Não costuma acontecer-me desta forma. Se é normal identificar-me com algumas coisas de outra pessoa, já não é tão frequente eu estar a ouvir uma pessoa, durante uns dez minutos ou mais, e pensar que eu poderia dizer tudo o que essa pessoa esteve a dizer.
Nos cuidados que tenho com os meus filhos ou netos, no saber que não é preciso eu recomendar ou avisar, porque eles sabem, mas que é tão difícil ficar calada porque tenho sempre a impressão -- mais até que a impressão, o dever, e até mais que o dever: a obrigação -- de que devo alertar para os riscos ou aconselhar (seja a propósito do que for). Ou saber que não devo dizer a um amigo que não faça isto ou aquilo porque não vai resultar quando sei que não vai resultar. Mas também eu estou a aprender a não dizer nada porque afinal sei lá se vai ou não. Ou, mesmo que acredite que, mais do que certamente, não vai resultar, se calhar, enquanto a pessoa vive na ilusão, sente uma felicidade que não sentiria de outra maneira. Mesmo que seja fátua ou insensata ou efémera. Sabemos lá.
Mas isto é uma aprendizagem. Penso por vezes em não dizer nada, mas também penso que quem me garante que, a posteriori, não lamentam que eu não tenha alertado, que talvez isso pudesse ter ajudado a não se meterem em situações chatas.
Dúvidas. É o que tenho cada vez mais. E aceito essas dúvidas. Tento aprender a viver com as dúvidas.
No trabalho eu alertava sempre para trajectórias que sabia, à partida, que iam correr mal. Isso trazia-me dissabores, mas eu não conseguia deixar de alertar. Por exemplo: 'Como...? Vem o Presidente da República inaugurar uma coisa que vai ser um fiasco? Como? Não pode ser, estão a envolver o homem numa coisa que é uma treta...' e ficavam furiosos comigo, a comunicação social toda convocada, equipas internas de filmagens, festa e beberete, notícias, entrevistas. E eu, doente com aquilo, 'esta coisa está longe de estar operacional, e, pior, nunca na vida vai ficar operacional, é um flop gigantesco'. E toda a gente incomodada comigo, a festa armada e eu a querer impedir a festa, a achar que só poderia ser uma farsa, não era possível que só eu estivesse a ver que ia ser um fiasco. E a festa fazia-se, convidados, comitivas e mais comitivas. Ao fim de alguns anos, tudo para o galheiro. Milhões para o buraco. Custos afundados, dizia-se. Claro, estava na cara, só não viu quem não queria ver. Mas durante muito tempo eu era a mulher do médico que via quando todos os outros estavam cegos. Mas hoje interrogo-me: eu era a única inteligente ou, pelo contrário, era a mais burra, a que não conseguia estar calada, a que arranjava inimigos, a que criava situações constrangedoras, a que não era capaz de se alinhar numa fantasia?
Se fosse hoje se calhar limitar-me-ia a dizer: 'não acredito que isso tenha pernas para andar mas, se é vossa decisão seguir em frente, quem sou eu para o questionar?'. E não diria mais nada. Mas faria como fiz naquela altura: 'como podem imaginar, por coerência, à inauguração, à festa, à recepção, isso eu não vou.'
Mas estou a derivar.
Dizia eu que, tal como a Jeanne do vídeo diz, as perguntas são muitas, as respostas são poucas. Mas está bem assim. A consciência da ignorância é uma coisa boa, tranquilizadora. Sabemos que pouco sabemos. Tenho vontade de aprender mas sei que jamais saberei a mais ínfima parte do que há para saber. E aceito-o, na boa.
O vídeo é, como são sempre os vídeos desta série, muito envolventes, muito bem feitos, muito serenos. Espero que gostem.
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Só um aparte, antes de partilhar o vídeo: o domingo foi muito feliz, com a família toda reunida. Desta vez os astros alinharam-se e conseguiram estar todos disponíveis para almoçar e ficar para a tarde. Até o menino (o menino grande, diga-se, alto que só visto) que teve jogo no domingo, ficou despachado a horas de almoçar com a família. Claro que estava cansado, com sono, o que é natural pois madrugou.
E estreei o forno e correu bem. No fim, levaram o que sobrou, até a sopa. E fico feliz com isso, como é natural.
Os meus meninos queridos (meninos lato sensu, bem entendido), os crescidos e os crescidos (porque estão todos cada vez mais crescidos, um deles já verdadeiramente um homem, meu rico menino) quando estão juntos a conversa flui, flui, flui, sempre toda a gente a conversar em volta da mesa, é uma alegria sem tamanho, boa e linda que só vista.
E agora é que é o vídeo, que dá para pôr com as legentas nativamente em português (ou seja, não são legendas automáticas, daquelas manhosas).
The Freedom of Not Having All the Answers
Passamos tanto tempo a tentar desvendar a vida. Procurando respostas, imaginando o que pode acontecer. Mas, quando pensamos que finalmente já percebemos tudo, a vida surpreende-nos com algo inesperado.
Esta necessidade constante de saber pode ser cansativa. Ficamos acordados a repassar possibilidades, procurando uma resposta que esperamos que nos traga finalmente paz de espírito. E, por vezes, estamos tão ocupados a tentar prever o que vem a seguir que perdemos o que está a acontecer agora.
Há um certo alívio em dizer: "Não sei". Podemos parar, respirar fundo e deixar algumas perguntas sem resposta durante algum tempo. Podemos ter curiosidade sobre o que vai acontecer a seguir, sem ter de ter todas as respostas. Não precisamos de todas as respostas para começar a viver de forma mais plena, exatamente onde estamos.
Com Jeanne. Filmado em Noordhoek, África do Sul.



