Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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domingo, dezembro 09, 2018

Luzinhas pré Gemínidas.
[E uns elefantes agradecidos e um ser abençoado que voa mesmo que se diga 'malade']



Pois é o que vos digo. O que me vale é que o meu corpo, assim que se apanha à larga, resolve as coisas por si. Não me levantei muito tarde e, quando pus o pé em terra, senti uma leve dor de cabeça, como se o sono não tivesse sido o suficiente. Mas bola para a frente. Fiz o que tinha a fazer. Tudo na boa. E estive com os meus meninos e a alegria que sinto retempera-me e compensa o cansaço que subsista no corpo. Mas mal me apanhei no carro, adormeci. Quando cheguei a casa dos meus pais ainda estava meia adormecida. Felizmente, tão depressa adormeço quanto acordo e, portanto, tudo bem enquanto lá estive. Só que, quando de lá saí e me apanhei de novo no carro, foi, de novo, tiro e queda. Dormi até chegarmos. O meu corpo descansou, recuperou dos desgastes da semana.

Já tinha anoitecido quando dei por mim já a chegar ao portão e só dei por isso porque fui acordada pois, se o meu marido me tem pegado ao colo e depositado na cama, teria ficado a dormir até agora (e ele teria ficado a precisar de fisoterapia durante mais de um ano). 

Mas, dizia eu, que, à chegada, apesar de não ser ainda oficialmente de noite, o dia já se tinha recolhido. Detesto dias pequenos. Portanto, nem dei o meu passeio, nem senti o fresquinho e o cheirinho bom do campo quando o outono se presta a ceder o passo ao inverno.

Aqui estou, sossegadinha junto à salamandra, a ver televisão (o GPS com o Fareed Zakaria), a fazer tapete de arraiolos. Ao meu lado, a Graça Morais e o mistério insolúvel da grande arte esperam que volte às suas palavras.  

Ali na sala de jantar, o ramo de luzinhas que acima puderam ver. Não sei o que é isto agora mas a verdade é que ando numa de luzinhas. Na volta tem a ver com o facto de estar para haver uma das maiores chuvas de estrelas do ano. 
No próximo dia 14 de dezembro, sexta-feira, vai acontecer uma das chuvas de meteoros mais intensas do ano, com uma média de 120 meteoros por hora. Para assistir a este fenómeno astronómico só tem de olhar para o céu entre as 20h00 do dia 13, quinta-feira, e as 17h00 do dia 14.Dois dias depois poderá também ter a sorte de ver o cometa 46P/Wirtanen, que passa no ponto de maior aproximação da Terra, na sua órbita de 5,4 anos à volta do Sol.
Mas acho que as luzinhas alegram tanto as casas. Estas, por acaso, não são inteiramente ao meu gosto pois gosto de luzinhas amarelas e estas são brancas. Mas não havia em amarelo e achei-as tão bonitas.O meu marido puxou-me pelo braço mas não o suficiente. tirei a vela e coloquei-as. Estão a piscar. Fica o ambiente tão agradável. Estar em casa é, para mim, estar no ninho. Quando tenho aquelas semanas em que os compromissos são consecutivos e alguns bem maçadores ou problemáticos, em que os telefonemas e os mails chegam em catadupa e quase sempre com problemas, em que nem ao jantar consigo ter descanso porque os compromissos se estendem ao jantar, sinto que o corpo me pede tréguas e a alma me pede casa, aconchego.

Há bocado escrevi sobre os coletes amarelos e tinha pensado ficar-me, hoje, por aí. Mas agora, sei lá eu porquê, apeteceu-me interromper o bordado e escrever isto. No outro dia, uma amiga dizia-me que gostava de ter tempo para escrever, que gosta muito de escrever, que já a aconselharam a ter um blog, que está a pensar nisso. Disse que quando pensa, pensa como se escrevesse, que, quando vai no carro, as palavras se começam a juntar e é como se estivesse a escrever. E ela a falar e eu a pensar que sei bem o que isso é. E com vontade de lhe dizer deste meu vício, deste meu gosto. Mas não disse. parece que sinto receio de deixar de me sentir tão livre como agora me sinto, escrevendo sem nome.

Quando contei à minha filha aquele telefonema de que falei no outro dia, ela disse: 'olha, agora que foste descoberta, já não vais conseguir escrever tão à vontade' e eu não quis nem pensar nisso pois no dia em que me sentir cerceada na minha inteira liberdade de escrever, deixo de escrever.

E agora que já aqui escrevi mais estas insignificâncias vou recolher-me aos meus aposentos. Mas antes deixem que partilhe convosco dois maravilhosos presentes do meu amigo, o presciente algoritmo do YouTube. 

O vídeo já aqui abaixo mostra um momento impressionante. Um pequeno elefante caíu num declive e não conseguia sair. Uns homens com uma escavadora colocaram lá terra, de forma a que ele pudesse sair. Quando finalmente saíu, são e salvo, os elefantes adultos festejaram o acontecimento e saudaram os homens que tinham salvo a cria.

Depois, mostro o último vídeo do abençoado Sergei Polunin. Bailarinos assim aparecem raramente e eu não me cando de testemunhar este extraordinário prodígio.



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A todos desejo um feliz dia de domingo

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Eu não uso colete amarelo



Meio afastada que, pela força das circunstâncias, tenho andado da actualidade, apenas sei do que se passa pelo que apanho aqui e ali e do que vou cruzando nos escassos momentos em que consigo pensar. Dos coletes amarelos em França sei dos impostos, sei da fúria, sei das rajadas de água sobre os que se juntam nas ruas e tentam atingir as chamadas forças da ordem. Atiram objectos e, de telemóvel em riste, filmam o que fazem, falam para as câmaras enquanto se auto filmam. As redes sociais como motivo e destino central das manifestações.

Os coletes amarelos falam em baixos níveis de vida, falam em casas caras, em reformas baixas, falam em impostos altos, falam em ricos cada vez mais ricos, falam que o governo rouba aos pobres para dar aos ricos. Nada de novo e tudo verdade. 
As sociedades ditas desenvolvidas geraram desigualdades acentuadas, a austeridade pela austeridade exclui franjas significativas das populações, os grandes especuladores tomaram de assalto o sistema finaneiro e, quando se deu o grande estouro, deixaram que fossem os indefesos a pagar a crise. As guerras, apoiadas pela indústria do armamento e alimentadas por interesses transcontinentais, deixam países arrasados e os povos em estado de desespero a ponto de fugirem, de deixarem tudo para trás em busca de paz e de uma vida possível. Ora, isto é pasto fértil para o populismo que rejeita os imigrantes, que incentiva ao ódio, que estimula o radicalismo.
Em Paris há lojas destruídas e saqueadas, automóveis queimados, carrinhas de venda ambulante esventradas e o seu conteúdo vandalizado. O arco do Triunfo foi grafitado. As ruas cortadas ao trânsito, espectáculos cancelados, museus encerrados, os grandes armazéns barricados. Postos de combustíveis fechados porque não foram reabastecidos. Paris virada do avesso. Manifestações agora espalhadas por todo o país.

