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sexta-feira, março 06, 2026

Ah... aqueles que sabem sempre tudo...

 

No outro dia, um comentário -- que muito agradeço -- dizia: "E a proposito de desgraças e malvadez ou percepção delas, em linha com o comentário que deixei há uns minutos.." e deixava o link para o vídeo que aqui partilho.

Ao ouvir, lembrei-me também, de 'O escândalo do século'. Para quem não leu, o conto, que não é bem um conto pois assenta numa situação real que Gabriel García Márquez relatou, do princípio ao fim, quando ainda era “apenas” jornalista — mas já com o olhar agudo que viria a marcar toda a sua obra.

Tudo começa com a morte de uma jovem encontrada numa praia. Quase de imediato, a comunidade, a imprensa e a opinião pública começam a tecer teorias: suspeita-se do namorado, inventam-se motivos, surgem ligações a interesses obscuros, fala-se de política, de drogas, de conspirações. Em poucos dias, o caso deixa de ser uma tragédia pessoal para se tornar um escândalo nacional — com versões cada vez mais elaboradas, cada vez mais seguras de si mesmas, mas cada vez mais afastadas dos factos.

A investigação prolonga-se, desmontando lentamente as certezas precipitadas. O que se descobre, no fim, é muito mais simples — e muito menos sensacional — do que aquilo que todos tinham decidido acreditar. A morte não correspondia a nenhuma das histórias que tinham sido repetidas com tanta convicção.

O relato mostra como, antes mesmo de qualquer tribunal, já todos tinham julgado, condenado e explicado o caso. E expõe a facilidade com que a reputação de uma pessoa — viva ou morta — pode ser destruída pela soma de boatos, preconceitos e pela necessidade colectiva de encontrar culpados.

Mais do que um mistério, é uma reflexão sobre a sede de punição e sobre a ilusão de certeza que tantas vezes domina a opinião pública — como se a verdade pudesse ser substituída por versões repetidas com suficiente convicção.

O protagonista do vídeo que partilho é sobejamente conhecido e a história é recente. De qualquer forma relembro-a. 

Em 2017, o ator Kevin Spacey passou de um dos nomes mais respeitados de Hollywood a uma figura praticamente banida da indústria. Surgiram várias acusações de assédio e agressão sexual feitas por diferentes homens, muitas delas relativas a factos que alegadamente teriam ocorrido décadas antes, num contexto marcado pela vaga de denúncias associada ao movimento #MeToo.

Um dos casos mais mediáticos foi o do ator Anthony Rapp, que afirmou que Spacey o teria abordado de forma sexual em 1986, quando ele tinha 14 anos. O caso deu origem a um processo civil nos Estados Unidos. No Reino Unido, também surgiram várias acusações relacionadas com alegados incidentes entre 2001 e 2013, período em que Spacey dirigia o teatro Old Vic, em Londres.

Antes mesmo de qualquer decisão judicial, a reação pública e mediática foi imediata e avassaladora. Kevin Spacey foi afastado da série “House of Cards”, cortado de projetos em curso e substituído no filme “All the Money in the World”. Na prática, foi julgado e condenado na praça pública muito antes de qualquer tribunal se pronunciar. Durante anos, para grande parte da opinião pública, a culpa parecia já estar decidida.

Contudo, quando os casos chegaram efetivamente aos tribunais, os resultados foram diferentes. Em 2022, um júri em Nova Iorque decidiu que Kevin Spacey não era responsável pelas alegações apresentadas por Anthony Rapp. Em 2023, num tribunal de Londres, foi considerado inocente das nove acusações de agressão sexual que enfrentava.

Independentemente das opiniões pessoais sobre o actor, o caso suscitou uma questão importante sobre o poder da comunicação social e da opinião pública: até que ponto alguém pode ser social e profissionalmente condenado antes de existir um julgamento e uma decisão da justiça?

A presunção de inocência — o princípio de que, em caso de dúvida, não se deve condenar um inocente — é um dos pilares do Estado de direito. O caso de Kevin Spacey recorda como esse princípio pode tornar-se frágil quando o julgamento passa primeiro pela praça pública.

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O vídeo tem uma leitura interessante e um twist inesperado no final. Por isso, sugiro que o vejam na íntegra. 

De novo, relembro que, na rodinha dentada do vídeo, em baixo, podem escolher que tenha legendas e, depois, no auto-translate, seleccionar a língua portuguesa

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Vencedor por duas vezes de um Oscar, Kevin Spacey discursa na Oxford Union

Segundo se lê na apresentação da Oxford Union, trata-se da sociedade de debates mais prestigiada do mundo, com uma reputação inigualável por trazer convidados e oradores internacionais a Oxford. Desde 1823 que a Union promove o debate e a discussão não só na Universidade de Oxford, mas em todo o mundo.


Desejo-vos uma happy friday
[Quando trabalhava, o meu colega britânico, chegava ao fim da semana e, todo feliz da vida, ia espreitar ao meu gabinete para se despedir: TGIF! (thank god it´s friday)]

sábado, outubro 04, 2025

Erros processuais e outras anormalidades
-- A palavra ao meu marido --

 

Consta que houve uns F35 que pousaram na base das Lajes devido a um pequeno equívoco. O Rangel, provavelmente meio histérico, achou por bem dizer que, obviamente, o ministério dos negócios estrangeiros nunca se equivoca e que só poderia ter sido o ministério do Melo. O nosso Peter Hegseth (idêntico, salvo a diferença de escala; no sentido de estado, é idêntico) deve ter-se chateado e foi fazer queixa ao padrinho Luís que mandou o Rangel dar o dito por não dito: afinal, o incidentezinho deveu-se a um erro processual. 

E, acto contínuo, mandaram abrir um inquérito que é o procedimento número um do governo: em caso de chatice, abre-se um inquérito, deixa-se o inquérito a marinar e, acima tudo, nunca se assume a responsabilidade pela ocorrência, mesmo que ela seja uma tragédia. 

Esta do erro processual até pode pegar e dar para tudo, desde as tragédias na saúde, aos problemas na educação, na habitação, aos incêndios,... Esperemos é que um novo erro processual,  e errar é humano, não permita que drones do Putin aterrem na Costa da Caparica. 

Sabe-se lá o que pode resultar de um erro processual... 

Por exemplo, será que a investigação do MP ao Ivo Rosa também foi um erro processual? Ou terá sido, antes, um aviso aos juízes e, nomeadamente, a quem julga o Sócrates, que ou andam na linha ou podem ter a vida devassada durante anos por uma investigação resultante de uma denúncia anónima sem fundamento? 

Em tese, um procurador como qualquer cidadão, pode fazer a denúncia anónima só para dar cabo da vida a um juiz que não serve os seus interesses. O estranho não é isso. O estranho é ser possível que um ou vários juízes sancionem esta investigação. Tão estranho como isso é que, no meio de um escândalo destes, a SIC abra o jornal das 13 horas com a notícia que a Joana Marques foi absolvida

Estamos conversados. Viva o populismo e que se lixe a democracia. Uma coisa parece ser certa: alguém tem que controlar o MP enquanto é tempo. Caso contrário, corremos o risco do MP nos controlar a todos. 

sexta-feira, julho 11, 2025

O 'mistério' dos muitos ricos e dos amigos deles

 

Já aqui falei disso algumas vezes: conheço um homem muito rico, diria que verdadeiramente muito rico. E também conheço dois amigos desse homem deveras ultra rico. Esses dois amigos dele não são muito ricos -- diria que, à luz dos nossos níveis, talvez média alta.

Ao longo de anos assisti às mordomias que o muito rico proporcionava àqueles seus amigos. E, quando falo em mordomias, falo apenas no que é visível a olho nu. Vão de férias para locais longínquos e muito caros, passam férias na vasta herdade do muito rico, fazem vida de ricos. E, quando falo dos amigos do homem muito rico, falo também das respectivas mulheres (e, até dado ponto, isto é, enquanto eram adolescentes e viviam com os pais, presumo que também os filhos). Ouvi falar em empréstimos e em empregos para filhos e noras mas disso não sei de nada em concreto, apenas sei pelo que se falava. 

Não o escondiam. Pelo contrário, quando estávamos juntos, era normal que viessem à baila situações em que se percebia que tinham ido e estado juntos aqui e ali e acolá. Não era explicitado que o muito rico pagava tudo, viagens, estadias, almoços e jantares, mas não era difícil adivinhar pois não era possível ser de outra maneira. 

