Hoje o dia começou com o meu marido a dizer que tinha visto um javali. Contei-o numa story no Instagram.
Há um sítio em que a vegetação é um pouco mais fechada, um lugar sempre à sombra, sempre fresco. Há um grande cedro, uma azinheira, diversas aroeiras, erva diversa. A terra aí é fofa, negra. E frequentemente está remexida.
O nosso cão anda sempre intrigado por ali. Põe o nariz no chão e anda de um lado para o outro. É frequente ver ali pegadas de bicho grande, terra levantada. Sempre me admirei: que bichos por ali andam e o que procuram? Dá ideia que desenterram coisas. Já pensei muitas vezes: trufas? Não faço ideia.
Esse lugar é numa extrema do terreno vedado (há uma outra parte, separada por uma estrada, que não está vedada). Ali, naquele sítio em concreto, a vedação não está danificada. Ou seja, não é por ali que os bichos entram. O javali que o meu marido viu estava ali, ao lado da vedação e ficou a olhar para ele. O meu marido diz que, pelo tamanho, não era adulto.
O nosso vizinho que mora na entrada da rua, uma vez que falámos da nossa desconfiança, disse que de vez em quando acordavam com um grande barulho na estrada, animais a trote. Então, passaram a estar atentos e uma noite fizeram uma espera e conseguiram ver uma grande vara de javalis a correr na estrada, na direcção do vale, passando pela nossa casa.
Um conhecido já avisou algumas vezes: é preciso o máximo cuidado com as mães javalis ou com bichos que se sentem ameaçados. Por isso, hoje, ao andar por ali sozinha com o cão sempre por perto, pensei que se me aparecesse um bicho pela frente haveria de ser um festival, o cão aos saltos e a ladrar furioso e o bicho, assustado...
Bem. Não foi surpresa a constatação de que, na verdade, há javalis in heaven mas foi surpresa estarem à vista, de dia, tão perto.
Não tenho falado mas, em contrapartida, dos gatos nem sinal. Desapareceram todos. E dos esquilos agora não tenho visto vestígios, nomeadamente aquela fartura de pinhas roídas em baixo. Estive a informar-me e, nesta altura, as pinhas não estão boas para roer. Por isso, podem continuar residentes mas andarem a alimentar-se com outros acepipes.
Tirando isso e o expediente comum (o meu marido a roçar mato, eu em arrumações e varridelas e etc.), continuo, como sempre, fascinada com o efeito da luz através das flores.
Que cores, que perfeição, que harmonia.
Quanta beleza.
Nestes dias não se vê televisão, não se procuram notícias. Ao fim do dia, no carro, por acaso apanhámos o fim do noticiário, qualquer coisa sobre os novos ministros. Desejamos que, a bem do País, corra bem. Contudo, algumas escolhas parecem estranhas.
Quando chegámos a casa, já jantados, ainda demos, bem de noite, um passeio com o cão. Confesso que senti algum receio. O meu marido disse que não havia razão para isso e, por isso, confiei.
Com isto, a verdade é que não consigo ter disposição para falar de política.
Só quero dizer uma coisa: quando a minha nora enviou para o grupo da família um vídeo com a cena do Marcelo a fazer um tristíssimo papel com uma jovem na Feira do Livro, ao ver tive dúvidas de que fosse real. Depois vi que é. E fiquei perplexa. Mau, muito mau, mau de mais. Começou por parecer um totó de roda da jovem, a querer rebater, a querer interromper, a não saber pôr-se no seu lugar. Depois, no fim, a forma como a agarrou pelo pescoço, com força, foi de uma agressividade inqualificável. Todo aquele comportamento foi de uma inconveniência inusitada, uma menorização da função presidencial como nunca antes se tinha visto. A jovem, de que não sei o nome, pelo contrário, manteve um sangue frio, uma atitude fantástica. Deixou-o nitidamente aos bonés. Se Cavaco acabou mal e retratado com a boca cheia de bolo-rei, Marcelo acabará ainda pior e retratado a agarrar uma rapariga pelo pescoço, acabando com ela a instá-lo a largá-la e a virar-lhe as costas. Cena mais macaca. Marcelo não se enxerga. Que fim mais triste.
A ver se amanhã me regressa a vontade para falar de política para me pronunciar sobre os membros do Governo e o que é que as escolhas podem significar. Preferia, contudo, esperar pelos Secretários de Estado, para ver se são melhores dos que os anteriores. Logo vejo.
Dia de descanso. Nem monda por gavetas repletas de infindáveis pastas, dossiers, envelopes com mil coisas dentro, nem transporte de sacos e caixotes, nem arrumação do que se trouxe.
Nada. Intervalo.
Estava muito precisada de desligar.
Tem sido pesado.
Depois de já muito ter sido escolhido, perguntam-me os meus filhos porque, agora, o que sobra, não vai tudo direito ao lixo. Não posso. Tenho descoberto coisas extraordinárias onde menos se espera.
Ontem descobri um caderninho feito manualmente pela minha mãe, muito à semelhança do outro feito pela minha bisavó, sua avó materna, em que ela escreve o nome completo de todas as pessoas da família, data de e local de nascimento e, no caso dos falecidos, data em que foram para o hospital, data da morte, com quem se casaram e em que data, ou, no caso dos mais novos, nome completo, data de nascimento, nome dos pais.
Fiquei a saber que um dos filhos de um dos meus primos tem o mesmo nome próprio (nome duplo) que um dos meus netos. Conhecemo-los apenas pelo primeiro nome e foi preciso a minha mãe ter morrido para eu descobrir que estes jovens primos são homónimos.
Vi também duas cartas que me foram dirigidas e que juraria que nunca antes as tinha visto. Aliás estavam num lugar muito improvável, uma de um prévio namorado e outra de um que, tempos antes, tinha sido forte candidato a sê-lo. Provavelmente, a minha mãe temeu que fossem perturbar o meu namoro da altura. Mas isto, claro, são conjecturas minhas.