Não sei pormenores da governação de Macron nem sei se há competência, estratégia bem definida ou coerência nas medidas que tomam. Parece ser gente relativamente inexperiente e sem hábitos de liderança em grande escala e isso, num país como França, pode ser um lacuna grave. Tenho ideia que Macron ainda não apareceu publicamente a tomar uma posição, preferindo fazer avançar figuras que parecem apanhadas em verde. É certo que um deles é o primeiro-ministro mas olha-se para ele e dá ideia que é daqueles que se apanha à mão. Os franceses devem estar a olhar estupefactos para a evolução dos acontecimentos e, com ou sem razão, devem achar que Macron está a pôr-se a jeito, dando razão aos que o acusam de fragilidade e cobardia.


Entretanto, Trump, essa lesma porca e nojenta, já veio apoiar os coletes amarelos e, de caminho, pôs-se a cavalgar a onda do descontentamento para defender as suas políticas estúpidas e retrógradas.

Vejo nos blogs ou em artigos nos jornais portugueses que, por cá, também há quem apoie estas manifestações. Por exemplo, gentes que sei afectas ao BE também acham bem e encontram razões válidas para apoiar estes manifestantes. 


Contudo, apesar da violência que as televisões nos mostram, os números mostram uma realidade diferente. Ao todo, em França, terá havido cerca de 125.000 manifestantes. Nada. Em Paris não passarão dos poucos mil. De facto, falam em pouco mais de mil. Nada. 

Pode haver desconforto contra as políticas de Macron mas, num país com mais de 67 milhões de habitantes, se os números dos manifestantes revelarem a quantidade de pessoas que pretendem mostar-se descontentes, então Macron poderia estar descansado. 0.18% de gente descontente é nada.

Mas não pode estar descansado.

E não pode porque o que se passa é que quem anda pelas ruas com colete amarelo já é maioritariamente gente violenta, marginais, gatunos. Fala-se que grupos de extrema esquerda e extrema direita tomaram conta das ruas. Vandalizar lojas ou monumentos, incendiar carros ou atacar polícias nada tem a ver com manifestar descontentamento por razões válidas. A violência extrema e destrutiva, potenciada pela divulgação nas redes sociais e pela comunicação social, é um perigo --  e é um perigo porque é tendencialmente contagiante. Tal como a visão do aparato gerado pelos incêndios é um forte apelo para os incendiários, também toda esta baderna é um incentivo para que tudo o que é extremista, delinquente ou trauliteiro venha a terreno fazer com que as ruas peguem fogo (e esperemos que, com esta gravidade, apenas em França).


E, por isso, custa-me a perceber como podem algumas pessoas apoiar o que está a passar-se. Uma situação desta merece condenação. E reflexão. Uma séria, muito séria, ponderada e abrangente reflexão. A democracia e a liberdade devem ser protegidas, devem ser a primeira e a última das prioridades. E situações como estas a que assistimos são portas abertas para movimentos que ponham em causa a liberdade e a democracia.

Mas, lá está, posso não estar a perceber nada do que, por lá, está a passar-se. Se calhar é só aquilo de os franceses, de vez em quando, serem dados a uma boa revolução. Vamos ver.

sábado, dezembro 08, 2018

A parvoíce que eu disse, à despedida, a uma pessoa




Cá estou. Durante a tarde, a coisa ia brava porque demasiada estupidez, para mim, é coisa violenta. Então, por um instante, desviei a minha mente para um recanto e pensei: calma, já falta pouco, daqui a nada é fim de semana e a única coisa a pensar é onde é que apetece ir jantar para descansar e espairecer. Mas, acto contínuo, lembrei-me: qual quê, saindo daqui ainda tenho que dar com a quinta nos arredores dos arredores. E assim foi. Mais um jantar de natal. Já foi. Alegre, bom, ruidoso, bem animado. No fim, em conversa off the record, confessei a uma antiga conhecida que não via a hora de descer dos saltos altos, de me despir, tirar o soutien, o colar, os brincos, apanhar o cabelo. Ela disse-me: não sei como aguenta essa vida. E eu disse: nem eu.

E depois foi o inverso: descobrir como sair de lá porque, mesmo com gps, andar em lugares desconhecidos, de noite, muita rua mal sinalizada, muita indefinição, é coisa chata e eu não gosto. Mas logo encarreirei e já estou vestida confortavelmente, já tenho o cabelo apanhado, já estou no meu sofazinho. O que eu gosto de estar sossegadinha aqui na minha casinha.


Se há coisa em que penso muitas vezes é na vida que têm os políticos, sempre de um lado para o outro, sem descansarem, sem poderem estar desatentos, descalços, sem poderem ir à casa de banho em paz, sem poderem dormir o tempo que quiserem, na sua caminha, agarradinhos aos seus amores. Juro que não percebo como se aguentam. Eu acho que caía para o lado. Ou isso ou ficava mal disposta, impaciente, impertinente, a mandar meio mundo à fava. Por isso e também por não me apetecer frequentar gente que, em parte, é mal afamada é que não apareço a bater à porta de nenhum partido. Veja-se aquela trupe da bancada do PSD: uma rebaldaria que não tem explicação. Como é que gente séria consegue conviver com aquela indecência é coisa que não se percebe.


Mas, enfim, é isto: cada um é para o que nasce. Uns nascem para brilhar, outros para sofrer, outros nem para isso nem para o contrário e outros, ainda, para outra coisa qualquer.

E agora vou descansar, vou para a minha cama quentinha, vou ver se durmo até vir a mulher da fava rica.

Mas antes ainda tenho que pensar no título que vou dar este post sem eira nem beira. Ora deixa cá ver... É que nem sei por que ponta lhe hei-de pegar.

Olha, já sei. À falta de melhor pode ter a ver com o que se passou há bocadinho e que passo a relatar.

Com tanto festejo, no fim do segundo jantar de natal, ao despedir-me de uma pessoa, desejei-lhe: 'Então, boas entradas'. Ele deu um passo atrás e olhou espantado: 'Boas entradas?! Já?!? Vai de férias?!'. Só então me lembrei que estamos no início do mês de Dezembro. Mas, pensando bem, com esta aceleração do tempo, sorte foi não ter desejado boa páscoa.


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As pinturas são de Trevor Bell porque são boa onda e nada melhor do que uma boa onda e Loreena McKennitt interpreta Snow que se calhar não encaixa aqui como uma luva mas que pode ser que tenha a ver com o fresquinho jeitoso que estava quando saí lá do jantar na bela quinta e tive que atravessar a noite escura e húmida até chegar à voiture que estava molhada e gelada.