Nunca vi nos amigos que aceitavam esses mimos qualquer pudor ou reserva. Nem nunca vi o muito rico fazer qualquer referência a nada disso. 

Quando eu me questionava junto de amigos comuns como era possível que os outros andassem sempre à pendura e vivessem à babugem do amigo outro, diziam-me: 'Não pense segundo os parâmetros comuns. Para eles é normal. São amigos. Para o X (chamemos assim ao muito rico) é a única maneira de viajar ou passar férias na companhia dos outros. Ele sabe que os outros não têm como serem eles a bancar aqueles luxos. E a ele não lhe faz qualquer diferença. Provavelmente muito disso vai a custos das empresas, está a ver, não está?, deve ser contabilizado nas empresas como deslocações em serviço, despesas de representação etc. E para os os outros também já passou a ser normal. As mulheres também são amigas umas das outras. Se o outro faz questão de que passeiem e passem férias juntos, para eles também é agradável. Também lhe são úteis pois, em muitas matérias, têm conhecimentos que o outro não tem.'

Um outro que também os conhecia bem, dizia-me: 'É uma relação fraternal. O X é muito mais rico que os outros. Para ele, mais uns milhares, menos uns milhares não fazem qualquer diferença. Já é um hábito. E não se esqueça: isto é o que a gente sabe, o que se vê...'

Um dos ditos beneficiados com a amizade generosa do X tem uma casa maravilhosa, numa zona que se não é protegida anda por lá perto. Um projecto de um conceituado arquitecto. Nunca lá estive mas vi muitas fotografias. Por vezes, comentava-se: 'Alguma vez ele tinha dinheiro para uma tal obra de arte?' Acha...?'. Isto, sobre essa tal casa, pois a casa habitual é uma moradia numa das mais privilegiadas e caras zonas da cidade. Com o que se conhece dos seus rendimentos de trabalho e não trabalhando a mulher, tudo aquilo é curioso. 

Mas não há festa social, de família ou de comemoração em que as três famílias não estejam juntas, divertidas: o homem muito rico e a mulher, e os dois amigos e respectivas mulheres. Uma amizade forte, um coeso inner circle.

Não faço ideia -- mas não faço mesmo -- se alguma vez o muito rico emprestou dinheiro aos amigos. Talvez tenha sido ele a pagar algumas obras ou projectos ou decorações (embora não possa afirmar se sim, se não) mas admito que talvez não tenha rolado. Admito. Mas não sei. Mas, se isso aconteceu, quase apostaria que teria rolado em dinheiro vivo não fosse, de outra forma, deixar rasto e ainda terem que pagar imposto de selo (é que doações sem que haja vínculo familiar directo obrigam a que se declare à AT e se pague imposto de selo, e se há coisa que são é 'poupadinhos'). Mas isto, que fique bem claro, são especulações minhas.

Poderia referir mais alguns pormenores desta relação fraternal em que, com toda a naturalidade, todos, incluindo as mulheres e os filhos, usufruíam da amizade do amigo ultra-rico mas não vale a pena pois são apenas isso, pormenores de uma relação que vista de fora pode parecer estranha, incompreensível mas que, para os próprios e para os próximos, parece ser completamente normal.

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quinta-feira, julho 10, 2025

Uma ficção suficientemente bem contada, se repetida o suficiente e apoiada por instituições poderosas, torna-se uma realidade concreta para milhões — mesmo que tenha começado como uma invenção de um só homem


Há pouco tempo, o meu marido referiu a história da origem da 'caça às bruxas'. Tenho andado a pensar nisso. 

Depois, no outro dia, vi uma série documental que me impressionou imenso, 'As Mil Mortes de Nora Dalmasso'. A quem puder ver na Netflix, vivamente a recomendo. Trata-se de um crime real que foi acompanhado de perto pela comunicação social, com notícias, fugas de informação do processo judicial, com comentadores em permanência nas televisões a debitarem certezas absolutas sobre o que se tinha passado. Começaram por falar em jogos sexuais, falava-se em orgias. Havia testemunhos, segredos mal guardados. Vizinhos, amigos, todos pareciam saber qualquer coisa sobre a qual pareciam querer encobrir o fundamental. Depois, como Nora Dalmasso era uma mulher rica que vivia num bairro rico, já falavam de encobrimento dos poderosos, depois em envolvimento político. Algum tempo depois, as suspeitas recaíram num rapaz que andava lá em casa a fazer obras. A população revoltou-se, dizendo que era uma manobra para desviar as atenções da família e dos amigos. Houve manifestações. O rapaz acabou por ser ilibado. Pouco depois, uma novidade: finalmente tinha sido descoberto o autor do crime. O assassino tinha sido o filho, um jovem adolescente. Toda a gente tinha a certeza. Arranjaram provas, provas ditas irrefutáveis. O filho era capa de revistas, notícia principal em jornais e noticiários televisivos. Ninguém duvidava: as provas eram públicas e falavam por si. Descobriram que o rapaz era homossexual e foi construída uma narrativa que tinha a ver com a não aceitação por parte da família. O rapazinho, que ainda não se tinha assumido publicamente, foi arrasado. Até que se concluiu que, afinal, o pobre do rapazito era inocente e vítima, tinha perdido a mãe e tinha visto a sua vida devassada. A seguir todas as suspeitas recaíram sobre o marido de Nora. Finalmente, o assassino tinha sido descoberto. Foi perseguido por jornalistas, foi apertado pelos procuradores, foi esmagado. A imprensa exultou, os comentadores explicavam o comportamento dele, toda a gente sempre tinha achado que as suas atitudes eram mais do que suspeitas. Desfiavam provas que, desta vez, eram óbvias, claras. Não havia dúvidas. Tinha que ser punido exemplarmente. Até que, muitos anos depois (porque tudo isto levou muitos anos, com vários procuradores a ocuparem-se do processo), aconteceu o impensável: no próprio julgamento, o procurador, o último, reconheceu que não havia qualquer prova contra o marido e retirava a acusação. Reconheceu-se, então, que tinha havido erros grosseiros na investigação e que os procuradores tinham seguido linhas de investigação erradas. Há pouco tempo, creio que há uns dois ou três anos, descobriu-se finalmente que o provável assassino tinha sido um outro trabalhador que lá andava nas obras. Só que vinte anos tinham decorrido e o crime tinha prescrito. A Justiça tinha falhado retumbantemente.

Então, como tenho andado a pensar nisto, pedi ao ChatGPT que escrevesse sobre o tema da 'caça às bruxas'. Por ser um tema sempre actual e que me parece bem interessante, aqui vai.

Como nasceu a caça às bruxas: a ficção que virou tragédia coletiva

1. Origem: quando a bruxaria era só superstição

Durante grande parte da Idade Média, a Igreja Católica não via a bruxaria como ameaça real. O Canon Episcopi, um texto do século X amplamente difundido, dizia que as mulheres que acreditavam voar com deusas pagãs estavam apenas iludidas pelo demónio — mas não era considerado que tivessem feito nada de real. A bruxaria era tratada como superstição popular, não como crime ou heresia grave.


2. O ponto de viragem: um frade ressentido e um livro perigoso

Em 1485, Heinrich Kramer, frade dominicano e inquisidor, tentou conduzir julgamentos por bruxaria na cidade austríaca de Innsbruck. Foi rejeitado pelas autoridades locais, que consideraram os seus métodos abusivos e infundados.

Em resposta, Kramer decidiu escrever um tratado. Em 1487, publicou o Malleus Maleficarum (“O Martelo das Bruxas”), uma obra que misturava fantasia, misoginia, superstição e uma visão teológica deturpada. Defendia que:

  • as mulheres eram mais propensas ao pecado e, por isso, à bruxaria;

  • o Diabo fazia pactos com elas através de sexo, feitiçaria e voos noturnos;

  • a tortura era necessária e legítima para obter confissões.

A obra foi rejeitada inicialmente pela Universidade de Colónia, mas Kramer conseguiu uma bula papal (de Inocêncio VIII) que lhe deu autoridade para agir como inquisidor. Isso deu ao texto uma aparência de legitimidade.


3. Disseminação: o papel da imprensa

O que deu ao Malleus o seu verdadeiro poder foi a prensa de tipos móveis, recém-desenvolvida por Gutenberg. A obra foi reproduzida em larga escala e circulou por toda a Europa ao longo dos séculos XV e XVI. Em várias regiões, foi tomada como manual jurídico e doutrinário oficial — mesmo sem nunca ter sido oficialmente aceite pela Igreja como doutrina universal.