Descobri também umas folhas assinadas por muita gente, creio que terá sido quando o meu pai se reformou. Tenho que ver com atenção.
E muitas medalhas dele, muitas dos seus feitos desportivos.
E descobri uma coisa que muitas vezes tinha desejado ter: umas folhinhas escritas por mim com o nome completo e a morada de muitos dos meus amigos. Há uns dias, ao ver muitas cartas que me tinham sido dirigidas, via apenas o nome abreviado (Mané, Noémia, etc) e não conseguia recordar-me do nome todo e de quase todas não sabia a morada pois no envelope, na parte de trás, escreviam apenas esse nome abreviado. Quanto muito, e raramente, por baixo, o nome da cidade. Ou a minha grande amiga e correspondente de que apenas sabia ser São Tavares. Agora tenho o nome completo e a morada.
É verdade: fica para a posteridade o que está escrito em papel. Ainda ontem, quanto contei isto ao meu filho, ele o disse. Na verdade, só isso fica. Computadores que se desactualizam, de que não sabemos as passwords, acabam por ser uma caixa preta em que o mais certo é irem para o lixo. Quantos dos meus computadores já foram para o lixo... Sei lá qual a password que usava na altura. E, caso se liguem, estão horas a fazer actualizações e muitas já nem podem ser feitas. Em contrapartida, o papel sobrevive a gerações.
Be., portanto, não quis salvar coisas com que o meu marido não concorda, não tentei trazer coisas que o meu marido se recusa a transportar, não tive que andar a ver infinitos papéis. Hoje nada disso, zero, hoje dia de descanso.
Campo, ar puríssimo, tudo verdinho, tudo a florescer, as árvores com as folhinhas e os frutinhos a despontar, preciosidades, milagres da beleza espontânea, os passarinhos numa alegria e, certamente, a julgar pela quantidade de pinhas roídas, os esquilos também.
Pena foram dois pequenos percalços.
Quando estávamos a chegar, lembrei-me de que me tinha esquecido das chaves. Ainda por cima, trazíamos o carro cheio. Felizmente, no molho de chaves com que ando sempre, tenho uma chave da casa. Mas não do portão... Então o meu marido teve que saltar a vedação. Receei que se espetasse todo nos espigões ou que se espetasse no chão ao saltar... mas vá lá que não. Sobreviveu. Claro que o cão estava maluco com esta dinâmica, saltava, ladrava. Não percebia. Eu, do lado de fora, a agarrá-lo e o dono a saltar o muro.
Conseguiu entrar em casa mas agora -- desde que, há uns anos, assaltaram o quintal e levaram mesa e cadeiras e bancos grandes e artesanais de Monchique -- temos um cabo e cadeado no portão... e em casa não encontrámos nenhum duplicado da chave do cadeado.
Então o meu marido foi abrir o portão lá de baixo, ao fundo, longe da casa, e entrámos por lá. Mas como o carro não consegue chegar ao pé de casa quando se vem lá de baixo, passei as coisas pela vedação, cá em cima, ao meu marido. Um contratempo.
E este foi o primeiro percalço.
O segundo foi um pouco pior. Fui abrir as janelas da parte mais antiga da casa. Tem uns degraus em pedra muito altos. Quando vinha a chegar cá a baixo, voltei-me para cima para me certificar de que tinha apagado a luz do quarto lá de cima. E, acto contínuo, julgando que estava no último degrau e que descendo-o ficaria no piso térreo, desci de 'marcha atrás'. Só que não, ainda havia outro e coloquei o pé na sua beira. Como estava de meias e com chinelos, o próprio pé escorregou no chinelo. Conclusão, nesse mesmo segundo levantei voo e caí para trás, desamparada, no piso de pedra. Segunda conclusão: bati com as costas na porta e caí, com toda a força, de rabo e apoiada numa mão. Felizmente, graças à porta, a queda foi amortecida e não bati com a cabeça no chão. Mas agora mal posso estar. Vou ficar com a nádega negra, verde. Receei pela mão mas parece que daí menos mal. Ao cair, acho que bati os maxilares um no outro e, num primeiro momento, doeu-me tanto que receei que daí também viesse algum problema. Felizmente parece que não. Mas ao longo do dia tenho vindo a ficar progressivamente mais dorida.
Contudo, o importante não são os percalços, o importante é que dei descanso à cabeça e ao corpo. Um dia bom, sereno. Estivemos tranquilos, felizes, em comunhão com a natureza. E, ao usar o plural, incluo o nosso inseparável e querido amigo que, no campo, revive as suas raízes ancestrais, encontra a total liberdade de movimentos.
Acho que não há grandes novidades tirando as desgraças de sempre e dessas, tão tenebrosas me parecem, não consigo falar.
O meu dia foi de trabalho e teve aquelas agruras habituais. Na fase em que estamos, uma fase complexa no futuro da empresa, parece que o pior de algumas pessoas se sobrepõe a tudo o resto. Quando se fala em atitudes tóxicas isso não é uma força de expressão, é mesmo uma realidade. Infelizmente, os episódios de stress ou irritação sobrepõem-se aos de motivação e isso desgasta. Mas é uma fase. Logo passa.
Por tudo isto, prefiro falar de momentos de paz e serenidade.
O tempo cinzento, chuvoso, tristonho. Às quatro e tal estava escuro, às cinco e tal estava de noite. Às seis e tal fui andar lá para fora, estava noite cerrada. Tive que ligar a lanterna do telemóvel. Mas andar no campo, entre árvores, com tão fraca iluminação não é coisa fácil. Não se vê nada, nada, nada. Pensei que se um javali ou uma raposa saíssem da gruta ou de alguma toca eu cairia para o lado de susto.