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E, para vocemecês, um bom carnaval. 
Alegria e saúde.

sexta-feira, dezembro 07, 2018

Nesta noite de boas surpresas




Dias assim, em que pernoito fora, costumo sentir algum desagrado. Por muito habituada que esteja, a verdade é que sinto sempre falta do conchego caseiro, do sossego da casa. Nada como a vidinha boa da gente, os mesmos passos, os nossos cantos, as nossas conversas e silêncios. Mas hoje foi bom, muito animado, muita alegria, ambiente leve e repleto de afecto, aplausos, gestos de carinho.

O tempo passa, Leitor, o tempo passa e a gente vai ficando, vendo o tempo a passar, umas vezes depressa demais, outras vezes devagar, devagar. 


Não há muito, um homem possante arbitrava uns certos jogos de futebol. Alguém dizia que ele, quando tinha que se impor, até parece que crescia. E era mesmo. Um carisma ímpar. Toda a gente o respeitava. Hoje atravessou a sala e veio falar-me. E perguntou-me pela minha filha, disse que era uma miúda espectacular, falou dela e sorria enquanto falava. E eu, vendo como ele a recordava e como falava dela, fiquei feliz, feliz.

Cabelo todo branco, longas barbas brancas. Possante ainda. Fizemos as contas. Passaram talvez uns quinze anos. E eu pensava que tinha sido há pouco tempo. E foi. Mas quinze anos não é nada. 


E depois, à mesa, estava eu a conversar com a pessoa do lado, diz-me ele que lhe parecia que o meu telemóvel estava a tocar. E estava. Um número que não conhecia. Àquela hora, um número desconhecido. E, de repente, uma voz conhecida mas longínqua. Perguntava se um certo blog onde se falava da filha dela era meu. A filha tinha lido e tinha perguntado quem teria escrito aquilo e ela tinha dito que só podia ser eu. E contou-me que tinha gostado de ler -- e eu fiquei tão contente, tão contente por ela ter ficado contente porque se há alegria grande para uma mãe é sentir o reconhecimento dos outros sobre os filhos e eu gostei de lhe ter dado essa alegria e fiquei contente por falar com ela porque já não falava há tanto tempo e fiquei contente porque a filha dela é, de facto, muito talentosa e, do que vejo nos vídeos, vejo-a luminosa, especial e tão há pouco tempo era ainda uma menina pequenina, alegre, expressiva. E dissemos que haveríamos de nos reencontrar e eu quero que isso aconteça. E, portanto, foi o terceiro presente da noite. 


Este ano tem sido atípico, com momentos muito complexos, alguns no limiar da rotura, um tecto baixo e sombrio sobre mim, ameaçador, nuvens escuras sempre a cercar-me. E, no entanto, de repente, de forma incompreensível, parece que o teto se levantou, que as nuvens desapareceram. Não acredito em fadinhas pelo que imagino que um dia destes algo de desagradável volte a acontecer. Mas, de momento, as coisas estão como nunca. O horóscopo tinha dito: o seu poder de persuasão vai fazer com que se abram todos os caminhos, com que todos os obstáculos sejam ultrapassados. E, de facto, de uma forma nunca antes vista, é isso que está a acontecer. Ainda hoje. De uma forma que me parece quase impossível. Uma coisa de loucos. Não dá para acreditar.

Um dia de cada vez. Pode, um dia destes, de forma de novo inesperada, desabar sobre mim novo ceú carregado. A vida é cheia de surpresas e de equívocos. Mas posso testemunhar: não devemos temer e aceitar vergar a nossa consciência. Se o que ela nos diz é que digamos não, mesmo que isso comporte riscos devemos dizer não -- e prepararmo-nos para as consequências. Até porque pode acontecer que, mesmo que apenas temporariamente, as águas se separem para que passemos, incólumes. Ou seja, é aproveitar enquanto é bom. Sem medo do que aí pode vir. Até pode não vir. Ou, se vier, pode, afinal, até ser bom


E a vida é assim mesmo: momentos, surpresas, memórias, alegrias inesperadas. O tempo passa. Tantos anos que têm passado. Não me pesam. Acompanham-me com o seu rasto de boas memórias (eu, as más esqueço).  


E agora vou dormir. O quarto é grande demais só para mim e mal empregado para apenas uma noite. Mas é o que é. De manhã, ala moço que se faz tarde e o dia vai, de novo, ser bem longo.

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Os esquilinhos foram fotografados por Geert Weggen e estão aqui só porque são uma ternura. Yo-Yo Ma e Alison Krauss interpretam The Wexford Carol. E eu penitencio-me, de novo, por não conseguir responder a comentários ou mails. Não dá. Hoje não foi o tapete, foi aquilo de que falei e que me fez chegar ao quarto já por volta da meia noite e de, ainda, por cima estar a trocar mensagens com a minha filha. Mas tinha que lhe contar.

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Um dia feliz a todos quantos por aqui me acompanham.

Para ti A., se me estás a ler, um grande abraço e felicidades para todos, incluindo para o serzinho que está para chegar.

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quinta-feira, dezembro 06, 2018

Saber fazer



O meu pai era tido por não ter jeito para nada. Segundo a minha mãe, claro. Fazia arranjos em casa, isso sim. Mas arranjos de arranjar coisas avariadas. A minha mãe comparava-o com o irmão, jeitoso de mãos, que tinha construído, sozinho, uma estufa no jardim. E construído bancadas dentro da estufa. E tinha vasos com flores que transplantava para o jardim, sempre tão cuidado. O jardim arranjado pelo meu pai, segundo a minha mãe, era desprovido daquela perfeição que o meu tio imprimia no que fazia. Não perdia oportunidade para desvalorizar as suas habilidades (e as suas observações não deixavam de ser pertinentes). O meu pai ficava todo ofendido. 

Mas, para surpresa de toda a gente, quando se reformou, deu em fazer coisas de madeira, pequenos móveis, restaurar cadeiras, ou seja, a mostrar um talento de que nunca ninguém tinha suspeitado. Tudo bem feito. Abusei: fazia um desenho e pedia-lhe. Ele aborrecia-se: dizia que os meus desenhos não eram suficientemente técnicos. Então, fazia-os ele: tudo feito à medida, a régua e esquadra. Fazia cálculos, raízes quadradas, tudo na base da pura geometria. A minha mãe entrava na fase dos acabamentos. Admirada com o jeito que, afinal, ele tinha. Tenho vários móveis feitos por ele e, por isso, têm para mim um valor ilimitado: um móvel pequeno para livros, um móvel para DVDs, um carrinho com divisórias para tintas, um escaparate para bijuterias. 