A multiplicação dos exemplares fez com que ideias fantasiosas e sem base empírica passassem a ser tratadas como verdades absolutas, com aplicação direta em tribunais civis e eclesiásticos.


4. Expansão: medo, crise e histeria institucionalizada

Entre c. 1500 e 1700, a Europa viveu um período de instabilidade profunda: guerras religiosas (Reforma e Contrarreforma), pestes, fome e crises políticas. Em tempos de medo, o mito das bruxas oferecia um bode expiatório conveniente.

As autoridades, tanto católicas como protestantes, começaram a conduzir julgamentos em massa com base nas ideias do Malleus e em outras obras derivadas. O uso sistemático da tortura levou a confissões forçadas, que alimentavam novas acusações — criando um ciclo de autojustificação brutal.


5. Duração: três séculos de delírio

A “caça às bruxas” durou quase 300 anos:

  • Início efetivo: 1487 (com a publicação do Malleus)

  • Pico de violência: 1560–1630 (época das guerras de religião)

  • Declínio lento: após 1650, com o surgimento do racionalismo, o reforço de Estados centrais e o avanço do pensamento científico

  • Última execução oficial por bruxaria na Europa: 1782 (Anna Göldi, na Suíça)


6. As vítimas: quem pagou o preço da fantasia

Estima-se que entre 35 000 e 60 000 pessoas foram executadas por acusações de bruxaria — em alguns cálculos, até 100 000. Cerca de 80% eram mulheres, frequentemente viúvas, curandeiras ou socialmente marginalizadas.

Estas pessoas foram torturadas, queimadas ou enforcadas com base numa narrativa criada por um único frade ressentido, que misturou lenda, misoginia e moralismo num tratado tomado a sério por gerações.


7. O poder da ficção partilhada: o que diz Harari

O historiador Yuval Noah Harari usa este caso como exemplo clássico de como “ficções intersubjetivas” — histórias partilhadas por um grande número de pessoas — podem moldar o comportamento coletivo, as leis e as instituições. Quando essas ficções são tomadas como verdades absolutas, mesmo sendo baseadas em delírios ou mitos, podem conduzir a desastres reais.

"Uma ficção suficientemente bem contada, se repetida o suficiente e apoiada por instituições poderosas, torna-se uma realidade concreta para milhões — mesmo que tenha começado como uma invenção de um só homem."


Conclusão: da fantasia à fogueira

A caça às bruxas foi, em grande parte, o resultado de uma fantasia transformada em sistema judicial. O Malleus Maleficarum, escrito por um único frade, foi a semente de um pesadelo histórico que durou três séculos, espalhou medo por toda a Europa e custou dezenas de milhares de vidas. É um lembrete poderoso de como ideias infundadas, quando legitimadas, podem levar sociedades inteiras a cometer atrocidades em nome da “verdade”.

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Eis 3 casos contemporâneos, bem conhecidos do público, que funcionaram como “caças às bruxas” modernas — ou seja, situações em que pessoas foram julgadas na praça pública antes de qualquer verificação de factos, muitas vezes com consequências gravíssimas, apesar de acabarem por ser ilibadas ou inocentadas. Estes casos mostram como, mesmo sem fogueiras, a lógica da perseguição social sem provas continua viva.


1. Caso Amanda Knox (Itália, 2007–2015)

  • O que aconteceu: A estudante norte-americana Amanda Knox foi acusada do homicídio da colega de casa, Meredith Kercher, em Perugia.

  • Por que foi uma “caça às bruxas”: A imprensa sensacionalista italiana e internacional construiu uma narrativa sexualizada, chamando Amanda de "Foxy Knoxy", insinuando motivações satânicas e perversas sem base real. A sua atitude calma foi interpretada como sinal de frieza e culpa.

  • Condenação e absolvição: Amanda foi condenada e presa por quatro anos. Em 2015, o Supremo Tribunal italiano reconheceu erros processuais graves e ilibou-a totalmente.

  • Impacto: Mostrou como uma narrativa pública distorcida pode contaminar o julgamento legal, mesmo em tribunais modernos.


2. Caso dos McMartin Preschool (EUA, anos 1980)

  • O que aconteceu: Uma das mais longas e caras investigações por abuso infantil da história dos EUA. Professores da pré-escola McMartin, na Califórnia, foram acusados de abuso sexual e rituais satânicos.

  • Por que foi uma “caça às bruxas”: Crianças foram sugeridas e manipuladas em interrogatórios, gerando histórias de túneis secretos, bruxaria, voos mágicos e rituais satânicos. A histeria pública foi imensa. Muitos acreditaram cegamente nas alegações.

  • Desfecho: Após 7 anos de julgamentos, nenhum dos acusados foi condenado. Não se encontrou qualquer prova física. O caso foi abandonado em 1990.

  • Impacto: É um exemplo claro de como o medo coletivo e o moralismo social podem destruir vidas sem provas concretas.


3. Caso Johnny Depp vs. Amber Heard (EUA/Reino Unido, 2018–2022)

  • O que aconteceu: Após o divórcio, Amber Heard acusou Johnny Depp de violência doméstica. Ele perdeu contratos com a Disney e outras produtoras. Foi “cancelado” pelas redes sociais e imprensa.

  • Por que foi uma “caça às bruxas”: A cultura do #BelieveAllWomen levou a que muitos o condenassem sem julgamento, assumindo-o como agressor com base apenas no artigo de opinião que Heard publicou no Washington Post.

  • Desfecho: No julgamento de 2022, Heard foi condenada por difamação. Ficou claro que ambos tiveram comportamentos tóxicos, mas que as alegações centrais de Heard eram falsas ou exageradas.

  • Impacto: Mostrou os riscos da justiça mediática e do linchamento digital, com polarização extrema e julgamentos sem base factual antes do processo legal terminar.


🔍 Conclusão: a fogueira hoje é sobretudo digital

Estes casos mostram que a lógica da “bruxa a abater” persiste, ainda que hoje não se usem tochas — usa-se Twitter, manchetes e opinião pública em tempo real. A condenação precoce, o apedrejamento simbólico e a destruição de reputações continuam a existir, mesmo em democracias modernas.

segunda-feira, julho 07, 2025

Sócrates & Montenegro
-- De novo, a palavra ao meu marido --
o

 

No seguimento do último post que escrevi sobre os insucessos do governo do Montenegro, e não fui exaustivo porque o post já ia longo, fui brindado com vários comentários que, em vez de rebaterem o que escrevi mencionando os "sucessos" do Montenegro nas áreas que abordei, o que era manifestamente impossível porque aos erros iniciais seguiram-se outros erros e os sucessos foram zero, vieram comentar com a velha e estafada história do Sócrates. Como por acaso andava com vontade de escrever um post sobre as evidentes semelhanças entre a postura do Sócrates e a postura do Montenegro, vou aproveitar a deixa.

Devo referir que o Sócrates até ser condenado é inocente e que, obviamente, no caso do Montenegro, as más práticas e/ou a violação de lei só poderão ser consideradas factuais quando provadas.

Parece-me evidente que existem semelhanças na forma como têm actuado para desviarem a atenção das situações em que estão metidos. Em ambos os casos, fazendo fé nas notícias, ambos escondem, numa primeira fase, uma parte dos factos, fazem comunicações formais que depois são desmentidas e usam expedientes legais para que a verdade não seja conhecida (suponho que os comentadores de serviço sabem dos pedidos do Montenegro ao TC e também do comunicado do gabinete do PM que foi desmentido pela Entidade da Transparência). E nestes três aspectos estranho que os comentadores sempre prontos a zurzir o Sócrates nada digam sobre o Montenegro. 

Existe uma diferença clara entre ambos: o Montenegro recusa-se a falar sobre o caso (será que a explicação seria pior que a percepção?), esquecendo-se que o escrutínio faz parte da democracia. O Sócrates, pelo contrário, faz tudo para ter tempo de antena. Existirão certamente outras diferenças -- e uma delas é que o Sócrates tinha uma visão para o país e o Montenegro não. 

Talvez seja razoável os ditos comentadores terem um olhar mais sereno e fazerem uma análise mais desapaixonada sobre o Sócrates reconhecendo que, enquanto governou, o país se desenvolveu. 