Apesar de tudo, gosto. E chuviscava. Via as gotas a percorrerem os fracos raios de luz do telemóvel. Bonito. Podia ficar ali parada a respirar o ar molhado, a sentir os odores e os mistérios da noite.
A fera tinha ido comigo e, de vez em quando, ouvia-o por perto mas, de noite e ele escuro como é, quase não o consegui ver. A certa altura, chamei por ele. Nada. De repente, ouvi um barulho e um monte de pelo passou a rasar por mim. Estremeci. Era ele numa corrida. Mas não o vi.
Passado um bocado, ouvi o meu marido lá em cima, ao longe, a chamar por mim. Fui na direcção dele. Achava que eu andar por ali às escuras não era boa ideia. Acendeu as luzes todas à volta da casa e que eu andasse por ali. Dei umas três ou quatro voltas e desisti. Não tinha graça.
À hora de almoço tinha feito um pequeno passeio para fotografar cogumelos. É um fenómeno. Não sei a que ritmo se multiplicam aquelas células mas o facto é que, num abrir e fechar de olhos, aparecem e agigantam-se. Belíssimos. Claro que nem todos são de tipo giga. Há os que são delicados, quase como bailarinas, quase comoventes.
Há outros que parecem umas bolinhas brancas, quase pétalas, outros umas ondinhas quase em rendilhado, folhinhos subtis que embelezam os ramos que se fingiam de mortos. Quanto mistério nestas indecifráveis formas de vida.
Outros são carnudos, quase animais saídos da terra, outros parecem algas, são lustrosos, quase parecendo vindos do fundo do mar.
Os mais exóticos são uns em campânula brilhante em amarelo exuberante. Mas hoje vi uns que parecem vidros de Murano, de uma delicadeza translúcida. Serão que são deuses? Ou serão simples anjos? São inexplicáveis, etéreos. Fiquei com vontade de me deixar ficar a olhar para tanta beleza, tão efémera beleza.
E os campos estão verdes, verdes. Muito musgo, macio, veludo, veludo, e muitas ervinhas, muitos líquenes. É bom estar entre o verde da natureza. Fotografo o que posso. O tempo não é muito. E há a chuva. Fiquei com os pés molhados, o cabelo molhado. Mas soube-me tão bem.
Por vezes ocorre-me que se, por uma qualquer fatalidade, eu perdesse o que tenho ou soubesse que, em breve, estaria de partida, talvez me sentisse feliz na mesma, agradecida na mesma. Todos os momentos abençoados que tenho vivido estão inscritos no meu adn de uma forma indelével e são carga suficiente na bateria onde armazeno os meus momentos de felicidade.
E já nem me refiro aos momentos vividos junto àqueles a quem amo e que trago sempre no meu coração. Refiro-me a estas coisas simples como ver como estão grandes e bonitas as arvorezinhas que plantei tão pequeninas, como é especial o círculo de pedras que imaginei e concretizei (tantas vezes carregando ou empurrando pesos que anos mais tarde mostraram o desgaste que provocaram em algumas das articulações que mais se esforçaram), como se tornou tão fértil a terra antes tão árida, como devem ser felizes os pássaros que aqui habitam.
Estava a andar e a pensar como estão bonitos os verdes campos deste meu paraíso. Depois apareceram-me as palavras em inglês e dei por mim a sorrir. The green fields of heaven. Quem conhece o mundo dos negócios e dos investimentos saberá bem o que são os greenfields projects. E na verdade foi isso que, há uns anos, foi esta nossa aventura. Tudo à nossa disposição para daqui fazermos o que quiséssemos.
Imaginei caminhos, imaginei escadinhas de pedra, imaginei o lugar para os cedros, o lugar para os pinheiros, lá em baixo dois eucaliptos, os elegantes ciprestes pelos quais me apaixonei a ladearem os caminhos, a pimenteira toda leveza, as azinheiras que já cá estavam sob a forma de rústicos e informes arbustos e que fomos desbastando até se transformarem nas majestosas árvores de hoje.
Tudo se foi concretizando até que ganhou vida própria. O que agora vejo quando por aqui caminho é, tantas vezes, novo para mim. Devem ter sido sementinhas que voaram de longe e que esta terra acolheu. Tal como os gatinhos, os esquilos ou os pássaros ou os bichos cujas grandes pegadas encontramos e que aqui se acolhem, assim as flores, os cogumelos, os arbustos felizes que por aqui vão construindo a sua vida.
Quando eu era pequena tinha medos. Aliás, tinha um medo. Um senhor medo: um pavor. Tinha medo de ver alguém com alguma doença que me parecesse grave. Era um medo incapacitante. Toda eu tremia por dentro, aterrorizada. Não sei precisar quando nasceu esse medo. Seria quando o meu avô materno morreu? Não sei. Pensava que teria uns três anos quando ele morreu num acidente. Afinal, tinha dois anos, disse-mo a minha mãe. No outro dia, quando morreu a filha do Tony Carreira, a minha mãe disse que nem queria imaginar o choque da família ao receber a notícia. Chorava enquanto falava. Perguntei porque chorava assim. Disse-me que se lembrava de quando recebeu a notícia do acidente do meu avô. Diz que até hoje ainda não recuperou do choque e desgosto. Imagino como terá sido, na altura. Tinha vinte e cinco anos, ela. Tinha uma relação por vezes um pouco indiferente em relação à mãe mas era amicíssima dele. Durante toda a vida presenciei o desgosto pela morte prematura do pai. Foi um acidente traumatizante. A minha avó, que era apaixonada pelo marido e que nesse dia ia ao cinema com ele, teria quarenta e um ou quarenta e dois. Durante anos a vi chorar ao falar do meu avô. Vestiu luto durante quase toda a vida. Na altura esconderam de mim (já o contei muitas vezes) mas devo ter percebido. Penso que é, portanto, provável que tenha nascido aí o meu medo da morte.