Móveis eu acho que nunca saberei fazer. Mas nunca se sabe. Há algumas coisas que acho que não sei e que penso que nem terei habilidade, mas que dava jeito e que gostava: saber costurar e saber construir objectos. Talvez um dia me dedique a isso. 

O Leitor P. a quem, de novo, aqui agradeço enviou-me não apenas o extraordinário Caravaggio alive mas também o vídeo que aqui partilho e que também é uma graça. Uma jovem embrenha-se por entre um bosque de bambus, apanha uns quantos, limpa-os e, com uma agilidade impressionante, começa a montar umas peças que, no fim, resultam leves e resistentes. 

Convido-vos a ver pois não é só interessante: é também bastante tranquilizador. No fim de um dia complicado e a caminho de uns quantos em que a agenda transborda, sabe bem ver imagens assim, tão pacíficas.

Como fazer uma mobília de bambu


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A fotografia lá em cima foi feita há uns dias e encanta-me por ver como nascem espontaneamente flores, verduras, encantos -- e, sim, é um feto.

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E queiram continuar a descer pois o que ali partilho convosco é deveras extraordinário: 

Caravaggio alive


Gostos não se discutem, P., é certo. Mas não são exclusivos. Gosto de Paula Rego, tal como gosto de Graça Morais ou Júlio Pomar, tal como de Matisse, Gauguin, Van Gogh, Chagall e, sim, também de Caravaggio. 

Penso que já aqui o referi. Quando vi uma exposição de Caravaggio quase fiquei tolhida pela emoção. Aqueles seres ali retratados pareciam ter vida, pareciam ter aquele sarro, aquela sujidade nas unhas e restos de má vida que se imagina que, na realidade, aquelas pessoas tivessem. Gosto de pintura abstracta mas, se ela nos mostra figuras humanas, então as telas devem impressionar-nos. E as de Caravaggio impressionaram-me muito. Já as conhecia de as ver em livros ou em documentários, nem sei se alguma em algum museu. Mas uma exposição inteira com obras dele, estar perto daquela vida tão carnal, encheu-me de emoção. Há obras ou exposições que nos marcam de forma indelével.

Uma emoção assim, quase paralisante, também a senti perante uma pintura de Rothko. Ou perante um pano de boca de cena de Chagall. 

O Leitor P., a quem muuuuuiiito agradeço, enviou-me o vídeo que aqui partilho convosco e é impressionante.

Caravaggio living paintings by Ludovica Rambelli Theater 



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Para tirar teimas: 79 obras de Caravaggio



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quarta-feira, dezembro 05, 2018

A inominável dimensão do mistério




Tanto ele me recomendou que não deixasse para a última que acabei por dar ouvidos também à minha filha que, como se vê, sai ao pai em muitas coisas e não apenas fisicamente. E, assim, nos pequenos tempos livres, tenho ido escolhendo alguns presentes e já ali tenho uma bela teca deles.

A minha mãe tinha-me dito que nada, nada, nada, nada mesmo... só um livro. Já comprei dois. Gosto de oferecer livros. Mas a minha alegria foi maior por outro motivo: é que entrei na livraria com autorização. Concedi-me autorização para entrar e consumir. Consumir com uma condição: só para oferecer, não para mim. Mas sem problema. Estar numa livraria e saber que posso trazer alguns já é bom. Aliás, que bom... Eu, de novo, à solta no meio dos livros. Andar por ali a rondar, a ver, a passar a mão pelas capas, a espreitar as palavras que se escondem dentro de cada um... 

E depois, à última hora, achei que um dos que trazia para a minha mãe, caraças, era tão bom... tinha mesmo que o ter também. E trouxe.


E depois fui ver aquele sítio onde há sempre coisas especiais. E lá estava um. 'A grande arte tem a dimensão do mistério'. Senti logo aquele imperceptível tremor interior, aquela fina emoção, aquela vontade louca de o ter. Mas contive-me. Cinicamente pus-me a descobrir motivos de desinteresse. Procurei o índice. 
A arte também nos torna felizes

O jeito torna-se talento, e o talento, obra

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Um mundo gémeo do da poesia
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E li excertos. E, então, decidi que tinha mesmo que o trazer. Não se pode negar um amor -- e o amor dos livros e das palavras e do conhecimento e da arte é daqueles que não admite subterfúgios nem adiamentos nem desculpas. Tenho-o aqui comigo, olho-o enquanto escrevo, de vez em quando abro ao acaso e leio. Graça Morais dialoga com José Jorge Letria. 


Quebrei os meus votos de austeridade mas não me fustigo. Não estou arrependida. Não é como fumar. Desde que decidi deixar de fumar nunca mais fumei. Nem uma passa. Zero. Sei que não vou voltar a fumar. Antes, quando fumava, detestava sentir-me tão estupidamente burra embora não o admitisse. No dia em que tomei a decisão, foi como se tivesse decidido aprender a ler, uma decisão irreversível, um triunfo, um orgulho em ter deixado de ser tão estupidamente burra. Com os livros não é isso. Quero deixar de comprar porque depois fico sem ter onde guardá-los, porque não consigo ter tempo para ler nem uma parte, quanto mais todos. Mas não são votos eternos. Digamos que é mais um travão, uma tentativa de moderação. 


E, portanto, trouxe dois livros para a minha mãe e dois livros para mim. E estou feliz. E, de bónus, já sei onde gostava que fosse o meu próximo passeio.

Tirando isso.

Tinha visto uns pijamas giríssimos de um tecido que é um misto de veludo e polar, mas muito macio, térmico, levíssimo, um design mesmo bonito. Sondei a minha mãe: e um pijama muito quentinho? Não reagiu mal, não esteve meia hora a dizer que não, não, não. Perguntou foi porque não comprava eu um para mim. Expliquei-lhe que morreria assada. Ela sabe isso mas tem sempre aquela coisa de se preocupar não vá eu precisar e não ter nenhum pijama decente que vista. Já uma vez me aconteceu, há mais de mil anos. Era casada de fresco e apanhei uma amigdalite que me deixou cheia de febre, umas anginas que me puseram de cama. Chamou-se um médico a casa. E, quando o homem estava quase a chegar, lembrei-me que tinha que vestir qualquer coisa decente. E pijamas? Zero. Lembrei-me que deveria ter ainda, algures, camisa de dormir da lua de mel, uma espécie de vestidinho justo, curto, branco, todo em bordado inglês, com uma fitinha cor de rosa. Mas onde estaria? Eu de cama, afogada em febre, ele sem fazer ideia onde estaria tal peça destinada ao museu. Um horror. Não me lembro como resolvemos o problema mas ficou-me essa sensação terrível de não ter o que vestir numa emergência.