Se o julgamento provar que é culpado, obviamente deve ser condenado e cumprir a pena respectiva -- o que, aliás, se aplica a qualquer político, seja ele qual for.

segunda-feira, junho 02, 2025

Grande entrevista na CNN. José Sócrates, um grande entrevistado. André Carvalho Ramos, um grande entrevistador.

 

Tive um dia preenchido e feliz, com a casa cheia e alta animação, e isto ao mesmo tempo que um joelho me doía, não sei se fruto de passadeira demasiado acelerada no ginásio, se fruto de muita lavagem esforçada de carpete, se fruto de outra coisa qualquer. Por isso, quando o pessoal se foi, sentei-me no sofá com a perna esticada e pus-me a ver as fotografias que entretanto recebi e a ver mensagens de amigos. E depois pus-me a ler. 

Até que calhou ver o comentário do Caro Leitor Ccastanho sobre a entrevista do Sócrates. Não tinha visto, nem sabia que tinha dado. Mas, entretanto, estava a dar uma coisa que o meu marido queria ver pelo que já passava da uma da manhã quando comecei a ver.

Com isto, eu que ia falar do meu dia em família e mostrar umas fotografias e etc., fiquei a pensar que deveria era falar daquilo a que tinha acabado de assistir. Só que é tarde e estou com sono... 

Mas, ainda assim, não consigo deixar de dizer que:

  • Sócrates continua a ser o mesmo animal político de sempre
  • Sócrates continua a mostrar que tem um estofo e uma estaleca e uma visão e determinação que são ímpares entre os políticos portugueses vivos
  • Sócrates continua a demonstrar que tem um ímpeto reformista com opções modernas e acertadas como a nenhum outro primeiro-ministro vi e voltei a ver
  • Sócrates continua a mostrar uma capacidade e a coragem de falar de frente, de pegar os bois pelos cornos, e a fazê-lo com honestidade intelectual e sem usar eufemismos ou indirectas
  • É pena que a porcaria do processo Marquês não se resolva de vez para que ele possa voltar a andar pela vida política, sem peias 
  • É pena que a história não se faça mais em tempo real para que a verdade sobre os benefícios para o País da sua governação possa ser conhecida e discutida com objectividade
  • Finalmente, é pena que o tema da sua vida pessoal (o apartamento de Paris, os empréstimos do amigo, as escutas, etc.) nunca tivesse sido devidamente esclarecida por ele próprio para que a suspeição que o envolveu e continua a envolver como uma nuvem negra deixasse de ser tema
[Sócrates disse muitas coisas relevantes sobre muitos temas e que aqui mereceriam destaque, mas tenho que me levantar cedo e já é tardíssimo. Contudo, quero aqui, pelo menos, louvar a forma como se referiu a Marcelo Rebelo de Sousa: um personagem inconsequente. Não poderia estar mais de acordo com tudo o que ele disse, na forma intriguista e ínvia como conduziu a sua actuação enquanto Presidente da República. O retrato que Sócrates fez do Presidente Marcelo é perfeito.]

Em síntese: gostava que o convidassem mais vezes para entrevistas como esta. 

E gostei muito, muito mesmo, da excelente entrevista que André Carvalho Ramos conduziu. Um trabalho incrível, uma atitude perfeita -- foi contido, educado, incisivo, inteligente. Entrevistar uma pessoa como Sócrates não é fácil pois é um interlocutor ágil, truculento, desafiador. Mas André Carvalho Ramos esteve completamente à altura. Está, uma vez mais, de parabéns. 

Um belo momento de televisão.

sexta-feira, novembro 22, 2024

Na CNN (e parte na TVI), o primeiro entre as 19 e as 20 e o segundo entre as 21 e as 22.
José Sócrates continua a ser um animal feroz. António José Seguro continua a ser um apertadinho

 

E é o que tenho a dizer. Enquanto o momento Sócrates é um fantástico momento televisivo, o momento Seguro é a seca de sempre.

Só espero que não passe pela cabeça de ninguém convencer o Seguro a ir a votos nas próximas presidenciais. Está certo que, depois do Marcelo, a malta quererá ter alguém minimamente ponderado mas, caraças, com o Seguro seria monotonia a mais. 

sábado, abril 20, 2024

O animal feroz está em grande forma e recomenda-se

 

A quem não viu, recomendo que vá à box e ponha na CNN, talvez a começar às 22:00. Grande entrevista da Ana Sofia Cardoso que, com aquela sua tradicional bonomia e sempre sorridente mas sem perder a oportunidade de laçar a presa, conseguiu aguentar-se muito bem ao balanço. 

E Sócrates, sangue na guelra como sempre, um punch como poucos, irónico, sem filtros que é um gosto, não se coibiu de dizer, alto e bom som tudo o que tem a dizer.

Nestes tempos de falácias, verdades escondidas com rabo de fora, conversas politicamente correctas para agradar a gregos e troianos, sabe bem ouvir alguém que mantém o raciocínio veloz, o verbo ágil e a truculência nos píncaros.

Pela forma e pelo conteúdo, belo momento de televisão.

terça-feira, maio 30, 2023

E no fim de tudo Sócrates marca um golaço e resolve o jogo

 

Não sei como é quando tem que se lidar com um bando de surdos, com malta que não se aguenta, incontinente de todo, com gente descoordenada, com malucos que se atiram para a piscina sem saberem nadar, com outros que julgam ser capazes de subir às alturas mesmo não passando de umas galinhas, nem sei se os gregos antigos tinham melhores tácticas do que os Marx e Engels desta vida. Não sei mesmo. 

O que sei é que quem resolve o jogo é Sócrates. Marcou um senhor golo e arrumou com a confusão. 

Certinho, direitinho.

E o resto é conversa.

Desejo-vos um bom dia

Saúde. Bom humor. Paz.


quinta-feira, abril 15, 2021

Sócrates na TVI: a entrevista, os comentários.
E Darius e a bola de fogo
.

 


Sim, vi a entrevista. Sim, vi o debate na tvi24 que se seguiu. Sim, continuo a achar que toda a gente é inocente até prova em contrário. Sim, continuo a achar que ainda vale a pena haver tribunais. Sim, ainda acredito na Justiça, essa velha trôpega, tantas vezes entregue aos cuidados de gente que a mina e enlameia. Sim, podem chover canivetes que eu tentarei que não caiam directamente, a pique, sobre o peito nu dos que estão no chão, levando pedradas e pontapés da turbamulta.

O mundo dá muitas voltas e frequentemente o que se vê não é senão uma pequena parte do que há para saber. Na primeira pessoa muitas vezes o testemunhei. Mil vezes acompanhei, por dentro, conspirações, intrigas, farsas. Como assisto, sem preconceitos ou julgamentos prévios, às situações que me rodeiam, há muita gente que confia em mim. Confiam cegamente. Sabem que o podem fazer pois, se é para não falar, eu não falo. Tenho tido, portanto, a oportunidade de saber os contornos, as motivações, as manobras, os disfarces, de conhecer as actuações e as reacções --- e de constatar como, geralmente, é limitada e imponderada a visão dos que apressadamente julgam, pouco sabendo do que há para saber.

Em contrapartida, tenho testemunhado como é bondosa, generosa, a opinião dos outros para quem se apresenta como um sofredor. Pode o sofredor usar esse disfarce para ocultar uma alma de manipulador, um espírito de oportunista (quando não, mesmo, de desonesto), uma prática de mentira continuada. Bastar-lhe-á usar um jeito de vítima, de pessoa incompreendida, de alguém a quem os outros não reconhecem os méritos, pôr um arzinho indefeso de quem precisa de colo para que, perante a turbamulta, passe a ser visto como alguém que precisa de um conforto, que merece carinho. Tenho visto isso tantas vezes.

É assim.

Houve um primeiro-ministro que dizia que o povo é sereno. Mas eu digo outra coisa: tem dias. 

Podem passar séculos, podem as temperaturas e as águas dos mares aí estar, a subir, podem ter caído monarquias e repúblicas, podem os homens ter ido à lua e mandado geringonças para marte, pode tudo. Mas a populaça é a mesma, gente que saliva e grita de entusiasmo enquanto alguns são puxados ao encontro da guilhotina, gente que não desvia o olhar quando um corpo indefeso cai inerte, desprendido da mente, da alma. 