Depois foi um acidente grave que aconteceu ao irmão da namorada de um dos meus tios, aquela que veio a casar com ele e de quem eu ainda sinto muitas saudades, custando-me, por vezes, até a acreditar que já se tenha ido, tão alegre era e tão saudável parecia. Ficou paraplégico, esse irmão dela, o mais novo de cinco irmãos. E eu, que o conhecia bem, um jovem simpático e tímido, ao ver a consternação de toda a gente, dos meus pais, dos meus avós, dos meus dois tios, jovens como ele, fiquei soterrada pela dor que sentia em toda a gente. Esteve internado durante muito tempo. Eu desejava que ele não regressasse, antevendo já o terror que nasceria da proximidade. Lá por casa, sabendo-me muito sensível a esses sofrimentos, escondiam de mim, falavam por meias palavras ou em voz baixa. Eu ouvia, pressentia, adivinhava. Os pais dessa que viria a ser minha tia, face ao estado em que tinha ficado o filho, tiveram que mudar de casa. Era uma casa térrea que ficava na mesma rua que a escola infantil em que eu andava. E eu, a partir daí, passei a ter medo de ir para aquele lado do recreio com pavor de o ver ou de me aperceber que alguma coisa de grave estava a acontecer. Mas devia perceber que, se falasse neste meu terror, preocuparia os meus pais. Por isso, calava-o, escondia-o.
Depois foi o pai de uma colega de escola, uma a casa de quem eu ia muito até porque, por coincidência, também morava perto da escola. Além disso, ele era colega do meu pai. Eu percebia que se passava alguma coisa de grave e morria de medo. Nunca mais lá fui a casa, para desgosto da minha colega. Nem falava com ela na doença do pai com medo de descobrir que a morte rondava a casa. Quando ele morreu, a minha vontade era não ir à escola. Fui mas nem olhava para a rua, aturdida de pavor. E quando ela regressou à escola nunca falei na morte do pai com medo de saber pormenores e com uma pena imensa por ela já não ter pai e porque tinha ouvido dizer que ele estava muito magro, irreconhecível, e que tinha muitas dores.
Durante anos íamos passear e fazer compras à Baixa, usando um transporte público que era usado por quem também ia para a 'Palhavã', o IPO. O pavor que eu sentia, o terror que me trucidava as entranhas só eu sei. Se via alguém com pensos, ligaduras ou ar de doente quase morria de medo. Mas escondia-o. Tinha medo de preocupar os meus pais. Penso que eles perceberam pois tenho ideia que tentavam que eu compreendesse que não tinha mal nenhum. Mas era mais forte que eu.
Feridas, chagas, sofrimentos terminais, tudo isso sempre me aterrorizou. Mas só nos outros. Penso que, no fundo, sobretudo, tinha medo de deixar transparecer o meu medo e que as outras pessoas se sentissem ainda piores por verem os cuidados e medos que me inspiravam. E a verdade é que penso que isso ainda subsiste em mim, embora mais controlado.
Comigo, no entanto, não existe esse medo. Em mim, suporto relativamente bem a dor física, tenho uma certa coragem e desprendimento em relação a mim própria.
Já o contei. Desculpem que me repita. Quando era pequena, talvez três anos, parti uma clavícula. Estava em casa sozinha com o meu avô paterno. Gostava de me pôr de joelhos em cima de um banco que havia na cozinha e de me balouçar lá em cima. Ninguém queria que eu fizesse isso mas eu gostava de pôr o banco em dois pés e de o inclinar para ver até onde conseguia equilibrá-lo. Os meus pais e a minha avó agarravam-me, zangavam-se. Mas o meu avô, muito meu amigo e muito condescendente, tinha dificuldade em zangar-se. E, naquele dia, o banco virou-se, eu caí e, ao contrário do que costumava acontecer, chorei muito. O meu avô percebeu logo que alguma coisa se passava e mandou chamar o meu pai que estava a trabalhar. Quando o meu pai chegou, lembro-me bem, eu estava na cama do quarto ao lado do quarto dos meus avós e estava a chorar. O meu pai vinha assustado e ao tentar perceber o que se passava deve ter-me mexido no braço ou deve ter visto, através da pele, que o osso estava partido. E eu vi o meu avô também assustado e a declarar-se culpado, e o meu pai, aflito, quase a chorar. Então, para os descansar, disse que já não me doía e fiz de tudo para não chorar. Fui de imediato levada ao médico que, à vista, percebeu logo o que se passava. Tinham-me pegado ao colo e puseram-me numa marquesa que me lembro como sendo muito alta mas que, se calhar, era normal. Sei que o médico disse que ia, com as mãos, endireitar os ossos, alinhando as duas partes. Avisou que ia doer e que eu tinha que ser corajosa. E fui. Lembro-me bem. Doeu-me muito. Mas não chorei. Os meus pais sim. O médico ficou espantado com a coragem daquela criança; e eu hoje espanto-me com isto.
Toda a vida fiz de tudo para me mostrar corajosa para não assustar os outros.
Corria muito, descia a correr por veredas, voava pelo campo em descidas acentuadas, subia muros e árvores, brincava muito, caía muito, esfolava-me toda. Para não assustar os outros, não chorava. Tenho os joelhos com marcas, tamanhos os ferimentos que fiz. Por vezes, infectavam. Os meus pais desinfectavam, muitas vezes com tintura de iodo, que me ardia e magoava muito. Lembro-me, em especial, já andava na primária, de um ferimento profundo que fiz num dos joelhos. Estava ainda a cicatrizar, voltei a cair, entrou areia. Infectou, já tinha pus. Pedi, então, ao filho de uma vizinha da minha avó, um recém adolescente, que tratasse de mim para não preocupar nem a minha avó nem os meus pais. Ainda me lembro: eu sentada num muro, ele com um pauzinho a retirar os grãos de areia da carne viva. O que me doía... Depois ele foi a casa buscar mercurocromo. Quando a minha mãe viu o estado em que aquilo estava, ficou toda zangada. Eu não me queixava. Por causa disso, não tive tétano por um triz, tendo que ser levada, a meio da noite, de urgência, para o hospital, onde, a custo, me espetaram uma seringa na barriga.