Então hoje, numa corrida, comprei-lhe um pijama tão diferente do expectável e tão, tão macio e bonito que, espero eu, a vai deixar muito agradada. Veste-se agora de uma forma mais moderna e jovem do que quando era, de facto, jovem. Parece agora, toda ela, mais jovem do que quando tinha trinta anos a menos. Claro que a oferta a nível de vestuário e adereços agora é outra. Mas as mentalidades também. Tinha muito aquilo de ser próprio para a idade, receio de dar nas vistas, receio do que pensassem. Agora, felizmente, está mais desempoeirada. Eu, que nunca quis saber de nada disso, detestava que ela se preocupasse tanto com a opinião alheia. 


Bem.

Vou interromper a conversa porque amanhã tenho que madrugar e ainda quero fazer umas carreirinhas de tapete. Estou mesmo furiosa com o tapete. Parecia que já estava na fase de encher o fundo e afinal ainda há imenso que fazer na barra. Aquele amarelo induziu-me em erro, confunde-se com a juta e sem ver bem nem reparei. Agora estou nessa, na barra, desejando de passar para o fundo. Quando estou no fundo é um desatino de urgência, não descanso enquanto não acabo. Oh, motivação mais boa.

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terça-feira, dezembro 04, 2018

Que presente de Natal para cada signo do Zodíaco?


Tem graça isto que acabei de ler na Vogue parisiense: o presente ideal para cada signo.
Isto dos signos é aquela coisa cuja defesa não abona a meu favor. Mas eu não defendo, só espreito. E sou racional: penso que há milhões de caranguejos, incluindo os que se comem (bem, dependendo da interpretação, todos se comem -- mas isso agora não vem ao caso) e nem todos hão-de ser iguais a mim pelo que não pode ser que estas coisas dos horóscopos batam certo para toda a gente. Mas o meu lado racional tem momentos. Ou seja, volta e meio questiono-me -- mas na volta e meia em sentido contrário estou-me nas tintas para raciocinar e acho graça a qualquer parvoíce. No outro dia, uma pessoa dizia-me: exponha o que tem a dizer sem emotividades, use apenas o seu lado racional. Isto porque eu estava destemperada, a disparatar por tudo o que era canto e esquina, sem poupar vivalma, disposta a pisar a pés juntos a linha mais vermelha de todas as linhas vermelhas. Ouvi aquilo e fiquei cheia de vontade de rir: então uma pessoa desbocar-se à cara podre é sinónimo de ser irracional? Emotivazinha? Adiante.
Bem. Dizem os oráculos que há que atender que os Caranguejos são assim:
Você adora ficar enroscado em casa, no seu interior reconfortante. Sua criatividade é inerente à sua personalidade e você não pode imaginar uma vida sem arte, cultura ou criatividade. Você precisa de se revigorar num local de aconchego com materiais envolventes.
E, assim sendo, são estes os presentes de sonho: uma aula de ioga, uma assinatura cultural, uma jóia de talismã que a proteja da agressão externa, um perfume que lembre a infância, uma vela, uma manta.
E isto tem graça porquê? Pois bem. Tenho paixão por mantinhas. Há sempre uma mantinha para um just in case. No outro dia quando a minha filha aqui esteve à noite com os meninos, pediram logo uma mantinha. Fui buscar uma ultra macia, quentinha. Adoraram. Há nos sofás, há perto da salamandra, há na cama. E, por onde passo, quando ando às compras, se vejo uma, logo vou passar a mão para sentir o toque. Se vou com o meu marido, puxa-me logo pelo braço: chega de mantas. Mas o ano passado viu-me tão encantada por uma ultra leve, ultra macia, de um veludo quase intangível em verde turquesa, que se deve ter sentido arrependido de não me deixar trazer e, então, voltou lá e surpreendeu-me completamente no natal. Quando abri o saco e vi aquela maravilha até me comovi. 

E velas. Agora parei por já não ter onde colocá-las. Tenho vários castiçais, várias velas, de vários tamanhos, de várias cores. E aqui ao meu lado tenha aquela grande de que gosto tanto e que foi presente do meu filho: 'Under a fig tree'. Nem a acendo para não a gastar. Gosto de fazer render aquilo de que gosto. (Será que isto significa que, na volta, tenho em mim, oculto mas bem vivo, o meu lado conservador?)

E perfumes. Aquela minha demanda por um que seja pura essência de violeta como aquele que, quando era miúda, ofereci à minha mãe? De vez em quando, entro numa perfumaria e, se vejo cara nova a atender, tento: 'tem algum perfume baseado na essência de violeta?'. Nunca têm. Mas não sou esquisita. À falta de melhor, qualquer Chanelito me serve. Este nº 5 em edição natalícia, o frasco perigosamente vermelho, é uma tentação escandalosa. O pior é o preço. E aí o meu lado racional fala mais alto. Mas a verdade é que este frasco que já de si é tão sobriamente elegante, agora em rouge, parece que chama por mim. Que querem? Tenho este meu lado feminino, coquette, fraca, sempre tentada a ceder às tentações.

Jóias que sirvam de talismã, todas. Aliás: jóias, todas, sirvam ou não de talismã. Não ando sem uns fiozinhos, sem um brilhante como piercing, sem colares, pulseiras, brincos. Discretos. Não forçosamente tudo ao mesmo tempo. Ou indiscretos. Jóias verdadeiras ou de meia dúzia de euros. Tudo serve. 

Ioga é sabido que ando com essa curiosidade. Não fosse aquilo de uma pessoa estar sossegada a fazer posições e já estaria mais convencida. Mas é coisa que vem trabalhando na minha cabecinha.

E assinatura cultural claro que sim. Mas enquanto andar nesta minha vida de escravatura não dá. Mas não vejo a hora. Ainda hoje, ao fazer a nossa caminhada, viémos a falar nisso. Bem. Não exactamente. Eu disse: 'Quando tiver o tempo por minha conta vou aprender a tocar piano'. Ele disse: 'Acho bem, era só mesmo isso que te faltava'. Gozão. Mas afinei a ideia: 'Melhor: violino. Mais fácil de ter em casa para praticar'. Ele disse: 'Isso. Devia ter graça'. Acrescentei: 'E tu também'. Disse uma brejeirice que não posso aqui transcrever. Não é dado a cenas artísticas, é escusado. E eu só para ouvir. Tocar nem pensar. Se fosse uma pessoa dada à erudição iria aprender grego (mas do clássico) e piano.  Haveriam de me ver depois, tal e qualzinha a Khatia Buniatishvili a tocar uma valsinha de Chopin.

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E queiram descer para espreitar um cheirinho do Calendário Pirelli 2019

Pirelli 2019
[O making of]



Todos os anos é com curiosidade que espero pela notícia de que já se começam a saber as novidades sobre o Calendário Pirelli. A escolha dos fotógrafos é sempre criteriosa e a das pessoas fotografadas também. E cada vez mais há aspectos diferenciadores. Já lá vai o tempo em que bastavam umas meninas curvilíneas, descascadas. Agora é normal que se reconheça ali arte e uma história ou, vá, uma mensagem.