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Depois de um dia nem mau nem bom, antes pelo contrário, depois de uma noite cansativa, estou aqui a pedir, justamente, serenidade. E não preciso de pedir muito: já adormeci algumas vezes. Evito ir até ao youtube pois tem milhares de vídeos de suculentas para me mostrar e eu... não consigo resistir-lhes. Percebo agora porque milhares de mulheres no mundo inteiro andam fascinadas com as gordinhas. Nestes vídeos, as jardineiras-amadoras falam todas com diminutivos rolando redondinhos na boca. Fico com vontade de fazer mudinhas, de esperar para ver rebentar brotinhos, de misturar verdinhas escuras com verdinhas clarinhas. De início. este terracinho aqui tinha só um vaso grande com uma planta seca. Agora há dois cadeirões e uma mesa, um vaso grande com uma espécie de grande feto e quatro taças com gordinhas lindas. E começo a aventurar-me na reprodução, embora, impaciente como sou, esteja a tentar short cuts que, se calhar, nem vão resultar. E, pior, está de chuva quando elas gostam é de substracto sequinho e não todo húmido -- e tudo isso. Mas não faz mal. O universo há-de protegê-las. De vez em quando abro a porta da rua e vou espreitá-las, toda eu cheia de enlevo e de ideias.

Entretanto, passei os olhos pelas notícias. Hoje nada que me tenha agradado. Ontem sim. Duas que me dão que pensar, e por motivos distintos.  

Uma é que Darius desapareceu. Tem cerca de um metro e trinta de tamanho e dizem que é o maior do mundo. A dona está preocupada, diz que o ladrão o pode matar por não saber os cuidados que Darius requer. A polícia está atrás do animal e a sociedade lamenta que haja quem mercadeje com coisas tão sensíveis, a saber, um ser vivo. E eu, reparo agora, estou a usar, pela primeira vez na minha longa vida, o verbo mercadejar. Aqui pensa-se que o ladrão vai querer mercadejar não um cabrito, que não tem, mas um Darius rabbit que está a deixar a dona com um buraco no peito, infeliz porque o seu Guiness já não esteja disponível para se fazer fotografar com ele nos seus braços.

A outra notícia é que uma bola de fogo de grande dimensão atravessou os ares a grande velocidade e que só por um bambúrrio de sorte não causou o fim da picada. Fireball lights up Florida sky as it 'passes uncomfortably close to Earth'. Passou longe, por sorte. Podia ter-me caído em cima e eu já aqui não estaria a escrever, ou ter caído em cima de si e já não estaria aí a ler-me, ou do João Miguel Tavares, do José Manuel Fernandes, do Filipe Santos Costa, do José Alberto Carvalho, da Ana Lourenço, do Ricardo Araújo Pereira e de todos os que sabem de tudo, antes de todos, e que -- sim, é verdade -- estão acima de todos e que, a ter-lhes a bola caído em cima, já não estariam por aí a manipular, a distorcer, a poluir a opinião pública. Tivemos sorte, todos. 

Contudo, ao ver o vídeo, fico a pensar: até quando estaremos a salvo? 

Estarmos a salvo é uma sorte: a salvo de que uma bola de fogo nos apague da superfície da terra, a salvo de que um qualquer outro evento não nos desgrace a vida. 




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A primeira fotografia é de © Alique e a segunda de © Ben Hassett e ilustram um artigo onde li que, para o meu signo, a melhor forma de me retemperar é um belo banho, coisa que confirmo 8e não precisa de ser de imersão nem de lhe misturar sais, basta um belo duche quentinho).

A música, como é bom de ver, é:  Get Up Stand Up por Skip and Cedella Marley (2020) | Playing For Change | Song Around The World

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 Um dia feliz

quarta-feira, abril 14, 2021

A Lei de Lynch e as fogueiras da Inquisição
-- Sócrates, Ivo Rosa, Marques Mendes, José Manuel Fernandes et al. --

[A palavra a alguns Leitores do Um Jeito Manso]

 

"Não foi um erro da Justiça. Foi um insulto ao país"; “Este juiz ou é ingénuo, ou faz-se de ingénuo, ou anda num mundo à parte. Em qualquer dos casos é muito grave e um homem assim é um perigo à solta”.

Os autores destas pérolas são, respectivamente, José Manuel Fernandes (que escreve no Observador e opina onde lhe pagarem) e Luís Marques Mendes, comentador da SIC. O primeiro reconhece logo que não é jurista e não está interessado em discutir a lei (essa maçada...), o segundo sabemos bem que é jurista e já foi objecto de notícias relativas à venda de umas acções de uma empresa bem abaixo do preço de mercado, com a inerente falta de pagamento do imposto devido, e por ter sido sócio de uma empresa alegadamente ligada a esquemas com vistos gold, pelo que deveria ser mais circunspecto com os julgamentos em praça pública.

Tudo somado, acabam por ser bem mais graves as apreciações do LMM, pois que o outro não passa de um alegre desconhecedor das coisas do direito. Ainda assim e fazendo jus ao mote de que a ignorância é atrevida, põe em causa o trabalho de um juiz que claramente tem uma licenciatura em direito, claramente tem uma carreira internacional desde 2012, claramente analisou o assunto, claramente teve a coragem de deixar a salivar até dia 9 os comentadeiros da praça, e claramente fez questão de ler uma súmula da decisão e publicitar essa leitura para impedir que os ditos comentadeiros tivessem facilitada a tarefa de deturpar a decisão. Enfim, JMF, vindo da UDP e por ora acoitado no Observador, tem tanto juízo, tantos conhecimentos jurídicos e tanta vergonha como os milhares de patetas alegres que assinaram uma petição para a AR e/ou o STJ afastarem o Dr. Ivo Rosa da magistratura.

Luís Marques Mendes é outra loiça - não melhor, apenas diferente. Gostaria de o ter ouvido pronunciar-se acerca dos fundamentos da decisão, mas ele limitou-se a focar a parte da decisão que lhe agrada (aquela que pronuncia JS, e que eu, que ouvi na íntegra a leitura, considero a parte mais fraca, por vários motivos) e a virtuosamente declarar que não comentava, que para isso lá estaria a Relação. Mas sempre foi comentando - com falsidades, pois afirma que até é normal haver na instrução alterações à acusação, mas que o que o juiz fez não é normal - "ele destruíu praticamente a acusação". Aconselho vivamente LMM a largar o conforto da advocacia de negócios e tirar um ano para fazer direito penal, e poderá constatar que há (muitos) casos em que a acusação é destruída - chama-se a isso haver um despacho de não pronúncia. Também afirmou que seria melhor o caso ir a julgamento, mesmo que as provas não fossem inatacáveis pois aí haveria 3 juízes. Ou seja, o que o incomoda é haver a fase de instrução (esperemos que no seu escritório não haja no futuro alguém acusado e a precisar de pedir abertura de instrução ...).

Para além disso LMM limitou-se a atacar o juiz, pessoalmente. Há juízes competentes e há outros incompetentes. Do que ouvi (toda a súmula lida) pareceu-me um juiz escrupuloso, minucioso, com conhecimentos técnicos e um bom raciocínio lógico-dedutivo. Para além disso integra desde 2012 o tribunal de Haia, onde não chega quem quer.

E aquilo que ele disse da acusação não me surpreendeu. Conheço o procurador-estrela do caso e sei do seu gosto por processos em que a montanha acaba por parir um rato (casos Moderna, submarinos BPN...). Será Ivo Rosa o culpado??

MPDAguiar

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O Observador foi criado a partir de algum capital de origem duvidosa, como por exemplo de angolanos identificados com José Eduardo dos Santos e pessoas e grupos próximos de si.

Marques Mendes pertence ao escritório de advogados “Abreu Advogados”, com fortes ligações à Região Autónoma da Madeira e outros grandes interesses no Continente. Com conexões ao triângulo Angola/Brasil/China. É um “Escritório do Regime”. Sempre ligado aos grandes negócios das privatizações e concessões. 

Participou na privatização dos CTT, em conjunto com outro desses Escritórios de advogados, a PLMJ. Entre algumas figuras conhecidas da política e dos negócios, fazem parte da “Abreu Advogados”, José Eduardo Martins (PSD), Paulo Teixeira Pinto (ex-banqueiro e Opus Dei), etc. Francisco Lacerda que viria a ficar à frente dos CTT, era amigo de Paulo Teixeira Pinto e saiu da Cimpor para ir gerir os CTT. Antes tinha estado no BCP. A “Abreu Advogados” (a que pertence Marques Mendes) tinha uma prática líder em derivados e swaps e nesse sentido aquele Escritório veio a assessorar o Grupo BES (incluindo o próprio BES e a ESAF) no financiamento de um conjunto de projectos do sector público, domésticos e internacionais. O BES e o Banif (onde Obiang da Guiné Equatorial depositou alguns dos seus milhões roubados ao seu povo, que o melífluo Luís Amado veio a gerir, e tão bem, que levou o banco à falência) eram clientes da “Abreu Advogados”. Também o BPN, de Oliveira e Costa (e BPN Imofundos) era cliente daquele Escritório.