E de tal maneira me habituei a esconder as minhas dores que acabei mesmo por me tornar a modos que estoica em relação a mim própria.
Em contrapartida, mantive-me medrosa em relação aos outros. Por exemplo, com os meus filhos sempre fui de uma fragilidade total, por vezes absurda. Mal tinham alguma coisa, logo eu ficava num estado de nervos que frequentemente não era proporcional ao mal que os assolava. Penso que notoriamente vinha desses tempos primordiais em que o medo me estrangulava. Mas nem era preciso ser alguma coisa de especial: bastava uma coisinha. Lembro-me, por exemplo, do que eu sofria quando eles tinham os dentes quase a cair. Nunca fui capaz de os ajudar a tirá-los. Uma vez a minha filha tinha um dente preso por um fio. Já nem conseguia comer. Estávamos numas termas (um tempo abençoado, esse). E estávamos a almoçar no restaurante de lá. Com o dente preso por um fio de carne, fomos as duas ao quarto a ver se conseguíamos resolver aquilo. Mas qual quê... Só a perspetiva de poder magoá-la me deixava transida. Ela a querer que eu puxasse e eu aflita. Pior: já a sentir-me mal, quase a desmaiar. A miúda, pequena, a tranquilizar-me e a incentivar-me e eu está quieto. Tive que me sentar na cama e ela, corajosa, ao espelho, teve que resolver, sozinha, o assunto. Às vezes ainda fala disso. Uma vez foi o meu filho. Também caiu de um banco na cozinha, a mesma coisa que eu. Só que se magoou num dedo, cortou-se. O meu pânico ao ver como ele tinha o dedo, ao pensar como lhe devia doer, a minha aflição quase despropositada. Felizmente não sou de exteriorizar senão ainda mais ridículo ficaria. Fico transida, sem falar, simplesmente num temor enorme.
E vinha para escrever sobre outra coisa e, afinal, distraí-me e acabei por me perder. Não era de nada disto que eu vinha para falar. Ia contar que, à ida para o campo, íamos a ouvir o Jaime Nogueira Pinto e o Pedro Tadeu a falarem da pandemia e das pestes ao longo da história, tema do último livro do Jaime Nogueira Pinto. E falavam de como isto vai mudar a vida e o mundo e do medo com que aprenderemos a viver porque primeiro que esta se extinga muito tempo decorrerá e, a seguir a esta, outra pandemia virá. Aprenderemos a viver com medo do invisível, do mal que nos pode chegar através de um filho, de um neto, de um amigo. E falou de como é desolador o estado da baixa de Lisboa, muitas lojas fechadas, provavelmente definitivamente fechadas. E eu pensei como deve ser frustrante e triste para as pessoas mais velhas que poderiam viver os seus últimos anos mais tranquilamente e agora a terem que andar de máscara, sem a ternura de um beijo ou abraço, longe da companhia dos seus.
À tarde, ao receber o telefonema de um amigo, soube que uns outros tinham tido covid e, mais estranho, soube que uma delas, que teve covid há quatro meses, semanas de sintomas e testes positivos, agora, num teste serológico, soube que não está imune. Foi a outro lugar fazer o mesmo teste, convencida que o primeiro estava errado, e obteve a confirmação: está como se não tivesse tido covid. E fiquei a pensar que esta porcaria desta doença, de facto, tira o tapete a toda a gente. Parece não seguir um padrão e isso mais difícil se torna de gerir. Uma roleta russa.
------------------------------------------------
Mas isto das pandemias e dos medos até era para ser de passagem pois a minha ideia era mesmo falar da maravilha dos verdes in heaven. Do perfume do campo. Dos passarinhos e dos seus alegres e inocentes cânticos. Dos cogumelos. E da gata.
Num blog, a escrita deve ser contida, parca. E eu, sabendo disso, esqueço-me e escrevo desabaladamente, esquecendo-me de que pouca gente deverá ter paciência para estes longos testamentos. Por isso, agora que vejo o comprimento do que já escrevi, não vou poder alongar-me a descrever o encantamento em que por ali andei. Apanhei laranjas e tangerinas, comi algumas, fotografei tudo o que vi, vagueei, maravilhei-me.
A quantidade e variedade de cogumelos continua a deixar-me espantada. Hoje até com uns redondos e peludos, coisa nunca vista, me deparei. Outros, umas bolinhas acastanhadas, compactas, superfície também a querer dar-se ares de felpuda. Outros cor de laranja, ondulados e como se de borracha, outros translúcidos, outro grande, quase azul. Uns grandes, outros minúsculos. Outros aos folhos verdes, como se de bordado inglês às palas. Não sei que terra mágica virou o meu querido e abençoado heaven para dele saírem seres tão extraordinários. Nem sei o significado disto, se é que tem significado. Mas será que, nas grutas, também vivem animais assim, às cores, seres nunca sequer imaginados? Teria graça.
E, de novo, eu a levitar por ali, silenciosa, em estado de êxtase, e ela, esfíngica, a observar-me.
Aproximei-me, quase emocionada por ela estar ali, parada, a ver-me. Deixou-se estar. Fui-me aproximando, falando com ela. E ela a ver-me. Até que, sem querer desliguei a máquina e, ao voltar a ligar, o som de arranque a fez ir-se embora. É esquiva. Mas sinto-a como um ser superior.