Desta vez há bailado e Albert Watson -- o fotógrafo convidado -- foi buscar, imagine-se,o meu bem amado Sergei Polunin. E como se já não fosse suficientemente excepcional também foi buscar Misty Copeland. Só de sabê-lo já fiquei encantada.

Ainda não tenho as fotografias dos meses mas tenho um pouco dos bastidores. A Gigi faz a capa do vídeo e, do que se vê, a edição 2018 promete.


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Para quem não conheça a bela Misty, aqui fica uma amostra



Maravilha.

E até já.

segunda-feira, dezembro 03, 2018

A cidade mais linda do mundo




Não sou muito viajada. Já fui um pouco mas nestes últimos anos, por razões que já aqui expliquei, tenho dificuldade em afastar-me. Mas gosto muito de viajar. Talvez até mais do que  que viajar, gosto de me sentir turista. Gosto de descobrir lugares, gosto do prazer de ver pela primeira vez, gosto de me deixar surpreender. Mas consigo ter essa sensação em lugares que conheço bem, quase como a palma da minha mão. Consigo descobrir coisas em lugares onde estou todos os dias e esse prazer é igual, ou quase igual, ao que tenho quando nunca antes estive num lugar.

Tenho também descoberto o prazer de conhecer melhor o que está perto de mim. Tenho a sorte de viver num país maravilhoso onde as belezas são mais do que muitas e as descobertas permanentes.


E basta que o vento mude ou se suspenda, que a luz e as nuvens transformem a paisagem, que o nosso estado de espírito nos deixe ver com outros olhos -- e logo as descobertas se sucedem.

Este domingo almoçámos todos juntos, em volta de uma grande mesa redonda. E é sempre uma alegria tão grande. Todos gostam tanto de estar uns com os outros que a conversa, o riso e as brincadeiras para além de ruidosas, são constantes. E eu alimento-me destes momentos. Se, para mim, a beleza natural e a arte e a música e o silêncio e as palavras e as memórias são fundamentais, o afecto e o aconchego de estar junto daqueles que mais amo são o alimento de que o meu espírito mais precisa.

Depois de almoço fomos passear para o passadiço sobre o Tejo, aproveitar o solinho bom, a temperatura amena, e os meninos estavam entusiasmados a olhar por entre as tábuas para descobrir alforrecas lá em baixo. A cada meia dúzia de passos, chamavam uns pelos outros e logo de punham de joelhos a espreitar para o que tinham descoberto junto às traves, no rio.


Depois o meu filho viu no telemóvel que haviauma trotineta eléctrica ali por perto e foi buscá-la. Apareceu a alta velocidade para delírio da criançada. A seguir andou com cada um deles e foi a loucura e a seguir as meninas grandes também experimentaram mas a muito menor velocidade do que ele. A festa que as crianças fizeram é inenarrável. Só o bebé é que não deu por nada pois estava, no carrinho, a dormir.

Não andei de trotineta, claro, mas tirei umas fotografias com a minha maquininha pequenininha não apenas à aventura e aos bravos aventureiros como ao que me rodeava. O Tejo hoje estava chão, espelhado, de uma serenidade contagiante e eu só tenho pena de não conseguir captar, nestas minhas fotografias, como é tão verdadeiramente magnífica esta tão intemporal e luminosa.

E todas aquelas construções, elegantes e harmoniosas, reflectidas nas águas, pareciam quase irreais de tão lindas.

Não é à toa que Lisboa é a melhor, a mais bela e acolhedora cidade (vide o reconhecimento dosWorld Travel Awards). 


Ande-se na Baixa Pombalina, no Chiado, nas Avenidas Novas, nos seus Parques e Jardins, junto ao rio, na zona monumental ou aqui, no Parque das Nações, andaremos sempre maravilhados em Lisboa.

Claro que, para dizer isto, tenho que me abstrair do trânsito nas horas de ponta nas principais vias de acesso durante a semana de trabalho. Mas, lá está, acredito que algumas soluções inteligentes estão a caminho e outras mais disruptivas poderão vir um dia e, para além disso, agora estou a escrever isto na qualidade de turista nesta Lisboa que adoro. 


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E queiram fazer o favor de descer para verem a minha querida Paula Rego, de quem gosto tanto, tanto.

Paula Rego


Uma vez, numa tarde dourada, ao fim do dia, no Palácio Fronteira, uma festa, um conjunto de pessoas circulando no belo jardim, conversando, visitando os recantos, vendo os azulejos. Já em tempos falei neste dia especial: era o dia do lançamento de um livro muito bonito. Antonio Tabucchi escreveu a história e Paula Rego ilustrou. Tão, tão bonito. 'Fogo'. Um livro ímpar que para sempre associarei àquela tarde tão agradável.

Estavam lá, eles. Tão simpáticos. Autografaram o meu livro. Sorriu, ele, e o sorriso era envolvente. E Paula Rego olhou para mim a sorrir, gostou do meu nome, disse-o. Depois, passado um bocado, Paula Rego disse que estava com o rabo frio, estava sentada num banco de pedra, que nem sabia se tinha o rabo molhado, se tinha feito xixi. Mas claro que não tinha, a pedra do banco é era fria. E toda a gente se riu com a sua genuinidade.

Estive a ler a entrevista no The Guardian. Paula Rego: It isn’t nice in my mind'
Visceral and unsettling, Paula Rego’s art has challenged us for decades. Now, at 83, she talks about cruel fables and the medicinal joy of champagne.
Gosto tanto das suas pinturas, gosto tanto da sua loucura, da sua mente aberta, da sua forma, autêntica e quase infantil, de ser. E gosto dos adereços que ela arranja para compor as suas personagens e os ambientes em que elas se enquadram. Gosto de tudo. Há quem ache horrível, quem não veja ali beleza. E eu vejo beleza de mais, vejo a transcrição de pessoas reais, de pernas e troncos grossos, feições rudes, gente sofredora, revoltada, desafiadora, vejo irreverência, descaramento, gozo, puro gozo.


The only thing that helps is the work’: Paula Rego. Photograph: Phil Fisk for the Observer

Adereços do atelier de Paula Rego que têm entrado nas suas pinturas

‘I like the idea of the man having the baby and his gut bursting – serves him right’: a shot from the 1960s with Rego, her son Nick Willing (left), two daughters, and late husband, Victor (right).
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E porque o medo é uma presença constante na sua obra:

Giving fear a face



E uma entrevista que apesar de ter uns anos, cerca de cinco, eu vejo de gosto. De gosto, mesmo. Gosto tanto, tanto da Paula Rego.