Quanto à decisão de Ivo Rosa, para além de um meu comentário anterior, aquilo que importa é a interpretação que foi feita à luz das Leis Penais e Processuais Penais vigentes (aprovadas em sede da A.R, convém não esquecer). Foi o que pelos vistos fez Ivo Rosa. Já o MP cometeu erros, nulidades e mesmo atropelos, por exemplo ao ter junto escutas de outros processos, que não estavam apensados a este, o que viola disposições legais. Aguardemos agora com serenidade o que a Relação vai decidir. Por fim, se há coisa mais lamentável são julgamentos tipo pelourinho, que a imprensa promoveu ao longo destes anos, através de meticulosas e cirúrgicas peças processuais que o MP lhe foi passando, com o objectivo de fazer vingar a sua tese acusatória e fazer pressão sobre quem viesse posteriormente a decidir a Pronúncia (após o debate instrutório). Pelo menos é a impressão que fica. O Direito é uma coisa, a especulação dos “media” outra.

P.Rufino

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Este país está minado de gente maluca com palco. A sério que isto me deixa assustado. Eu não sou da área mas raio... o que me parece disto tudo é até positivo! O sistema de justiça ainda funciona minimamente. O homem continua acusado de vários crimes. Caíram outros por falta de sustentação? Até um leigo será capaz de perceber que a ideia de "mega processo", uma coisa com 6000 páginas... Epah... Isto deixa dúvidas de muita coisa só por si. Claro que a justiça tem muitas fraquezas e muito precisa de ser melhorado.

Esses peticionários podiam começar sei lá por pedir um enquadramento jurídico eficaz a criminalizar enriquecimento injustificado e o recurso a entidades que não permitem identificar beneficiários últimos de bens materiais e de capital... Sei lá, assim uma ideia minimamente decente... Um país onde 150 000 mil alminhas estão dispostas a crucificar um juiz por não ter mandado crucificar com ou sem argumentos sustentáveis alguém de que eles simplesmente não gostam? Que coisa impressionante! Que manipulação preocupante alastra nestes meios de comunicação!! (A capa do Pasquim CM de hoje / ontem é de um enorme nojo!) Enfim. Eu já alarguei a procura de trabalho ao resto da Europa - se é para me sentir estrangeiro pode ser em qualquer lado - não que tenha vontade de ir para fora mas.. 

Paulo B.

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A Lei de Lynch e as fogueiras da Inquisição
O atual processo mediático, em que comentadores, pseudo jornalistas e pseudo moralistas arrastam o bojo pela lama tentando cada qual agradar mais à turba sedenta de sangue, depois de ser durante anos instrumentalizada, faz-me pensar que não gostaria de ver ninguém cair nas mãos daqueles que, em Portugal, verdadeiramente, estão acima da Lei.

 Marcelo Lima

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Os textos acima são comentários a um dos meus posts sobre o tema que, crendo que os seus autores -- a quem agradeço -- não me levarão a mal, repesquei para o corpo principal do blog

domingo, abril 11, 2021

Bora deportar o Ivo Rosa? E esfolar o Sócrates?
E, de caminho, vamos promover o José Gomes Ferreira, a Ana Lourenço, o Paulo Morais, a Joana Amaral Dias e mais uns quantos a Juízes da Relação, do Supremo, quiçá mesmo, do Constitucional?
Bute?

 

Tenho para mim que o excesso pode estragar. Gordura é boa se não for em excesso, a curiosidade é boa se não for em excesso, atingir a perfeição é um bom objectivo mas tornar-se-á uma pancada se for demais. E por aí vai.

Por exemplo, excesso de informação é uma fonte de confusão. Excesso de informação na comunicação social, excesso de informação nas redes sociais. Informação não filtrada, não processada, informação que não é nada, apenas lixo, informação a granel e em permanente atropelo. A quem aproveita tamanha enxurrada, tão carregada de detritos? Creio que a ninguém. Informação de qualidade que calhe acontecer vai de arrasto no meio da lama e do lodo que segue na torrente.

Vamos de canal em canal e todos estão cheios de gente a comentar o caso Marquês, sentenciando a torto e a direito como se pudéssemos prescindir da Justiça e substituir as suas instâncias pelos milhares de opinadores que, sem hesitação, se arrogam o direito de tecer teorias sobre o que apenas conhecem dos jornais e das redes sociais.

Conhecem o processo aqueles que opinam com tanta assertividade e ar tão clarividente? Presumo que não. Têm alguns conhecimentos jurídicos? Grande parte não tem.

E, no entanto, jornalistas que nunca ninguém viu mais pintados/as e que espumam raiva pelos olhos, palermas com a mania que têm competência para chefiarem governos e que, tanto opinam como economistas (fingindo que o são) como causídicos simulando grandes conhecimentos na área, putativas psicólogas que dariam tudo para se poderem apresentar de biquini com a depilação brasileira bem à vista, ex-candidatos à presidência da República em quem apenas a família votou e que de leis conhecem tanto como o cão dos meus vizinhos que ladra, ladra mas que, juraria, não leu as milhares de páginas do processo nem cursou leis -- e todos comentam, todos criticam, todos ajuízam.

Qualquer das pessoas que se apresenta na televisão queixa-se que nunca tal se viu, que tudo isto é incompreensível, e criticam iradamente Ivo Rosa por lhes ter trocado as voltas. Acabei de ver um, transtornado, a dizer que não percebe nada disto... e, ouvindo-o, até parece que a culpa é disto. Se, por acaso, um cirurgião tiver dificuldade em fazer um transplante complexo e perguntarem ao Joselito Gomes Ferreira, à Amaral Dias e a tutti quanti o que acham disso, provavelmente, também todos se sentem à vontade para tecer considerações, para dar palpites, para invectivarem o cirurgião por não tornar a operação mais simples para que eles possam perceber. E uns, sem qualquer sombra de dúvida, dirão 'se fosse eu aspirava o fígado por uma palhinha', outros não terão dúvidas que o que deveria ser feito era 'injectar um par de pulmões pelo rabo acima'. E a Ana Lourenço e outros e outras jornalistas farão olhares sentenciosos e justiceiros, pedindo sangue, mais sangue, que se esfole o Sócrates, o Ivo Rosa, todos os ricos e poderosos, mas que se esfolem vivos, e, de passagem, quiçá também mais uns e umas que para aí andam a dizer que à Justiça o que é da Justiça.

Enfim. Um desespero assistir a isto.

E, assim sendo, por ora, sobre o tema é o que tenho a dizer. Estou de ressaca tal a overdose de comentários e opiniões a que tenho estado sujeita. Portanto, se me permitem, vou arejar. 

Até já.

sábado, abril 10, 2021

Sócrates: o animal feroz está de volta
[embora com uma vulnerabilidade que pode minar a sua ferocidade]

 


Tenho para mim que quando uma fera se atira à jugular da vítima não deve uma única vulnerabilidade, nem calos nas patas nem uma unha encravada ou um grão de areia a incomodar o olho. Quando se atira a doer é para acertar. Não pode haver o risco de, na hora, haver algo que possa fazer vacilar.

Tem razão José Sócrates em saltar para a arena para sacudir de cima de si a larga maioria dos crimes com que o Ministério Público, ao longo de sete anos, infamemente tentou sujá-lo. Tem razão em revoltar-se contra a ignomínia de que foi vítima. Se fosse comigo, tudo faria para cair em cima dos infames. Nem que tivesse que lutar até ao limite das minhas forças e até ao fim dos meus dias para que fossem condenados, fá-lo-ia.

Mas fá-lo-ia se não tivesse manchas na consciência, se não tivesse nada a esconder. Nessas circunstâncias, sem quaisquer hesitações, daria o peito às balas e denunciaria -- em todos os tribunais do mundo, se necessário fosse -- aqueles que tivessem tentado destruir a minha honra.