___________________________________________
Como é bom de ver, as fotografias foram feitas in heavene acompanham The Lullaby Project pelas mãos de Catrin Finch & Seckou Keita
Dias de calor, de tranquilidade. Ontem lavei cortinados, lavei vidros, lavei um tapetão de arraiolos. Hoje não, hoje foram reuniões de seguida, não houve intervalos para limpezas. Talvez esta quarta-feira consiga. Mas tenho várias outras coisas para fazer, para além de trabalhar: tenho telefonemas, agendamentos. Contudo, por onde passo vou diagnosticando: devia varrer ali ao fundo, devia lavar o outro tapete, devia pôr reparador de móveis ali, devia fazer uma boneca e limpar teias de aranha na clarabóia. Só que, entre isto e aquilo, o tempo acaba por não chegar. Amanhã, para além do resto, quero escrever um mail. Mas tem que ser coisa bem feita, devidamente objectiva e sintética. Não pode ser feita no meio de uma ofensiva com a esfregona ou enquanto o caldo não levanta fervura.
Com isto, por incrível que possa parecer, ainda não peguei no livro novo. Não sei que mistério é este: dantes parece que tinha tempo para tudo. Agora não tenho tempo para nada. O meu marido, que agora partilha o mesmo espaço de trabalho que eu, diz: tempo demais ao telefone. Talvez. Mas se me ligam e falam, falam, falam, ia eu ser deselegante e inventar desculpa esfarrapada para atalhar a conversa? Não, não sou capaz. Não sou de inventar desculpa, dizer que me estão a chamar. Nunca fui disso. Aguento firme só porque não sou capaz de forjar argumento para interromper. Problema meu, estou certa. Problema meu não ser capaz de omitir opinião, de usar disfarce. Não consigo dizer outra coisa que não a verdade, ou, pelo menos, aquilo que o meu entendimento considera verdade. Se acho que é preto e que está frio não consigo fazer de conta que é cinzento e que até está morninho. Colega que me conhece muito bem tenta aconselhar-me, dizendo-me frequentemente: não precisa de dizer tudo o que pensa, deixe estar. Outras vezes, lembra-me: ter razão antes de tempo é, geralmente, igual a não ter razão. E eu pergunto-lhe: 'Mas, acompanhando as minhas opiniões, os meus 'desalinhamentos', as incompreensões de que, volta e meia, sou vítima, a posteriori o que tem a dizer das minhas razões?' E ele diz: 'Então, já sabe, reconheço que tem geralmente razão. Mas como a tem antes dos outros lá chegarem, passa por não ter'. Acresce um outro defeito muito meu: como quero evitar que os outros se estampem, insisto nos alertas, esfarrapo-me para que se previnam contra males que antecipo. E, afinal, as pessoas não querem ser alertadas, querem é bater com a cabeça na parede. Ele diz, para me consolar: 'Mas já sabe que é assim, já devia estar habituada'. Pois. Não estou. Ainda não aprendi a ficar calada, ainda não aprendi a desinteressar-me dos problemas que sei que vão acontecer. E, quando acontecem, fico doente, furiosa comigo mesmo por não ter sido capaz de evitá-los, por não ter sabido ser persuasiva, por ter sido tão directa que fiz com que as pessoas me julgassem alienada.
Já vi empresas irem pelo cano, prejuízos de milhões, quando anos antes previ que ia acontecer e arduamente batalhei para que se evitasse o avolumar do prejuízo, alertando, isolada, para que era um fiasco quando todos falavam em sucesso -- e, por isso, fui muitas vezes chamada a atenção por ser desalinhada. Tal como já vi gente cair em desgraça e ser apontada e corrida como um flop quando desde há anos vinha alertando para que aquilo ali era era um bluff. Mas o meu amigo tem razão: serve para quê a gente ver antes dos outros ou vermos o que os outros não querem ver... se a verdade é mesmo esta: se os outros não querem ver antes de ser impossível não ver, para quê insistir? O ensaio sobre a cegueira tem muitos casos de estudo.
Ocorre-me, então, que, se calhar, ainda não conquistei aquele calo que endurece a alma, que a envolve, a adormece, a impede de se manifestar. Aquela indiferença. Aquele deixar andar. Ver e ficar calada, na minha. Pensar: se querem estrepar-se pois que se estrepem. Fingir. Fazer de conta que não vejo. Alinhar-me. Ser figurante num filme que sei que não vai acabar bem mas, até que acabe, fazer de conta que acredito que vai ter final feliz.
Falta-me, na volta, atingir aquele grau de maturidade que impede a malta de fazer ondas, que faz com que se fique de bico caladinho haja o que houver.
E, para me ajudar a perceber em que etapa de maturidade me encontro, eis que o meu amigo algoritmo, sem que qualquer indício da minha curiosidade eu lhe tivesse dado, me aparece a sugerir um teste para descobrir a minha idade mental. Nem mais. Acreditem ou não, liguei o computador, abri o Youtube e cá estava este vídeo. Não resisti. Pensei: tenho ideia que já uma vez me tinha dado que sou pouco mais que uma teenager. Mas hoje pensei que, se calhar, já estou é para lá do prazo de validade, demente, cheché, já vejo mas é as coisas deturpadas. Talvez vista cansada, espírito derreado, cabeça esvaída. Sei lá.
Mas não: idade mental entre 21 e 35 anos.
Segundo ali se diz: estou a caminho de consolidar a minha personalidade adulta, estou a descobrir o que é bom para mim, sou séria e responsável quando devo sê-lo; mas também sei divertir-me!
E toda esta conversa apesar de ter sérias dúvidas a propósito do rigor de tudo isto... Mas sei lá. Os mais 'sérios', 'conceituados' e caros assessments não são baseados em perguntas por vezes também tão insólitas...?
Por isso, aqui está o teste. Façam-no, avaliem o que dá para o vosso caso, ajuízem. e, se for caso disso, esqueçam.