Paula Rego fala do medo


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E até já.

domingo, dezembro 02, 2018

Dizem-me que ele deve ser eleitor do PAN mas isso eu não sei, só sei da sua paixão por Esther


O meu dia foi muito bom. De manhã alinhei com o sentido prático do meu marido e fizemos compras, já algumas de Natal. Depois estivemos todos juntos e até consegui tirar a minha mãe de casa, esteve com todos os netos e bisnetos no parque e depois os meninos foram patinar no gelo e foi uma diversão, depois fomos todos lanchar a casa dos meus pais. O que vale é que o meu pai estava a dormir, senão ficaria numa agitação danada com o barulho que aquela maltinha faz. Depois a minha filha e os meninos vieram cá para casa e jantaram e depois estivemos na sala, na boa, na calminha, na conversa, os meninos vendo vídeos e televisão, estendidos no sofá. 

Amanhã será outro dia também cheio de programa e afazeres, Claro que não vi televisão nem sei a quantas anda o mundo mas, da espreitadela que dei há pouco, parece que nada de transcendente. Há aquilo em Paris mas a gente já sabe que os parisienses, para além de terem aquilo de não se lavarem lá muito bem (que não sei se está estatisticamente provado ou se é mero mito urbano), gostam de uma boa baderna de vez em quando. Misturam-se direitolas com esquerdalhos mais uns quantos valentões e, no meio, uns quantos que genuinamente estavam descontentes e que foram cilindrados pela força trauliteira dos demais, e está o baile armado. Caixotes do lixo, pedra da calçada se ainda houver alguma, montras e macacadas de toda a espécie e está o centro de Paris virado do avesso. É cíclico, muito déjà-vu. Há quem encare isto com romantismo, como se tivesse alguma coisa a ver com o maio de 68. É natural: romântico que é romântico usa todos os pretextos para sentir saudades das grandes causas do passado.

Ou seja, isto de Paris a mim não me inflama. Tirando isso, acho que o Trump fez mais algumas das suas mas esse aí, então, é todo muito ex, não me dá gozo falar numa múmia empalhada que teima em parecer viva. Uma coisa tipo Cavaco mas em versão americana. E em versão loura.

Quero eu dizer com isto que do muito pleno que foi o meu dia, pouco espaço me ficou para o preencher com notícias. É que cá em Portugal, parece que saíu uma notícia de truz: ao fim de mais de um ano parece que desconfiam que a cena de ninguém tomar conta das armas pode ter a ver com tráfico de armas. Inteligentes, eles. É que ninguém desconfiava de que toda aquela rebaldaria no controlo das armas deveria ter alguma coisa estranha por trás. Santa paciência. 


De engraçado mesmo só os vídeos que o P. me enviou (thanks a lot, Mr. P.) como este que aqui abaixo partilho convosco. Como assunto do mail limitou-se a escrever: Eleitor do PAN. 

Eu não percebo nada do que é o PAN nem sei o que pensa o senhor mas gostar de animais e natureza é um bom princípio e se a isso junta gostar de pessoas então ainda melhor. Ao menos, no orçamento, vota do lado da geringonça mas, quando penso nele, só me ocorre que parece que não abre bem os olhos. Mas isso não vem agora o caso.


O vídeo mostra Esther, a porquinha que era para ser uma porquinha pequenina e que cresceu desabaladamente a ponto de se poder dizer que virou uma enorme porcalhona -- e que mudou a vida dos donos.

Aquela partilha, aquela comunhão tem que se lhe diga mas eu só digo que tem graça e que não ofende. 

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E um bom dia de domingo.


É de uma coisa assim que Lisboa e arredores estão mesmo a precisar


Quem viva e/ou trabalhe em Lisboa sabe bem o inferno que é entrar e sair da cidade, entrar e sair dos parques empresariais, atravessar avenidas e ruas especialmente em horas de ponta. Horas de vida perdidas no trânsito. Basta que haja acidente na Segunda Circular, na A5, numa das Pontes, na Cril ou nessas vias que tendem a estar congestionadas -- mesmo sem transtornos -- para que toda a cidade sofra as consequências.

Claro que uma das soluções para isto passa por ter transportes públicos de qualidade, com a frequência devida e a preços acessíveis. A recente e excelente medida do Governo de baixar os passes sociais é bem capaz de vir a dar bons frutos. Mas outras soluções, mais dispendiosas e disruptivas, poderiam ser lançadas numa lógica de médio e longo prazo -- por exemplo, longos viadutos, estradas aéreas, túneis, vias subterrâneas por forma a tirar o trânsito do meio da cidade.

O P., a quem muito agradeço, enviou-me um vídeo espectacular. Vejam pois não apenas há paisagens de sonho como o projecto é extraordinário. Inspirador. Pode ser que algum dos meus Leitores seja arquitecto, urbanista, visionário, amante de cidades, político a sério e, vendo o que aqui se mostra, tenha uma ideia para tornar Lisboa uma cidade transitável, com bué de qualidade de vida.

sábado, dezembro 01, 2018

Palavras sobre coisas de nada.
E frutas exóticas e espaços do outro mundo.




Tem-se juntado a confusão no trânsito -- que me faz perder tempos infinitos -- com um hábito de uns e outros que me agonia: o de, para cumprirem objectivos (e receberem um bom prémio), desatarem a querer despachar tretas que deveriam ter sido feitas ao longo do ano. Ou seja, não apenas tenho tido trabalho a perder de vista, intercalado com reuniões pelos mais díspares motivos, como, a somar a isso, têm sido sucessivos engarrafamentos e acidentes e não apenas chego tarde ao trabalho como tarde a casa.

Hoje uma colaboradora sentou-se na mesa de reuniões do meu gabinete e, com ar estafado, disse-me que andava com tanto que fazer, a saltar de uns assuntos para outros e a ter que aturar toda a espécie de problemas, que chegava ao fim do dia com a sensação que não tinha feito um décimo do que devia. E eu percebi-a muito bem e disse: fará eu que, para além disso, ando de empresa em empresa. 

Vou de umas para outras, saio de uma reunião para entrar noutra sem tempo para me preparar, sem tempo para deixar assentar a poeira. Se num destes intervalos -- em que penso que vou ter tempo de perceber qual o assunto que aí vem ou para ir à casa de banho ou ir à copa beber um chá -- alguém me liga, sinto que a impaciência transborda da minha voz.


Hoje de tarde tive uma reunião com dois que andavam há séculos a querer reunir comigo e eu empurrando com a barriga. Até que não tive como não fazer a reunião. O assunto era interessante mas o momento péssimo. E não se calavam. Eu já estava que não podia. Tentei atalhar mas parece que vinham com o script empinado e determinados a não se deixarem empurrar porta fora. Uma dor. Juro. Para o fim já tive que fazer um esforço por me manter educada. Credo. Uma canseira que não se aguenta.

