninguém. Casais abraçados e quem é que quer lá saber se são legítimos ou clandestinos, mulheres sozinhas, gente vestida como quer, gente a apanhar sol apesar de estar frio e de chover a cada cinco minutos. 

Não sei o que é melhor, se é este espaço de indiferença ou o espaço de proximidade dos lugares mais pequenos. Sei que eu é nos grandes espaços anónimos que me sinto bem. Sempre assim foi e acho que sempre assim será.



Homem à pesca quase debaixo da Ponte Vasco da Gama


Quando vejo alguém assim, como o pescador que é pouco mais que um irrelevante ponto na paisagem, sinto que é também assim que eu sou. Insignificante, quase invisível, um ser quase transparente que caminha na beira do rio, em harmonia com a natureza.

Num local como este, apenas se passa alguém conversando, há um som. É tudo muito silencioso.



O lago das Tágides, as Ninfas de João Cutileiro


Num lago, há mulheres nuas que se banham, que brincam umas com as outras, seios à vista, braços ao alto. Lavam-se, riem, umas sentadas, outras deitadas, impúdicas, alegres.

Talvez que se, em vez de serem de pedra, fossem de carne e osso, as pessoas passassem sem estranhar. Talvez as fotografassem como eu fotografo as ninfas de pedra mas não mais que isso.

E, mais à frente, uma rainha de bronze, formosa, bonita. Catarina de Bragança.



Catarina de Bragança da autoria de Audrey Flack (Nova Iorque, 1931).


Vestido ondulando, fitas esvoaçando, é uma presença inusitada aqui à beira do rio e parece que também ninguém a vê. Transparente como eu.

E nem as gaivotas soltam os seus estridentes gritos. Aqui estão silenciosas. Deslizam no rio como sílfides.

Outras, muito sossegadas, olham o rio.



Sentindo a aragem fresca do rio, pensando na sua vida


E depois vamo-nos embora. Não me lembrei da Poesia no CCB. Só agora, lendo um comentário num dos textos mais abaixo, me lembrei. Que pena.

De qualquer forma, tinha uma pendência por cumprir e, por isso, lá fomos.

O destino era o Jardim das Amoreiras, um Jardim que conheço muito bem, que já muito frequentei e que se mantém inalterado, ano após ano. Um lugar bom para se estar.



Vieira da Silva agora


O destino era, pois, a Fundação Arpad Szenes Vieira da Silva. Claro que aproveitámos para ver as obras da Vieira da Silva e do marido, Arpad Szenes, sempre um grande prazer. Mas, depois, o objectivo era ver a exposição da Graça Morais, Os desastres da Guerra.


Palavras de Graça Morais

Sombras do medo
Pinturas nas quais homens e mulheres se transmutam em animais. animais que ganham a força dos heróis.
Anjos que carregam nos seus braços seres que são resgatados do Inferno e dos desastres das guerras e das doenças


Não são obras fáceis de ver. Incomodam. Ferem. Ferem porque são feridas expostas. Ferem. Por vezes, temos vontade de desviar o olhar.




Alguns não sabemos se dormem, se estão mortos, se estão apenas desamparados. Ou com medo.

Mais à frente uma vitrina cheia de recortes mostra onde Graça Morais foi buscar estas imagens. Não as inventou. É gente de verdade.



Repare-se na imagem das crianças deitadas cobertas de branco e atente-se no desenho acima


São imagens de dor, de gente que foge, de mães que seguram os corpos dos filhos, pungentes pietàs, gente caída, ensanguentada, crianças.



O medo, a tristeza, o amparo, os animais

Há um sofrimento grande que transparece, que sai das telas. Há muita violência. Incomoda. Incomodam os rostos gastos e sofredores.


Palavras de Graça Morais:

A caminhada do Medo
Fuga do Caos e do Abismo. São milhões de seres humanos que migram em busca de um futuro melhor. Fugidos de guerras, de genocídios, do terrorismo, de catástrofes naturais, lutando numa cruzada contra a fome, a doença, as injustiças sociais e as perseguições políticas.


Nestas obras de Graça Morais o que vemos é que são animais que nos regem, são animais, somos animais, somos seres irracionais. Quem faz a guerra? Quem comanda o mundo? Pessoas como nós? Animais? Animais como nós?




E há fogo no ar, sangue, beligerância e há a grande besta que tudo destrói. E há o cansaço, o fim da linha, o fim do sonho.



Um Chagall ao contrário: não há sonho, não há romance, fantasia.
Em Graça Morais, nestas obras, há sombras, medo, cansaço, guerra, dor, fome, morte


Trouxe uns livros, tenho-os aqui e gostava de amanhã ter o dia todo para os ler, para passar as mãos pelas páginas macias.

Depois, Gulbenkian. Almoço no CAM. A seguir, Exposição 360º - Ciência Descoberta (exposição sobre a ciência ibérica na época dos descobrimentos) que fez os encantos dos meninos. Olha! Olha! Rinocerontes, crocodilos, pinguins. Mas disso já não vou agora falar porque não era permitido tirar fotografias e porque senão isto vai levar horas a ler e vocês rifam-me...

Mas, antes de me ir embora, e porque falar da Gulbenkian sem falar dos Jardins e dos patinhos até parecia mal, aqui vos dou conta que há imensos patinhos bebés, uma ternura.



Patos, Patas e seus filhotes Patinhos - nos lagos dos Jardins da Gulbenkian

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Este é o meu segundo texto de hoje aqui no Um Jeito Manso. A seguir poderão ver um texto e imagens relativos a um vestido espectacular de Joana Vasconcelos a propósito da sua Exposição no Palácio da Ajuda e outros modelitos dos StoryTailors


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Apesar de isto por aqui, no UJM, ser dose, ainda arranjo coragem para vos convidar a ir dar uma espreitadela ao meu Ginjal e Lisboa. Hoje as minhas palavras juntam-se às de António Ramos Rosa para falar de um país adormecido que repousa à beira mar e, a seguir, uma música bonita demais, a Dança dos Espíritos Abençoados de Gluck numa coreagrafia de Pina Bausch.

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Resta-me, por hoje, apenas desejar-vos uma bela semana, a começar já por esta segunda feira. 
Que a tristeza paire bem longe de vós. Saúde e alegria é o que vos desejo, meus Caros leitores.