---------------------------------------
Mas também pode dar-se o caso de que esta conversa mais psi não seja bem a vossa praia e que prefiram coisa mais concreta e útil. E, assim sendo, aqui vai a segunda sugestão do camarada algoritmo, um vídeo daqueles que vejo com atenção do princípio ao fim pois descubro coisas em que nunca tinha reparado e que me parecem de inegável utilidade.
Saí tarde à hora de almoço e, portanto, atrasada face à hora combinada. Ainda por cima, tinham-me chamado para o que seria suposto ser uma simples rapidinha pelo que nem tive pretexto para ir buscar o telemóvel. Só que, afinal, os preliminares nunca mais acabavam e o que se seguiu foi mais do que tântrico. Ou seja, não tive como avisar que ia chegar atrasada.
Ao fim de todo este tempo, ainda não ultrapassei isto: fico enervada quando estou atrasada. Detesto chegar atrasada. Das poucas coisas que verdadeiramente me enervam em profundidade é isto: estar agarrada numa reunião sabendo que vou chegar atrasada à seguinte ou estar agarrada, e sem escapatória, no trânsito sabendo que não vou conseguir chegar a horas.
Portanto, cheguei atrasada. Quem por mim esperava, sem ter sido avisado, já se impacientava quando, chegada ao carro, avisei o óbvio: a hora combinada já era.
Tivémos, pois, que almoçar sem muitas delongas. Ele tinha horas para se ir embora. E eu também mas com uma pequena folga, coisa de uns dez minutos. Acontece que, quando ia no carro, tinha ouvido dizer que era Dia do Livro.
Não ligo a esta coisa dos Dias de. Mas não ligo quando não me convém ou quando não estou nem aí. No caso vertente, pressenti logo que teria que abrir mais uma excepção. E pensei: deviam era fazer também o Dia dos Perfumes. Ou o Dia dos Brincos. Ou o Dia dos Gelados. A ver se não ligava a todos os Dias de, ai não que não.
E, assim sendo, quando ele se despediu a correr, perguntando-me se eu também não ia, respondi que, sendo Dia do Livro, teria que ir fazer as honras.
E é destas coisas que nem vale a pena tentar iludir: a gente sabe quando tem a predisposição no corpo. A gente quer, genuinamente, não ceder à tentação mas a gente sente, nessas alturas, que não é genuinamente coisa nenhuma, que a gente só está é à espera do pretexto e que, a bem dizer, nem é preciso pretexto nenhum, é mesmo só surgir a oportunidade.
Logo à entrada, a estante corrida, verso e reverso, de livros cheios de descontos, e descontos upa-upa. Pensei: cuidado, não vá já os teres. É que se é para pecar pois que o pecado venha com travo a coisa nova, a aventura e descoberta. Nada de coisa datada, coisa já por aí muito batida, coisa que talvez já tenha passado pelas minhas mãos. Não, se é para pecar pois que seja com coisinha a cheirar a novo, fora da zona de conforto, desconhecido, blind date.
Portanto, passei a zona dos déjà-vu e avancei resoluta para as novidades.
E aí foi a emoção inversa do stress-mau, aí foi aquele fremitozinho bom, tremurinha com cheirinho a desafio, com apelo irrecusável: pega-me, espreita-me, toma-me para ti.
Em situações assim nada a fazer, não me faço rogada, entrego-me ao prazer do desfrute. Peguei no primeiro, virei-o e revirei-o, abri-o e sondei as suas entranhas. Agradou-me. Teve que ser.
E assim foi, uma e outra e outra vez. Pensei: se é para pecar, se é para ceder à tentação, pois que a festa seja rija, sem pudor, sem arrependimento. Não com um que só um, em dias assim, é pouco. Dois. E que venha mais um que só dois é pouco.
Foram seis.
Depois, quando vinha a sair, tive um rebate de consciência e, para me consolar, pensei: não são todos para mim. Um é para ele.O magala. Salvo seja, claro -- porque não é magala, é oficial do exército. O autor, bem entendido. Mas não é o autor que é presente meu para ele, é a obra.
Mas os outros cinco são para mim -- embora, não sendo eu egoísta, tenha todo o prazer em partilhá-los. Um luxo. Depois, no carro, ia a pensar: não foi só por ser Dia do Livro, foi mas foi já coisa do 25 de Abril, para festejar a liberdade. E venham mais cinco. Venham mais cinco/ Duma assentada.
Quando cheguei aqui à sala com eles todos pelo braço, o meu marido olhou e riu-se: Deste-lhe! E eu já querendo ser perdoada mas, ainda, sem qualquer pudor pelo mal feito: Um é para ti.
Depois peguei na máquina fotográfica e ele voltou a rir-se: Não me digas que vais fotografá-los... Claro que fui, orgia que é orgia tem que ficar registada.
Com ínfimos excertos escolhidos completamente à toa (e ansiando pelo dia em que vou ter tempo para lê-los todos, de lisinho, na boazinha)
Presente para ele:
Que fazer contigo, pá? -- Carlos Vale Ferraz
Longe das vistas e das censuras da família católica e dos colegas da Opus Dei, Maria del Tosario cortara os medos dos pecados e das más-línguas; benzia-se antes de abrir as pernas -- que se joda Rosario! -- e adradecia o prazer no final -- gracias, Jesús!
Presentes para mim:
Carne crua -- Rubem Fonseca
Um dia entrou no armazém uma moça muito linda, perfeita, seios pequenos, bunda durinha, pernas grossas, mas não muito. Seu Manoel a atendeu e u fiquei olhando, excitado; foi uma espécie de paixão à primeira vista.
Dicionário sentimental do adultério -- Filipa Melo
Pense como um jogador de xadrez: com duas a três jogadas de avanço. Há quem diga que o adultério é uma forma de treinar não só o corpo mas também a existência.