Desde o início que acho que toda a fantochada em volta de Sócrates era uma pouca vergonha. As coisas quando são a sério não têm carnaval à volta. Se havia suspeita séria contra ele, agia-se dentro da lei, da ordem e da decência. Não era nos Sábados e Correios da Manhã desta vida, não era com as câmaras em directo, não era com fugas de informação, não era com nacos avulsos que provocam discursos inflamados como os que acabei de ouvir na TVI a uma histérica Joana Amaral Dias ou a outras criaturas que, nada conhecendo de leis e pretendendo o auto protagonismo, insufladas de demagogia e populismo, pretendem que se julgue sem provas, na rua.

A minha matriz formativa é a da matemática e, na matemática, entre outras vertentes, prezo a lógica. Mesmo perante o apelo das aparências, não me afasto do que me parece ser o rigor. Pode a intuição pretender condimentar a análise mas, quando é para me pronunciar a sério, não me desvio um milímetro nem dos factos devidamente provados nem da lisura dos raciocínios. 

E, tal como na matemática há os axiomas que não carecem de demonstração, também aqui há o que assimilei como incontornável: toda a gente é inocente até prova em contrário.

Pode a Joana Amaral Dias, a Felícia Cabrita, cinquenta bloggers, uma mão cheia de jornalistas, vinte peixeiras, quarenta justiceiros, cinquenta freiras, sessenta cabeças rapadas, cem galinhas cacarejantes decretarem penas e ditar sentenças que eu não me movo um milímetro: toda a gente é inocente até prova em contrário.

Para sair daqui, têm os tribunais que dar como provados os factos que o contradigam.

Portanto, de tudo -- tudo -- o que ouvi e li do Caso Marquês, de todas as suposições que me pareceram delirantes, de todas as fantasias que me pareceram lunáticas, de todos os enredos que me pareceram ilógicos, apenas um facto me pareceu, desde o início, estranho e a carecer de explicação.

Desde o início o disse -- e aqui o disse --: se nada fez de ilícito, Sócrates deveria ter eliminado a suspeição que, junto da opinião pública, se instalou  e explicado a que bizarro fenómeno se deveu aquele imoderado uso de empréstimos por parte do amigo.

O fazer agrados a amigos por parte de gente rica não é inédito nem é, por si só, crime. 

Conheço um homem muito rico, muito mesmo, que tem proporcionado toda a espécie de mordomias a um amigo. Porque o faz? Faz porque pode. Faz porque aprecia a companhia do amigo e porque sabe que a única maneira de usufruir da companhia dele é pagando-lhe as viagens e as estadias. Tornou-se sócio do amigo numa empresa porque a empresa estava em dificuldades e porque quis ajudar o amigo -- e porque o dinheiro que lá pôs (uma e outra e outra vez) a ele não fazia diferença e para o amigo era determinante. Conheço ambos. Como é que o amigo aceita tantas mordomias e tantas ajudas? Não sei. São amigos. As mulheres são amigas, os filhos são amigos. O que recebe as prendas e prebendas sabe como o homem rico genuinamente aprecia a sua amizade e companhia. Alguma corrupção nisto, alguma coisa de ilícito? Não. Conheço ambos. Nada de mal. O menos endinheirado é um homem culto, letrado. O muito rico aprecia ouvir o menos rico, aprecia a convivência com alguém que tem milhares de livros, que sabe falar de história, de filosofia, de física, de gestão. Quem os conhece bem diz: é como se fosse uma relação de irmãos. Já não se questiona: é assim e é lá com eles. Se me perguntarem se eu alguma vez seria capaz de viver em grande parte às custas de um amigo a resposta é não. E, no entanto, conhecendo a amizade e a dinâmica da convivência entre aqueles dois, já me habituei a aceitar isso como 'natural'. Há nisto qualquer coisa como havia com os homens ricos de antanho que patrocinavam artistas, músicos, escritores.

Terá sido isso que se passou com Carlos Santos Silva e Sócrates? Pode ser que sim. Mas, se foi, tal deveria ser assumido, explicado sem peias. É um assunto pessoal e ninguém tem nada a ver com isso? Pois. É verdade. E prezo muito a privacidade e a liberdade individual de cada um. Entre pessoas sem vida pública em funções de responsabilidade política, sem dúvida. Se a minha mãe me der dinheiro ou se o meu conhecido muito rico financiar uma vida abastada ao amigo ninguém tem nada a ver com isso. Mas se algo de intrigante a esse nível se passa com um ex-primeiro-ministro, então ou há uma explicação inequívoca ou é correcto que se julgue sobre a transparência e licitude dos factos.

Ou, não foi bem isso e, dos tempos do início da carreira, dos tempos de fura-vidas, dos projectos de vivendas e coisas assim, subsistiram dívidas de gratidão de Carlos Santos Silva para com Sócrates que se traduziram nestas liberalidades? Estamos a falar de proventos que, tendo sido recebidos em espécie, não foram declarados como rendimento? Bem... se é isso, não estaremos perante um caso de fuga ao fisco? Dúvida legítima.

Nada tendo Sócrates explicado, é normal que advenham dúvidas e, havendo-as, é normal e saudável que sejam explicadas.

Sobre todas as outras ficções, Ivo Rosa mandou o Ministério Público ter juízo. Ou melhor: mandou que tivessem vergonha na cara. Rosário Teixeira, Carlos Alexandre e sobretudo a Santa Mana aka Joana Marques Vidal, a mais incompetente de todas as incompetentes que a Justiça pariu, foram mandados para o estrado, com orelhas de burro. Expostos ao público por toda a sua ineficiência, falta de inteligência, incompetência. Sem meias palavras. 

Mas, sobre o mistério dos empréstimos, Ivo Rosa mandou que seguisse a procissão para que se apurem e julguem os factos. Fez bem. Se Sócrates está inocente, a inocência há-de ser provada. Se não está, deve ser condenado.

E não falo de julgamentos políticos ou morais -- esses não são do domínio da Justiça. Falo de crimes enquadráveis pelas molduras penais devidamente instituídas. À Justiça o que é da Justiça.

Tirando isso, nada a não ser que desejo veementemente que a sociedade se mobilize para erradicar a prutefacção que grassa na Justiça portuguesa. E, já agora, que se afiram as capacidades intelectuais e emocionais, a estabilidade psicológica e a sanidade mental dos magistrados em geral e dos juízes em particular.


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As fotografias provêm do The Guardian: The week in wildlife – in pictures
David Gilmour adoça o ambiente com Thanks For The Dance

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Um bom sábado

quarta-feira, abril 07, 2021

Sócrates, House e o papagaio cantor

 


Já vos contei que estou outra vez viciada no House...? Pois... confesso: estou... E isso está a colidir à força toda com a escrita no blog. Coexistem no espaço e no tempo. Trabalhei até perto da meia-noite. Quando me despachei e confirmei que nada de transcende aconteceu no mundo (para além das desgraças e irrelevâncias do costume) fui ver o episódio de ontem. Só agora que acabou peguei nisto. E, entretanto, estou a ver o episódio de hoje. Não sei se são episódios recentes ou se são antiquíssimos. Poderia averiguar mas não me interessa. Gosto de ver. Aquele raciocínio agudo, aquele sentido de humor intragável e aquela insolência aberrante do House são um cocktail que me prende do princípio ao fim.

Só que, com isto, consumo o cada vez menos tempo livre que tenho. 

Queria dizer qualquer coisa sobre a imoralidade que é a maneira como a Justiça funciona neste país. Em qualquer outro lugar do mundo decente e civilizado alguém poria fim à incompetência que lavra de A a Z na Justiça portuguesa. 
A comunicação social já começou a salivar para a decisão que aí vem sobre o Caso Marquês. Há anos que esta pouca vergonha dura: começaram por prender o homem com as televisões a acompanharem em directo o indecoroso e indigno ataque à privacidade de uma pessoa num momento tão delicado. Interrogaram-no, divulgaram escutas, divulgaram bocados das peças processuais, mandaram-no preso para Elvas, devassaram-lhe a vida pessoal, a vida da mãe, da ex-mulher, da ex-namorada, dos amigos, impediram-no de viver uma vida normal, obrigaram-no a viver como um acossado. Anos disto. Uma verdaeira pouca vergonha. Pelo meio, foram arregimentando mais gente, mais suspeitos, o caso foi engrossando, engrossando, virou o paquiderme judicial do regime. Quando penso naquele que começou por ser o intrépido e irreverente advogado de defesa, o João Araújo, que, coitado, não viveu o tempo suficiente para assistir ao desenlace de tão fatídico caso, tenho tanta pena. Mas também me mói a ideia de que o principal suspeito tenha a vida em suspenso há tantos anos. Anos, anos disto. Anos disto sem sequer se saber se o caso tem sustentação ou não. Uma vergonha. A Justiça não pode funcionar assim. Os culpados vêem a vida parada sem pena decidida e acabam na prisão quando já estão no fim da sua vida, muitas vezes a dar as últimas. E os inocentes vêem a sua vida anulada, desgraçada. Enquanto isso, os ilustres juízes, alguns com forte pancada na cabeça e sem admitirem o escrutínio de ninguém, continuam a fazer o que muito bem querem e lhes apetece. E o resto das instituições assobiam para o lado. Separação de poderes muito bem, tem que ser. Mas bandalheira a céu aberto, não. Alguma coisa deve e tem que ser feita.