Não há dia em que, quando à noite me sento aqui no meu abençoado sofá, não me dê logo um sono que me deixa pedrada. Se consigo pegar no tapete ainda esperto. Mas hoje nem isso ainda consegui fazer.

O meu marido diz que devíamos tratar dos presentes do natal e eu respondo que, parecendo que não, estamos em entrar em dezembro e o natal é só lá mais para o fim do mês. Ele, como gosta de fazer tudo com tempo, diz que não é bem assim. Mas eu que tenho um mês de sufoco pela frente com vários almoços e jantares de natal que começam já nesta semana que aí vem, um dos quais a centenas de quilómetros, só me apetece que passe o natal para poder ficar livre do encargo de andar nestes festejos em série e de, ainda por cima, me meter em barafundas em lojas cheias de gente vagarosa. O ideal seria poder fazer as compras do natal no princípio do ano: lojas tranquilas e as coisas a metade do preço.


Esta semana ainda não consegui pegar num livro. Tenho ali um sobre mulheres na arte e só penso em sentar-me, acordada e fresca, a lê-lo. Mas nem energia tenho para ir ali buscá-lo. Passa da meia noite e eu tenho vontade de ver pinturas ou belas fotografias, ouvir música, gostava de ser capaz de escrever palavras límpidas, gostava de conseguir trazer aqui temas interessantes. Mas não consigo.

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As fotografias acima provêm do The Guardian. Não têm a ver com o texto mas são tão bonitas, não são?

E junto dois vídeos bem bons de ver: um que mostra um mercado de frutas, onde se podem conhecer frutos nunca antes vistos. E outro com bibliotecas de assombro.




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sexta-feira, novembro 30, 2018

Nesta altura do ano





Li, não sei onde, calculo que num dos blogs da galeria lateral, provavelmente enquanto estava no carro, presa no trânsito, alguém a queixar-se das folhas no chão num certo sítio da cidade. Mostrava fotografias de ruas pejadas de folhas e falava no perigo que é, que alguém poderia escorregar. E que a autarquia deveria varrer as ruas. Quis dar-lhe razão mas depois vacilei. A razão queria dizer que claro que as ruas deviam ser limpas de todo aquele folhedo mas... não me autorizei a tal pois a emoção puxava-me para o oposto.

Lembrei-me de uma queda brutal que dei há uma meia dúzia de anos. Tinha chovido e eu ia, com pressa, com coisas nas mãos. Virei para subir umas escadas e, nessa curva que dei, pisei uma folha molhada, presumo que já meia amolecida. Foi uma ínfima fracção de segundo. Levantei voo e aterrei violentamente de cabeça nos degraus de pedra da escada. Como tinha as mãos ocupadas, nem sequer tive o instinto de me agarrar ao corrimão. A cabeça sofreu um estrondo e eu pensei que a tinha partido. A custo levantei-me e, sabe-se lá como, consegui chegar a casa. Deitei-me na cama. Estava tonta e com uma dor tremenda na cabeça. Tinha sangue na cara mas era apenas superficial. Quando tentei levantar-me, mal consegui. Tinha tal dor nas costas e na zona pélvica que mal me mexia.

O meu marido teve que me levar às urgências no hospital. Já não me lembro bem mas acho que tinha uma micro fissura na zona da bacia e já não me lembro o quê na zona pélvica. Tive que ficar um ou dois dias em casa (ou mais? -- não me lembro, só me lembro que andei mais de um mês cheia de dores e, por vezes, ainda tenho um incómodo ali)

A forma desamparada como caí, sem tempo de reacção, batendo com a cabeça de uma maneira que a poderia ter estourado, fez-me passar a ter medo das quedas. E tudo porque pisei uma folha molhada.


Mas, por outro lado, que linda que é uma rua, uma praça, os jardins cobertos de folhas de outono, douradas, tão cheias de luz coalhada. Vejo e penso: ainda bem que ninguém as tira porque um chão coberto de folhas douradas é do mais lindo e romântico que pode haver. 
Interrogo-me: será que ver um chão coberto de amarelo e, em vez de se ficar encantado, ficar a pensar que o que ali está é um perigo, é sinal de que a idade começa a pesar? Forço-me a pensar que não, que não tem nada a ver, que é apenas um sinal de prudência. Mas não sei.
No outro dia, uma jovem colaboradora minha, falando de um colega mais velho, mais ou menos da minha idade, (mas, a sério!, parecendo bem mais velho que eu), relatava-me com a maior das espontaneidades uma conversa que tinha tido com ele: 'Já lhe disse no outro dia: ó pá, o que é ainda cá andas a fazer? E disse-lhe que eu, se fosse a ele, ia gozar a vida em vez de ainda andar aí a ter que se levantar cedo, a andar no trânsito, a aturar chatices'. Tive que lembrá-la que isso não é bem assim, que as pessoas não podem reformar-se antes da idade, quando querem. Ela olhava-me um bocado céptica, creio que sem se dar conta que poderia estar a falar de mim. Reparei como para ela, a partir de certa idade, já não faz sentido trabalhar, como se, atingido esse patamar, as pessoas já devessem ser poupadas, talvez porque mais frágeis, mais perto do fim. Não me dei por achada, até para não a atrapalhar, mas fiquei a pensar que, na realidade, chega-se a um ponto da vida em que se percebe que o tempo que falta é menos do que o que já se viveu e que, na realidade, é bom que a gente o aproveite bem.


Quando morreu a minha avó, o meu tio, filho dela, vendo-me triste, disse-me: 'No outono, cai a folha'. E eu, que associava o outono a uma estação suave, de cores douradas e rubras, um tempo de doçura e aconchego, fiquei a pensar que, na verdade, também pode ser visto como o fim do caminho, o tempo em que o fio de luz que ilumina a vida se extingue.

Mas, enfim, não vale a pena estar para aqui com estas conversas. Para cada coisa há sempre várias perspectivas para a ver e todas estarão certas. E não há fim, só há interrupção. E sempre um recomeço. Mesmo que numa outra forma, mesmo que invisível, mesmo que ninguém o perceba.


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That time of year thou mayst in me behold
When yellow leaves, or none, or few, do hang
Upon those boughs which shake against the cold,
Bare ruin'd choirs, where late the sweet birds sang.
In me thou see'st the twilight of such day
As after sunset fadeth in the west,
Which by and by black night doth take away,
Death's second self, that seals up all in rest.
In me thou see'st the glowing of such fire
That on the ashes of his youth doth lie,
As the death-bed whereon it must expire,
Consum'd with that which it was nourish'd by.
This thou perceiv'st, which makes thy love more strong,
To love that well which thou must leave ere long.




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