Pedra de afiar livros e outras histórias de um livreiro -- Jaime Bulhosa
Vamos organizar no próximo mês uma grande festa de caridade. Contamos com as senhoras para nos levarem todos os objectos inúteis que tenham em casa: livros, vestuário, bugigangas e também, naturalmente, os maridos.
No impudor do olhar -- Octave Lothar
Assim a pele feminina, tapete mágico inesgotável, será acariciada, beliscada, mordida, fustigada, por forma a que se erga em voo pelo céu do desejo e nesse voo arraste quem quer que a ponha à prova, libertando os excessos e os prodígios nela represados.
Correio para mulheres -- Clarice Lispector
No entanto, quantos maridos poderiam evitar situações embaraçosas e desagradáveis se ouvissem mais os conselhos das esposas?Conselho é aquilo que não aceitamos porque desejamos experiência; e experiência é o que nos resta, depois de perdermos tudo o mais.
Dadas as presentes circunstâncias -- o post foi longo e o anterior também um bocadinho e madruguei e a alvorada vai voltar a ser prematura e a noite de 24 vai ser longa -- não consigo manter-me acordada pelo tempo de que necessitaria para responder aos comentários. Por isso, aceitem as minhas desculpas. Mas saibam que os li e que gostei e que... (não posso dizer...) e que apenas não tenho bateria para mais conversa.
Quando para lá começámos a ir, pedras e mato rasteiro, terreno aberto, acontecia encontramos por lá outras pessoas.
Uma vez, estava eu repimpada num cadeirão, completamente à vontade e convencida que estávamos ali no maior isolamento, quando passaram umas pessoas junto à janela, olhando para dentro e dizendo que aquilo ali era muito bonito. Achei um abuso. Sou reservada na minha intimidade e, quando estou dentro de casa, não gosto que espreitem lá para dentro. A questão dos caçadores de que já antes aqui falei, acelerou a decisão de vedarmos parte do terreno.
Mas, nessa altura em que ainda era aberto, encontrávamos por lá, por vezes, uma mulher que, na altura, eu achava já de certa idade e que, a esta distância, me interrogo se não teria a idade que tenho hoje. Andava a apanhar ervas para tratamentos. Subia lá da aldeia mas não vinha pela estrada, vinha pelas terras e, do que percebi, seria quase a farmacêutica ou a curandeira do lugar. Era uma mulher interessante mas o que retive era a conversa sábia e sóbria. Guardo dela a imagem de andar com um chapéu de palha e sempre curvada mas, penso agora, via-a assim porque, justamente, andava a escolher as ervas. Dizia: isto faz bem à bexiga, isto faz bem ao fígado. Perguntava se não nos importávamos que por ali andasse e eu não me importava porque ela era discreta, silenciosa e eu gostava de a ouvir.
A minha mãe, que conhece também as propriedades das plantas, quando lá ia reconhecia muitas plantas e também sabia a que faziam bem. Quando lhe contava da outra, ela não achava bem, como se a mulher andasse a retirar de lá produtos de que um dia ainda pudéssemos precisar para nos tratarmos.
Para tentar adquirir algum conhecimento, comprei alguns livros de botânica mas nunca me senti com certezas para, a partir das imagens dos livros, me afoitar a usar plantas para tratamentos. Receio interpretar mal e ainda arranjar algum trinta-e-um, usando alguma planta traiçoeira que, afinal, seja venenosa.
De lá, uso alecrim, uso tomilho, orégãos e nada mais. E, claro, louro. E a minha comidinha fica saborosa, cheirosa, sabendo aos perfumes do meu querido heaven.
Mas tenho muita vontade de aprender mesmo o que são todas aquelas plantas que por lá proliferam. O meu amor por aquele pedaço de terra é tão grande que eu adoraria saber usar, de forma inteligente, tudo o que dela nasce.
Lembro-me das aulas de Botânica no liceu. Detestava. Tudo o que implicasse decorar era para mim um pesadelo e, ou porque a matéria era mesmo assim ou porque não tive professores que soubessem fazer despertar o meu interesse pela natureza, nunca assimilei nada que tivesse ficado retido. É que nem Botânica nem Mineralogia, nada disso.
O meu dia foi cheio de programas e foi até bom apesar de tudo o que tive que resolver pelo meio. Mas foi cansativo, tudo muito compacto, tudo sempre muito preenchido e a falta de tempo para respirar pelo meio quase me esgota. Mas o almoço foi bom, a companhia boa, o ambiente festivo e alegre, a conversa animada. Não tenho do que me queixar, não tenho mesmo.
Mas é bom chegar a casa, é bom poder estar aqui sossegada, vendo vídeos bonitos, histórias de gente superior, gente das montanhas, dos desertos, das florestas, gente que sabe perceber a natureza. E ouvir música boa, sons puros.
Tenho aqui uns livros bons, palavras elegantes, a felicidade inscrita em pedaços de árvores, e tenho o meu tapete que estou a bordar com lãs sobre juta e é tão bom estar assim, tão bom.
E sábado é outro dia e, se chover, a chuvinha vai saber-me também muito bem. Sou uma pessoa simples.
The Ingenious Botanist in the Mountains of Tajikistan
Lacoste-Lebuis and Plante-Husaruk’s short documentary, The Botanist, is an elegant, meditative portrait of Raïmberdi, his culture, and his life’s work. Raïmberdi descends from a tribe that lived a nomadic lifestyle in a particularly hostile environment. “Therefore, they were completely dependent on the fauna, flora, and climate of the region,” Plante-Husaruk said.
“Old Kyrgyz people knew how to use plants to make herbal remedies for pains and aches,” Raïmberdi says in the film. “I discovered everything about roots, stems, leaves, flowers, etc., and how to use them … Each plant accumulates organic substances its own way.”
........................................
As pinturas são da autoria do coreano Yoo Youngkuk (1916 - 2002)