A nossa democracia tem dois cancros: a Justiça e as Redes Sociais. E com metáteses na Comunicação Social. Claro que isto das redes sociais não é coisa só nossa assim como a comunicação social também não. Só que isso, conjugado com a grave doença na Justiça, pode minar a nossa democracia que, sendo recente, tem ainda muitas vulnerabilidades.

Mas, enfim, queria falar sobre isto mas não é às duas da manhã que estou em condições para dizer coisa que se aproveite. Dirão as más línguas que nem às dez da manhã o estou. Mas para o que as más línguas dizem eu também não tenho tempo.

Portanto, para ver se durmo alguma coisa antes da manhã que me espera que é daquelas em que até tremo com o que vou ter que fazer, calo-me já. 

Quando me vê tão debaixo de trabalhos e maçadas, a minha filha diz que não tenho necessidade disto. E há uma perspectiva sob a qual talvez não tenha. Mas a verdade é que tenho este espírito de missão, de mulher da classe trabalhadora, toda a ter que cumprir com deveres e obrigações, mulher que mais depressa verga que parte, que não cede nem abranda até que ache que fez o que julga que tem que ser feito. Não é que queira: é involuntário, é coisa genética. Ou seja, vejo-me cercada de uma canseira da qual tenho dificuldade em fugir porque parece que sou eu que não consigo passar sem viver assim, no limite do que posso. 

Enfim. 


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As pinturas são de Gerhard Richter e vêm ao som do magnífico Jacob Collier & Yebba interpretando Bridge Over Troubled Water

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E despeço-me com um outro grande momento musical que espero que seja do vosso superior agrado

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E é isto.

O que eu estimo é o que eu desejo.

Saúde e alegria

quinta-feira, outubro 31, 2019

E sobre Sócrates, Rosário Teixeira, Ricardo Costa, João Miguel Tavares, Ivo Rosa e outros a UJM agora não diz nada?

Diz, claro que diz.





Não que tenha grande coisa para dizer. Mas digo. Digo, por exemplo, que me limito a ir acompanhando o pouco que se vai sabendo e a constatar que não há nada de novo. Ou que acompanho também sem grande surpresa as reacções de jornalistas e comentadores a esse pouco que vai soando. E que os vejo a começarem a titubear, a vacilar nos alicerces. E que não me surpreendo. Até porque, salvo raras e honrosas excepções, têm quase todos umas cabeças de maria-vai-com-as-outras.

Mas eu, pela parte que me toca, estou como fiquei naquela noite em que a minha filha me ligou a dizer que visse a televisão, que Sócrates tinha sido preso: estupefacta. Tudo, naquela noite, me causou estupefacção.
Porquê? O que é que ele tinha feito? E como estavam já ali os jornalistas à espera dele, a seguirem o carro onde ia, detido? Que cegada era aquela?
E daí em diante ouvi de tudo, toda a espécie de acusações, de suspeições -- uma investigação e uma crucificação na praça pública de tipo arrastão. Meio mundo a ser envolvido, um processo megalómano, com vários suspeitos a surgirem de todo o lado, por vezes num registo que me pareceu delirante. 

Teria Sócrates que ter estado a tramar esquemas durante vinte e quatro horas por dia em vez de estar a governar o País para conseguir engendrar tanta tramóia. E, note-se, não estou a fazer juízos de valor nem a tomar partido. Não: estou apenas a usar a lógica, disciplina mental que me é cara. Ou seja, não digo que não é culpado, porque não faço ideia, apenas estou a verbalizar um raciocínio. 

É que a minha posição é a mesma de sempre: a Justiça avaliará as provas existentes, a Justiça avaliará a razão de ser da acusação, ajuizará se há matéria para julgamento e, se o houver, ajuizará se há matéria para condenação. Sou fiel aos meus princípios e tenho bem cravado na minha consciência aquela máxima vintage que reza que, haja o que houver, toda a gente é inocente até prova em contrário. E quem tem que fazer essa prova é a Justiça. Não os jornais, não os comentadores, não as redes sociais, não os bloggers, não o diz-que-diz-que, não as vizinhas, não as primas.

Agora uma coisa é certa: apesar da péssima opinião que tenho sobre o Super-Juíz Carlos Alexandre ou sobre o Procurador Rosário Teixeira, tenho que fazer o exercício mental de admitir que, para terem feito o que fizeram -- e não foi pouco -- incluindo manterem Sócrates preso, é porque devem ter provas ponderosas contra ele. Não suposições mas provas. E, note-se, já se falou no BES, na PT, na Venezuela, em Angola, em Vale de Lobo, no Grupo Lena e sei lá em quem mais. E tudo isto sem que os ministros responsáveis pelos assuntos dessem por nada. Portanto, estou curiosa para saber que provas são essas que enchem milhares e milhares de páginas porque, até ver, de provas, provas, não dei conta de nada.

Não faço ideia do que é que o Juíz Ivo Rosa vai concluir de tudo o que tem lido. Agora acho que temos todos que lhe tirar o chapéu: merece respeito. Quando vejo imagens daqueles caixotes e caixotes cheios de uma papelada infinita nem consigo imaginar como é que algum ser humano consegue digerir tal pesadelo. Eu entraria em burnout só de ver tanto caixote.

Decorreram vários anos desde essa noite em que Sócrates foi detido ao chegar ao aeroporto. Desde aí a sua vida tem estado como que suspensa, naquele limbo em que nem consigo imaginar como se consegue sobreviver mantendo a sanidade mental.

De tudo,  jornalistas, comentadores e meio mundo já o acusaram e condenaram. Mas eu, nestas coisas, não consigo pular etapas. Coisa de DNA temperada por deformação académica acrescida de deformação profissional. Mas podem achar que não é nada disso, que sou é burra, teimosa que nem uma mula, besta quadrada da pior espécie. O que quiserem. Mas pular etapas, numa coisa destas, eu não pulo.

Pode ser que a Justiça venha a dar por provado tudo aquilo de que o acusam. Nessa altura eu saberei. Até lá não sei e, sem saber, não condeno. Bem pode o João Miguel Tavares sacramentar mil condenações com aqueles fracos argumentos que a sua fraca cabeça constrói, bem pode Ricardo Costa tecer as suas usuais frouxas considerações ou exibir os seus bons conhecimentos armando-se em bom, bem podem Felícia Cabrita ou Clara Ferreira Alves escreverem as suas inabaláveis certezas ou as suas doutésimas opiniões, bem pode o Dâmaso e outros que peroram no Correio da Manhã, na Sábado ou nem sei onde, denunciar, difundir 'segredos' ou lançar parangonas acusatórias -- que eu fico onde estava. 

E, portanto, como acima disse, não é muito nem nada de novo o que tenho para dizer. É só isto: continuo estupefacta com tudo isto e sem perceber o que se passou e tem vindo a passar desde então. Ou seja, na mesma. À espera que a Justiça faça o seu trabalho. 

(Poderia ainda acrescentar que estou também à espera que a Justiça seja justa e lesta -- mas isso já seria esperar de mais. Ou, dito de outra forma, seria lirismo e eu, como é sabido, é mais prosa. Poesia eu gosto mas é de ler, fazer não é para o meu bico)


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As pinturas que usei para dar alguma graça ao texto são, respectivamente, de Francisca Vogel, a primeira, Shawn Ashman, as três seguintes, e Pierre Subleyras, a última. Tudo ao som de Falling na voz de Julee Cruise.

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E uma história para crianças para terminar: Os homens cegos e o elefante

"The Blind Men and the Elephant" de John G. Saxe (lido por Tom O'Bedlam)

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